domingo, junho 12, 2016
Dr. Pacheco, mr. Rui e a social-democracia do PSD
Pacheco Pereira escreveu um artigo na última edição da revista Sábado em que procura desqualificar o actual PSD, retirando-lhe o ideário social-democrata para lhe colar a designação actualmente equivalente ao fassismo: neo-liberal.
Para tal socorre-se do historial do PSD quando este partido ainda estava em embrião na Ala Liberal e após o nascimento do PPD em que o dr. Pacheco ainda era o mr. Rui, pseudónimo da sua semi- -clandestinidade de extrema-esquerda a esconder panfletos debaixo de soleiras de portas esconsas.
Observador ( the real thing) de 3.8.1973:
O artigo de Dr. Pacheco é filisteu e desonesto qb. Tenta explicar o que é a social-democracia citando Sá Carneiro e assimilando-o à doutrina social da Igreja. Ora isto faz tanto sentido quanto o de um Basílio Horta proclamar ( em 2 12 2012 à Visão ) que "um democrata-cristão só pode fazer política no PS".
Não dá conta de que a social-democracia teve origem na esquerda marxista e que em 1914 o partido socialista russo se chamava social-democrata, apostado já em superar o capitalismo por meio da revolução e violência.
Norberto Bobbio ensina bem tal coisa a quem colecciona papéis velhos e não os lê:
Toda a gente informada sabe que o PSD do início em que ainda era PPD se afirmava social-democrata sem complexos, distinguindo-se do PS por afastar o marxismo como matriz inspiradora, mas não só.
Sá Carneiro explicava tal ideário em várias entrevistas, designadamente nesta, ao Globo em 8.11.1974, resumindo claramente que " a linha que defendemos é a das sociais-democracias que surgiram nos fins dos anos 50 abandonando o marxismo e a sistemática apropriação colectiva dos meios de produção":
E para temperar o eventual fervor ideológico dos variados "ruis" de então, dizia também claramente que o PPD era um partido pragmático, acima de tudo. Século Ilustrado, 30 de Novembro de 1974:
Esta linha de pensamento não autoriza, como este dr.Pacheco agora faz a seguir o raciocínio de um mr. Rui, colocando o PPD/PSD ao lado da Esquerda unida, socialista, que agora existe.
Isso era visível na época e continuou pelas décadas fora. Um ano depois, em 18 de Outubro de 1975, após o Verão Quente e o PREC que continuava, Sá Carneiro escrevia no Expresso que a social-democracia era a única forma de socialismo em Portugal que via como possível. Não era o socialismo de então que o PS defendia nem muito menos o que a Esquerda dos mr. Ruis andava a proclamar.
Por causa disso, Álvaro Cunhal, já em 18.3.1977 sabia muito bem o que dizer para demarcar as águas políticas: a esquerda comunista nunca aceitou o PPD como social-democrata.
Na sequência dos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975 Sá Carneiro, ao contrário de Mário Soares, fora claro e conciso na intransigência para com o comunismo dos mr. ruis que pululavam ainda pelos PCP-ml e quejandos e que agora permitem o aparecimento de drs Pachecos. O Jornal de 5.12.1975:
Por essa altura ou dali a alguns meses o PPD, por causa da intransigência social-democrata de Sá Carneiro para com a esquerda rompante dos mr. ruis e seus compagnons de route, defrontava-se com "opções inadiáveis", como esta:
Sabe-se bem o que deu esta opção que não se adiou: um advogado de regime que encarna o espírito...social-democrata? De centro-esquerda? Enfim...
Mas não foi apenas este social-democrata de centro-esquerda que se incompatibilizou politicamente com a social-democracia de Sá Carneiro, naquela época, e que se notabilizou nestas opções. Havia um socialista de gema e clara que também se revelou nas décadas seguintes: Proença de Carvalho, aqui a evidenciar, décadas depois, os méritos de um banqueiro, Rendeiro de apelido que tinha então a gerência de um banco, o BPP, actualmente uma referência do ideário que conduziu o país à bancarrota em 2011 e se prepara novamente para conseguir tal feito, com estas políticas social-democratas que este dr. Pacheco agora defende, depois de defender o cavaquismo liberal em 1991.
Não obstante e para mostrar a desonestidade deste dr. Pacheco que assume muitas vezes a pele do antigo mr.Rui. aqui fica um apanhado de várias declarações de Sá Carneiro que mostra claramente como evoluiu o pensamento político, de 1973 a 1979 e por que o fez, não desvirtuando aquilo em que acreditava. Semanário de 3.12.1983.
Afinal quem é que este dr. Pacheco quer enganar? Papalvos? E porque continuam a dar-lhe credibilidade?
terça-feira, junho 07, 2016
A barragem milagrosa do Tua
Uma colecção de factos:
A barragem da foz do Tua começou a ser construída em 2011, depois de vicissitudes várias dos movimentos ecologistas e do BE que a tal se opunham. O projecto vinha já de 2006 ( tudo governo Sócrates).
No início da construção, a UNESCO identificou um conflito entre a existência da barragem e a classificação do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial mas, em 2012, considerou que o projecto era compatível, desde que uma série de requisitos fossem seguidos. Acontece que não foram, escreveu-se por aqui.
E que conflito existia entre o Estado Português e a UNESCO? No sítio da EDP, interessada no assunto, explicava-se em português quase macarrónico:
A missão de aconselhamento do ICOMOS de Abril de 2011 refere que Estudo de Impacto Ambiental ignorou o impacto da barragem sobre o valor Universal excepcional do Bem ADV. E considerou que o projecto teria um grande efeito sobre uma área alargada do Bem, resultando numa perda física permanente de parte da paisagem cultural. O Estado português informou, entretanto, que já desde os anos 50 se verifica extracção e utilização de água do rio Douro que em muito contribuíram para o valor cénico e patrimonial do Bem. O Estado também sublinha que o Bem é considerado como sendo uma paisagem cultural evolutiva, em que "Vida" e "Evolução" devem continuar a ser assegurados e que este projecto hidroeléctrico não tem impacto específico sobre as vinhas que é um dos atributos basilares do Bem.
Este conflito resolveu-se da seguinte maneira, de acordo com informação daquele sítio:
O Comité decidiu por unanimidade, e sob iniciativa da França, alterar a Proposta de Decisão que previa a recomendação, ao Estado português, da imediata suspensão das obras da barragem. O ritmo dos trabalhos, de acordo com a nova redacção da decisão do organismo internacional responsável pela classificação de Património da Humanidade, vai ajustar-se ao calendário da nova missão técnica, que visita a região do Douro já no dia 31 de Julho, tornando assim compatíveis as novas conclusões da UNESCO e o interesse nacional.
Tudo bem quando acaba bem? Bem...a ideia mágica ( enterrar o edifício da central eléctrica) , do arquitecto Souto Moura parece que convenceu a UNESCO...mas Os Verdes e o GEOTA acharam a decisão chocante. Os autarcas locais aplaudiram entusiasticamente. E o Alto Douro Vinhateiro lá continua Património da Humanidade, como é desde 2001..
E como é que isto sucedeu diplomaticamente? Os franceses, coisa e tal...mas parece que alguma coisa se fez na embaixada de Portugal nesse país.
A UNESCO em 2010 deixara de ter lá o embaixador Carrilho, corrido segundo ele por aquele Sócrates.
Em 2012 o Governo de então acabou com o cargo de embaixador privativo e adjudicou as funções ao embaixador em França. Na altura e até 2013 quando se reformou, era Seixas da Costa o contemplado e é o próprio que esclarece o seu papel inefável no desenrolar dos acontecimentos que deram luz à solução milagreira, lamentando de caminho a extinção do posto privilegiado que um Pacheco Pereira não aceitou:
A barragem da foz do Tua começou a ser construída em 2011, depois de vicissitudes várias dos movimentos ecologistas e do BE que a tal se opunham. O projecto vinha já de 2006 ( tudo governo Sócrates).
No início da construção, a UNESCO identificou um conflito entre a existência da barragem e a classificação do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial mas, em 2012, considerou que o projecto era compatível, desde que uma série de requisitos fossem seguidos. Acontece que não foram, escreveu-se por aqui.
E que conflito existia entre o Estado Português e a UNESCO? No sítio da EDP, interessada no assunto, explicava-se em português quase macarrónico:
A missão de aconselhamento do ICOMOS de Abril de 2011 refere que Estudo de Impacto Ambiental ignorou o impacto da barragem sobre o valor Universal excepcional do Bem ADV. E considerou que o projecto teria um grande efeito sobre uma área alargada do Bem, resultando numa perda física permanente de parte da paisagem cultural. O Estado português informou, entretanto, que já desde os anos 50 se verifica extracção e utilização de água do rio Douro que em muito contribuíram para o valor cénico e patrimonial do Bem. O Estado também sublinha que o Bem é considerado como sendo uma paisagem cultural evolutiva, em que "Vida" e "Evolução" devem continuar a ser assegurados e que este projecto hidroeléctrico não tem impacto específico sobre as vinhas que é um dos atributos basilares do Bem.
Este conflito resolveu-se da seguinte maneira, de acordo com informação daquele sítio:
O Comité decidiu por unanimidade, e sob iniciativa da França, alterar a Proposta de Decisão que previa a recomendação, ao Estado português, da imediata suspensão das obras da barragem. O ritmo dos trabalhos, de acordo com a nova redacção da decisão do organismo internacional responsável pela classificação de Património da Humanidade, vai ajustar-se ao calendário da nova missão técnica, que visita a região do Douro já no dia 31 de Julho, tornando assim compatíveis as novas conclusões da UNESCO e o interesse nacional.
Tudo bem quando acaba bem? Bem...a ideia mágica ( enterrar o edifício da central eléctrica) , do arquitecto Souto Moura parece que convenceu a UNESCO...mas Os Verdes e o GEOTA acharam a decisão chocante. Os autarcas locais aplaudiram entusiasticamente. E o Alto Douro Vinhateiro lá continua Património da Humanidade, como é desde 2001..
E como é que isto sucedeu diplomaticamente? Os franceses, coisa e tal...mas parece que alguma coisa se fez na embaixada de Portugal nesse país.
A UNESCO em 2010 deixara de ter lá o embaixador Carrilho, corrido segundo ele por aquele Sócrates.
Em 2012 o Governo de então acabou com o cargo de embaixador privativo e adjudicou as funções ao embaixador em França. Na altura e até 2013 quando se reformou, era Seixas da Costa o contemplado e é o próprio que esclarece o seu papel inefável no desenrolar dos acontecimentos que deram luz à solução milagreira, lamentando de caminho a extinção do posto privilegiado que um Pacheco Pereira não aceitou:
Em 2012, o Governo decidiu que a nossa
missão junto da UNESCO deixaria de ter um embaixador dedicado
exclusivamente à organização, como sempre aconteceu, e que o lugar
passaria a ser exercido, cumulativamente, pelo embaixador em França.
Várias
vozes se ouviram contra esta decisão, demonstrando a insensatez da
mesma, num tempo em que o país comemorava ainda a elevação do fado a
"património imaterial" da UNESCO, quando aí levávamos a cabo uma
delicada negociação para a compatibilização da construção da Barragem de
Foz Tua com o estatuto do Alto Douro Vinhateiro como "património
material", além de outros dossiês complexos.
Seixas da Costa ainda se referia ao facto de o ministro dos Negócios Estrangeiros que extinguiu o posto ( Paulo Portas) ser ainda membro do governo, na posição de vice-primeiro ministro quando em Junho de 2015 se decidiu repristinar o lugar de embaixador na tal UNESCO.
Que destino tiveram estes personagens exelentíssimos do nosso panorama político, sabendo que a barragem do TUA é obra de vulto em que avulta uma Mota-Engil?
Seixas da Costa é consultor "estratégico" da firma desde que se reformou em Março de 2013 e agora até parece que tem mais tempo porque acumula cargos na Fundação Gulbenkian, Jerónimo Martins e agora na EDP-Renováveis. Escreve por aí, tem um blog, vai à Universidade de Coimbra fazer uma perninha quase aos setenta anos. Valente!
P.Portas é agora administrador da mesmíssima Mota-Engil.
Como dizia o outro cómico: "fantástico, Mike!"
O que diria disto Salazar se fosse vivo? Ou Marcello Caetano?
ADITAMENTO:
Se isto for verdade, aceito o argumento e retracto-me das observações feitas a propósito da pouca-vergonha.
Seixas da Costa ainda se referia ao facto de o ministro dos Negócios Estrangeiros que extinguiu o posto ( Paulo Portas) ser ainda membro do governo, na posição de vice-primeiro ministro quando em Junho de 2015 se decidiu repristinar o lugar de embaixador na tal UNESCO.
Que destino tiveram estes personagens exelentíssimos do nosso panorama político, sabendo que a barragem do TUA é obra de vulto em que avulta uma Mota-Engil?
Seixas da Costa é consultor "estratégico" da firma desde que se reformou em Março de 2013 e agora até parece que tem mais tempo porque acumula cargos na Fundação Gulbenkian, Jerónimo Martins e agora na EDP-Renováveis. Escreve por aí, tem um blog, vai à Universidade de Coimbra fazer uma perninha quase aos setenta anos. Valente!
P.Portas é agora administrador da mesmíssima Mota-Engil.
Como dizia o outro cómico: "fantástico, Mike!"
O que diria disto Salazar se fosse vivo? Ou Marcello Caetano?
ADITAMENTO:
Se isto for verdade, aceito o argumento e retracto-me das observações feitas a propósito da pouca-vergonha.
segunda-feira, junho 06, 2016
Sacaduras na Mota-Engil: para sacar?
Os primos Sacaduras estão agora de malas feitas e mãos dadas na Mota-Engil, a empresa portuguesa que o regime tem acalentado de há décadas a esta parte. É uma pouca-vergonha? É, claro que é, mas para o caso tanto faz. Paulo Portas perdeu a inocência há muitos anos. Praticamente desde que entrou no Independente.
Um amigo dele, MEC de sobriquet, já disse há uns tempos que "o Paulo ainda há-de mandar nesta merda". Terá razão, literal, se assim for...
Económico:
O antigo líder do CDS e antigo vice-primeiro ministro Paulo Portas está a caminho da Mota-Engil, confirmou o 'Económico'.
Paulo Portas vai assumir um cargo no conselho estratégico da empresa, liderado pelo seu presidente, António Mota, e que integra já um outro ex-político, o socialista Jorge Coelho.
Um amigo dele, MEC de sobriquet, já disse há uns tempos que "o Paulo ainda há-de mandar nesta merda". Terá razão, literal, se assim for...
Económico:
O antigo líder do CDS e antigo vice-primeiro ministro Paulo Portas está a caminho da Mota-Engil, confirmou o 'Económico'.
Paulo Portas vai assumir um cargo no conselho estratégico da empresa, liderado pelo seu presidente, António Mota, e que integra já um outro ex-político, o socialista Jorge Coelho.
domingo, junho 05, 2016
Os ventos musicais da História
Em Janeiro de 1967 a revista Século Ilustrado publicou estas cinco páginas dedicadas a um programa de rádio que então já tinha dois anos de existência no Rádio Clube Português: Em Órbita, apresentado por Cândido Mota e organizado por estudantes universitários, com destaque para Jorge Gil.
Obviamente qualquer um deles já tinha ouvido falar em Cassius Clay e na entrevista, João Alexandre, outro membro da equipa fala na música de expressão anglo-saxónica e do público a quem se dirige, tendo a noção de que a sociedade inglesa ou americana era diferente da nossa. " Os fenómenos Dylan na América e Beatles em Inglaterra vêm exactamente integrar-se nessa perspectiva ( "pensar a cultura em termos de massas, não de grupos"). É que para além de serem indivíduos com ideias são indivíduos cujo inconformismo, cuja novidade são ataques frontais às sociedades de que são simultaneamente consequência e causa".
Dali a pouco mais de um ano aconteceu o Maio de 1968 em Paris e Portugal não estava fechado a esses acontecimentos mundiais que mudaram o curso da História, apesar de alguns antifassistas de agora afirmarem que sim. Ventos...que não sopravam no Leste da Europa para onde alguns queriam ir nesse tempo e conduzir o país também. Cândido Mota seria comunista ou compagnon de route e os membros do Em Órbita eram "progressistas" evidentemente que outro destino não poderiam ter.
Esquerda über alles...que iria condicionar o destino do país durante décadas, precisamente as que decorrem dos últimos 40 anos.
Obviamente qualquer um deles já tinha ouvido falar em Cassius Clay e na entrevista, João Alexandre, outro membro da equipa fala na música de expressão anglo-saxónica e do público a quem se dirige, tendo a noção de que a sociedade inglesa ou americana era diferente da nossa. " Os fenómenos Dylan na América e Beatles em Inglaterra vêm exactamente integrar-se nessa perspectiva ( "pensar a cultura em termos de massas, não de grupos"). É que para além de serem indivíduos com ideias são indivíduos cujo inconformismo, cuja novidade são ataques frontais às sociedades de que são simultaneamente consequência e causa".
Dali a pouco mais de um ano aconteceu o Maio de 1968 em Paris e Portugal não estava fechado a esses acontecimentos mundiais que mudaram o curso da História, apesar de alguns antifassistas de agora afirmarem que sim. Ventos...que não sopravam no Leste da Europa para onde alguns queriam ir nesse tempo e conduzir o país também. Cândido Mota seria comunista ou compagnon de route e os membros do Em Órbita eram "progressistas" evidentemente que outro destino não poderiam ter.
Esquerda über alles...que iria condicionar o destino do país durante décadas, precisamente as que decorrem dos últimos 40 anos.
Um ídolo com pés de barro, Ali, no Público
O jornal Público de hoje deu a capa toda a um pugilista americano que faleceu agora e foi campeão do mundo da modalidade há mais de 50 anos, voltando a sê-lo alguns anos depois. Dizia-se "o maior" sendo essa uma retórica de marca que nem um Ibrahimovic dos tempos modernos consegue imitar.
Porém, a capa não aparece por causa desse feito antigo, mas em virtude de outros feitos, fora do ringue, porque o Público é assim mesmo: o simbólico é capa permanente de notícias ideologicamente enviesadas. A explicação para a capa reside no artigo acima publicado sob a epígrafe Ali tinha a Marcha de Washington nos dois punhos". É essa a razão da capa e do artigo de cinco páginas. Quanto à grafia "Muhammad" é o habitual parolismo nacional de publicar os nomes foneticamente originais, presumindo que o inglês é a língua franca do mundo inteiro.
O pugilista em causa chamava-se por nascimento Cassius Clay e assim foi conhecido pelo menos até meados da década de sessenta do século passado, há 50 anos, quando ainda era treinado por um branco de origem italiana, Angelo Dundee.
Depois de vencer o título mudou o nome para Moamed Ali e assim ficou, ligando-se à seita dos Muçulmanos Negros, tornando-se islamita por opção.
Em 1967 ou por aí, quando já tinha sido campeão de boxe, categoria de pesados, e decidira objectar problemas de consciência para não ir para a tropa, no Vietnam, Cassius Clay-Moamed Ali foi destituído dos títulos e arriscou pena de prisão prolongada, conseguindo safar-se em 1971, por decisão judicial do Supremo americano, altura em que fez um regresso triunfal aos ringues, com o "combate do século" que aliás perdeu, com Joe Frazier.
É deste "combate do século" que ainda me lembro bem e do ruído mediático que então provocou, muito por causa das tiradas retóricas do boxeur.
No entanto, tudo isto aconteceu há mais de 45 anos e não me ocorre nada de especial para perceber o actual ruído mediático à volta deste ídolo com pés de barro que sendo americano, jogava boxe e nada mais.
A não ser a tal pertença à irmandade islâmica, a recusa em cumprir serviço militar e a defesa dos direitos civis dos negros norte-americanos, o que fez nessa altura, sendo semi-analfabeto, mas sabendo bem de que lado soprava o vento da História.
Em Abril de 1967, a jornalista italiana Oriana Fallaci, uma entrevistadora de grande gabarito, foi a Miami ver e ouvir Cassius-Moamed e a revista Século Ilustrado de 8.4.1967 publicou a entrevista que mostra bem como era e como pensava O Maior, nessa altura, a propósito e certos assuntos, como o racismo, as mulheres, etc etc.
Lendo o que o Público escreve agora sobre a razão da mudança de nome de Cassius para Moamed, fica uma dúvida: o jornal diz que o nome original de Clay provinha de um político americano "defensor da emancipação dos negros no séc. XIX" .
Na entrevista, Clay-Moamed explica que afinal mudara de nome porque o que tinha era de escravo, Cassius Marcellus Clay era um branco que dava o seu nome aos seus escravos. E por isso mudou, para ter o nome de um deus...
Quanto às mulheres ( "as mulheres perderam a moral") ou a sua particular concepção de futuro de vida, a sua instrução ( próxima do analfabetismo voluntário) , o seu patriotismo ( "talvez chegue a presidente de qualquer Estado africano porque eu nada tenho a ver com a América nem com os americanos, eu sou muçulmano", apesar de algumas linhas antes dizer que dali a uns anos seria rico e teria avião, casas em vários sítios, limusines etc etc, tudo na América) é ler a entrevista e depois ajuizar como é que os jornalistas de agora conseguem escrever o que escrevem sem se questionarem acerca da realidade das coisas e das pessoas reais que transformam em mitos por causa de símbolos e ideologia avulsa. Virá tudo da Wikipedia? Não, não virá, mas é assim que este sistema triste funciona. É tudo espectáculo ideológico e de esquerda, sempre. Gramsci vence.
Em Outubro de 1975 a revista americana Rolling Stone que já lhe tinha dado um destaque em Março de 1971 por ocasião do tal "combate do século" deu-lhe outra primeira página por causa da sua biografia ( escrita por um "nègre" uma vez que Cassius-Moamed quase nem sabia escrever)...
Em 26 de Dexembro de 1969, outra revista americana de grande difusão, a Life, publicou um número especial acerca do fim dos sessenta. No miolo dos artigos nem uma única menção a Cassius-Moamed, então em quarentena por causa da recusa de cumprimento do serviço militar. Na capa aparecia, porém, a sua imagem...
sábado, junho 04, 2016
Seria melhor explicar primeiro o que é a social-democracia..
Pacheco Pereira no congresso do PS (via Observador):
O convidado especial do PS, que tem participado em eventos como foi o encontro das esquerdas na Aula Magna, ainda referiu que é costume dirigentes do PS participarem em eventos do PSD, como a Universidade de Verão, e elencou casos como António Guterres, António Vitorino ou Luís Amado. Pacheco Pereira ainda afirmou que “a actual direção do PSD não é social-democrata”.
Este Pacheco Pereira em 1991 era social-democrata quando estava na bancada da frente do PSD de Cavaco Silva e dizia maravilhas do indivíduo?
Que credibilidade tem este tipo, a não ser a de andar há anos num programa de tv a fazer o jogo político da esquerda socialista denotando nostalgia de um passado distante?
Entretanto, Vasco Pulido Valente fala, além do mais, sobre o presidente da República, no Expresso de hoje:
E José Rodrigues dos Santos insiste na ideia de o marxismo ser o progenitor político do fascismo e dá bofetada de luva branca ao malomil:
O convidado especial do PS, que tem participado em eventos como foi o encontro das esquerdas na Aula Magna, ainda referiu que é costume dirigentes do PS participarem em eventos do PSD, como a Universidade de Verão, e elencou casos como António Guterres, António Vitorino ou Luís Amado. Pacheco Pereira ainda afirmou que “a actual direção do PSD não é social-democrata”.
Este Pacheco Pereira em 1991 era social-democrata quando estava na bancada da frente do PSD de Cavaco Silva e dizia maravilhas do indivíduo?
Que credibilidade tem este tipo, a não ser a de andar há anos num programa de tv a fazer o jogo político da esquerda socialista denotando nostalgia de um passado distante?
Entretanto, Vasco Pulido Valente fala, além do mais, sobre o presidente da República, no Expresso de hoje:
E José Rodrigues dos Santos insiste na ideia de o marxismo ser o progenitor político do fascismo e dá bofetada de luva branca ao malomil:
quinta-feira, junho 02, 2016
O pragmatismo míope de MRS
Observador:
Em entrevista ao Die Welt, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que não há muitas diferenças entre o programa da maioria PSD/CDS e o actual Governo do PS. "A realidade é o que é", rematou.
Já em 1974, logo a seguir ao golpe de 25 de Abril o mesmo Marcelo Rebelo de Sousa, como jornalista do Expresso não conseguia distinguir diferenças entre o que o PCP fazia e o que deveria ser uma democracia.
O que então escrevia nesse jornal prova-o.
Em entrevista ao Die Welt, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que não há muitas diferenças entre o programa da maioria PSD/CDS e o actual Governo do PS. "A realidade é o que é", rematou.
Já em 1974, logo a seguir ao golpe de 25 de Abril o mesmo Marcelo Rebelo de Sousa, como jornalista do Expresso não conseguia distinguir diferenças entre o que o PCP fazia e o que deveria ser uma democracia.
O que então escrevia nesse jornal prova-o.
quarta-feira, junho 01, 2016
O controlo dos media...não é segredo.
Observador:
O presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público alertou esta quarta-feira que alguns media “são controlados por alguns arguidos poderosos” que tentam através desses meios deslegitimar a actuação do Ministério Público na opinião pública ou condicionar a sua intervenção.
António Ventinhas falava na abertura da 2.º Forum Global de Associações de Procuradores, que junta em Lisboa representantes de 24 países.
O presidente do SMMP não pode dizer mais que isto porque se o fizesse caiam-lhe em cima imediatamente, o Delille ou o Araújo ou ambos e mais alguns, mas é possível descodificar a mensagem tendo em atenção factos públicos e notórios:
Quem é que controla o Diário de Notícias? Proença de Carvalho é desde há uns tempos administrador do grupo Controlinveste e que desde Dezembro de 2014 se chama Global Media Group ( é mais fino em inglês parolo) que detém vários títulos ( Diário de Notícias", "Jornal de Notícias", "O Jogo" e "Dinheiro Vivo", além da rádio TSF.). Os donos principais são Oliveira, Mosquito e Montês ( o genro de Cavaco Silva, exactamente).
O Jornal de Notícias viu ser-lhe nomeado como director um tal Camões que terá sido indicado para o lugar por um arguido bem conhecido, a fazer fé em escutas publicadas.
Em 2014 foi nomeado um certo André Macedo como director do DN. No discurso de "posse" estava lá o patrão, com mãozinha pensativa.
Proença de Carvalho é advogado de alguns arguidos mediaticamente conhecidos e nem é preciso dizer nomes...
Portanto, se Portugal fosse uma democracia a sério em vez do estado de sítio que por vezes parece, este assunto seria debatido publicamente. Mas assim não é.
ADITAMENTO:
Estes desgraçadinhos da Renascença, coitados, não sabem nada disto e ficam espantadinhos, coitados, que o magistrado não indique nomes. Os desgraçadinhos precisam de nomes porque não sabem quem são os nomes...
O presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público alertou esta quarta-feira que alguns media “são controlados por alguns arguidos poderosos” que tentam através desses meios deslegitimar a actuação do Ministério Público na opinião pública ou condicionar a sua intervenção.
António Ventinhas falava na abertura da 2.º Forum Global de Associações de Procuradores, que junta em Lisboa representantes de 24 países.
O presidente do SMMP não pode dizer mais que isto porque se o fizesse caiam-lhe em cima imediatamente, o Delille ou o Araújo ou ambos e mais alguns, mas é possível descodificar a mensagem tendo em atenção factos públicos e notórios:
Quem é que controla o Diário de Notícias? Proença de Carvalho é desde há uns tempos administrador do grupo Controlinveste e que desde Dezembro de 2014 se chama Global Media Group ( é mais fino em inglês parolo) que detém vários títulos ( Diário de Notícias", "Jornal de Notícias", "O Jogo" e "Dinheiro Vivo", além da rádio TSF.). Os donos principais são Oliveira, Mosquito e Montês ( o genro de Cavaco Silva, exactamente).
O Jornal de Notícias viu ser-lhe nomeado como director um tal Camões que terá sido indicado para o lugar por um arguido bem conhecido, a fazer fé em escutas publicadas.
Em 2014 foi nomeado um certo André Macedo como director do DN. No discurso de "posse" estava lá o patrão, com mãozinha pensativa.
Proença de Carvalho é advogado de alguns arguidos mediaticamente conhecidos e nem é preciso dizer nomes...
Portanto, se Portugal fosse uma democracia a sério em vez do estado de sítio que por vezes parece, este assunto seria debatido publicamente. Mas assim não é.
ADITAMENTO:
Estes desgraçadinhos da Renascença, coitados, não sabem nada disto e ficam espantadinhos, coitados, que o magistrado não indique nomes. Os desgraçadinhos precisam de nomes porque não sabem quem são os nomes...
A dificuldade em julgar o fassismo
Em 28 de Junho de 2013 escrevi um postal sobre o julgamento dos fassistas que não se conseguiu fazer por causa das contradições democráticas.
Vem isto agora a propósito do estudo mencionado em baixo acerca da alta percentagem de "vítimas do fassismo" que ainda se julgam injustiçados.
Fica aqui o postal de então com algumas alterações e acrescentos:
Um dos problemas surgidos com o levantamento militar em 25 de Abril de 1974 e que depôs o regime de Marcello Caetano foi o que fazer com os seus representantes. Caetano foi para o Brasil, depois de passar pela Madeira. Tomás idem. Outros foram presos logo no dia 26 de Abril de 74 como César Moreira Baptista ou o comandante Tenreiro, o temível manda chuva do bacalhau que teve tanto poder que não ficou com um tostão no bolso para si próprio, que não fosse devido. Enfim, houve outros "fascistas" que acabaram presos no dia 28 ou 29 de Setembro de 1974, na sequência do "golpe" da "maioria silenciosa", oportunamente denunciada pelos antifascistas e comunistas em geral e que obrigou Spínola a fugir.
O programa do MFA não aludia a nada que se assemelhasse a qualquer caça a bruxas fassistas ou quejandas, mesmo da PIDE/DGS, desmantelada na hora. Nada. Não obstante as prisões dos "facínoras" do fassismo, pides que foram para a grelha em dois tempos e sem qualquer imputação de culpas concretas a não ser essa, sucederam-se logo no dia 25 de Abril. Às dezenas, na "grelha" e sem culpas concretas de imputação de qualquer crime a não ser o de pertenceram à famigerada polícia política.
Porém, nas semanas seguintes, com o aparecimento do PCP e outras forças "democráticas", "sempre, sempre ao lado do MFA", tornou-se objectivo do primeiro governo provisório reorganizar o Estado. Só em 7 de Junho de 1974 foi criada uma "comissão" que só foi extinta em...1991:
O Serviço de Coordenação da Extinção da PIDE/DGS e LP, criado a 7 de Junho de 1974, na dependência directa da Junta de Salvação Nacional, era uma entidade essencialmente de justiça, encarregado de instruir os processos crime pelos quais os responsáveis, funcionários e colaboradores das extintas PIDE/DGS e LP eram apresentados a Tribunal Militar para julgamento.
A incriminação dos agentes e informadores da PIDE/DGS e LP, o levantamento das redes de informadores, as ligações e o envolvimento daquelas organizações com acontecimentos de interesse ou repercussão nacional, a colaboração nos processos de reclassificação, saneamento e reintegração eram atribuições e competências deste serviço. Para efeitos de contagem de .tempo de serviço ou de reabilitação, este serviço devia facultar as declarações e os certificados que lhe fossem solicitados, quer por parte dos antigos funcionários e agentes da ex-PIDE/DGS e LP, quer pelos indivíduos perseguidos pela PIDE/DGS.
O Serviço de Coordenação da Extinção da PIDE/DGS e LP, era composto pela Presidência, por um Gabinete de Instrução de, Processos e por um consultor jurídico. Da Presidência dependiam a Repartição de Apoio e Serviços, a Repartição Judicial, a Repartição de Análise e Investigação Documental, a Delegação de Coimbra e a Delegação do Porto.
Esta imagem do Século Ilustrado de 1974 mostra o aparato bélico na prisao de um PIDE/DGS no dia 25 de Abril de 1974. O desgraçado tem mesmo cara de réu... e por isso precisou de meia dúzia de G-3 apontadas e empunhadas por tantos magalas, mais alguns vigilantes em riste, não fosse o perigoso fascista da PIDE fugir dali.
Não obstante, em 19 de Maio de 1974 o Expresso mostrava com erros ortográficos que o país carecia da "irradicação definitiva do fascismo", uma nova expressão nascida por aqueles dias, talvez na primeira semana daquele mês e que pegou de estaca junto de todas as personalidades públicas que prestaram juramento no primeiro governo provisório presidido por um mação de gema, Palma Carlos.
Em 13 de Julho de 1974, o Século Ilustrado mostrava pela primeira vez imagens dos perigosos fascistas encarcerados por malfeitorias ao povo português. Tenreiro era um deles. Moreira Baptista e Silva Cunha outros.
Em 28 de Setembro de 1974, nova leva democrática de fascistas. Desta vez, "numerosos" que foi para aprenderem com a democracia.Moreira Baptista que tinha sido preso da primeira vez e fora solto entretanto, voltou para a grelha. E Silva Cunha também.
Evidentemente que se criou logo um problema não previsto pelo antifassismo militante: os "numerosos fascistas" que crime tinham cometido? O Diário de Lisboa tinha um código penal particular, usado pelo director Ruella Ramos e que definia o crime como "envolvimento na tenebrosa conspiração que pretendia roubar a liberdade ao povo português". Tal e qual e chegava-lhe muito bem porque não precisava de outro.
Ora o jornal Expresso, em 19 de Maio de 1974 tinha apresentado um esquisso sobre a nova legalidade vigente, relativamente aos elementos da PIDE/DGS: tortura, "todo o castigo cruel, desumano ou degradante dos presos". Portanto à PIDE/DGS imputar-se-ia tal crime se fosse possível enquadrá-lo em provas e haveria certamente algumas relativamente a alguns agentes e inspectores, como Sachetti ou outros próceres da política política do antigo regime. Mas...e os outros que não tinham torturado ou mandado torturar e que foram simplesmente chefes, presidentes, responsáveis politicos? Seria possível, legalmente, incriminá-los nos mesmos termos?
E ainda subsistia outro problema de base, teórico é certo, mas pedra de sapato insuportável numa democracia: nullum crimen sine lege. Não poderia haver incriminações de ninguém sem que houvesse previamente lei a suportá-la. E não havia. O que havia era o Código Penal fassista, vindo de 1886 e não se estava a ver o regime democrático a usar o argumento da actividade subversiva usado pelas leis "fassistas" ( entretanto revogadas) para incriminar os novos presos políticos...
Este dilema só provocava coceira de cabeça aos "socialistas democráticos", porque aos comunistas o assunto tinha sido resolvido em dois tempos e à maneira soviética e sem grandes sobressaltos cívicos e de consciência.
E de resto, aos novos antifassistas não interessava por aí além condenar um Sachetti com provas irrefutáveis e deixar à solta uma miríade de outros "pides" que passaram pela grelha mas não se chamuscaram. O que lhes interessava mesmo era condenar criminalmente um regime e meter na grelha, durante anos, os seus representantes directos e disso não faziam segredo pelo que a frustração em não o fazerem logo, como queria o director do Diário de Lisboa e outros, era grande e dolorosa.
Portanto, como diria Lenine- que fazer?
Uma lei, ora. E assim nasceu a Lei 8 / 75 de 25 de Julho, em pleno PREC. Legalizar era o caminho, mesmo retroactivo, mascarando-o com outras leis "universais" dos direitos humanos que legitimariam a aplicação para o passado de factos com importância no futuro, como se fizera na Segunda Guerra mundial com os facínoras nazis. Os fassistas portugueses mereciam tratamento idêntico, claro está, porque o crime era imprescritível e atentatório da Humanidade em geral.
Portanto, para harmonizar legalmente tudo, já havia a Convenção de Genebra ( para crimes de guerra); a Declaração Universal dos Direitos do Homem ( para tudo e mais alguma coisa); a Convenção internacional sobre direitos cívicos e políticos ( para se aplicar a factos passados mas não ao então presente...) e a Convenção sobre o Genocídio ( é mesmo...) e ainda a Convenção Europeia os direitos do Homem. Parece que havia convenções não ratificadas por Portugal mas que era isso para um caso destes, de julgar o "fassismo"?
Para se resolver o problema teórico, em primeiro lugar era preciso saber o que era isso de "fascismo", ou como diria Domingos Abrantes, o "fassismo" que para o indivíduo de dentes raros era coisa mais clara que o futuro radioso dos amanhãs a cantar.
O República de 13 de Janeiro de 1975 dava uma ajudinha para se perceber o que seria o tal de fassismo...à falta de melhor caberia lá tudo o que fosse "reaccionário" e estava a definição dada.
É certo que estes conceitos não eram suficientes para algumas almas complicadas que gostam de estragar tudo, como por exemplo um advogado como Joaquim Pires de Lima, conhecedor profundo do processo do "Ballet rose" e que escrevia no Expresso de 15 de Fevereiro de 1975 algo que qualquer jurista sabia de cor: "se em 25 de Abril não houve uma revolução, mas um golpe de poder, só será possível sancionar pessoas ligadas ao regime anterior através da lei antiga". E mais: " após a revolução do 25 de Abril e a libertação nacional do regime fascista, ou se destruíam os inimigos da revolução ou não é admissível sancioná-los com leis criadas e mantidas naquele regime". Um dilema, portanto.
Quase todos os que mandavam no poder político-militar, com excepção dos comunistas e socialistas, estiveram mancomunados com o tal "fassismo", a começar pelo próprio presidente da República. E como resolver o dilema?
Fazendo uma lei à medida e arranjando justificação plausível para a sua aplicação retroactiva com base naquelas convenções gerais e abstractas que tinham aplicação directa nesses casos mas não nos entretanto criados com a prisão dos tais "numerosos fascistas".
Havia um problema com os famigerados "pides":
A criação de legislação ex novo, para lidar com o problema que não existia e que em 15 de Fevereiro de 1975 o Expresso apresentava assim:
Em Janeiro de 1976 havia já a certeza de que não só "os pides" mas até os "responsáveis pelo fascismo" seriam julgados...
O Jornal de 25 de Junho de 1976 dava o panorama dos julgamentos que poderiam realizar-se ( e que acabaram por não se fazer):
Porém, como o julgamento demorava foram colocados em liberdade provisória, o que suscitou grande escândalo entre os antifassistas porque até o pior facínora entre todos, o Sachetti, fora libertado:
Claro que este tipo de leis atamancadas e materialmente inconstitucionais para todos menos para os que afeiçoam o direito às conveniências políticas, tinha que dar nisto, tratado no O Jornal de 23 1 de 1976: um dos "numerosos fascistas" presos na sequência do 28 de Setembro e que estivera preso sem conhecer auto de culpa alguma, Kaulza de Arriaga acabou solto e até prometia concorrer à presidência da República. Ultraje! gritaram os comunistas.
E houve inquérito para saber como tal foi possível...tal como se conta em 13 de Agosto de 1976:
E surgiu um problema no julgamento. Em Outubro de 1976 O Jornal dava conta: havia a declaração de eventual inconstitucionalidade da lei feita à medida e tal carecia de estudo de tribunal superior:
Tal suscitou dúvidas entre os que não se reviam como antifassistas declarados, como era o caso do jurista Júlio Castro Caldas que escrevia assim no O Jornal de 15.10.1976:
Ainda assim, o grande advogado tonitruante, algoz de homosexuais parlamentares, Carlos Candal de seu perfil, já falecido mas que deixou descendência no hemiciclo, escrevia a sua solução miraculosa no O Jornal de 22 de Outubro de 1976: tábua rasa dos princípios jurídicos mais elementares do direito penal, envoltos no fumo do charuto ocasional:
Infelizmente para os antifassistas, o primeiro julgamento dos tais PIDES na grelha correra mal porque o réu foi absolvido, por uma razão simples e que já deveria ser previsível: a lei 8/75 de 25 de Julho foi declarada inconstitucional por um tribunal. Assim, sem mais.
Tanto bastou para se levantar um coro de protestos de antifassistas encartados nas leis penais e constitucionais ( não encontrei a posição de Vital Moreira mas devia ser conforme...)
E quanto ao juiz que considerou inconstitucional a lei? Atacado logo no O Jornal, com nome posto. Assim:
O Jornal de 26 de Novembro de 1976 mostrava o que era o problema em julgar "pides"...mesmo um dos que estava acusado de crime comum...
Tudo isto acabou por dar em...nada jurídico, para grande desgosto do Candal que não desarmou de "irradicar" o fascismo. E para tal, como para grandes males só grandes remédios, o Candal , passados dois anos de opróbrio jurídico, teve uma ideia luminosíssima como só de um fumador de cachimbo poderia sair:
Porém, já em Abril de 1976 um compagnon de route do comunismo, o director de O Jornal, escrevia assim o que viria a seguir, embora a propósito de outros visados: a amnistia...
E foi assim que nenhum PIDE/DGS foi jamais condenado e os "fassistas" se livraram das garras da grelha e alguns até se inscreveram depois no PS...por inépcia do regime e por incapacidade em provar os crimes que imputaram àqueles. Para resolver o imbroglio que criaram inventaram outra ideia luminosa do tipo daqueloutra: amnistias em catadupa.
Enquanto durou o folclore houve foguetes no ar.
Mas...eu disse que nenhum "pide" foi condenado? Ora vejamos O Jornal de 23 de Dezembro de 1976:
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