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domingo, 20 de Abril de 2014

Cid, o campeador do PREC

Na época, o regime deposto tinha poucos ou quase nenhuns defensores. Porém, tinha quem defendesse outra coisa que não o que o PREC prometia: comunismo.

O caricaturista Cid foi uma dessas pessoas, desde a primeira hora. Conhecia os trabalhos de Cid ainda anteriores ao 25 de Abril, na revista Observador e em desenhos publicitários, sempre excelentes e únicos num país que habitualmente não dava e não dá grande importância a esta expressão artística, ao contrário de uma França em que os desenhos e caricaturas na imprensa são obrigatórios e de grande qualidade.

Aqui ficam alguns desenhos do PREC que valem mil palavras.



25 de Abril de 1974. o que o PS e o PCP sabiam: quase tudo, menos o desfecho

Há por aí discussão sobre o que se passou na génese do 25 de Abril de 1974 a propósito do conhecimento que certos elementos da "sociedade civil" poderiam ter sobre o movimento dos capitães.

No livro de José Jorge Letria, E tudo era possível ( e quase foi, santo Deus!) o mesmo explica o que sabia do assunto. JJL era do PCP e outro camarada de caminho, Álvaro Guerra, um dos fundadores do PS e que depois fundou A Luta, após o caso Repúbica. Sabiam quase tudo...menos o desfecho, claro. E por isso é que dali a dias tudo se tornou efectivamente possível, como foi a tragédia para o povo português advinda do PREC.


 

sábado, 19 de Abril de 2014

Vasco Lourenço, o lateiro da revolução

A revista do Expresso de hoje, vol.2,  consagrado à efeméride redonda dos 40 anos de Abril 74, está um pouco menos conseguida que a anterior,  mas ainda vale a pena.

Traz uma entrevista com Vasco Lourenço, um dos tropas do MFA que no dia 25 de Abril estava de castigo nos Açores e de lá regressou, reintegrando ( daí o epíteto lateiro)  o combóio em marcha acelerada da revolução que começou por ser um golpe militar .

Lourenço sempre foi um patusco da tropa, um daqueles epás que abundavam nos quartéis durante o prec.  O ar bonacheirão e as patilhas em ventoinha ajudavam ao retrato, mas as entrevistas que dava aos jornais da época eram sempre o prato do dia.

Hoje,  a entrevista ao Expresso da dita revista não foge à regra. Lourenço diz que "não foi feito o julgamento do regime". Quer dizer, do legítimo que havia antes de 25 de Abril e que tinha constituição, leis, tribunais independentes, poderes separados como hoje, partidos, com excepção dos comunistas, e até foi sufragado eleitoralmente, com as restrições aludidas, naturalmente ( hoje também as há porque os fascistas, seja lá isso o que for e que até está legalmente definido (!) também não podem ser eleitos). Havia um país e um governo reconhecidos internacionalmente, com o prestígio real de não deverem as penas aos pássaros como hoje e a dignidade de um povo mais independente que hoje.
É esse povo, país e regime, que Lourenço entende  devia ter sido julgado. Havia de ser bonito...e até foi tentado, com uma farsa de julgamento de "pides" e "fascistas" assimilados ( por isso os prenderam, por duas, três vezes), sem lei que os punisse e  que por isso teve de ser inventada à pressa jurídica de um qualquer candal, em atropelo legal para tal efeito. Deu em águas de bacalhau, porque ainda havia bom senso, apesar dos Lourenços lateiros.

Sobre a legitimidade do Movimento dos Capitães, do MFA, do Directório, do Conselho da Revolução, isso nada que agora não interessa  falar no assunto. Mesmo sobre a legitimidade usurpada pelo tal Conselho da Revolução após eleições livres e participadas pelos comunistas, em 25 de Abril de 1975 e que deram a vitória insofismável a forças políticas democráticas ( PS, PPD e CDS) Lourenço nada. Nada de nada, iô!

Sobre argumentos de legitimidade, costumam apresentar um, imbatível: "se não fôssemos nós, não poderia escrever o que escreve". Mas está enganado quem assim pensa. Isto que aqui escrevo poderia mesmo escrever, porque outros o faziam na época. Quem não o podia fazer eram os que foram "libertados" e que então queriam "libertar"  o regime que combatiam subversivamente. Só esses é que estavam interditos de escrever o que queriam. E percebe-se bem porquê: a escrita dos mesmos destinava-se a substituir uma ditadura por outra bem pior e mais repressiva e por isso era proibida. Aliás, só por isso. Portanto, em matéria de legitimidade libertadora e argumentos de liberdade conquistada estamos entendidos

Vamos então à entrevista:



Lourenço diz que "o poder sempre nos tratou mal". O poder, quer dizer, o poder democrático eleito legitimamente. O MFA, o Directório e o Conselho da Revolução de que Lourenço foi sempre porta-voz, tratou sempre bem toda a gente, particularmente os que foram presos por serem "fascistas" e contra-revolucionários, "sabotadores da economia" e "reaccionários" de estirpe desagradável  a comissões de trabalhadores. Lourenço, naturalmente e por isso mesmo, considera-se um "herói vivo", tal como o foram Salgueiro Maia, Melo Antunes e Vítor Alves, ícones de Abril.

Vamos lá então verificar os seus actos heróicos,  in illo tempore.
Antes do mais é preciso explicar que Vasco Lourenço é uma das figuras centrais do Movimento dos Capitães e como diz Vasco Gonçalves "você é um dos donos disto, faz o que quiser" ! Outro dos "donos disto" era o Otelo.  Santo Deus! Como foi possível Portugal chegar a isto?! É ler a entrevista que é de estarrecer quanto à competência e inteligência destas pessoas.

No O Jornal de 26 de Setembro de 1975, Lourenço dava conta do que se tinha passado um ano antes, no 28 de Setembro, altura do derradeiro esforço patriótico para conter o PCP e a extrema-esquerda nos limites da legalidade democrática inerente a uma democracia de tipo ocidental. Como sempre, Lourenço não percebeu a essência do assunto e contemporizou com a extrema-esquerda e com o comunismo leninista do PCP e assim se acelerou o PREC.
Nessa altura achava que o problema era de Spínola que "queria reforçar o poder pessoal".  E por isso, tiraram-lhe o tapete para o oferecer ao PCP  e aos doentes infantis do comunismo que seriam tratados com o remédio adequado logo a seguir. Faltou pouco. Para Lourenço sobrariam também umas gotas.

Ainda assim, o avisado Lourenço,  fino como um alho, percebeu durante os primeiros meses de 1975 que se calhar aquela opção não tinha sido lá uma muito boa escolha e juntamente com mais oito colegas de armas, elaboraram um documento, em Agosto de 1975, quando as sedes de alguns partidos ardiam por esse Portugal fora e o povo do Norte se manifestva contra o comunismo.
No documento dizia-se o que o PS e Maçonaria, mais outros "moderados" queriam ouvir: revolução, sem dúvida que sim, mas devagar. Foi o documento dos nove, como se explicava no O Jornal de 8 de Agosto de 1975.

Quando lá fora se anunciava abertamente que o PCP queria tomar conta do país; quando no Norte se proclamava o mesmo e se lutava contra tal eventualidade, Lourenço subscrevia documentos que tentavam quadrar o círculo vermelho que se apertava à sua volta. Sempre inteligente, era retratado no O Jornal desse mesmo dia:

Foi nesta altura que aconteceram casos singulares como este:


O arcebispo em causa é este e Lourenço provavelmente até se riu com o episódio. No dia 25 de Novembro, se não fossem os colegas de armas Eanes e Jaime Neves, Lourenço tinha ido parar à grelha. Provavelmente sem saber como nem porquê.
Pobre Lourenço, que continua lateiro ( porque sempre a reclamar integração)  muito esqueceu  e pouco aprendeu.


sexta-feira, 18 de Abril de 2014

Mais educativo que isto não há...

Parece que anda por aí uma revista "grátis" ( alguém a pagou...e espero que não tenha contribuído para a anormalidade que representa) , uma tal "Mais Educativa" e que explica aos mais novos o que terá sido o 25 de Abril e a "dinamização cultural" entretanto operada. Assim:



Perante tamanhas imbecilidades escritas ficam aqui imagens de um festival de música pop que se realizou em Portugal, no Verão de 1971, precisamente em Vilar de Mouros, no Alto Minho e onde agora se voltaram a realizar festivais do mesmo género e porventura menos interessantes que nessa altura. Para a juventude, quero dizer.

A prova com imagens que valem mil palavras e substituem aquelas imbecilidades escritas aparece na revista Século Ilustrado de 14 de Agosto de 1971. Parece que lá estiveram entre 20 e 25 mil pessoas, em "grupo" e havia talvez hippies, ciganos, pretos, perdão, negros e homosexuais. Aliás o que aparece na capa da revista , era um deles. 

O 25 de Abril de 1974 e o prec fizeram-se contra "o maior português de sempre".

É um facto: o prec iniciado escassos dias após o 25 de Abril de 1974, com a chegada de Álvaro Cunhal, fez-se contra "o maior português de sempre", Salazar, popularmente escolhido como tal, há uns anos.

Não obstante, nos meses que se seguiram a essa data, não se falou ou escreveu muito sobre Salazar e o regime do Estado Novo. Falou-se logo de Humberto Delgado e do mistério da sua morte,  da PIDE, das prisões, da repressão política, mas de Salazar, propriamente, não.

Só dois anos depois, no O Jornal começaram a aparecer alguns artigos sobre o "fascismo" de Salazar, sempre reportado aos anos trinta e alguns da autoria de um tal João Medina, como este de 9 de Janeiro de 1976:


De resto, foi em 1976 que o intelectual Eduardo Lourenço publicou a sua magnum opus - O Fascismo nunca existiu- dando corpo à ideia feita e comunista sobre a natureza fascista do regime de Salazar que assumiu desde então a substância definitiva das ideias feitas. A partir daí, mais ninguém duvidou da certeza epistemológica sem paralelo. Quem de tal duvidar, é fascista pela certa ou para lá caminha pela direita reaccionária...


 Para demonstrar a natureza inquestionável do fascismo de Salazar, bastaria mostrar a imagem decapitada do mesmo, num largo de Santa Comba Dão, obra de democratas em Fevereiro de 1975 e que em 1978, no O Jornal ainda era motivo de discussão pública. Um leitor do semanário alvitrava mesmo que tal estátua ficaria melhor de corpo inteiro, no...Tarrafal. Na redacção devem ter-se rido muito com a boutade.



E quem é que nessa altura destoava deste clima amplamente democrático? Muito poucos e absolutamente escorraçados do convívio democrático avançado.
O jornal semanário A Rua era um dos que o fazia, num mar de informação esquerdista que ensurdecia completamente numa vozearia mediática o sumido sussurro só ouvido por quem escutava, reconhecendo o eco, tal como hoje.

A edição de 28 de Julho de 1977 é consagrada de algum modo a Salazar, por ocasião do sétimo aniversário da sua morte e o que se escreve sobre o mesmo desafinava totalmente do concerto même da esquerda  preponderante.
O jornal era por isso mesmo um atentado à democracia avançada que não podia admitir fascistas no seu seio pluralista. Como tal era frequentemente vilipendiado e apodado de nazi, palavra rainha dos malefícios supremos, na medida em que fascista já o era sem margem para dúvidas.


Um jornal destes, hoje em dia, às tantas integraria com alguma facilidade o normativo constitucional que proibe organizações fascistas, pináculo mais alto da catedral legislativamente democrática. No entanto, a lucidez analítica do mesmo suscita agora algumas perplexidades pela estranha actualidade que representam.



ADITAMENTO em 19 4 14:

Afinal, consultando o O Jornal de 9 de Julho de 1976, num artigo de João Medina, conclui-se sem grandes margens para dúvidas que Salazar, afinal, nunca fora fascista. Que pena! E maior ainda porque apesar dessa realidade, o mito do fascismo do regime continuou e vicejou ainda mais nas décadas a seguir. A tal ponto que é agora assente que o regime foi fascista. Se até a Constituição o diz!


Em 29 de Julho de 1934 Salazar considerou em nota de imprensa publicamente divulgada que o movimento fascista de Rolão Preto era inimigo potencial e portanto subversivo.  Rolão foi camtar para o estrangeiro, exilado e nunca mais teve sorte.

Salazar esse, ficou sempre com a fama que dava muito jeito aos estalinistas que nessa altura começavam os processos de Moscovo, com o sucesso e eficária que se sabe. Sabe? Em Portugal não sabe porque o PCP não quis que se soubesse.

A palavra mágica surtiu os seus efeitos...



Agora leia-se este editorial da revista Tabu do jornal Sol de hoje. Assina-o Vítor Rainho e é um dos melhores exemplos da lavagem cerebral de 40 anos de antifassismo primário, secundário e superior. Básico e especializado.

O que este jornalista escreve sobre o 25 de Abril é a mistificação costumeira, nem faltando sequer a menção às licenças de isqueiro, para ridicularizar um regime que tinha um sentido prático da burocracia que este nem sonha e não consegue imitar, para mal de todos nós.

Acresce que este jornalista não viveu o tempo e escreve de cor. Basta pegar em cada item enunciado e dizer-lhe: se não houvesse 25 de Abril, provavelmente estariamos melhor...e apontar-lhe um, dois factos que contrariam o contentamento descontente. O primeiro é a bancarrota de 1976. O segundo, a bancarrota de 1984 e o terceiro, já agora que não há duas sem três, a bancarrota de 2011.
Os outros factos podem ser também facilmente enunciados e decorrem daqueles. Economicamente, o regime anterior nunca faliu. E não seria previsível a futura falência, com taxas de crescimento de quase dois dígitos. Auto-estradas, é disso que quer falar? Também já havia planos para as que temos, com um pormenor: melhores, porventura,  e mais baratas. 
Nos hospitais estamos melhor? Sem dúvida. Era o que faltava.  E o SNS foi o milagre para tal? Então quem paga os hospitais privados actuais? E que racionalidade económica se respeita nos meios de diagnóstico, nas horas extraordinaríssimas durante décadas, etc etc?
E o ensino que tal? Estamos melhor? Acha mesmo? Então porque é que o ensino secundário de qualidade, para as elites e os que podem pagar, sobrevive à custa de explicações privadas de que ninguém fala e todos sabem que assim é? Antes de 25 de Abril de 74 o ensino oficial prescindia desse adereço...proque os professores, programas e métodos eram mesmo melhores, comos e vai reconhecendo aos poucos.

Quanto à liberdade de informação, o jornalista já tem idade suficiente para se recordar o que aconteceu em 2009, com...precisamente o seu jornal. Será que se lembra? Quanto à justiça, idem aspas.

Então as vantagens reduzem-se drasticamente a uma simples: podemos ouvir sempre a troika Arménio-Jerónimo-Avoila e termos à noite em todos os canais de tv o discurso do Bloco de Esquerda.
Era desta liberdade que precisávamos em 25 de Abril de 1974, era?  A de falar em "fascismo" como se fôssemos todos comunistas?

Se era pode ir dar banho ao cão. Se o tiver, porque agora é preciso licença e antes de 25 de Abril não era...

O 25 de Abril é o pai do PREC

Crónica de Vasco Pulido Valente no Público de hoje:


O que VPV escreve no Público de hoje é uma espécie de anti-climax às comemorações da efeméride redonda dos 40, sem qualquer ternura, mas de uma crueldade adequada. Este discurso ainda é raro, apesar da ideia representar o chamado ( pelo brasileiro Nelson) "óbvio ululante".

O corolário lógico do que escreve VPV é simples: a liberdade conquistada em 25 de Abril de 1974 foi apenas para fazer o que resultou depois e que o mesmo elenca: o prec. Foi por isso mesmo uma liberdade que aproveitou em primeiro lugar aos comunistas, incluindo os doentes infantis do comunismo, ou seja, a extrema-esquerda na classificação leninista que o PCP lhes dava. O que o MFA fez em 25 de Abril foi apear um regime que tinha apoio popular extenso. Basta entender que dias antes, no estádio 28 de Maio, Caetano tinha sido aplaudido espontâneamente por dezenas de milhar de pessoas que nem sabiam que o mesmo iria está lá, tal como fora apoiado do mesmo modo, quando no Verão de 1973 regressou de Londres, onde Mário Soares e o partido Trabalhista local lhe fizeram uma espera  vergonhosa por causa da guerra no Ultramar.
Essa acção militar, o golpe capitaneado pelos ditos, resultou no derrube do regime que estava exangue e as pessoas acreditaram num modelo novo, mais moderno e europeu. Foi por isso que vieram para a rua no dia 25 de Abril a aplaudir o golpe dos capitães. 
Porém, como ficou exuberantemente demonstrado um ano depois, em eleições livres ( mas sem partidos apoiantes do antigo regime, note-se...) o povo rejeitou o comunismo. Ainda assim, o MFA dos capitães que dominavam o movimento, durante um ano, de 1974 a 1975, tudo fizeram para entregar o poder a uma esquerda que era comunista e foi isso o PREC.
O 25 de Abril é o pai do PREC e isso é intolerável porque ilegítimo sob todos os pontos de vista.


Valia a pena essa liberdade para isso? Não valia e agora isso é tão evidente que até dói lembrar a loucura que foi. Aliás, se se ler a noção de liberdade que Oscar Wilde dá e se transcreve na mesma página- "Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir", hoje em dia existe a mesma liberdade que antes de 25 de Abril, porque nem por escrito se pode dizer tudo  o que certas pessoas não querem ouvir...sem sofrer as consequências.

Quem pena pelo prec, pena por este 25 de Abril porque é mesmo de penar.
O 25 de Abril não foi por isso a conquista da Liberdade com L grande porque foi apenas a liberdade para a extrema-esquerda comunista se manifestar livremente e fazer o que fez. Aliás, coarctou imediatamente a liberdade a outros, mormente os que directamente lhes tinham tirado essa liberdade. Daí o discurso "antifascista" com a substituição das palavras que justificaram todas as acções.

Repare-se: a liberdade conquistada em 25 de Abril de 1974 permitiu que a imprensa, o rádio e a televisão pudessem exprimir opiniões e "dar" notícias sem censura prévia que existia com o condicionalismo explicado pelos defensores do regime na época: impedir a subversão, mormente a comunista, perante um país em estado de guerra. Qual o país que não tem censura nestas circunstâncias? Conhece-se algum? A Inglaterra não teve no momento da guerra das Malvinas nos anos oitenta? Os EUA não tiveram no momento da guerra no Iraque?

Enfim, em Porgtugal, a Censura, por via da estupidez regimental de alguns próceres mais papistas que o papa, tinha uma Censura de costumes que era atávica e proibia a publicação de coisas contra "a moral". Em França, na Inglaterra e noutros países era a mesma coisa, com uma diferença: a moral católica era mais elástica em determinados lugares do que noutros.
Proibia ainda livros e publicações considerados subversivos. Mas lá está: proibia no fim de contas a subversão comunista e por isso a liberdade do 25 de Abril veio permitir essas publicações. Basta ver que livros foram proibidos- e há uma lista por aí- para se verificar a realidade desta asserção.  De caminho, os jornais que capitalizavam na oposição ao regime em modo subversivo ( o Expresso fazia-o) eram censurados. Hoje, censuram de modo igual, mas internamente e cada vez mais em auto-censura. Não há liberdade para as pessoas poderem dizer certas coisas, por exemplo isto que aqui escrevo, sem consequências que passam pelo afastamento, por serem consideradas de "extrema-direita" ou mesmo "fascistas".
Esta linguagem aqui usada é, segundo a nova terminologia comunista, introduzida na linguagem comum há 40 anos,  "reaccionária". Porém, tal termo foi inventado pelos mesmos, como uma espécie de tigre de papel para comer incautos assustados com a "reacção" comunista tornada sentimento generalizado e comum, nos media. O medo de alguém ser classificado de "reaccionário" afastava imediata e inconscientemente o desejo de relatar factos em modo real, passando os mesmos à História, com a reescrita politicamente correcta. O jornalismo nacional deixou de escrever como escrevia em 1973 e passou a introduzir os termos do novo acordo ortográfico e semântico, imposto pelos comunistas e esquerda em geral e nem se aperceberam disso, o que é ainda mais notável. 

Como exemplo, deixo aqui um recorte do Expresso de Março de 1975 em que Vasco Pulido Valente e outros falam em "mesa-redonda" sobre assuntos económicos e modelos políticos.

Gostaria de ter lido então VPC a dizer o que hoje diz. E não vale a pena argumentar que era jovem e não pensava, porque não é verdade. Lia, via e ouvia, inclusivé jornais estrangeiros como passo a demonstrar em seguida.



A Vasco Pulido Valente não escapou, certamente, esta notícia do L´Express de 5 de Maio de 1975 em que a revista francesa se queixava de o jornal português congénere a criticar pelo excessivo reaccionarismo...



quinta-feira, 17 de Abril de 2014

Ventos de Espanha em 1974

Quando ocorreu o 25 de Abril em Portugal, a Espanha estava ainda sob o regime franquista, com Franco no poder. Em Dezembro de 1973, Carrero Blanco, presidente do Governo, tinha saltado tão alto que os comunistas queriam sorte igual para Franco, mas tiveram azar porque só em 1976, com a morte deste, o regime mudou.
 Em 1974 a curiosidade dos espanhóis,  quanto ao que por cá acontecia era grande e os franceses faziam comparações. Como esta, na L´Express de 20 de Maio de 1974, em que se menciona o contágio português, já com o prec em andamento.  No entanto, como escreve a revista, o "jogo democrático" já era uma possibilidade mesmo antes da revolução portuguesa.


Um fenómeno muito curioso é a linguagem espanhola. Não mudou, com a transição para o "jogo democrático". E não mudou por razões que se podem especular, mas não andarão muito longe disto:
Em Espanha não havia guerra no Ultramar; havia guerrilha terrorista e separatista da ETA. Não havia "monopólios" ou "condicionalismo industrial", ou seja proteccionismo como por cá e do mesmo modo; mas havia uma grande industrialização precisamente no país basco e na Catalunha que faziam a diferença no pib. Havia uma burguesia que por cá era incipiente. E havia outra coisa que a revista L´Express de 6 de Outubro de 1975 mostra com muita clareza. Basta ver com olhos de ler...

Portanto, a palavra "fascismo" não se declinou como por cá sucedeu e a esquerda comunista não impôs linguagem alguma de substituição. E no entanto, as razões para tal eram bem mais evidentes que por cá, como as imagens mostram. Salazar nunca se encontrou com Hitler ou Mussolini, mas era "fascista". Franco que fez amizade e colaborou com ambos era apenas "franquista". Curioso. 




 No artigo de Jean-François Revel dá-se conta de um aspecto também curioso. Santiago Carrillo, secretário-geral do PCE achava que Cunhal tinha vistas curtas e ao contrário deste, dizia abertamente que a Espanha precisava dos capitais e tecnologia americanos. Por cá, o PCP desprezou o investimento de 120 milhões de contos proposto, não pelos americanos, mas por capitalistas portugueses, em Agosto de 1974, portanto nessa mesma altura.
Esta diferença abissal entre dois mundos, o do comunismo estlinista português e o do euro-comunismo espanhol  que Carrillho partilhava com o PCI italiano, fizeram toda a diferença no caso do nosso PREC e no desenvolvimento e transição política espanhola.
A loucura dos comunistas portugueses conduziu o país a uma primeira bancarrota e a uma segunda, dez anos depois, em consequência da primeira. Os espanhóis não tiveram desses problemas e transitaram pacifica e prosperamente para a democracia.
Quem diz que por cá não poderia ter sido igual? Pachecos, Rosas e Semedos...para além dos fósseis comunistas que ainda não sairam da estação de 1975 e estão á espera de outro combóio revolucionário, como o Jerónimo já o disse e o Arménio está á espera para mudar a agulha, com a Avoila a vender bilhetes.

E há o outro aspecto também político e de massas. Este que acima e abaixo se mostra, com um manifestante integrando um grupo de 300 mil "franquistas". Por cá, salazaristas, em 1974...nem vê-los e cabiam quase todos num jornal ( a Rua que saiu dali a algum tempo e era considerado de "extrema-direita fascista").
É essa a outra diferença de vulto que permitiu ao PCP e extrema-esquerda tomarem as rédeas do poder quase total, o que só se evitou in extremis. A Espanha nunca correu esse risco. E teve em Outubro de 1975,  300 mil braços levantados em saudação "fassista" que por cá dava direito a prisão em Caxias, só por isso.
É essa a diferença que houve entre nós e eles.
Apesar disso e como conta Mário Soares no i de hoje, parece que Franco, mesmo assim, não autorizou os americanos a fazerem da Espanha uma base para atacar Portugal, em 1975, para evitar que o país se tornasse mais um satélite da URSS, o que evidentemente nunca seria tolerado e daria uma guerra civil.


 Por cá em 1975 seria impossível verem-se estes trajos de luces, como em Espanha: camisas azuis da antiga Divisão Azul e cruzes de ferro alemãs...e que ainda hoje causam calafrios aos rosas, pereiras e semedos.


Resultado: em Espanha a esquerda comunista marcou sempre passo; passou a social-democrata e há um maior equilíbrio de opiniões políticas. Por cá, é o que se vê...com a esquerda que temos e uma direita que não existe.