sábado, 4 de abril de 2020

O ar do tempo de há 48 anos...

Como era a nossa vida colectiva em 1972, ou seja, dois anos antes do 25 de  Abril de 1974? Há uma ideia generalizada veiculada pelos órgãos de informação existentes e dos "historiadores" encartados no regime para apresentar a sociedade desse tempo como atrasada, obscurantista e retrógrada em que a ausência de democracia era a causa directa e exclusiva de tudo isso.

A juventude educada no actual sistema de ensino se não procurar informação alternativa fica instruída pelos programas, leituras e noções básicas ensinadas, acerca do anterior regime como fascista e medonho.

Dificilmente aparece alguém que contraponha argumentos ou defenda minimamente que seja, tal regime sempre apresentado em tons e cores políticas como a origem do mal e associado à figura de Salazar, o símbolo máximo do regime, que aliás desapareceu da liderança política quase meia dúzia de anos antes do mesmo cair por força do golpe militar.

Que modo poderá haver para mostrar que tal ideologia milita sempre à esquerda, comunista e socialista e procura deslegitimar o antigo regime, apontando-lhe todos os defeitos que na verdade não poderiam existir por força da lógica mais simples?

Há um modo simples e que me agrada mostrar porque toda a gente pode ver, se tiver aptidão para isso: publicar o que se dava notícia nesse tempo e que revela, claramente e não apenas simbolicamente, como era efectivamente a sociedade de todos os dias, a normal e que até incluía pessoas com aquela ideologia de esquerda que de repente se revelou como tal, nos meses a seguir ao golpe de 25 de Abril.

Havia então um jornal que se assemelhava ao actual Correio da Manhã e que tinha o título de A Capital.

Na sua edição de 28 de Maio de 1972, 46 anos depois do aparecimento do Estado Novo, algumas das notícias relevantes do dia eram estas, para se aquilatar o que era a vida social da época.


O género de notícias no "dia-a-dia" revela que em Portugal havia nessa altura um modo de viver "habitual" que não se distinguia do que surgiu depois, em democracia, a não ser como exemplo do que era melhor do que veio a ser.

A Fundação Gulbenkian financiava cursos de "biologia moderna"; a TAP comemorava a chegada do segundo 747-B; cursos de "problemas de política e estratégia de empresas"; cursos de marketing destinados a profissionais de seguros; reuniões em Portugal de entidades europeias, no caso de Radiodifusão; concurso público para a direcção clínica de um hospital psiquiátrico, certamente muito longe da tipologia dos actuais concursos; cerimónia de juramento de bandeira de soldados-recrutas e um curso de organização e simplificação do trabalho administrativo; um congresso dos advogados; um lote de acções detidas pelo Estado na Companhia de Celulose que iriam ser vendidas em oferta pública; houve três centenas de totalistas no totobola e dois feridos em acidentes de viação.
Na página seguinte, dava-se conta da feira do livro e da falta de catálogos, mas havia uma série de anúncios a livrarias; o vinho do Porto continuava a ser um produto de exportação segura e os preços de certos géneros alimentícios que não paravam de subir. E o fait-divers policial, num relato que já não se faz nos dias de hoje.

A análise semiótica destes acontecimentos noticiados, com o contexto da época, permitiria mesmo cheirar o ar desse tempo.

Duvido que haja muita gente que o faça. Ou queira fazer.

Além do mais, a notícia sobre as "manifestações contra a presença branca em África" permite equacionar todo o problema do racismo e o modo como se encara tal fenómeno actualmente, mas escolas, nas leis e na ideologia corrente. Só existe racismo de branco contra pretos, actualmente e há gente que defende tal ideia academicamente. Ensina e exige tal conhecimento como norma.

Nesse jornal, em 17 de Outubro de 1971, dava-se conta de eleições autárquicas nas freguesias do país e vislumbra-se o modo como ocorriam: "os chefes de família" elegiam os representantes administrativos da população.  O conceito de "chefe de família" foi ultrapassado nem sequer há muitos anos porque os costumes não se desfazem por lei, assim da noite para o dia. 
A democracia exercia-se em modo limitado, é certo, mas eleitoralmente e havia participação popular alargada, nesse nível.

Contudo, fica o modo como era entendido até pelos  indivíduos que figuram na lista ao lado, como sendo os jornalistas e colaboradores do jornal, nessa época.

Cerca de quatro anos depois disso, alguns deles fundaram O Jornal, órgão de informação da esquerda moderada que apoiou o MFA e sustentou o socialismo que temos. Até hoje...


Numa notícia mais pequena há a menção a uma reunião entre autoridades ferroviárias peninsulares para, além do mais, concatenarem esforços para alcançar, por exemplo, as "vias renovadas, a alta velocidade" etc.

Alguém tem alguma dúvida que se tivéssemos continuado sem rupturas políticas e económicas revolucionárias e com a "evolução na continuidade" que nos iria fatalmente conduzir a uma democracia mais europeia, teríamos já um TGV, AVE, há muitos anos?

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