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sábado, 28 de fevereiro de 2015

"Situação moral da Europa" em 1900

Da Paródia de 7 de Março de 1900, uma caricatura sobre diversos países europeus. A História da Europa também se pode aprender assim. Vasco Pulido Valente anda a escrever sobre essa História, alguns anos antes...
Para o caricaturista de então, Portugal ia a reboque da Inglaterra, com Lusíadas e tudo. E agora?


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Impostos: a Paródia de 1900 repete-se agora

No número de 4 de Abril de 1900, o jornal satírico A Paródia tinha esta caricatura sobre os impostos em Portugal, em comparação com outros países.

Cento e quinze anos depois, parece que não mudou muito...apesar de um interregno de mais ou menos quatro décadas, quando o regime de Salazar e Caetano mandava no Orçamento de Estado e a Constituição impunha o seu equilíbrio efectivo.
Há muita gente que não sabe nem quer saber disto.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Entrevista da PGR com uma nota importante

Observador:

A procuradora-geral da República (PGR), Joana Marques Vidal, admitiu esta terça-feira em entrevista à Renascença e ao Público, que existe “uma rede que utiliza o aparelho do Estado e outro tipo de aparelhos da Administração Pública para realizar atos ilícitos”, muitos na área da “corrupção”.

Desafiada a comentar sobre uma eventual crise de regime, depois de vários casos de corrupção terem sido tornados públicos envolvendo, alegadamente, altos quadros da classe político-económica do país, Joana Marques Vidal começou por dizer que não lhe competia “fazer análises de regime”, mas admitiu que existe uma rede de corrupção instalada no Estado. Mais: a PGR apontou as áreas da “Saúde e da contratação pública” como os terrenos mais férteis onde germinam este tipo de casos.

Esta parte da entrevista da PGR é a mais interessante porque revela algo importante: há neste momento a percepção de que a corrupção em Portugal é algo assinalável, preocupante e de vulto. O antigo PGR e a antiga directora do DCIAP andaram anos a desmentir este estado de coisas que tinham a obrigação estrita de percepcionar.
O caso do antigo PGR ainda é mais lamentável porque era amigo de quem o nomeou para o cargo e encontrou-se com ele na véspera de o mesmo ser preso por corrupção. Disse depois na televisão ( incrível e que denota o poder real) que foi apenas para falar de livros e viagens...e se calhar ficou a pensar que toda a gente acreditou.
A antiga directora do DCIAP disse recentemente que foi uma surpresa o que aconteceu agora ao antigo primeiro-ministro, apesar de ter sido informada da existência de contas off-shore em nome de familiares do mesmo e movimentando centenas de milhões de euros, relativos a acções de empresas nacionais, o que originou um inquérito que foi mais rapidamente arquivado do que levou tempo a abrir.

É sintomático que a actual PGR tenha dito com precisão que a corrupção se situa essencialmente nas áreas da "Saúde e da contratação pública".

Saúde tem a ver com aquisições de material e com o papel da administração pública, mormente dos presidentes das ARS. Os que mandam na ARS de Lisboa e Vale do Tejo estão aqui identificados. E em tempos já se escreveu aqui sobre o assunto, a propósito de uma notícia do Correio da Manhã de 1 de Março de 2013.

Assim:

"Um indivíduo com 57 anos, médico do Porto, exerceu "vários cargos de chefia" no hospital de S. João, no Porto. Parece que até foi assistente universitário de um das cadeiras do curso. Entre 2003 e 2008 foi presidente do INEM e quando Ana Jorge ( PS) era ministra ( num dos governos de José Sócrates) foi consultar para o ministério, até 2011. O quê? Não se sabe por enquanto porque o jornal não diz. Mas pelo caminho que a investigação jornalística leva, um dia destes ainda viremos a saber. Desde Outubro de 2011 o mesmo indivíduo ( na foto) é presidente da Administração Regional de Saúde. Um gestor do Estado. Não é público: é do Estado que é mais precioso.
O mesmo administrador, que é do Porto, quando era presidente do INEM, arrendou uma casa em Lisboa, em 2004. Onde? Começam as coincidências...
Foi no mesmo prédio da rua Braamcamp, onde José Sócrates e a mãe compraram uns magníficos apartamentos a preços convidativos, segundo foi  notícia de época, ( embora haja quem jure que não, como Herman José que também lá comprou e que jurou terem sido pelos preços certos. Não se sabe muito bem é a quem, com precisão de nomes, mas isso já lá vai). Seja como for, o apartamento arrendado pertence a uma empresa- a Convida, investimentos turísticos e imobiliários- administrada por um certo Paulo Castro. A empresa terá accionistas mas são secretos. O contrato de arrendamento, esse, também é porque ninguém quis dizer ao jornal quanto paga de renda o tal administrador que agora é director da ARS-Lisboa e Vale do Tejo. E quem é o tal administrador da Convida, Paulo Castro?
Ora, é o administrador da empresa Octapharma, em Portugal. A mesma que empregou José Sócrates como caixeiro-viajante para os affaires da América Latina. A mesma que em Portugal domina o mercado do plasma hospitalar e os milhões que movimenta, com uma quota de 60 a 80% do mesmo.
Portanto, resumindo ainda mais: O administrador da Octapharma, Paulo Castro, é também administrador de uma empresa imobiliária cujos donos não se conhecem e que arrendou um apartamento a um funcionário público de luxo, enquanto presidente do INEM, em 2004, consultor do Ministério da Saúde entre 2008 e 2011 e agora presidente da ARS.
A explicação para esta coincidência é dada pelo mesmo administrador da ARS: conhece Paulo Castro há um ror de anos e...são amigos."


Como então se escreveu, o gestor do Estado não é suspeito de nada em especial. Repesca-se o escrito de então:

 Ora bem e falando sério: é preciso saber o que consultou Luís Cunha Ribeiro, desde 2008 a 2011, no Ministério da Saúde. Exactamente o quê e porquê. Onde colocou o nome assinado, onde interveio como consultor, quando ganhava pelo tacho etc etc.
Depois disso é preciso saber que tipo de relação de amizade pode justificar um contrato de arrendamento de um apartamento, por coincidência no mesmo prédio em que também estava a morar o primeiro-ministro de então, feito a uma empresa que era administrada pelo responsável, em Portugal , de uma multinacional farmacêutica que em 2008 conseguiu vários milhões de euros de negócios com o Estado e o ministério da Saúde em particular, onde aquele inquilino era consultor ( mas o que é que consultou, santo Deus? Pode saber-se, ao certo?).
Tudo isso por uma razão que é importante explicar: um gestor do Estado não deve aceitar viver num apartamento que arrendou a um amigo que é simultaneamente interessado em grandes negócios com o mesmo Estado e em que aquele inquilino está em posição de eventual conflito de interesses.
Para já o assunto é meramente ético. Depois, se o jornal descobrir mais coisas, logo se vê.
Evidentemente, eticamente isto é uma grande vergonha. Para quem a tem, naturalmente.

Ah! Já me esquecia: o senhor não tem condições nenhumas para continuar a ser presidente de ARS alguma.

E agora acrescento: depois destes meses todos, parece-me que o senhor em causa ainda menos razão tem para se manter no cargo que ocupa.  Perante o que disse a PGR é essencial que a transparência seja mesmo isso: transparente e clara. 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Em busca de um fascismo perdido

No outro postal disse que nunca tinha dado pela palavra "fascismo" como designativo do regime anterior, antes de 25 de Abril de 1974 e que só daí a alguns dias, poucos, começou a aparecer na imprensa. Seria interessante que alguém se desse ao trabalho de ver as imagens televisivas do dia 25 de Abril até ao 1º de Maio desse ano para perceber a mutação linguística e semântica.

Não obstante, fui ver como se escrevia na imprensa da época anterior ao 25 de Abril relativamente aos fenómenos que nos eram familiares, como a guerra no Ultramar ou simplesmente a televisão, um bom barómetro do ambiente  intelectual da época, em geral, como hoje provavelmente não será- ou será na mesma...

No início dos anos setenta comecei a comprar jornais ( antes tinha-os de borla porque o meu avô tinha uma mercearia e comprava pacotes e pacotes de jornais usados para embrulhar mercadorias e eu passava horas e horas a escolher os que me interessavam- e guardei-os todos...) e o Diário de Lisboa era o que me interessava mais pelo aspecto gráfico, tal como o Diário Popular me interessava em determinados dias da semana, por exemplo à Quinta-Feira porque tinha um fabuloso suplemente literário.

Assim, no D.L. de 2 de Janeiro de 1972 o crítico de televisão Mário Castrim ( um comunista que eu ainda nem sabia que o era e escrevia como eu gostava de ler)  tinha uma crónica de balanço do ano cultural, em Portugal. Esta:

As primeiras frases gritam em silêncio para dizer o que então não se podia: denunciar o regime como repressor ( "fascista")  e que obrigava os comunistas a fugirem do país, tal como os desertores. Nem estas palavras seriam escritas na altura se pudessem ter sido escritas, por um motivo: para Castrim, os desertores eram heróis na luta contra o "colonialismo" e os fugitivos comunistas os verdadeiros patriotas que apenas queriam que fôssemos como a pátria de Estaline...
Portanto, um duplo equívoco: Castrim não podia escrever livremente o que verdadeiramente queria dizer, mas se o pudesse nunca escreveria a verdade nua e crua, porque envolta na fantasia dos "amanhãs a cantar". Era e continua a ser este o drama dos comunistas que ainda hoje não podem escrever livremente nos jornais o que verdadeiramente lhes vai na alma. E não há censura nos dias de hoje, como então havia. Há outra coisa: as pessoas comuns, agora como dantes, não compram a ideologia comunista fossilizada como é a do PCP e quejandos esquerdismos, como o de Louçã, se a mesma for proclamada com toda a clareza do que os seus próceres pensam mas não dizem.  Foi esta mentira permanente que justificou a censura no tempo de Salazar e Caetano.

E que fazia Castrim ( e outros) para contornar a proibição de chamar ao regime " fascista" e dizer "colonialismo" e apelidar de "reaccionário" quem não pensasse como eles?  Contornava a linguagem e fazia de conta que contava fábulas. Algumas vezes isto resultava em pequenas obras-primas, mas nunca saiu daí nenhuma obra-prima de vulto porque os escritores de então, descobriu-se afinal, nunca escreveram para a gaveta por causa de censura alguma. Intrujaram durante algum tempo mas não o tempo todo.
Outra surpresa nesta escrita de balanço e que valeu ao Castrim sérios incómodos dos ortodoxos do "partido": diz muito bem de José Hermano Saraiva, um salazarista de sempre e que sempre foi o mesmo até morrer, honra lhe seja feita. Por causa de um programa de TV que se prolongou por décadas.

No Diário Popular do mesmo dia 2 de Janeiro de 1972 também há um balanço, igualmente televisivo no qual desponta um pequeno eco de um fascismo perdido.


No questionário proposto a meia dúzia de leitores, avulta a resposta de Eduardo Prado Coelho, o Eduardo PC, já falecido. Dizia o semiótico em modo semântico que " não suponho possível uma transformação dos programas de televisão sem uma transformação das condições sociais, económicas e ideológicas que neste momento, nos condicionam." Ou seja, venha o comunismo e depois conversamos...dito de um modo perifrástico.
Outro comunista vindouro, Correia da Fonseca, era mais modesto: só queria meia hora de telejornal "novo e diferente ", coisa que só dali a uns meses teria e que lhe terá concedido a relativa felicidade almejada.

Era este o limite imposto pela linguagem permitida: não discutir o regime em moldes revolucionários ( porque era disso mesmo que se tratava). Portanto, o regime ao condicionar e proibir tal revolução tornava-se naturalmente...fascista.

Ora foi isso mesmo que ficou escrito no Diário de Lisboa, em 20 Julho de 1973,  já dirigido por A. Ruella Ramos que nos meses a seguir ao 25 de Abril se transformou num dos maiores paladinos do PREC e pôde então dar largas à frustração de não ter podido chamar fascista ao regime, no tempo próprio, passando depois a designar o mesmo como "ditadura fascista" ou simplesmente "fascismo", termo que pegou de estaca na linguagem de trapo comunista.


No apontamento de reportagem de Londres assinado em telex por Joaquim Letria ( esquerda pró-comunista, então, mas com nuances porque estava em Inglaterra e lá não havia partido comunista por causa de Estaline, Hungria e Checoslováquia, entre outros fenómenos que por cá nem se conheciam bem), o mesmo repórter assinalava a propósito da visita de Marcello Caetano a Londres: "Por outro lado, jornais e tv continuam a referir-se à história de Wiriyamu e uma fonte da embaixada disse que havia o perigo de Portugal passar a ser conhecido apenas pelas características que esta onda de acusações lhe apontam: um Estado fascista que mantém uma guerra colonialista onde chacina nativos".

Tal e qual e o Exame Prévio deixou passar porque comprei este jornal no dia em que saiu. Assim, poderia ter lido as três grandes pechas do regime: fascista, colonialista e racista.
Quem é que apelidava o regime de Caetano desse modo? Letria dizia que era um anónimo da embaixada. Comunista, pela certa, mas letria nunca o iria dizer...

Quem ler os apontamentos de reportagem que a revista Observador fez dos mesmos acontecimentos em Londres fica a saber mais e nunca leria este tipo de "telex" sem citação concreta da fonte ideológica de onde proveio. Já por aqui foi mostrado e permite entender como é que o Exame Prévio de Marcello Caetano tinha um equivalente mais subtil e com poder igualmente capador: o comunismo censura efectivamente tudo o que não lhe convém ideologicamente e faz questão disso mesmo, sem qualquer pudor, ao mesmo tempo que vitupera a Censura nos regimes que não lhe permite a propaganda livre e subversiva, como era o caso de Portugal com três frentes de guerra.

Por isso mesmo, a linguagem usada nos jornais de esquerda da época, ou era cifrada do modo explícito, sofrendo em silêncio a possibilidade de proclamar bem alto os amanhãs a cantar ou então era simplesmente obliterada por inconveniente, censurando de igual modo a verdade subjacente.

Quanto ao resto, ou seja, o ambiente geral que se vivia em Portugal no ano de 1972, nem sombra de fascismo no que se escrevia ou lia, nem vestígios de ódio militante. Apenas firmeza de princípios, políticas coerentes e prevenção da subversão comunista revolucionária, preocupação principal do regime que acabou por ser a sua maior derrota.
E isso é que se torna estranho porque nem a  mutação linguistica e semântica o explicam. Principalmente por causa disto que se podia ler na última página do Diário de Lisboa de 10 de Outubro de 1972:

Um Estado fascista não dá protecção social e previdência a mais de metade da população. Isso é típico da social-democracia...mas suponho que nenhum esquerdista comunista o reconhecerá.

A respeito de Portugal e do antigamente

O jornal ( fascista para o comunismo, incluindo o syriza) O Diabo,  de hoje tem esta capa:

Em duas páginas assinadas por Nuno Alves Caetano ( não sei quem é nem tenho referências mas está  no Facebook que também não tenho) o jornal retrata um país que antes de 25 de Abril de 1974 estava em franco crescimento económico, com desenvolvimento como agora se diz, "sustentado".
Não se faziam coisas à toa, havia mérito nas escolhas de quem governava e o povo em geral percebia as escolhas de quem mandava, mesmo com censura e repressão política da esquerda comunista.

Nessas duas páginas com factos e números que não aparecem noutros jornais ( esquerda em geral oblige) questiona-se a gestão da coisa pública nos últimos 40 anos com factos irrefutáveis: quase três bancarrotas consolidadas e evitadas in extremis à custa de muitos sacrifícios que agora são criticados por aqueles que os provocaram directamente, como sendo a famigerada "austeridade" e o "empobrecimento".
Ainda ontem, um Francisco Louçã, no Prós&Contras em que se falou da Grécia foi interpelado para explicar qual a alternativa que oferece quando se sabe que a esquerda que representa não vingou em lado algum do mundo e foi-lhe apontado que apresentasse um único exemplo de país onde tal sucedeu, para além da Coreia do Norte, de Cuba e da Venezuela ( e agora a Grécia a ameaçar o mesmo). Não respondeu e tergiversou dizendo que  Portugal é Portugal e não copia modelos externos.
Não? O interlocutor não lhe ocorreu aterrá-lo com esta citação de uma entrevista do mesmo Louçã.,   em 2012, ao Público ( José Manuel Fernandes, igualmente presente no programa também não se lembrou...):
 Público- Hoje continua a ser um revolucionário?
 F. Louçã- Sou socialista. E sou contra o capitalismo. O socialismo para nós, é um projecto anticapitalista, com todo o gosto pelas palavras e com toda a clareza."

Portanto, como mostra a revista Observador de  19 de Março de 1971, havia já um plano para construção das auto-estradas que não tínhamos ( a Alemanha tinha cerca de 4000 km, mas a Grâ-Bretanha só tinha mil) e com certeza executável porque era assim mesmo naquele tempo: fazia-se tudo com pés e cabeça e de modo sustentado.
Estas auto-estradas previstas para a meia dúzia de anos a seguir a 1974 só foram construídas vinte anos depois...algumas delas, e com ajuda dos fundos estruturais da então CEE. E com a corrupção que se conhece nas PPP´s mas ainda não se apurou penalmente.
A Mota-Engil neste plano? Ainda não existia porque era uma empresazeca de Amarante. O BES? Ainda não contava...


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

A aparição do fascismo em Portugal

O fascismo, enquanto termo designativo de um regime não existia em Portugal antes de 25 de Abril de 1974, a não ser nas publicações clandestinas dos comunistas, a que se juntavam alguns socialistas então marxistas.
Porém, na linguagem comum e corrente do povo e mesmo dos media, ( com censura) o termo era ignorado como palavra-chave para designar o regime político do Estado Novo de Salazar e do Estado Social de Marcello Caetano.
Por mim só dei com a palavra "fascismo", designando o regime anterior, nos dias a seguir ao 25 de Abril de 1974. E digo dias a seguir porque no próprio dia, os jornais, rádios e tv ainda não usavam o termo.

Em Janeiro e Fevereiro desse ano de 1974 a linguagem corrente era esta, como mostra o jornal Diário de Lisboa  que se tornaria um dos expoentes comunistas mais notórios logo nos dias  a seguir ao 25 de Abril. Não se nota "fascismo"  em lado nenhum. Escrevia-se Ultramar em vez de Colónias e Nação em vez de "este País". E falava-se em moral, conceito que depois desapareceu para dar lugar, alguns anos depois a "ética". Marcello Caetano adivinhava os "tempos dificeis" que viriam e provavelmente nem imaginava como! Dali a dois anos havia uma bancarrota em perspectiva e dez anos depois, outra. Coisa inédita no Portugal desse tempo.
E dava-se notícia dos militares mortos em combate, na guerra "na Província da Guiné" e "no "Estado de Moçambique".


 No dia 25 de Abril de 1974 o Diário de Notícias não noticiou a queda do regime como "o derrube do fascismo". Aliás, nenhum jornal diário o fez, aposto.


Nem sequer o Diário de Lisboa do dia 27 de Abril mostrava tal coisa nos comunicados do Movimento das Forças Armadas que apenas falavam em sistema político.  Porém, os comunicados da CDE já não escondiam a palavra "fascismo" e noticiava-se que  um grupo de manifestantes do MRPP gritava "o slogan favorito, "guerra do povo à guerra colonial".  A palavra fascismo aparece também nas designações que os comunistas fazem do regime, relatadas no jornal.

Esta palavra "fascismo" foi introduzida no léxico corrente pela esquerda comunista, com efectivo apoio socialista, parece-me um facto indiscutível. Ou seja, a esquerda inventou o termo "fascismo" para designar o regime de Salazar/Caetano e conseguiu torná-lo designativo corrente, tal como a palavra "kispo" designava blusões. Uma metonímia notável.



Em 29 de Abril o mesmo jornal já definia na página dois o regime anterior, como ainda não se fizera mediaticamente: "regime fascist", ou seja tal e qual a esquerda comunista sempre o designou.


No mesmo dia 29 de Abril de 1974,  o República, dirigido pelo socialista maçónico Raul Rego dava estatuto de herói ao regressado de Paris no dia anterior, Mário Soares. E publicava o primeiro comunicado do PCP em que aparece a expressão mágica, como não podia deixar de ser: "ditadura fascista".
Dali para a frente foi sempre a somar adesões à novíssima designação cuja aparição ocorreu deste modo.

Quanto ao partido Socialista, para não ficar atrás dos operários e camponeses, também partilhava os desideratos comunistas de liderar a "luta contra o capitalismo" e naturalmente a sua declaração de princípios, um ano antes, já garantia "o combate visando a eliminação dos suportes sociais do fascismo e do colonialismo" , ou seja, contra " a burguesia" e banqueiros, um deles por sinal mecenas de Mário Soares no exílio, segundo consta... 

Com este ideário expresso e a linguagem usada, quem aderiu ao socialismo democrático passou a usar a mesma língua de trapo dos comunistas.



Em 29 de Setembro de 1974 o Expresso já escrevia em editorial ( possivelmente Marcelo Rebelo de Sousa) "luta antifascista". O Expresso é o melhor expoente explicativo do fenómeno que se introduziu na semântica nacional. O Expresso de Balsemão, deputado da Ala Liberal do Estado Social  que a esquerda passou a apelidar de "fascista", sem qualquer protesto ou oposição daquele, foi sempre um jornal "liberal" à moda do Minho, ou seja, de Cascais ou da Quinta da Marinha. Foi sempre contra o comunismo do PC, na fase em que este partido que ainda se diz democrático queria açambarcar todo o poder político e cujas veleidades só terminaram em Novembro de 1975. Mas foi também um jornal "inserido no processo revolucionário", como atestou o comandante do Copcon, Otelo, quando Vasco Gonçalves o apodou de "pasquim", num discurso surrealista em Almada, nos idos de 1975.
Quer dizer, o Expresso foi sempre um jornal que não quis ser carne nem peixe, preferindo os congelados do "tipo serra". Tipo professor Marcelo, o melhor paradigma do jornal.


O termo "fascista"  pegou de estaca, deste modo e até hoje, modificando a linguagem antiga e dando nova dimensão ao panorama político. Nas semanas e meses depois do golpe ninguém queria ser "fascista", o que se tornou um termo de insulto e exclusão quando não de prisão como aconteceu com estes pobres fascistas,   adeptos irredutíveis de Mussolini, falangistas sinistros de uma ordem nova de violência anti-democrática, arrebanhados pelos democratas da esquerda revolucionária, na sequência dos acontecimentos de 28 de Setembro de 1974, como relata o DL de 30 de Setembro de 74.


A partir daqui o PREC levantou voos mais altos, até 25 de Novembro de 1975. Fascismo, ditadura fascista, reaccionário, até mesmo nazi, foram termos que se vulgarizaram e abrangeram todos aqueles que não partilhavam a mesma cartilha desta esquerda comunista e socialista. Hoje, 40 anos de depois, o esquema mental dessas pessoas continua o mesmíssimo de sempre: apodar de fascistas quem ousa falar do regime anterior noutros termos que não os que eles mesmos assim definiram.

Como dizia uma mulher num autocarro para defender outra mulher, preta, das invectivas de um energúmeno qualquer: olhe senhora, preto é ele...
No caso, fascistas, são eles...

Quanto aos media tradicionais, seguiram todos, sem excepção, o mesmo guião. Os que o não fizeram tiveram um destino de inquisição. Assim, em 29 de Setembro de 1974, no jornal Sempre Fixe, dirigido então pelo mesmo director do Diário de Lisboa:





 Logo em Junho de 1974 a Flama mostrava mais um dos sinais do fenómeno. "A arte fascista faz mal à vista", proclamaram alguns artistas plásticos no interior do palácio Foz, nos Restauradores, para tapar de negro uma estátua de Salazar.



"Fascismo" já era o termo da ordem nova. 

Naturalmente, quando em 1983 alguns adeptos do antigo regime se reuniram no Porto para comemorar o 28 de Maio de 1926, data do golpe que conduziu Salazar ao poder, o Expresso de 4 de Junho de 1983 deu assim a notícia, com fotos.

O texto é exemplar do que aconteceu à linguagem nesses anos, pouco mais de meia dúzia sobre o 25 de Abril: mistura verdadeiros adeptos da extrema-direita, eventualmente fascista segundo os cânones correctos da designação com elementos de direita, salazaristas de vários matizes e todos embrulhados numa conveniente designação de "direita nacionalista e antidemocrática". Fascista, quoi!

Em Portugal quem não segue a cartilha da esquerda que inclui naturalmente a social-democracia que temos, é simplesmente "fascista" ou mesmo "nazi" e julgo que a explicação está dada. 



domingo, 22 de fevereiro de 2015

O fascismo é o filho adoptivo do PREC



Antes de 1974 chamar comunista a alguém era ofensivo  porque até era perigoso  uma vez que poderia redundar num  interrogatório policial, com prejuízo para a reputação e até a liberdade. 
O regime do Estado Novo combateu efectivamente o comunismo e marxismo em geral, por motivos ideológicos e políticos, como aliás outros países ocidentais o fizeram, embora com maior restrição de liberdades do que nesses países, por razões históricas e políticas, conhecidas e públicas.

Nos anos cinquenta, nos EUA, o macartismo combateu o mesmíssimo comunismo e marxismo através de esquemas legais de "caça às bruxas", sem comparação com o que por cá acontecia.  Uma denúncia bastava para o interrogatório minucioso e perscrutador de consciências porque o comunismo era proibido , na medida em que pretendia a subversão completa do modelo económico e social, imitado do vigente nos países de Leste Europeu, maxime URSS, já com um satélite à porta ( Cuba).
O comunismo de cá vicejava ideologicamente  sem  repressão de consciências mas era reprimido violentamente, com prisões, no caso de actos e manifestações.  Era igualmente proibido como política legítima, pelas mesmas razões que nos EUA e ainda outras particulares e nacionais.
O comunismo e marxismo de  cá era de organização clandestina mas de pensamento livre, cerceado apenas pela censura dos seus meios de expressão.
Na Inglaterra,  França e outros países o comunismo, não sendo proibido formalmente,  havendo partidos marxistas ( a Inglaterra nem tem partido comunista...e desde os anos quarenta que os trabalhistas não querem nada com eles) era entendido como o mal anti-democrático a extirpar da sociedade porque fomentava a subversão política e a destruição dos regimes democráticos  burgueses, assentes na liberdade individual  de reunião, associação e manifestação e demais características conhecidas como o sistema de produção capitalista.

Em Portugal, durante todo o tempo do Estado Novo e depois no Estado Social de Caetano, o comunismo, enquanto organização para a conquista do poder,  foi proibido e combatido, reprimido e os seus dirigentes presos,  julgados e condenados por isso, ou seja, por actividades que a lei de então classificava como subversivas e penalizava com prisão.
Para os nossos comunistas de então,  caldeados na clandestinididade praticamente desde os primórdios ( veja-se a mensagem de Fátima de 1917, com os "erros da Rússia") o Estado Novo e o Estado Social eram "fascistas", termo que obviamente aparece depois de Mussolini, ele mesmo um antigo socialista. 
Os socialistas marxistas, aparecidos com a tradição maçónica e jacobina da I República,  tributários dessa esquerda operária e menos camponesa, seguiam  esse modo denominativo do regime: fascismo. Simples, fácil e com rendimento político assegurado.
Durante o Estado Novo, a palavra encerrava um conceito comunicativa de seita. Tal como as  primeiras seitas  cristãs  das catacumbas aprenderam a  reconhecerem-se entre si e a designar os pagãos através de discursos cifrados e esotéricos, reservados a iniciados e discípulos, assim os comunistas e marxistas-leninistas-estalinistas criaram uma linguagem própria, extraída dos ensimanentos dos mestres, principalmente Estaline, um assassino de Estado que  ainda hoje é idolatrado como herói pelos comunistas, sem que tal causa incómodo de maior.  

Ainda hoje essa linguagem  de seita aparece vertida em todo o seu esplendor, nos escritos comunistas das suas publicações e é usada como dialecto corrente, tal como um mirandês ainda se usa na recôndita província do nosso nordeste, pelos cultores da tradição.
Portanto, discutir ou argumentar com um comunista marxista-leninista-estalinista  carece de aprendizagem prévia desse dialecto  para que o discurso não seja uma conversa de surdos.
Foi exactamente isso que sucedeu durante anos a fio nos media nacionais, sempre que eram entrevistadas figuras de proa do nosso comunismo de seita.
Álvaro Cunhal, Domingos Abrantes ( o sibiliante de dentes raros que diz fassismo),  Octávio Pato ou Jerónimo de Sousa são personagens dessa seita esotérica que acredita nas virtualidades do comunismo científico, dos amanhãs a cantar e outras balelas que afirmam como  verdades imutáveis do devir social. Nas raras vezes em que tal sucedeu por cá, contadas pelos dedos de uma só mão, quando se lhes perguntava  por alhos, respondiam invariavelmente com bugalhos e assim foi até hoje.

Não obstante o descrédito generalizado do comunismo marxista-leninista-estalinista, com exemplos   flagrantes  de  ser um lastro ideológico falido e derrotado politicamente, por conduzir exactamente ao contrário do que apregoam , subjugando os povos e acorrentando-os a  sistemas verdadeiramente totalitários,  a seita dos seus vicários continua a vicejar  entre nós, simplesmente por causa de um fenómeno que por aqui já apontei: o domínio de certas palavras-chave da linguagem corrente.  

O comunismo nacional conseguiu em 40 anos um feito notável e único na Europa, pelo menos:  falsificar a nossa História contemporânea, impondo os termos de linguagem que a contam .  
É raro encontrar um comentador político que não se refira ao regime de Salazar e Caetano como "o fascismo".  É ainda mais raro encontrar um escrito ou ouvir uma conversa nos rádios e tv´s em que se faça apologia do regime de Salazar e Caetano, mesmo em tonalidade crítica e tal não seja imediatamente apodado  de fascista , a sério ou a brincar. 
Jornais ou revistas que afrontem este totalitarismo como o mesmo deve ser afrontado, tal como existem noutros países europeus, em Portugal não existem e nunca existiram, salvo excepções que igualmente se contam pelos dedos de uma só mão e vendem ninharias, sendo classificados de "reaccionários" e...lá está- fascistas. 
Os símbolos e imagens do nosso passado do tempo de Salazar e Caetano são obliterados mediaticamente e escondidos convenientemente quando conspícuos.  A eleição popular de Salazar, em 2007,  como  a figura da nossa História, muitíssimo à frente dos restantes contendores ( precisamente Álvaro Cunhal, o que denota o esforço do comunismo em erigir mediaticamente  essa figura  como herói nacional) revela que pode haver muitos "fascistas" por aí e o perigo de tal hipótese concita a atalaia, durante todo o ano e particularmente em Setembro, onde se repetem os mantras da linguagem que assegura o futuro dos amanhãs a cantar.
Ainda hoje, passados mais de 40 anos e supostamente gozando  uma liberdade que Salazar não permitia, existe medo em falar abertamente daquele e a publicação das suas obras nunca se fez como devia, até em nome da liberdade de expressão. Os editores tinham e têm medo e o que publicam são estudos dos ideólogos antifascistas devidamente encartados ou insuspeitos que replicam a linguagem correcta. 
A liberdade do comunismo marxista e seus idiotas úteis é mesmo essa: suscitar o medo da exclusão mediática e social e por arrastamento da representação política no panorama eleitoral.  É essa a maior vitória desse totalitarismo virtual.

Esse domínio ideológico notável tem expressão, por exemplo, no uso corrente da palavra "fascismo" , adejado e arremessado sem outro critério que não seja o da agressão viciosa para liquidar o adversário na cena de discussão. 
Chamar "fascista" ou clamar pelas manifestações de "fascismo a sério"   é o mesmo que chamar ladrão a um verdadeiro franciscano ou corrupto a um pobre de pedir.
Nos demais  países europeus o termo é inócuo e irrelevante,  designando apenas o regime italiano de Mussolini.  Por cá, tal como a metonímia do kispo, uma marca de blusões que nos anos setenta  passou a designar os ditos, é usado como  sinónimo e significado de algo odioso, ignominioso, até criminoso ( legalmente,  na nossa democracia plural, estão proibidos os partidos fascistas,) e em final de contas, insultuoso e estrepitoso.
De há quarenta anos a esta parte chamar fascista a outrém é igualmente perigoso, embora com uma nuance: conduz ao ostracismo social e político e portanto à exclusão  conferida a um criminoso sem pena de lei, mas de costume que aqueles conseguiram impor.
É  esse o  leit-motiv deste  blog  desde   o início, há  mais de dez anos : em vez de "fascista a sério", ser democrata de verdade, dando a conhecer a  pessoas que não sabem ou  que já não se lembram,  o que foi o tempo que aqueles comunistas e marxistas de diversa índole, mais os idiotas úteis da praxe,  querem fazer esquecer, censurando quem se esforça por repôr uma verdade histórica.
São esses comunistas, marxistas-leninistas  e de outros matizes  que falsificaram  factos e figuras, tal como fizeram ( e ainda fazem)  no tempo do regime que afeiçoam, em que apagavam literalmente figuras incómodas de fotografias  oficiais,  ou que eliminavam fisicamente opositores, em massa ( purgas de Estaline e genocídio de camponeses, indiscutíveis verdades históricas reconhecidas pelo próprio regime) ou reprimiam ferozmente ( penas de morte e execuções sumárias, historicamente indiscutíveis) as liberdades de reunião, associação e expressão de um modo que o regime a que chamam fascista nunca se atreveu a praticar porque na realidade histórica nunca o foi.
Esta verdade comezinha enunciada por pessoas que nem sequer são suspeitas de pertencerem  ao regime passado, é absolutamente espezinhada em nome de uma outra verdade conveniente que esconde a monstruosidade do regime em que acreditaram e acreditam, esse sim, totalitário, social-fascista e absolutamente hediondo para as liberdades individuais.
 O grande mistério desta verdade escondida reside a complacência com que os media em geral lidam com estas pessoas verdadeiramente terroristas do pensamento e totalitários do espírito que ousam chamar "fascistas a sério" a quem lhes aponta do dedo sujo de sangue idoloógico. 

E...como é que isto começou?  Pois é essa História que aqui me interessa fazer e é isso que ao longo dos anos tenho procurado fazer. 

Já mostrei este recorte do jornal maçónico e socialista República de 13 de Janeiro de 1975, no qual o escriba procura dar a definição semântica de "fascismo" aquela que ainda hoje é seguida pelos que apodam os demais de "fascistas", sem repararem na trave totalitária e intolerante que lhes tolhe o bestunto e imediatamente os desqualifica.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O conservadorismo antigo do tempo de Salazar

O cronista António Lopes Ribeiro, cineasta do tempo do Estado Novo, escreveu na revista Observador de 9 de Julho de 1971 esta carta aos nascituros, ou seja à geração que está agora na meia idade dos 40 e aos seus filhos.

Nela elenca um conjunto de fenómenos sociológicos e políticos que afectaram a geração que nasceu com o aparecimento do séc.XX ( ALR nasceu em 1908, Salazar em 1889) e traduz a amargura de ver a sociedade a mudar e os costumes a modificarem-se, no entender daquele para pior.
O tempo de António Lopes Ribeiro era o tempo de Salazar e de quem foi educado nessa época segundo os costumes do tempo, com forte influência da igreja Católica que o jacobino Afonso Costa pretendia  eliminar, "em  duas gerações" ou quantas fosse preciso. Porém, quem foi eliminado da cena dali a poucos anos foi ele mesmo que teve de se pisgar para Paris... e por lá se finou, só tendo o   que dele restava sido trasladado para cá, precisamente em 1971.

O que nesta carta se diz incomoda a esquerda burguesa que era já nessa altura a percursora da mudança social e pretendia a mudança política para a impor aos cidadãos. 

40 anos passados o que resta dos assuntos desta carta que ainda hoje seja válido como tema de discussão? É ler...clicando na imagem com o botão do lado direito do rato e abrindo uma nova janela no computador e a partir daí aumentar a imagem.