quarta-feira, março 05, 2014

A banda sonora do PREC: pelo sonho se deixaram levar



Nos meses que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, a música portuguesa , nos rádios, era virar o disco e tocar sempre o mesmo. Como não houve grandes novidades discográficas, para além dos já apontados discos de Sérgio Godinho, Fausto ( que publicou entretanto e depois do primeiro, o disco Um beco com saída, tão panfletário nas letras quanto genial na música)  e José Afonso, tocavam-se os antigos, do tempo do protesto e da “intervenção”, ad nauseam.

Durante o Verão de 1974 surgiu o sucesso da época: Somos Livres, de Ermelinda Duarte, uma  canção das novas peças de teatro (“ Lisboa- 72-74”) e que soou vezes sem conta nos rádios da altura a par do Sugar baby love dos Rubettes, ou My only fascination de Demis Roussos, de You´re having my baby de Paul Anka ou de Rock your baby, de George MacCrae, porque passavam mais vezes do que Oh very young de Cat Stevens e talvez tantas como Toro de lágrimas do brasileiro António Carlos ou oConto de Areia de Clara Nunes ( um clássico da mpb). 

Assim, ouvia-se o Operário em Construção, um poema de Vinicius de Morais, dito por Mário Viegas ou a Dificuldade de Governar, o poema de Brecht dito no mesmo disco e  de repente ouvia-se uma magnífica canção francesa, Danse, de Georges Moustaki ou alguns temas do disco brasileiro Temporada de Verão, em que Caetano Veloso e Gilberto Gil têm a parte de leão, com temas como O relógio quebrou, o sonho acabou ou a fantástica Felicidade ( foi embora), de Caetano Veloso, uma das melhores cantiguinhas de sempre, de todas as épocas e latitudes.
Da música brasileira poderia ouvir-se mais porque esse ano e o seguinte, de 1975, foi rico em sucessos. Clara Nunes e O mar serenou; Cyro Aguiar e Crítica; Carmen Silva e Amor com amor se paga, Fafá de Belém e Filho da Bahia que fazia parte da banda sonora de Gabriela ( e que seria vista por cá em 1977) e o grande êxito dos bailes de todos os tempos depois desse: Bilu Teteia, de Mauro Celso, só batido por outro da mesma altura: Meu amigo Charlie Brown, de Benito di Paula.
Em finais de 1974 quem queria ouvir boa música portuguesa e estrangeira, sintonizava o programa Página Um, que passava na Rádio Renascença das sete e meia da tarde ( pouco depois de terminar o Terço)  até às nove, de Segunda a Sexta.
As novidades discográficas eram apresentadas por locutores informados e com frequência apresentadas em primeira mão porque vindas da Inglaterra, onde o programa tinha colaborador permanente ( Fernando Tenente).
No último dia de 1974 o programa, nessa altura animado por Luís Filipe ( Paixão) Martins ( o mesmo da actual LPM) foi assim, tal e qual, como apontei a lápis numa folha de papel.Um certo Albarran substituiu o primeiro, durante o mês de Agosto e no ano seguinte, no Verão Quente de 1975,  houve borrasca por essa altura, lá para os lados da Embaixada de Espanha, tendo esse protagonista como figura...


Como se nota, deu-se conta do aparecimento de um grupo, com o nome de Banda do Casaco ,  e ouvido nessa altura um single, Lavados, lavados sim. O Lp, Dos benefícios de um vendido no reino dos bonifácios, foi passado integralmente, no dia 8 de Fevereiro de 1975 e estive lá, à beira do rádio,  para ouvir e registar.
O Página Um, nos meses do PREC, em 1975, foi um dos programas mais activos na passagem de músicos revolucionários e não havia uma única emissão, nesses meses de finais de 1974-75 que não passasse música chilena, francesa ou de outras bandas que não fosse de punho no ar e com as armas a cantar virtualmente mas com desejos de realidade utópica. 

Em meados de Fevereiro de 1975, o programa foi interrompido, devido a greve, para meu grande desgosto e só voltou a ouvir-se em 5 de Abril desse ano. O desgosto era de saber que não havia outro igual na rádio portuguesa da época e lá se iam as novidades musicais que só aí se apanhavam.  Todos os dias dessas longas semanas, tentava a sintonização , debalde e para ouvir o ruído típico da dessintonia radiofónica.  Um trauma que ainda hoje perdura…

Por isso aqui fica o alinhamento de alguns músicos e músicas da época, passados numa Messa 2000s, fabricada em Portugal e que ainda matraqueia nos dias de hoje, se preciso for. 


Sobre o lançamento do primeiro disco da Banda do Casaco, o grupo de Nuno Rodrigues e António Pinho, o Expresso de 8 de Fevereiro de 1975 fazia assim uma recenssão crítica pela pena de Pedro Pyrrait:


A Banda do Casaco, um dos grupos de música portuguesa mais fantásticos de sempre e que este ano que passou lançou no mercado duas caixas contendo todos os sete discos que publicou mais alguns temas inéditos, ( à venda em exclusivo na FNAC a 50 euros cada caixa), teve pouca sorte em 1975. 
Os tempos eram de luta revolucionária e apelo às armas, em sentido não metafórico. 

Durante o ano formou-se um "colectivo" capitaneado pelo revolucionário José Mário Branco, o mesmo da Canção é uma arma contra a burguesia e chamaram-lhe GAC- Vozes na luta. 

A leitura do "prospecto" é o programa. É ler e apreciar a loucura desta gente, em 1975. Foram os mesmos que nos anos vindouros apoiaram moralmente os sucessores do PRP-BR. FP25 e tutti quanti prometiam um "mundo novo" esperando que o povo acreditasse nas balelas. Como não acreditou viraram-se para as canções infantis, alguns deles e outros, continuam por aí, sempre de braço no ar "enquanto à força no braço que vinga... ". Outros arrependeram-se e tornaram-se os inimigos que queriam então abater...





Na Primavera de 1975 houve o acontecimento musical daqueles anos: o grupo britànico Genesis veio a Portugal, a Cascais,  para um concerto. O grupo tinha lançado no início desse ano o duplo lp The Lamb lies down on Broadway, passado no rádio de então, a primeira vez por um João Filipe Barbosa que o apresentou pelos primeiros acordes do piano desafiando os ouvintes a identificar o som ( e eu estava a ouvir e lembrei-me de ter lido a crítica na Rock & Folk dias antes).

Antes do Verão Quente, houve ânimos exaltados quando os bilhetes não chegaram para todos. 

A Mundo da Canção nº 42, de Maio de 1975, escreveu assim:


 O Expresso( Pedro Pyrrait) nem assim escreveu porque dedicou umas linhas e alguns parágrados ao assunto...do anúncio do concerto, na edição de 1 de Março de 1975.



De qualquer modo, nessa altura já se ouvia Led Zeppelin e Physical Grafitti ou Rory Gallagher e o disco ao vivo Irish Tour ´74. Ou os Traffic de When the Eagle flies ou ainda os King Crimson de Red. 

Quem tinha isto para ouvir, integralmente ( passavam integralmente os discos em certos programas do rádio, à noite, como no Espaço 3P, do RCP,  apresentados por Fernando Balsinha ou Jorge Lopes) não precisava das canções revolucionárias para nada. 
Esta é que era a música revolucionária porque nunca mais se fez outra igual...

segunda-feira, março 03, 2014

As canções PREC de 1974

Em 29 de Março de 1974, escasso mês até ao dia 25 de Abril, realizou-se no Coliseu dos Recreios de Lisboa um "Encontro da Canção Portuguesa".

O Cinéfilo de 6 de Abril desse ano mostra o que foi e quem lá foi. O artigo é assinado por Mário Contumélias, o jornalista que um ano depois seria saneado do Diário de Notícias pelo Nóbéll Saramago (pelo "colectivo de trabalhadores", em quem Saramago mandava como controleiro comunista).



Estavam lá quase todos os cantigueiros de Abril. Os cantores das armas. As cantigas tinham sido autorizadas pela Censura, negociadas uma a uma. Tourada, de Fernando Tordo, "foi vaiada"...
O autor do artigo, o tal Contumélias, escreve que nessa noite "senti-me".  A melhor expressão de mudança sociológica que se pode encontrar para os meses que se seguiram ao 25 de Abril e a loucura colectiva que tomou conta deste nosso pobre país,. foi o que o público disse a Carlos Paredes: "tira a gravata, pá!"
No dia 25 de Abril, à noite, na RTP, um dos sinais mais característicos da mudança, foram os apresentadores ( Fialho Gouveia, por exemplo) sem gravata, ao contrário do que era costume.

