O circo já começou
Marinho e Pinto não quer que se saiba disto...porque acha este espectáculo uma farsa. Talvez tenha razão.
O filho do presidente da REN foi indiciado pelo Tribunal de um crime de tráfico de influências e sujeito a uma garantia de 25 mil euros.
À saída do DIAP, Ricardo Sá Fernandes, advogado de Paulo Penedos, salientou dois factos. O primeiro é o de que Penedos não ficou impedido de se asusentar do país ao contrário dos outros arguidos. O segundo é o facto de ter saído do DIAP indiciado por um crime de tráfigo de influências e não dois como suspeitava o Tribunal inicialmente.
Neste cenário Sá Fernandes descartou avançar com um recurso, considerando as medidas de coação razoáveis.
Nunca!
Este pequeno excerto da crónica de Carlos Fiolhais, hoje no Público, diz muito do que é preciso dizer a propósito do caso da sucata.
Coloca, aliás, o acento tónico no essencial: o que se irá saber sobre os casos da sucata associada a altas figuras da hierarquia do Estado, que Rodrigo Santiago, o advogado, constituído do principal arguido já assegurou publicamente existir, ao jornal i de ontem. Aparentemente e tendo em conta as proclamações assombrosas sobre a importância obscena do segredo de justiça, dos Marinhos e marinados, nada se pretende que se saiba. "Nunca".
Neste contexto, assume toda a relevância, o que Catalina Pestana escreve no Sol de hoje:
“Os senhores do poder tinham mudado à pressa os códigos penais, tinham-nos fabricado rigorosamente à sua medida e à dos seus pares. Quanto mais importante, mais impune- é o que dizem em linguagem jurídica alguns dos seus parágrafos.
Os partidos que alternam no exercício do poder a que chamam democrático puseram-se de acordo para que as malhas das suas leis fossem tão elásticas que por ela coubessem- quando bem esticadas por habilidosos peritos- todo o peixe graúdo, fosse de que cor fosse.”
Este escrito de Catalina Pestana reportava-se a um fenómeno também aí apontado:
“ Quando um ou dois tentáculos do polvo Casa Pia emergiram do pântano e surgiram à luz do dia, respeitáveis cidadãos, peritos na representação simbólica de Calimero, vieram a terreiro dizer que se tratava de uma cabala contra o seu partido e a respectiva direcção partidária.”.
O encadeamento destas opiniões com os factos conhecidos, dá-nos toda a dimensão visível e invisível do que se passa actualmente em Portugal: uma alteração grave do Estado de Direito democrático, por banda do poder político concentrado em algumas pessoas que o editorial do SOl de hoje indica como pertencendo a uma autêntica clique que assentou arraiais no PS. Eram secretários de Estado no tempo de Guterres e passaram ao poder pleno de executivo governamental.
O crime de Atentado contra o Estado de Direito, previsto no artigo 9º da Lei nº 34/87 de 16 de Junho, da responsabilidade de titulares do poder político é um crime que se indicia com estas coisas. Ainda por cima concretizadas com outras bem precisas e também claras que resultam inequívocas das escutas realizadas e que, mal ou bem, se tornaram públicas.
Quem entender que este crime não existe no nosso ordenamento jurídico ou que nem merece ser investigado por ser demasiado abstruso, se o fizer eventualmente com dolo , pode cometer outro, esse bem mais conhecido: denegação de justiça e prevaricação. Um crime contra a realização da justiça previsto no artº 369º do Código Penal.
A corrupção general
DN/Lusa
Candido Conde-Pumpido falava na Comissão de Justiça do Congresso de Deputados, na sequência de perguntas do PP sobre as acções do Ministério Público contra membros de partidos políticos.
"A justiça não persegue políticos, apenas persegue corruptos e quem corrompe. Estejam onde estiverem e, lamentavelmente, estão em todo o lado", disse Conde-Pumpido.
O procurador-geral explicou que há actualmente 264 investigações de políticos do PSOE, 200 do PP, 43 da Coligação Canárias, 30 da Convergência e União (CiU), 24 do Partido Andaluzista e 20 da Esquerda Unida.
A contradança da defesa
Diz o Jornal de Notícias citado aqui, que “o processo "Face Oculta" tem atraído a Aveiro alguns dos mais ilustres e caros advogados portugueses, confirmando o poder dos arguidos. Não é, com efeito, qualquer um que recorre a advogados como Artur Marques, Rodrigo Santiago, José Manuel Galvão Teles, Rui Patrício, Castanheira Neves, Ricardo Sá Fernandes, Nuno Godinho de Matos ou Tiago Rodrigues Bastos. “
Manuel Godinho, o arguido principal do processo, terá sido apanhado de surpresa, mas não demorou a reagir. O advogado Pedro Teixeira ainda começou por dar a cara pela sua defesa, mas o comando das operações foi rapidamente entregue a Rodrigo Santiago, um causídico com vasta experiência em processos de criminalidade económica.
Rodrigo Santiago, que também tem em mãos a defesa do presidente da Académica, José Eduardo Simões, da acusação de corrupção, não foi o único advogado de Coimbra a ser chamado ao "Face Oculta". O outro é o veterano Castanheira Neves, que defende o arguido Paiva Nunes, administrador da EDP. Castanheira também é advogado do ex-presidente do PS/Coimbra Luís Vilar, acusado de corrupção e financiamento partidário ilegal.
Ainda de Coimbra são, igualmente, os arguidos e militantes do PS, José e Paulo Penedos. Mas estes recorreram a advogados de Lisboa, que também se costumam pagar a peso de ouro. O presidente da REN, José, garantiu uma dupla de luxo: o experimentado Galvão Teles e Rui Patrício, de quem se diz estar "na moda". Defensor de arguidos da "Operação Furacão", Patrício também é membro do Conselho Superior da Magistratura, nomeado pelo Parlamento.
O advogado de Paulo Penedos talvez não lhe fique tão caro, mas só porque partilha escritório com ele. É Ricardo Sá Fernandes, o defensor de Carlos Cruz no processo Casa Pia.
Já o ex-ministro Armando Vara conta com Nuno Godinho de Matos, do escritório de Proença de Carvalho, que é o advogado de José Sócrates, e com Tiago Rodrigues Bastos. Este foi da sociedade de Jorge Sampaio e, recentemente, defendeu Valentim Loureiro em alguns processos.
No Norte, foi contratada uma série de advogados, da qual se destaca Artur Marques. Outra "raposa velha" do meio, que, até há pouco, era visto ao lado da autarca Fátima Felgueiras e do rosto da Bragaparques, Domingos Névoa. Agora, vai apoiar Hugo Godinho e Maribel Rodrigues, o sobrinho e a colaboradora de Manuel Godinho.
Carlos Duarte, até há pouco árbitro do primeiro escalão e advogado de arguidos do "Apito Dourado", está com o suspeito José Valentim, da REFER. Esta empresa deu mais dois arguidos ao processo, Manuel Guiomar e Carlos Vasconcelos, que contrataram Poliana Ribeiro e um causídico referido no inquérito criminal, João Folque, por ligações a suspeitos.
José Paulo Dias patrocina o administrador da Indústria de Desmilitarização da Defesa, José Contradanças, enquanto Dália Martins defende Namércio Cunha.
NELSON MORAIS JORNAL DE NOTÍCIAS 19.11.2009
Já conhecemos a música e a partitura. Armando Vara acabou de dar o mote, depois de ter sido interrogado e após longas horas de consulta aos autos em “segredo de justiça”.
Hoje, nos jornais até vem uma afirmação curiosa de Vara: “não tenho nada a pesar-me na consciência e vou prová-lo em tribunal”. Duvido que possa provar tal coisa, por causa da imponderabilidade do meio, mas isso fica para depois.
Agora, interessam os factos conhecidos e que se irão conhecer, fatalmente por causa do famigerado segredo de justiça que é vilipendiado pelos violadores em série.
Não é apenas para os arguidos que este flagelo incomoda particularmente e esta degradação avança, aos saltos. Também o é para os apaniguados que temem pela sua vidinha exposta em segredos revelados. A vida pública, entenda-se. A que contende com negociatas variadas e das quais estão inocentes até prova em contrário. Prova essa que os mesmos e seus advogados de topo se encarregarão de sapar, ocultar e delimitar ao mínimo processualmente possível e pessoalmente desejável, como aliás lhes compete.
O segredo de justiça agora, é mesmo a alma do negócio e vai servir de campo de batalha jurídica mesmo que já não valha um chavelho velho, a partir do momento em que os arguidos tomaram pleno conhecimento dos factos que lá estão e das provas para os apresentar a público.
Ao entrar no tribunal, Vara declarou-se o exemplo do arguido perfeito para uma acusação: “vou colaborar com a Justiça”.
Figuras essas que um dos advogados do principal inocente presumido, Rodrigo Santiago que ampara juridicamente o “rei da sucata” Godinho, já citou expressamente.
Quem diria, não? Será por isso que a colecção de “advogados ilustres” permite a comparação com o processo Casa Pia?
As dúvidas continuam
Nenhum dos intervenientes neste processo surgido com essa e outras certidões, falou ainda na existência de um Inquérito.
Segundo tudo indica, tal procedimento não foi seguido pelo PGR que nem apresentou o expediente, o "dossier" recebido do MºPº de Aveiro, à secção criminal do STJ.
O presidente do STJ, Noronha do Nascimento, falou por diversas vezes no "dossier" e nunca referiu a palavra inquérito, secção criminal do STJ ou outrém que não o seu interlocutor directo no caso, o PGR Pinto Monteiro.
Portanto se assim for, como parece, temos um "dossier" no qual se relatam factos e existem despachos de magistrados do tribunal de Aveiro que entendem estarem na presença de um crime, "do catálogo" e susceptível de tramitação na secção criminal do STJ, com intervenção acidental e apenas no que ao controlo das intercepções telefónicas ao visado interveniente diz respeito. O resto, ou seja os indícios que sobrem e a necessitar de óbvia investigação, sobre o eventual crime de atentado ao Estado de Direito, deveria competir à secção criminal do STJ.
Segundo se anuncia, o PGR entendeu que não havia necessidade de inquérito e terá remetido o expediente, em forma de "dossier" ou seja, processo administrativo, ao presidente do STJ.
Este, nesse expediente de natureza administrativa e à revelia da secção criminal do STJ onde deveria correr o Inquérito, despachou igualmente, aduzindo a nulidade que o penalista Costa Andrade, mesmo assim, contesta e acha não ter existido nem poder existir alguém na terra ou no céu que o possam determinar em conformidade com a lei que temos.
Então, se assim for, como se avalia esta ilegalidade?
O artº 262º do CPP, no seu nº 2, determina peremptoriamente que " a notícia de um crime dá sempre lugar à abertura de inquérito", ressalvadas as excepções. Não há excepção a esta regra neste caso.
Portanto, quid juris?
Diz o artº 119º nº 1 al. a) do mesmo CPP que a falta de inquérito nos casos em que a lei determinar a sua obrigatoriedade, constitui nulidade insanável e portanto declaradas oficiosamente.
Mas... o que dizer de um despacho do presidente do STJ, num processo administrativo, sobre uma matéria deste teor com tamanha importância jurisdicional? Vale o quê, um despacho que fixa direito, definitivamente ainda por cima, num processo administrativo que não o deveria ser?
Bem, segundo a jurisprudência, ( do STJ) é inexistente uma decisão judicial que seja incapaz de produzir qualquer efeito jurídico. Será o caso e será possível aproveitar um efeito jurídico num processo administrativo, semelhante ao penal e com relevância e aplicação das regras de processo penal? Alguém se atreve a defender uma coisa dessas?
Como é que se iria garantir o direito a recurso, jurisdicional, a apresentar perante o STJ, num processo administrativo?
Que sentido terá uma coisa destas, no Estado de Direito em que os mais altos magistrados do poder judicial e judiciário actuaram deste modo?
os taumaturgos do poder judicial e os habitantes de Pasárgada
Portugal revisitado
O artigo de opinião de hoje, da autoria de Jaime Nogueira Pinto é um obituário. De António de Figueiredo, empresário de longo curso, falecido na semana passada na Suíça, com 78 anos, na sequência de um acidente de navegação.
O obituário de Nogueira Pinto fala de coisas que em mais nenhum lugar se falam em Portugal. De coisas antigas, com pouco mais de trinta anos, de hábitos e costumes e modos de ser português. Nogueira Pinto é alguém que poderá ser classificado como não sendo de esquerda, o que é raro em Portugal. Com Pedro Ferraz da Costa, julgo que nunca viraram a casaca ao longo dos anos. E isso tem valor, porque nos apresentam valores dos anos setenta, do tempo de Marcello Caetano e da renovação marcelista que se continuasse talvez fizesse de Portugal o que a Espanha é economicamente.
Sobre o falecido, refere a circunstância de ter sido perseguido em 1975, levando-o ao exílio, no Brasil, por ser "fassista", de "direita", proscrito por isso na sociedade democrática do PREC.
Escreve Nogueira Pinto: " Viveu de acordo com os valores em que acreditava: Fé em Cristo e na sua Esperança e em Portugal e na sua independência. Amou e cuidou da família que criou ( pai de sete filhos); nunca faltou aos amigos e aos colaboradores; geriu e desenvolveu com empenho as suas empresas."
De repente, o nome de António Figueiredo, lembra-me um outro homónimo e que em pleno Verão de 1975 a revista Time, pela pena de Martha de La Cal, retratava como um outro que passou pelo mesmo fenómeno de perseguição aos "fassistas" , "direitistas", contra-revolucionários e exploradores da classe trabalhadora.
O artigo fica aqui em facsimile da revista que na capa tem a figura de Adam Smith e a pergunta sobre o futuro do capitalismo.
Nesse ano, em Portugal, havia gente que jurava que o capitalismo estava no fim e que a democracia burguesa nunca seria uma realidade em Portugal ( Álvaro Cunhal, dixit). No fim do artigo ( clicar para ler), escreve-se isto:
"O que incomoda os advogados liberais é a facilidade com que se atiraram para a cadeia algums membros dessas 20 famílias com fundamento na suspeita de "sabotagem económica", aí permanecendo indefinidamente sem acusação formal."
Este fenómeno do PREC pelos vistos, não se diferenciava muito das célebres prisões sem culpa formada que os comunistas ainda continuam a apontar como um dos terrores do fassismo. E ensina-se isso mesmo nos livros da educação primária...mas não se diz que um Otelo, hoje em dia, apoia activamente um Isaltino de Morais, como autarca de Oeiras.
Na imagem, pode ler-se que em Portugal havia 20 famílias que dominavam a economia. Multimilionários que Cunhal e a esquerda mais a extrema esquerda expulsaram depois de lhes nacionalizarem os bens e activos. Tal como hoje fariam sem qualquer dúvida possível, o PCP e o p BE.
Com uma pequena diferença: hoje não seriam 20 famílias. Se fossem meia dúzia já seria muito...e a quem devemos este satus quo?
Ao PCP, à extrema-esquerda e..ao PS que durante mais de dez anos não deixou mexer na Constituição. São esses que dominam toda a intelligentsia pública em Portugal, nos media, com pequeníssimas excepções, como é o caso de Nogueira Pinto e Paulo Tunhas, outro articulista do jornal. Tem sido isso que ganha eleições em Portugal, no meu entender. E quem não perceber isso, estará condenado a ver os pinóquios a governar o país.
Depois do PREC, uma outra estrutura se montou: a das empresas públicas com gestores tipo José Penedos.


O prémio do i.
O jornal i, ganhou um prémio no outro dia: num concurso com 241 publicações de 27 países, o European Newspaper Award, deste ano, foi para o i. Parabéns.Mas...o prémio foi para o melhor desenho de jornal. E nisso até estou de acordo, porque o i é o jornal mais bem desenhado dos últimos anos em Portugal. Houve outro que poderia ter ganho igual prémio. O jornal Já, dos anos noventa e dirigido por pessoal do actual Bloco de Esquerda. Provavelmente, em termos meramente gráficos esse jornal até suplantou o agora i.
Não obstante, se por acaso o júri tivesse acesso ao conteúdo do jornal, aí , desconfio que o prémio nunca lhe seria atribuído. Por causa de uma fragilidade de essência e densidade e ainda por causa de uma certa tendência para alinhar pela situação, com raras excepções e que se se replicarem, darei conta e relevo.
Hoje, a capa do i, poderia ser a do 24 Horas, do tempo de Pedro Tadeu ( recolhido no convento da irrelevância). O título "Presidente irritado com procurador" não merece credibilidade jornalística, é especulativo no pior sentido da palavra e inventa um caso que está ainda para ser inventado.
Uma ocasião única
As imagens que a Sic-Notícias passou agora mesmo, do caso das sucatas, no tribunal de Aveiro, é algo excpecional, embora poucos o percebam.
Ver ali José Penedos e filho, acompanhado de advogados da superestrutura e que estão sempre em todas estas coisas de relevo, é de facto extraordinário. Único, em Portugal, com este tipo de pessoas e sabendo o que se sabe por causa das escutas telefónicas divulgadas por força da reforma penal de Rui Pereira e Unidade de Missão.
José Penedos, segundo notícias de hoje, não apresenta declarações de rendimentos no Tribunal Constitucional há dez anos. É absolutamente impossível que não saiba dessa obrigação. E no entanto, omitiu este tempo todo, sem que alguém lhe fizesse o reparo.
José Penedos é um daqueles indivíduos que atravessa um regime e conhece todas as figuras de regime. Irá saber em breve, o que isso lhe vale, se valer.
E é neste contexto que a independência dos tribunais e a autonomia do MP adquire importância fulcral e todos os magistrados deverão estar atentos ao fenómeno porque irão surgir fenómenos como já estão a surgir. Um deles é a declaração de uma velha raposa da política, com telhados de vidro que já declarou tudo isto como uma coisa "comezinha". Pois, pois...
Veremos o que surge daqui para a frente. No entanto, isto é semelhante ao que aconteceu na Itália por ocasião do processo mãos limpas. Os tempos eram outros e por cá, os tempos ainda estão atrasados em relação a esse tempo.
Só retomarão o ritmo do nosso tempo quando certas forças políticas desaparecerem do mapa político, de vez e para sempre. Substituidas por outras, mais limpas e dignas do povo que pretendem representar.
Tal como aconteceu na Itália.
São nulos, senhores?
Finalmente! António Cluny, magistrado do MP no tribunal de Contas, disse agora na SIC-Notícias, o que ainda ninguém disse publicamente e é estritamente necessário que se saiba:
O PGR Pinto Monteiro despachou um Inquérito ou apenas um processo administrativo?
Antes de se saber a resposta a esta questão, todas as especulações são possíveis.
Uma coisa é certa: se o PGR Pinto Monteiro despachou num processo administrativo, como tudo parece indicar, vai ser preciso explicar muito. Muito mesmo. Porque o valor do despacho de Noronha do Nascimento é igualmente nulo. E isso, ele devia saber melhor que ninguém...
Se assim for, o reino da justiça vai nu. E nem os duques, condes e marquesas conseguirão salvar as aparências.
A colaboração
Lisboa, 17 Nov (Lusa) - O ex-ministro socialista Armando Vara pretende "esclarecer tudo" quando quarta-feira for ouvido, como arguido, pelo juiz de instrução criminal de Aveiro no processo Face Oculta, revelou hoje à Lusa um dos advogados de defesa.
"A nossa vontade é esclarecer tudo", garantiu à agência Lusa o advogado Tiago Rodrigues Bastos, sublinhando que esta atitude vai "depender" da existência de "condições para o fazer", pois a defesa de Armando Vara "não sabe o que vai acontecer" no interrogatório, designadamente se terá "acesso" ao material probatório que alegadamente incrimina o vice-presidente do BCP que, entretanto, suspendeu as funções.
Em síntese, Tiago Rodrigues Bastos admite que a intenção da defesa de Vara é "esclarecer tudo" o que diga respeito a questões "concretas" e saber o que realmente sobre ele pende, em vez de ser confrontado com acusações "genéricas".
"Esclarecer tudo" é confessar, negar, aldrabar ou...estar calado? Veremos como é, embora saibamos que o suspeito já proclamou inocência. Numa carta com erros ortográficos e lida pelo vice-presidente do CSM.
Entretanto, tem interesse ler alguns comentários avulsos que estão no sítio da notícia. Todos coincidentes: a desigualdade dos cidadãos perante a lei, em Portugal, é um facto. Que contraria a Constituição escrita e a ética republicana.
Os guardiães de segredos
Que violações graves serão essas? As que prejudicam as investigações em curso e que encalacraram mais uma vez o PS? As que não poupam as figuras gradas do PS que assim se vêem constantemente envolvidos em trapalhadas que não conseguem explicar devidamente e só por espionagem se compreendem?
A ética dos Mascarenhas
Uma delas que disse agora mesmo é a de que por vezes há investigadores que sabendo a investigação a soçobrar, passam-na para a opinião pública. Mascarenhas sabe que é assim porque sim. E ninguém vai duvidar da sua certeza ética.
Repare-se que este indivíduo "ensina" ética a jornalistas e a sua ética é a de lançar suspeitas sem fundamento algum apresentado, sobre os investigadores.
Outra ainda do mesmo calibre: disse que logo que um magistrado saiba que um processo que tem em mãos, passa para a opinião pública, por violação do segredo de justiça, deve pôr-se imediatamente a investigar como tal sucedeu e se o não fizer é um "manga de alpaca".
Repare-se nesta ética do Mascarenhas: não sabe como funciona a máquina judicial nem sequer a lei penal que temos e alvitra o palpite que logo que um magistrado descubra que um processo seu foi alvo de violação de segredo de justiça que é um crime, deve fazer de autêntico justiceiro e passar à fase da indagação e devassa imediata dos suspeitos. Calcula-se que o deva fazer sem qualquer processo e apenas com base na ideia e vontade de agradar aos Mascarenhas que ensinam ética.
O facto de a violação de segredo de justiça ser um crime e por isso necessitar de um processo com todas as garantias de defesa, é um pormenor para este Mascarenhas. O facto de o seu palpite ser uma violação das regras do Estado de Direito apenas uma circunstância.
Estou farto destes Mascarenhas que não percebem nada daquilo que falam mas falam como se fossem mestres. Farto. Porque são estes Mascarenhas que depois ensinam ética aos novos jornalistas. A sua ética pelos vistos
A honra do segredo de justiça
Vejamos o que escreve Mário Crespo no JN de hoje( que a continuar assim, verá o "amigo Joaquim" a cortar-lhe a colecta não demora nada...):
Mark Felt foi um daqueles príncipes que o sólido ensino superior norte-americano produz com saudável regularidade. Tinha uma licenciatura em Direito de Georgetown e chegou a ser uma alta patente da marinha dos Estados Unidos. Com este formidável equipamento académico desempenhou missões complexas no Pentágono e na CIA.
Durante a guerra do Vietname serviu no Conselho Nacional de Segurança de Henry Kissinger. Acabou como Director Adjunto do equivalente americano à nossa Polícia Judiciária. Durante vários anos foi Director Geral interino do FBI.
A superioridade moral do ilhéu
À SIC:
Toca a reunir
Bruxelas, 16 Nov (Lusa) - O ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, admitiu hoje que a situação em torno do processo Face Oculta é "de preocupação para todos", considerando natural que membros do governo "emitam opiniões" políticas.
Amado, que falava em Bruxelas à entrada para uma reunião de chefes de diplomacia da União Europeia, remeteu para o regresso a Portugal comentários sobre o processo, precisamente pelo facto de estar a chegar a um conselho ministerial dos 27 na capital belga, mas, perante a insistência dos jornalistas, reconheceu tratar-se de "uma situação delicada, que tem alguma gravidade".
Questionado sobre as recentes declarações públicas sobre o processo de alguns membros do Governo, como os ministros da Economia, Vieira da Silva, e da Defesa, Augusto Santos Silva - que alguns partidos da oposição consideraram configurar "pressões" sobre os investigadores - , o ministro dos Negócios Estrangeiros considerou-as "naturais".´
os rotos e os esfarrapados
Marques Vidal, pai do procurador de Aveiro encarregado do caso da sucata, deu uma pequena entrevista ao C.M. de hoje. Fala do passado da Justiça e o panorama que conta não é famoso, nomeadamente sobre o combate ao crime económico surgido com as verbas do Fundo Social Europeu, na altura em que foi director da PJ, entre 1985 e 1991.Agora, diz que o sistema de Justiça está roto. Por todo o lado. Antes, no seu tempo, talvez estivesse esfarrapado. No essencial. Não vejo grandes diferenças.
A reforma sequencial

Imagem do Público de hoje, da Comissão da Reforma Alberto Martins. Legenda: da esquerda para a direita, começando com a figura, de costas, de Francisca Van Dunem; A. Martins;Mouraz Lopes;Costa Andrade; Helena Morão;Castanheira Neves. As instalações são do tribunal da Relação de Coimbra.
Alfredo Castanheira Neves, advogado, Euclides Dâmaso, procurador-geral-adjunto, Francisca Van Dunem, procuradora-geral distrital de Lisboa, Helena Morão, assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, José Mouraz Lopes, juiz desembargador, Manuel da Costa Andrade, professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, e Maria Fernanda Palma, professora catedrática da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
As leis a rever são o Código de Processo Penal, já com 23 versões desde a sua publicação em 1.1.1988 e o Código Penal, com 24 versões, desde 1982.
Das "personalidades" escolhidas para compor a comissão que terá de apresentar resultados em menos de dois meses, uma delas já se pronunciou sobre a sua revisão, no Correio da Manhã de hoje.
Fernanda Palma, mulher do presidente da Unidade de Missão que reviu a 23ª versão do CPP e a 24ª do CP, escreve hoje no jornal que a reforma daquela Unidade presidida pelo marido, foi genericamente uma boa reforma e que o "relatório Sousa Santos", do professor Boaventura do impagável Observatório Permanente, só propõe "meia dúzia de alterações cirúrgicas, sobretudo na base de estudos de opinião dos operadores judiciários". É bom que se diga já que os tais operadores judiciários avisaram com muita antecedência acerca dessas opiniões, muito antes da revisão do CPP ter sido encetada pela Unidade de Rui Pereira.
Portanto, ainda assim, Fernanda Palma concede que a ideia fundamental desta nova reforma da reformda da Unidade de Missão, destina-se apenas a aperfeiçoar aquela reforma. "Aprofundar tendências da reforma. Mesmo que aqui e ali se venha a alterar mais algum aspecto ( e indicou que esses aspectos são o do alargamento dos prazos do inquérito, a aplicação de prisão preventiva a crimes com moldura inferior à actual de cinco anos de prisão, o incremento do processo sumário e o problema do segredo de justiça), não se tem proposto senão uma pequena revisão. " Como quem diz que a reforma da Unidade foi uma reforma e peras. Agora serão apenas pericos o que se pretende reformar.
Pois bem! Com reformadoras deste calibre que já sabem o que querem reformar, em modo "cirúrgico", vão certamente continuar os contra-reformadores. A falta de visão de conjunto do sistema e da sociedade, origina frequentemente o fenómeno sequencial das reformas. Já vai em duas dúzias em cerca de 20 anos.
Daqui a alguns meses, virá mais uma reforma...a não ser que outro dos reformadores, o professor Costa Andrade, tenha a coragem de despejar o saco das críticas que entretanto foi fazendo publicamente e perante o próprio reformador Rui Pereira. Se o fizer, nem para o ano estará pronta a reforma da reforma Rui Pereira/ Fernanda Palma ( pelo que escreve no jornal, sempre a defender a dama, salvo seja.)
Curriculo da indiferença nacional
Em todos eles, e outros há, uma constante se verifica: todos arquivados ou simplesmente ignorados pelas autoridades judiciárias, por ausência de "indícios probatórios" e esquecidos pela opinião pública que vota.
Desconsiderados na sua importância e resolvidos numa eleição que aparentemente não foi impressionada pelos mesmos, apesar de profusamente relatados nos media e de inúmeros comentários depreciativos e de senso comum.
O visado saiu sempre vencedor na imagem pública dominante e a vergonha que qualquer pessoa poderia sentir se fosse atingida pelos factos aqui relatados, ao mesmo, resvala numa carapaça de resistência que o leva ainda a gracejar com os envergonhados ministros em conselho. O partido que o apoia, o PS, revela-se igualmente indiferente aos casos e procura desvalorizar os mesmos, atribuindo-os a uma luta politico-partidária sem outra relevância ética que não essa.
Ao longo dos últimos anos, houve sempre uma espécie de condescendência democrática com práticas que dificilmente seriam aceitáveis noutros países ocidentais e que por aqui se resolvem em anedotas ou em encolher de ombros de indiferença pública ou, quando muito, em cabalas de índole partidária e política.
Daqui-
De acordo com a acusação do Ministério Público, o consórcio liderado pelo grupo HLC terá sido favorecido quando ganhou a adjudicação da Central de Compostagem de lixo e respectivo aterro sanitário da Cova da Beira, localizada na Quinta das Areias, no Fundão. Foram constituídos cinco arguidos, mas só três acusados. António José Morais, antigo professor de José Sócrates na Universidade Independente e que desempenhou cargos de nomeação política durante a governação socialista; a ex-mulher de Morais, Ana Simões; e Horácio Luís de Carvalho, empresário da Covilhã, que era dono da firma HLC e hoje reside em Londres; são acusados dos crimes de corrupção activa e branqueamento de capitais.
Já outros dois arguidos viram os processos arquivados: Silvino Alves, antigo aluno de António José Morais; e Jorge Pombo, ex-presidente da Câmara da Covilhã. António José Morais esteve ligado à construção do aterro sanitário, em 1996, através do gabinete de engenharia liderado pela ex-mulher, estrutura que preparou o projecto, o programa do concurso, o caderno de encargos e avaliação técnica das propostas. Em 1999, após uma denúncia anónima, a Polícia Judiciária começou a investigar o caso, por alegado favorecimento do consórcio vencedor, liderado pela HLC e com a participação da Conegil, entre outras empresas. À data dos factos, José Sócrates era secretário de Estado do Ambiente, mas não foi ouvido no inquérito.
Daqui
Nos registos do Parlamento sobre o então deputado socialista eleito por Castelo Branco surgia uma licenciatura em Engenharia Civil, apesar de o actual primeiro-ministro já ter afirmado que apenas terminou a licenciatura em 1996, o que coincidiu com o exercício de funções de secretário de Estado adjunto do Ministério do Ambiente.
Nesse ano de 1993, o registo académico de José Sócrates incluía apenas um bacharelato em Engenharia pelo Instituto Superior de Engenharia Civil de Coimbra, que foi concluído no fim da década de 1970.
Desde então, José Sócrates frequentou o Instituto Superior de Engenharia de Lisboa e a Universidade Independente, tendo obtido aí o diploma em Setembro de 1996.
Daqui-
O tio materno de José Sócrates, Júlio Monteiro, admitiu ter proporcionado o encontro entre o actual primeiro-ministro e Charles Smith, sócio da Smith & Pedro, empresa contratada para conseguir o licenciamento do Freeport. As declarações fazem parte de uma entrevista dada pelo tio do ex-ministro do Ambiente ao semanário “Sol” e que será publicada amanhã. Paralelamente, um primo de Sócrates, Nuno Carvalho Monteiro, confirmou ao "Expresso" a existência de um encontro entre um intermediário do negócio do Freeport e o então ministro do Ambiente.
Até chegar ao mais recente e cujos magistrados de Aveiro consideraram a existência de indícios de comportamentos criminais e com o desfecho que agora se conhece.
De todos esses casos e outros ainda sobejam, para além do último, um impressiona pela presença da "smoking gun" que não foi devidamente considerada judicialmente, porventura devido a uma prescrição presuntiva aduzida pelas autoridades que poderiam ter feito algo mais pela descoberta da verdade: ouvir o principal suspeito, por exemplo. O caso é o do boletim de registo biográfico na A.R. notoriamente alterado por alguém e cujo original desapareceu...
Alguém que não o visado, algum primeiro ministro europeu, conseguiria ultrapassar politica e pessoalmente, um caso deste género?
(clicar para ampliar)
O descalabro?
A suspeita mais grave de todas está instalada:
As mais altas instâncias judiciais de Portugal, a PGR e o STJ, decidiram agir politicamente num caso em que apenas teriam que verificar o condicionalismo jurídico de factos criminais em que o primeiro-ministro era suspeito, por decisão de dois outros magistrados, precisamente os titulares do processo?
Ao presidente da República cabe decidir esta questão. E ao povo que vê, ouve e lê. E por isso não pode ignorar.
Se as suspeitas se confirmarem- e agora só se afastarão depois de ter sido conhecido o teor integral das escutas nas certidões remetidas pelo tribunal de Aveiro- temos a mais grave crise de regime de que há memória em Portugal, porque nem na altura das FP25 uma coisa destas aconteceu.
São mesmo nulas, senhores!
SIC.
No despacho do Senhor Procurador Coordenador do DIAP de Aveiro e no despacho do Senhor Juiz de Instrução Criminal sustentava-se que existiam indícios da prática de um crime de atentado ao Estado de Direito", continua.
Depois de analisar as certidões, Pinto Monteiro entendeu que essas suspeitas não se confirmavam e remeteu as certidões para o Supremo, a quem questionava sobre a validade das mesmas escutas.
Pinto Monteiro confirma que, a 3 de Setembro, Noronha do Nascimento julgou nulas as escutas ao primeiro-ministro e ordenou a destruição das mesmas.
O procurador-geral da República diz que recebeu mais seis certidões em Setembro e em Novembro e que nelas havia cinco conversações que respeitam ao primeiro-ministro.
Foi ordenado inquérito logo após a chegada das tais certidões? Como é que o PGR despachou um parecer, segundo tudo indica, semelhante à decisão do presidente do STJ? É o PGR quem tem competência própria para despachar num inquérito em que esteja em causa a apreciação de factos de índole criminosa imputados ao primeiro-ministro em funções?
Foram respeitados os prazos que o CPP impõe para apreciação pelo juiz de instrução criminal da eventual validade de escutas obtidas num inquérito, ou seja 48 horas depois de o MP ter tomado conhecimento das mesmas? Segundo tudo indica, foram os magistrados do tribunal de Aveiro ( DIAP e JIC) quem despacharam e avaliaram o conteúdo das escutas ao suspeito-alvo. Resultou das mesmas a escuta a um terceiro, interveniente na conversa com o suspeito e que no caso era o primeiro-ministro, a conversar, segundo o mesmo já referiu em público, em privado com um amigo.
Os magistrados entenderam que dessa escuta resultavam indícios de prática de crime de catálogo, susceptível de fazer aproveitar o conhecimento fortuito que obtiveram. Disso deram conta, por via hierárquica, à PGR. Esta, na pessoa do PGR, despachou no sentido de remeter o expediente ( já como inquérito ou apenas expediente e portanto não sujeito às regras estritas do processo penal?) ao presidente do STJ. Este apreciou o expediente ou inquérito e anulou a validade do teor das escutas ao PM. E mandou destruir o conteúdo.
O professor Costa Andrade, da faculdade de Direito de Coimbra e perito em assuntos desta natureza, porventura o maior em Portugal, porque teórico de processo penal e particularmente sobre estes meios de prova ( a sua tese de doutoramento é sobre estes assuntos), considerou hoje em público, na televisão que o presidente do STJ não tem competência material para despachar como o fez, mandando destruir o teor das escutas que estão nas certidões e acrescentou que tal competência caberia a um dos juizes da secção criminal do STJ, após distribuição do processo ( tem que ser um processo de inquérito).
Tendo em conta esta opinião de grande valia técnica do teórico do Direito Costa Andrade, o mínimo que se esperaria do MP era a interposição de recurso da decisão do presidente do STJ, a menos que fosse coincidente com a posição do PGR, como tudo indica.
Segundo a mais alta entidade do panorama judiciário português, o STJ, um comunicado divulgado hoje "a propósito de notícias sobre o processo "Face Oculta" refere que o presidente do STJ "tem competência exclusiva e indelegável, por força da lei, para validar ou anular escutas telefónicas e/ou respectivas transcrições em que intervenham o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República e o primeiro-ministro".
"Nessa medida, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça recebeu em mão um dossier sobre escutas telefónicas no dia 5 de Agosto de 2009, tendo interrompido as férias para tanto e tendo-se deslocado propositadamente a Lisboa", lê-se no documento.
A nota adianta que foi proferido despacho, "após análise detalhada de todo o dossier", no dia 3 de Setembro de 2009 e nesse mesmo dia, o presidente do STJ "entregou-o em mão à entidade competente, ou seja, à Procuradoria-Geral da República"."
Pelo que se lê, trata-se de um "dossier" ou seja, de um processo de natureza administrativa onde se despacham decisões jurisdicionais. Não se trata de um inquérito, porque um "dossier" não é um inquérito, formalmente e estamos no domínio do ultra formal e do ultra delicado e perante as proclamações que o presidente do STJ afirma com citação explícita do CPP, só no âmbito de um inquérito o poderia fazer. Um "dossier"?
Sempre gostaria que o presidente do STJ explicasse como despachou num "dossier" uma decisão com um alcance inaudito e com uma repercussão jurídica e política de tão grande peso...
Nota complementar: não obstante tudo isto, já se fala agora em cd´s quando antes se falava em "cassetes", tendo sido o PGR, o primeiro a falar em cassetes. Como é sabido, há muito que a PJ e o MP não usam cassetes nas escutas e muito menos em casos como este, em que se sabe terem sido usados instrumentos electrónicos de alguma sofistificação.
Enfim, este pormenor chega para dar a dimensão dos equívocos que se deixaram alimentar nestes últimos oito dias a propósito deste assunto.
Os principais responsáveis pelos mesmos equívocos e confusão gerada, nem é preciso nomear. Estão aí, à vista e a dar entrevistas que pouco ou nada esclarecem e muito confundem.
Tudo isto é lamentável e tudo isto era escusado.
O comendador varado
Armando Vara foi suspenso das funções pelo BCP, mas este conservou-lhe os rendimentos substanciais.
Justificação apresentada agora pelo incrível comendador Berardo: o homem precisa de viver...
Sério. Foi o único argumento que o comendador da Bacalhôa apresentou na tv ( SIC). Resta perguntar o que este comendador deve a Armando Vara.
A anedota do momento
Um grande empresário português marca uma audiência com José Sócrates,
na Residência Oficial do Primeiro-Ministro.
Enquanto aguarda, encontra Armando Vara que o recebe com muitos abraços.
Quando é recebido pelo Primeiro-Ministro, sente falta da carteira e
resolve abordar o assunto com o PM:
- Não sei como lhe hei-de dizer, Senhor Primeiro-Ministro, mas a minha
carteira acabou de desaparecer!
E continuou:
- Tenho a certeza de que estava com ela ao entrar na sala de espera.
Tive o cuidado de a guardar bem, após apresentar o BI ao segurança.
Não quero fazer nenhuma insinuação, mas a única pessoa com quem estive
depois disso foi o Dr. Armando Vara, que está aqui na sala de espera
ao lado.
O Primeiro-Ministro retira-se do gabinete. Pouco tempo depois,
regressa com a carteira na mão.
Reconhecendo a sua carteira, o empresário comenta:
- Espero não ter causado nenhum problema pessoal entre o Senhor
Primeiro-Ministro e o Dr. Armando Vara .
Ao que José Sócrates responde:
- Não se preocupe! Ele nem percebeu!...
Nisto, nas anedotas instantâneas e oportunas, não há quem nos bata. Mas não tiramos as devidas ilações que as mesmas comportam...
José S. versus primeiro-ministro
O primeiro-ministro afirma que o seu conhecimento das alegadas escutas é o que tem sido publicado na comunicação social e que não comenta conversas de domínio privado.
Portanto, temos esta dupla qualidade: o primeiro-ministro quer saber se foi escutado durante meses e com que legalidade. O cidadão José S. esse, afirma na mesma altura em que se faz passar por PM, que "não comenta conversas de domínio privado". E que são exactamente as mesmas que teve enquanto PM que terá sido escutado e cuja legalidade pretende sindicar.
É isto que temos como primeiro-ministro de Portugal. É este exemplo e o de muitos apaniguados que lhe defendem o canastro político, porque acabam a defender o seu próprio estatuto pessoal e político. A sua vidinha, no fundo.
Marinho e Proença, associados.
Jornal i, citado no InVerbis:
“Quem de facto manda são as tais viscondessas, os viscondes, os barões de que ele falou” há tempos, reforçou Marinho Pinto, em declarações à Agência Lusa, no final de uma conferência sobre o processo de inventário no Tribunal de Gaia.
O bastonário defendeu, aliás, igual ideia perante os advogados presentes, sustentando que quem manda é o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público e o Conselho Superior do Ministério Público, porque, acrescentou, “têm poderes a mais”.
Marinho Pinto entende que “é preciso reforçar a componente hierárquica dentro do Ministério Público (MP), cujos magistrados não são independentes, independentes são os juízes”.
“A magistratura do Ministério Público está hierarquizada, tem superiores hierárquicos e os inferiores devem obedecer aos superiores”, argumenta, concluindo que “isto não é o que acontece em Portugal”.
Entre nós, continuou, “os procuradores actuam de acordo com a sua cabeça e agem como de fossem juízes, o que é mau, mas pior ainda é ver alguns juízes a agir nos tribunais como se fossem procuradores, a suprir as insuficiências do inquérito”.
Para além destas considerações de Marinho e Pinto que seguem na esteira de Proença de Carvalho e outros que tais, Marinho e Pinto também considerou que as escutas da Face Oculta ao PM são "uma vergonha". Tirando a análise dessa vergonha, parece evidente que a verdadeira vergonha é ver um bastonário dos Advogados colado politicamente ao Governo e a este PM em concreto, fazendo sempre de advogado de defesa. Mesmo neste caso de sucata...mas adiante.
Marinho e Pinto tem razão no que diz, quando diz que o PGR não manda assim tanto no MP. como se julga? Tem, em parte.
Terá alguma razão nos motivos directos e principalmente nas razões de fundo ( que não apresenta, o que origina especulações) de discordância do status quo actual do Estatuto do MP e do CPP? Veremos se sim ou não, sumariamente.
Qual a razão de fundo e de forma para se manter uma certa independência e autonomia dos magistrados de base ( os procuradores-adjuntos) e os intermédios ( procuradores da República) em relação aos magistrados do topo da hierarquia ( procuradores gerais distritais, adjuntos do PGR) e do topo mesmo ( PGR)?
É esta: o estatuto de magistrado confere poder de decisão no âmbito de um processo penal ao magistrado titular desse processo de modo que nenhum outro magistrado, hierarquicamente superior poderá sugerir, ordenar ou avocar o processo senão nos termos da lei de processo, ou do estatuto, através de ordens, directivas ou instruções.
O magistrado titular tem um dever de legalidade, de objectividade e de responsabilidade, decidindo de acordo com a sua consciência jurídica. Um magistrado não é um funcionário e por isso, as suas decisões são pessoais e de acordo com aqueles critérios. Por outro lado, poderá recusar em certos casos, o cumprimento das ordens, directivas e instruções. A intervenção dos superiores hierárquicos no âmbito de um processo concreto a cargo de um magistrdo titular, é muito restrita e legalmente condicionada. E assim é que está bem por causa de uma coisa simples: para a autonomia do MP é fundamental que isto seja assim. Se não fosse, a autonomia era uma palavra totalmente vazia de sentido.
O que Marinho e Pinto e Proença de Carvalho querem não é isso, não é essa autonomia . Porque os incomoda que um magistrado possa decidir de acordo com a lei e a sua consciência, afrontando os poderes que querem interferir neste processo de decisão.
Como? Obviamente, através da interferência dos superiores hierárquicos, único modo de sapar essa autonomia, em concreto e eficazmente.
Neste caso concreto que apresenta semelhanças com o da Casa Pia, Marinho e Pinto e Proença de Carvalho preferem um sistema que permita ao PGR avocar informalmente o processo e dar ordens ao magistrado titular, informais ou mesmo formais com toda a liberdade de actuação processual e que pode muito bem ser condicionada por ditamos do poder político.
Basta que o PGR passe a depender do poder político e a responder perante ele, por critérios quase pessoais e políticos, como acontece noutros países, para que tal possa suceder. Em Portugal não é assim e os problemas que se equacionam foram bem pensados e reflectidos na época e ao longo das revisões do estatuto do MP. Numa dessas vezes, em 1991, tal problema, conduziu os magistrados do MP a manifestarem-se na AR, publicamente, para desagrado de Pacheco Pereira, então líder de bancada do PSD ( segundo julgo). A questão de fundo, por isso, é sempre a mesma: divisão de poderes e mais ou menos democracia. Marinho e Pinto, muito próximo da demagogia de um Chavez já se sabe onde está agora: do lado do poder que lhe interessa.
Marinho e Pinto e Proença de Carvalho querem que passe a ser assim porquê? Por razões óbvias: porque estão do lado do poder político e de força. Não estão ao lado do povo embora o primeiro diga que sim.
Hipocritamente, como se pode ver. Diz-se de esquerda, mas é um submarino do poder . Político oi outro, menos o realmente democrático . Uma vergonha, portanto.
E explica-se rapidamente porquê.
Como poderia o superior hierárquico do magistrado do MP, ordenar seja o que for, no âmbito do processo concreto ao magistrado titular? Através de ordens escritas no processo que o superior hierárquico assuma como suas e cuja orientação dará por escrito ou até verbalmente. Mas qual superior hierárquico o poderá fazer? O imediato, ou seja o procurador da República, ou o sucessivo ou seja, o procurador geral adjunto, distrital ou até mesmo o PGR?
Sabendo que o PGR não despacha directamente nos processos porque a lei o impede, o que poderá o mesmo fazer? Dar instruções concretas, claro está. A quem? Directamente ao magistrado titular ou através do intermédio? Por este meio, também. E directamente, através de meios informais ( telefone, reunião com o titular, etc).
E porquê? Muito simples de entender. Assim, o PGR teria o controlo completo do processo concreto. E como o PGR passaria a ser controlado pelo poder do Governo, como acontece nalguns países, sabemos perfeitamente o que pretendem estes defensores do vínculo político, tão indignados que estão: sabem que uma independência dos magistrados em relação às hierarquias e uma menor autonomia interna lhes permitiria abafar estes escândalos com maior facilidade.É isso que Marinho e Pinto pretende. Mais nada. Está-se nas tintas para o resto, aliás.
O problema do PGR ao queixar-se dos duques e marquesas do MP insere-se neste contexto. Mas a sua melhor explanação fica para outra vez. Uma coisa é certa: Souto Moura que percebia melhor o estatuto do MP, nunca se queixou deste problema...
