quinta-feira, março 20, 2014

Sousa e Castro: um "capitão de Abril" em entrevista ao i

No jornal i de hoje entrevista o "capitão de Abril"  Sousa e Castro, sobre a efeméride.

É ler que os comentários vêm a seguir.


Há uma primeira afirmação que merece comentário porque é assunto já rebatido em várias entrevistas com vários intervenientes no movimento militar que derrubou o regime em 25 de Abril de 1974: os militares, na sua esmagadora maioria não estavam politizados, ou seja, não estavam devidamente informados sobre opções políticas, partidos e ideologias. O único que o estaria, Melo Antunes, foi logo tomado como o ideólogo do MFA, mas apanhou o combóio revolucionário quase ao chegar à estação do dia previsto e planeado por outros.

Este facto da despolitização dos militares parece incontestável, tendo em atenção que Otelo ou Vasco Gonçalves, logo nos primeiros meses após a revolta militar e a deposição do governo de Marcello Caetano e do regime político então vigente, não sabiam para que lado político se haviam de virar. Falvam publicamente numa Suécia e numa Itália e meses depois, começaram a olhar para Leste.

Isto parece importante para se perceber a "tese" de Sousa e Castro, no sentido de ter sido o general Spínola o verdadeiro fautor do PREC (!). Sousa e Castro entende que se tivessem permitido a evolução tranquila do regime que substituiu o anterior, teríamos ido parar á...social-democracia, com toda a naturalidade democrática e popular.

Será que Sousa e Castro pensou sempre assim? Tenho para aí umas entrevistas antigas, ( Sousa e  Castro era muito entrevistado nessa altura)  mas não vale a pena repescá-las, porque a "tese" não me parece que tenha validade, por alguns motivos que me parecem claros:

Durante os meses do Verão de 1974 e após a queda do Governo de Palma Carlos, antes do Verão de 1974, o clima político e mediático em Portugal alterou-se e radicalizou-se na esquerda comunista. Os moderados do PS e do PPD, sociais-democratas, com apoio dos militares também moderados ( grupo dos Nove) mas socializantes e condescendentes com a esquerda comunista, não conseguiram impôr um desiderato político ás instâncias de poder real e de facto. O PCP e a Extrema-Esquerda, ( os doentes infantis do comunismo) conseguiram impôr um clima de PREC e alteração das estruturas económicas até então existentes e que não se compatibilizariam com a social-democracia.
Basta ler a imprensa da época e que tenho publicado por aqui, para entender isso.
O 11 de Março de 1975 foi apenas a derradeira tentativa ( a primeira tinha sido em 28 de Setembro de 1974) para deter o avanço que parecia imparável da  Esquerda comunista. Falharam as duas tentativas e por isso mesmo o PREC avançou e radicalizou-se ainda mais a partir de Março de 1975, com o episódio que Sousa e Castro imputa a Spínola, culpando-o pelo PREC por causa disso. Não me parece nada que tenha sido assim. Para Sousa e Castro, se não fosse o 11 de Março, seríamos uma Espanha. Não o diz mas é como se dissesse.

O PREC aliás, continuou até 25 de Novembro de 1975 e mesmo depois disso, as sequelas mantiveram-se durante anos. 
A social-democracia, em Portugal passou maus bocados e só se recompôs com a entrada de Portugal na CEE, em meados dos anos oitenta, uma década depois do 25 de Abril de 1974. Imputar tudo isto a Spínola ou a uma hipotética Direita, inexistente, é fantasia, a meu ver.

Depois, outra afirmação que merece comentário e do mesmo género da anterior: para Sousa e Castro não existiu Descolonização, mas "transmissão de poder". Sousa e Castro defendia que se entregasse Angola ao MPLA, logo e sem mais aquelas e defende que houve guerra civil, depois, por não se ter seguido o seu sábio conselho...como se a guerra não surgisse depois, pelos mesmíssimos motivos se tivessem seguido tal opção.

A seguir Sousa e Castro revela uma ideia de Justiça estonteante. Diz que foi ele quem constituiu os gabinetes de instrução processual e que o que pediu aos juízes ( supõe-se que seriam de instrução porque ainda era assim nesse tempo)  foi: " ele vão ter que ser todos condenados porque a lei assim o exige, mas todos aqueles cuja apreciação no inquérito inicial não indicie que eles foram torturadores ou participaram no assassinato do general Humberto Delgado ou do Dias Coelho, a minha opiniao é que deviam ser postos em casa em liberdade provisória. "
Nem comento esta ideia de justiça de um militar de Abril, porque não revela só ignorância, mas outra coisa bem pior: mentalidade sem eira nem beira sobre a noção de Justiça processualizada e legítima. Uma catástrofe.

Sobre os dossiers da PIDE/DGS importa reter uma ideia da entrevista: Sousa e Castro não alinha no coro dos que dizem que o PCP desviou milhares e milhares de documentos e processos, roubando-os e enviando-os para o estrangeiro, ao cuidado da União Soviética. Sousa e Castro acha que se tal sucedeu foram apenas "um ou outro". Diz que faltam os processos de Cunhal e Soares, coisa pouca. Mas avalanche de processos, isso, nunca!

Sousa Tavares, ontem no Diário de Notícias dizia o contrário e que testemunhou tal coisa, seráfico, observando "elementos do PCP que lá estavam, e sob a protecção de oficiais da Marinha que ocupavam o forte, começarem a carregar camiões de processos e dossiers...que mais tarde apareceram em Moscovo."


 Para Sousa e Castro, isso serão "visões"...
No entanto, ou Sousa e Castro andava então a dormir e sendo o responsável político pela extinção da PIDE/DGS, deixou que  o PCP  o comesse com  casca e tudo e então a esperteza de Sousa e Castro deixa muito a desejar; ou a realidade precisa de mais discussão e responsabilização de quem no PCP fez tal traição ao país. Esta discussão é tabu entre nós, porque o PCP tem um estatuto privilegiado de partido do sistema, apesar de ser anti-democrático, totalitário e embusteiro.

ADITAMENTO:

Por se mostrar com interesse deixo aqui um recorte da revista Opção ( de esquerda, Artur Portela Filho director) de 19 de Agosto de 1976 e com um artigo sobre os "PIDES" e Sousa e Castro.

Questuber! Mais um escândalo!