Nos meses que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, a música
portuguesa , nos rádios, era virar o disco e tocar sempre o mesmo. Como não
houve grandes novidades discográficas, para além dos já apontados discos de
Sérgio Godinho, Fausto ( que publicou entretanto e depois do primeiro, o disco Um beco com saída, tão panfletário nas letras quanto genial na música) e José Afonso, tocavam-se os antigos, do tempo do
protesto e da “intervenção”, ad nauseam.
Durante o Verão de 1974 surgiu o sucesso da época: Somos Livres, de Ermelinda Duarte, uma canção das novas peças de teatro (“ Lisboa- 72-74”) e que soou vezes sem conta nos rádios da altura a par do Sugar baby love dos Rubettes, ou My only fascination de Demis Roussos, de You´re having my baby de Paul Anka ou de Rock your baby, de George MacCrae, porque passavam mais vezes do que Oh very young de Cat Stevens e talvez tantas como Toro de lágrimas do brasileiro António Carlos ou oConto de Areia de Clara Nunes ( um clássico da mpb).
Assim, ouvia-se o Operário em Construção, um poema de
Vinicius de Morais, dito por Mário Viegas ou a Dificuldade de Governar, o poema
de Brecht dito no mesmo disco e de
repente ouvia-se uma magnífica canção francesa, Danse, de Georges Moustaki ou alguns
temas do disco brasileiro Temporada de Verão, em que Caetano Veloso e Gilberto
Gil têm a parte de leão, com temas como O relógio quebrou, o sonho acabou ou a fantástica Felicidade ( foi embora), de Caetano Veloso, uma das melhores cantiguinhas de sempre, de todas as épocas e latitudes.
Da música brasileira poderia ouvir-se mais porque esse ano e o
seguinte, de 1975, foi rico em sucessos. Clara Nunes e O mar serenou; Cyro
Aguiar e Crítica; Carmen Silva e Amor com amor se paga, Fafá de Belém e Filho da Bahia que fazia parte da banda sonora de Gabriela ( e que seria vista por cá em 1977) e o grande êxito dos
bailes de todos os tempos depois desse: Bilu Teteia, de Mauro Celso, só batido
por outro da mesma altura: Meu amigo Charlie Brown, de Benito di Paula.
Em finais de 1974 quem queria ouvir boa música portuguesa e
estrangeira, sintonizava o programa Página Um, que passava na Rádio Renascença
das sete e meia da tarde ( pouco depois de terminar o Terço) até às nove, de Segunda a Sexta.
As novidades discográficas eram apresentadas por locutores
informados e com frequência apresentadas em primeira mão porque vindas da
Inglaterra, onde o programa tinha colaborador permanente ( Fernando Tenente).
No último dia de 1974 o programa, nessa altura animado por
Luís Filipe ( Paixão) Martins ( o mesmo da actual LPM) foi assim, tal e qual,
como apontei a lápis numa folha de papel.Um certo Albarran substituiu o primeiro, durante o mês de Agosto e no ano seguinte, no Verão Quente de 1975, houve borrasca por essa altura, lá para os lados da Embaixada de Espanha, tendo esse protagonista como figura...
Como se nota, deu-se conta do aparecimento de um grupo, com
o nome de Banda do Casaco , e ouvido nessa
altura um single, Lavados, lavados sim. O Lp, Dos benefícios de um vendido no
reino dos bonifácios, foi passado integralmente, no dia 8 de Fevereiro de 1975
e estive lá, à beira do rádio, para
ouvir e registar.
O Página Um, nos meses do PREC, em 1975, foi um dos
programas mais activos na passagem de músicos revolucionários e não havia uma
única emissão, nesses meses de finais de 1974-75 que não passasse música chilena, francesa ou de
outras bandas que não fosse de punho no ar e com as armas a cantar virtualmente mas com desejos de realidade utópica.
Em meados de Fevereiro de 1975, o programa foi interrompido,
devido a greve, para meu grande desgosto e só voltou a ouvir-se em 5 de Abril
desse ano. O desgosto era de saber que não havia outro igual na rádio
portuguesa da época e lá se iam as novidades musicais que só aí se apanhavam. Todos os dias dessas
longas semanas, tentava a sintonização , debalde e para ouvir o ruído típico da
dessintonia radiofónica. Um trauma que
ainda hoje perdura…
Por isso aqui fica o alinhamento de alguns músicos e músicas
da época, passados numa Messa 2000s, fabricada em Portugal e que ainda matraqueia nos dias de hoje, se preciso for.
Sobre o lançamento do primeiro disco da Banda do Casaco, o grupo de Nuno Rodrigues e António Pinho, o Expresso de 8 de Fevereiro de 1975 fazia assim uma recenssão crítica pela pena de Pedro Pyrrait:
A Banda do Casaco, um dos grupos de música portuguesa mais fantásticos de sempre e que este ano que passou lançou no mercado duas caixas contendo todos os sete discos que publicou mais alguns temas inéditos, ( à venda em exclusivo na FNAC a 50 euros cada caixa), teve pouca sorte em 1975.
Os tempos eram de luta revolucionária e apelo às armas, em sentido não metafórico.
Durante o ano formou-se um "colectivo" capitaneado pelo revolucionário José Mário Branco, o mesmo da Canção é uma arma contra a burguesia e chamaram-lhe GAC- Vozes na luta.
A leitura do "prospecto" é o programa. É ler e apreciar a loucura desta gente, em 1975. Foram os mesmos que nos anos vindouros apoiaram moralmente os sucessores do PRP-BR. FP25 e tutti quanti prometiam um "mundo novo" esperando que o povo acreditasse nas balelas. Como não acreditou viraram-se para as canções infantis, alguns deles e outros, continuam por aí, sempre de braço no ar "enquanto à força no braço que vinga... ". Outros arrependeram-se e tornaram-se os inimigos que queriam então abater...
Na Primavera de 1975 houve o acontecimento musical daqueles anos: o grupo britànico Genesis veio a Portugal, a Cascais, para um concerto. O grupo tinha lançado no início desse ano o duplo lp The Lamb lies down on Broadway, passado no rádio de então, a primeira vez por um João Filipe Barbosa que o apresentou pelos primeiros acordes do piano desafiando os ouvintes a identificar o som ( e eu estava a ouvir e lembrei-me de ter lido a crítica na Rock & Folk dias antes).
Antes do Verão Quente, houve ânimos exaltados quando os bilhetes não chegaram para todos.
A Mundo da Canção nº 42, de Maio de 1975, escreveu assim:
O Expresso( Pedro Pyrrait) nem assim escreveu porque dedicou umas linhas e alguns parágrados ao assunto...do anúncio do concerto, na edição de 1 de Março de 1975.
De qualquer modo, nessa altura já se ouvia Led Zeppelin e Physical Grafitti ou Rory Gallagher e o disco ao vivo Irish Tour ´74. Ou os Traffic de When the Eagle flies ou ainda os King Crimson de Red.
Quem tinha isto para ouvir, integralmente ( passavam integralmente os discos em certos programas do rádio, à noite, como no Espaço 3P, do RCP, apresentados por Fernando Balsinha ou Jorge Lopes) não precisava das canções revolucionárias para nada.
Esta é que era a música revolucionária porque nunca mais se fez outra igual...