quinta-feira, janeiro 05, 2017

Eles estão aí, os lobos...elas vivem aqui, as hienas: a Censura veste Esquerda

O artigo de Alberto Gonçalves da Sábado de hoje é uma crónica das almas censuradas que põe o dedo na ferida que aqui ando a pisar há anos e anos: o domínio da Esquerda sobre o pensamento destina-se a conquistar o poder. O comunismo, coisa do passado? Pois sim...mas os fósseis ganham vida no âmbar.







Em 1975 esta fauna apareceu em palco saída de um zoo de horrores escondidos. A Esquerda comunista, incluindo a trotskista dos louçãs e quejandos,  nunca foi devidamente denunciada como assassina dos valores humanistas e reincarnação da inquisição verdadeira e horrenda, apesar dos inúmeros exemplos que vinham do Leste. Com o paleio da novilíngua conseguiu convencer os papalvos e quase toda a intelligentsia que o fassismo era o novo papão que comia as pessoas ao jantar, usando o estratagema da geringonça: trocar o sentido às palavras. O sucesso foi o que se pode ver...

Em 1975 foi publicada uma canção com melodia de antologia e que tinha como título Os Lobos: eles estão aí, com produção de...José Cid e cantado por Vieira da Silva.

A capa e contra-capa:



A cançoneta é esta. "Troquemos-lhe as voltas porque o dia ainda é uma criança"  e em vez de "comunismo" cantemos "fassismo". O sentido é idêntico...



quarta-feira, janeiro 04, 2017

Vanessa, Marco, Fábio, Márcio e a cretinice ambiente

Na revista Ler do Inverno de 2016 aparece uma longa entrevista a António Araújo, apresentado como "mestre em Direito Público" e doutorado em História Contemporânea na Univ. Católica com uma tese "sobre a oposição católica ao marcelismo e o caso da Capela do Rato", para além de outros itens de um currículo académico que o conduziu a  instituições extractivas ( é assessor, consultor, da presidência da República, o que fica tudo dito a esse propósito).

A entrevista é irritante em várias passagens, pela arrogância que exala a propósito de algumas explicações para certos  fenómenos sociais. Nunca aparecem as expressões "a meu ver", "segundo penso", "parece-me", etc etc.
Este indivíduo tende a categorizar certos fenómenos como se fosse um mestre intelectual do nosso pequeno universo e lhe tivesse sido revelada a essência das coisas banais em linguagem booleana eivada do simplismo próprio ao formato mp3. Explico:  o mp3 é um formato digital de compressão do som que suprime a linearidade analógica da onda, cortando-a literalmente em pedacinhos digitalizados, tentando enganar o ouvido humano habituado a subtilezas para além dos números. O som que daí resulta  é comprimido e incompleto. Quem escuta parece-lhe perfeito mas torna-se cansativo porque oco em algumas frequências e carente da beleza subtil da onda original.
O que se lê na entrevista assemelha-se a tal  por comprimir em conceitos  aparentemente adequados, o que resulta ser oco e desajustado e carente da explicação compreensiva do fenómeno.
Porém, para quem é, parece que bacalhau basta, como é o caso destes conceitos agora esportulados e que já faziam parte do livro que em tempos aqui foi recenseado em que comparei o autor a uma certa Eduarda Dionísio.

 


Por exemplo, o conceito de elite e povo que começa por dar o mote à entrevista.  "As elites estão muito afastadas daquilo que que se deve considerar cultura num sentido amplo, do ponto de vista de hábitos culturais e de consumo de massas. Quando se fala em cultura popular, por exemplo, isso pressupõe já, de certo modo, uma apropriação dos hábitos dos pobrezinhos. O "povo" tem estado ausente dos discursos sobre cultura".

O que quer isto dizer? O que são as tais elites? O que é o tal povo dos pobrezinhos? Quem é que produz o tal discurso sobre a cultura que não é ouvido pelos pobrezinhos?

Que raio de linguarejar é este? Outra Eduarda Dionísio?!

E a entrevistadora, na mesma onda mp3, pergunta indicando o problema: "apesar de, na verdade, quase ninguém saber do que fala quando fala de povo". Pois...mas ainda assim, insiste o intelectual na compressão:

"Dou três exemplos no livro ( textos de Clara Ferreira Alves, Pacheco Pereira e Miguel Sousa Tavares) de quando os intelectuais se arvoram em arautos do povo e não fazem mais que uma representação quase ficcionada desse mesmo povo".

Aqui chegado e apenas na segunda resposta da entrevista já estou cansado de ouvir este mp3 que me soa a frequência estafada da cretinice ambiente.

Então aqueles espécimes é que são os "intelectuais"? A Clara Ferreira Alves é uma intelectual?! De quê? Da croniqueta no Expresso? De um livro esquecido nas tulhas dos livreiros, coitados, que tiveram de suportar os custos da edição inútil?

E continua a recitar em compressão mp3, citando Milton Nascimento de um disco de 1981 ( Caçador de Mim): "dizer que  "é preciso ir onde o povo está",  como canta Milton Nascimento, pressupõe desde logo, que existe uma discrepância de lugares entre o povo e aqueles que falam em seu nome. Mas, na verdade, a elite intelectual não se interessa de todo por quem lê o Correio da Manhã ou por saber qual é o programa mais visto na televisão".

Este som, traduzido em bytes conceptuais, falha algo essencial. Milton Nascimento canta efectivamente que "todo o artista tem de ir onde o povo está", na canção Nos Bailes da Vida,  referindo-se ao ofício de cantor e à necessidade de ganhar a vida "na estrada",  quem assim começou. É esse o contexto e nenhum arrebatamento poético se extrapola para além disso:
Foi nos bailes da vida ou num bar
Em troca de pão
Que muita gente boa pôs o pé na profissão
De tocar um instrumento e de cantar
Não importando se quem pagou quis ouvir
Foi assim .  


Adaptar este conceito poético sobre a profissão do cantor popular ao intelectual que tem de se aproximar do povo é um exercício vão,  ao dizer que tal pressupõe uma discrepância de lugares entre o povo e aqueles que falam em seu nome. Não é nada disso e a comparação é apenas pedante.

Nos dizeres de Araújo, aliás, topam-se estas discrepâncias com alguma frequência de compressão e que enganam o leitor desatento.

A páginas tantas da entrevista sai-se com esta, a propósito da onomástica "antiga" supostamente recuperada depois do aparecimento da revista Olá, de um Semanário já extinto e que surgiu em 1983:

"Já passou o tempo das Cátias Vanessas...O primeiro momento de estupefacção com essa onomástica, muito importada das novelas, está registado na música do António Variações, "Maria Albertina, porque foste nessa de chamar Vanessa à tua menina?"

É certo que Variações cristalizou em sonoridade cantada o verso em causa. A música será de 1983,  mas foi popularizada apenas em 2004 pelo grupo Humanos. Mais de dez anos depois e só nessa altura ouvido publicamente porque Variações, nos discos que editou em vida não incluiu tal tema para ser ouvido como se fosse "o primeiro momento de estupefacção com essa onomástica, muito importada das novelas".

Não foi e estas compressões conceptuais ficam mal pela incorrecção, pela desnaturação e pela falsificação implícita. Nem chegam sequer a pedantice...

Muito antes de Variações ter descoberto em 1983 a especial apetência das marias albertinas em dar nomes abrasileirados aos filhos, já havia a tendência  para os marcos, para os fábios e até, quiçà, para as danielas. Não foi preciso o génio de Variações trazer à luz de uma canção a descoberta mirífica do fenómeno que toda a gente percebia. Se calhar com excepção dos intelectuais da escrita...

São estas compressões que desvirtuam a qualidade de análise destes fenómenos correntes e a entrevista parece-me eivada de casos destes, de compressão e desnaturação de conceitos. Outro exemplo, para terminar:

O Correio da Manhã é apresentado como o jornal que a "elite" não lê e destinado a quem não pertence à tal elite,  seja isso o que for que nunca é bem explicado e aparece comprimido, em tom de "elite intelectual",  o que é outra compressão desnaturada.

A ideia básica que se adivinha mas não se expressa é que o Correio da Manhã não é um..sei lá, um Público, ou até mesmo um Diário de Notícias.
Porquê? Porque sim, porque não é e dá-se como assente e consensual tal asserção assim comprimida.

 Ora, quod erat demonstrandum, como diria um jurista qualquer, sem compressão necessária.

O Correio da Manhã centra muita da sua atenção nos fait-divers noticiosos, com destaque para as ocorrências que denotam crimes, escândalos sociais ou tidos como tal, acontecimentos do dia a dia que deveriam ser o tema de qualquer jornal diário.
O Jornal de Notícias do Porto faz exactamente a mesma coisa, ainda melhor.

Colocar o Correio da Manhã como exemplo de jornal que não interessa às tais elites ( sejam lá o que forem, mesmo as intelectuais) é um erro e resulta outra vez da tal compressão conceptual que deriva de uma falta de entendimento sobre o que é verdadeiramente o jornal Correio da Manhã.
Raramente é desmentido, tem uma dignidade jornalística que o Diário de Notícias e o Público não têm, apesar de julgarem que sim, etc etc.

Como não temos em Portugal jornais verdadeiramente trash, embora politicamente o Diário de Notícias pudesse ser a tal assimilado ( e não o Correio da Manhã), resulta esta confusão conceptual que passa por sabedoria de elite.

Para mostrar a confusão que pode advir da classificação apressada do que é um jornal popular e desviado do interesse das tais "elites", deixo aqui um exemplo antigo de um jornal popular desafiando quem o possa classificar mesmo em modo de compressão...

Diário Popular de 7.12.1971:


Suplemento do Diário Popular das quintas-feiras, do dia7.1.1971:



























Se este jornal diário dos anos setenta, do tempo do Estado Social de Marcelo Caetano se destinava a leitores "populares" não parece nada despiciendo afirmar que era também um jornal para as "elites" tanto mais que a informação corrente da propaganda do actual regime é a de que nesse regime antigo o do "salazarismo" havia muito analfabetismo e obscurantismo. Este exemplar que mostro é anterior ao caso da "Capela do Rato"...

Algumas destas afirmações acerca da natureza daquele regime antigo são produzidas por quem era jornalista na época e devia saber melhor o que diz, deixando por isso de emitir opinião em modo mp3...como faz este António Araújo cuja entrevista, por isso mesmo se revela muito cansativa de ler.

terça-feira, janeiro 03, 2017

Regresso ao futuro das "instituições extractivas"

Antes de 25 de Abril de 1974 quase não havia komentadoria na imprensa. Tirando os casos pontuais de João Coito e Vitorino Nemésio, com colunas escritas na revista Observador, não me ocorre mais ninguém cuja opinião avulsa pudesse ser lida nessa altura. Nem o Expresso, por vezes carregado de artigos de opinião encarregava alguém, regularmente, para emitir parecer sobre tudo e o par de botas.

Havia, é certo, os cripto-colunistas como o comunista Mário Castrim que escrevia crónicas de tv no Diário de Lisboa, quase todas enviesadas para o sentido político que rebuscava nos mais variados assuntos, até mesmo nas touradas.

A Vida Mundial em finais de 1974 já tinha como comentador-residente o escritor José Gomes Ferreira e também António José Saraiva.

A praga da komentadoria começou depois e de há 40 anos a esta parte alastra a tudo o que se publica em audio, video e escrita simples, atingindo agora naturalmente o paroxismo, nos blogs e "redes sociais".

Em 1980 o "atraso português" que aqueles komentadores glosavam habitualmente  ainda se apresentava desta feição :



Dez anos depois, em Dezembro de 1984 apareceu a revista Grande Reportagem, que queria ser ao começar, uma "revista de informação e reportagem, não uma revista de opiniões e de mexericos".
No número 6, de 11 de Janeiro de 1985 já tinha dois "opinativos": Maria Filomena Mónica e Vasco Pulido Valente. Alguns meses depois juntou-se-lhes António Barreto

Este teve logo uma ideia: escrever sobre os 40 livros portugueses que mais o influenciaram e explicava assim ( aos 43 anos) o assunto da escrita em geral: uma coisa quase inútil, irrelevante e trivial. Porém, reconhecia que ao escriba se exigem particulares características: "sem uma arrogância radical e a convicção íntima mas devastadora da sua superioridade, nenhuma força no mundo o arrastaria para a frente do papel em branco e o faria pacientemente fabricar filas e filas de palavras, com um fervor maníaco que aplicado a objecto menos ofensivo o conduziria à cadeia ou à manufactura terapêutica de cestos".



No nº 22 de 3 de Maio de 1985, VPV glosou o livro de Oliveira Martins, Portugal Contemporâneo, obra de fundo sobre quem éramos no séc. XIX que deu origem ao que se passou a seguir.



Aqui a 8ª edição de 1979 ( a primeira saiu em 1881)



 O livro de Oliveira Martins anda um pouco esquecido da komentadoria habitual que pulula nos media actuais ( desconfio que Pacheco Pereira nunca o leu...) e o segundo volume tem este índice:


Sobre o socialismo que se adivinhava nessa altura, Oliveira Martins escrevia assim: em Portugal não havia hipótese de o socialismo singrar porque tínhamos poucas ou nenhumas indústrias. Faltava obra-prima para a luta de classes...


Tudo isto tem a ver com a crónica de um komentador acidental que aparece no Diário de Notícias de hoje e que assina Nuno Garoupa.


 A crónica repesca o tema do "atraso português" que VPV tem glosado e Oliveira Martins explicou no séc. XIX através daquele livro.

Garoupa como os demais não sabe indicar as razões do atraso, mas apresenta uma, perigosamente corporativa: depois de explicar o papel das "instituições extractivas", um achado conceptual,  apresenta o défice de importância que concedemos aos nossos "cientistas" que serão valorizados "lá fora" e por aqui esquecidos das elites saídas daquelas instituições veneráveis que perduram há séculos, em Portugal. As "instituições extractivas" serão por isso mesmo "historicamente incapazes de organizar uma sociedade e uma economia avançadas" ( Garoupa dixit).

Em 1985, ano que foi de viragem para o nosso então futuro, entramos da "Europa" e a revista GR em Junho desse ano  fazia assim o retrato do país:


Em Maio a "instituição extractiva" assimilada a uma coisa apontada como "a direita" era assim apresentada pelo komentador António Barreto que identificava na tal "direita" os nomes de Cavaco Silva e Freitas do Amaral...o que denota logo um problema epistemológico ainda por resolver.



Ao longo dos últimos trinta anos este problema continua aparentemente insolúvel e cada vez mais intrincado. A "direita" agora já contempla luminárias como as que se juntam no PSD e há indivíduos cujo passatempo preferido é "malhar na direita" ao mesmo tempo que em privado se portam como caceteiros de feira de cebolas e gado. São governantes, actualmente...o que diz bastante sobre a nossa evolução política nas últimas décadas.
Ora essa evolução tem sido condicionada precisamente pela komentadoria avulsa que aparece nessas feiras e aí se arrebanha.
 Suspeito bem que este fenómeno nunca foi previsto por aqueles proto-komentadores...

Um artigo destes publicado em 18 de Maio no Público seria hoje incompreensível e até obnóxio. Porém, é mais actual do que parece, uma vez que o PCP continua imperscrutável na sua essência e cada vez mais oculto nos seus propósitos que se estendem ao movimento sindical e à Educação in totum.

Nunca sairemos da cepa torta do atraso português enquanto dermos crédito às ideias fossilizadas do PCP, aceitando-o como partido democrático. Esse cancro corrói a sociedade portuguesa de há mais de 40 anos a esta parte. 


 Portanto, o "atraso português" terá a ver com os fenómenos elencados por Nuno Garoupa a que se devem acrescentar os demais que impedem uma definição clara da "organização da sociedade e uma economia avançadas".

Isto permanecerá utópico enquanto se acreditar em ideias fossilizadas e "lutas pela igualdade" que apenas pretendem alcandorar ao poder os que as defendem na teoria e as eliminam logo na prática, ficando anos e anos no centro do poder de comité central, monarquizado, desigual, iníquo e falso.

É este, a meu ver, um dos maiores problemas de Portugal.

segunda-feira, janeiro 02, 2017

Magazine de cultura popular

Esta colagem de várias imagens soltas que me impressionavam foi realizada há mais de trinta anos para enquadrar em moldura. Ficou sempre assim e é um repositório de lembranças da cultura popular da época. Cada revista com a capa aqui reproduzida e cada imagem evocativa é um veículo de transporte para uma fantasia ou realidade passadas.
Happy trails para quem tomar este transporte...



Para certa gente, Salazar não devia existir...

 Daqui:

O site da Presidência omite Oliveira Salazar da lista de presidentes, mas inclui Spínola.
António Oliveira Salazar (que foi chefe do Governo de 1932 a 1968), chegou a ser Presidente de Portugal (Interino) no período que decorreu de 18 de Abril de 1951 a 9 de Agosto de 1951. Tendo como antecessor Óscar Carmona e como sucessor Francisco Craveiro Lopes.
Podia dizer-se que o pouco tempo que ocupou a função explica a ausência da lista de presidentes, mas a verdade é que António Spínola que foi Presidente da República de 15 de Maio de 1974 a 30 de Setembro de 1974 (tendo antecessor Américo Thomaz e como sucessor Francisco da Costa Gomes) foi incluída na lista de todos os Presidentes de Portugal.
Uma lista que vai desde Manuel de Arriaga (1911 a 1915) até Aníbal Cavaco Silva (2006 a 2016), os nomes dos Presidentes da República desfilam numa lista de 19 pessoas, onde na verdade foram 20 os Presidentes da República até agora, com Marcelo Rebelo de Sousa a ser o vigésimo primeiro.
Depois de Manuel de Arriaga, o chefe de Estado foi Teófilo Braga. Seguido por Bernardino Machado;  Sidónio Pais; João do Canto e Castro; António José de Almeida; Manuel Teixeira Gomes; José Mendes Cabeçadas; Manuel Gomes da Costa; Óscar Carmona;  Salazar; Francisco Craveiro Lopes; Américo Thomaz; Francisco da Costa Gomes; Spínola; António Ramalho Eanes; Mário Soares; Jorge Sampaio; Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa.

É um escândalo, mais um,  a acrescentar a tantos outros do mesmo género.

sábado, dezembro 31, 2016

Prè-obituário de Mário Soares

O jornal Sol de hoje consagra a maior parte do recheio ao assunto Mário Soares, num prè-obituário em que espera o desaparecimento do mesmo durante a semana que entra. Tanto faz.

Mário Soares goza nos tempos que correm e há anos a esta parte de uma condescendência imerecida, injustificada e afinal só compreensível pela uniformização formatada dos media nacionais.

Os artigos do Sol não fogem a este padrão básico, porque assinados por luminárias como Ana Sá Lopes e outros anónimos do texto impresso. Para encontrarmos ideias diversas sobre o percurso funesto de Mário Soares pela política nacional dos últimos 45 anos não irá ser fácil e aposto que nem o Diabo fará a diferença. Não tem gente com estaleca suficiente para tal o que mostra bem o grau de desgraça que atingimos em tantos anos quantos os que Salazar esteve no poder.

A grande condescendência para com o nosso Kerenski ( deixou efectivamente a esquerda comunista fazer o que nunca deveria fazer, logo na Constituição de 1976) atingiu já as raias do inimaginável com um unanimismo que atinge o actual presidente da República que esqueceu tudo quanto ouviu de Marcello Caetano quando já tinha idade de entender. Sobre o que o pai, ministro de Salazar,  lhe ensinou nem vale a pena falar.
Marcelo Rebelo de Sousa é o símbolo actual da nossa maior decadência: a de apostatar o que de melhor tivemos no século XX, com o Estado Novo e o Estado Social que se lhe seguiu.
Não foi a Liberdade aparente que se recuperou em 25 de Abril de 1974 que constituiu a maior dádiva, como agora é proclamado, mas o perdimento de uma realidade que era importante para qualquer povo que se preze: o da independência e aprumo moral e respeito por nós próprios enquanto povo e pelo nosso passado secular.
Isso, temo bem, perdeu-se e Mário Soares foi um dos obreiros principais de tal tragédia, porque tal nunca lhe disse nada. Filho de padre apóstata,  republicano jacobino, activista político no tempo da desordem republicana que originou o 28 de Maio de 1926, saiu bem à geração que o criou, oposta em tudo à geração que criou Salazar. Mário Soares é um filho bastardo da pátria que foi a nossa durante séculos e não merecia ter sido o que foi, a não ser por inversão dos valores que entretanto se operou. Mário Soares é filho do anticlericalismo, do jacobinismo e de um esquerdismo incipiente que sempre se opôs à tradição nacional e ao conservadorismo que tivemos. Isso basta para que nunca o tivesse gramado e é suficiente para muitos o hagiografarem como um improvável Vasco Pulido Valente, nascido num meio parecido que nos denega a nossa natureza de país católico, tradicional e conservador, por eles tomado como "atrasado", em função sabe-se lá bem de quê...

O prè-obituário do Sol afina pelo mesmo diapasão mas consegue mesmo assim ser minimamente objectivo na análise do percurso de vida do agora quase finado e por isso recomendo leitura integral.

