segunda-feira, outubro 12, 2009

Coimbra é uma lição

Do Sol:

Segundo o The Times, a Universidade de Coimbra (UC) é a terceira melhor da lusofonia e a sexta melhor da Península Ibérica.

Num ranking de análise às instituições de ensino superior de todo o mundo, Coimbra aparece em 366.ª posição, tendo conseguido subir 21 lugares desde o ano passado. A nível europeu, a UC ocupa o 166.º lugar.(...)

A qualidade da investigação, a empregabilidade dos alunos, a internacionalização das instituições e a qualidade pedagógica dos cursos são alguns dos aspectos tidos em conta na elaboração do ranking, que pondera cinco critérios: avaliação por pares, avaliação por empregadores, artigos científicos citados, rácio docentes /estudantes e internacionalização.

Por curiosidade, fui espreitar a este sítio, para ver se algum dos indivíduos se formou, mestrou ou doutorou, em Coimbra, . Nem um, para amostra.

domingo, outubro 11, 2009

O síndroma italiano

Mesquita Machado em Braga, Isaltino Morais em Oeiras e Valentim Loureiro em Gondomar, ganharam as eleições autárquicas e são presidentes de câmara eleitos por mais quatro anos.

O que estes resultados eleitorais demonstram, sem qualquer margem de dúvida, é que a maioria dos eleitores desses concelhos entenderam que esses candidatos eram os melhores para gerir os destinos autárquicos.

Tudo o resto e que inclui suspeitas de corrupção, no exercício dos mandatos autárquicos, até mesmo condenações em penas de prisão, contaram zero para esses resultados.
O sinal que se transmite é o de um inequívoco manguito à ética política, à importância da conduta moral na política, como factor diferenciador do exercício autárquico. Os tribunais e as suas decisões, neste contexto, contam quase nada. E a explicação pode bem residir no descrédito a que têm sido votadas algumas delas, com uma grande falta de compreensão do povo em geral dessas mesmas decisões.
Os políticos, nesse aspecto, têm trabalhado afincadamente para esse resultado de confusão, ignorância e equívocos que lhes têm servido nestes actos eleitorais.

Que isso sirva de lição, se é que ainda não tinha servido, porque idêntico fenómeno se repercute também a nível nacional e já se manifestou nas últimas eleições.
Solução? Uma nova abordagem aos problemas com outra amostragem ética. Aos poucos lá se chegará, como na Itália se chega.

A Esquerda- etiologia II

Outra personagem que explica a Esquerda que temos ou que é explicado por ela, é Carlos Tê, o letrista das canções de Rui Veloso e cujas letras são, algumas delas pelo menos, admiráveis. Carlos Tê, em entrevista à revista NM, do Diário de Notícias, conta assim, a sua visão da esquerda onde esteve e por onde passou.

O que se torna mais interessante nestas histórias sobre a génese do mito da esquerda que permanece docemente suspenso em hibernação, no inconsciente colectivo de uma maioria de pessoas em Portugal, é perceber o logro de que agora se dizem vítimas . Como se na altura, não tivessem qualquer alternativa ao putativo engano e isso fosse uma fatalidade como o destino que lhes marcou a hora. Como se não houvesse informação disponível e mais do que suficiente para os alertar e avisar do perigo do logro.

Uns Tony de Matos da política? Sem dúvida. O kitsch não anda longe destas mentalidades.

Torna-se encantador ler agora o que os mesmos entendem como uma fantasia de juventude, um "anacronismo", uma forma de mexer na "poeira da História", o que é um discurso comum a muitos antigos esquerdistas arrependidos, como por exemplo Saldanha Sanches.

Não obstante, a essência da ideologia, do mito e da crença, essa nunca a abandonaram...e daí a s recidivas ocasionais e os afectos declarados em matéria política.

A nossa esquerda vive dessas memórias, temporariamente apagadas e em letargia funcional. Mas que regressam a galope sempre que o sistema de recuperação afectiva as revitaliza.

NM- O Voo Melancólico do Melro é sobre um bando de amigos, mas faz um retrato de Portugal no pré e no pós-25 de Abril. Como olha para a evolução política do país nos últimos trinta anos?

Carlos Tê- Houve um apaziguamento da ideologia, que foi perdendo peso, já não existe uma fractura entre a esquerda e a direita, as diferenças são mais ténues. Por isso, o que me preocupa mais é a maneira como os portugueses se dissociam da coisa política, transformando os políticos num «eles» e os votantes num «nós», como se «eles» e «nós» não fossem a mesma coisa, como se os políticos não fossem emanações das pessoas. Isso incomoda-me. Os portugueses não podem continuar a fazer dissociação. O Estado somos todos.

NM- E o Tê ainda consegue saber onde está, se à esquerda, se à direita?

Carlos Tê- À esquerda, mas já não olho rancorosamente para as pessoas de direita. Aliás esse foi um dos meus mitos maiores. Eu, antigamente, pensava que todas as pessoas de esquerda eram boas pessoas e que todas as pessoas de direita eram más pessoas (ri). Agora sei que não é assim. O crescimento também é isto.

NM-A forma como no seu livro (d)escreve o PREC é absolutamente genial. Foi assim tão caricato?

Carlos Tê- O PREC é um momento à parte na nossa história. Foi ridículo e é isso que o torna brilhante. Para mim foi extraordinário viver aquele período. Não sei como o cinema português não pega naqueles momentos geniais.

NM-Porque é que não pega?

Carlos Tê- Porque tem vergonha, acho que há uma tendência da intelligentsia portuguesa para varrer coisas para debaixo do tapete que me incomoda profundamente. É uma coisa que os italianos, os espanhóis, os ingleses, os americanos não fazem, muito pelo contrário. Do pó conseguem criar, embalar e vender. Nós não, nós varremos para debaixo do tapete. O PREC é um dos momentos gloriosos da nossa história, não propriamente pelo que se passou, mas pela forma picaresca como se passou. Acho que era o Woody Allen que dizia que a comédia é tragédia mais tempo. O PREC é isso. Eu dizia coisas e fazia coisas que... e os outros também. Lembro-me perfeitamente de... olhe, aqui onde estamos, a Quinta de Serralves, pertencia a uma família nobre qualquer e lembro-me de que um desses pequenos grupos de esquerda queria assaltar a quinta e transformá-la numa comuna. Andaram a discutir planos e tudo. Foram momentos únicos na vida das pessoas.

NM-E o Carlos nessa altura era o quê: maoísta, trotskista, marxista-leninista?

Carlos Tê- Não fazia a mínima ideia do que isso queria dizer, mas ia atrás. Um dizia «vamos» e a gente ia, as raparigas mais bonitas eram trotskistas, a gente ia, as boazonas eram maoístas, a gente ia. É nesse sentido que digo que o PREC foi brilhante.

NM-Alguém sabia ao que ia?

Carlos Tê- Havia alguns que pensavam que sabiam, que eram os líderes, mas eles próprios estavam agarrados a ideias que tinham sessenta anos, viviam no tempo dos bolcheviques, e isso também é extraordinário, era como se estivéssemos na Revolução de Outubro. Estamos a falar de 1975, quando faço uma pequena retrospectiva e penso que nesse ano o Jim Morrison já tinha morrido, os Doors já tinham gravado a sua obra, o Jimi Hendrix já tinha morrido, os Beatles já se tinham separado, e nós ainda a falar de maoísmo (ri). O anacronismo era extraordinário. O mundo já tinha mudado e nós ainda a mexer naquela poeira toda da história.

A Esquerda- etiologia I

A partir de hoje vou dedicar algum espaço neste blog aos fenómenos etiológicos da Esquerda. Para se conhecer a mitologia esquerdista, a sua linguagem específica e os seus conceitos próprios, torna-se necessário perceber de onde provêm os seus mentores e por onde passaram nos seus tempos de formação intelectual.
No fundo, pretende-se aprimorar o retrato da idiossincrasia esquerdista, ainda que aggiornata numa indefinição conceptual precisa, por mor do tempo que passa.

Hoje, o primeiro exemplo, vem de uma entrevista do sociólogo Manuel Villaverde Cabral, à Pública, por meio de Anabela Mota Ribeiro, a qual, aliás, só por si e pelos entrevistados que escolhe merecia um verbete à parte, nesta tentativa gnosiológica.

Na entrevista, Manuel Villaverde Cabral, um habitué ( et pour cause) das tertúlias televisivas de há trinta anos a esta parte, dá uma pista importante para o gnose do fenómeno esquerdista em Portugal.
Diz assim, naquilo que interessa:

MVC- "Tive uma percepção curiosa no 28 de Setembro de 1974. Eu não estava, tinha ido para França ver a minha namorada ( futura mãe dos meus filhos). Quando voltei, retomei o contacto com um grupo que acompanhava a revolução no escritório do advogado José António Pinto Ribeiro ( ministro da Cultura do Governo que findou e antigo sócio, talvez único, de uma associação cívica); uma reunião depois, decidi mentalmente: "Acabou, não vou meter-me mais na política portuguesa."

P.-O que o levou a essa conclusão?

MVC- "Por não encontrar espaço. A minha análise política era de que os grupos de extrema-esquerda, dos quais fazíamos parte, a única coisa que faziam era tirar castanhas do lume para o PC. Eu já tinha decidido: se o PC quiser comer as castanhas tira-as do lume à conta dele, mas não conta comigo. Isso coincide, é não é por acaso, com o momento em que a porta da faculdade me foi aberta."

Mais explicações? Talvez nesta passagem:

P.-Levava-se a sério e queria que o levassem a sério?

MVC.-"Seriíssimo! Leio as coisas que escrevi e fico apvorado! Aquela prosa é de uma pessoa mais velha do que a que sou agora."

P.-Influência do seu pai?

MVC.-"Era o meu pai, era o marxismo, era o comunismo. Sou uma pessoa muito séria. Isso estava lá sempre. Consciência disso não tinha. O meu psicanalista...Ainda dei para esse peditório, quando me separei da minha primeira mulher. Eu era muito maduro, mas era um miúdo. E era hiper-romântico, Creio que continuo a ser."

Será este o segredo do escondido do esquerdismo? O hiper-romantismo?
Não deve ser...

Eurico Reis, o pudor e a serenidade

Eurico Reis que se assina com o título de Juiz desembargador, mesmo em folga de serviço judicial, escreveu no jornal i, de Sábado, um artigo, com um título assaz curioso ( A vergonha e a raiva de um juiz) e de louvor ao Conselho Superior da Magistratura, relativo à decisão deste órgão de gestão e disciplina dos juizes portugueses, de suspender a avaliação do relatório de inspecção do juiz Rui Teixeira, cujo inspector tinha proposto a classificação de Muito Bom.
Criticando asperamente a posição crítica da ASJP, da qual se demarca e denuncia o espírito sindical, qual os argumentos de Eurico Reis, Juiz desembargador?
Estes:
Na verdade é conveniente não esquecer que, mal ou bem, em duas decisões judiciais (sendo totalmente irrelevante que numa delas tenha sido aposto um voto de vencido), foi entendido que o juiz em causa cometeu um erro grosseiro.
E relativamente a uma dessas decisões (que condenou o Estado a pagar uma indemnização - sendo certo que a nova Lei da Responsabilidade Civil Extra-contratual do Estado não se aplica a este caso) está ainda pendente um recurso no Tribunal da Relação de Lisboa. Se essa decisão for confirmada, pese embora não seja possível, ainda que assim seja, o exercício do direito de regresso por parte do Estado, que imagem daria de si a Judicatura se tivesse graduado esse Juiz com a notação máxima (Muito Bom)?
E não será eventualmente mais tranquila a decisão se a sentença for revogada? Finalmente é falso e até injurioso afirmar que se está a procurar intimidar os juízes - pois não foram alguns políticos condenados sem que sobre os julgadores tenha recaído qualquer crítica? Para além disso, se o CSM tivesse apreciado o relatório de inspecção, fosse qual fosse a decisão tomada, não poderia ela ser entendida como uma pressão sobre dois processos pendentes, aquele que corresponde ao recurso na Relação e o outro o "eterno" caso da Casa Pia?"


