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quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Éticas vulgaríssimas

O escândalo empolado da associação Raríssimas ( parece que vestia "luxo" asiático de 200 euros...imagine-se o desaforo!) é sinal de outra coisa bem mais grave e subterrânea,  a que uma notícia de hoje pode levantar o véu e que aliás suplanta qualquer escandaleira de meia tijela com factos de tijela rachada ( carros "BMW", "viagens a lugares paradisíacos", etc.):

Observador:

O ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Vieira da Silva ocupou o cargo de vice-presidente da Assembleia Geral da Raríssimas, avança o jornal Público. O cargo na vice-presidência da Assembleia Geral foi ocupado entre 2013 e 2015 — antes de ser ministro no actual Governo, confirmou o gabinete do ministro ao mesmo jornal.
O cargo de Vieira da Silva na Raríssimas é o único “cargo social” que consta da declaração de registos de interesses divulgada pelo ministro e consultável na página do Parlamento.

Este ministro Vieira da Silva é um personagem sinistro há muitos anos. De facto, desde o caso Casa Pia.
Enquanto esteve em pousio politico-governativo deve ter andado por aí, sempre ao lado do largo do Rato, em actividades beneméritas como a apontada.

Seria muito interessante conhecer o que ganhava com isso. Realmente, ou seja, o que lhe entrava na conta pessoal todos os meses.

Mário Soares, um dia, classificou Paulo Portas como um "tumor que devia ser extirpado". É precisamente o caso desta personagem mirolha ( não resisti porque me enoja, este indivíduo).

Se alguém quiser mesmo levantar outros véus de escandaleiras avulsas e pindéricas, como é este caso, terá mesmo muito por onde esgaravatar, por exemplo  pelos beneficiários directos desta condenação que deu então à Raríssimas e outras associações beneméritas algumas centenas de milhar de euros. As "auditorias" a estas instituições  já provaram que não descobrem coisa alguma e deviam acabar, dando lugar a sindicâncias avulsas e a pedido fundamentado, mesmo anónimo:

Os juízes decidiram que as verbas das indemnizações aplicadas aos três condenados e que lhes permitem evitar as penas de prisão são destinadas a instituições de solidariedade e têm que ser pagas no prazo de seis meses.

Assim, Jardim Gonçalves vai entregar metade dos 600 mil euros à Ajuda de Berço e o remanescente à Raríssimas - Associação Nacional de Deficiências Mentais e Raras. Filipe Pinhal vai pagar 300 mil euros à Acreditar - Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro e António Rodrigues tem que avançar com 300 mil euros para a CASA - Centro de Apoio ao Sem Abrigo
.

O que esta escandaleira pindérica mostra é que a ética é uma batata e não dá de comer a ninguém, como dizia esse génio televisivo chamada Teresa Guilherme, rainha dos reality shows. O ambiente é o mesmo...

Aliás, esta é fresquíssima:
 
A estação pública de radiotelevisão vai gastar mais de 480 mil euros no aluguer operacional de 47 novos automóveis, segundo o contrato entre o canal e a Finlog, publicado na terça-feira no portal Base.
O contrato “de locação de bens móveis”, assinado com a empresa Finlog a 25 de outubro, estabeleceu o pagamento de 480.991,20 euros, mais IVA, e tem um período de 48 meses para um número de quilómetros que varia entre os 40 mil e os 140 mil quilómetros em função da tipologia de viaturas.
Por mês, a RTP vai pagar algo entre os 170 euros (viaturas tipo C, pequeno monovolume) e os 300 euros (viaturas tipo E e F, carro todo-o-terreno), de acordo com o contrato disponibilizado para consulta.

Qual a diferença entre a escandaleira pindérica da Raríssimas e esta, bem mais sofisticada da RTP dirigida por uma cambada? Apenas uma: os montantes em dinheiro que movimentam. A ética é a mesmíssima e vulgaríssima.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Os intelectuais de importação

Os intelectuais em Portugal parece que se extinguiram como espécie há cerca  de dez anos, com a morte de Eduardo Prado Coelho.

De resto,  mesmo este último exemplar enquanto vivo, intelectualizava através de outros semelhantes, um pouco mais evoluídos, que vivem além dos Pirinéus e ainda sobrevivem na penumbra dos dias que passam.

De vez em quando as revistas francesas que frequentam o meio, dão-lhes algum palco quando não fazem o balanço a benefício de inventário.

Em 20 de Maio de 2010 a mais influente dessas revistas dava-lhes uma capa e  vários artigos :



 Numa entrevista, um deles- Pierre Nora- fazia então o ponto da situação:quase um balanço final. A Economia tomou conta de tudo.



 No entanto, já em 18 de Março de 1991 outra revista francesa- Le Point- tinha feito tal balanço e destacado mesmo as disciplinas em decadência com destaque para o "estruturalismo" e a perda de importância de um Claude Lévy Strauss, de um Bourdieu ou de um Lacan, tudo gente muito lá da casa daquele falecido por cá.


Aliás, os franceses tinham o referido Claude Lévy-Strauss,  um etnónolgo que esteve no Brasil a fazer estudos, nos anos trinta do século passado, como um génio. Por cá parece que também é assim, ainda hoje...

Em Maio de 2008 a revista Magazine Littéraire consagrou-lhe um número inteiro, considerando-o "o pensador do século". Nem menos..



Algumas destas ideias ainda vicejam por cá nos isctes todos e madrassas anexas e sofremos as consequências dessa influência nefasta.

Por exemplo, no número de 20 de Maio de 2010, daquela Le Nouvel Observateur aparecem estas duas páginas em que a propósito da ideia comunista dialogam dois intelectuais Alain: Finkielkraut e Badiou .

A conclusão é aplicável nos dias de hoje ao PCP e ao BE: o desiderato de ambos é a destruição do outro que não pensa como eles, porque é essa a lógica que os anima, conforme Finkielkraut deduz das proposições do comunista Badiou. O totalitarismo que se justifica em nome da causa justa e a exclusão de quem não pensa como eles, se o puderem fazer. Tal como o nazismo ou o verdadeiro fascismo. Terroristas, portanto.

É com este tipo de gente que lidamos, em Portugal, sempre que ouvimos os jerónimos, os arménios, catarinas e louçãs. O problema é que ninguém os olha desse modo porque os media não mostram tal faceta. E isso acontece porque são eles quem os domina, mesmo que não pareça.


Aliás, em Março-Abril de 2014 a revista francesa Philosophie publicou um número especial sobre os "filósofos e o comunismo".

O mesmo Badiou, ideólogo do comunismo renovado e professor na escola Normal Superior, em França trocava argumentos com Marcel Gauchet chefe de redacção da revista Débat e pensador de referência da democracia liberal.

Três páginas desse debate:


Os franceses, porém, mesmo de esquerda já em 1996 achavam que tudo isso precisava de uma barrela...como se publicava na L´Évènement du Jeudi ( que deu origem à Marianne, saída em 1997 e que também trata destes assuntos de vez em quando) de 5 de Setembro de 1996:



Por cá, mesmo no tempo daquele falecido Prado Coelho havia pouca gente a discutir isto. Porém, nas escolas e madrassas havia de certeza muita influência destas doutrinas.

A prova de que ninguém liga nenhuma a isto é a publicação de um livro, o ano passado nos EUA, de Tom Wolfe, além do mais sobre o "darwinismo", chamado "The kingdom of speech", o reino da linguagem. Wolfe atira-se a...Chomsky, o linguista.
Já encomendei o livro mas por cá nem existe referência alguma.Preferem traduzir merdas a esmo.

Se não fosse a revista francesa Obs desta semana nem dava por isso...




segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O novíssimo nacional-jornalismo

Há qualquer coisa de errado no jornalismo nacional da actualidade.  Para além de um modo de relatar factos e acontecimentos reportados a um passado de certa forma inventado,  nota-se agora uma estranha obsessão em pintar esse  passado com as cores de fantasmas passados cuja manifestação tinha cessado há algumas décadas atrás.

A efeméride dos 50 anos das cheias de 25 de Novembro de 1967 na região de Lisboa é um bom exemplo desse fenómeno.

Reparei nisso quando li esta reportagem de lembrança da mesma efeméride no Público de 23 de Novembro de 1997, aquando dos 30 anos dessa tragédia.

Compare-se este escrito com os que agora foram produzidos no mesmo jornal e noutros da actualidade:


Nem Salazar ou o salazarismo. Nem o fascismo ou a censura. Nem a miséria apontada ao regime ou mesmo a responsabilização directa pela tragédia. Nada disso, apenas os factos ocorridos relatados pelas gentes que os viveu, com as histórias pessoais que ainda lembravam.

Em 1977, nos dez anos de tal acontecimento nada apareceu nesses jornais de então, nem sequer  lembrança da tragédia vivida ainda por muitos vivos na época.



Porquê agora este destaque e enfoque particular no regime de então, mais de 40 anos depois de o mesmo ter desaparecido? Porque é que todo, mas mesmo todo e sem excepção, o jornalismo actual adoptou agora esta narrativa particular dos acontecimentos?  Deve existir uma explicação para este aparecimento vivificado da nova fantasmagoria de antanho.


Uma que me parece plausível tem a ver com a doutrinação jornalística da actualidade. A primeira escola de jornalismo enquanto tal surgiu em 1968, com a chegada de Marcello Caetano ao poder, conforme se mostrou anteriormente ( Século Ilustrado de 30 de Novembro de 1968):


Os professores de então eram pessoas ligadas às letras e cultura, não necessariamente adeptos do regime. Houve logo 400 inscritos para a frequência do curso, incluindo directores de jornais e alguns desses alunos foram certamente redactores das notícias que saíram em 25 de Abril de 1974 e nos tempos que se seguiram.

As actuais escolas de jornalismo reflectem um pouco isto que no outro dia se publicava no suplemento do Sol. A propósito de um suicídio em directo, na tv, explicava a jovem jornalista que os suicídios não são notícia, geralmente e tal tem um propósito: o senso comum em evitar réplicas. Não sei porque não se aplica o mesmo raciocínio a outros fenómenos socialmente destrutivos, mas enfim uma coisa poderá dizer-se: a censura, antes de 25 de Abril de 1974 também tinha esse benemérito propósito e por isso já vi escrito que nessa época não se podia noticiar casos de suicídio porque a censura não permitia  o que obviamente colide com a justificação apresentada à luz actual mas coincide com a realidade desse modo distorcida.
Esta espécie de antonomásia  em que a censura figura um regime explica um pouco o fenómeno acima exposto: certos relatos jornalísticos explicam-se por outros motivos que não a censura estrita, tal como certos acontecimentos ocorrem à revelia de qualquer regime.


 Então porque se inventa, passados 50 anos, uma história que se reescreve segundo parâmetros explicativos que afinal terão pouco mais de uma dúzia de anos?
 
Por outro lado, a alteração dos critérios jornalísticos e a mudança de paradigma no modo como se relatam factos e acontecimentos, conduzem o leitor e espectador ao que vulgarmente se chama agora "pós-verdade" ou verdade substitutiva da realidade, por aditamento ideológico-político em substracto.

Portanto, uma grande mentira.

O que aconteceu ao jornalismo caseiro para que este fenómeno se espalhasse como fogo na palha de modo que se uniformizou e tornou paradigma?

Foram certamente as escolas, os professores e os exemplos de redacção. Quem dominou todo este panorama intelectual nas últimas décadas? Os mesmos que tinham dominado as anteriores, ou seja a esquerda.
E porque razão esta mesma esquerda não sentiu necessidade em atacar o regime de há 50 anos, quando ainda passavam dez ou vinte anos sobre tal efeméride?

Julgo que a resposta pode ser dada com este exemplo, do O Jornal de 25 de Novembro de 1977: nessa altura até um crítico de cinema se dava ao luxo de explicar o que era o "fascismo", subentendendo sempre que o anterior regime assim o era.


Hoje em dia não se escreve assim, mas reportam-se os acontecimentos desse passado enquadrando-os no sistema de valores e referências culturais que entretanto foram ensinados aos alunos de jornalismo e ao povo em geral. O discurso substancial permanece o mesmo, portanto a mudança foi apenas aparente.
O que mudou de facto foi apenas a forma de actualização histórica em que a verdade tem que coincidir com o relato ideológico subjacente. Mesmo que seja falsa.
O novíssimo jornalismo nacional é uma expressão do nacional-jornalismo, uma subspécie do totalitarismo.
Agora não se explica o que era o "fascismo", apenas se diaboliza o regime anterior através de invenções escritas e conceptuais  sobre fenómenos que não existiam enquanto tal mas se tornaram numa realidade alternativa destinada a explicar em modo actual e moderno o que dantes era reduzido a uma palavra e um conceito.
 Como essa linguagem passou de moda, permanecendo  apenas activa nos sarcófagos comunistas , inventou-se uma nova linguagem que é a que vemos em uso corrente. 
A Mentira, essa, é a mesma de sempre.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Bullying mediático-feminista

No Público de hoje várias mulheres, incluindo uma articulista- Ana Cristina Pereira-, uma investigadora de "estudos de género" ( !!!), Sofia Neves; uma associada de uma organização de mulheres ( !!!!) UMAR, Elisabete Brasil; uma investigadora de uma associação de estudos sobre mulheres (!!!!!), Isabel Ventura; uma especialista em igualdade de género e violência doméstica (!!!!!!), Leonor Valente e nenhum homem, atiram-se como gato a bofe a uma decisão judicial de primeira instância, ainda não transitada em julgado porque objecto de recurso para a Relação.

A decisão é relativa a um julgamento de um caso de violência doméstica associada a um crime de detenção de arma proibida que permitiu o julgamento em colectivo. Assim parece porque é dado o nome de acórdão à decisão, mas tal não é claro porque aparece apenas o nome do juiz relator, como visado directamente na notícia. O costume das imprecisões jornalísticas sempre afoitas em ver argueiros alheios sem topar as traves que se lhes anteparam.

Aqui fica o artigo, mais um,  da tal jornalista destes costumes lamentáveis, o qual tem mais uma página sobre estatísticas de casos semelhantes e que procura levar água a um moinho de vento de uma história necessariamente mal contada. Porque há sempre dois lados de uma mesma história e aqui só aparece um deles.


Lendo o artigo o resumo é simples e linear: há uma vítima e um algoz e este foi absolvido porque o tribunal não soube analisar a prova que estas especialistas em feminismo militante topam à distância de uma olhadela breve para o teor de uma decisão que aparentemente nem sabem ler.

Nem tal se torna necessário porque a ideia básica é refazer o julgamento feito com base nos depoimentos e queixas da vítima, mulher sofrida como elas. Isenção, distância, independência, ponderação, razoabilidade, bom senso, nesta questão? Não são qualidades que importem a estas especialistas do feminismo. Importante, sim, é desancar o machismo que lobrigam pelo buraco de uma fechadura de  casa de família. A violência é doméstica.
O caso concreto? Conhecem bem, segundo julgam. Já passaram por outros e são todos iguais: as mulheres são vítimas de violência doméstica; os homens os seus algozes, sem direito a defesa alguma porque já são defendidos pelos preconceitos existentes na sociedade.
Estas feministas querem por isso destruir tais preconceitos porque a sua causa é essa luta.
Tal como dizia uma colega delas, chamada Isabel Moreira, filha de um salazarista de antanho convertido à democracia, é preciso que os homens tenham medo das mulheres porque até agora tem sido o contrário ( disse-o claramente no último Prós&Contras, embora com a nuance de uma correcção canhestra e intempestiva e aliás apontada por outrém, o jornalista Sebastião Bugalho que lhe ganhou neste jogo de berlinde).

É isso que estas feministas pretendem acima de tudo: que os tribunais condenem os homens, sistematicamente, com as provas únicas de uma declaração de vontade das vítimas, credoras de toda a veracidade no que dizem e fazem em julgamento. Basta-lhes essa prova rainha sem necessidade de mais contraditório que dispensam. Mulher que acusa o marido é vítima, pela certa e tal não carece de prova porque muitas vezes impossível será.
Se o julgamento judicial não lhes agrada partem, se puderem, para o julgamento mediático, histérico se for preciso e contando por esse meio colher a vantagem que perderam naquele.

Será o caso deste caso? É mais que provável e passo a expor.

O artigo começa pela enunciação de factos que constam no acórdão, mas não de todos eles. Apenas meia dúzia para apresentar um contexto espaço-temporal. As demais circunstâncias obrigatoriamente pendentes na decisão ficam omissas, nomeadamente as que explicam e apresentam o contraditório.

O julgamento mediático, jornalístico, ao contrário do judicial dispensa tal contraditório, dispensa qualquer isenção e imparcialidade e dispensa a objectividade.
Ao longo do artigo será escusado procurar a versão do arguido acusado, do seu defensor ou das prova que existirão em seu favor. Como principal defensor deste é apresentado o juiz relator do acórdão, abertamente acusado de parcialidade e deturpação dos factos.

Embora estas circunstâncias resultem da leitura apressada dos argumentos da "assistente" são os mesmos dados como a expressão da verdade e por isso da imputação ao juiz na primeira página que o desgraçado Dinis ou alguém por ele, ao Domingo assim permitiu: os "juízes duvidam que uma mulher autónoma possa ser vítima de violência doméstica", topam a mensagem? É este o meio:


A primeira reacção recolhida à decisão é a de uma "investigadora do Centro Disciplinar de Estudos de Género da Universidade de Lisboa, docente no Instituto Universitário da Maia, presidente da Associação Plano I", Sofia Neves: "é arrepiante", sem mais. Ou com mais este molho: " o texto está carregado de estereótipos, de preconceitos".
Para bem ser, em vez desses putativos preconceitos seria melhor o preconceito ao contrário, alvitrado pela esotérica Isabel Moreira: meter medo aos homens, após uma denúncia de qualquer mulher por violência doméstica.

O que estas feministas pretendem é apenas isso: trocar o velho ditado, fruto de sabedoria antiquíssima de "entre marido e mulher não metas a colher" pela asserção modernaça da vitimização da mulher e punição do homem investigado por método inquisitorial. Não há contraditório admissível a quem agride uma mulher, desde que esta o declare como tal. A culpa incumbirá sempre ao agressor e o ónus da prova de inocência também.

No artigo diz-se que não foi possível ouvir o magistrado que acusam de malfeitoria porque este explicou que o não pode fazer, por reserva. Não importa, porque essa reserva não se aplica ao jornalismo trash que se pratica em prol de uma causa benemérita: o feminismo activista.  O juiz em causa, apesar de a decisão ser colectiva, aparece com nome posto e a insinuação de que o CSM tem que se pronunciar sobre o caso escandaloso, tal como fez no outro caso da Relação do Porto. Assim, claramente.

E que mais resta dizer deste julgamento mediático, apenas com prova da acusação? Que este jornalismo é um nojo? Fica implícito. Que é incompetente? Fica dito. Que é preconceituoso no limite das contradições em que se coloca? Fica esclarecido.

Um julgamento judicial parte de uma acusação com delimitação do objecto processual e com as provas tarifadas que são apresentadas e debatidas em audiência pública. Esta decorre em imediação, ou seja, com todas as pessoas cara a cara, em princípio e aí se avalia o que depõem e de que modo, ou seja qual a veracidade do que dizem ou desdizem. Pode ser um método falível e até no caso concreto o poderá ter sido mas ainda não se arranjou um método melhor. Será este jornalismo de causas, o preferido para se substituir àquele?

A dinâmica de um julgamento deste teor com factos em causa, só poderia ser sindicada com a repetição da visualização de toda a audiência que ficasse gravada em video e mesmo assim, ficariam dúvidas, no final relativamente à credibilidade de testemunhas e depoimentos e portanto dos factos apresentados.

Três juizes em julgamento efectuado deste modo serão sempre infinitamente mais capazes de avaliar os factos do que o depoimento avulso de cinco feministas convictas de que um agressor doméstico é culpado ipso facto, tendo em conta que o fazem lendo o que aqueles escreveram sobre o que presenciaram em audiência. Ainda por cima sem qualquer contraditório que aqueles observaram e atenderam.O arguido, aqui, não existe como entidade susceptível de defesa. Tal como nos piores momentos da Inquisição é apenas um condenado de preceito porque afinal é culpado que não foi capaz de demonstrar a inocência perante uma acusação da vítima. Fogueira com ele!

Se uma jornalista não percebe isto devia mudar de profissão porque não percebe nada do que anda a fazer. Ou então percebe demasiado do que não devia fazer: jornalismo de causas contra alguma coisa. No caso, os homens.

O Estado da corrupção perfeita

Notícia do CM de hoje:


A notícia significa isto: o negócio dos pareceres jurídicos pedidos pelo Estado, em Portugal custa cem milhões de euros por ano! Cem milhões!  É com isto que contam as empresas de advogados que assim recebem o estipêndio do Estado para sobreviverem à custa do Orçamento e do dinheiro público. Subsídios que o Estado, através de um governo com muitos advogados à ilharga concede para manter o nível de vida dessas grandes empresas e pequenas também como a dos apaniguados do regime.

Há uns dias saiu um diploma aprovado pelo Governo- D.L.149/2017 de 6 de Dezembro- que se destinaria a disciplinar esta actividade altamente lucrativa ( não tem gastos materiais a não ser o tempo que leva a elaborar o parecer cujo conteúdo na maior parte dos casos não passa de algumas dezenas de páginas com referências jurídicas discutíveis e cuja essência é quase sempre a inutilidade para além da formalidade jacobina da sua existência.

Esta pouca-vergonha dura há décadas porque há décadas que são advogados quem orienta os executivos, na sua maior parte.
Há ministérios de certos governos que não passam sem esta comparticipação privada na governação como foi o caso de Paulo Portas nos negócios em nome do Estado na Defesa nacional e em algumas privatizações.  O Lacerda que agora ajuda o governo sabe muito bem como é e outros Sarmentos também, para além das Cristas que por aí andam. Um especialista é o advogado casado com a ministra da Justiça. Em direito fiscal não há quem o bata e o Estado está muito carente de jusristas que, coitados, apenas ganham o salário de funcionários e são obrigados a escrever pareceres que enformam os processos tributários. Esses parece que são inúteis porque há sempre outros, privados, pagos a esta mesa lauta do orçamento avulso dos ajustes directos.

Cem milhões dá para tudo, este ano que vem. Para o próximo há mais.

Esta notícia do Sol já tem mas de meia dúzia de anos mas não é por isso que se modificou fosse o que fosse no Estado-Administração.

 https://4.bp.blogspot.com/-CXNoLxhtbs8/WifXO-9hsII/AAAAAAAAkLM/_SoeLm07dRAGUKTAqx4Tdg97HVQqHkjBwCLcBGAs/s1600/advogados-e-estado1.jpg


Quem beneficia neste negócio? O Estado? É muito duvidoso porque aposto que a maior parte dos pareceres são apenas verbo de encher os bolsos dos grandes escritórios da advocacia nacional, para confortar oposições aguerridas ou silenciar

Mas...vem aí uma tal JurisApp, uma invenção recente destes governantes para enganar o povo mais uma vez e cuja composição pessoal vai ser mais uma negociata política, como de costume.
Agora, a contratação de advogados depende de um parecer que até será obrigatório e vinculativo mesmo para serviços da administração indirecta do Estado. Menos para o "sector empresarial do Estado" que esse é um mundo áparte de taps e tapinhas dos lacerdas e companhias orientais.

E quem dará tal parecer? Uma nova entidade, pois então: a tal JurisApp. Uma espécie de cresap para seleccionar advogados a contratar pelo Estado-Administração directa e indirecta.

Com cem milhões para sindicar vai ter muito que fazer, a JurisApp. Ou talvez não...embora seja muito difícil descortinar quem vai sindicar os contornos destes negócios todos, com os media que temos,  a quase completa ausência de escrutínio público destas negociatas, em muitos casos.

As contas que se aproximam dos 10 milhões de euros por mês, darão para gastar, com autorizações de pagamento despachadas pelas secretarias dos ministérios, tudo legalmente e à fartazana.

Vai dar para todos...não temos emenda e este Estado comunga do fenómeno da corrupção perfeita.

A tal que não se dá por achada. Mas teremos sempre os discursos de quem a "combate" ,  para entreter. Pour épater le bourgeois, como dantes se dizia.

Portugal, 1968

Em 26 de Outubro de 1968 a revista Século Ilustrado publicou uma reportagem de uma visita  à aldeia de Quintas que no ano anterior, na noite de 25 de Novembro de 1967  tinha sido inundada de água das cheias ( cerca de 4 metros de altura na aldeia) que terão provocado a morte a mais de 100 pessoas e a mais outras centenas,  nessa região.

  Um repórter conta que chegou a contar 75 cadáveres e então desistiu de contar...e um ano depois a câmara municipal diligenciava pela construção de 30 casas para desalojados pobres.



Salazar já não estava no poder, tendo sido substituído por Marcello Caetano em finais de Setembro de 1968.
Em 30 de Novembro desse ano, a mesma revista dava conta da abertura da Primavera marcelista. Anunciava-se o I curso de jornalismo.


A revista publicava nesse número uma reportagem sobre uma profissão particular e o que então se ganhava a distribuir correio: os carteiros. Basta fazer as contas e aplicar o coeficiente de desvalorização para se perceber se ganham melhor agora...


Ao mesmo tempo dava uma ideia do que custava estudar em Lisboa, para um estudante universitário que viesse de fora, "da província" como então se dizia:




  Entretanto, no número de 2 de Novembro de 1968 dava-se conta dos problemas do ensino secundário, para 140 mil jovens num universos superior  um milhão que não o frequentavam. Este texto provavelmente terá sido censurado. Mas repare-se na mensagem implícita que permitia ler nas entrelinhas...






Entretanto havia profissões em vias de desaparecer por mudança de costumes: os moços de fretes. Aparece o relato do moço de fretes que ajudou a montar a mobília da casa de Salazar.
Também havia disso até há bem poucos anos, nas estações de combóios de Campanhã e Santa Apolónia.
Século Ilustrado de 26.10.1968:


 Nas ruas de Lisboa havia "livros de cow-boys" e de amor conforme se mostrava na edição de 28 de Dezembro de 1968



Numa "sondagem" de rua, em 23 de Novembro de 1968, no Rossio, várias pessoas responderam a certas perguntas sobre o que esperavam encontrar nos jornais que liam. Um deles era um juiz de direito, José António Almeida Ribeiro que não se coibiu de dar a sua resposta. Se fosse hoje, um juiz não daria resposta alguma se fosse identificado, como este o foi e que respondeu sobre a primeira coisa que lia no jornal: a necrologia.


  Numa reportagem alargada em 23 de Novembro de 1968 com opiniões recolhidas e escolhidas ( Maria Teresa Horta, por exemplo...) dava-se conta do que significavam as mulheres na sociedade portuguesa de então:





Outro texto interessante surgiu no Século Ilustrado de26 de Outubro de 1968 sobre um personagem da intelectualidade esquerdista de então. Marcuse era apontado como um influenciador dos acontecimentos de 1968, mormente de Maio em França, mas ao mencionarem-se os da Checoslováquia, no ano anterior, a dúvida paira...e o debate não chega a iniciar-se. Em França, sim. E foi por isso que o P. Comunista francês desapareceu nesse combate enquanto o de cá continua por aí, a arrastar o sarcófago.