Pois bem, logo a seguir ao dia da Revolução, estes cantigueiros tornaram a juntar-se, desta vez no Porto, como conta a Flama de 17 de Maio de 1974. Eram os "cantores proibidos", alguns deles, como José Mário Branco, exilado em França e também Luís Cília, cujas músicas nunca tinha ouvido no rádio.


A vinda destes cantautores revolucionários tinha sido um acontecimento nacional, como o conta a revista já comunizada pelos alexandres manuéis que por lá pululavam. Não precisaram de fazer saneamentos...


A figura incontornável destes cantautores, a par de José Afonso ( que nunca fugiu...) era José Mário Branco. 
No próprio dia 25 de Abril de 1974 e seguintes, a par das músicas de bandas militares, ouvi pela primeira vez no rádio  a canção mais proibida, a Ronda do Soldadinho.  E ouvi Luís Cília que nunca tinha ouvido. E ouvi canções de Adriano Correia de Oliveira, que cantava poemas de Manuel Alegre. E Francisco Fanhais que era um padre revolucionário que se entregou a missões por conta da LUAR.

Essas músicas eram míticas de algum modo porque se sabia que nem todas passavam nos rádios, apesar dos discos que havia e não eram proibidos, exceptuando um ou outro, raramente.

Nas semanas a seguir foi um fartote de música em forma de PREC. José Jorge Letria, conta no seu livro de memórias que fora designado pelos militares ( major Moura, MFA) como uma espécie de controleiro da programação musical da Emissora Nacional. "Foi-me confiada a tarefa pelos militares de dar à programação musical da estação uma configuração mais adequada aos novos tempos que estávamos a viver". José Jorge Letria era comunista, dos sãozinhos, não dos afectados pela terrível doença infantil. E JJL deu essa contribuição, recomendando logo que fizessem "escolhas equilibradas que não pusessem excessivamente a tónica no repertório revolucionário português e estrangeiro". Isto logo nos primeiros dias após o 25...

O Expresso de 18 de Maio de 1974 mostrava também de que lado sempre esteve: do lado certo, como Pedro Pyrrait que já queria censurar os Black Sabath e os Uriah Heep ou até Alice Cooper... em nome do bom gosto. É a tal coisa. As palavras serviram sempre para justificar actos e a escolha das mesmas, agora cabia a outros. E os actos deixavam, ipso facto, de significar o que antes eram. Censura deixava de o ser e passava a ser controlo de qualidade...


Este caldo de cultura esquerdista só poderia dar no que deu: um PREC à maneira e com a publicação nos meses a seguir, de discos panfletários e abertamente revolucionários, com apelos às armas para derrubar a "burguesia".

O primeiro deles todos e o mais emblemático é o de Sérgio Godinho, À Queima-Roupa. É impressionante o teor das letras e que são inequívocas...nada deixando à imaginação das cantigas como armas.






A par desse disco, Fausto, muito arredado das cantorias, desde 1970, com um lp esquecido e um single fabuloso - Ó pastor que choras- voltou em 1974 com um lp, Pró que der e vier, ainda mais explícito que o de Sérgio Godinho e a pedir meças revolucionárias a quem quisesse. A música, essa, é irrepreensível e um dos melhores discos da música popular portuguesa de sempre. Um clássico, como os demais que Fausto publicou a seguir.


Por seu turno, José Afonso, o lírico revolucionário que ficou com marcas, para sempre, da doença infantil que o atingiu, publicou nessa época o primeiro lp pós 25 de Abril, com algumas, poucas canções revolucionárias. O coro dos tribunais é um magnífico disco de José Afonso, por isso mesmo.



A revista Mundo da Canção que se publicava no Porto e era notoriamente comunista, do lado dos bons, sem doenças, no número que saiu logo depois de 25 de Abril fazia um tal estardalhaço cultural que publicou na capa o comunicado de um "Colectivo de Acção Cultural" com nomes de sempre e que foram os do PREC da ocasião.


Na página 3 assumia uma autocrítica, considerando que tinha sido uma revista reaccionária e que ainda não era revolucionária...e a loucura começava a instalar-se.


Na página 5 mostrava o disco nunca visto de Luís Cília, da Chant du Monde francesa:



Na página 11 dá a voz a José Mário Branco, então "doido de alegria"...


E na página 15 já se falava em saneamentos...palavra então inventada para designar algo ignóbil e que deveria ser aceite revolucionariamente pelos futuros nóbéles e outros que tais.


Foi nesse mesmo número que li pela primeira vez a letra da Ronda do Soldadinho, a canção de José Mário Branco que para mim congrega a mistura da  confusão lírica e utópica do esquerdismo com a infantilidade inútil da imbecilidade irrealista. A música embalava o resto, como o Avante, Camarada, o Alerta e os Vampiros...


Só faltava o A cantiga é uma arma, mas é para já porque foi publicada no número a seguir, de finais de 1974 ( a revista tornou-se irregular, com as guerras entre os doentes infantis e os que queriam tratar-lhes a tosse...)


No ano seguinte a loucura continuou. Os discos viararam mas continuaram a tocar o mesmo. os tocadores continuam por aí e alguns deles nem arrependidos estão desta loucura.Outros dizem que foi coisa da juventude. Das doenças infantis, porventura.

E agora vou para o Carnaval que isto que então se passou foi mais que um Carnaval. Foi uma tragédia.

domingo, março 02, 2014

As músicas lá de fora, há 40 anos

Há quarenta anos, os sons que vinham lá de fora misturavam-se  no rádio com as cantigas de cá, as que eram uma arma e as que só pretendiam entreter.

Recorrendo à memória e a listas de lançamentos da época é possível fazer um roteiro imaginário do que então passava como sons agradáveis ao ouvido.

 Página da Mundo da Canção nº 38 de finais de 1973


A crónica de José Jorge Letria no República que fazia o balanço do ano de 1973 era muito pobre quanto a música...
 
Em finais de 1973 tinha saído lá fora, nos países anglo-saxónicos, música pop e rock em barda e era essa música que dominava as então inexistentes "playlists" e  que era ao gosto dos apresentadores. 


À hora do almoço, durante a semana e eventualmente na Rádio Renascença, ouvia-se por exemplo Sebastian, do grupo de Steve Harley e os Cokney Rebel. Tal como se ouvia o tema 5:15 dos The Who e do duplo lp Quadrophenia, um portento da música popular de todas as décadas que desde então passaram. Ou o single de Stevie Wonder, Living for the city, com sons da rua de cidades americanas em confronto racial.  Ou então, o som mais distendido e sofisticado de Elton John, com Goodbye Yellow Brick Road ( aqui  numa magnífica versão, nos Marretas).
Juntamente com Sebastian, lembro-me bem de ouvir à tarde, Júlio Montenegro a apresentar David Bowie Sorrow de David Bowie, tal como os Hollies, com um magnífico The air that i breathe, já em 1974. Tal como uma Shirley Bassey, com uma voz que nunca acabava de cantar Never, never, never, e um qualquer de Suzy Quatro ou o etéreo e saudoso Top of the  world dos Carpenters.

Porém o som mais marcante, constante e permanente nesses meses, não era de nenhum desses grupos. Era o de Demis Roussos que tinha lançado um lp, Forever and ever,  que lhe rendeu vários singles, entre os quais o que dá título ao disco e principalmente Velvet Morning,  com o seu viciante "triqui, triqui, triqui, triqui, mon amour..." seguido de Goodbye my love goodbye.



Esse será provavelmente o disco mais marcante desses meses que precederam ( e os que sucederam porque apareceu logo em 1974 outro disco do mesmo cantor) o 25 de Abril de 1974.  Na primavera desse ano surgiam os Abba com o esfusiante Waterloo  na Eurovisão.
No rádio, nos melhores programas, ainda poderia ouvir-se um resquício do álbum dos Pink Floyd, Dark side of the moon, saído no início desse ano ou Mike Oldfield  e o seu estreante Tubular Bells.

Não obstante a quantidade avassaladora da música estrangeira de expressão anglo-saxónica, em Portugal nessa altura consumia-se também música de outros lados, particularmente do Brasil.
Em finais de 1973 foi um estrondo de novidade sonora ouvir um grupo que integrava um português de Ponte de Lima, João Ricardo, dos Secos & Molhados. Ouvir o Patrão nosso de cada dia, na voz flausina e amaricada de Ney Matogrosso, ou o Sangue Latino, Vira, Rosa de Hiroshima ou Mulher Barriguda era uma barrigada de novidade sonora cantada em português, até de Fernando Pessoa.


A par desse som do Brasil, a que se juntava um single de melodia inesquecível e religiosa- O Homem de Nazaré ( e que há mais de trinta anos não ouvia) cantado por um António Marcos desconhecido , ouvia-se também, vindo do mesmo lado, Raul Seixas  e Ouro de Tolo ( uma das dez melhores canções de sempre no meu top pessoal) e a Mosca na sopa, com um ritmo e uma letra que em Portugal ainda não se faziam. Só dali a meses, com a Banda do Casaco e alguns anos depois, com Rui Veloso.
Angie dos Rolling Stones ou I like you de Donovan, soavam melosos assim como Over the hills dos Led Zeppelin ou Grand Hotel dos Procol Harum ou Full Circle dos Byrds, soavam melodiosos e ritmados.

Assim, a par de umas cantigas de Zeca Afonso, do Venham mais cinco e uma ou outra de Sérgio Godinho, mais uma ou outra de um Leo Ferré esquecido, essas foram as músicas que precederam a Revolução e lhe servem de banda sonora percursora.

Logo a seguir, o panorama musical, durante algums meses, assemelhava-se perigosamente a esta caricatura da Flama de 15 de Maio de 1974. Foi aí que as cantigas começaram mesmo a ser usadas como arma...

sábado, março 01, 2014

A cantiga era uma arma...e eu não sabia- memórias da música popular portuguesa I





Cinéfilo de 15 de Junho de 1974 em que se faz uma prognose póstuma do panorama musical nacional da época. Tipicamente esquerdista.
O indivíduo que assina o texto, Mário Contumélias é o mesmo que no ano seguinte foi corrido do Diário de Notícias dirigido de facto pelo futuro Nóbél Saramago. Contumélias tinha sido eleito presidente do Sindicato dos Jornalistas e nem isso o safou. Antes pelo contrário...
O mesmo Contumélias, esquerdista atingido pela fatal doença infantil que os comunistas do PCP estavam dispostos a tratar com remédios experimentados por Estaline, menciona a expressão "nacional-cançonetismo". Esta expressão terá sido inventada por João Paulo Guerra e José Cardoso Pires, no suplemento A Mosca do Diário de Lisboa...para designar o que mais tarde, nos anos oitenta, veio a ser conhecido como música pimba, mas não só. Era uma designação operativa para distinguir os bons dos maus...segundo os altos critérios daqueles.Tipicamente esquerdista.

Há quarenta anos que músicas se ouviam em Portugal, no espaço público dos rádios e no privado dos discos e discotecas que vendiam o suporte principal que era o disco single de 45 rpm e o LP de 33 1/3?
Não é fácil saber com precisão e para além da memória mais ou menos vaga de um ou outro tema que marcou esse tempo.Para mim, o que marca a mpp de 1973 é o tema O Café, de Fernando Tordo e Ary dos Santos.

Uma coisa parece certa, porém: a música que se produzia no estrangeiro e era sucesso também por cá aparecia com mais ou menos intervalo de meses.
Assim, sabendo o que se publicava no mercado anglo-saxónico mas também brasileiro, espanhol ou francês, pode ter-se uma ideia emparelhada com as músicas que por cá se produziam e vendiam em disco.

Em finais de 1973 e início de 1974 também não havia em Portugal  suficiente informação escrita sobre a música popular ou outra. 

Musicalíssimo de 9 de Novembro de 1973 onde se malha em Letria...


Musicalíssimo 9 de Novembro de 1973.

Ao Mundo da Canção, com saída mensal, juntava-se um jornal- Musicalíssimo- e uma revista quinzenal- Cinéfilo-também virada para as artes da música e outros espectáculos. A par de uma revista semanal de televisão, antecessora das TVMais e outras que tais- a R&T.  E era tudo ou quase. Muito pouco, uma vez que apenas a Mundo da Canção  mostrava algum eclectismo no tratamento de temas, ocupando a maior parte das páginas com as letras das canções, de todas as nacionalidades, incluindo a nossa, com os então chamados cantores de intervenção.
Neste tipo de música produzida e editada em disco por etiquetas como a Guilda da Música, Zip Zip-Movieplay, Orfeu, Arnaldo Trindade do Porto, Valentim de Carvalho, de Lisboa ou mesmo a Philips, ou até a Ofir, Rapsódia e Alvorada,  destacam-se dois ou três cantautores nacionais que passavam no rádio sem problemas de maior com a Censura, exceptuando alguns temas mais explícitos na oposição ao regime.
O primeiro é Sérgio Godinho, com dois discos longos lançados em 1971 e 1972 cujos temas, todos excelentes, passavam amiúde em certos programas de rádio. Nem todos os temas, mas o destaque ia todo para O Charlatão ou Romance de um dia na estrada, do primeiro Lp, Sobreviventes, aparecido no Outono de  1971 ( Guilda da Música-Sassetti & Co Lda) ou A noite passada e O Homem dos sete instrumentos, do segundo LP,  Prè-Histórias,  gravado em meados  de 1972, em Hérouville, França  e ouvido em 1973 ( Guilda da Música). 


Esses temas eram passados sem problemas censórios, nos programas de rádio de então que eram estes essencialmente: PBX, ( começado em 1968 e animado pelos mesmos do Zip Zip e passado no Rádio Clube Português, à noite e de manhã, em onda média e FM. Na Rádio Renascença poderia ouvir-se a Página Um, animado por José Manuel Nunes e Adelino Gomes, às 7 e meia da tarde, depois do Terço e até às nove.  

Duas páginas da revista R&T de 5 de Janeiro 1974, com a programação  dos rádios..

Quem queria ouvir a boa música portuguesa e estrangeira, bastava sintonizar tais programas. Porém, durante o dia também havia programas que passavam estas músicas.  
José Afonso era outro nome que contava para este panorama. Em 1973, no Natal, é lançado o grande disco Venham mais cinco. No ano anterior tinha saído o LP Eu vou ser como a toupeira, com temas esconsos como A morte saiu à rua, cuja autorização censória terá sido negociada com Feytor Pinto, porque o tema era demasiado idiossincrático ( tratava da morte de um comunista...às mãos da polícia de então). 
Venham mais cinco tem dois temas que eram passagem obrigatória no rádio da época e não só naqueles programas mais virados de avesso ao regime: o título tema e A formiga no carreiro, principalmente.
Não obstante a grande qualidade sonora, musical  e temática, a imprensa da época não parecia muito entusiasmada, como se pode ler nesta recensão em modo de balanço do ano, na R&T de 5 de Janeiro de 1974.

José Afonso, a par de Sérgio Godinho, Adriano Correia de Oliveira e José Mário Branco era um dos monstros sagrados da canção de protesto,  os nossos Pete Segers e Phil Ochs, ou, noutra dimensão que dali a meses se tornaria realidade, os Victor Jara nacionais.
A oposição ao regime de Marcello Caetano, mesmo com a liberalização relativa da Primavera Marcelista, a partir de 1968, dava-lhes todo o espaço  e importância.
Estes quatro cantautores tinham publicado em 1971, cada um deles, álbuns de referência na música popular portuguesa. Sérgio Godinho, Os Sobreviventes; José Afonso, Cantigas do Maio ( o que tem Grândola, Vila morena e que foi a música que sinalizou o começo do golpe militar em 25 de Abril de 1974, disco entregue por José Jorge Letria a Carlos Albino Guerreiro, para passagem no programa Limite, como aconteceu- episódio narrado por JJL no seu livro de memórias em que "e tudo era possível"); Adriano Correia de Oliveira, Gente Daqui e de Agora e José Mário Branco, com Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.  


Esses quatro discos são as obras-charneira da mpp revolucionária ou em vias disso, do “canto de intervenção” e todos eles, pelo menos em alguns temas,  passavam no rádio, apesar da Censura.
Esta espécie de renovação da mpp, foi obra destes esquerdistas comunistas e começara alguns anos antes, com o advento da tal Primavera Marcelista em 1968, depois da queda de Salazar.
Em 1969 um programa de tv juntava-se a esta “primavera”, o Zip-Zip, por onde passaram alguns intérpretes  de música ligeira que se afeiçoavam a esta mudança.
Um deles é a pedra de toque desta renovação por via de uma balada: Manuel Freire, com Pedra Filosofal, um clássico da nossa cultura popular e musical, com letra de António Gedeão.
O Zip Zip apoiara ainda um outro baladeiro, José Barata-Moura, comunista empedernido e intelectual  universitário , ainda hoje. Em 1973 lançou um disco que continha uma  cantiga  que fazia sucesso no rádio: "Vamos brincar à caridadezinha".
Em 1972 aparecia no mercado e passava no rádio outro excelente trabalho musical, da autoria de José Niza , um esquerdista que integrou depois o PS,  com letras de todas as canções de António Gedeão e vários intérpretes que se destacaram posteriormente na “canção de intervenção”  e até na canção que era uma arma:  o disco Fala de um Homem Nascido  tinha vozes de Duarte Mendes, Carlos Mendes, Samuel e Tonicha e era muito ouvido nessa altura do ano de 72-73. 


 

Ao mesmo tempo que na música popular ocorriam estas mudanças, na imprensa surgia em 1969 um suplemento no Diário de Lisboa, chamado A Mosca que integrava redactores como José Cardoso Pires, João Paulo Guerra ( que já tinha sido responsável pela Memória do Elefante) Luís Sttau Monteiro, Pedro Alvim, Joaquim Letria e Fernando Assis Pacheco.


Quem falta neste grupo? Alguns, como José Jorge Letria que em 1973 lançara o primeiro disco ao vivo, De viva voz; Francisco Fanhais, o padre revolucionário que cantara no Zip Zip e que foi capa do primeiro número da revista Mundo da Canção em Dezembro de 1969. Luís Cília que não se ouvia por cá, uma vez que estava em França, fugido à tropa e editara Contra a ideia de violência a violência da ideia, na Chant du Monde. Fausto que nessa altura, em 1970,  já tinha um LP esquecido e um single fabuloso: Ó pastor que choras ( na imagem abaixo).
Faltam ainda os que não eram revolucionários ( mas se tornaram logo a seguir ao 25 de Abril de 74): Paulo de Carvalho, Fernando Tordo e mais um punhado deles, poucos.
E faltam alguns não alinhados, como José Almada, cujo primeiro Lp de 1970 é uma beleza natural; Luís Rego, emigrado em França, também fugido á tropa, com um single também fantástico, Amor Novo, talvez a melhor cantiga dessa época, de uma beleza temática e melódica, rara.

E em nota apócrifa ( de 6 de Março) acrescenta-se ainda este ep de Manuel Freire, lançado em 1968 e passado insistentemente pelo programa de rádio PBX ( os mesmos do Zip Zip que surgiria depois e ainda João Paulo Guerra, uma figura fulcral como divulgador destas figuras e géneros musicais percursores do 25 de Abril que trabalhou como jornalista na Mosca do Diário de Lisboa e que agora se ocupa na Antena Um a fazer recensões de notícias de jornal, todos os dias da semana, logo pela manhãzinha e com as escolas "certas" e subtilmente ideologizadas) . O tema "Livre" cuja letra toda a gente com mais de 50 anos conhece ( "Não há machado que corte, a raiz ao pensamento...) era um êxito e um clássico destas cantigas de protesto a fazer de conta que eram...isso mesmo. Esta é de facto, das primeiras e dos primeiros sinais acerca da mudança esquerdista que se preparava e anunciava o advento do 25 de Abril de 1974, a meia dúzia de anos de distância.




E as músicas "lá de fora"? Ficam para amanhã... 

O título do postal parece que se assemelhará a um título que Joaquim Veira prepara para lançar sobre as cantigas que eram uma arma. Ouvi no outro dia na tv, mas já tinha esta filada há muito. Por isso não é plágio: é coincidência.

Estas cantigas que eram armas foram mais importantes do que parece, para o que viria a seguir, logo nos primeiros meses de 1974 e contribuiram muito para o predomínio da esquerda intelectual e comunista no panorama cultural português. 
Se somos como somos, também o somos por causa destas cantiguinhas. Veremos a seguir como foi.

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso