segunda-feira, março 17, 2014

O Portugal de 1974-1975 visto lá de fora...

Quando ocorreu a revolta militar de 25 de Abril de 1974 que depôs Marcello Caetano e o regime de Estado Social que este chefiava, os media internacionais mais importantes deram-nos uma atenção impressionante, com capas de chamada logo nos dias seguintes.
O jornal Le Monde, vespertino ( dantes os jornais saíam de manhã ou à tarde), deu a notícia no próprio dia 25 de Abril e fê-lo sem qualquer margem de dúvida sobre a orientação geral da imprensa europeia da época:
"Entre as aclamações da multidão, um movimento das forças armadas toma o poder em Portugal. Um governo provisório deverá dirigir o país até à organização de eleições livres". ( citação tirada do livro que a seguir se refere).
A única palavra a mais nesta notícia está no adjectivo "livres". O diário de Paris teria já por cá um correspondente ( José Rebelo?) virado para o lado social...ista.

Não obstante, quase todos os jornais da época e daqueles dias, enfatizam a viragem política para a Liberdade por oposição à Ditadura do regime anterior.

Quem prova isto mesmo, através de imagens e texto é um livro recente de Joaquim Vieira/Reto Monico sobre "o 25 de Abril e o prec na imprensa internacional", intitulado "Nas bocas do mundo"  e que recomendo vivamente a consulta porque tem grande profusão de imagens e ilustrações de cartoons da altura, tirados de jornais e revistas consultados pelos autores em bibliotecas de várias capitais europeias ( Paris Londres Viena Genebra e Berna). Que maravilha deve ter sido consultar estes exemplares de imprensa da época, in loco, com esta finalidade, tal como escrevem os autores na introdução ao livro. Ser pago para se fazer o que se gosta, com utilidade para todos, é privilégio raro que me contenta porque é assim que pode haver harmonia nas coisas.

Ficam algumas imagens da imprensa internacional da época que atestam bem a importância que foi dada ao Movimento dos Capitães e à revolta do dia 25 de Abril de 1974.

O livro, essencialmente documental, atesta sem margem para dúvidas que a generalidade da imprensa estrangeira da época não estava com o regime deposto e sim com a mudança operada. Como escrevem os autores " as críticas ao anterior regime português reuniam unanimidade quase total, mesmo da parte da imprensa conservadora".
Isto é um facto fundamental para se entender o contexto em que ocorreu o 25 de Abril de 1974 no panorama europeu da época. Com o recuo do tempo, porém, será possível analisar melhor quem tinha razão de fundo no exercício do poder político e nas ideias que se transmitiam publicamente, no caso pela Televisão, em "conversas de família". Essas ideias deveriam ser melhor estudadas e comentadas, coisa que em Portugal, nos últimos 40 anos, raramente se fez e quando fez, foi sempre para criticar negativamente o anterior presidente do Conselho.
No entanto, se na época a imprensa internacional estava também com o MFA do dia 25 de Abril,  não estava com o novo poder desse mesmo MFA que durante os meses de 1974 e até finais de 1975 tentou impor-se em Portugal: o comunismo puro e duro do PCP e dos doentes infantis que o acompanhavam e seriam devidamente tratados no seu devido tempo, pelos métodos expeditos e estalinistas do PCP. O Diário de Notícias da época é uma prova desses métodos.
Tenho por cá algumas das publicações mostradas abaixo. Uma delas, a brasileira Manchete de Maio de 1974 e um número da brasileira Veja, com um artigo muito extenso, em Outubro do mesmo ano. O jornalismo brasileiro da altura era mesmo de referência, parece-me.

As imagens que seguem são todas do livro de Joaquim Vieira/Reto Monico e são as únicas  a cores, publicadas antes do texto que ao longo de mais de 300 páginas mostra ainda muitos outros cartoons a preto e branco e bem elucidativos do modo como os estrangeiros nos viam.

Livro a não perder por quem se interessa por estas coisas e custa pouco mais de vinte euros, valendo todos os cêntimos do dito preço. Por outro lado, apesar de Joaquim Vieira ser um autor melífluo na abordagem temática ( plantou Mário Soares ao chão com a descarga eléctrica que lhe aplicou por escrito, na biografia que lhe fez, não passando em claro o escândalo de Macau e Rui Mateus) não se nota aqui muito a escola dos Rosas&Pereira ou mesmo Flunsers ou a agora incrível Raquel Varela que tem um novo livro que é um nojo. Isso mesmo: um nojo. Porque indispõe qualquer espírito livre e de boa fé.

O cartoon de Siné, abaixo publicado com a bandeira repartida e a parte vermelha retirada pelas raquéis varelas da altura, deveria merever um prémio porque é dos melhores de sempre na sintetização, numa imagem simples de tudo o que ocorreu nessa altura de 74-75.



E agora repare- se na subtileza dos títulos dos jornais de referência da época e os correios da manhã da mesma altura:


Questuber! Mais um escândalo!