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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Vem tudo ao caso...mesmo a defesa patética

Este pindérico da patifaria política descarada julga que tem credibilidade suficiente para desmentir o óbvio e resulta já de inúmeros indícios probatórios recolhidos nos processos penais de que foi e é alvo.
Com estes argumentos de defesa patética, no Público de hoje,  a contrapor ao que já se conhece e ainda vai conhecer, pode ir contando com dez anos à sombra, no mínimo.   Tantos, pelo menos,  como o seu comparsa de mão para a CGD, o BCP, os media, etc etc. Esse já averbou cinco, por conta e que irá ser cumulado juridicamente ao restante.

Quanto ao principal aproveitador e mentor moral do efeito patifório que nos prejudicou enquanto sociedade por longos anos, pode ir contando com outro tanto. Salgado é o seu apelido.
Isso porque a Justiça acabará por se fazer  ou muito grande seria a injustiça em caso contrário.


Tal como Eduardo Dâmaso escreve na Sábado de hoje,  não há memória de patifarias deste género em Portugal e por isso, as pessoas acabarão por perceber o que se passou. E os juízes também, apesar da defesa patética deste salafrário.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Araújo e os intelectuais da paróquia

O intelectual A. Araújo na entrevista abaixo publicada teceu algumas considerações genéricas e particulares sobre aspectos da nossa vida contemporânea. Uma opinião, mesmo fundamentada ( o que não é o caso de Araújo) é sempre uma opinião, revestida do subjectivismo próprio e por isso relativamente insindicável no âmago do entendimento.

Porém, há afirmações de Araújo que suscitam reparos por denotarem entendimentos peregrinos cuja origem é desconhecida.

Quando afirma que o disco de Rui Veloso, Ar de Rock, tem a grande novidade de ser cantado em português, exemplificando assim o paroquialismo, não percebo o paralelismo.
O disco de Rui Veloso é um dos que se seguiram a outros publicados nos anos sessenta, pela Filarmónica Fraude ou pelos "conjuntos" que vieram depois, como a Banda do Casaco ou ainda o autor Júlio Pereira ou mesmo José Afonso em certos temas ou Fausto ou Sérgio Godinho, todos cantantes na língua materna e que nada tinham de paroquial ou provinciano. Paroquial e provinciano, no bom sentido, era um Artur Garcia ou um António Mourão  que depois deram em Marcos Paulos e outros Antónios Calvários. E o celebrado poeta-barbeiro de Braga, Variações, copiador de estilo Sparks e glitter variado não deixava por isso de o ser também.
 Ar de Rock só é novidade por misturar géneros musicais estrangeiros, como o blues ou o rock n´roll, já abastardado, com palavras ditas em português. Antes disso, o português já tinha sido muito usado no Brasil, por compositores como Rita Lee ou Raul Seixas, no mesmo estilo de adaptação sonora de géneros anglo-saxónicos. E esses brasileiros não eram paroquiais.
Quando o Salvador Sobral canta em português no festival da Eurovisão segue a tradição de décadas porque normalmente os países cantam nesses festivais na sua língua materna. A novidade de Salvador Sobral não reside nisso mas na habilidade e arte em cantar as palavras e conjugar uma melodia notável numa pequena cançoneta muito bem feita. Tudo menos paroquialismo  porque a música é universal.
Torna-se por isso pedante citar um tal Sudhir Hazareesing para comprovar um ponto inútil e esta mania das citações é típica destes intelectuais enlivrados em leituras avulsas.

Depois toma por assente a afirmação do entrevistador de que no tempo de Salazar nunca houve a preocupação com a elevação da cultura nacional".  Elevação da cultura nacional?! Mas o que é isso, exactamente? Elevação para onde e a partir de quê?
Araújo não explica e cita Eduardo Lourenço ( et pour cause) que teria dito ( se o disse não foi o primeiro nem foi original, porque já Augusto Abelaira o tinha dito na Vida Mundial) que depois de 25 de Abril a produção intelectual e literária estiolou quando havia liberdade para se desabrochar nos entusiasmos proclamados por um Ary dos Santos e outros pândegos.
 A verdade, verdadinha é que os autores que Abril abriu eram medíocres, simplesmente.  Mas havia alguns que o não eram, por exemplo um Alexandre O´Neill ou um Cardoso Pires que já vinham de antes e eram de esquerda liberal. Depois disso, nicles e a culpa não era do Salazar, mas eventualmente da nossa pobreza intelectual de que A. Araújo é agora um exemplo bem concreto.
 Ao dizer que se "produzem muitos livros sobre Salazar, a sua governanta e as criadas, coisas mais de voyeurismo em vez de análises sérias ao regime" está precisamente a situar-se nesse limbo de patetice porque não compreende que a análise de um regime faz-se também pela análise concreta e o entendimento concreto dos actos, pensamentos, palavras e omissões dos seus protagonistas directos. O que era a Dona Maria, enquanto governanta de Salazar, na casa que este ocupava, de função e repartida entre andares que serviam a função pública e outros que estavam reservados à vida privada? Araújo compreende?  Saber que Dona Maria criava galinhas no quintal não é apenas uma anedota ou se se entender como tal,  a atitude será semelhante à do tolo que olha o dedo que aponta a lua...

O que diriam A. Araújo e outros intelectuais semelhantes desta pequena foto de um pequeno quarto de dormir e do que ela representa?


A foto foi publicada no O Diabo de ontem, num artigo sobre "os veraneios de Salazar no Forte de Santo António", de Fernando de Castro Brandão e é de um livro do jornalista Miguel Pinheiro.
Como é que A. Araújo interpretaria o que tem esta foto e o contexto da mesma,  na época dos anos sessenta? Nesta cama dormiu Salazar que ficou neste quarto com um crucifixo a encimar, uma pequena mesa de cabeceira e eventualmente um "bacio" que não se mostra mas que era usual...

Outra foto a merecer comentário destes intelectuais é esta, do cemitério do Vimieiro, na actualidade. Bastaria que se pronunciassem sobre o estilo das campas, como foram feitas e qual o significado...comparando-as com o magnífico exemplar, ao fundo, da arte contemporânea nos cemitérios. Ou mesmo da lápide encostada à parede, junto à campa de Salazar, já agora.



Gostava de ler uma análise intelectual deste cenário, mas não terei sorte porque afinal seria um exercício de puro voyeurismo. Felizes aqueles que sabem ver...nos sinais que sendo visíveis estão ocultos a muitos.

Um sinal desse oculto que não se percepciona é a afirmação já recorrente de A. Araújo no sentido de o regime de Salazar ser intrinsecamente corrupto no tráfico de influências como agora se diz, nas "cunhas, compadrios e colocação em cargos" . Por muito que estudem sinais aparentes só conseguem ver a superfície da realidade que lhes é mostrada e não descobrem mais porque nem sequer procuram.

Por muito que leiam histórias reais sobre empreendimentos, obras públicas, realizações do tempo de Salazar, conseguem sempre enquadrar tais feitos, num período relativamente curto de 40 anos, num ambiente de corrupção por causa das "cunhas, compadrios e influencias na colocação em cargos".
Estas pessoas que assim pensam são as mesmas que depois desvalorizam a corrupção autêntica em que se vive, no regime democrático e recusam analisar e comparar tais fenómenos com o que era antes.

Bastaria ler pequenos apontamentos sobre o que foi a vida pública de Salazar, compilados por alguns dos seus próximos como Franco Nogueira e outros.




Em jeito de anedota e porque Vasco Pulido Valente anda ausente de lides de escrita no Observador, gostaria de ler um comentário seu à palermice de o citar como usando a palavra "indígenas" com o sentido que Araújo lhe atribui...

Por outro lado ao dizer que há "dezenas de livros sobre a PIDE, a censura e as torturas" não me parece que o exagero possa justificar-se na hipérbole de estilo. Conheço muito poucos livros sobre a PIDE e duvido que passam a dezena.
Estes dois foram publicados logo nos meses a seguir ao 25 de Abril de 1974 e são catarses dos protagonistas que estiveram intramuros a expiar crimes de subversão ao regime, ou seja comunistas que fariam aos então fassistas, se tivessem o poder o mesmo que fizeram nos gulags e das prisões da STASI. Alguém duvida desta moralidade dúplice? Então o melhor é falar nisso, também, para se entender a objectividade dessa gente.



De resto, Araújo repete outra vez a citação de Milton Nascimento sobre "todo o artista tem de ir aonde o povo está" e fica-lhe mal. Porque o que diz sobre Salazar e o seu tempo não inclui o povo que esteve lá, nessa época que Araújo resolutamente não compreende e por isso nem pergunta, apenas afirma.

Sobre a "nova Direita" que segundo a tese peregrina de Araújo surgiu nas páginas do Independente de Miguel Esteves Cardoso, bastaria dizer que MEC não é de direita alguma e nunca o foi. MEC é um indivíduo que se formou numa cultura urbana e sem raízes de fundo. Com mãe inglesa e pai embarcado formou-se, como suspeito que Araújo se formou, a ler coisas e loisas. Enfim, dá no que dá, esta formação. Saberá o que é um caniço? Ou o que é mondar? E chegou a cheirar alguma vez a bosta das vacas nos currais de antanho que ficavam por baixo dos quartos de dormir dos donos? Conhecer o imaginário rural de antanho é essencial para se entender o povo português que não se reduz aos habitantes das cidades. Conhecer os hábitos e costumes de sempre e de séculos que se desvaneceram em décadas também. Sem isso, chapéu! Podem saber muito bem o percurso do 28 ou do 15 mas não conhecem os trilhos da memória desta pátria.

Finalmente, embora a entrevista tenha muito mais que se lhe diga: a revista Olá, do jornal Semanário, surgido no início dos anos oitenta ( 1983) é apresentado por Araújo, em obra anterior e agora como o sinal do "renascimento da direita", por mostrar o ambiente social do país que "era impensável no imediato do 25 de Abril, quando as elites tinham fugido para Espanha".  A Olá do Semanário era uma revista que "mimetizava a Hola espanhola".
Em primeiro lugar a Hola espanhola não era representante ou sinal da "direita". Não era então e não o é hoje em dia. Era sim, representante de um estilo de vida de festas e de burguesia decandente e não só, num ambiente fustigado pelo turismo de várias costas del sol. Como a Espanha ainda é uma monarquia torna-se de algum modo compreensível que apareçam condes e viscondes de lá quando por cá tínhamos a da Asseca e pouco mais. Ou seja, Portugal nunca teve matéria-prima para Holas, nem antes nem depois de 25 de Abril, apesar da dinastia de Bragança ter feito um casamento e arromba, subsidiado de vários modos na época áurea da Olá.

Porém, afirmar como Araújo o faz que em Portugal era impensável no imediato 25 de Abril ter uma revista de feição socialite é manifestamente exagerado e esquece um fenómeno que apareceu ainda antes de 25 de Abril e continuou por muitos e bons anos: a Gente da editora Sepura, na praça de Alvalade em Lisboa.

Reduzir a a imprensa "social" à Olá e acantoná-la ao seu aparecimento nos anos oitenta é sinal de pouco estudo da contemporaneidade portuguesa. Um sinal preocupante para quem se doutorou na matéria...
Esta Gente deu origem, em 1976 à Nova Gente do empresário do social Jacques Rodrigues, fundador de outras publicações pindéricas e destinadas à populaça.

Esta Gente que aqui se mostra é de 8 de Outubro de 1974 e já ia no 48 número semanal. Ou seja, muito antes de 25 de Abril de 1974 e basta dar uma rápida olhadela aos sítios de venda de coisas usadas para ver fotos de números anteriores que atestam a qualidade pró-Hola da mesma revista que continuou muito depois do 25 de Abril de 1974, até aos dias de hoje em que se multiplicam tais títulos.



 A Gente de Outubro de 1974 acompanhava o ar do tempo e dos nos personagens aparecidos na ribalta política e mediática.

Começaram a aparecer os Barrosos do clã Soares a que seguiram depois os de outros clãs da nova nomenklatura, os empresários de sucesso no futebol regional, os artistas que estiveram sempre, sempre ao lado do povo a cantar 25 de Abril, sempre, fascismo nunca mais! e outros que tais que não vestiam apenas chita. Do mundo exterior sempre chegaram novidades da socialite, mas com uma explicação necessária: só a partir de meados dos anos setenta se começou  a dar importância mediática e alargada às notícias sobre "celebridades". 



Quando vejo e leio estas coisas tenho pena do A. Araújo e modero a minha irritação inicial.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

António Araújo, o intelectual perdido na História contemporânea

No DN de hoje aparece uma entrevista "de Verão"  a António Araújo, apresentado com credenciais: historiador, crítico literário, responsável pela escolha dos autores da colecção retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos". Araújo também é conselheiro do presidente da República. É "licenciado e mestre em Direito e doutor em História". Publicou já vários livros sobre direito e história contemporânea e um deles mereceu recensão crítica aqui: Da direita à Esquerda-Cultura e sociedade em Portugal, dos anos 80 à actualidade.

Araújo tem sido alvo de comentários pelo que diz ou escreve, neste blog. Devo confessar que me irrita, o que este indivíduo diz ou escreve. Não devia, mas é assim. A razão para tal é a importância que lhe vão dando como oráculo dos tempos modernos, do mesmo modo que há 40 anos davam a um Eduardo Lourenço e a estirpe intelectual parece-me ser a mesma.
Enquanto Lourenço é da geração anterior, a do antifassismo militante e relapso, mesmo depois dos anos 50 e 60 e dos fenómenos que ocorreram no Leste europeu que vieram dar razão a Salazar e Caetano depois dele.
Araújo é da geração seguinte, nascida nos anos sessenta e que não viveu esse período final do século XX como devia ser vivido para se poder contar com toda propriedade. Araújo escreve de cor e por ler muito e não me parece que apreenda uma certa essência da alma de muitos portugueses que viveram nesse tempo e davam o corpo e o manifesto por um regime que permaneceu durante décadas em Portugal, sintonizado com o que era o povo real, analfabeto e inculto e ao mesmo tempo a elite que então se formara para transformar o país. 

As conversas com Araújo descambam sempre para o lado da análise sociológica e política, com a História contemporânea de permeio. Não sei qual o conhecimento de História de Araújo para poder perorar sobre os assuntos avulsos que retoma nas entrevistas, particularmente sobre o período salazarista e pós-marcelista. Sendo doutorado em História Contemporânea que significa tal coisa? Que leu muitos livros sobre este período que nos afectou a actual existência? E leu o quê? E percebeu o quê? E aprendeu o quê? Quem o examinou no doutoramento certamente lhe deu o summa cum laude, mas...e daí? Quantos doutorados em História Contemporânea temos em Portugal que estudaram o que Araújo estudou, leram o que Araújo leu e foram examinados pelos professores que doutoraram Araújo? Dezenas? Centenas? E um tal Rosas e uma tal Flunser não terão o mesmo género de qualificações académicas e afinal escrevem asneiras como quem debita um rosário de amarguras? E que dizem as teses daqueles todos que parece que nem se publicam como diz agora Araújo na entrevista ao DN de hoje?

Araújo, publicamente vale pelo que escreve em artigos ou livros que se lêem. Confesso que leio e compro para descobrir algo que nunca li ou uma ideia original que me dê alento para ver se alguém assim tão intelectualizado academicamente mostra algo que seja revelador do que nós, enquanto povo deste rectângulo, somos e principalmente fomos, o que me parece ser a tarefa fundamental de um historiador.
Em tudo o que Araújo escreveu a propósito e que tenha lido, até hoje, não descortino nada de novo, nada de revelador e pelo contrário leio o que me parecem aleivosias e opiniões idiossincráticas com que não simpatizo por me parecerem enviezadas pela insuficiência analítica e distorção da inteligência.

Esta entrevista que fica e que mais tarde comentarei, continua nessa linha, com algumas observações que me merecem reparo que farei mais tarde.

Araújo parece-me uma síntese de Eduardo Lourenço e Eduarda Dionísio dos tempos da modernidade, do pós-esquerdismo militante. Um desperdício.



segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Os sérios e os sérios que não o são, a sério

Isaltino Morais sobre Marques Mendes...no Observador:

Passados todos estes anos, fala de Mendes com desdém.
Um político é muito mais escrutinado, sim. Quando são, porque às vezes há uns que passam pela chuva.
Quem é que acha que passa? No seu livro fala de Marques Mendes como um “facilitador de negócios”.
Pois, exactamente.
Acha que devia ser investigado?
Que o investiguem como me investigaram a mim.
Porque é que diz isso assim?
Os jornais noticiaram como ele enriqueceu muito rapidamente, com negócios das eólicas e não sei quê. É o que dizem, é o que vinha nos jornais também. Nunca foi averiguado isso. Mas o Marques Mendes para mim já não existe, é um comentador político, é deixá-lo fazer os comentários.
Incomoda-o ainda quando fala de si?
Não me incomoda nada, às vezes até o oiço. Digo-lhe uma coisa, às vezes até dou comigo a pensar: Isaltino, tu estás a concordar com este gajo, pá. Quando uma pessoa fala de muita coisa, claro que diz disparates. Mas veja bem, eu não sou um tipo sectário, há muitos comentários que o Marques Mendes faz que eu até estou de acordo. Na maior parte não passa de banalidades, mas ele está lá todos os domingos tem de fazer o papel dele, não é? Mas há coisas em que estou de acordo e às vezes até digo: Isaltino não devias concordar com esse tipo, pá.

Retratos de uma aldeia do Alto-Minho nos anos de Salazar e Caetano



Esta foto foi tirada na tarde do dia 15 de Agosto de 1970, um Sábado,  também dia feriado religioso, numa freguesia do Alto Minho, aquela em que nasci e conheço bem.
Retrata o momento da entrada de um novo pároco na freguesia, após a saída do anterior que aí estivera durante alguns anos. A freguesia,  por causa de um pequeno cenóbio beneditino, existente alguns séculos antes e transformado depois em pequena casa senhorial, tinha um “abade” que era assim a designação do pároco. O “senhor abade”.
Uma análise semiótica ao que se vê como sinal, na foto,  permitirá entender melhor o que foi o nosso tempo no final dos anos sessenta do século que passou, já em plena fase do marcelismo e ainda com guerra no Ultramar acesa.
Alguns dos seus habitantes jovens estavam na altura  a incorporar as fileiras das forças armadas, nesse Ultramar distante e que era depois contado pelos que vinham da guerra de guerrilha, com os pormenores da realidade vivida por eles e sem censura.
Não me lembro de ter ouvido de um único a expressão “guerra colonial” ou sequer a caracterização política do fenómeno como acontece de há cerca de 43 anos a esta parte e que surgiu da linguagem comunista e socialista que pegou de estaca em 1974 e antes não existia no léxico corrente.
A guerra aceitava-se como um sacrifício quase natural e decorrente das obrigações cívicas dos jovens que para lá partiam. Quem não queria, fugia para França e houve alguns que o fizeram, mas nunca por motivos políticos.
O povo que se vê na foto são os habitantes da aldeia que na altura teria cerca de dois milhares, pelo que estavam  ali em peso Além do mais era Sábado, de tarde e feriado religioso e não se trabalhava no campo como nos outros dias da semana, se fosse preciso, como era, estar presente num evento desta natureza. 

Atrás está um "monte" que era o de Santo Amaro, muito verdejante e pejado de pinheiros e que nesta época era palco de um incêndio ou outro, aliás muito raros e que eram apagados, sempre antes de os bombeiros chegarem, quando chegavam, pela população local que acorria sempre que se ouvia o "sino a rebate".  As pessoas até sentiam chieira de apagarem o fogo antes dos bombeiros chegarem...
 Só nos tempos da "democracia" os fogos no local atingiram proporções dramáticas e que consumiram mais hectares que em todo o tempo do regime anterior...

As pessoas que se vêem na foto estão vestidas do modo como iam à missa: roupa de Domingo, gravata para os homens, lenço na cabeça para as mulheres- que era assim que iam à missa.  Roupas escuras e a denotar viuvez, em alguns casos.
Primeiro sinal: não há jovens adolescentes, rapazes,  na foto. Há algumas raparigas, poucas, mas rapazes não. Onde estavam os rapazes, nesse dia 15 de Agosto de 1970? Algures, eventualmente no rio, a dois quilómetros dali, porque era Verão embora esse dia não estivesse particularmente quente.  Mas se não estivessem no rio também não seria provável que ali aparecessem e ninguém achava estranho porque a adolescência é mesmo assim.
Mas há muitos putos, à frente do cortejo, como era costume. Todos vestidos com roupa “de Domingo”, com excepção de um ou outro, por motivos que adiante se explicarão. Todos alegres e activos como é próprio da idade e representativos dos extractos sociais da localidade, aliás bastante homogéneos. Não havia ricos ou “senhores” cujo modus vivendi se distinguisse em modo assinalável dos demais habitantes.
Havia sim, alguns pequenos proprietários que ostentavam esse título profissional e que também se representam na foto, mas a homogeneidade do extracto social era comum a todos: nascidos no campo que era a aldeia, trabalhadores no campo, um ou outro nas fábricas ou pequenas empresas locais, em diversos patamares profissionais. Uns eram “artistas”, procurados para os acabamentos das casas; outros eram encarregados ou feitores dos proprietários locais, uma meia dúzia, se tanto. Havia os merceeiros, dois ou três; o pequeno construtor civil local que não se distinguia dos restantes trabalhadores a seu cargo a não ser pela maior mobilidade, com a “carrinha” que era também  o seu automóvel e os restantes trabalhadores das pequenas obras de construção civil .
A maioria dos habitantes tinha as suas pequenas courelas, adjacentes ao quintal ou espalhadas pela freguesia e que permitiam a economia doméstica de subsistência básica, com pouco excedente e mesmo assim alguma poupança para as horas difíceis de alguma desgraça ou doença, porque não havia assistência social com rendimento mínimo garantido. O trabalho, no campo ou nas pequenas empresas, era o valor primordial para ter algum rendimento. Alguns, poucos, sem courelas, trabalhavam para outros, “ao jornal”, para ganhar a subsistência de si e dos filhos que por vezes eram muitos.
Os animais, vacas, porcos, coelhos, galinhas, etc. eram a fonte de sustento imediato e permanente da maioria.
As vacas mantinham-se para ajudar nas tarefas dos campos, com carroças de madeira, já com rodas de ferro forjado e que permitiam carregar as ervas, os milhos, as palhas, o estrume, as cargas mais pesadas dos pipos de vinho na altura dele. As carroças do gado eram um instrumento essencial para desenvolver o amanho das terras, com a ajuda dos animais e quase toda a gente que tinha terras e animais também tinha uma carroça ou carro de bois. Onde se compravam esses apetrechos, fabricados por artesãos regionais? Nas feiras semanais numa localidade situada a meia dúzia de quilómetros que se faziam a pé, para lá ir mercar.
O trabalho nos campos carecia de horário alargado: de sol a sol, geralmente. E por vezes pela noite dentro, em desfolhadas, por exemplo, no tempo delas, para o fim do Verão e antes das vindimas. Toda a gente que tinha campos tinha vinhas e em Janeiro-Fevereiro podava-as e sulfatava-as,  para ter vinho novo no Outono. As vides da poda guardavam-se em molhos para queimar na lareira e também se queimavam nas fogueiras do S. João, no calor de Junho.
 O leite que as vacas davam servia para consumo caseiro e para vender, existindo um posto público de recolha desse leite que as raparigas novas ( não eram os rapazes que faziam tal tarefa)  transportavam à cabeça ou em canecos mais pequenos, ao fim do dia, para alimentar as fábricas de laticínios regionais ( Póvoa ou Ponte de Lima). Havia um camião dos lacticínios, organizados em cooperativas que recolhia diariamente as barricas de leite, feitas de metal branco de alumínio e que soavam quando se entrechocavam no camião que as transportava, sinalizando a passagem do veículo.
A tarefa do encarregado do posto do leite era a de assegurar a medida e as condições de sanidade do produto, por visão directa, rejeitando o que não lhe parecia prestar.
O resto servia para o queijo Limiano e para o das Marinhas, cuja manteiga ainda hoje é das melhores do mundo.
Os trabalhos no campo giravam sempre à volta dessa actividade que envolvia os animais e o ciclo da sua alimentação e retorno que provocavam ao proprietário quando se vendiam as crias ou  o leite.
Tal implicava a existência de cortes para os animais, de “astro” ou seja cama de tojo que era preciso recolher nos campos e montes e por isso os mesmos eram limpos dos matos, o que além do mais evitava os incêndios.
Na foto vê-se um monte ao fundo e por vezes ardia, no Verão. Mas era fogo de pouca dura por um motivo simples: as pessoas acorriam logo que viam fumo. Logo era mesmo isso, deixavam tudo e iam acorrer, havendo situações em que se tocava o sino “ a rebate” quando um incêndio ameaçava tomar maiores proporções.
Não me lembro de na infância assistir a um incêndio que demorasse mais de uma hora a ser extinto. Lembro-me de uma vez começar um fogo numa casa vizinha e após os gritos de socorro da habitante os vizinhos acorrerem em bloco com cântaros de água tirada do poço e extinguir o incêndio antes de os bombeiros chegarem, o que aliás era usual.   
Ninguém se queixava particularmente da dureza da vida, para além do que todos sentiam: era preciso trabalhar e havia sempre trabalho para quem precisava ou queria.
Na análise pormenorizada de algumas pessoas da foto nota-se o seguinte:


Com o número 1 está a figura do padre que entra de novo na paróquia. Ainda na casa dos vinte anos, vindo de outra paróquia em concelho distante,  foi acolhido pela população em peso, como se pode ver na foto, no largo principal da aldeia, junto a uma capela cuja torre se vê na foto, ao fundo. No mesmo plano nota-se um “coreto” que servia para albergar a banda de música nos dias da festa anual, no Domingo de pascoela. Esse coreto, a par de outro, no outro lado do adro, foi construído em cimento para substituir os de madeira, amovíveis e montados todos os anos, com grande esforço das comissões de festa, donativos locais e mão de obra também da terra.
Com o nº2 está o presidente da Junta de freguesia, por acaso meu pai, com o meu avô, logo atrás ( nº6) . E porque é que a Junta de freguesia se associava oficialmente a este evento? Porque nem se pensava que tal não fosse assim, como aliás continua a ser nos dias de hoje, embora com maior distância jacobina.
  
O presidente da Junta foi aliás quem arranjou modo de construir a via em que todos passam. O caminho anterior, de ligação daquela parte da freguesia à Igreja principal, fazia-se em lugar apertado por campos de proprietários que tinham possibilidade de deixar crescer as vinhas por cima dele, fazendo copa e sombra no Verão, mas como era também passado por aqueduto de águas livres da chuva de Inverno, tornava-se intransitável sempre que chovia demais. Por isso a necessidade em abrir novo caminho cuja construção foi igualmente participada pelo povo local, assim, na foto de 1965:

Nesta foto está o presidente da Junta ( o mesmo) com “fato de trabalho”, o pároco anterior ( com óculos e de quase perfil) e o responsável da Câmara ( atrás do presidente da Junta) . A olhar para nós, na foto está o Luciano, um ano mais velho que eu e que já morreu, há uns anos, de cirrose ou doença hepática.
O Luciano era filho de pais pobres, muito pobres e com vários filhos que emigraram para França nos anos sessenta, precisamente a época da foto. Na escola não era barra e começou a trabalhar nas obras muito cedo. Basta olhar para ele e adivinhar dificuldades de vida diária, na família ( pai que gostava de beber) e mãe que trabalhava de vez em quando porque tinha mais que fazer. O cabelo era cortado em casa, certamente, com o método artesanal da tijela.
O Luciano excedia numa coisa: a jogar à lerpa ou a desenrascar-se no trabalho. E nessa ocupação dominical, nas tardes junto ao coreto e escondidos das autoridades que pudessem passar ( e passavam se desconfiassem que aí se jogava a dinheiro...) o Luciano era dos ganhadores. Habituei-me a observar o Luciano e outros como ele, com esperteza suficiente que ultrapassava a inteligência necessária e uma vez arrisquei as cinco coroas ( moeda de 2$50) que o meu pai me dava para gastar no Domingo ( e provavelmente durante a semana, em gastos supérfluos). Joguei e...perdi. E perdi outra vez. A lição foi proveitosa porque nunca mais me tentei por jogos de sorte e azar. Fiquei vacinado com essas experiência. 
 
A máquina era da Câmara e a mão de obra, toda, exclusivamente do povo local, como mostram estas fotos do mesmo evento:


Será caso para repetir o slogan esquerdista , “se isto não é o povo, onde é que está o povo?” …

O nº3 na foto é o sacristão que o foi durante décadas. Figura importante na paróquia, encarregado de preparar as alfaias religiosas, ajudar à missa, antes da introdução dos acólitos ( fruto da renovação do Vaticano II) , recolher as dádivas dos fiéis, nas missas, tocar o sino nas diversas circunstâncias dos dias, lançar os foguetes nos dias de festa, pregoar nos leilões ( precisamente no dia da festa que se iria celebrar no dia seguinte. 16 de Agosto), etc.
A foto nº4 está relacionada com esse dia porque  é de um seminarista quase a ordenar-se padre, autor das fotos sobre a “obra da estrada da Igreja” acima mostradas e que iria proferir o sermão da “Missa de festa” naquele dia, a convite do novo pároco.
Esse seminarista era filho da figura com o nº11, um pequeno lavrador local que vivia do que a terra produzia, os animais que tinha, o vinho que guardava e  a economia assim gerada. Já o pai era assim e os filhos deixaram de o ser porque dos três que tinha, só a filha continuou a tradição. Esta, na adolescência, estourou inadvertidamente uma bomba de foguete sem rebentar que trouxe para casa e ficou sem uma mão. Tal não a impediu de fazer as tarefas diárias, até hoje.
Com o nº 13 e quase encoberta está a figura da professora primária local, uma senhora que sendo já cinquentenária tinha vindo de longe quando foi colocada na freguesia nessa função, ainda nos anos cinquenta e que fora professora sucessiva de várias gerações. Casada com um funcionário superior dos caminhos de ferro era “ a Professora”, não podendo faltar ao acontecimento.
Com os nºs 5, 8 e 10 estão figuradas três pessoas da aldeia, típicas: um indivíduo solteirão, lavrador quase abastado, quase analfabeto, de famílias antigas da freguesia e com peso representativo pela posição social ocupada.  Vivia em casa de família com mais duas irmãs, também solteiras e a história da família poderia ser um compêndio do Portugal rural desse tempo, nestas terras do Norte. Pena que ninguém a faça…
A que tem o número 8 é uma viúva, tal como a que se lhe segue imediatamente atrás. Vestidas de preto e de extracção familiar pobre, não se sentiam diminuídas pela circunstância. A que segue atrás tinha a família emigrada em França. Na aldeia trabalhavam nos campos dos outros, como jornaleiras.
Uma das netas casou com o rapaz que tem o nº12 e que também aparece na foto seguinte, com as mãos nos bolsos. Era um aluno inteligente, estudou um pouco, até seguir para França onde os pais já se encontravam também, desde os anos sessenta a trabalhar na construção civil e seguindo as pisadas dos mesmos, chegou a gerente de grande firma de construção até ser abatido por um cancro há alguns anos. Era o “Tone redranga”, um ano mais novo que eu.
Com o nº 10, uma "mãe solteira", já com uma neta ao colo e  que teve dois filhos, de vizinhos, casados e que apesar de se saber tal, nunca foi motivo de  discriminação social ou de comentário público aberto depreciativo. A censura de costumes era essa: sabia-se do assunto mas quem sabia não propalava sem necessidade de tal. Os filhos eram de "pai incógnito" que eventualmente ajudaria, pouco claro e consoante as posses, a criar os filhos bastardos. E o equilíbrio social fazia-se desse modo discreto e com aceitação de harmonia de séculos de costumes.Havia na aldeia alguns casos destes, muito poucos, mas todos integrados desse modo.
Com o nº7 aparece outro rapaz que tinha a alcunha de “pitomorréu” devido à pronúncia característica dos pais que apareceram na aldeia, pouco tempo antes, vindos de outra mais distante e cuja pronúncia das palavras contrastava com a local. Um dia, a mãe, vendo um pinto pequeno de asa caída e quase a entregar as penas ao criador perguntou ao marido “ Ó Jé, o pito morreu?” , e como a conversa foi escutada por vizinhos que estranhavam a pronúncia “estrangeira” a alcunha pegou de estaca, logo que contada a história na mercearia local.
O filho do “pitomorréu” era pobre, filho de pobres, alcoólicos como alguns da aldeia e como se vê, ia descalço, ao contrário dos demais. Apesar disso, a dignidade que tinha como indivíduo não era menor às dos demais, porque os valores então, eram outros que não exactamente os de agora. Não era só a pobreza ou riqueza, mesmo relativa que impulsionava as opções políticas e as ideias sociais, como agora acontece com as ideias de esquerda fundamentais e de "luta de classes". Era outra coisa que também abarcava isso mas de modo mais sincrético e completo.

São esses valores, intrincados e imbricados em todas estas circunstâncias locais e de educação, com as instituições referidas, as personagens elencadas e as idiossincrasias próprias da época que se tornam imprescindíveis entender para que a História se faça de modo correcto e não por um prisma apenas politicamente correcto.
O que falha actualmente quando se escreve sobre o tempo do Estado Novo ou até mesmo o que se lhe seguiu como é aquele retratado nas fotos é essa compreensão clara de todos esses fenómenos.
Quem viveu sempre nas cidades ou apenas conhece as aldeias de cor não poderá apreender todos os cambiantes culturais e sociais que determinam essa História e ajudam a compreender a sociedade portuguesa desse tempo.
Quem viveu ou conheceu apenas o Sul não poderá ajuizar o Norte do mesmo modo, sem conhecer tudo isso.
Sempre que leio alguma coisa agora publicada sobre o tempo do Estado Novo ou do antigo regime lembro-me sempre disto e de como é impossível escrever sobre esse tempo, desligando-o destes fenómenos e principalmente sem ter a noção sequer da sua compreensão obrigatória.
É por isso que escrever sobre esses assuntos não é para todos, parecendo-me que aqueles que têm escrito e são o gotha da nossa intelectualidade lusa têm falta desses requisitos mínimos para tal e por isso escrevem burricadas e obras de ficção sobre a História que tentam narrar.
Ler o que escrevem assemelha-se muitas vezes a um relato de sociedade sub-tropical efectuado por um nórdico das tundras: só apreende as aparências e interpreta os sinais com um código errado.  Logo, torna-se desprezível como documento de realidade histórica. 

Por último e com o nº9 o fotógrafo da aldeia vizinha que aparecia sempre a documentar estes acontecimentos festivos, As fotografias que tirava eram reveladas do modo antigo, em papel que perdurava décadas. Havia dois fotógrafos para estes eventos e eram ambos pobres, amadores e andavam de bicicleta. O que tirou a foto é um deles; o outro é o retratado que traz a máquina ao colo para depois tirar os retratos individuais a quem o solicitasse. 
As fotos de ambos mostram mais que muitos livros escritos pelos Rosas&Flunser...e eram quase analfabetos.


Continuamos a ter aldrabões a governar

Alexandre Homem Cristo, Observador:

A 19 de Junho, dois dias após o incêndio de Pedrógão Grande, a equipa do ministério da Administração Interna informou que a rede SIRESP estava “a funcionar com toda a normalidade” e que “em nenhum momento esteve inoperacional”. A 6 de Julho, quase três semanas depois e com muitas averiguações feitas aos serviços da Administração Interna, o governo assegurou que as falhas no SIRESP eram de “menor relevância”. Entretanto, a 17 de Julho, António Costa abria a porta ao reconhecimento de que o SIRESP havia deixado de funcionar num momento crítico, afirmando que “temos de ter uma rede que funcione em todas as circunstâncias – é inadmissível que não funcione, em particular as redes de comunicações de emergência”. E a 28 de Julho, a ministra da Administração Interna assume a existência de um “problema efectivo” no SIRESP, mas deixa o aviso aos seus críticos: “é uma falta de sentido de Estado estar sempre a lançar lama sobre o SIRESP e a desestabilizar”.
Estas são as quatro primeiras versões (há uma quinta, já lá vamos). Recapitule-se: (1) a de o SIRESP ter funcionado com toda a normalidade; (2) a das falhas do SIRESP terem sido de “menor relevância”; (3) a de que o SIRESP falhou excepcionalmente num momento de emergência; (4) a de que há um problema efectivo no SIRESP. Ora, apesar de contraditórias, estas versões têm em comum um único foco de responsabilidade: o SIRESP, a sua gestão e a sua articulação com o Estado. Primeiro, para o ilibar. Depois, para o comprometer cada vez mais.
É, pois, sob esse foco que se tem debatido na arena política e investigado na imprensa. E é também nesse sentido que, a 9 de Agosto, a ministra da Administração Interna fez saber que pediu à Secretaria Geral do seu ministério que iniciasse “os procedimentos necessários à efectivação da aplicação de penalidades à SIRESP SA por falhas de disponibilidade e por falhas de desempenho, em cumprimento do contrato, bem como da sua responsabilidade enquanto operadora, pelo funcionamento do sistema”. Ordem que, de acordo com uma interpretação prévia de Joaquim Miranda Sarmento, especialista em parceiras público-privadas, terá pouca margem para sucesso, face a uma cláusula “força maior”, que consta do contrato e que impõe sobre o Estado a responsabilidade nos momentos de desastres naturais. Uma interpretação que a ministra Constança Urbano de Sousa rejeita, embora a 28 de Junho, no parlamento, tenha reconhecido a existência de um “fenómeno extraordinário”.
Tudo isto colocou o governo numa posição desconfortável. É que esta quarta versão dos factos, negada de início e depois forçada pela investigação dos jornais, é incómoda (expõe a incompetência governativa na articulação com o SIRESP) e particularmente problemática para o primeiro-ministro. António Costa assumiu a pasta da Administração Interna no governo de José Sócrates e, nessas funções, liderou a renegociação e a assinatura do contrato do SIRESP – ou seja, isso torna-o co-responsável político do problema que o SIRESP se tornou e pelo conteúdo no contrato desta PPP.
Não surpreende, portanto, que três dias depois, a 12 de Agosto, surja a quinta versão dos factos, desta vez pela boca do primeiro-ministro, para que fique definitiva: o SIRESP “colapsou” mesmo e a responsabilidade afinal é da PT. Vendo para além dos relatórios e dispensando as conclusões da comissão de peritos que o parlamento convocou, António Costa já apresentou a sua (nova) versão dos factos. Uma versão particularmente conveniente, diga-se. Por um lado, iliba o governo e anula as suas co-responsabilidades. Por outro lado, faz de bode expiatório uma empresa (Altice, detentora da PT) à qual declarou guerra e contra a qual tem direccionado as suas críticas – e, já agora, ameaça-a com a mudança do SIRESP para outra operadora. Situação win-win.
Faltam quatro dias para se completarem dois meses desde o incêndio de Pedrógão Grande. Sobre o que correu mal, há versões em abundância, mas certezas ainda só uma prevalece: o governo tudo fará para se descartar de responsabilidades, tanto operacionais como políticas. Sim, Marcelo vincou que há que “apurar tudo, mas mesmo tudo” sobre o que aconteceu em Pedrógão Grande. Mas os actos contam mais: se, no final, aceitar este atira-culpas político, fará também ele parte do logro.

Há uma similitude de procedimentos no caso Sócrates e do seu antigo ministro, António Costa que também tinha sido antes governante de Guterres:  são ambos aldrabões de alto coturno. 

domingo, 13 de agosto de 2017

Magalhães & Silva, Catão de circunstância

O advogado e fundador do PS, Manuel Magalhães e Silva escreve umas croniquetas no CM, de vez em quando.

Hoje deu para assumir  um papel que lhe assental mal, o de Catão. Magalhães e Silva é advogado de firma prestigiada no gotha do nosso universo político e portanto, privilegiado em funções que se distinguem, desde as governativas até às de supervisão. Deve por isso ganhar a vida em proporção à importância que tem nesse universo.



Este advogado  devia estar calado nestes assuntos de seriedade porque a desmultiplicação dos papéis em jeito de catão que assume publicamente só se compara com a gomina que põe no cabelo para brilhar na tv, onde frequentemente é chamado para debitar opinião sobre tudo e o habitual par de botas, particularmente em assuntos de justiça candente que envolva notáveis do PS e arredores.

Esta notícia é do JN, de 3.2.2013 e não me dei ao trabalho de procurar mais na internet, no Base para ver mais:
 
"Alguns dos maiores gabinetes de advogados são contratados ano após ano para prestar serviços de assessoria e consultoria jurídica a entidades públicas.
A lista, disponível na Internet, mostra que no ano passado foram entregues ajustes directos a consultórios de advogados no valor de 7,6 milhões - inferior ao entregue em anos anteriores, reflexo da contenção notada em todos os ajustes directos, mas ainda assim suficiente para pagar o projecto de requalificação do troço nascente da Avenida da Boavista, da Câmara do Porto.
Em 2012, os maiores adjudicados foram a BAS (a sociedade de Pedro Madeira de Brito e Artur Filipe da Silva, com 548 mil euros), a Abreu & Associado (411 mil), a Nuno Cerejeira Namora, Pedro Marinho Falcão & Associados (386 mil), a Jardim Sampaio, Magalhães e Silva e Associados (367 mil), a Paz Ferreira & Associados (346 mil) e a Sérvulo & Associados (314 mil). Em número absoluto, esta sociedade foi a que assinou mais contratos.
Este ano, sobretudo graças aos 650 mil euros que o Banco de Portugal pagará à Vieira de Almeida & Associados por serviços de assessoria jurídica, durante três anos, o valor contratado com gabinetes de advogados ultrapassa o registado na mesma altura do ano passado.

Alexandra Figueira | Jornal de Notícias | 03-02-2013"


 Costa e Lacerda Machado conhecem-se desde a faculdade, onde se tornaram bons amigos, ao ponto de este ser depois seu padrinho de casamento. O outro amigo próximo era Eduardo Cabrita, com quem o jovem advogado parte depois para Macau, onde está dois anos como assessor jurídico — indicados precisamente por Costa ao então secretário-adjunto Magalhães e Silva. É aqui que conhece Jorge Coelho, que se lembra dele como um jovem “afável e competente”, que fazia parte da equipa de futebol que organizava.

É deste tipo de atitudes que detesto particularmente: estes indivíduos falam como se fossem donos de uma moral que arvoram em público, apenas porque são alguém politicamente e portanto com as costas sempre aquecidas pelo conforto político. Sem isso seriam zero no panorama mediático-social. Ou antes, seriam tanto como os demais que não têm esse poder. 

O tal juiz de Oeiras que é afilhado de casamento de um dos candidatos à Câmara, das duas uma: ou decidiu mal, legalmente e portanto poderá vir a ser sindicada a sua decisão; Ou decidiu mal, por peita moral, por prevaricação deliberada e tal não se sindica com artigos manhosos como este. Ou então decidiu bem, legalmente e por isso sem motivo algum para crítica, o que deveria envergonhar quem escreve desse modo e afastá-lo de vez de toda a actividade pública de supervisão de comportamentos de magistrados, precisamente por causa da suspeita, agora séria, de má índole ou má capacidade de ajuizamento de quem assim actua.

Presumi-lo corrupto e deixar a suspeita que não é sério, como faz Magalhães e Silva, tendo em conta o que este representa politicamente e pela actividade que publicamente tem exercido, é um exercício venal em prol de  uma moralidade de vão de escada e representa um grau mais acima na hipocrisia ambiente.

Se há coisa que o advogado Magalhães e Silva devia resolutamente abster-se de fazer é a prolação de juizos morais escritos e publicados sobre comportamentos alheios deste género relativamente a magistrados.

sábado, 12 de agosto de 2017

A miséria do socialismo: ideias erradas sobre o progresso.

Esta crónica de Filipe Pinhal no Sol de hoje afigura-se uma das melhores explicações do modo como o socialismo traz miséria, prometendo progresso...


As ideias que o socialismo combate, são, para além do mais, estas, explicadas no Expresso de hoje por Vasco de Mello, um dos membros das "famílias" que foram expoliadas no PREC pelos comunistas e socialistas que queriam tomar conta do que nunca conseguiram: aprender a gerir empresas e fazê-las prosperar. Esperavam que a simples expropriação da riqueza alheia se tornasse fonte de progresso e determinaram apenas bancarrotas sucessivas: