domingo, junho 19, 2016

A grande farra

Em 2006, a Festa de José Sócrates e sus muchachos de partidos políticos  aparentemente adversos estava organizada.
Porém, havia já uns contratempos, vindos do ano anterior e que tinham sido retomados pelos "pistoleiros do costume" que faziam "campanhas negras" como dizia uma tal Lourenço, na SIC-Notícias, algum tempo depois.

Estes contratempos deram em nada mas serviram para distrair a populaça durante a Festa. Em Janeiro de 2009 a Visão dava uma mostra geral do problema que por cá não se resolveu a favor da verdade. A PGR exercia "todos os seus poderes" e um deles foi instaurar um processo disciplinar a quem ousou desafiar o poder oculto que ainda nem tinha mostrado a verdadeira Face...porque só em finais desse ano, após a "vitória extraordinária" se soube que havia umas escutas em que se falava abertamente em tomar conta de órgãos de informação, num verdadeiro " atentado ao Estado de Direito" que foi devidamente abafado.


Como é que foi possível abafar tal escândalo? Simples e eficaz, como aqui se explica, logo em 2006 que estas coisas preparam-se com tempo e saber: em 11.9.2006 o Correio da Manhã anunciava um dos elementos do "pacto para a justiça", selado entre estes dois indivíduos notórios e que ainda o continuam a ser e que era o de atribuir ao presidente do STJ a incumbência de autorizar ou validar as escutas telefónicas a indivíduos como o que figura à esquerda. 


O penalista Rui Pereira sabe muito bem como isto foi e era notícia nesse tempo porque quem mandava nisso também era notícia:


Rui Pereira ajudou assim à festa prestando a sua caução de respeitabilidade jurídico-penal que permitiu o aparecimento de malabaristas e trapezistas de grande gabarito e provas dadas, algumas na clandestinidade oculta das faces de sempre, como se mostra na Visão de 31.5.2007:



Olhando bem estas personagens festivas é capaz de se perceber melhor o que sucedeu nestes dez anos...e porque é que o sistema bancários está como está, num lodaçal que  aqueles personagens do circo mediático não querem que se saiba publicamente, recusando um inquérito parlamentar à CGD. A Visão é a mesma...


Alguns desses saltimbancos desapareceram da cena pública, SIC de todo, como se percebe deste relato de movimentações mediáticas:

 

De repente, estes teixeirinhas e estas lourenços deixaram de convidar certas pessoas para as suas magníficas charlas televisivas entrecortadas de fuck yous simbólicos contra os salários milionários de um desgraçadinho Jardim que não viu  que a festa já tinha chegado à Madeira...



Esta gentinha sabia o que se passava na Festa? Então não sabia?!

Em 2007, depois de um blogger quase anónimo, António Caldeira de seu nome, andar a pregar no deserto mediático durante quase dois anos, descobriram que o festeiro-mor era um aldrabão. Ainda não sabiam, coitados...


Logo a seguir descobriram que havia outras aldrabices mais graves e que tinham começado anos e anos antes, o que deveria ter sido um sinal de alarme de grande perigo democrático. O partido da Festa não quis saber e os demais fizeram de conta que não sabiam. Um grande governante, diziam. Dos melhores, asseguraram...

 
O outro que andava sempre a gritar "é lobo! É lobo!" foi despachado para uma sinecura a ganhar a reforma dourada e calou-se estrategicamente. Ninguém mais quis saber seriamente de acudir verdadeiramente à democracia e a legislação adequada ficou no tinteiro das impressoras.



 O festeiro-mor continuava em grande...no início de 2007 e durante 2008. E sabe-se agora porquê: os idiotas úteis de sempre guardavam-lhe as costas como ninguém. Viram depois como Roma pagou a quem se sabe...


 O que é que então se passava nos bastidores, com os mordomos do costume? O que sucede nos romances policiais: mistério e tragédia: PT, CGD, bancos, órgãos de informação, EDP e tutti quanti que ainda se haverá de saber porque não fica por aqui, tragicamente para este nosso pobre país que pelos vistos merece quem tem a mandar, mesmo agora.
A leitura desta entrevista de um desses mordomos dá conta, nas entrelinhas,  de quase tudo o que se passou nessa face oculta da nossa democracia:




 Este antigo empregado de balcão da Caixa em Trás-os-Montes trouxe a sabedoria do sítio e tirou um curso superior à pressão, foi administrador ainda mais pressionado e tirou a limpo vários empréstimos para pessoas de "confiança". Agora, anda como uma fiança penal à ilharga e uma espada de dâmocles que lhe vai cair na cabeça, com cinco anos de reclusão previsível, para matutar no que fez depois do buzinão na ponte, quando ainda andava de carro a cair aos bocados.


E no entanto apesar disto tudo e que todos esses personagens sabiam de ginjeira, conheciam e estavam fartinhos de ouvir contar, o que era então o grande problema nacional, o grande "caso de polícia"?

Este drama de um homen-só:


E no entanto houve quem avisasse que "isto não ia ficar por aqui"...

E não ficou mesmo...




Este que aí segue é inclassificável. Não se descortina bem que papel desempenhou na farra...seria de bufão?


Lá que bufou, bufou...mas pouco.



E suou que se fartou. Mas continua com os bolsos cheios e impune, totalmente.




A grande farra não acabou aqui...e por isso continua a narrativa.

sexta-feira, junho 17, 2016

Há dez anos, começava a "festa"...

Tudo começou numa "dança de cadeiras"...como contava o jornal O Diabo em Janeiro de 2006:


Evidentemente,  havia quem soubesse muito bem que festa estava para começar...


E para prevenir estragos de maior, houve até uma "Unidade de Missão" encabeçada pelos ingénuos do costume, como Rui Pereira que agora comenta os resultados da festa, na CMTV.


Havia quem avisasse contra o que aí vinha...Público 10 de Abril de 2006:


 Entretanto a festa alargou-se a uns tantos...que agora são muito falados, dez anos depois...como relata o extinto 24H de um inenarrável jornalista Tadeu, em 28.9.2006:


E houve quem preparasse o caminho para não se estragar a "festa"...como era o caso deste desconhecido juiz do STJ, no Público de 6 de Agosto de 2006.


Em 10 de Outubro de 2006 deixou de ser um juiz desconhecido...e assegurava que iria exercer os "poderes" na mais alta instância do titular exclusivo da acção penal. E como os exerceu!



Entretanto, havia também os que queriam estragar a festa e foram desterrados para reformas douradas...como relata o Público de Novembro de 2006:


Mas a festa estava muito bem controlada e orientada, sendo este festeiro um dos maiores desta cantareira:






Ou este que assegurava que tudo estava dentro da normalidade e que a festa corria muito bem, sem percalços de maior ( Sol de 21.7.2007), tendo trocado de partido para tal suceder.


Como é que isto foi possível? Bastou que poucos soubessem da verdadeira natureza da festa e para tal isto serve de amostra explicativa ( Público, 29 de Março de 2006):



Isto foi só em 2006...nos anos seguintes a festa continuou e até se tornou mais garrida. Como se verá a seguir...

quinta-feira, junho 16, 2016

Pescanova e o jornalismo CM: o bom que saiu mal

O Correio da Manhã tem hoje um título manhoso que desmerece o de ontem: "peixe espanhol no buraco da caixa". E em subtítulo, "unidade de produção de pregados já originou 23,8 milhões de prejuízo à CGD".