Ora bem. Em primeiro lugar não houve duas decisões que tenham entendido que o juiz Rui Teixeira tenha cometido um "erro grosseiro" a propósito da aplicação de medida de coacção de prisão preventiva a um arguido no processo Casa Pia.
Houve apenas uma, num tribunal Cível e fazendo apelo a um conceito de Direito interpretado em termos jurídicos, e que se encontra pendente de recurso num tribunal superior.
A primeira, a referida decisão concreta sobre a ilegalidade da medida de prisão preventiva aplicada a um arguido, ( à semelhança de milhares de outras) , não foi contestada apenas por um outro juiz que votou vencido e que entendeu a decisão dos dois outros colegas como violadora do direito e da justiça. Foi também objectivamente contestada, nos dias a seguir, por outra decisão, unânime, de três juizes do mesmo tribunal da Relação de Lisboa e que considerou correcta e isenta de erro jurídico, muito menos grosseiro, a decisão sobre aquela mesma medida de coacção.
Para além disso, a consideração de que a eventualidade da confirmação de tal decisão sobre o erro grosseiro, seria uma decisão ilógica com a proposta de Muito Bom, assenta num equívoco que um "Juiz desembargador" não tem o direito de incorrer: O "erro grosseiro" , no caso ,é um conceito de direito, afinado pela jurisprudência e portanto, não se pode nem deve confundir com a noção corrente de erro grosseiro que podemos atribuir a um qualquer fenómeno humano. Como todo o jurista deve saber, inclusive um juiz desembargador, um "erro grosseiro" juridicamente relevante, é um erro palmar, ostensivo, evidente para qualquer aplicador do direito e da justiça com um grau médio de desenvolvimento profissional.
Dentro deste conceito tem havido extensões mais ou menos habilidosas para incluir no conceito noções tão fluidas como a de temeridade e tergiversações ainda mais subtis para a relacionar com decisões irreflectidas, mas com prognóstico necessariamente póstumo e desajustado do contexto das mesmas.

Seja como for, nunca um qualquer jurista deveria fazer coincidir o conceito que qualquer cidadão pode ter do que significa o "erro grosseiro", daquele que o aplicador do Direito deve fazer prevalecer na análise do mesmo.
O Juiz desembargador Eurico Reis, ao fazê-lo, mais uma vez anda mal no que escreve.
Mas se anda mal sobre isso, ainda pior anda no que se refere à motivação do escrito. Que não se conhece, a não ser no entrecho da escrita, por exemplo num ataque despropositado a um eventual candidato à vice-presidência do mesmo CSM.

O caso sobre que escreve Eurico Reis, juiz desembargador, é sobre a Casa Pia. Um processo que ainda não terminou e que pode subir à Relação, onde se encontra Eurico Reis. Dever de reserva? Pois sim.
A decisão contestada incide sobre um juiz, colega do dito na profissão. A opinião do que se assina Juiz desembargador procura assassinar a reputação profissional do colega.
Porquê?

sexta-feira, outubro 09, 2009

Os amigos de Alex

Esta pseudo-notícia do Expresso de hoje é um presente envenenado, para o "Juiz que manda em todos os grandes processos". Por vários motivos.

Em primeiro lugar, o juiz manda o que pode e só pode o que a lei deixa. Ou seja, manda a pedido do Ministério Público, em tudo o que contenda com interferências da entidade investigadora, com direitos, liberdades e garantias que sejam consideradas delicadas, pela lei processual penal.
O juiz Carlos Alexandre é um juiz de instrução criminal, colocado no TCIC que acolhe estes "grandes processos" por força da lei de organização e funcionamento dos tribunais. Mais nada.
Como juiz de instrução não lhe compete dirigir os processos que são da estrita incumbência do MP, coadjuvado pelas polícias, incluindo entidades fiscais.
O Ministerio Público dirige as investigações e por isso é o verdadeiro dono do processo, o que manda efectivamente nele.
O Juiz de instrução controla a legalidade e autoriza pedidos relativos a buscas domiciliárias, bancárias, a escritórios de advogados e ainda autoriza e controla escutas telefónicas que lhe tenham sido pedidas e fundamentadas pelo MP. Também faz interrogatórios de arguidos sempre que aos mesmos deva ser aplicada medida de coacção diversa do termo de identidade e residência e por maioria de razão, faz interrogatórios de indivíduos presos.
O JIC tem o processo em mãos, quando lho apresentam para tal. Não segue o processo nem está a par de todas as diligências que não contendam com aqueles factos apontados e por isso não dirige o processo nem manda nele como é óbvio. Aliás, o despacho final no processo não é dado pelo JIC nem é sindicado pelo mesmo nem dele deve tomar conhecimento e o seu papel termina aí. É esta a estrutura do processo penal que um Ricardo Costa teima em não aprender e não seguir a viva recomendação que uma velha raposa, no outro dia lhe deu, cara a cara: "se não sabe, devia saber!"
Chegará isso para dizer que o juiz Carlos Alexandre "manda em todos os grandes processos"? Chegaria para dizer que manda sempre que lhe pedem para mandar naquelas circunstâncias. E nada mais.
No entanto, o director-adjunto do jornal, o inefável Ricardo Costa ( para não repetir o epíteto mais apropriado), tem-no dito várias vezes e sempre do mesmo modo ligeiro, em tom pop. e de magas arregaçadas Não dá conta da asneira, repete-a e replica-a depois nestes títulos que prevê na edição que supervisiona.

No perfil interior ao Juiz, assinado por dois jornalistas, faz-se o retrato de um super-juiz que não tem férias para os "poderosos" e "que não dá folgas ao poder".
O retrato nem sequer chega ao nível do fotomaton e fica-se pelo cliché mais rasteiro e simplório do à la minute. E começa a perceber-se porquê: fazerem-lhe a cama "à espanhola", como fizeram ao juiz Rui Teixeira.
Não falta muito e adivinha-se porquê: ao contrário do que disse o director do jornal, outro inefável, Henrique Monteiro, o Expresso não é e nunca foi contra-poder.
É apenas um jornal que pretende fazer crer que pretende ser contra-poder.
Um simulacro, portanto.

A dúvida insana

Jornal Sol. Clicar para ler.

A notícia é do jornal Sol de hoje. Nenhum outro jornal a menciona. Nenhuma rádio ou tv a mencionam também.
Ferro Rodrigues, aqui, novamente, à semelhança de Jaime G. e Paulo P. Todos têm perdido os processos por difamação que intentaram contras ofendidos no processo Casa Pia e que os denunciaram como participantes em actos de natureza pedófila. Todos os processos terminam do mesmo modo: os visados não lograram provar que os ofendidos mentiram ao lhes imputarem tais práticas. E não lograram do mesmo modo, a comprovação da respectiva inocência, como é óbvio e também neste acórdão da Relação de Lisboa se sentencia: "Não foi possível recolher indícios suficientes de que o assistente ( Ferro Rodrigues) não tenha praticado os factos imputados nem de que o arguido tenha, ao fazê-lo, faltado á verdade.", escreve-se no acórdão, segundo o Sol.
A figura que está por detrás da personagem da notícia, é notícia também: nas primeiras horas do escândalo, disse que " as testemunhas podem mentir". Os tribunais, acabam por lhe dizer que não mentiram. Ou que não se prova que mentissem, o que no caso, vai dar ao mesmo.

Uma questão continua, por isso, na ordem do dia: até quando o poder político que está e principalmente a opinião pública e a publicada, vão continuar a fazer de conta que isto não é assim e que é tudo uma farsa e que afinal vale tudo em política, mesmo acaparar politicamente pessoas envolvidas em casos desta natureza e em relação às quais não se apura a verdade de factos afirmados por ofendidos, que o continuam a ser para os tribunais?

Sendo a presunção de inocência processual um princípio de valor inquestionável, não deverá também ser inquestionável que no caso de se manter a dúvida processual, deve aplicar-se o princípio da maior cautela política, por causa de princípios de valor equivalente?
Estas pessoas necessitam da política, das causas públicas e da vivência política para representarem outros cidadãos?
Não têm mais ninguém que os possam susbstituir? São imprescindíveis, como dizia há tempos um comentador do tempo que passa?
Porquê?

quarta-feira, outubro 07, 2009

Todos são iguais perante a lei, disseram os juizes...italianos.

O tribunal constitucional italiano, com uma votação 9-6, declarou inconstitucional a lei que bloqueava os processos crime, relativos ao quatro mais altos cargos do Estado, enquanto estes estivessem em funções.
Berlusconi, acusado de corrupção tem sido alvo de processos vários relativos a esse tipo de delitos. O último é a sentença que deu como provado ter saído da sua empresa Fininvest, o dinheiro para pagar o acto de corrupção de um juiz num caso que envolveu a sua empresa e a emoresa de Carlo de Benedetti, proprietário do La Repubblica e da revista, L´Espresso, (onde escreve Umberto Eco) .

A decisão do tribunal constitucional assenta numa questão fundamental que em Portugal se torna sumamente importante, nos dias que correm: todos são iguais perante a lei, disseram os juízes italianos, assim:

ROMA - Il lodo Alfano è illegittimo, perché viola ben due norme della nostra Carta costituzionale: l'articolo 3, che stabilisce l'uguaglianza di tutti i cittadini (anche di fronte alla legge); e l'articolo 138, che impone l'obbligo, in casi del genere, di far ricorso a una legge costituzionale e non ordinaria. Lo hanno deciso, a maggioranza, i giudici della Consulta, riuniti in seduta plenaria dalla mattinata di ieri, a proposito del provvedimento che sospende i processi per le prime quattro cariche dello Stato.

Berlusconi reagiu, dizendo que são "juizes de esquerda". Pois, pois.


Local de execução: Lisboa

O auxílio às pequenas e médias empresas, porventura micros e nanos até, pode ler-se no portal da transparência, da nossa Administração Pública, com a indicação das adjudicações de realizações, obras, eventos e mais alentos para as dificuldades correntes.

Valores que ficam sempre um pouco aquém dos 100 mil euros, designadamente este, ao cuidado do design de Henrique Cayatte:

Objecto do contrato:
Prestação de serviços de degign com vista à criação e desenvolvimento do Portal Centenário da República
Data da celebração de contrato:
30-06-2009
Preço contratual :
99.500,00 €
Prazo de execução:
120 dia(s)
Local de execução:
Portugal - Lisboa - Lisboa

O que tem piada é o local de execução...e a entidade que adjudicou, por ajuste directo: a Comissão nacional para as comemorações do centenário da República.
Quem paga? Todos nós.

O portal em causa, só pode ser este e como o prazo era de 120 dias, já se esgotou... e como se pode ler na ficha técnica, a responsabilidade pela execução técnica, ficou a cargo de outra pequena e média empresa, a Sapo.

Os quase 100 mil dele, foram para pagar...o design, do, aliás, fantástico portal. Fenomenal, como dantes se dizia.

Entretanto, no dito portal da transparência de opacidades, topa-se outra adjudicação directa por um valor fatalmente abaixo dos fatais 100 mil euros. Desta vez, uma poupança de 5 mil em relação ao anterior...mas com nome que sugere um pátio de cantigas, para isto.

O ajuste directo, desta vez é para a pessoa singular Henrique Frederico Cantiga Cayatte.
Assim:

Objecto do contrato:
Prestação de serviços de design global do estacionário da Comissão Nacional e dos materiais de suporte à comunicação dos diferentes eixos programáticos
Data da celebração de contrato:
03-07-2009
Preço contratual :
90.000,00 €
Prazo de execução:
105 dia(s)
Local de execução:
Portugal - Lisboa - Lisboa

terça-feira, outubro 06, 2009

O verdadeiro Louçã

Ontem, nas tv´s, foi possível ouvir o camarada Louçã a produzir uma declaração extraordinária sobre a reunião de monárquicos no Largo de Camões, em Lisboa, por ocasião do 5 de Outubro.

Disse, para quem o quis ouvir, certamente num lapso leniniano que era " um pequeno grupo patusco atrás de um milionário banqueiro [Paulo Teixeira Pinto, antigo administrador do BCP e presidente da Causa Real], que conduziu um dos maiores escândalos da criminalidade económica em Portugal, lá apareceu pelo Tejo a gritar as saudades da monarquia”, afirmou, referindo que “sobretudo na cultura mais reaccionária da direita”, ainda “há gente que reclama o regresso ao passado, o regresso ao atraso, à monarquia e à diferença”.

A injúria não atinge apenas o "pequeno grupo patusco". Atinge o coração da verdadeira democracia e revela o autêntico perfil de Louçã: um esquerdista à velha maneira; um censor com tiques totalitários que só não se manifesta mais vezes, porque a pulsão ao engano ledo e cego em relação ao totalitarismo de esquerda apenas cede perante a estratégia de aldrabice do eleitorado.

Nessa declaração curta e sincera, reside o verdadeiro Louçã. O anti-democrata convicto que se esconde em frases enganadoras. O economista que não exerce e de História, designadamente sobre a monarquia portuguesa, percebe o que o marxismo-leninismo lhe ensinou.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Um sinal

Mário S. apresenta-se hoje no programa do Gato Fedorente, na SIC, a esmiuçar qualquer coisa, sem importância alguma.
A estação embandeirou um arquinho por causa do acontecimento e os autores do programa mais Ricardo Costa, foram receber o anfitrião que lhe lembrou que as comemorações do dia da República, hoje, fizeram-se na sede da Fundação do mesmo, com o lançamento de um livro grande "assim!", apresentado com um gesto, sobre a Maçonaria e a República.
E antes, uma observação ao tal Costa que " se não sabe devia saber" que o acontecimento lembra "a importância da Maçonaria na implantação da República."

Isto não é de pasmar. É apenas o sinal do tempo que passa. Ah! Mário S. gosta muito dos Gato Fedorento. E tem razões para tal...

O analfabetismo político

Do Económico:

O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, disse ontem que os socialistas poderão "juntar os trapinhos com a direita", mesmo através de acordos informais, para prosseguir a política dos últimos quatro anos.
A "direita" para o PCP é o PSD e o CDS, mais a parte do PS que pratica a mesma política social-democrata.
Portanto, "direita", para o PCP é a social-democracia.
Até quando o PCP vao continuar a confundir conceitos sem que alguém lhes diga preto no branco e cara a cara que o PREC já foi e que o regresso ao PREC não vai ser possível, por causa de inúmeros fenómenos que entretanto ocorreram nos últimos trinta anos, com destaque para a queda do muro de Berlim?
Até quando vai ser possível ouvir um PCP a manifestar-se por um logro que só nos coloca cada vez mais atrás do progresso económico e social, em nome precisamente de um mito?
Até quando se vai tolerar ao PCP, sem grande contraditório público e nos jornais, este discurso verdadeiramente reaccionário com apelo a prec´s de antanho?
Até quando se vai aceitar que o PCP ( e o BE ) confundam conceitos e confundam ideias de esquerda, direita e afins, em proveito de resultados eleitorais que não merecem de todo e apenas se destinam ao aproveitamento do analfabetismo político de quem vota?
Porque é que o PCP não define de uma só vez o que é a direita e a esquerda, segundo o seu conceito particular e explicado aos analfabetos?
Terá medo de perder votos?
Mais: porque é que os media em geral aceitam este discurso de mistificação? Por que têm no seu seio comunistas e gente de "esquerda" que também assim lhe convém?
Porque é que Portugal destoa do resto da Europa neste panorama político e o PCP continua a ser uma força política importante, mesmo adoptando um estalinismo confesso e com ideias políticas dos anos trinta?

O paradoxo da igualdade da esquerda

Na revista francesa Philosophie, o historiador Jean-Louis Margolin, explica como as ditaduras comunistas de leste, ainda hoje modelos de construção social, para o PCP ( e para o BE inspiradores ideológicos), transformaram o sonho de igualdade num pesadelo inominável.

"Políticas extraordinariamente desigualitárias foram efectivamente instauradas em nome da igualdade.
Na China, nenhuma casta tinha jamais existido. O maoísmo criou-as! Na sequência de longas pesquisas genealógicas, cada indivíduo deveria estabelecer um ficheiro social. De categoria vermelha- a boa-, ou negra- a má, o ficheiro tornava-se um destino. Os proprietários de terras, mesmo desmantelados ou arruinados, os pequenos funcionários, os capitalistas e os intelectuais foram banidos da sociedade de um dia para o outro. Não tinham o direito de entrar no Partido, foram privados dos bons empregos. Sobretudo, faziam parte dum viveiro de suspeitos, regularmente instados a desculparem-se, a reescrever a biografia. Na altura das campanhas políticas, eram os primeiros a ser perseguidos, mesmo assassinados.
O os filhos não podiam escapar a esta herança. Na Coreia do Norte ainda hoje é assim.

E como compreender esta contradição?

É preciso regressar à teoria marxista-leninista que prevê que o futuro da humanidade se divide em dois períodos. A longo prazo, o Estado dissolve-se o todos os homens serão iguais. Enquanto se espera, há um período transitório de edificação do socialismo que passa pela expropriação, pela violência- Estaline falou mesmo em acentuação da luta de classes. Ora, nenhum país que se reclamou do comunismo jamais passou desta transição. Pelo contrário, o marxismo-leninismo não previu outro fenómeno, a organização dos quadros do partido em nomenclatura privilegiada. Portanto, foram os homens do aparelho que apanharam as datchas na Rússia, os armazéns especiais, certos cuidados médicos e os carros de função, na China e na Coreia do Norte.
( tradução livre da entrevista ao historiador , autor do Livro Negro do Comunismo, uma das obras mais detestadas pelo PCP )

A esta descrição crua e nua da realidade dos países comunistas, acrescenta-se o estudo académico de um historiador britânico, Orlando Figes, entrevistado pela revista L`Express desta semana, por ocasião da publicação do livro Les Chuchoteurs ( Os bisbilhoteiros, em tradução livre e em inglês, The Whisperers). O livro trata da história oral, recolhida em centenas de entrevistas com sobreviventes do período de terror estalinista.
Um período durante o qual se procurou estabelecer a maior igualdade possível, eliminando...a vida privada, a família, as crenças, as relações de amizade.

Uma das histórias mais aterradoras que o autor conta, prende-se com um escritor russo desse tempo: Constantin Simonov. Nascido em 1915 numa família nobre, durante a infância assistiu à prisão de familiares e sobreviveu apagando a referência às suas origens aristocráticas, transformando-se em escritor proletário.
Em 1934, Simonov escrevia "prosa revolucionária". Enquanto outros membros da sua família eram presos uns a seguir aos outros, escrevia poemas à glória de Estaline e aos grandes trabalhos da época, na Sibéria, realizados pelos prisioneiros do gulag...os seus poemas de amor, durante a segunda Guerra Mundial, inspiraram filmes. Em 1945, era o escritor preferido de todos, Estaline incluído. Ei-lo catapultado à cabeça da União dos escritores- um organismo que controla, de facto, tudo o que se escreve. Durante a campanha antisemita, a partir de 1947, Simonov teve de denunciar vários amigos próximos. Isso contraria-o: não é antisemita e a mulher é de origem judaica. Mas denuncia alguns escritores, como lhe pedem para fazer e, como tem má consciência, dá-lhes ajuda financeira.
No fim dos anos setenta, escreve as Memórias e explica até que ponto sente vergonha...

Com estes factos e relatos, a que se podem acrescentar milhentos deles, alguns mais recentes e contados com grande pormenor pelos perseguidos na Alemanha de Honnecker, pela STASI, ainda hoje o PCP defende com todo seu aparato ideológico as mesmas soluções políticas que conduziram a este terror que em nada se compara com o da ...Pide. E no entanto, a Pide contina a ser o grande paradigma do terror comunista. Isso e o fascismo.
Será preciso tanto autismo? Até onde irá o embuste comunista deste PCP e deste BE, que sufraga as mesmas soluções totalitárias?

E, evidentemente, quem isto escreve só pode ser reaccionário, de direita, porventura fascista. Era assim que se eliminava psicologicamente alguém, nos idos de 1975. E ainda hoje é assim. Exactamente como se fazia na Rússia soviética com os putativos dissidentes, numa lógica implacável. Como discordavam do bem comum para o povo, fixado pelo comité central do partido, só poderiam ser loucos. E por isso internavam-nos em hospitais psiquiátricos...

domingo, outubro 04, 2009

Esquerda e desigualdades sociais

Há um fenómeno social que me interessa perceber, desde que voto: o que leva as pessoas, em Portugal, a votarem à esquerda ou à direita?
Por mais voltas e reviravoltas de pensamento lógico ou de especulação metafísica, uma conclusão se impõe sempre como evidência: é a noção de desigualdade que conduz a mão à cruz do voto, no momento único de escolher o partido eleitoral.
A maioria das pessoas, parece-me, vota em quem lhes parece melhor colocado, no momento, para esbater as desigualdades, promovendo o progresso económico, numa democracia em que a igualdade de condições seja um objectivo compatível com a divisão social e a desigualdade de classes.
Perante a dissolução do conceito de luta de classes, conceito ainda afirmado pela esquerda mais extremista do PCP e do BE, mas com desaparecimento evidenciado pela verificação prática da multiplicação de quadros técnicos, especialistas, economistas e gestores em lugares de poder disseminado que beneficiam dos privilégios dantes reservados aos capitalistas de labita e chapéu de coco, torna-se essencial redefinir os vectores da divisão social e os novos lugares de privilégio. A isso deverá ser acrescentado outro factor diferenciador: o da mudança de costumes relacionados com as migrações e novas maneiras de organização da família e da propriedade. O Estado, nisto tudo, para essa esquerda, continua a ser a referência máxima, o elemento aglutinador, garante da maior igualdade e distribuição de bem estar social.
O liberalismo, em modo neo, por outra parte, é apresentado como o factor mais evidente de desagregação social, pelo efeito que potencia no aumento de desigualdades. Como? Encorajando a concorrência entre indivíduos e empresas em todos os sectores. Com uma verificação prática: o sistema, mesmo em funcionamento limitado, aumenta objectivamente as desigualdades porque o aumento de riqueza que pode gerar, é incomparavelmente maior para uma minoria de beneficiários que dominam empresas e centros de decisão financeira, em detrimento de uma maioria de população cujo rendimento e condições de vida denotam um afastamento cada vez maior em relação aos privilegiados.
Parece consensual dizer que o sistema neoliberal aumenta exponencialmente as desigualdades sociais, porque constitui iniludivelmente a instituição de uma lei antiga, a do mais forte, nas relações económicas e sociais.
Tanto basta, a meu ver, para que a esquerda clássica ( PCP e BE) erijam esse sistema como o mal absoluto, repescando de novo a luta de classes em função dessa distinção.
O sistema neoliberal começou a experiência prática em sociedades como a americana de Reagan e a inglesa de Thatcher, no final dos anos setenta do séc. XX. Um dos instrumentos mais evidentes do sistema foi a limitação do poder dos sindicatos, o instrumento por excelência, da luta de classes, no meio da sociedade burguesa ocidental, associado a uma liberalização da competição económica privada.
O sistema assentou arraiais logo que os instrumentos de finança de instituições de crédito e especulação bolsista, sofisticaram ao ponto de desabarem na crise que atravessamos. E assim deu razões aos esquerdistas da luta de classes, cujos programas políticos não mudaram muito em cem anos, nem sequer nos seus instrumentos de análise, por exemplo o marxismo e a teoria da luta de classes.
Terão razão? Em parte, parece que sim. Parece relativamente simples de explicar a ausência de preocupações sociais com a igualdade, da parte de quem tem poder económico e deseja uma menor intervenção do Estado social, em favor de quem fica para trás, no sistema. E Marx, transformou a explanação económica, técnica, dos fenómenos do capitalismo, numa explicação política que permite entender a sociedade de modo simples: de um lado a burguesia e do outro a classe dos trabalhadores.
Actualmente, a burguesia não é a mesma do séc. XIX, mas os interesses são exactamente os mesmos: a concentração de poder, dinheiro e influência política associada. A diferença reside no alargamento da classe: inclui agora milhentos indivíduos que dantes não pertenciam à classe dos possidentes. Democratizou-se, quase. A teoria das escolas de negócios, gestão e administração, alargou-se a sectores nunca contemplados e desceu a escalões de classes de trabalhadores independentes e conscientes do valor da iniciativa individual.
Essa transformação, a meu ver, complica demasiado a teoria da luta de classes, no seu sentido primitivo e simplista, ainda hoje utilizado pela esquerda do PCP e do BE.
E no entanto, nunca se abandonou a ideia da igualdade por contraposição à luta contra a desigualdade.
E nesta utopia, transformada em luta contínua, actualmente procura-se essa quimera no seio da própria máquina da existência: o sexo. O homosexual quer-se igual ao heterosexual. Quem defende a igualdade neste caso? A esquerda do BE. Com um PS atrelado porque tal lhe parece essência de esquerda e por isso procura tal perfume para enganar eleitores.

Que interessa verdadeiramente a diferença essencial, biológica, entre homem e mulher se uma noção artificial se interpõe em modo político?
A realidade pode ser o que é e fonte de inesgotáveis evidências de desigualdade entre os indivíduos, com reflexo nas sociedades que compõem, que a esquerda continuará a lutar sempre pela negação dessa realidade e com resultados eleitorais cada vez mais significativos, tanto quanto essas desigualdades estiverem em crescendo. Como em Portugal.
Paradoxo? Nem tanto. Aristóteles, na Ética a Nicómaco, procurou demonstrar que o exagero de uma exigência levada ao extremo, conduz a um efeito perverso. No caso, a igualdade como desiderato maximizado, provoca a desigualdade. No entanto, estas contradições são engolidas pelas próprias desigualdades inerentes ao funcionamento interno das organização política que as combate. Aí, as desigualdades entre quem dirige e manda e quem obedece nem conta para o debate.

Uma das melhores definições entre a esquerda e a direita que conheço, aplicada ao fenómeno português, li-a aqui, há uns anos, escrita por um professor de filosofia:

Direita e esquerda começou por ser esquerda e direita. Sentaram-se primeiro no lado esquerdo do hemiciclo da primeira Assembleia Constituinte da Primeira República francesa os que defendiam que o homem era naturalmente bom e que uma sociedade mais justa não deixava perverter essa bondade natural; que a natureza (Pátria) era a mãe de todos os homens e, por isso, a fraternidade universal tinha como consequência que todas as riquezas da natureza estivessem ao serviço do bem-comum; que nenhum homem estava acima de outro homem e, por isso, o povo é soberano na legitimação de contratos de governação da república; e, que a liberdade era a condição natural da fraternidade e da solidariedade. Do lado direito, ficaram os que se atrasaram no tempo e na hora da assembleia: defendiam a ordem tradicional com suas linhagens, hierarquias e mordomias.
Esta distinção foi-se interiorizando até receber o sentido de uma linha ideológica, determinada pela história: a esquerda significa solidariedade social, o Estado-Providência, a democracia participativa e a cidadania, como capital social; a direita significa agregação de interesses, conservadorismo, autoritarismo, desconfiança da bondade natural do homem e cidadania, como tornar-se cliente da loja do cidadão.


Com base neste arquétipo, nesta concepção mitificada da realidade distintiva da esquerda e direita, ainda hoje se ganham eleições, em Portugal. E é essa, a meu ver, a principal explicação do fenómeno da esquerda, em Portugal.
Por cá, o PS e o PSD não se distinguem programaticamente de modo determinante para uma diferença de vulto. São ambos partidos social-democratas, com pendor social idêntico aos dos congéneres europeus.
Os partidos de direita, na Europa, caso da Alemanha e até mesmo Itália, ganham eleições, sem preocupações de afastamento das ideias de desigualdade social. Os eleitores percebem que a desigualdade é um facto social relevante e o mais importante é o desenvolvimento económico que acaba por esbatê-la. E vota em conformidade.
Por cá, é o contrário: o desenvolvimento económico é entendido como apanágio da esquerda que apresenta o programa de luta contra a desigualdade como a mézinha infalível para ganhar votos.

Este texto segue uma linha de pensamento apresentada na excelente revista francesa Philosophie magazine.

O contrapoder do Expresso

"Enganam-se os que pensam que a Imprensa é um quarto poder. A Imprensa é um contrapoder"- Henrique Monteiro, director do Expresso, citado pelo Público de hoje.

Este Monteiro, neste escrito, é uma anedota. Esta frase é de rir até às lágrimas, num riso amarelo de tristeza pelo auto-convencimento de que o Expresso é um contrapoder.

sábado, outubro 03, 2009

Uma esquerda hipócrita

Vale a pena transcrever esta pequena crónica de Luciano Amaral, no jornal i de hoje:

Ainda [não] vi o filme. Apenas posso comentar as informações que vão saindo e as declarações de Moore. O filme denuncia a promiscuidade entre Wall Street e Washington (o "complexo político-financeiro") e acaba ao som da "Internacional", depois de Moore tentar envolver Wall Street com fita amarela policial. É giro. E o "complexo político- -financeiro" é grave. Só que nada disto é muito sério: a sociedade ocidental não precisa de bufões que denunciem inevitáveis injustiças. Sobretudo quando são hipócritas, como Moore. Para Moore, o "capitalismo é o Mal", e "o Mal não se reforma, erradica-se". Por isso tem de ser "substituído pela democracia".
Será que Moore dirige os seus filmes de forma "democrática"? Quantos colaboradores já despediu? Será que a Paramount, que distribui o filme, é uma democracia?
A oposição capitalismo-democracia é absurda. De facto, as empresas (como a família ou a escola) não são democráticas. Mas a oposição legítima é entre capitalismo e socialismo (que o toque da "Internacional" precisamente sugere). Ora no socialismo as empresas eram geridas de forma ainda mais autoritária. Já quanto ao "complexo político-financeiro", Moore tem razão. Mas é a negação do capitalismo, pelo menos na sua versão liberal.
O "complexo" até é bastante democrático, envolvendo políticos democraticamente eleitos. E mesmo um pouco socialista. Moore é um típico produto capitalista: escolhe temas de choque e faz fortunas com isso.
Vive tão bem do capitalismo que de certeza não o quer destruir. Um hipócrita, portanto.

Adapte-se este escrito mutantis nutandis, ao tipo de discurso do Bloco de Esquerda e temos a receita da hipocrisia.

A Itália da liberdade de imprensa


Na Piazza del Popolo, em Roma, esta tarde, foi assim como se poder ver na imagem, tirada do sítio do La Repubblica.
Roberto Saviano, autor de Gomorra e especialista em mafiosos, discursou. Assim. E falou na indiferença perante o fenómeno criminoso.

Roberto Saviano teria muito que dizer em Portugal, actualmente. Principalmente a certos bonzos e a certos alinhadores de notícias que têm apenas uma função: estabilizar o poder que está. O exemplo máximo é o da RTP1. Nos jornais, evidentemente, temos o Marcelino. Mas a generalidade, alinha pelo mesmo diapasão: o unanimismo no conformismo.
Entretanto, como não há milagres na regeneração social, Portugal, durante o ano que passou, ficou mais corrupto do que era. Desceu mais quatro degraus na escala de aferição internacional , subindo na escada paralela desta ignomínia.
Alguém deu conta dessa ascenção em denúncias concretas e publicadas nos media situacionistas? Como, se é disso que se alimenta o fenómeno?
O silêncio, aqui com noutros lados, é a alma desse negócio e quem quebra a omertà, é mau jornalista. Não é "objectivo" nem sequer isento. E muito menos bom profissional. Por isso mesmo cala-se ou é calado. Por enquanto através dos meios económicos e mesmo judiciais. Se forem precisos outros, lá chegarão, perante a indiferença dos conformados dos media da situação.
E para comentar tudo isso, contratam-se engraçadinhos ou esotéricos que falam a língua de trapo dos enigmas do tempo que passa.

sexta-feira, outubro 02, 2009

A reserva da informação

Amanhã, Sábado, em Itália, na Piazza del Popolo, em Roma, haverá uma manifestação pela liberdade de imprensa, apoiada por largos sectores da imprensa italiana, e com a presença de Roberto Saviano, conta o La Repubblica.

O motivo? A ofensiva de Berlusconi ( veja-se o video até ao fim e compare-se com a informação da TVI...e repare-se no minuto 27:13, a intervenção do jornalista do El País, Miguel Mora, e pergunte-se o que pensará da atitude do seu patrão Cebrián ) contra essa mesma liberdade, através de alteração à Constituição, no sentido de limitar a publicação de notícias como as que o incomodaram , com os seus casos privados com prostitutas e festas privadas de costumes discutíveis.

A actual Constituição italiana diz que "é proibida a publicação em imprensa, de espectáculos e outras manifestações contrários aos bons costumes."
Como tal formulação não é suficiente para impedir as notícias desagradáveis, Berlusconi e o seu partido aprestam-se a acrescentar, para além disso, o segmento " ou lesivos da dignidade da pessoa ou do direito à reserva".
A denúncia da oposição, parte do pressuposto que esta limitação da liberdade, com a desculpa da privacidade, impede e intimida uma profissão, como a de jornalista.

Em Portugal, a censura de um programa de informação, sem pretexto que não o de um mero administrador de empresa não gostar do mesmo, em actuação ilegal, não suscita qualquer reacção, para além das primeiras lágrimas de crocodilo e da hipocrisia dos pares.

Em Itália, amanhã veremos como se portam os romanos.

A eficácia da Justiça

Lisboa, 02 Out (Lusa) - O vice-presidente para a área offset da Man Ferrostaal, Horst Weretecki, refutou hoje "todas as acusações" do Ministério Público (MP) no caso "submarinos/contrapartidas", considerando-as "absolutamente disparatadas".

Horst Weretecki, um dos três cidadãos alemães que figura no rol de 10 pessoas acusadas pelo MP português, falava em conferência de imprensa, em Lisboa, onde respondeu a diversas perguntas, revelando, porém, que existe uma cláusula de confidencialidade no contrato em causa.

"Todas estas acusações (do MP) são infundadas, disparatadas e não têm qualquer substância. Negamos todas essas imputações e faremos tudo para salvaguardar o bom nome e a reputação da empresa", referiu Horst Weretecki.

São alemães que assim falam e estão habituados a uma justiça um pouco mais...como dizer, um pouco mais profissional nos meios, métodos e eficácia. Não fariam, com certeza , uma investigação a uma certa licenciatura, do modo como por cá se fez, pelo que se sabe publicamente.

Se estes qualificativos- disparates sem qualquer substância- relativamente a uma acusação de burla e falsificação de documento, se comprovarem em sede de instrução ou julgamento, veremos o Estado a abancar com outro pedido de indemnização milionário.

De resto, segundo consta, continua por aí uma outra investigação a um hipotético financiamento partidário, meia dúzia de anos depois de ter ocorrido. Não é muito. O caso Freeport já leva mais e parece que essa hipótese nem foi considerada. E na Cova da Beira há muitos anos que passou por lá esse fantasma: no caso Abílio Curto, um pouco mais acima da cova, na Guarda. Foi condenado em prisão efectiva, por corrupção e quando foi preso disse que "o dinheiro foi todo para o PS". Foi o descalabro! Ninguém tinha percebido e até Vital Moreira, na época, garantiu que tal era um rotundo disparate. Sem qualquer substância.

Enfim.


Aditamento:

Fernando Rosas, o deputado do BE que esteve ligado à comissão de Defesa, no Parlamento, enconta-se no jornal das nove, na Sic- Notícias a dizer que as contrapartidas neste tipo de negócios, estão completamente fora de controlo e que a respectiva comissão de fiscalização funciona mal e ainda diz mais: que cerca de 60% das contrapartidas, neste tipo de negócios, não são cumpridas. Em todos os negócios deste género.

O interlocutor, deputado Guilherme Silva interroga-se sobre o facto de nem o ministro da Defesa da altura de celebração do contrato, nem os anteriores ( o negócio é de 1998), nem sequer os responsáveis pela empresa alemã, agora acusados, terem sido ouvidos. Não terão sido? Então o CPP obriga à audição dos suspeitos nestes casos de acusação e não foram?

Guilherme Silva sugere um comunicado mais explicador da PGR e salienta um aspecto importante que não é conhecido pelas notícias que circularam ( em violação de segredo de justiça, provavelmente): o negócio correu mal na sua execução ou era ab initio para correr mal, de propósito e com intuito de enganar logo aí? E conseguiram enganar toda a gente, das comissões de acompanhamento, dos ministérios, dos escritórios de advogados das projecto finance e outras que tais?

A pergunta, obviamente, não é despicienda por um motivo muito fácil de compreender: a estrutra do crime de burla, assenta num engano, mas num engano prévio, provocado por artifícios enganadores e susceptíveis de levar um organismo do Estado, a um prejuízo...

Ora sobre isto é que se torna necessário apurar factos que ainda não se conhecem publicamente. E se de facto este tipo de negócios continuam a ser realizados com o mesmo tipo de "enganos" referidos pelo deputado Rosas, então estaremos conversados quanto á evidência do crime de burla: simplesmente não existe ou todos os negócios deste género são burlas que importa investigar quanto antes...

Ou muito me engano, ou o DCIAP vai ter explicações a dar e não vão ser fáceis.


A justiça real

A Tabu, de hoje, no Sol, entrevista José António Barreiros em que algumas coisas interessantes, além do mais. Este além do mais, compreende a sua visão do processo Casa Pia e que é esta:

"O que ali está ( no processo Casa Pia)é um segmento da realidade, deixou-se escapar muita coisa. A História julgará o que não está a ser julgado. "

Diga-se em complemento do que JAB acaba de dizer que o actual PGR assegurou, logo no início do seu mandato, que não haveria um processo Casa Pia II. Esse silêncio dos inocentes, garantiu a tranquilidade ao seu mandato. Faça o que fizer o actual PGR, não terá nunca os vítores ramalhos contra ele, como teve Souto Moura. E quem diz ramalhos, pode dizer outros arbustos de ocultação.

E continua José António Barreiros:

"Eu acho que Alberto Costa está de parabéns. Impôs o que quis e quando quis. As pessoas berraram contra ele, mas as reformas dele cá estão, até o mapa judiciário. Ele fez o que quis e impôs- e agora aí estão todos em alegres jantaradas com o senhor ministro. Coitados dos ingénuos que acreditaram que a gritaria de protestos que para aí houve teria algum efeito. Estão todos hoje à mesma mesa e sabe porquê? Porque são políticos ou agem como tal-entendem-se!
O primeiro-ministro definiu uma estratégia: combate às corporações. Alberto Costa, obediente, fez tudo para criar dificuldades às magistraturas. Isto era expectável porque as magistraturas começaram a ser um contra-poder; a interrogar ministros e políticos. Portanto, teriam de estar preparadas para a retaliação política. Vários governos gostariam de ter feito isto, mas o do PS tem uma vantagem: é que em certos dirigentes das magistraturas existe uma grande dificuldade em hostilizar o PS. Este ministro fez gato-sapato de quem quis e muitos dos que mais vociferam foram os que mais calaram."

Refere-se a quem, José António Barreiros? A estes quatro. E a um jantar no Gambrinus que um deles, por uma réstia de pudor equívoco, não partilhou. Mas partilhou tudo o mais. Simbolicamente, claro. E por isso mesmo chegamos onde chegamos: ao ponto de o CSM fazer coro com o poder político instalado.