O editorial do filho de António José Saraiva é exemplar desta condescendência atroz, desta falta de perspectiva história e desta cegueira que não permite ver além das amizades familiares:


Há vários mitos que tendem a permanecer quanto à figura do quase-finado. Um deles é o do papel desempenhado em 1975 aquando do assalto do PCP e esquerda comunista em geral, ao poder político, com auxílio directo do MFA.


O "comício da Alameda" em que Mário Soares, em 19 de Julho de 1975,  alertou os presentes de Lisboa ( várias centenas de milhar) para o perigo iminente que o PCP constituía tem sido demasiado sobrevalorizado como factor determinante para o travão imposto ao PCP que culminou em 25 de Novembro com a estrondosa derrota militar e política e o seu afastamento das veleidades do PREC. Esta versão dos acontecimentos, aqui contada por uma analfabeta Ana Sá Lopes ( no sentido que Vasco Pulido Valente apodou a outra, Clara Ferreira Alves) é a "oficial", repenicada vezes sem conta mas é uma falsificação história, a meu ver.

Tal mito  esquece esta realidade vivida a Norte do país e que nunca é devidamente valorizada ou até mencionada como devia ser:

No Verão de 1975, em Braga e noutras localidades, os católicos tomaram a iniciativa de combater o PCP e fá-lo-iam de modo eficaz, quer houvesse ou não um Mário Soares que lutava pela sua pele e não por qualquer religião ou direitos individuais.
Foi preciso uma revista francesa- Paris Match, edição de 23 de Agosto de 1975- vir cá para dar conta da realidade que os demais órgãos de informação nacionais escondiam...



Outro mito é o da descolonização. Mário Soares foi um dos obreiros efectivos e eficazes da entrega das antigas províncias ultramarinas que tinham sido nossas colónias até aos anos cinquenta, aos movimentos guerrilheiros, particularmente os enfeudados ao comunismo soviético. Mário Soares não cuidou de precaver o que poderia acontecer aos seus concidadãos que ainda lá estavam e até disse mais: se se opusessem à independência ou tentassem uma solução à moda da Rodésia de Ian Smith, teriam a oposição dele e do país que então o mesmo governava, como ministro dos Negócios Estrangeiros. Isto só será entendido como traição à pátria se não se conhecesse o que Mário Soares tinha combinado com o PCP, em Paris, pouco antes de 25 de Abril de 1974: a entrega incondicional desses províncias à independência, tal como aconteceu.

O que o Sol escreve sobre o assunto, da autoria de António Bilrero (?) dá uma ideia aproximada da realidade história que então foi distorcida pelos meios de Direita que ainda existiam  no país.





A entrevista à Der Spiegel, de Junho de 1974, aqui citada neste artigo foi já transcrita aqui e tem mais matéria que esclarece cabalmente o que Soares então disse aos alemães da revista...

 Outra questão importante é o que ocorreu após a eleição de Soares como presidente da República, em 1986, um dos desastres maiores para a democracia, nestes últimos 40 anos e que teve o papel preponderante do PCP ( et pour cause). Tal significou o aparecimento de uma casta política que permanece actualmente agarrada ao poder e que se alimentou a leite e mel da corrupção chinesa do jogo de Macau e arredores. Stanley Ho e sus muchachos continuam a dar cartas em Portugal, agora na GlobalMedia, entre outros "investimentos".


O assunto poderia ter ficado resolvido em 1991 mas não foi porque o poder judiciário ( de Cunha Rodrigues e Rodrigues Maximiano, marido de Cândida de Almeida, todos de esquerda socialista ) tal não consentiu. Um dos escândalos maiores da nossa democracia que foi enterrado nas brumas do esquecimento, mas que neste artigo ( Ana Sá Lopes) é devidamente lembrado embora com aquele tinto de condescendência jornalística que não questiona.

Depois disto aparece a menção à "protecção" de Soares aos amigos, como Sócrates, Salgado e Craxi, apresentada com a simples explicação de que o dito "não deixa cair os amigos"...e a democracia e transparência e Justiça que se danem que aqui não fazem falta nenhuma.

 Para mim, a imagem que melhor define Mário Soares no início do seu percurso é esta da Paris Match, de 23 de Agosto de 1975, igual a nenhuma outra que a imprensa portuguesa jamais publicou. Soares é sempre apresentado como amigo dos seus amigos mas não se conhece com exactidão o que lhe pertence, o que auferiu durante o exercício do cargo, o que lhe ofereceram os tais amigos e isso revela bem o grau de suprema condescendência que não têm para com outros.
Deviam comparar este quase finado, da democracia, com o que Salazar, Marcello Caetano e os seus ministros tinham quando morreram e como o ganharam. Afinal, a democracia devia permitir estas comparações para mostrar a sua ética e moralidade supostamente superiores...
Para tal seria suficiente fazer um apanhado geral dos quadros que lhe foram oferecendo e que guardou ( Salazar doou logo a melhor pintura que lhe ofereceram, da Renascença italiana,  ao museu do Caramulo...)


Esta imagem resume bem o que era Mário Soares no Verão do PREC: um indivíduo comum, com fruteiras simples em cima da mesa de casa...

O que se passou nos 20 anos a seguir ficou mais ou menos retratado aqui e não é nada lisonjeiro ou digno de apreço democrático ou outro.

Pelo meio ficaram duas bancarrotas que medraram à sombra das medidas económicas perfilhadas pelo quase finado. Porém, nem isso é suficiente para mostrar a mediocridade do mesmo e dos malefícios que objectivamente foi causando ao país, como governante e como presidente da República.

Um país que escolhe pessoas destas como líderes e ainda por cima as cobre de encómios depois de saber o que fizeram,  merece o destino que tem: a pobreza que se continua há décadas, sem fim à vista.
Os que lhe tecem encómios, por seu turno, não sentem tal pobreza porque levaram uma vidinha  à sombra de benesses, carreirismo e empregos garantidos para os seus, como apaniguados do sistema entretanto criado. São agora uma casta que se pretende continuar o caminho encetado pelo líder que agora se fina e de quem se sentem filhos adoptivos. Percebe-se mas não deviam enganar tanta gente ao mesmo tempo, este tempo todo.


Para se ter uma perspectiva correcta do que foi o percurso deste democrata do epicurismo pessoal, é preciso ler outras opiniões que não afinem pelo analfabetismo reinante ou pelos mitos correntes.

Em  28 de Julho de 1977, o jornal de direita, A Rua publicou este editorial em que se define o essencial da opinião daqueles que não alinham por aquela corrente maioritária, de condescendência, ignorância e analfabetismo:



Para terminar e ainda mais contundente é esta afirmação apócrifa atribuída a Marcello Caetano e que me parece ter toda a dimensão da tragédia que nos atingiu estas últimas 4 décadas, tendo como protagonista principal o agora quase finado.

 “Em poucas décadas estaremos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade de outras nações, pelo que é ridículo continuar a falar de independência nacional. Para uma nação que estava a caminho de se transformar numa Suiça, o golpe de Estado foi o princípio do fim. Resta o Sol, o Turismo e o servilismo de bandeja, a pobreza crónica e a emigração em massa.”
“Veremos alçados ao Poder analfabetos, meninos mimados, escroques de toda a espécie que conhecemos de longa data. A maioria não servia para criados de quarto e chegam a presidentes de câmara, deputados, administradores, ministros e até presidentes de República.”

Marcello Caetano, sobre o 25 de Abril 



A profecia de Marcello Caetano cumpriu-se integralmente com uma agravante não prevista: não há quem tenha a noção da tragédia, em Portugal. Em quantidade ou qualidade suficientes, quero dizer. Capaz de inverter este unanimismo que se instalou na sociedade portuguesa e que é o seu principal mal moral.



sexta-feira, dezembro 30, 2016

O estado da informação em Portugal tal como contado no CM

O Correio da Manhã de hoje traz as estatísticas das vendas de jornais e revistas.


O comentador de media, Eduardo Cintra Torres,  mostra o que se passa nas tv´s:



A propósito disto tenho sempre mostrado um pequeno apanhado de opiniões avulsas, publicado no Diário de Lisboa de17 de Janeiro de 1974 porque nos dá uma imagem relativa do tempo que passou e da evolução sofrida pelos usos e costumes.



Julgo não andar longe da verdade se disser que as pessoas em 1974 e em geral estavam melhor informadas sobre o que se passava na realidade nacional do que hoje.

Na RTP de então, única televisão disponível ( além da espanhola para quem vivia na raia) os comentadores eram da situação ( João Coito, por exemplo) mas eram poucos e as opiniões já se sabia ao que vinham, na medida em que eram emitidas por alguém que não procurava questionar o regime ou aspectos delicados do mesmo, como as guerras em África, nas três frentes de Angola, Guiné e Moçambique.

Tal era aceite como normal perante a Censura do regime e a proibição da esquerda comunista se manifestar publicamente. Tal como noutros países aconteceu em determinadas épocas, até na Alemanha em que o partido comunista chegou a ser proibido, nos anos cinquenta.
É por isto e só por isto que a esquerda andou sempre a clamar contra o fassismo e a vituperar ainda hoje o passado obscurantista de Salazar e Caetano.

Não obstante, as pessoas em geral pensavam pela sua cabeça e tinham opiniões sobre os assuntos, como hoje. Sabiam que o PCP andava a maquinar contra o regime, clandestinamente, mas se alguém fosse apanhado seria preso porque havia lei para tal. Muitos heróis do antifassismo se forjaram assim. Saberiam porém que o PCP queria um regime como o soviético e com as características do mesmo? Isso já é duvidoso, relativamente aos próprios militantes que não conheciam essa realidade, censurada pelo próprio PCP, do mesmo modo que hoje acontece.

A diferença entre esse antigamente e hoje é quase nula na medida em que a Censura existente tem o mesmo sentido: ocultar das pessoas em geral a realidade factual e a explicação de acontecimentos, mesmo passados, sempre à luz de interesses político-ideológicos precisos e inquestionáveis.
Tal como dantes, isso acontece  nos media de hoje, com personagens que não tendo a estatura moral ou intelectual de um João Coito, assinam como adelinos farias ou judites, ou mesmo lourenças. São da mesma estirpe, porém, dos apaniguados de antigamente que redigiam as notícias com a Censura em cima a vigiar.  Beberam a mesma personalidade profissional e falam a mesma linguagem encriptada dos zombies.

Hoje em dia, para além disso, há uma diferença mais séria e que reside na circunstância de a informação ser pretensamente livre de censura ou produzida em "liberdade", o que não se cansam de apregoar aqueles que a dominam. Mas não é. A censura interna existente nos media é tão grande ou maior que dantes e a censura interna que advém de quem redige notícias para publicar será ainda maior porque nem é possível o estratagema antigo da redacção encapotada de notícias nas entrelinhas. Hoje em dia a censura é total e cortante em certos casos, porque não se admitem veleidades que ponham em causa a situação pessoal e profissional de quem as redige, partidaria ou ideologicamente ou mesmo pessoalmente, relativamente a certos figurões  que mandam na sombra.
A Lusa, por isso mesmo, é um cóio, sem mais. Um cóio de censura que segue o código não escrito do politicamente correcto e do que interessa a quem manda no momento. Na RTP idem , aspas. E na TVI aspas, idem.

Estamos por isso bem pior informados do que em 1974. Aparentemente será um paradoxo, mas não é. E tem ainda uma agravante muito séria: o grau de corrupção dos agentes políticos, hoje em dia não tem qualquer comparação possível com o que se passava em 1974.  E isso parece-me indiscutível até mesmo para quem acha que a Liberdade é que é o valor máximo conquistado no 25 de Abril de 1974.

Essa mesma Liberdade, porém, impede que se conheçam bem os contornos dessa corrupção gigantesca que nos rodeia, porque está entranhada nos media, como se fosse a própria seiva que os alimenta. Veja-se por exemplo o caso apresentado por Eduardo Cintra Torres, na tv pública...dos farias e quejandos.

E isso não acontecia em 1974, como mostram estas imagens do DL de 17 Janeiro desse ano. Este jornal está digitalizado ( embora graficamente muito mal e só a preto e branco) na Fundação Mário Soares que todos pagamos.
 



Ou por exemplo este "telex" enviado de Londres por Joaquim Letria ( que ontem esteve na tv a falar do "fassismo" e outras coisas) em que se mencionava, em 20 de Julho de 1973 a oposição à guerra em África por ocasião da visita a Londres de Marcello Caetano. " "Por outro lado, jornais e tv continuam a referir-se à história do massacre de Wiriamu e uma fonte da embaixada disse que havia o perigo de Portugal passar a ser conhecido apenas pelas características que esta onda de acusações lhe apontam: um Estado fascista que mantém uma guerra colonialista onde chacina nativos".



Esta frase está aí na primeira pagina do jornal e exprime a opinião do próprio jornal, dirigido por Ruella Ramos que dali a menos de um ano o transformou em "arma de combate" pelo comunismo.

Era esta a liberdade de informação que não havia?

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso