domingo, 5 de abril de 2020

Mais do mesmo de há 48 anos.

Continuando a mostrar retalhos da nossa vida colectiva de há 48 anos, tantos quanto durou o regime de Salazar e Marcello Caetano, a edição de 8 de Maio de 1972 do jornal A Capital tinha esta primeira página. À guisa de curiosidade deve dizer-se que esta notícia de primeira página era mais grave em significado político do que actualmente dizer que a Direcção Geral de Saúde tem números errados. E no entanto o director do Público e ainda o pau mandado do Diário de Notícias defenderam no outro dia a censura pura e simples deste tipo de notícias.
Em 1972 havia mesmo Censura e os jornalistas sabiam disso. Agora diz que não há...:


Nesta primeira página dá-se conta de um concurso televisivo chamado Jogo do Galo, uma espécie de "Quem quer ser milionário" da actualidade mas que certamente não pagava direitos a uma qualquer entidade estrangeira e era obra da prata da casa.

Lembro-me bem de tal concurso e o fenómeno "Sousa Mendes",  o indivíduo que parecia saber tudo e permanecia no concurso como vencedor, deixando para trás outros competidores.
Na edição do concurso dessa Segunda-Feira, o jornal anunciava que o vencedor perderia por se enganar na nacionalidade de Edward Albee.
Este Sousa Mendes tornara-se um pequeno ídolo de circunstância entre estudantes e não só e o programa de tv era visto como um espectáculo para ver até onde iria o indivíduo nas perguntas acertadas. Melhor que o futebol falado que agora passava nesses dias de segunda-feira...

Lembro-me de ter comprado este jornal vespertino por causa dessa notícia.
Na mesma página aparece a publicidade encapotada a um disco de Samuel, o "baladeiro" de esquerda, descoberto por José Afonso e que o acompanhava e "em cuja linha se situa". Ora as pessoas sabiam qual era a linha de José Afonso: comunismo esquerdista, neste caso tolerado porque afinal os temas das "baladas" eram de "índole social".  E diziam que havia Censura... e haver, havia mas deixava passar isto e muitas outras coisas; Na então União Soviética este tipo de notícia seria impossível, mas a lógica destas coisas nunca atingiu estas inteligências:


A questão dos títulos e redacção dos mesmos com a inovação jornalística da subtracção de artigos definidos e indefinidos,  dava azo a opiniões de leitores.
Um deles escrevia que "o artigo é absolutamente dispensável quando não tenha um sentido demonstrativo".
Numa coluna fixa o socialista avant la lettre Artur Portela Filho, verdugo do carácter do futuro presidente da República, nas páginas da Opção de 1976, escrevia a sua visão da "feira das vaidades":


Nas notícias do dia dava-se conta de um fait-divers que hoje em dia é simplesmente caso sem relevo jornalístico e com muito relevo político-económico e até social: os concursos de obras públicas nas autarquias e com a indicação de propostas concretas, no caso na autarquia do Barreiro. Na da Maia dava-se conta das contas do ano de 1971: saldo positivo. Quantas autarquias actualmente em Portugal podem mostrar notícias como estas?

Quanto a concursos seria interessante saber quem ganhou o promovido pela "secretaria da Juventude" e como funcionavam tais concursos.

Em complemento do jornal de Segunda-Feira publicava-se o suplemento Quadradinhos, iniciado em finais de 1971 e que ia na 2º série.

Fica aqui o exemplar do nº 31 de 2 de Outubro de 1972, por não encontrar o número daquele dia:


Este suplemento dedicado a histórias aos quadradinhos na sua maioria originárias de países anglo-saxónicos e com pouca qualidade gráfica, em bicromia terá sido organizado por Adolfo Simões Müller, o fundador do Cavaleiro Andante e outras revistas do género nas décadas de 50 e 60.

Mas isso é outra história, com outros quadradinhos de recortes.

Este jornal A Capital teve este começo

Apareceu na tarde de 21 de fevereiro de 1968, por iniciativa de um grupo de 10 jornalistas, que criou a empresa Sociedade Gráfica de A Capital, SARL. Começou por ser dirigida por Norberto Lopes e Mário Neves, que evocaram o legado do saudoso “diário republicano da noite”, e afirmaram a sua independência política e financeira. Extinguiu-se em 30 de julho de 2005. Em Abril de 1974, estava sedeada na rua Joaquim António de Aguiar. Parte do seu capital pertencia agora à banca. A nova direção, confiada dois meses antes a Henrique Martins de Carvalho, coadjuvado por José Júlio Gonçalves, fora mandatada para alinhar (politicamente) o discurso produzido por alguns redatores.


E o jornal formou-se com um desiderato que não se cumpriu...

Com o BESCL à cabeça, um grupo de empresas, entre as quais a CUF, a Tabaqueira, a Sociedade Central de Cervejas e a SOREL, comprou, então, o jornal. E Queiroz Pereira, detentor da maioria do capital, não demorou a comunicar ao chefe e ao chefe adjunto de Redacção, Rodolfo Iriarte e Manuel Maria Beça Múrias, o que pretendia deles. Num breve encontro efectuado na sede da Cimianto, de que também era administrador, deixou os seus interlocutores perplexos, ao afirmar: «Sou um defensor da liberdade de expressão do pensamento. Por isso, n’A Capital, podem publicar o que entenderem. Só não consinto que hostilizem o Governo, a sua política ultramarina, a Igreja, as Forças Armadas e o BESCL, pois não comprei o jornal para vocês me prejudicarem os negócios.» Mas o tiro saiu-lhes pela culatra, a Queiroz Pereira e a Marcelo Caetano. Por duas razões fundamentais: a resistência dos jornalistas, liderados por uma chefia de Redacção não alinhada com o poder, e as nomeações de um director dialogante, Manuel José Homem de Melo, e de um presidente do conselho de administração tecnocrata, Luís Fontoura, mais empenhado em fazer subir as receitas das vendas e da publicidade do que em servir o marcelismo.

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