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quarta-feira, 23 de Abril de 2014

Um discurso de Marcello Caetano ao mundo do trabalho, há 40 anos


Há quarenta anos era assim, o discurso fassista.  Agora nem assim é. Quem manda é a troika Arménio Avoila e Jerónimo. E já me esquecia do Silva, que não corta o bigode "nem que a vaca tussa" e é assalariado do Ricardo do BES.
Grande evolução na continuidade...

Falsas razões para um golpe de Estado, segundo Marcello Caetano

Continuando a mostrar o que Marcello Caetano dizia do Brasil, onde se encontrava exilado, aos seus amigos mais próximos, sobre o Portugal que deixara, aqui ficam mais quatro páginas do livro de Veríssimo Serrão.



Esta aparente normalidade governativa que até daria algumas razões de segurança ao regime, para Marcello Caetano, a par do apoio popular sentido e sem grandes suspeitas de artificialidade, contrasta fortemente com a imagem surgida logo após o golpe de Estado dos militares, relativamente aos instrumentos de repressão política e policial do regime.

O jornal britanico Sunday Times, numa edição de 14 de Julho de 1974, no suplemento dominical, publicou uma série de fotos espantosas e inéditas sobre esse Portugal desconhecido e que também não é inteiramente reconhecido pelos opositores, uma vez que não encontro relatos tão dramáticos e cruéis sobre a repressão policial e política anterior ao 25 de Abril, mesmo entre os depoimentos agora surgidos "no limite da dor".

Para mim, as imagens que seguem são um mistério que o Sunday Times na época apresentou. E continuam a ser.

Em primeiro lugar as fichas dos agentes da DGS que não me lembro de ver em nenhum lado assim, a cores e em profusão. 


 Aparentemente os jornalistas entraram e fotografaram o que bem entenderam...porque na "pérfida Albion", na sede do MI5 seria igual. Então não era?!






















Depois, este poço convertido em masmorra, na prisão de Caxias, é indicado como lugar de morte de um número impreciso de vítimas, o que é estranho. Teria sido confusão com as vítimas dos "formigas" da primeira República?



Depois estes relatos em imagens parecem inéditos: um colaborador do regime infiltrado, em Paris, nos meios de oposição...humm, isto aqui há gato no largo dos ratos. Isabel do Carmo, essa, triunfante e impante , já desfilava, antes das bombas...e da dietética. 




ADITAMENTO sobre o custo da guerra, em 1973:

Fica aqui o artigo da revista Time de 5 de Novembro de 1973 e ainda um artigo do Jornal de Negócios de hoje ( edição oferecida, não sei quem pagou o almoço...)

Como se costuma dizer, os números falam por si, mas neste caso não explicam muita coisa. Gastar tanto dinheiro em esforço de guerra e mesmo assim guardar um pecúlio aforrado que nos salvou da bancarrota certa, dois anos depois, é coisa que nem todos conseguem. Estes governos democráticos não conseguiram e o resultado está à vista.  mas conseguiram uma coisa: denegrir, com sucesso, o regime anterior ao ponto de lhe assacarem as responsabilidades da nossa actual pobreza.
Foi o "fascismo", ideia que perdura há quarenta anos, o responsável pelo atraso. os que vieram depois só não fizeram melhor por causa da "pesada herança" que tinha 40 anos. Os últimos 40, com toda a liberdade, não conseguiram apagar os males dos outros...

E ainda há quem acredite nisto.


terça-feira, 22 de Abril de 2014

A pesada herança do regime de Marcello Caetano

Marcello Caetano, durante o exílio no Brasil foi escrevendo cartas a amigos e conversou com outros, como Veríssimo Serrão que reuniu em livro, publicado em 1984, já depois da morte daquele, ocorrida em 26 de Outubro de 1980, os "desabafos" que o mesmo foi tendo a propósito de vários assuntos.

Este que segue diz respeito à "pesada herança do fascismo", ideia estúpida propalada pelos heróis do novo regime e que Marcello Caetano comentava assim, em Agosto de 1979,  depois do "e tudo era possível":



E uma apreciação pessoal sobre Mário Soares e Álvaro Cunhal que conheceu como alunos...



Mário Soares: um percurso ímpar

Mário Soares continua a ser o maior desta cantareira. Uma sondagem publicada pelo D.N. de hoje dá-lhe uma confortável maioria de 16% de votos como o político positivamente mais influente na história do país:


Segundo a sondagem, Mário Soares reuniu 16% das preferências como personalidades que mais influenciou positivamente a história do país após o 25 de Abril, logo seguido de Ramalho Eanes, com 7%, e de Sá Carneiro, com 6%.
Pelo contrário, entre os políticos que mais contribuíram negativamente para o curso do país, estão o atual chefe de Estado, Cavaco Silva (15%), José Sócrates (14%), Pedro Passo Coelho (10%) e Durão Barroso (2%).

O povo português que responde a sondagens tem memória mediática e por isso acredita nas histórias da carochinha que lhe andam a contar há 40 anos.
Ainda assim poderia lembrar-se o seguinte:

Antes de 25 de Abril de 1974, Mário Soares era um renegado que lutava contra o regime "fascista".
 No Verão de 1973 ( imagem da revista Observador, da época)  esteve em Londres a manifestar-se contra Marcello Caetano, legítimo chefe do governo português, juntando-se aos que faziam propaganda política contra Portugal por causa da guerra no Ultramar. Patriota, Mário Soares?



Tendo ocasião de comparecer a eleições em 1973 e esteve ausente ( com a mulher presente, imagem do Observador), por razões de táctica política ( não ser dominado pelo PCP). Democrata?


Em 1974 foi aclamado em Sª Apolónia como um novo messias laico. Um salvador de nada e um socialista ainda com o marxismo na letra,  foi erigido como putativo líder da democracia civil, logo nas eleições de 1975. Aliou-se objectiva e subjectivamente ao PCP logo nos primeiros dias após a chegada, estiveram juntos no 1º de Maio de 1974 e só no Verão Quente de 1975 divergiram porque Soares teve medo de perder todo e qualquer poder, em favor de uma ditadura comunista. Só por isso.


Desde os primeiros governos provisóris e praticamente até 1979, Mário Soares por si ou por interposto PS e suas figuras de proa esteve no poder político. A Constituição de 1976, " a caminho de uma sociedade sem classes", muito lhe deve e a primeira bancarrota idem, aspas.



Perante esta gritante miséria instalada no nosso país, com grande contributo de Mário Soares, como é que este reagia a tais adversidades?  Como sempre...apertando o cinto e passando a mensagem que não havia alternativa. Afinal o Soares até era o salvador da pátria que se afundava economicamente. Mistérios da propaganda mediática.



Por isso mesmo, o discurso era diferente do de agora...e nunca, nunca dando o braço a torcer, apontando sempre as culpas para os outros e para a "conjuntura". Foi sempre este discurso que agora dá resultados.


E como é que Mário Soares resolvia estes assuntos magnos? Fácil. Rui Mateus explicou num livro proibido pela nova censura. Uma espécie de Portugal amordaçado 2ª edição revista e aumentada e por isso também censurada.



Por isso mesmo no final de 1977, com um governo desfeiteado na AR, Soares já prometia...mais do mesmo.


Em 1979, o povo, cansado, votou na outra alternativa democrática. Em 1980, com a morte de Sá Carneiro a alternativa esboroou-se porque o patrão da Impresa não teve estaleca para fazer melhor que tratar da sua vidinha.

Assim, em 1984 já tínhamos o FMI à porta outra vez, porque a retoma económica, obrigatoriamente dependente de uma revisão constitucional, tinha sido impedida pela Esquerda, com o PS a comandar as tropas reaccionárias à mudança que se impunha e se impôs dali a dois anos.

Em 1985 a "crise" continuava e Mário Soares ao leme ( o artigo do Expresso é de José Manuel Fernandes).





E que fez então o povo português para pagar tanta generosidade política e sacrifício pessoal a Mário Soares?

Isto que é incrível e só foi possível porque os antigos aliados de 74 lhe deram as mãos nos votos: elegeram-no presidente da República!

A partir daqui a História é conhecida e resume-se numa imagem:


segunda-feira, 21 de Abril de 2014

"Lembro- me que" de Ferreira Fernandes: memorial de um convento imaginário



O jornalista Ferreira Fernandes, já conhecido em juízos deste blog, escreveu um livro de recolha de memórias dispersas que “bebem num período que vai de 1 de Janeiro de 1974 ao grande dia.”  
Comprei o livro que se lê de um fôlego porque refeito de entradas numeradas de 1 a 327. O jornalista avisa logo no início que são “falsas recordações: são escolhas de jornalista compulsadas em jornais da época”.
 Fico mais tranquilo  em saber que este “lembro-me” é apenas reminiscência de um imaginário e não o esforço denodado em recuperar memórias de além pirinéus.  
Trata-se portanto de um memorial de convento imaginário de uma religião com muitos crentes.  A religião é a Esquerda  ecuménica e os seus profetas são legião.
Ferreira Fernandes é um deles e isso nada tem de mal porque “é preciso acreditar, é preciso acreditar”, como cantava o poeta, também profeta da mesma religião.
O credo principal  assenta  fundamentalmente  no   “grande dia” que foi o da libertação e revelação, depois do tempo das trevas .  É uma mensagem simples e eficaz e esse  evangelho tem sido difundido ao longo dos últimos 40 anos. Este “lembro-me que”  é  mais um dos sermões dessa montanha mágica.
Por mim preferia outra teologia, de libertação efectiva dessa falsa religião que nos tem conduzido a novas formas de opressão, mais subtis e eficazes porque redundantes nos logros dos idealismos acéfalos.
Para começar o sermão, Ferreira Fernandes poderia lembrar-se, até porque nem precisa de consultar jornais velhos, da razão por que estava em Paris, em 1974, com 25 anos.
Seria por causa da tropa, com incorporação obrigatória em 1968 e remessa para o Ultramar, muito perigoso nessa altura?  Se foi, não sabemos e por mim gostaria de saber se o autor foi refractário a essa incorporação que levou muitos jovens ao Ultramar para combater pela “Pátria”, palavra usada e em versos tão repetida, mas que não faz parte do credo da Esquerda que prefere outro versejar.
No livrinho, coisas da tropa, só as que  lembram o “grande dia”.
Há quem tenha outras memórias tão válidas quanto aquelas.
Por exemplo, o Observador ( que Ferreira Fernandes não consultou porque não fará parte do acervo memorial) de  15 de Fevereiro de 1974 dava-nos conta do que se passava em Moçambique, perto da barragem de Cabora Bassa. 


Há quem se lembre- e conte- que nessa altura de guerra, em 1972, a viagem de Tete à barragem, em estrada de alcatrão, tipo tapete, para abastecimento, se fazia com colunas militares diárias que iam e vinham e se cruzavam a meio do caminho de 120 km.  Durante o percurso era certo e sabido que se ouviria um matraquear de “costureiras” ( aposto que Ferreira Fernandes não sabe o que será…e não tem a ver com costura) vindo do mato a escassas dezenas de metros adentro do capim denso  ou da vegetação africana.  Esse matraquear era sinal de morte e por isso de perigo constante e houve quem fizesse o percurso dia sim dia não durante meses e meses a ouvir tal barulhinho e rebaixado por trás dos sacos de areia dos "unimogs". 
Quem se lembra disto poderá questionar legitimamente quem apoiou os que andavam de costureiras ao colo, naquela tarefa de cerzir vidas, sendo portugueses e depois regressados após o "grande dia".  

Nas trezentas e tal entradas do livrinho há duas dúzias desses apoiantes de costureiras que são aclamados como heróis das cantigas ( venham mais cinco), das bombas de carnaval ( ARA) das letras e artes (as editoras da cor e os pintores da manta)  outros heróis revolucionários que ansiavam pelo “grande dia” para o tornar noutro dia grande de amanhãs a cantar da terra das costureiras. 

Há umas cinco entradas no livrinho que me causam perplexidade porque se detêm numa revista da época que nem se vendia nos quiosques como a Crónica Feminina, nunca citada.
Houve várias revistas da época dignas de menção, uma delas o Observador que acabou ingloriamente naquele número citado de 15 de Fevereiro de 1974. Ferreira Fernandes dessas não se lembra. 
Mas lembra-se muito bem desta, uma certa Continuidade que nem aparecia em França, a não ser por assinatura que suspeito não seria o caso...
A Continuidade era a revista da DGS. Não vem lá o nome PIDE, mas Ferreira Fernandes como a maioria dos que se lembram, sabem que era da PIDE, o nome criptográfico da DGS. Portanto, de um jornalismo rigoroso até dizer basta.


Por outro lado, havia então outra revista que é de lembrar mesmo pelos que não se lembram: a Cinéfilo, também do credo e com sermões semanários sobre o evangelho da esquerda. 

Um deles, de 23 de Fevereiro de 1974,  tem piada porque ainda na semana passada foi repristinado pelo autor: Vasco Pulido Valente. A tirada sobre a sociologia é de antologia, ainda hoje. Por isso temos cerca de 30 mil licenciados na coisa e no credo. O dito, surgido no "grande dia".


 Na linha de pensamento de VPV esta entrevista de Óscar Lopes à Vida Mundial de 7( ou 8 que é a data da capa)  de Fevereiro de 1974, em que falava do papel dos "intelectuais", os verdadeiros sacerdotes da crença no "grande dia".


 E para quem cita a tropa e o anunciador do "grande dia", Spínola, vale a pena recordar o que o mesmo dizia em 17 de Janeiro de 1974 e que não coincidia inteiramente com as intenções dos que agora se lembram:


Para terminar, o livro é este e vale a pena folhear:





E tem uma imagem muito curiosa e desfocada que também já mostrei aqui ( porque tenho o original).



Será possível que se tenha esquecido? Não acredito.

domingo, 20 de Abril de 2014

Cid, o campeador do PREC

Na época, o regime deposto tinha poucos ou quase nenhuns defensores. Porém, tinha quem defendesse outra coisa que não o que o PREC prometia: comunismo.

O caricaturista Cid foi uma dessas pessoas, desde a primeira hora. Conhecia os trabalhos de Cid ainda anteriores ao 25 de Abril, na revista Observador e em desenhos publicitários, sempre excelentes e únicos num país que habitualmente não dava e não dá grande importância a esta expressão artística, ao contrário de uma França em que os desenhos e caricaturas na imprensa são obrigatórios e de grande qualidade.

Aqui ficam alguns desenhos do PREC que valem mil palavras.