Estas noticias, sendo verdadeiras, deveriam contextualizar melhor o que se passou com este assunto. No interior, em duas páginas, dá-se conta de que a "Acuinova, unidade de aquicultura da Pesacanova em Morra: em conjunto com a Pescanova Portugal é responsável por uma exposição de 36,1 milhões  de euros e uma imparidade registada de 23,8 milhões". 
Conta-se depois que essa unidade de criação de rodovalho em aquicultura, a maior do mundo, teve problemas em 2013 por deficiências técnicas na concepção do projecto de  captação de água do mar. Não sei se foi assim ou não mas leio que este projecto foi apadrinhado pelo então primeiro-ministro José Sócrates que o considerou um dos projectos PIN, supostamente de elevado potencial de interesse nacional. Também não sei se assim foi e quem deu essa indicação ao governo da altura.

Relativamente ao dinheiro em causa, alguns milhões, serão uma gota de água salgada no mar das dívidas da Pescanova que no início de 2013 entrou em processo de insolvência, o qual foi estancado em 2015 com um acordo de credores. Meses antes, o principal responsável e accionista da empresa galega, o snr Fernandes Sousa vendeu metade das acções, sem dizer nada a ninguém e acabou condenado em 2014 devido ao colapso da empresa. Uma justiça célere, em Espanha e um exemplo do que por aqui não temos...

Os negócios da Pescanova em todo o mundo, ainda em 2011 eram considerados rentáveis, com perspectivas de futuro radioso...e portanto o que o CM faz hoje é uma notícia com um conteúdo manhoso porque associa a dívida da CGD a negócios manhosos do tempo de José Sócrates, sem haver fundamento claro.
Este tipo de jornalismo acaba por desacreditar o bom que foi a notícia de ontem. Saiu mal, hoje.

terça-feira, junho 14, 2016

Um crime público na primeira página do Correio da Manhã?


Esta notícia no Correio da Manhã de hoje é a notícia de um crime, tout court. O crime é de índole económica e o MºPº tem obrigação estrita de proceder a um Inquérito através desta notícia, pelo menos e se já o não fez por outras notícias que motivaram que se falasse publicamente na instauração de um inquérito parlamentar que tem outra natureza. O PCP, o PS e o BE não querem sequer ouvir falar no assunto,  o que é altamente suspeito e revelador do duplo critério que usam para estas coisas. O PSD e o CDS também passam bem sem tal incómodo porque lá tiveram no "board" as suas peças-chave, como foi o caso de Faria de Oliveira e Celeste Cardona, por exemplo. Tal sucedeu no tempo final que precedeu o desastre nacional com José Sócrates e a nomeação de Armando Vara, então licenciado em Relações Internacionais, de fresco, pela Independente e Santos Ferreira, um dos melhores alunos de Direito do curso de Marcelo Rebelo de Sousa e outros. A CGD, aliás, foi o retiro preferido de ex-ministros e secretários de Estado, durante anos a fio. Nada menos do que 23 nomeações de tão excelsas personagens que fizeram a figura que agora se vê e que iremos todos pagar, mais uma vez.Eles, estão reformadinhos com milhares e milhares de euros por mês. Reformas douradas e ninguém os incomodará nas suas idas ao Guincho dos restaurantes ou ao estrangeiro das compras.

Porém, o verdadeiro forrobodó e descalabro de contas em empréstimos com garantias para inglês ver ou nem isso, ocorreu no consulado daquela dupla fantástica, nomeada pelo ministro das Finanças de Sócrates, Teixeira dos Santos que agora fala na TV ao lado de outros economistas. Como dizia outro fantástico, o Jorge Coelho da Quadratura, antes de ir para a Mota-Engil, " a memória das pessoas é muito curta"...

A notícia do CM de hoje limita-se a interpretar os resultados de uma auditoria de 2015 às contas do banco público, agora com um buraco do tamanho de vários BPN´s mas que agora ninguém parece querer considerar um caso de polícia, ao contrário do que diziam daquele...e do desgraçado O. Costa, bode expiatório.

Os maiores créditos concedidos, pelos vistos foram-no sem grandes considerações acerca do risco. Se nos lembrarmos do que sucedeu no tempo do comendador da Bacalhôa, Joe "fuck you" Berardo, a propósito do assalto ao BCP, nunca verdadeiramente esclarecido apesar das entrevistas de alguns vencidos nestas andanças nos finais dos anos 2000( Jardim Gonçalves e Belmiro de Azevedo) então temos assunto para várias comissões de inquérito. Mais extensas, interessantes e proveitosas do que todas as que ocorreram neste âmbito bancário. Mais interessante que o BPN, o BPP, o BES ou o BANIF.

Curioso, suspeito e escandaloso são os motivos por que a Esquerda Unida quer esquecer o assunto, tendo como aliados os partidos do centrão.

Assim, todo o espectro político quer esquecer este escândalo e deixar passar impunes estas figuras de proa de uma ópera bufa que se desenrolou diante de todos nós que vimos o que foi, como foi e acabamos comidos com casca e tudo.

A única entidade que resta para dizer que este rei vai nu é o Correio da Manhã. E o PSD do Passos, se calhar, mas não se deve apostar muito nisso...

O articulista Eduardo Dâmaso escreve na última página que estes silêncio é criminoso. E é. Por isso o Ministério Público tem o estrito dever de agir, como nunca agiu nestes casos. É imperativo e já o deveria ter feito: um inquérito criminal para se apurar se houve favorecimento especial a certos clientes que passou pela negligência em se tomarem devidas precauções a propósito de garantias e exigíveis e que a auditoria revela.
No caso Duarte Lima este foi condenado por burlar o BPN de Oliveira Costa, o que continua a parecer-me extraordinário. Assim, entreguem o Inquérito ao Procurador José Pina. Para além de muito competente é implacável nesta matéria. 


ADITAMENTO:

Conforme  se torna evidente já há quem procure tirar o cavalinho da chuva e tirar dividendos políticos..e este ministro Centeno já tenta inverter a ordem das coisas e atirar as culpas para quem governou depois de 2011.

Onde estava o Centeno quando isto aconteceu? Além do mais, no Banco de Portugal e no Departamento de Estudos Económicos. Estas coisas passaram-lhe ao lado...


No entanto, no Relatório de Contas da CGD de 2010 era claro o papel a desempenhar pela Comissão de Risco que analisava estes assuntos do crédito concedido e a conceder:

"Análise de Risco: – o Grupo CGD tem implantado um sistema de identificação, avaliação e controlo do risco da sua carteira de crédito, que abrange todos os segmentos de clientes e é activo tanto no momento da concessão de crédito como na monitorização do risco ao longo da vida das operações."


Tem tem...não há dúvida que tem. E até aposto que quem lá trabalha na tal comissão de risco ganha salário chorudo que envergonharia qualquer funcionário público de topo.
Quem era quem no tal Gabinete de Risco, nos anos em causa? Os nomes são tantos que só uma auditoria poderá esclarecer...mas os relatórios de contas dos diversos anos podem mostrar alguns...

 E como é que recomendavam aos funcionários os comportamentos adequados? Por exemplo, assim, no Código de Conduta:

Corrupção
1. A CGD rejeita activamente todas as formas de corrupção, não devendo os seus Colaboradores envolver -se em situações propiciadoras de actos susceptíveis de associação a este fenómeno.
2. A actividade da CGD está sujeita a rigorosos mecanismos de controlo interno, os quais
incluem normativos internos orientados para a prevenção e combate à corrupção
.


Sobre isto, a ver vamos, como diria o cego...

Seja como for,  o assunto do crédito mal-parado ou concedido com negligência ao factor risco era tema de denúncia de...Garcia Pereira sobre  a «reiterada manutenção da impunidade»» e acusa a actual administração de ter «ocultado» à secretária de Estado do Tesouro (Maria Luís Albuquerque, que tutela a CGD) os vários «indícios de crime» denunciados, bem como várias informações vindas a lume em 2008, num relatório interno.
No documento – enviado à procuradora-geral da República, ao primeiro-ministro, ao ministro das Finanças, à referida secretária de Estado e ao director da Polícia Judiciária -, Garcia Pereira enumera várias situações em que aqueles responsáveis estiveram envolvidos. O documento foi enviado para o DIAP, onde já correm outros inquéritos sobre os factos participados pelos trabalhadores em litígio com a CGD.
A carta de Garcia Pereira foi entregue em mão a Nogueira Leite na véspera de este anunciar a sua saída da administração da CGD, mas o responsável já desmentiu que a sua demissão esteja relacionada com estes casos.

Portanto, processo-crime já temos. Mas não sabemos nada sobre o assunto, pelo que será altura de a PGR se pronunciar. Hoje já é tarde, porque ontem já demorava.

De resto, o banqueiro Fernando Ulrich,  em Setembro de 2012, "à margem de uma conferência organizada pela revista Exame, num hotel em Lisboa, o presidente do BPI declarou que "se fosse feita uma auditoria à gestão CGD no tempo dos governos socialistas, nenhum dirigente socialista teria coragem para fazer qualquer pronunciamento sobre a CGD". E mais: "Na opinião de Fernando Ulrich, uma auditoria encontraria uma "actuação que não é própria de um banco do Estado e permitiria demonstrar claramente que não tem havido vantagem nenhuma, para ninguém, em que a CGD pertença ao Estado".

Em 2013 a própria CGD pediu investigação criminal a alguns negócios do grupo ( os que abrangiam a Fundimo, por exemplo...)


Portanto, este assunto deveria ser tratado pelos jornais de um modo mais consentâneo com a função do jornalismo.
Para já quem o faz é o Correio da Manhã e suspeito que mais nenhum o fará tão cedo. Porquê? A Esquerda unida não está nada interessada...

segunda-feira, junho 13, 2016

Os capitalistas portugueses e a esquerda nacional

A recente discussão sobre a CGD e o buraco financeiro de vários milhar de milhões de euros, cavado por sucessivas levas de gestores pagos em centenas de milhar de euros por ano, suscitou a hipótese de um inquérito parlamentar, à semelhança do ocorrido com outros bancos, como o BPN, o BES e o BANIF. Pelos vistos a esquerda unitária que governa não quer tal inquérito e as razões são muito suspeitas.

A saga dos bancos nacionais, bem como dos seus donos antes e depois de 25 de Abril de 1974 já terá sido contada em livro ou em artigos avulsos de jornal.

Porém, com estes recortes percebe-se melhor, por exemplo, o que sucedeu com um dos maiores capitães da nossa indústria e que ao morrer deixou 500 milhões de euros, seus, para uma Fundação com o seu nome: Champalimaud.

Quando se deu o golpe de 25 de Abril de 1974 Champalimaud bateu palmas porque andava de candeias às avessas com o regime. O Diário de Lisboa de 30 de Abril dá conta de que se congratulou com o golpe e enviou felicitações a Spínola e a "todos os que estiveram na base da gloriosa arrancada"...

Durou pouco tempo a perceber que foi um logro. Em Outubro de 1974 já se discutia abertamente a natureza do regime económico ( e político) e Champalimaud não tinha lugar no mesmo...


Um tal João Martins Pereira que tinha sido empregado na Siderurgia Nacional e desafiava publicamente a natureza do nosso capitalismo, defendendo a proposta marxista de nacionalização e colectivização. O comunismo, puro e simples.  


A expectativa de Champalimaud e dos demais empresários capitalistas portugueses durou poucos meses. Ou semanas. O tempo para se porem ao fresco e tentarem guardar algo do muito que ainda tinham. As medidas económicas de Vasco Gonçalves acabaram por liquidar toda a esperança numa confiança como factor essencial da economia de qualquer país. As greves, o aumento do salário mínimo, a pressão para as nacionalizações e a diabolização dos empresários acabaram por nos conduzir a 11 de Março de 1975 e às nacionalizações subsequentes de uma parte significativa da economia.  Em 14 de Abril de 1975, com 57 anos,  Champalimaud ficou-se pelo Brasil. E como ele, outros o fizeram, descapitalizando significativamente o que ainda havia de capitalismo em Portugal.
A partir daí foi sempre a descer na nossa capacidade de progresso económico significativo. Até hoje.

Fundamentalmente, a ideia era esta, numa imagem de João Abel Manta, por ocasião do 1º de Maio de 1975 e que vale mil palavras:


Em Junho de 1976 os bens de Champalimaud foram congelados em Portugal. Em Dezembro desse ano, Mário Soares, primeiro-ministro foi ao Brasil e chamou a Champalimaud e Espírito Santo "exploradores do povo".
Champalimaud respondeu no Jornal do Brasil, em 30.12.1976 argumentando que afinal o maior explorador fora Mário Soares com as suas políticas que "em tempo extraordinariamente curto" levou o país à condição mendicante, com a delapidação e o abandalhamento dos recursos públicos e privados. Como lógica era impecável porque nessa altura Portugal estava em bancarrota.
Para disfarçar o descalabro apareciam artigos como este, no O Jornal de 6.2.1976: a culpa era...dos capitalistas que fugiram. Incompetentes e protegidos pelo regime anterior.


Não obstante havia quem perguntasse se afinal as nacionalizações valeriam a pena:


Durante dez anos andamos a brincar às empresas públicas e com o aplauso vibrante do PS ( além de toda a Esquerda unida do PCP aos doentes infantis do comunismo, com os vários mr. ruis). Em Outubro de 1975 o PS queria mesmo a "irreversibilidade" dessas nacionalizações, tal como ficou na Constituição de 1976 ( artº 83º- "todas as nacionalizações são conquistas irreversíveis das classes trabalhadoras"...).



 O que se passou a seguir é conhecido e Champalimaud tinha dito o que era verdade: bancarrota atrás de bancarrota. Empobrecimento progressivo, atraso significativo em relação aos demais países europeus, miséria desnecessária. Quanto às indústrias nacionalizadas, dez anos depois era isto:


 Em 1988 e 1989 o Expresso lembrava-se dos "foragidos" escorraçados pelo regime da Esquerda Unida e lembrava assim o que sucedera:


 Fatalmente este estado de coisas teria que se alterar e Champalimaud não tinha ainda desistido, apesar da idade e das perseguições desta esquerda de sempre, de fazer alguma coisa em Portugal. E o que fez conta-se em oito páginas da biografia de  2011, escrita por Isabel Canha e Filipe S. Fernandes que explicam o essencial do que ocorreu depois:



Como se pode ler, não contentes com o que fizeram ao país, ao escorraçarem os capitalistas que tinham dinheiro, ideias e projectos, com provas dadas nas décadas anteriores, a Esquerda Unida ainda procurou impedir os mesmos de retomarem o controlo de algumas empresas que deixaram, sem indemnização alguma. O processo de atribuição dessas indemnizações foi alvo de inquérito parlamentar em 1992, promovido pela Esquerda Unida do PCP ( oito deputados requereram) e PS e ainda alvo de inquérito criminal na PGR...para apurar se tinha existido prejuízo para o Estado. Manuela Ferreira Leite, nessa altura, afiançou que não. Se fosse hoje, não é certo que o tivesse dito...

Comparando esta situação com o que se passa na CGD é caso para perguntar a que lógica obedece o PCP e a Esquerda Unida: à das conveniências políticas em que a coerência é um mero pormenor.

Os obreiros das bancarrotas estão sempre de serviço porque acreditam no trabalho de formiga para destruir um país. Fizeram-no há quarenta anos e estão apostados em voltar a fazê-lo.
É esse o seu verdadeiro patriotismo.


Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso