sábado, 11 de abril de 2020

Mata-Bicho 31: o que a Coreia nos pode ensinar

As revistas francesas desta semana que passa dedicam grande espaço ao problema do bicho mau.

A Le Point destaca o modo como os coreanos lidaram com o problema e recolhe o escrito do representante local que foi entrevistar o responsável pela estratégia de combate ao bicho, professor Lee Jong-koo.
 Sobre os testes, a ideia é que o que conta não são apenas os testes, na sua realização, rapidez e volume mas a localização e isolamento que se pode seguir, após detecção do bicho.

Numa pequena entrevista, o responsável pelas medidas de saúde pública nesse país diz isto:




Na parte final diz assim: "tudo assenta nas autoridades sanitárias e torna-se necessário intervir em todos os domínios, da indústria, transporte, cultura...por isso tudo tem de vir de cima. É mais simples num estado comunista como a China. A Coreia do Sul não funciona assim. Nos países democráticos a mobilização de toda a sociedade é mais difícil. Quando se torna necessário fechar as escolas, os mercados, os transportes comunitários, a única solução está em ser inteiramente transparente. Só assim a resposta será aceite pela população."

Este ensinamento democrático é exemplar e tal não tem sido seguido em Portugal.
Nas últimas semanas toda a informação acerca da evolução do surto repousa nas estatísticas recolhidas no "sistema" controlado pela Direcção-Geral de Saúde. Nos hospitais públicos a informação será centralizada na Administração que proíbe os profissionais que sabem o que se passa e nível local, de falarem aos media, sob pena de procedimentos disciplinares, segundo me disseram.
Não se pode dizer quem está infectado, onde mora e o que se poderá fazer em concreto, ao contrário do que fizeram os coreanos. Por cá temos a lei de protecção de dados, excelente instrumento jacobino para tal controlo efectivo de eventuais danos políticos. Só por causa disso.

Ontem, vários autarcas queixaram-se de uma política de controlo e censura férrea sobre os elementos de facto recolhidos nos hospitais. Não são comunicados a não ser a tal entidade central que depois os divulga à hora de almoço, através daquela senhora simpática, a dr.ª Graça Freitas que já disse coisas sobre o assunto, seguidas do seu contrário, sem alteração de estados de alma.

Por outro lado, a censura é efectiva e não se vê uma linha acerca do tema nos jornais que saem todos os dias.
São estes mesmos órgãos informativos que andam agora a pedinchar ajudas do Estado para sobreviverem à sua manifesta mediocridade e espírito tacanho que se manifesta desde sempre. Alguns, como a SIC, a RTP ou os sucedâneos Expresso, Visão e principalmente o Público participam numa gigantesca campanha de desinformação através da subtil e por vezes clara manipulação ideológica. Não é por acaso que o inenarrável Gusmão do BE apelou à ajuda rápida. Lá saberá porquê...

A democracia em Portugal é ainda muito parecida com a que existia no tempo de Marcello Caetano, relativamente ao modo como os media em geral e o poder político lidam com esta crise. Respeitinho  exagerado, submissão a directivas informais derivadas de tal poder, exercício efectivo de censura em alguns meios de informação se não em todos.
O Público é o pior exemplo desta vergonha pública. A TVI segue logo atrás, com um inenarrável Sérgio Figueiredo a censurar os programas de Ana Leal. E por aí fora. Até o director da Sábado, Eduardo Dâmaso apelou ao "consenso". Enfim...com jornalismo destes estamos como éramos há 50 anos porque pouco ou nada mudou.

Para já não falar do tempo anterior...porque a retenção de informação e controlo censório da mesma seguia um padrão que foi explicado pelo próprio Marcello Caetano numa entrevista alargada que deu a António Alçada Baptista em 1972.

Em tempos já abordei o assunto nestes termos

A China pratica a Censura sem qualquer problema de ética política. Não sendo abertamente um Estado totalitário, controla efectivamente a vida dos seus cidadãos, subtraindo-os ao conhecimento de assuntos que a direcção do Estado entende serem de subtrair por motivos que entendem válidos e sem grandes pruridos, mesmo entre os que defendem o pluralismo informativo.
Em Portugal, no tempo do Estado Novo, havia o mesmo entendimento, censurando-se a publicação de notícias que fossem entendidas como subversivas ou a expressão documental de assuntos demasiado polémicos em matéria de costumes e contrários ao espírito conservador. O funcionamento prático dessa Censura de militares reformados e de virtudes públicas era por vezes anedótico e contraproducente. O espírito que lhe presidia, esse, merece outro enquadramento.
Após a transição do regime para o Estado Social de Marcello Caetano, a Censura manteve-se com algumas alterações que a tornaram quase similar ao que ocorria noutros países da Europa ocidental, com excepção de discussão pública de assuntos políticos e propaganda da Esquerda comunista, o que era redondamente proibido e com máxima expressão na proibição de publicitação de ideias entendidas como subversivas, como eram as comunistas para o regime que aliás apelidava de fascista.
Salazar não admitia discussões públicas e polémicas oficializadas sobre Deus, Pátria ou Família e tal alargou-se a assuntos menos transcendentes como a Guerra no Ultramar.
Marcello Caetano, em 1973, numa entrevista longa e publicada em livro ( Conversas com Marcello Caetano, Moraes editores, 1973) , explicava, com alguma má consciência, as razões da Censura, a António Alçada Baptista.


Que diz essencialmente Marcello Caetano? Fala da noção de opinião pública e do "mercado das ideias e das notícias", o que é um assunto extremamente moderno e actualíssimo porque equaciona esse mercado ( as empresas de comunicação) e as suas exigências de rentabilidade e interesses com a "importância ou novidade da produção intelectual".
Por outro lado, Marcello exemplifica com o que se passa nas sociedades ocidentais em que há plena liberdade informativa: "o homem comum sai do seu trabalho onde esteve a assegurar o seu bem-estar material e compra um jornal ou uma revista que defende a revolução imediata e a necessidade de pegar em armas e de abrir barricadas. Essa leitura não o leva, de maneira alguma, a fazer o que ali se diz. Não. Chega a casa, instala-se comodamente no sofá, lê a apologia da revolução armada e não pensa, de modo nenhum, em alterar no dia seguinte os seus comportamentos sociais. Mas, nas sociedades que não integraram ainda certo tipo de instituições, o seu aparecimento súbito pode ter consequências altamente perturbadoras".
E apesar de acrescentar que " estou certo que nada disso retira as vantagens da existência duma imprensa não sujeita a exame prévio", continua a defender que não se deve fazer uma passagem repentina do regime de censura para a liberdade total. E acrescenta que o factor mais impeditivo dessa mudança era a Guerra no Ultramar. E o efeito mais perverso da Censura para Marcello seria não o que se impediu de dizer, mas a "o de ter atirado o exercício duma tão importante actividade humana para uma zona de total irresponsabilidade". (...)" Falar e ligar constantemente a palavra a uma responsabilidade não é fácil, mas é a única maneira de lhe dar a sua verdadeira dignidade. "Prender os homens pela palavra". diziam os antigos e com inteira razão".

Este entendimento de Marcello Caetano é válido ainda hoje e subscrevo-o inteiramente,
escrevi na altura, mas não o faria agora com a mesma desenvoltura.

A censura tinha dias contados com Marcello Caetano, mas ainda viria longe o tempo de tal efeito. Por isso soçobrou e por isso perdeu o país...mas justificava assim, na altura: 


Sem comentários:

Louçã, savonarola dos pequeninos