Na semana de 25 de Abril de 1974 havia duas revistas que saíram nessa altura e me interessavam. Uma era portuguesa, chamada Cinéfilo e que saía todas as semanas.
Era esta e já ia no nº 29, tendo por isso começado um pouco mais de seis meses antes:
Com este índice que mostra a fihca redactorial e facilmente se vê que era de esquerda, moderada ou mesmo radical, como se veio a revelar na semana seguinte:
A contra-capa mostra bem o espírito esquerdista nas publicações em livro:
O que se podia ver nessa semana na televisão, segundo a revista:
Outra publicação que me distraía de tudo o resto, particularmente das aulas, era francesa e de banda desenhada:
quinta-feira, abril 25, 2019
quarta-feira, abril 24, 2019
O socialismo normalmente dá nisto...
Vida Mundial de 4.11.1976:
O liberalismo económico é a alternativa ao socialismo da miséria e das bancarrotas. O Zaire de Mobutu entendeu isso passados três anos de nacionalizações. A Inglaterra percebeu isso há 40 anos.
Nós ainda não...
O liberalismo económico é a alternativa ao socialismo da miséria e das bancarrotas. O Zaire de Mobutu entendeu isso passados três anos de nacionalizações. A Inglaterra percebeu isso há 40 anos.
Nós ainda não...
As memórias anti-fassistas de Manuel Soares, presidente da ASJP
O juiz Manuel Soares, presidente da ASJP escreveu no Público, mostrado hoje, um artigo assim, em que explica a sua "lembrança de 25 de Abril". É filho de operários, "órfão muito cedo" e que beneficiou de apoios sociais do Estado para estudar, o que nunca teria conseguido sem tal ajuda. E conclui que foi isso que o 25 de Abril lhe deu "de mais palpável e duradouro".
Pois este caso singular, semelhante a tantos outros, ajuda a perceber as idiossincrasias de certas pessoas.
Para Manuel Soares o regime anterior não lhe teria concedido tais facilidades. Está enganado e é esse o primeiro equívoco. Nem vou explicar porquê, uma vez que os apoios sociais a estudantes pobres não começaram com o 25 de Abril e não acabariam se o mesmo não tivesse acontecido. Provavelmente, no tempo em que Manuel Soares foi para a universidade, já nos anos oitenta, e em altura de bancarrota, a situação económica do país, com Marcello Caetano ou outro que lhe sucedesse e tivesse continuado no mesmo rumo, estaria muitíssimo melhor e nisso nem é preciso ser grande analista retrospectivo, especializado em prognoses póstumas.
Se o sistema económico que tínhamos, com os ricos da "meia dúzia de famílias" se tivesse mantido, teria sido bem melhor, com maior eficiência e produção de riqueza nacional do que as maravilhosas conquistas de Abril que nos garantiram duas bancarrotas, antes ainda de Manuel Soares ser estudante universitário.
Só isso chegará para dizer que muitos outros como Manuel Soares, se calhar não puderam estudar por efeito dessa bancarrotas que empobreceram o país de modo duradouro, que ainda nos afecta. Somos o país mais atrasado da Europa, por causa disso, essencialmente.
Portanto, louvar o 25 de Abril por causa desse efeito milagroso será, no mínimo uma fantasia esquerdista de saudade de um futuro que nem se realizou.
Por outro lado a história do tio anti-fascista, comunista encartado também merece comentário. Um tio de Manuel Soares nos anos trinta já era comunista, pelos vistos. Em Almada, terra de comunistas.
Saberá Manuel Soares o que era o comunismo nos anos trinta e por essas décadas fora até aos anos oitenta do século que passou: uma história de um totalitarismo que não tinha qualquer comparação com a ditadura de Salazar. Nem de perto nem de longe.
Nos anos trinta, quarenta ou cinquenta, altura em que o tal tio foi preso pela temível PIDE, por apoiar indivíduos que o regime entendia como "subversivos" e sê-lo igualmente, o regime que o tio queria para Portugal era o de Estaline, Krutschev e Brejnev. Será supérfluo mencionar aqui todas as qualidades que tal regime oferecia aos povos onde se implantou e que o tio queria também para Portugal, em nome de uma liberdade e igualdade míticas. Nem liberdade teria e muito menos igualdade alguma poderia almejar, se tivesse por cá tal regime.
O tio foi preso pela PIDE e isso quer dizer ipso facto que foi um herói? Então sê-lo-ão igualmente os milhões de mortos que se opuseram ao comunismo que o tio defendeu e que se pudesse ajudaria a matar porque os comunistas nisso são muito solidários. Quanto a uma PIDE tinham uma KGB e antes ainda pior. Quanto a partidos e eleições livres, o Delgado ainda pôde concorrer. Lá, nem sequer se poderia manifestar nesse sentido, quando mais concorrer.
Sobre os julgamentos em tribunais especiais, talvez nem valha a pena mencionar os processos de Moscovo que decorriam quando o tio aderiu ao comunismo soviético porque não havia mais nenhum.
Enfim, uma tristíssima memória a que nos traz Manuel Soares e que ficaria muito melhor guardada para si porque não tenho dúvida que tal tio seria uma pessoa de boa gente.
Quanto ao regime anterior e ao modo como tratava os comunistas, enfim, pode sempre dizer-se que apesar de tudo, quem poupa os seus inimigos às mãos lhe morre. Estaline e os seguintes não os pouparam e não os poupariam os comunistas portugueses e o tio de Manuel Soares, inclusivé, se tivessem alcançado o poder.
Essa condescendência a meio- termo para com os comunistas foi o que conduziu ao PREC, depois do 25 de Abril de 1974, ironicamente...e louvar tais inimigos do antigo regime como exemplares da democracia, liberdade e progresso económico só mesmo como exercício humorístico, negro, no caso.
Uma coisa é certa, porém: fica sempre muito bem lembrar estas memórias antifassistas e não há politicamente melhor correcção. Se o tio fosse um extremista de direita que tivesse participado no Verão Quente contra o comunismo ou fosse trucidado pelos facínoras das FP25, isso é que duvido que mencionasse assim, do mesmo modo...
terça-feira, abril 23, 2019
O homem das garrafas de vinho em envelopes fechados com fita-cola volta a atacar...
Estas posições constam de uma nota enviada por José Sócrates à agência Lusa, depois de o ministro brasileiro da Justiça e Segurança Pública e ex-juiz responsável pela Operação Lava Jato, Sérgio Moro, ter identificado uma "dificuldade institucional" em Portugal em fazer avançar o processo contra o antigo primeiro-ministro José Sócrates, tal como acontece no Brasil.
Respondendo à intervenção proferida por Sérgio Moro na Conferência de Abertura sobre o Estado Democrático de Direito e o Combate à Criminalidade Organizada e à Corrupção, no VII Fórum Jurídico de Lisboa, o antigo líder do executivo português (2005/2011) declarou: "O que o Brasil está a viver é uma desonesta instrumentalização do seu sistema judicial ao serviço de um determinado e concreto interesse político".
Segundo José Sócrates, isto "é o que acontece quando um ativista político atua disfarçado de juiz".
"Não é apenas um problema institucional, é uma tragédia institucional. Voltarei ao assunto", avisou.
Este José Sócrates continua a sair à rua da opinião sem vergonha alguma do que se passou e que já foi amplamente noticiado. Actua como se nada fosse com ele e como se tudo fosse apenas uma ficção...
Como é que um desgraçado de um pindérico que não tem onde cair morto, se não for ajudado por primos e amigos, porventura da onça, consegue ainda falar como fala e fazer das pessoas parvas?
Não se compreende. A não ser que tenha um problema mental.
Repare-se no que a Visão reportou a propósito de coisas tão anódinas como pedidos de dinheiro como se fossem garrafas de vinho metidas em envelopes colados com fita cola. Isto que é factual não chegaria para calar este desgraçado? Não, parece que não:
Na investigação a José Sócrates, o Ministério Público reuniu indícios de provas forjadas, outras ocultadas, empréstimos sem pagamentos nem "se faz favor", arrendamentos sem pagamento de rendas, e muita linguagem em código. Rara terá sido a conversa que não terminou em dinheiro, apesar de "dinheiro" ser uma palavra proibida nas conversas telefónicas entre os dois amigos.
(...)
O Ministério Público faz o exercício: vamos supor que o dinheiro é mesmo de Santos Silva. Então por que razão, nas conversas intercetadas, nunca é usada a palavra "dinheiro"? À exceção de Sandra Santos, a amiga da Suíça que pede diretamente dois ou três mil euros quer a Sócrates quer a Santos Silva, todos os que estariam próximos do ex-primeiro-ministro seriam especialistas em pedir "fotocópias", "fotocópias mais miúdas", "documentos", "aquilo", "a coisa", "aquilo de que gosto muito", "o mesmo que da outra vez", "os apontamentos", os "livros do Duda [diminutivo de um dos filhos de Sócrates]". Sandra Santos, a amiga de Sócrates que vivia na Suíça, era descrita pelos amigos como "o senhor s". Nas conversas entre Santos Silva e a mulher, Sócrates seria "o outro" e quando o empresário ia ou vinha da casa do ex-primeiro-ministro as expressões seriam "estou a ir para o Marquês" ou "estou a vir do Marquês". Uma das conversas cifradas que mais terá divertido os investigadores terá sido uma em que Sócrates pedirá a uma amiga chamada Célia para pedir "ao amigo" se não lhe arranjava três ou quatro garrafas de vinho, que ela deveria entregar à empregada da mãe de Sócrates, acondicionadas num envelope com fita-cola.
Seja como for o problema, aqui é a oportunidade que se dá a um indivíduo como José Sócrates para este manipular e espalhar notícias falsas em várias frases. Ninguém, nenhum jornalista o confrontou com factos como um comentador- Alberto de Freitas- do Observador o fez:
A gravidade não está na publicação das declarações de Sócrates, a gravidade é que são publicadas como factos verdadeiros, sendo falsos
.Mentiras que se fossem contadas por alguém não simpático à esquerda, o jornal cumpriria a sua missão de, no final, informar o leitor da verdade factual
.1 - quem estava a ser escutado era, o já condenado em 1ª instância, Lula da Silva.
2 - quem mandou prender Lula não foi Moro, mas o Tribunal de 2ª Instância, após o Superior tribunal de Justiça avalizar a condenação
.Por decisão do STF, a prisão tem efeito após condenação em 2ª Instância
Quem não permitiu a libertação de Lula foi o presidente do Tribunal de 2ª Instância, única decisão que podia prevalecer à decisão do juíz desembargador de turno
.3 - Quem não permitiu a candidatura de Lula foi o Supremo Tribunal eleitoral (conhece-se algum país que permita uma candidatura à presidência de alguém que esteja a cumprir pena de cadeia?
Tudo isto aconteceu antes de Bolsonaro ser presidente, e em que as sondagens não lhe davam qualquer hipótese de vitória.
À ofensa de José Sócrates, o ministro Sérgio Moro respondeu assim: chamou-lhe criminoso. Tal e qual.
Alvo de críticas do antigo primeiro-ministro português e arguido da Operação Marquês (está acusado de 31 crimes), José Sócrates, Sérgio Moro já respondeu. Em entrevista à RecordTV Europa, exibida no programa “Fala Portugal” desta terça-feira, o ministro da Justiça de Bolsonaro e antigo super-juiz do processo Lava-Jato disse: “Em relação à pessoa em particular, eu não debato com criminosos pela televisão. Então, não vou fazer mais comentários”.
E já houve contra-resposta do visado, no seu estilo impagável:
Numa reação enviada por escrito ao Observador, José Sócrates classifica mesmo Moro em três frentes: “Como juiz, indigno; como político, medíocre; como pessoa, lamentável”.
José Sócrates responde às palavras mais recentes do ministro brasileiro — numa série de troca de galhardetes que já vai longa — que lhe chamoucriminoso numa entrevista televisiva. “Não, nunca cometi nenhum crime nem fui condenado por nenhum crime. Não posso aceitar ser condenado sem julgamento, muito menos por autoridades brasileiras”, disse antigo primeiro-ministro acusado de 31 crimes de corrupção e branqueamento e fraude fiscal. A declaração de Moro, afirma, “põe em causa os princípios básicos do direito e da decência democrática”.
O Ministério Público faz o exercício: vamos supor que o dinheiro é mesmo de Santos Silva. Então por que razão, nas conversas intercetadas, nunca é usada a palavra "dinheiro"? À exceção de Sandra Santos, a amiga da Suíça que pede diretamente dois ou três mil euros quer a Sócrates quer a Santos Silva, todos os que estariam próximos do ex-primeiro-ministro seriam especialistas em pedir "fotocópias", "fotocópias mais miúdas", "documentos", "aquilo", "a coisa", "aquilo de que gosto muito", "o mesmo que da outra vez", "os apontamentos", os "livros do Duda [diminutivo de um dos filhos de Sócrates]". Sandra Santos, a amiga de Sócrates que vivia na Suíça, era descrita pelos amigos como "o senhor s". Nas conversas entre Santos Silva e a mulher, Sócrates seria "o outro" e quando o empresário ia ou vinha da casa do ex-primeiro-ministro as expressões seriam "estou a ir para o Marquês" ou "estou a vir do Marquês". Uma das conversas cifradas que mais terá divertido os investigadores terá sido uma em que Sócrates pedirá a uma amiga chamada Célia para pedir "ao amigo" se não lhe arranjava três ou quatro garrafas de vinho, que ela deveria entregar à empregada da mãe de Sócrates, acondicionadas num envelope com fita-cola.
Seja como for o problema, aqui é a oportunidade que se dá a um indivíduo como José Sócrates para este manipular e espalhar notícias falsas em várias frases. Ninguém, nenhum jornalista o confrontou com factos como um comentador- Alberto de Freitas- do Observador o fez:
A gravidade não está na publicação das declarações de Sócrates, a gravidade é que são publicadas como factos verdadeiros, sendo falsos
.Mentiras que se fossem contadas por alguém não simpático à esquerda, o jornal cumpriria a sua missão de, no final, informar o leitor da verdade factual
.1 - quem estava a ser escutado era, o já condenado em 1ª instância, Lula da Silva.
2 - quem mandou prender Lula não foi Moro, mas o Tribunal de 2ª Instância, após o Superior tribunal de Justiça avalizar a condenação
.Por decisão do STF, a prisão tem efeito após condenação em 2ª Instância
Quem não permitiu a libertação de Lula foi o presidente do Tribunal de 2ª Instância, única decisão que podia prevalecer à decisão do juíz desembargador de turno
.3 - Quem não permitiu a candidatura de Lula foi o Supremo Tribunal eleitoral (conhece-se algum país que permita uma candidatura à presidência de alguém que esteja a cumprir pena de cadeia?
Tudo isto aconteceu antes de Bolsonaro ser presidente, e em que as sondagens não lhe davam qualquer hipótese de vitória.
À ofensa de José Sócrates, o ministro Sérgio Moro respondeu assim: chamou-lhe criminoso. Tal e qual.
Alvo de críticas do antigo primeiro-ministro português e arguido da Operação Marquês (está acusado de 31 crimes), José Sócrates, Sérgio Moro já respondeu. Em entrevista à RecordTV Europa, exibida no programa “Fala Portugal” desta terça-feira, o ministro da Justiça de Bolsonaro e antigo super-juiz do processo Lava-Jato disse: “Em relação à pessoa em particular, eu não debato com criminosos pela televisão. Então, não vou fazer mais comentários”.
E já houve contra-resposta do visado, no seu estilo impagável:
Numa reação enviada por escrito ao Observador, José Sócrates classifica mesmo Moro em três frentes: “Como juiz, indigno; como político, medíocre; como pessoa, lamentável”.
José Sócrates responde às palavras mais recentes do ministro brasileiro — numa série de troca de galhardetes que já vai longa — que lhe chamoucriminoso numa entrevista televisiva. “Não, nunca cometi nenhum crime nem fui condenado por nenhum crime. Não posso aceitar ser condenado sem julgamento, muito menos por autoridades brasileiras”, disse antigo primeiro-ministro acusado de 31 crimes de corrupção e branqueamento e fraude fiscal. A declaração de Moro, afirma, “põe em causa os princípios básicos do direito e da decência democrática”.
De facto, Sócrates ainda não foi condenado. Foi apenas acusado. Mas como se sabe só os criminosos o são, porque de outro modo não poderiam ser acusados. Podem estar inocentes, claro. Mas enquanto acusados, são criminosos. A prazo...e considerados "inocentes até prova em contrário".
José Sócrates é por isso mesmo um criminoso que se presume inocente, para já.
segunda-feira, abril 22, 2019
A besta do fassismo e os seus adoradores
Ontem publiquei aqui um apontamento em modo de elegia a um dos maiores responsáveis pelo nosso atraso cultural no relato historiográfico de acontecimentos recentes.
Esta alimária do antifassismo publicou um livro recentemente, mais um do mesmo género, destinado aos " estudantes de História dos Fascismos na Europa da FCSH/Nova", ou seja, um texto academizado para a madrassa e para os neófitos aprenderem e debitarem nos exames.
É assim que se formam os alunos da "mais bem preparada" geração actual: seguindo a cartilha destes mestres da manipulação ideológica e que depois aplicam nos programas de informação ou nas redacções que os acolhem. É um pensamento já unificado e corrente. Não há divergências ou narrativas que fujam do estereotipo definido por estas alimárias intelectuais erigidas em mestres da História.
Ser-lhes-á sempre muito difícil senão impossível perceber o que este entrevistado, Joaquim Silva Pinto, antigo governante com Salazar e Caetano, disse ontem à Visão online, numa entrevista de Filipe Luís:
A conversa flui, à volta de um cozido à portuguesa, num restaurante tradicional de Campo de Ourique, Lisboa. Munido do saudável apetite com que aprecia o almoço, Joaquim Silva Pinto, 83 anos, revela-se, durante quase três horas, um repositório de memórias vivas e de episódios desconhecidos ou inéditos sobre cinco décadas da História portuguesa recente. De membro do governo de Marcelo Caetano (subsecretário de Estado e secretário de Estado do Trabalho e Previdência, sob a tutela do ministro Baltasar Rebelo de Sousa, pai de Marcelo Rebelo de Sousa, 1970, ministro da Segurança Social, 1973) a membro da comissão política das primeiras duas candidaturas de Mário Soares a Belém e a deputado do PS (de que se afastou por causa de José Sócrates), Silva Pinto esteve no núcleo duro da política em ditadura e em democracia. Já temos as couves, o chispe, os enchidos e o bom tinto. Vamos à conversa.
Antes do 25 de Abril, o senhor foi secretário de Estado do Trabalho e da Previdência, no ministério de Baltasar Rebelo de Sousa, pai do atual Presidente da República. Era amigo dele?
Muito amigo. O Rebelo de Sousa, que começara por ser jovem subsecretário de Estado da Educação, era o menino querido do Marcelo Caetano e seu afilhado de casamento. Uma vez, descaiu-se e chamou-lhe “padrinho”, à minha frente. O Marcelo não gostou muito...
Mas Baltasar Rebelo de Sousa também serviu Salazar...
Esteve no governo e saiu. Mas, depois, ele e o Mota Veiga, ministro de Estado, estreitaram relações. Mais tarde viriam a ser compadres, porque o Marcelo Rebelo de Sousa casar-se-ia com uma filha do Mota Veiga. Bom: houve um ano em que o Veiga convidou o Baltasar para ser comissário das comemorações da Revolução Nacional [efeméride do 28 de Maio de 1926, data do golpe de Estado que impôs a ditadura militar em substituição da Primeira República e, mais tarde (1933), se transformou no Estado Novo]. Como ele se distinguiu muito, o Salazar, que era um homem de equilíbrios – nesse sentido, o António Costa é um “salazarista”... – voltou a chamá-lo para colaborar, mesmo sabendo que ele era um marcelista. O Salazar e o Marcelo andavam de candeias às avessas...
Salazar preferia ter os contestatários controlados...
Chegou a convidar o Ulisses Cortez, depois de críticas deste à política financeira do governo, para substituir o Pinto Barbosa, nas Finanças! E o Cortez, que não queria muito, disse- -lhe: “Ó senhor Presidente do Conselho, eu tornei-me keynesiano...” E o Salazar: “Vai ver que, ao fim de três meses, isso passa-lhe...”.
Mas voltando ao pai do atual Presidente da República...
Ah! Então, depois dessas comemorações, e preocupado em voltar a ter o Marcelo Caetano com ele, o Salazar convida o Rebelo de Sousa para governador-geral de Moçambique. Um recado para Marcelo Caetano... Ele já tinha feito alguns gestos. Tinha-me convidado, a mim, para subsecretário de Estado do Orçamento, por causa do meu desempenho no Plano de Fomento. É quando eu digo ao Supico Pinto, [então presidente da Câmara Corporativa], uma espécie de 2ª figura da Situação, que poderia colaborar na parte técnica mas que, politicamente, eu não me sentia assim tão alinhado com o regime. E ele responde-me: “Meu caro amigo, ninguém é do regime...”
Aconselhou-se com Marcelo Caetano? Tinha sido seu professor e já eram muito próximos...
Sim. Disse-me textualmente: “Felicito-o por ter sido convidado. Mas fez bem em não aceitar. Ia apanhar o comboio errado.”
E o senhor viu logo que ele contava consigo para o futuro.
Sim. Pensei: “Ele está a convidar-me para daqui a dois ou três anos.” Nem dois meses foram... Entretanto, o Salazar caiu da cadeira...
A INTENÇÃO DE MARCELO ERA DESCOLONIZAR
E Baltasar Rebelo de Sousa?
Mantinha-se em Moçambique. O seu filho Pedro confirmou-me, na presença de Veiga Simão, que o pai, assim que Marcelo substituiu o Salazar, se prontificou para voltar a Lisboa. Mas o Marcelo disse-lhe: “Convém-nos que continue em Moçambique.”
E porquê?
Porque ele tinha a intenção de proporcionar, no futuro, a independência a Angola e a Moçambique. E o Baltasar era o homem da transição para Moçambique!
Pois, mas o Presidente da Republica, almirante Américo Tomás, tinha posto, como condição para nomear Caetano como primeiro-ministro, que mantivesse inalterada a política ultramarina... Não acha que Marcelo fez mal em aceitar o cargo assim limitado?
Eu não teria aceitado.
“FUI EU QUEM FOI BUSCAR SÁ CARNEIRO!”
Porque, sendo um reformista, nunca alinhou pela Ala Liberal, de Francisco de Sá Carneiro?
O senhor está a falar com um dos pais da Ala Liberal, tenha paciência!
Como assim?
Quem foi buscar o Sá Carneiro, fui eu! Quem foi buscar o Magalhães Mota, fui eu! Só não fui buscar o Balsemão... Fui eu quem indicou esses nomes ao Melo e Castro [José Guilherme de Melo e Castro, deputado, considerado mentor da Ala Liberal de Sá Carneiro] que os expôs ao Marcelo Caetano!
Pronto, os nomes terão sido ideia sua. Mas não entrou nesse pacote... Aliás, houve a rutura posterior da Ala Liberal com Marcelo e o senhor ficou do lado dele...
O que uma pessoa faz quando está nesta situação? A rutura foi com o Sá Carneiro e, sobretudo, com o meu amigo Miller Guerra. Bem, eu percebi que devia ter saído. Mas apeteceu-me continuar no governo.
Hoje, acha que fez bem em continuar?
Devia ter saído. Um amigo dizia-me: “A cadeira do poder é um problema. Quando uma pessoa se senta, parece ter lá um prego que nos magoa. Mas ele ferra-se. E quando é para sair ainda dói mais... Você não conhece casos em que se sabe que fulano quer sair, tem vontade de sair, mas, ao mesmo tempo, parece que é obrigado a ficar?
Está sempre a acontecer.
Pois está. Mas a minha posição não era cómoda. O Américo Tomás hostilizou-me sempre, até malcriadamente. E eu malcriadamente correspondia.
Lembra-se de algum episódio mais tenso?
Um dia, quando ele vai inaugurar o edifício da Caixa de Previdência, no Porto, ia a andar muito depressa, como era hábito dele. E o Baltasar Rebelo de Sousa diz: “Espere, senhor Presidente, assim não o conseguimos acompanhar...” E ele, a olhar para mim: “É para que alguns vejam que eu não estou senil...”. E eu, em vez de calar-me: “Ó senhor Presidente, mas ninguém diz que o senhor tem dificuldades de ordem física...” O Marcelo fez muito mal em aceitar a recondução dele, em Belém.
E teria força para a recusar?
Aí é que está. O Marcelo achava que ele lhe ficava a dever uma, mas foi de uma ingenuidade total. O que se passa sempre é o contrário. A primeira coisa que o Tomás disse, foi: “Rogério Martins, Xavier Pintado e Silva Pinto, fora do governo!” E só não saí nessa altura porque o Marcelo fez finca-pé, mas o Rogério e o Pintado caíram. Pouco mais tarde, fui a despacho ao Marcelo Caetano, que me comunicou: “Nas próximas eleições [1973], deve ser candidato a deputado.” E eu: “É o que mais quero. Aí, posso integrar a Ala Liberal (que ainda estava na Assembleia).” Mas, pouco depois, o Magalhães Mota dir-me-ia: “Você pode vir para a Ala Liberal, mas quem já não vai lá estar, sou eu.” Demasiado tarde, portanto. Era, já, a rutura.
A MEDIDA QUE PODIA TER EVITADO O 25 DE ABRIL
O que estava a tolher os movimentos de Marcelo Caetano? O Tomás? Os ultras? A Guerra Ultramarina (Colonial)?
O Marcelo Caetano tem três erros capitais. Sendo certo que tinha a fragilidade constitucional de estar totalmente dependente do Presidente, e não de um Parlamento, como hoje..
.Então, o primeiro dos seus erros será o de não ter assumido, ele próprio, a candidatura a Belém, em vez de aceitar a recondução de Tomás?
Exatamente. Uma das justificações era extraordinária: “O PR deve ser casado e eu sou viúvo”... E a gente dizia-lhe: “Ó senhor professor, mas não faltará quem queira casar-se consigo!” Ele ofendia-se: “Eu fui homem de uma só mulher!” Outro erro foi o de ter empolado a importância da direita, baseando-se no que os generais lhe diziam. O terceiro erro foi o de não se ter libertado do trauma shakespeariano do Brutus perante Júlio César. Ele sentia muito o peso da sua raiz ideológica.
Entretanto, a Segurança Social dá os primeiros passos e Marcelo está ligado a isso. O senhor, que foi ministro da pasta, tornou-se um homem-chave nas suas políticas públicas...
Foi este seu criado que convenceu o Marcelo da importância dessa política social. Mas também o pressionei para encontrar uma solução, a curto prazo, para Angola e Moçambique.
Como e quando?
Foi uma conversa difícil. Eu disse-lhe que ele tinha de encontrar uma solução já, mesmo que isso significasse a rutura com o PR. E acrescentei que era essa a opinião do seu ministro do Ultramar – o Baltasar. O Marcelo Caetano era colérico. Parece que estou a vê-lo. Sentado na sua sala de estar, de pantufas, traçava a perna, com a pantufa a balançar. E quando lhe disse isso, caiu-lhe a pantufa. E diz-me assim: “O seu mal foi nunca ter aprendido Direito Constitucional, como era o seu dever!” E deu-me uma lição de Direito Constitucional. Ora, o País não estava para lições de Direito Constitucional...
Pois, o Direito Constitucional não resolvia a guerra...
Fui contar ao Baltasar, que me disse: “Eu hei de convencê-lo!” E convenceu-o. Passado uma semana...
Espere um momento, por favor! Essa conversa da pantufa foi em que ano?
Foi em 1974, já depois do livro do Spínola [Portugal e o Futuro, no qual o general descarta a guerra como solução para o Ultramar], já depois de ter recebido os generais a mostrarem fidelidade, a famosa “brigada do reumático”, já depois do movimento de 16 de Março das Caldas da Rainha [levantamento militar que precedeu o 25 de Abril]. Ora bem: o Baltasar terá falado com ele e ele foi a Espanha aconselhar-se com o seu amigo Rodó [Laureano Lopez Rodó, político e professor catedrático espanhol]. Depois de ele ter voltado, o Baltasar telefona-me e diz-me, textualmente: “Conseguimos!” E acrescentou: “O senhor Presidente do Conselho incumbiu-me de organizar uma viagem a Angola e a Moçambique, onde pretende anunciar a progressiva autonomia dos territórios, a caminho da independência.”
Ou seja: um ano antes e não teria havido o 25 de Abril...
É isso mesmo. O timing é fundamental. Como me disse o Simões, o futebolista do Benfica, uma vez: “Senhor secretário de Estado, é preciso não perder o ângulo de remate...” Ora, o Marcelo perdeu o ângulo de remate. Já em agosto de 1973, eu tinha avisado o Marcelo, por ter ouvido umas histórias: “Olhe que anda aí um movimento de capitães.” E o Marcelo: “Já me consta.” Toda a gente sabia.
FOI COSTA GOMES QUEM MANDOU MARCELO PARA O CARMO
O movimento de capitães não foi desvalorizado?
Era uma coisa reivindicativa [contra o Decreto-lei 353/73, que equiparava os oficiais milicianos aos do quadro, possibilitando a ultrapassagem destes por aqueles, nas promoções]. Nunca se pensou que chegasse a um golpe de Estado.
Entretanto, os capitães continuavam com o movimento, sem que o regime nada fizesse, nem para os apaziguar nem para os reprimir...
Bem, na remodelação de outubro de 1973, o novo ministro da Defesa, para surpresa de toda a gente, é o Silva Cunha, imposto pelo Américo Tomás. E o Marcelo exige a minha permanência no governo, para que eu não fique com a imagem “do rato que abandona o navio”. Perguntei-lhe se estávamos num naufrágio.
E os capitães?
Bem, é nessa altura que o Marcelo me diz que a questão dos capitães era muito mais profunda do que ele pensava... Passa um mês, ou dois, entretanto dá-se a denúncia sobre o massacre de Wiriamu [atrocidades cometidas pelo Exército na província de Tete, Moçambique] e o Marcelo entra em negação: “Não é possível, isso seria a desonra das Forças Armadas!” O Baltasar disse-me: “Antes não fosse possível...” Ele tinha a informação. Entretanto, o Marcelo recebe, alarmado, o Costa Gomes e o Spínola que, para choque dele, lhe aparecem fardados e lhe oferecem, a ele, a condução de um golpe de Estado!
Para neutralizar os ultras e o Tomás? E o Marcelo?
O Marcelo responde que não é homem para alinhar nisso. E, sem ouvir ninguém, comete um erro fatal: vai ter com o Tomás e conta-lhe tudo. E o Tomás, que era tudo menos estúpido, apesar dos seus maus discursos, diz-lhe: “Muito obrigado, senhor Presidente do Conselho. O problema que me traz passou a ser meu. Tenho de lhe pedir que continue a liderar um governo de gestão.” E o Marcelo sai de Belém em gestão! Sem poder algum! O Baltasar Rebelo de Sousa, quando o soube, ficou verde! Na fase final, o Marcelo reaproxima-se do Costa Gomes e é o Costa Gomes que o manda ir para o Carmo [quartel-general da GNR, onde o Presidente do Conselho se refugiou, na madrugada do 25 de Abril] de onde, supostamente, sairia “em grande”...
Não foi assim. Depois, quem emerge é Spínola, não Costa Gomes...
No dia 25 de abril, às 7h30 da manhã, eu telefono ao Marcelo, e digo-lhe que vou para o ministério, e ele diz-me que faço bem. Mas, às 11 horas, quando lhe liguei de novo para fazer o ponto da situação, ele, já muito nervoso, perguntou-me se eu sabia onde estava o Costa Gomes. Andava desesperadamente a procurá-lo... Mas o general já estava incontactável. Mais tarde, foi o Feytor Pinto que lhe sugeriu que, então, falasse com o Spínola.
COMO SOARES INVENTOU O “REPUBLICANO, SOCIALISTA E LAICO”
Sabemos o resto. Entretanto, em 1975, o senhor vai para Espanha.
Não me perseguiram, mas não tinha trabalho e tinha quatro filhos para criar.
Dedica-se à gestão de empresas e regressa, muito mais tarde, em 1981, a convite de Ramalho Eanes já Presidente da República. Como foi esse contacto com o Eanes?
É quando o Eanes se recandidata, em 1981, contra o general Soares Carneiro, um homem muito à direita do Marcelo Caetano... Eu já tinha feito uma aproximação às pessoas, o meu trabalho era reconhecido em Espanha, tinha boas relações com a nossa embaixada, tinha havido o 25 de Novembro, a AD estava no poder... No início do ano, o José Rabaça [industrial beirão, conterrâneo, amigo e grande apoiante de Ramalho Eanes] contactou-me, dizendo que o Eanes tinha apreço por mim e que insistia para que voltasse para Portugal.
E Mário Soares?
No ano seguinte, estava eu como vice-presidente da AIP, convidámos os líderes partidários para sessões de esclarecimento. Lucas Pires foi um falhanço, o Mota Pinto, meia sala, Mário Soares sala cheia. E é aí que o Mário Soares chega ao pé de mim e faz-me uma festa: “Meu querido colega de faculdade! Eu estava no exílio quando o senhor esteve no governo e sei que fez tudo para que eu voltasse! Agora, quero dar-lhe um abraço!” Houve muitas palmas e eu fiquei conquistado pelo gajo! Como primeiro-ministro, chamava-me – e o Eanes ficava pior do que uma barata...
Depois esteve no MASP [Movimento de Apoio de Soares à Presidência]. No livro O Benefício da Dúvida, fala da origem da expressão “republicano, socialista e laico”, com a qual Soares se apresentou para o segundo mandato...
Foi numa reunião num restaurante, em Paço de Arcos, encontro organizado pelo meu amigo Gomes Mota [mandatário das duas primeiras candidaturas]. Soares diz ao Almeida Santos que ele é o seu braço-esquerdo – porque ficava-lhe mal dizer “direito”... Também estava o Manuel José Homem de Mello, o que levou o Soares a dizer que até tinha um conde [de Águeda] na sua candidatura, tão republicana...
E o senhor era o católico...
E ministro do antigo regime... Ele tinha tudo! É um jantar em que Soares elogia o “borrego” e o dono do restaurante, ofendido, diz que era cabrito. E Almeida Santos justifica que “o senhor Presidente da República não chama filho de cabra a ninguém”... E também em que Soares acaba com um charuto e pede que não o denunciem à Maria de Jesus, porque “este médico que ela lhe tinha arranjado era um chato”... [Risos.]
Imagino. Mas... E o “republicano, socialista e laico”?
Bom, o PSD tinha anunciado o apoio. E ele queria definir bem as águas. Inicialmente, defende uma outra formulação: republicano, socialista e agnóstico. E fui eu que sugeri: “Não diga ‘agnóstico’, homem. Diga ‘laico’. Muitos como eu, que são católicos, mas aceitam o Estado laico, identificar-se-ão melhor com essa expressão!”
E Manuel José Homem de Mello não queria substituir o “socialista” por “democrático”?
Queria. O que motivou outra graça do Soares: “Ainda bem que você, um aristocrata, não quer substituir a palavra ‘republicano’... Isso é que o meu pai não me perdoaria!”
O senhor já vinha da primeira candidatura... Essa tinha sido mais difícil...
Sim, quando estávamos nos célebres 8%, o Jaime Gama aconselhou-o a desistir, a bem do prestígio dele e do PS. O Soares nunca lhe perdoou essa.
E a sua entrada no PS?
Foi em 1991, já com o Jorge Sampaio. Eu era para ser anunciado com grande pompa, no Porto: “Vão entrar o Silva Lopes e o Silva Pinto!” Chego lá e o Sampaio, muito comprometido: “Tenha paciência, mas o Silva Lopes não vem... Você entra, mas já vai ser sem grande espalhafato...” E assim entrei e lá fui eleito deputado em 1991.
Mais tarde, o António Guterres reabilitou outro ex-ministro de Marcelo Caetano, chamando, para o governo, Veiga Simão. Não o chamou a si?
Não. Mas, não obstante, recebeu-me sempre com cordialidade e dei-lhe um conselho ou dois, que ele aceitou, nomeadamente a passagem do Guilherme d’Oliveira Martins para as Finanças. Nessa altura, lá pensei que era desta que ia para a Economia. Mas foi o Braga da Cruz... O Jorge Coelho telefonou-me a dizer que o Guterres me ia convidar para administrador não-executivo da Telecom... Mandei-os à fava.
AS PREOCUPAÇÕES QUE MARCELO REBELO DE SOUSA DAVA AO PAI
E conheceu Marcelo Rebelo de Sousa em que circunstâncias?
Na sala VIP do aeroporto, quando o Baltasar, já ministro, regressava, definitivamente, de Moçambique. Nessa altura, ele namorava uma Beleza [Teresa Beleza] e passou o tempo aos beijos com a namorada. Ao ponto [risos] de um senhor de idade ter ido ter com ele pedir-lhe que se “moderasse”. O Marcelo desfez-se em desculpas, dando toda a razão ao homem e, ato contínuo... prosseguiu com os beijos!
E ela?
Ela não estava desagradada... Ouvi desabafos ao Baltasar, sobre o filho Marcelo, que nunca repeti a ninguém...
Mas que me vai contar agora...
O pai tinha um grande orgulho nele. Mas um dia disse-me: “O senhor não sabe o susto permanente em que eu vivo, a pensar no que o meu filho Marcelo vai fazer no dia seguinte...” Quando ele foi para governador de Moçambique, levou os mais novos, mas o Marcelo, que estava na faculdade, ficou em Lisboa. E o Caetano disse ao Baltasar: “Não se preocupe, que desse rapaz cuido eu, como se fosse meu filho.” Aos sábados, o Marcelo Caetano reunia a família e ele largava os filhos e ia para a sala falar de política com o Marcelo Rebelo de Sousa. Depois, sentiu-se traído, por causa de artigos que o rapaz escreveu e por causa de informações secretas que terá passado cá para fora. Recusou ir ao casamento dele, dizendo, cruelmente, ao pai Baltasar: “Eu não vou aos casamentos de safados.” O que era, realmente, um exagero...
Continuou em contacto com ele?
Sim. Não são contactos frequentes, mas conheço-o bem. Tenho muito receio de que ele não tenha os oito anos dos mandatos em Belém, inteiros, assim tão pacíficos. Porque ele é um sprinter, não um corredor de fundo... Ele tem de sentir que é amado pelas pessoas. E isso dá-lhe uma grande fragilidade.
Sobre a "remodelação" do Governo de Marcello Caetano, em Novembro de 1973 a revista Observador de então, na edição de 16.11.1973 relatava assim:
E o comentário às eleições realizadas, na edição de 2 de Novembro desse ano:
O modo como Cid viu as eleições, na edição de 26 de Outubro de 1973:
E o modo como se equacionava a Defesa Nacional, um dos "grandes problemas nacionais" que a revista tinha vindo a elencar desde a edição de 29 de Junho ( e este era o 18º da série), na mesma edição de 28 de Outubro de 1973, escassos seis meses antes do 25 de Abril de 1974:
E já agora, porque aparece na edição de 14 de Setembro 1973, do Observador, uma imagem e texto a propósito do "maior supermercado do continente africano": o Jumbo de Luanda, do grupo Pão de Açúcar. Luanda tinha então cerca de 600 mil habitantes...
Esta alimária do antifassismo publicou um livro recentemente, mais um do mesmo género, destinado aos " estudantes de História dos Fascismos na Europa da FCSH/Nova", ou seja, um texto academizado para a madrassa e para os neófitos aprenderem e debitarem nos exames.
É assim que se formam os alunos da "mais bem preparada" geração actual: seguindo a cartilha destes mestres da manipulação ideológica e que depois aplicam nos programas de informação ou nas redacções que os acolhem. É um pensamento já unificado e corrente. Não há divergências ou narrativas que fujam do estereotipo definido por estas alimárias intelectuais erigidas em mestres da História.
Ser-lhes-á sempre muito difícil senão impossível perceber o que este entrevistado, Joaquim Silva Pinto, antigo governante com Salazar e Caetano, disse ontem à Visão online, numa entrevista de Filipe Luís:
A conversa flui, à volta de um cozido à portuguesa, num restaurante tradicional de Campo de Ourique, Lisboa. Munido do saudável apetite com que aprecia o almoço, Joaquim Silva Pinto, 83 anos, revela-se, durante quase três horas, um repositório de memórias vivas e de episódios desconhecidos ou inéditos sobre cinco décadas da História portuguesa recente. De membro do governo de Marcelo Caetano (subsecretário de Estado e secretário de Estado do Trabalho e Previdência, sob a tutela do ministro Baltasar Rebelo de Sousa, pai de Marcelo Rebelo de Sousa, 1970, ministro da Segurança Social, 1973) a membro da comissão política das primeiras duas candidaturas de Mário Soares a Belém e a deputado do PS (de que se afastou por causa de José Sócrates), Silva Pinto esteve no núcleo duro da política em ditadura e em democracia. Já temos as couves, o chispe, os enchidos e o bom tinto. Vamos à conversa.
Antes do 25 de Abril, o senhor foi secretário de Estado do Trabalho e da Previdência, no ministério de Baltasar Rebelo de Sousa, pai do atual Presidente da República. Era amigo dele?
Muito amigo. O Rebelo de Sousa, que começara por ser jovem subsecretário de Estado da Educação, era o menino querido do Marcelo Caetano e seu afilhado de casamento. Uma vez, descaiu-se e chamou-lhe “padrinho”, à minha frente. O Marcelo não gostou muito...
Mas Baltasar Rebelo de Sousa também serviu Salazar...
Esteve no governo e saiu. Mas, depois, ele e o Mota Veiga, ministro de Estado, estreitaram relações. Mais tarde viriam a ser compadres, porque o Marcelo Rebelo de Sousa casar-se-ia com uma filha do Mota Veiga. Bom: houve um ano em que o Veiga convidou o Baltasar para ser comissário das comemorações da Revolução Nacional [efeméride do 28 de Maio de 1926, data do golpe de Estado que impôs a ditadura militar em substituição da Primeira República e, mais tarde (1933), se transformou no Estado Novo]. Como ele se distinguiu muito, o Salazar, que era um homem de equilíbrios – nesse sentido, o António Costa é um “salazarista”... – voltou a chamá-lo para colaborar, mesmo sabendo que ele era um marcelista. O Salazar e o Marcelo andavam de candeias às avessas...
Salazar preferia ter os contestatários controlados...
Chegou a convidar o Ulisses Cortez, depois de críticas deste à política financeira do governo, para substituir o Pinto Barbosa, nas Finanças! E o Cortez, que não queria muito, disse- -lhe: “Ó senhor Presidente do Conselho, eu tornei-me keynesiano...” E o Salazar: “Vai ver que, ao fim de três meses, isso passa-lhe...”.
Mas voltando ao pai do atual Presidente da República...
Ah! Então, depois dessas comemorações, e preocupado em voltar a ter o Marcelo Caetano com ele, o Salazar convida o Rebelo de Sousa para governador-geral de Moçambique. Um recado para Marcelo Caetano... Ele já tinha feito alguns gestos. Tinha-me convidado, a mim, para subsecretário de Estado do Orçamento, por causa do meu desempenho no Plano de Fomento. É quando eu digo ao Supico Pinto, [então presidente da Câmara Corporativa], uma espécie de 2ª figura da Situação, que poderia colaborar na parte técnica mas que, politicamente, eu não me sentia assim tão alinhado com o regime. E ele responde-me: “Meu caro amigo, ninguém é do regime...”
Aconselhou-se com Marcelo Caetano? Tinha sido seu professor e já eram muito próximos...
Sim. Disse-me textualmente: “Felicito-o por ter sido convidado. Mas fez bem em não aceitar. Ia apanhar o comboio errado.”
E o senhor viu logo que ele contava consigo para o futuro.
Sim. Pensei: “Ele está a convidar-me para daqui a dois ou três anos.” Nem dois meses foram... Entretanto, o Salazar caiu da cadeira...
A INTENÇÃO DE MARCELO ERA DESCOLONIZAR
E Baltasar Rebelo de Sousa?
Mantinha-se em Moçambique. O seu filho Pedro confirmou-me, na presença de Veiga Simão, que o pai, assim que Marcelo substituiu o Salazar, se prontificou para voltar a Lisboa. Mas o Marcelo disse-lhe: “Convém-nos que continue em Moçambique.”
E porquê?
Porque ele tinha a intenção de proporcionar, no futuro, a independência a Angola e a Moçambique. E o Baltasar era o homem da transição para Moçambique!
Pois, mas o Presidente da Republica, almirante Américo Tomás, tinha posto, como condição para nomear Caetano como primeiro-ministro, que mantivesse inalterada a política ultramarina... Não acha que Marcelo fez mal em aceitar o cargo assim limitado?
Eu não teria aceitado.
“FUI EU QUEM FOI BUSCAR SÁ CARNEIRO!”
Porque, sendo um reformista, nunca alinhou pela Ala Liberal, de Francisco de Sá Carneiro?
O senhor está a falar com um dos pais da Ala Liberal, tenha paciência!
Como assim?
Quem foi buscar o Sá Carneiro, fui eu! Quem foi buscar o Magalhães Mota, fui eu! Só não fui buscar o Balsemão... Fui eu quem indicou esses nomes ao Melo e Castro [José Guilherme de Melo e Castro, deputado, considerado mentor da Ala Liberal de Sá Carneiro] que os expôs ao Marcelo Caetano!
Pronto, os nomes terão sido ideia sua. Mas não entrou nesse pacote... Aliás, houve a rutura posterior da Ala Liberal com Marcelo e o senhor ficou do lado dele...
O que uma pessoa faz quando está nesta situação? A rutura foi com o Sá Carneiro e, sobretudo, com o meu amigo Miller Guerra. Bem, eu percebi que devia ter saído. Mas apeteceu-me continuar no governo.
Hoje, acha que fez bem em continuar?
Devia ter saído. Um amigo dizia-me: “A cadeira do poder é um problema. Quando uma pessoa se senta, parece ter lá um prego que nos magoa. Mas ele ferra-se. E quando é para sair ainda dói mais... Você não conhece casos em que se sabe que fulano quer sair, tem vontade de sair, mas, ao mesmo tempo, parece que é obrigado a ficar?
Está sempre a acontecer.
Pois está. Mas a minha posição não era cómoda. O Américo Tomás hostilizou-me sempre, até malcriadamente. E eu malcriadamente correspondia.
Lembra-se de algum episódio mais tenso?
Um dia, quando ele vai inaugurar o edifício da Caixa de Previdência, no Porto, ia a andar muito depressa, como era hábito dele. E o Baltasar Rebelo de Sousa diz: “Espere, senhor Presidente, assim não o conseguimos acompanhar...” E ele, a olhar para mim: “É para que alguns vejam que eu não estou senil...”. E eu, em vez de calar-me: “Ó senhor Presidente, mas ninguém diz que o senhor tem dificuldades de ordem física...” O Marcelo fez muito mal em aceitar a recondução dele, em Belém.
E teria força para a recusar?
Aí é que está. O Marcelo achava que ele lhe ficava a dever uma, mas foi de uma ingenuidade total. O que se passa sempre é o contrário. A primeira coisa que o Tomás disse, foi: “Rogério Martins, Xavier Pintado e Silva Pinto, fora do governo!” E só não saí nessa altura porque o Marcelo fez finca-pé, mas o Rogério e o Pintado caíram. Pouco mais tarde, fui a despacho ao Marcelo Caetano, que me comunicou: “Nas próximas eleições [1973], deve ser candidato a deputado.” E eu: “É o que mais quero. Aí, posso integrar a Ala Liberal (que ainda estava na Assembleia).” Mas, pouco depois, o Magalhães Mota dir-me-ia: “Você pode vir para a Ala Liberal, mas quem já não vai lá estar, sou eu.” Demasiado tarde, portanto. Era, já, a rutura.
A MEDIDA QUE PODIA TER EVITADO O 25 DE ABRIL
O que estava a tolher os movimentos de Marcelo Caetano? O Tomás? Os ultras? A Guerra Ultramarina (Colonial)?
O Marcelo Caetano tem três erros capitais. Sendo certo que tinha a fragilidade constitucional de estar totalmente dependente do Presidente, e não de um Parlamento, como hoje..
.Então, o primeiro dos seus erros será o de não ter assumido, ele próprio, a candidatura a Belém, em vez de aceitar a recondução de Tomás?
Exatamente. Uma das justificações era extraordinária: “O PR deve ser casado e eu sou viúvo”... E a gente dizia-lhe: “Ó senhor professor, mas não faltará quem queira casar-se consigo!” Ele ofendia-se: “Eu fui homem de uma só mulher!” Outro erro foi o de ter empolado a importância da direita, baseando-se no que os generais lhe diziam. O terceiro erro foi o de não se ter libertado do trauma shakespeariano do Brutus perante Júlio César. Ele sentia muito o peso da sua raiz ideológica.
Entretanto, a Segurança Social dá os primeiros passos e Marcelo está ligado a isso. O senhor, que foi ministro da pasta, tornou-se um homem-chave nas suas políticas públicas...
Foi este seu criado que convenceu o Marcelo da importância dessa política social. Mas também o pressionei para encontrar uma solução, a curto prazo, para Angola e Moçambique.
Como e quando?
Foi uma conversa difícil. Eu disse-lhe que ele tinha de encontrar uma solução já, mesmo que isso significasse a rutura com o PR. E acrescentei que era essa a opinião do seu ministro do Ultramar – o Baltasar. O Marcelo Caetano era colérico. Parece que estou a vê-lo. Sentado na sua sala de estar, de pantufas, traçava a perna, com a pantufa a balançar. E quando lhe disse isso, caiu-lhe a pantufa. E diz-me assim: “O seu mal foi nunca ter aprendido Direito Constitucional, como era o seu dever!” E deu-me uma lição de Direito Constitucional. Ora, o País não estava para lições de Direito Constitucional...
Pois, o Direito Constitucional não resolvia a guerra...
Fui contar ao Baltasar, que me disse: “Eu hei de convencê-lo!” E convenceu-o. Passado uma semana...
Espere um momento, por favor! Essa conversa da pantufa foi em que ano?
Foi em 1974, já depois do livro do Spínola [Portugal e o Futuro, no qual o general descarta a guerra como solução para o Ultramar], já depois de ter recebido os generais a mostrarem fidelidade, a famosa “brigada do reumático”, já depois do movimento de 16 de Março das Caldas da Rainha [levantamento militar que precedeu o 25 de Abril]. Ora bem: o Baltasar terá falado com ele e ele foi a Espanha aconselhar-se com o seu amigo Rodó [Laureano Lopez Rodó, político e professor catedrático espanhol]. Depois de ele ter voltado, o Baltasar telefona-me e diz-me, textualmente: “Conseguimos!” E acrescentou: “O senhor Presidente do Conselho incumbiu-me de organizar uma viagem a Angola e a Moçambique, onde pretende anunciar a progressiva autonomia dos territórios, a caminho da independência.”
Ou seja: um ano antes e não teria havido o 25 de Abril...
É isso mesmo. O timing é fundamental. Como me disse o Simões, o futebolista do Benfica, uma vez: “Senhor secretário de Estado, é preciso não perder o ângulo de remate...” Ora, o Marcelo perdeu o ângulo de remate. Já em agosto de 1973, eu tinha avisado o Marcelo, por ter ouvido umas histórias: “Olhe que anda aí um movimento de capitães.” E o Marcelo: “Já me consta.” Toda a gente sabia.
FOI COSTA GOMES QUEM MANDOU MARCELO PARA O CARMO
O movimento de capitães não foi desvalorizado?
Era uma coisa reivindicativa [contra o Decreto-lei 353/73, que equiparava os oficiais milicianos aos do quadro, possibilitando a ultrapassagem destes por aqueles, nas promoções]. Nunca se pensou que chegasse a um golpe de Estado.
Entretanto, os capitães continuavam com o movimento, sem que o regime nada fizesse, nem para os apaziguar nem para os reprimir...
Bem, na remodelação de outubro de 1973, o novo ministro da Defesa, para surpresa de toda a gente, é o Silva Cunha, imposto pelo Américo Tomás. E o Marcelo exige a minha permanência no governo, para que eu não fique com a imagem “do rato que abandona o navio”. Perguntei-lhe se estávamos num naufrágio.
E os capitães?
Bem, é nessa altura que o Marcelo me diz que a questão dos capitães era muito mais profunda do que ele pensava... Passa um mês, ou dois, entretanto dá-se a denúncia sobre o massacre de Wiriamu [atrocidades cometidas pelo Exército na província de Tete, Moçambique] e o Marcelo entra em negação: “Não é possível, isso seria a desonra das Forças Armadas!” O Baltasar disse-me: “Antes não fosse possível...” Ele tinha a informação. Entretanto, o Marcelo recebe, alarmado, o Costa Gomes e o Spínola que, para choque dele, lhe aparecem fardados e lhe oferecem, a ele, a condução de um golpe de Estado!
Para neutralizar os ultras e o Tomás? E o Marcelo?
O Marcelo responde que não é homem para alinhar nisso. E, sem ouvir ninguém, comete um erro fatal: vai ter com o Tomás e conta-lhe tudo. E o Tomás, que era tudo menos estúpido, apesar dos seus maus discursos, diz-lhe: “Muito obrigado, senhor Presidente do Conselho. O problema que me traz passou a ser meu. Tenho de lhe pedir que continue a liderar um governo de gestão.” E o Marcelo sai de Belém em gestão! Sem poder algum! O Baltasar Rebelo de Sousa, quando o soube, ficou verde! Na fase final, o Marcelo reaproxima-se do Costa Gomes e é o Costa Gomes que o manda ir para o Carmo [quartel-general da GNR, onde o Presidente do Conselho se refugiou, na madrugada do 25 de Abril] de onde, supostamente, sairia “em grande”...
Não foi assim. Depois, quem emerge é Spínola, não Costa Gomes...
No dia 25 de abril, às 7h30 da manhã, eu telefono ao Marcelo, e digo-lhe que vou para o ministério, e ele diz-me que faço bem. Mas, às 11 horas, quando lhe liguei de novo para fazer o ponto da situação, ele, já muito nervoso, perguntou-me se eu sabia onde estava o Costa Gomes. Andava desesperadamente a procurá-lo... Mas o general já estava incontactável. Mais tarde, foi o Feytor Pinto que lhe sugeriu que, então, falasse com o Spínola.
COMO SOARES INVENTOU O “REPUBLICANO, SOCIALISTA E LAICO”
Sabemos o resto. Entretanto, em 1975, o senhor vai para Espanha.
Não me perseguiram, mas não tinha trabalho e tinha quatro filhos para criar.
Dedica-se à gestão de empresas e regressa, muito mais tarde, em 1981, a convite de Ramalho Eanes já Presidente da República. Como foi esse contacto com o Eanes?
É quando o Eanes se recandidata, em 1981, contra o general Soares Carneiro, um homem muito à direita do Marcelo Caetano... Eu já tinha feito uma aproximação às pessoas, o meu trabalho era reconhecido em Espanha, tinha boas relações com a nossa embaixada, tinha havido o 25 de Novembro, a AD estava no poder... No início do ano, o José Rabaça [industrial beirão, conterrâneo, amigo e grande apoiante de Ramalho Eanes] contactou-me, dizendo que o Eanes tinha apreço por mim e que insistia para que voltasse para Portugal.
E Mário Soares?
No ano seguinte, estava eu como vice-presidente da AIP, convidámos os líderes partidários para sessões de esclarecimento. Lucas Pires foi um falhanço, o Mota Pinto, meia sala, Mário Soares sala cheia. E é aí que o Mário Soares chega ao pé de mim e faz-me uma festa: “Meu querido colega de faculdade! Eu estava no exílio quando o senhor esteve no governo e sei que fez tudo para que eu voltasse! Agora, quero dar-lhe um abraço!” Houve muitas palmas e eu fiquei conquistado pelo gajo! Como primeiro-ministro, chamava-me – e o Eanes ficava pior do que uma barata...
Depois esteve no MASP [Movimento de Apoio de Soares à Presidência]. No livro O Benefício da Dúvida, fala da origem da expressão “republicano, socialista e laico”, com a qual Soares se apresentou para o segundo mandato...
Foi numa reunião num restaurante, em Paço de Arcos, encontro organizado pelo meu amigo Gomes Mota [mandatário das duas primeiras candidaturas]. Soares diz ao Almeida Santos que ele é o seu braço-esquerdo – porque ficava-lhe mal dizer “direito”... Também estava o Manuel José Homem de Mello, o que levou o Soares a dizer que até tinha um conde [de Águeda] na sua candidatura, tão republicana...
E o senhor era o católico...
E ministro do antigo regime... Ele tinha tudo! É um jantar em que Soares elogia o “borrego” e o dono do restaurante, ofendido, diz que era cabrito. E Almeida Santos justifica que “o senhor Presidente da República não chama filho de cabra a ninguém”... E também em que Soares acaba com um charuto e pede que não o denunciem à Maria de Jesus, porque “este médico que ela lhe tinha arranjado era um chato”... [Risos.]
Imagino. Mas... E o “republicano, socialista e laico”?
Bom, o PSD tinha anunciado o apoio. E ele queria definir bem as águas. Inicialmente, defende uma outra formulação: republicano, socialista e agnóstico. E fui eu que sugeri: “Não diga ‘agnóstico’, homem. Diga ‘laico’. Muitos como eu, que são católicos, mas aceitam o Estado laico, identificar-se-ão melhor com essa expressão!”
E Manuel José Homem de Mello não queria substituir o “socialista” por “democrático”?
Queria. O que motivou outra graça do Soares: “Ainda bem que você, um aristocrata, não quer substituir a palavra ‘republicano’... Isso é que o meu pai não me perdoaria!”
O senhor já vinha da primeira candidatura... Essa tinha sido mais difícil...
Sim, quando estávamos nos célebres 8%, o Jaime Gama aconselhou-o a desistir, a bem do prestígio dele e do PS. O Soares nunca lhe perdoou essa.
E a sua entrada no PS?
Foi em 1991, já com o Jorge Sampaio. Eu era para ser anunciado com grande pompa, no Porto: “Vão entrar o Silva Lopes e o Silva Pinto!” Chego lá e o Sampaio, muito comprometido: “Tenha paciência, mas o Silva Lopes não vem... Você entra, mas já vai ser sem grande espalhafato...” E assim entrei e lá fui eleito deputado em 1991.
Mais tarde, o António Guterres reabilitou outro ex-ministro de Marcelo Caetano, chamando, para o governo, Veiga Simão. Não o chamou a si?
Não. Mas, não obstante, recebeu-me sempre com cordialidade e dei-lhe um conselho ou dois, que ele aceitou, nomeadamente a passagem do Guilherme d’Oliveira Martins para as Finanças. Nessa altura, lá pensei que era desta que ia para a Economia. Mas foi o Braga da Cruz... O Jorge Coelho telefonou-me a dizer que o Guterres me ia convidar para administrador não-executivo da Telecom... Mandei-os à fava.
AS PREOCUPAÇÕES QUE MARCELO REBELO DE SOUSA DAVA AO PAI
E conheceu Marcelo Rebelo de Sousa em que circunstâncias?
Na sala VIP do aeroporto, quando o Baltasar, já ministro, regressava, definitivamente, de Moçambique. Nessa altura, ele namorava uma Beleza [Teresa Beleza] e passou o tempo aos beijos com a namorada. Ao ponto [risos] de um senhor de idade ter ido ter com ele pedir-lhe que se “moderasse”. O Marcelo desfez-se em desculpas, dando toda a razão ao homem e, ato contínuo... prosseguiu com os beijos!
E ela?
Ela não estava desagradada... Ouvi desabafos ao Baltasar, sobre o filho Marcelo, que nunca repeti a ninguém...
Mas que me vai contar agora...
O pai tinha um grande orgulho nele. Mas um dia disse-me: “O senhor não sabe o susto permanente em que eu vivo, a pensar no que o meu filho Marcelo vai fazer no dia seguinte...” Quando ele foi para governador de Moçambique, levou os mais novos, mas o Marcelo, que estava na faculdade, ficou em Lisboa. E o Caetano disse ao Baltasar: “Não se preocupe, que desse rapaz cuido eu, como se fosse meu filho.” Aos sábados, o Marcelo Caetano reunia a família e ele largava os filhos e ia para a sala falar de política com o Marcelo Rebelo de Sousa. Depois, sentiu-se traído, por causa de artigos que o rapaz escreveu e por causa de informações secretas que terá passado cá para fora. Recusou ir ao casamento dele, dizendo, cruelmente, ao pai Baltasar: “Eu não vou aos casamentos de safados.” O que era, realmente, um exagero...
Continuou em contacto com ele?
Sim. Não são contactos frequentes, mas conheço-o bem. Tenho muito receio de que ele não tenha os oito anos dos mandatos em Belém, inteiros, assim tão pacíficos. Porque ele é um sprinter, não um corredor de fundo... Ele tem de sentir que é amado pelas pessoas. E isso dá-lhe uma grande fragilidade.
Sobre a "remodelação" do Governo de Marcello Caetano, em Novembro de 1973 a revista Observador de então, na edição de 16.11.1973 relatava assim:
E o comentário às eleições realizadas, na edição de 2 de Novembro desse ano:
O modo como Cid viu as eleições, na edição de 26 de Outubro de 1973:
E o modo como se equacionava a Defesa Nacional, um dos "grandes problemas nacionais" que a revista tinha vindo a elencar desde a edição de 29 de Junho ( e este era o 18º da série), na mesma edição de 28 de Outubro de 1973, escassos seis meses antes do 25 de Abril de 1974:
E já agora, porque aparece na edição de 14 de Setembro 1973, do Observador, uma imagem e texto a propósito do "maior supermercado do continente africano": o Jumbo de Luanda, do grupo Pão de Açúcar. Luanda tinha então cerca de 600 mil habitantes...
domingo, abril 21, 2019
Fernando Rosas e a captura da memória
O Correio da Manhã de hoje publica uma entrevista com Fernando Rosas, o detentor do discurso politicamente correcto acerca do salazarismo, do golpe do 25 de Abril de 1974 e do que se passou a seguir.
Atente-se no modo como o figurão que se inscreveu no PCP em 1961 e ajudou a fundar o MRPP no final dessa década ( aqui completamente omitido como facto) define o discurso sobre tais fenómenos:
Está aí tudo: fascismo, colonialismo, Salazarismo, PIDE ( Pemiche e Caxias), PREC e Revolução, o supremo estado de espírito deste marxista empedernido que teve um tio que foi ministro de Salazar.
Esta besta tem todos os caminhos livres e todas as portas abertas para debitar este discurso que dura há 45 anos a esta parte, a perfazer no próximo dia 25...
Atente-se no modo como o figurão que se inscreveu no PCP em 1961 e ajudou a fundar o MRPP no final dessa década ( aqui completamente omitido como facto) define o discurso sobre tais fenómenos:
Está aí tudo: fascismo, colonialismo, Salazarismo, PIDE ( Pemiche e Caxias), PREC e Revolução, o supremo estado de espírito deste marxista empedernido que teve um tio que foi ministro de Salazar.
Esta besta tem todos os caminhos livres e todas as portas abertas para debitar este discurso que dura há 45 anos a esta parte, a perfazer no próximo dia 25...
sábado, abril 20, 2019
Eduardo e as pazadas de ajustes directos
Eduardo Manuel Hintze da Paz Ferreira é um açoriano, um antigo jornalista socialista, dito ( pelo próprio) co-fundador do PS, amigo do falecido Medeiros Ferreira, professor universitário desde 1977 e que também exerce advocacia, daquela rendosa, dos pareceres por ajuste directo e é casado com a actual ministra da Justiça, a luso-angolana Van Dunem.
A Paz Ferreira tem esta "equipa de sonho" na sua firma com outra sócia, desde 2013 e apresentada como Ana Perestrelo de Oliveira, mas também com apelido Paz Ferreira, filha de Maria do Patrocínio Paz Ferreira e neta de Artur António Paz Ferreira. Tudo gente muito bem. Instalada.
Em 2011 o Jornal de Negócios entrevistou este ramo dos Paz Ferreira, traçando-lhe um perfil que vale a pena ler, para entender a razão da sua proximidade ao poder executivo e até judicial e judiciário ( a escolha da actual PGR deve-se à sua mulher, ministra).
"Eduardo Paz Ferreira é professor no IDEFF, Instituto de Direito Económico, Financeiro e Fiscal. “Não sou muito vaidoso, gostava de não ser, mas uma coisa que me orgulha é o trabalho que tenho feito na universidade”. É um catedrático heterodoxo. Do tipo de trazer Catherine Deneuve à liça quando pensa nas razões por que é de esquerda. Mestre da provocação. Não cita Marx uma única vez. Esteve sempre na esfera do Partido Socialista. Um dia, Eanes convidou-o para dirigir a informação da televisão pública. Amigo de Medeiros Ferreira e de outros açorianos. Nostálgico no ADN. É casado com a procuradora Francisca van Dunem, têm um filho de 13 anos. Pertence a uma geração que, segundo ele, traiu os seus ideais. Recusou a política. Mesmo que não goste da designação, é um homem de sucesso. Nasceu nos Açores há 57 anos.
Ainda se lembra do tempo em que foi chefe de gabinete de Medeiros Ferreira, 1976/ 77? Ou isso parece outra encarnação?
Não, lembro-me muito bem. Foi uma grande aceleração de ritmo de vida. Aos 23 anos não se era chefe de gabinete, muito menos no ministério dos Negócios Estrangeiros. Havia situações embaraçosas. Ter de chamar um embaixador de 60 anos e dar-lhe uma descompostura porque ele tinha feito qualquer coisa de errado. O tempo passa tanto que a maior parte deles estão reformados, e já não conheço a nova geração. Mas passei a interessar-me muito mais pelas questões de política externa e ainda tenho muitos amigos nesse meio.
O que é que aprendeu? Queria que trouxesse o oceano que viveu naquela experiência tão colada ao 25 de Abril.
Passei no jornalismo pela República. Não foram anos fáceis. Foi a transição para um mundo mais real e sujeito a regras.
Presumo que a relação com Medeiros Ferreira venha dos Açores. E não sei se a relação com a comunicação social não se faz via outro açoriano, Mário Mesquita.
Essa fileira açoriana. Hoje em dia, apesar de termos um Presidente da Assembleia da República que é açoriano, já desapareceu o mito do terrível lobby açoriano, uma espécie de máfia.
Desapareceu?
Conheci o Mário Mesquita na JEC, ele achou que eu era recrutável para o campo dos intelectuais contestatários. Os Açores eram marcados por uma grande pobreza. A imagem mais chocante que tenho é a dos trabalhadores rurais que ficavam parados ao pé das igrejas; as pessoas que precisavam de um trabalhador iam lá recrutá-los, ao dia. A comida deles era um pão de milho com pimenta da terra em cima, no máximo com uma sardinha ou um carapau. Ou batatas cozidas com pimenta. Estou a falar de um período nos anos 60 em que as coisas tinham melhorado, já tinha havido muita emigração.
O meu pai e o meu avô eram advogados. Toda a lógica me levaria a vir fazer um curso. Não havia sequer universidade nos Açores. Nesse tempo os cursos respeitáveis eram poucos: Direito, Medicina, Engenharia.
Letras para as meninas.
Sim. Um livro de que gostava imenso: “Os Passos em Volta”.
Já o tinha lido quando o encontrou na redacção?
Seguramente. Nessa redacção estava um dos meus maiores amigos, o Alface. Era uma das pessoas mais impressionantes que encontrei, de generosidade, amizade, disponibilidade. Tinha uma grande dificuldade em lidar com o quotidiano. A criatividade e qualidade de escrita dele eram ímpares. Mas acabou por optar por um low profile e uma discrição muito grandes.
Isto permite-me voltar ao meu caso. Quando faço a opção universitária, faço uma opção de recuo em relação a essa intervenção. Durante uns anos, depois de sair do jornalismo, tive uma coluna no Expresso, e a certa altura não me apeteceu mais.
Consegue dissecar melhor as razões pelas quais não interveio, ou deixou de intervir da mesma maneira?
Costumava citar a Catherine Deneuve, por estranho que pareça. Um jornalista dizia-lhe: “Você diz que é uma mulher de esquerda mas anda aí com o Saint Laurent. Em que é que se traduz ser de esquerda?”. Ela respondeu: “Faço bem as minhas coisas, porto-me bem, faço o que tenho que fazer”. Talvez eu tenha feito uma interpretação redutora da minha vida: se fizer bem aquilo que tenho de fazer, estou a contribuir para um mundo melhor. Se der bem aulas, se ajudar à formação das pessoas, isso é uma contribuição porventura mais válida do que ser mais um deputado no grupo parlamentar com disciplina de voto.
Hoje em dia não estou convencido de que isto seja suficiente. Portarmo-nos bem é um pressuposto, mas temos mais obrigações com a sociedade. Como qualquer português, tendo a ser muito crítico de certas pessoas que actuam na esfera política, ou mesmo profissional, e uso palavras duras. A [minha mulher] Francisca diz-me: “Não tens legitimidade para criticar porque não fizeste este percurso, não tentaste isto. Só podias criticar se tivesses tido a coragem que ele teve”. É um raciocínio muito bom e muito certo. Vem de uma pessoa – mas sou suspeito a falar dela – cuja percepção da vida e do mundo é extraordinária e iluminante.
A sua intervenção tem-se circunscrito à universidade?
A Paz Ferreira tem esta "equipa de sonho" na sua firma com outra sócia, desde 2013 e apresentada como Ana Perestrelo de Oliveira, mas também com apelido Paz Ferreira, filha de Maria do Patrocínio Paz Ferreira e neta de Artur António Paz Ferreira. Tudo gente muito bem. Instalada.
Em 2011 o Jornal de Negócios entrevistou este ramo dos Paz Ferreira, traçando-lhe um perfil que vale a pena ler, para entender a razão da sua proximidade ao poder executivo e até judicial e judiciário ( a escolha da actual PGR deve-se à sua mulher, ministra).
"Eduardo Paz Ferreira é professor no IDEFF, Instituto de Direito Económico, Financeiro e Fiscal. “Não sou muito vaidoso, gostava de não ser, mas uma coisa que me orgulha é o trabalho que tenho feito na universidade”. É um catedrático heterodoxo. Do tipo de trazer Catherine Deneuve à liça quando pensa nas razões por que é de esquerda. Mestre da provocação. Não cita Marx uma única vez. Esteve sempre na esfera do Partido Socialista. Um dia, Eanes convidou-o para dirigir a informação da televisão pública. Amigo de Medeiros Ferreira e de outros açorianos. Nostálgico no ADN. É casado com a procuradora Francisca van Dunem, têm um filho de 13 anos. Pertence a uma geração que, segundo ele, traiu os seus ideais. Recusou a política. Mesmo que não goste da designação, é um homem de sucesso. Nasceu nos Açores há 57 anos.
Ainda se lembra do tempo em que foi chefe de gabinete de Medeiros Ferreira, 1976/ 77? Ou isso parece outra encarnação?
Não, lembro-me muito bem. Foi uma grande aceleração de ritmo de vida. Aos 23 anos não se era chefe de gabinete, muito menos no ministério dos Negócios Estrangeiros. Havia situações embaraçosas. Ter de chamar um embaixador de 60 anos e dar-lhe uma descompostura porque ele tinha feito qualquer coisa de errado. O tempo passa tanto que a maior parte deles estão reformados, e já não conheço a nova geração. Mas passei a interessar-me muito mais pelas questões de política externa e ainda tenho muitos amigos nesse meio.
O que é que aprendeu? Queria que trouxesse o oceano que viveu naquela experiência tão colada ao 25 de Abril.
Passei no jornalismo pela República. Não foram anos fáceis. Foi a transição para um mundo mais real e sujeito a regras.
Presumo que a relação com Medeiros Ferreira venha dos Açores. E não sei se a relação com a comunicação social não se faz via outro açoriano, Mário Mesquita.
Essa fileira açoriana. Hoje em dia, apesar de termos um Presidente da Assembleia da República que é açoriano, já desapareceu o mito do terrível lobby açoriano, uma espécie de máfia.
Desapareceu?
Continua a existir? Durante muitos anos havia a ideia, no próprio PS, de que havia um grupo açoriano que tinha uma agenda própria. Hoje em dia isso está bastante desfeito.
Também isso. Essa fidelidade, essa entreajuda açoriana já está muito longe. O Medeiros Ferreira tem mais dez, 12 anos que eu, mas conheço-o dos Açores. Era um jovem aluno, devia estar no 3º ano, quando o Medeiros Ferreira foi expulso das universidades, e passou uns tempos nos Açores.
Antes de se exilar na Suíça.
O Medeiros Ferreira causava na sociedade açoriana um de dois sentimentos: ou enorme admiração, ou a mais profunda desconfiança e pavor por aquele potencial subvertor dos filhos. Começou a falar comigo numa circunstância extraordinária: por ser uma das poucas pessoas que compravam e liam A Bola. A nossa amizade começou por aí.
Benfica, portanto.
Embora nesses tempos o meu coração fosse bastante Académica. Sempre pensei que ia para Coimbra onde os meus pais e as minhas irmãs se tinham formado. Nessa idade já tinha uma grande presunção de ser um intelectual, e aquilo de ler A Bola envergonhava-me um bocado. Foi uma grande coincidência que o Medeiros Ferreira também gostasse de discutir futebol. Ele tinha uma atitude impressionante, era a negação de tudo o que eu pensava que era um intelectual.
Como é que pensava que era?
Achava que ser um intelectual era ser muito sisudo, muito chato, não ir a festas, não dançar, não namorar. Imagens de épocas já remotas. O Medeiros Ferreira só queria festas, namorar meninas bonitas, divertir-se. Ele é que tinha razão. Acabou por me passar algum desse espírito lúdico. Nos Açores havia uma passagem de facho, de mão em mão, entre as gerações. Os mais velhos, antes de virem para a universidade, deixavam lá uma espécie de filhos espirituais. O Medeiros Ferreira teria um filho espiritual, que era o Jaime Gama, que, no entanto, pelo menos na idade adulta, nunca se quis reconhecer como tal.
A incompatibilidade começou logo aí?
Ou o isolamento já não é o mesmo, e a necessidade de as pessoas se protegerem não é a mesma.
Também isso. Essa fidelidade, essa entreajuda açoriana já está muito longe. O Medeiros Ferreira tem mais dez, 12 anos que eu, mas conheço-o dos Açores. Era um jovem aluno, devia estar no 3º ano, quando o Medeiros Ferreira foi expulso das universidades, e passou uns tempos nos Açores.
Antes de se exilar na Suíça.
O Medeiros Ferreira causava na sociedade açoriana um de dois sentimentos: ou enorme admiração, ou a mais profunda desconfiança e pavor por aquele potencial subvertor dos filhos. Começou a falar comigo numa circunstância extraordinária: por ser uma das poucas pessoas que compravam e liam A Bola. A nossa amizade começou por aí.
Benfica, portanto.
Embora nesses tempos o meu coração fosse bastante Académica. Sempre pensei que ia para Coimbra onde os meus pais e as minhas irmãs se tinham formado. Nessa idade já tinha uma grande presunção de ser um intelectual, e aquilo de ler A Bola envergonhava-me um bocado. Foi uma grande coincidência que o Medeiros Ferreira também gostasse de discutir futebol. Ele tinha uma atitude impressionante, era a negação de tudo o que eu pensava que era um intelectual.
Como é que pensava que era?
Achava que ser um intelectual era ser muito sisudo, muito chato, não ir a festas, não dançar, não namorar. Imagens de épocas já remotas. O Medeiros Ferreira só queria festas, namorar meninas bonitas, divertir-se. Ele é que tinha razão. Acabou por me passar algum desse espírito lúdico. Nos Açores havia uma passagem de facho, de mão em mão, entre as gerações. Os mais velhos, antes de virem para a universidade, deixavam lá uma espécie de filhos espirituais. O Medeiros Ferreira teria um filho espiritual, que era o Jaime Gama, que, no entanto, pelo menos na idade adulta, nunca se quis reconhecer como tal.
A incompatibilidade começou logo aí?
Nesse tempo a relação era boa. Mas creio que todos temos a noção de quanto ele foi importante. Depois dessa geração foi o Mário Mesquita, que está entre mim e o Medeiros Ferreira, que ficou como líder intelectual e político da geração juvenil açoriana. Lembro-me de uma pessoa que hoje em dia não tem qualquer actividade política, professor de Filosofia da Universidade Nova, Paulo Jorge Melo. Uma vez, tinha eu uns 13 anos, sabia que era muito bom aluno, veio falar comigo: “Tu é que ganhaste os jogos florais?, convém que nós, os “génios”, nos conheçamos uns aos outros”. [riso]. Aqui “génios”, sempre entre aspas.
Num ambiente fechado como eram os Açores, era normal e expectável que os génios se dessem e se conhecessem entre si. Que se considerassem especiais.
Especiais, seguramente. Olhados pelas restantes pessoas com alguma desconfiança, alguma estranheza.
Com expectativa, também? Eram aqueles que podiam levar a alma açoriana a bom porto.
Ponta Delgada era uma cidade opressiva. Lembro-me de ter 14, 15 anos, de ler a “Aparição”, do Vergílio Ferreira, e ficar surpreendido com a ideia de que Évora podia ser tão parecida com Ponta Delgada. Havia o problema comum das pequenas cidades, em que se conhecem os movimentos de toda a gente. O Melo Antunes viveu uns anos nos Açores (era casado com uma açoriana), e mantinha uma tertúlia. Um dia por semana íamos a casa dele, e no dia a seguir passavam vários senhores no escritório do meu pai a dizer: “Lá está o seu filho a ir a casa do Melo Antunes”. Havia uma censura social e tentativa de abafamento.
O Melo Antunes era outro subversor.
Começa por ir para os Açores um pouco como castigo, para estar fora de áreas mais perigosas. O isolamento de Ponta Delgada era enorme. Os jornais de Lisboa chegavam com dois dias de atraso, os jornais locais faziam-se com base na Emissora Nacional. Não havia sequer telex, o que era o mais moderno em termos de comunicação. O próprio consumo era feito essencialmente de produtos regionais. Vinha a Lisboa com frequência porque a minha mãe era continental, e por exemplo, Larangina, era uma surpresa fantástica para nós! Hoje em dia, para meu desgosto, as bananas açorianas, que são excelentes mas não têm muito bom aspecto, são substituídas por bananas Chiquita, os ananases pelos abacaxis. Os Açores passaram de uma situação de isolamento para uma de banalização excessiva.
Fale-me da estratificação social que observava à sua volta.
Em São Miguel havia os terratenentes que dominavam toda a ilha. Tinham dois símbolos, o Clube Micaelense e o Café Central. O Clube Micaelense era extremamente exclusivo e elitista. O Café Central, que ficava mesmo ao pé, era um café de pessoas ricas, profissionais liberais, onde não passaria pela cabeça a um trabalhador de uma loja ir tomar café. Mais tarde, o dono, um personagem fabuloso de muito mau feitio, que tinha o segredo de uns gelados aprendido na América, que não passou nem à filha, aborreceu-se por a democracia ter chegado ao Café Central e fechou-o. Era uma sociedade muito fechada e estratificada. As pessoas casavam-se entre si. O meu pai casou com uma continental e isso foi um grande choque para a minha avó.
Mas era uma continental Hintze Ribeiro.
Ponta Delgada era uma cidade opressiva. Lembro-me de ter 14, 15 anos, de ler a “Aparição”, do Vergílio Ferreira, e ficar surpreendido com a ideia de que Évora podia ser tão parecida com Ponta Delgada. Havia o problema comum das pequenas cidades, em que se conhecem os movimentos de toda a gente. O Melo Antunes viveu uns anos nos Açores (era casado com uma açoriana), e mantinha uma tertúlia. Um dia por semana íamos a casa dele, e no dia a seguir passavam vários senhores no escritório do meu pai a dizer: “Lá está o seu filho a ir a casa do Melo Antunes”. Havia uma censura social e tentativa de abafamento.
O Melo Antunes era outro subversor.
Começa por ir para os Açores um pouco como castigo, para estar fora de áreas mais perigosas. O isolamento de Ponta Delgada era enorme. Os jornais de Lisboa chegavam com dois dias de atraso, os jornais locais faziam-se com base na Emissora Nacional. Não havia sequer telex, o que era o mais moderno em termos de comunicação. O próprio consumo era feito essencialmente de produtos regionais. Vinha a Lisboa com frequência porque a minha mãe era continental, e por exemplo, Larangina, era uma surpresa fantástica para nós! Hoje em dia, para meu desgosto, as bananas açorianas, que são excelentes mas não têm muito bom aspecto, são substituídas por bananas Chiquita, os ananases pelos abacaxis. Os Açores passaram de uma situação de isolamento para uma de banalização excessiva.
Fale-me da estratificação social que observava à sua volta.
Em São Miguel havia os terratenentes que dominavam toda a ilha. Tinham dois símbolos, o Clube Micaelense e o Café Central. O Clube Micaelense era extremamente exclusivo e elitista. O Café Central, que ficava mesmo ao pé, era um café de pessoas ricas, profissionais liberais, onde não passaria pela cabeça a um trabalhador de uma loja ir tomar café. Mais tarde, o dono, um personagem fabuloso de muito mau feitio, que tinha o segredo de uns gelados aprendido na América, que não passou nem à filha, aborreceu-se por a democracia ter chegado ao Café Central e fechou-o. Era uma sociedade muito fechada e estratificada. As pessoas casavam-se entre si. O meu pai casou com uma continental e isso foi um grande choque para a minha avó.
Mas era uma continental Hintze Ribeiro.
Não. Chamo-me Hintze porque a minha avó, mãe do meu pai, exigiu que ficasse o apelido dela no meu nome. Não tenho nenhum nome de família da minha mãe, tenho três do meu pai. Ironias da vida, o meu pai morreu muito cedo e foi a minha mãe, a quem a minha avó tinha feito a vida muito difícil, a tratar dela.
Quando é que teve a noção de que era um menino bem nascido cujo destino social dificilmente seria ficar nos Açores? É também uma maneira de perguntar pelos destinos que lhe foram traçando, e que foi traçando para si, além dos Açores.
Conheci o Mário Mesquita na JEC, ele achou que eu era recrutável para o campo dos intelectuais contestatários. Os Açores eram marcados por uma grande pobreza. A imagem mais chocante que tenho é a dos trabalhadores rurais que ficavam parados ao pé das igrejas; as pessoas que precisavam de um trabalhador iam lá recrutá-los, ao dia. A comida deles era um pão de milho com pimenta da terra em cima, no máximo com uma sardinha ou um carapau. Ou batatas cozidas com pimenta. Estou a falar de um período nos anos 60 em que as coisas tinham melhorado, já tinha havido muita emigração.
O meu pai e o meu avô eram advogados. Toda a lógica me levaria a vir fazer um curso. Não havia sequer universidade nos Açores. Nesse tempo os cursos respeitáveis eram poucos: Direito, Medicina, Engenharia.
Como, aliás, o Prof. Marcelo Caetano declarava solenemente nas aulas de Direito. A expressão que ele usava era Escola Superior de Dactilografia. É verdade que durante décadas só houve uma mulher doutorada em Direito, a Prof. Isabel Magalhães Colaço, que tinha a seu favor ser filha de um professor de Direito. Mesmo assim, muitos dos professores tratavam-na por Sr. D. Isabel, o que a indignava. Nas profissões jurídicas as pessoas tendem a esquecer que antes do 25 de Abril as mulheres não podiam ser juízas, não podiam ser do Ministério Público. Podiam ser conservadoras e notárias. Não podiam ser diplomatas. No meu tempo os rapazes de Direito iam em procissão à faculdade de Letras para ver as meninas. Hoje em dia suponho que é o contrário.
Era previsível que cursasse Direito, mercê da sua história familiar.
Fui para Direito por inércia. Não queria ser médico. A tradição familiar acabou por pesar. Ajudava muito o meu pai quando era jovem. E Direito era uma coisa que dava a sensação de nos dar armas boas para intervir socialmente.
Queria mais intervir socialmente, mudar o mundo, do que ser advogado?
Costumo perguntar aos meus alunos por que é que escolheram Direito. O ano passado fiquei em estado de choque, todos responderam: “Para ganhar dinheiro”. Talvez esta geração seja mais franca, assume que quer ganhar dinheiro. Mas ninguém vai para Direito pela ideia de que pode lutar por um mundo melhor, pode ajudar a criar regras melhores. O último que me lembro de ter dado uma resposta engraçada tinha ido para Direito por causa do Hill Street Blues [riso].
(Tenho um filho de 13 anos que durante muitos anos resistiu ferozmente à ideia de ir para Direito. Identificava Direito com o facto de a mãe e o pai trabalharem muito. “Doutores, já chega nesta casa”. A partir do Boston Legal, que viu comigo, a ideia dele mudou completamente. Passou a dizer: “Quero ir para advogado, mas não é para fazer as coisas que o pai faz, é para ir para o tribunal”.)
Queria então mudar o mundo? Temos estado a ver o contexto e o seu percurso, mas ainda não sei quem era este jovem aos 17 anos.
Interrogo-me muito sobre o percurso que fiz, porque é que o fiz. Podia ter-me mantido no jornalismo, o que aliás me agradava bastante. Podia ter feito política, a partir da experiência do ministério dos Negócios Estrangeiros. Podia ter feito uma carreira na área da gestão. Acabei por fazer uma carreira universitária. Entro para a faculdade no concurso de 1977, o primeiro depois da confusão. Em geral toda a gente dizia: “Formidável, ainda bem que foi capaz de abandonar outros mundos de mais glória pelo universitário”. A única pessoa que me passou uma descompostura foi o General Eanes [riso], que me disse: “Estou muito triste com esta notícia. Advogados é o que mais há para aí, agora, pessoas com as suas qualidades…”. Na altura, tinha sido convidado para director de informação da RTP.
Foi uma carreira jornalística tão séria assim?
Fui para Direito por inércia. Não queria ser médico. A tradição familiar acabou por pesar. Ajudava muito o meu pai quando era jovem. E Direito era uma coisa que dava a sensação de nos dar armas boas para intervir socialmente.
Queria mais intervir socialmente, mudar o mundo, do que ser advogado?
Costumo perguntar aos meus alunos por que é que escolheram Direito. O ano passado fiquei em estado de choque, todos responderam: “Para ganhar dinheiro”. Talvez esta geração seja mais franca, assume que quer ganhar dinheiro. Mas ninguém vai para Direito pela ideia de que pode lutar por um mundo melhor, pode ajudar a criar regras melhores. O último que me lembro de ter dado uma resposta engraçada tinha ido para Direito por causa do Hill Street Blues [riso].
(Tenho um filho de 13 anos que durante muitos anos resistiu ferozmente à ideia de ir para Direito. Identificava Direito com o facto de a mãe e o pai trabalharem muito. “Doutores, já chega nesta casa”. A partir do Boston Legal, que viu comigo, a ideia dele mudou completamente. Passou a dizer: “Quero ir para advogado, mas não é para fazer as coisas que o pai faz, é para ir para o tribunal”.)
Interrogo-me muito sobre o percurso que fiz, porque é que o fiz. Podia ter-me mantido no jornalismo, o que aliás me agradava bastante. Podia ter feito política, a partir da experiência do ministério dos Negócios Estrangeiros. Podia ter feito uma carreira na área da gestão. Acabei por fazer uma carreira universitária. Entro para a faculdade no concurso de 1977, o primeiro depois da confusão. Em geral toda a gente dizia: “Formidável, ainda bem que foi capaz de abandonar outros mundos de mais glória pelo universitário”. A única pessoa que me passou uma descompostura foi o General Eanes [riso], que me disse: “Estou muito triste com esta notícia. Advogados é o que mais há para aí, agora, pessoas com as suas qualidades…”. Na altura, tinha sido convidado para director de informação da RTP.
Foi uma carreira jornalística tão séria assim?
Talvez porque houvesse muito menos concorrência, fui bastante procurado.
Naquela época, o jornalismo seria uma forma, como a política, de intervir no mundo.
Seria. O jornalismo nesse tempo era mais heróico e de grandes causas. Vivo o período de 1974/75 a trabalhar na República, de onde saio com a tomada de poder dos trabalhadores. Ao mesmo tempo trabalhava na Emissora Nacional, onde tive o privilégio de trabalhar com o Herberto Hélder. O Herberto tinha trabalhado na Emissora Nacional uns 20 anos antes, e tinha sido expulso por razões políticas e outras morais; foi reintegrado naquela altura. Fazia um trabalho discretíssimo de redactor de notícias internacionais. Foi um deslumbramento para mim.
Já era o Herberto Hélder?
Sim. Um livro de que gostava imenso: “Os Passos em Volta”.
Seguramente. Nessa redacção estava um dos meus maiores amigos, o Alface. Era uma das pessoas mais impressionantes que encontrei, de generosidade, amizade, disponibilidade. Tinha uma grande dificuldade em lidar com o quotidiano. A criatividade e qualidade de escrita dele eram ímpares. Mas acabou por optar por um low profile e uma discrição muito grandes.
Isto permite-me voltar ao meu caso. Quando faço a opção universitária, faço uma opção de recuo em relação a essa intervenção. Durante uns anos, depois de sair do jornalismo, tive uma coluna no Expresso, e a certa altura não me apeteceu mais.
Costumava citar a Catherine Deneuve, por estranho que pareça. Um jornalista dizia-lhe: “Você diz que é uma mulher de esquerda mas anda aí com o Saint Laurent. Em que é que se traduz ser de esquerda?”. Ela respondeu: “Faço bem as minhas coisas, porto-me bem, faço o que tenho que fazer”. Talvez eu tenha feito uma interpretação redutora da minha vida: se fizer bem aquilo que tenho de fazer, estou a contribuir para um mundo melhor. Se der bem aulas, se ajudar à formação das pessoas, isso é uma contribuição porventura mais válida do que ser mais um deputado no grupo parlamentar com disciplina de voto.
Hoje em dia não estou convencido de que isto seja suficiente. Portarmo-nos bem é um pressuposto, mas temos mais obrigações com a sociedade. Como qualquer português, tendo a ser muito crítico de certas pessoas que actuam na esfera política, ou mesmo profissional, e uso palavras duras. A [minha mulher] Francisca diz-me: “Não tens legitimidade para criticar porque não fizeste este percurso, não tentaste isto. Só podias criticar se tivesses tido a coragem que ele teve”. É um raciocínio muito bom e muito certo. Vem de uma pessoa – mas sou suspeito a falar dela – cuja percepção da vida e do mundo é extraordinária e iluminante.
O que tenho feito muito nos últimos tempos é lutar na universidade, pela intervenção da universidade. Organizo imensas conferências, debato todos os temas de actualidade, e acho que estou a conseguir fazer a síntese entre estes dois mundos. Não faço uma intervenção no sentido político-partidária, mas não entro nada na linha de os partidos serem a desgraça. Têm perversões, mas são necessários.
Ainda não consegui perceber porque é que numa determinada fase desviou a rota. Até ao doutoramento não foi propriamente o aluno brilhante em relação ao qual se depositam grandes expectativas de uma carreira académica. É como se se tivesse demitido da possibilidade de ser um líder, de ser aquele que está na boca de cena.
Eu próprio me interrogo sobre isso. Temos percursos interiores que não conseguimos explicar. Há um tema que me fascina, o do acaso. Porque é que por um determinado dia termos dito sim ou não a nossa vida se vai transformar completamente? Não sei qual foi o sim ou não que disse, mas sei que em determinada altura fiz essa opção. Talvez o General Eanes tivesse alguma razão. Talvez fosse mais corajoso ter aceite ser director de informação na RTP, numa altura de consolidação do que poderia ser uma informação pluralista e democrática, do que refugiar-me na universidade. Talvez tivesse medo.
Medo de quê? Insegurança?
Não no sentido da precariedade das novas gerações, mas de perceber que o director de informação da RTP era um lugar mais do que exposto, um lugar cuja velocidade de rotação era muito grande.
Digo insegurança pessoal. Houve falta desse tipo de ambição?
Pertenço a uma geração que lidou muito mal com o sucesso. Os meus heróis favoritos, seja no cinema, seja na literatura, são mais os losers do que os winners. Há uns tempos, uma pessoa procurou-me para intervir junto de outra pessoa mais jovem: “O Sr. Dr., que é um homem de sucesso…”, e eu disse: “Isso é a pior coisa que me podem dizer”.
Estava a fazer género.
Não estou. Quando quero fazer auto-ironia digo que sou um homem de sucesso.
O que é que há de insultuoso nessa ideia de ser um homem de sucesso?
A interpretação social do que é um homem de sucesso. Aquele senhor teve um gesto que me sensibilizou ao vir pedir ajuda, mas a ideia de que me considerasse um homem de sucesso não me era agradável, porque os padrões dele não eram os mesmos que os meus. O que é um homem de sucesso na sociedade portuguesa? É alguém que tem muito dinheiro, que tem carros, poder.
Não só poder económico.
Não, mediático. Uma coisa que me faz impressão nos estudantes é que para eles o sucesso é entrar numa grande sociedade de advogados. Fazem toda a carreira, todo o curso, nessa busca. Alguns até são estudantes rebeldes, criativos, acessoriamente usam cabelos compridos, vestem-se mal. À medida que vão chegando ao fim do curso começam a usar gravata, formatam-se. Nas raparigas é especialmente assustador. No meu escritório recebo muitos pedidos de estágios, e quase invariavelmente a conversa é: “Sou uma pessoa ambiciosa, estou determinada a subir na vida, farei tudo o que é preciso para ter sucesso”. Nunca seleccionarei uma pessoa que me escreve isto. Mas escrevem isto porque foram formatados neste modelo. Há aqui uma linha muito fina entre o que é a ambição legítima e o que é a ambição medíocre.
Onde põe a sua linha?
A interpretação social do que é um homem de sucesso. Aquele senhor teve um gesto que me sensibilizou ao vir pedir ajuda, mas a ideia de que me considerasse um homem de sucesso não me era agradável, porque os padrões dele não eram os mesmos que os meus. O que é um homem de sucesso na sociedade portuguesa? É alguém que tem muito dinheiro, que tem carros, poder.
Não só poder económico.
Não, mediático. Uma coisa que me faz impressão nos estudantes é que para eles o sucesso é entrar numa grande sociedade de advogados. Fazem toda a carreira, todo o curso, nessa busca. Alguns até são estudantes rebeldes, criativos, acessoriamente usam cabelos compridos, vestem-se mal. À medida que vão chegando ao fim do curso começam a usar gravata, formatam-se. Nas raparigas é especialmente assustador. No meu escritório recebo muitos pedidos de estágios, e quase invariavelmente a conversa é: “Sou uma pessoa ambiciosa, estou determinada a subir na vida, farei tudo o que é preciso para ter sucesso”. Nunca seleccionarei uma pessoa que me escreve isto. Mas escrevem isto porque foram formatados neste modelo. Há aqui uma linha muito fina entre o que é a ambição legítima e o que é a ambição medíocre.
Onde põe a sua linha?
Toda a gente deve ter ambição, mas quando a ambição se mede por subir rapidamente numa sociedade de advogados ou numa consultora, torna-se pouco interessante para mim. Quero no meu escritório alguém que saiba trabalhar, que saiba de Direito, mas com quem possa falar de cinema, trocar impressões sobre livros.
Quais são os losers pelos quais tem carinho?
O que me tocava especialmente eram personagens como, no “Esplendor na Relva”, a Natalie Wood e o Warren Beatty, que sobrevivem, retomam a vida normal, mas tudo o que havia de esplendor na relva, desapareceu. Personagens que são perseguidas por uma espécie de maldição de destino, que inevitavelmente os apanhará, mais cedo ou mais tarde. Hoje sou mais seduzido por personagens positivos. Se pegarmos no cinema, não tanto nas personagens mas nos actores, uma pessoa como o George Clooney é um exemplo extraordinário. Para o imaginário feminino, ainda por cima, é muito bonito; até para mim o é. Percebo que quando faço tantos elogios ao George Clooney as pessoas ficam a olhar para mim.
Na verdade está a seduzir as mulheres quando faz elogios ao George Clooney.
A sério? Nunca pensei nesse ângulo da questão [riso]. O George Clooney percebe o que é alcançar sucesso para ter uma boa intervenção cívica.
A propósito da intervenção na universidade, e do investimento na carreira académica, basta pensar nas referências que trouxe para esta conversa, ou até na sua vida, para dizer que não é o protótipo do académico como ele é conhecido em Portugal.
A minha aspiração máxima é não ser. Há uma pessoa que furou a barreira do académico tradicional, o Marcelo Rebelo de Sousa. Mesmo assim as pessoas falam dele como “o professor”. Os alunos também vêem nele um modelo de sucesso. O modelo de sucesso dele é preferível a outros modelos de sucesso. Mas há muito a ideia do universitário cinzento, sem preocupações culturais.
Fechado na universidade.
Sim, e conservador, não só no sentido político mas no sentido de vida. A faculdade é um microcosmos em que se geram várias lutas. Há lutas dos mais novos contra os mais velhos, lutas de grupos científicos. E umas lutas de classe: profissionais que vivem só na faculdade, que passam o dia na faculdade, e que acham que pessoas como eu são uns diletantes, que vão lá dar umas aulas e que andam a ganhar fortunas. Infelizmente não são, mas gostaria que fossem.
Toda a utilidade que a universidade pode ter é justamente o diálogo com a sociedade. A grande dificuldade é explicar aos meus alunos como é que é possível que a cadeira que dou, Finanças Públicas, seja uma cadeira de cidadania. Quero que percebam os mecanismos, porque é que pagamos impostos, que direitos temos enquanto pagadores de impostos. É uma luta um pouco perdida. Mas não pode ser, vou continuar.
O que é que aconteceu na sua vida, a título pessoal, que foi marcante e que o fez também mudar a rota?
A auto-contemplação não é uma boa coisa, mas tenho às vezes uma tendência excessiva para andar às voltas comigo próprio. Além de mais está feito, não vale a pena. Tive o problema de chegarmos a esta idade, de termos atravessado gerações com valores diferentes; isso torna muito difícil situar-nos. Mas rio-me de me encontrar a dizê-lo. Sobrevalorizei o lado afectivo da minha vida, o lado sentimental. Durante muitos anos pensei que vivíamos para os nossos amores, para as nossas amizades, e, perdoe-se-me a confissão excessiva, só acessoriamente para o trabalho. Não é verdade.
Porque é que não é verdade?
Sim, e conservador, não só no sentido político mas no sentido de vida. A faculdade é um microcosmos em que se geram várias lutas. Há lutas dos mais novos contra os mais velhos, lutas de grupos científicos. E umas lutas de classe: profissionais que vivem só na faculdade, que passam o dia na faculdade, e que acham que pessoas como eu são uns diletantes, que vão lá dar umas aulas e que andam a ganhar fortunas. Infelizmente não são, mas gostaria que fossem.
Toda a utilidade que a universidade pode ter é justamente o diálogo com a sociedade. A grande dificuldade é explicar aos meus alunos como é que é possível que a cadeira que dou, Finanças Públicas, seja uma cadeira de cidadania. Quero que percebam os mecanismos, porque é que pagamos impostos, que direitos temos enquanto pagadores de impostos. É uma luta um pouco perdida. Mas não pode ser, vou continuar.
O que é que aconteceu na sua vida, a título pessoal, que foi marcante e que o fez também mudar a rota?
A auto-contemplação não é uma boa coisa, mas tenho às vezes uma tendência excessiva para andar às voltas comigo próprio. Além de mais está feito, não vale a pena. Tive o problema de chegarmos a esta idade, de termos atravessado gerações com valores diferentes; isso torna muito difícil situar-nos. Mas rio-me de me encontrar a dizê-lo. Sobrevalorizei o lado afectivo da minha vida, o lado sentimental. Durante muitos anos pensei que vivíamos para os nossos amores, para as nossas amizades, e, perdoe-se-me a confissão excessiva, só acessoriamente para o trabalho. Não é verdade.
Porque é que não é verdade?
Mesmo para os nossos amores, mesmo para as nossas amizades, é preciso que o trabalho tenha uma parte importante. O equilíbrio disto é terrível. Hoje o sucesso puxa sucesso, o número de solicitações acaba por nos retirar imenso tempo.
O que acaba de dizer é espantoso numa pessoa da sua geração, para quem “os nossos amores” era considerado um assunto secundário. Aquilo que era dominante era a intervenção cívica. As relações pessoais vinham a reboque disso, que era o grande motor. Ou isto era o discurso, mas não respondia à realidade?
Depende. Penso que tem alguma razão. Tenho um grande desgosto geracional. A minha geração traiu todos os valores por que se bateu, traiu tudo aquilo em que acreditou. A minha intervenção cívica fez-se sempre na área daquilo que é hoje o Partido Socialista, de que não sou militante. Não tenho relação com eles mas curiosamente fui um dos fundadores do partido. Fazia parte da base interna que mandatou as pessoas para irem à Alemanha votar na formação do partido. Nunca tive a experiência radical de ser do MRPP ou do PC. Em termos da faculdade de Direito as coisas eram muito extremadas. Para simplificar, havia o PC, o MRPP e um ou outro MDP, e havia os fascistas (na primeira fila, filhos de embaixadores, ministros, as meninas que os namoravam, que furavam as greves). Vagamente no meio havia um pequeníssimo número de pessoas que se movia na ala social-democrata.
Talvez por nunca ter sido militante de nenhum desses partidos, tive muito espaço para o sentimento, e sempre achei que ele era o motor da vida. E continuo a achar. Mas não podemos destruir o amor, as amizades, pela infelicidade no trabalho. O trabalho, em certa altura, talvez me tenha aparecido como um preço que pagava pelo resto.
Voltando a esse tema quente, o desgosto geracional.
Tem a ver com o facto de em 1974 ser a grande alegria do 25 de Abril, mas depois, no chamado PREC, ser feroz e militantemente contra a ameaça...
Comunista?
Depende. Penso que tem alguma razão. Tenho um grande desgosto geracional. A minha geração traiu todos os valores por que se bateu, traiu tudo aquilo em que acreditou. A minha intervenção cívica fez-se sempre na área daquilo que é hoje o Partido Socialista, de que não sou militante. Não tenho relação com eles mas curiosamente fui um dos fundadores do partido. Fazia parte da base interna que mandatou as pessoas para irem à Alemanha votar na formação do partido. Nunca tive a experiência radical de ser do MRPP ou do PC. Em termos da faculdade de Direito as coisas eram muito extremadas. Para simplificar, havia o PC, o MRPP e um ou outro MDP, e havia os fascistas (na primeira fila, filhos de embaixadores, ministros, as meninas que os namoravam, que furavam as greves). Vagamente no meio havia um pequeníssimo número de pessoas que se movia na ala social-democrata.
Talvez por nunca ter sido militante de nenhum desses partidos, tive muito espaço para o sentimento, e sempre achei que ele era o motor da vida. E continuo a achar. Mas não podemos destruir o amor, as amizades, pela infelicidade no trabalho. O trabalho, em certa altura, talvez me tenha aparecido como um preço que pagava pelo resto.
Tem a ver com o facto de em 1974 ser a grande alegria do 25 de Abril, mas depois, no chamado PREC, ser feroz e militantemente contra a ameaça...
Comunista?
Custa-me usar esta expressão, que é sempre muito pesada. Digamos contra as forças dominantes da época.
Ainda é muito pesada? Passaram 37 anos.
Sou completamente insuspeito, nunca fui do Partido Comunista, nunca tive nenhuma simpatia pela ideologia. Prefiro um comunista a um ex-comunista. Os que de repente descobriram aos aos 40 anos que tinham andado enganados, que não sabiam o que se passava atrás do muro de Berlim, causam-me o mais profundo desgosto.
Talvez esteja hoje um pouco mais à esquerda do que estava. É legítimo uma pessoa mudar, mas que seja sempre no sentido dos vencedores... Seria mais interessante ver alguém passar do PSD para o PC, do que do PC para o PSD.
Sabe aquele verso do Ruy Belo?, “é triste no Outono concluir que era o Verão a única estação”.
É fantástico. Embora hoje já não o subscreva. Voltando ao poema do filme [“Esplendor na Relva”], “nunca mais teremos o esplendor na relva, mas não nos queixaremos, antes ganharemos forças lutando pelo que tivemos”. Tenho uma melancolia doentia por tudo o que desapareceu. Na Avenida da Liberdade, no Paladium, lembro-me das salas de bilhar. O meu café era o Granfina, que ainda existe, mas não entro lá há 20 anos (está descaracterizado). Quando penso nessas pessoas que iam à Granfina, penso: “O que é que fizeram com aquilo em que acreditavam?”. Porque é que não houve a capacidade de ter outras referências e outros valores? Portugal antes do 25 de Abril era medíocre, era uma coisa de pequenos valores, pequenos gestos, pequena coragem, pequenas energias. Detestava. E tudo muito assente naqueles valores cantados na “Casa Portuguesa”: não é preciso ser rico, basta “pão e vinho sobre a mesa” e somos felizes.
“Dois braços à minha espera”.
Ficou com a parte mais sentimental. Hoje sabemos que “dois braços à minha espera” não chegam. Era uma sociedade de austeridade, restrição. Havia todo o elogio da formiga e todo o anátema sobre as cigarras. Aquilo a que se assistiu, tirando o período do PREC, e de alguma normalização democrática, foi à passagem desvairada para o consumo. As pessoas passaram a medir-se pelos carros que têm, pelas casas.
E por isso passou a ser insultuoso ser considerado um homem de sucesso? Era uma forma estereotipada de se ler o que se tinha conquistado.
Um pouco. Estas coisas nunca são tão racionais como podem parecer. O que me incomoda é que a minha geração, que tinha 20 anos no 25 de Abril, não tenha conseguido construir uma alternativa a isto. Passar das “quatro paredes caiadas” e dos “braços à minha espera” para esta situação a que chegámos, pelo fascínio louco por quem aparece na televisão, o despudor completo... Na canção dos Deolinda, “Parva que sou”, há uma coisa curiosa: “há sempre alguém pior do que eu na TV”. É verdade.
Desvio da rota na entrevista. O que é que mudou na sua vida pelo facto de ter perdido o pai cedo?
Foi extremamente doloroso. Perdi o meu pai quando ele tinha 57 anos e a minha mãe quando ela tinha 60 anos. Ainda hoje sou completamente órfão. Tenho sempre a sensação, que racionalmente posso dizer que é falsa, que não fui capaz de os salvar. Morreram com doenças, mas tenho sempre essa sensação. Quando o meu pai morre já vivia em Lisboa há uns tempos, e eu passava muitas horas com ele. Íamos ao Rossio, ao Nicola, os tais sítios da nostalgia. (Tenho uma saudade quase absurda da Lisboa boémia que Fernando Lopes retrata no “Belarmino”, que já não conheci bem. Mas conheci bem o Bolero, ao pé do Martim Moniz, onde havia dois acordeonistas cegos a tocar tango. Era uma coisa felliniana. O velho Ritz. Essa noite estranha de Lisboa.
O fascínio por essa noite é uma forma de evocar o passado e o seu pai?
Não, o meu pai não tinha nada a ver com isso. Fui aí parar por causa do Nicola. Era um tempo em que as pessoas podiam ficar sentadas nos cafés. Tenho uma amiga que ia ao Monte Carlo só para ver o Herberto Hélder.)
Que idade tinha quando o seu pai morreu? É tão doloroso falar do assunto que divaga imediatamente?
Tinha 21 anos. É um tema de que me é muito difícil falar. Era fundamental que trabalhasse, mas nem por isso deixo de ter a impressão de que o deixei mais sozinho. Veio dos Açores, a vida dele não correu muito bem, não tinha muitos amigos, estava muito dependente da minha companhia.
Não o viu formado?
Sou completamente insuspeito, nunca fui do Partido Comunista, nunca tive nenhuma simpatia pela ideologia. Prefiro um comunista a um ex-comunista. Os que de repente descobriram aos aos 40 anos que tinham andado enganados, que não sabiam o que se passava atrás do muro de Berlim, causam-me o mais profundo desgosto.
Talvez esteja hoje um pouco mais à esquerda do que estava. É legítimo uma pessoa mudar, mas que seja sempre no sentido dos vencedores... Seria mais interessante ver alguém passar do PSD para o PC, do que do PC para o PSD.
Sabe aquele verso do Ruy Belo?, “é triste no Outono concluir que era o Verão a única estação”.
É fantástico. Embora hoje já não o subscreva. Voltando ao poema do filme [“Esplendor na Relva”], “nunca mais teremos o esplendor na relva, mas não nos queixaremos, antes ganharemos forças lutando pelo que tivemos”. Tenho uma melancolia doentia por tudo o que desapareceu. Na Avenida da Liberdade, no Paladium, lembro-me das salas de bilhar. O meu café era o Granfina, que ainda existe, mas não entro lá há 20 anos (está descaracterizado). Quando penso nessas pessoas que iam à Granfina, penso: “O que é que fizeram com aquilo em que acreditavam?”. Porque é que não houve a capacidade de ter outras referências e outros valores? Portugal antes do 25 de Abril era medíocre, era uma coisa de pequenos valores, pequenos gestos, pequena coragem, pequenas energias. Detestava. E tudo muito assente naqueles valores cantados na “Casa Portuguesa”: não é preciso ser rico, basta “pão e vinho sobre a mesa” e somos felizes.
“Dois braços à minha espera”.
Ficou com a parte mais sentimental. Hoje sabemos que “dois braços à minha espera” não chegam. Era uma sociedade de austeridade, restrição. Havia todo o elogio da formiga e todo o anátema sobre as cigarras. Aquilo a que se assistiu, tirando o período do PREC, e de alguma normalização democrática, foi à passagem desvairada para o consumo. As pessoas passaram a medir-se pelos carros que têm, pelas casas.
E por isso passou a ser insultuoso ser considerado um homem de sucesso? Era uma forma estereotipada de se ler o que se tinha conquistado.
Um pouco. Estas coisas nunca são tão racionais como podem parecer. O que me incomoda é que a minha geração, que tinha 20 anos no 25 de Abril, não tenha conseguido construir uma alternativa a isto. Passar das “quatro paredes caiadas” e dos “braços à minha espera” para esta situação a que chegámos, pelo fascínio louco por quem aparece na televisão, o despudor completo... Na canção dos Deolinda, “Parva que sou”, há uma coisa curiosa: “há sempre alguém pior do que eu na TV”. É verdade.
Foi extremamente doloroso. Perdi o meu pai quando ele tinha 57 anos e a minha mãe quando ela tinha 60 anos. Ainda hoje sou completamente órfão. Tenho sempre a sensação, que racionalmente posso dizer que é falsa, que não fui capaz de os salvar. Morreram com doenças, mas tenho sempre essa sensação. Quando o meu pai morre já vivia em Lisboa há uns tempos, e eu passava muitas horas com ele. Íamos ao Rossio, ao Nicola, os tais sítios da nostalgia. (Tenho uma saudade quase absurda da Lisboa boémia que Fernando Lopes retrata no “Belarmino”, que já não conheci bem. Mas conheci bem o Bolero, ao pé do Martim Moniz, onde havia dois acordeonistas cegos a tocar tango. Era uma coisa felliniana. O velho Ritz. Essa noite estranha de Lisboa.
O fascínio por essa noite é uma forma de evocar o passado e o seu pai?
Não, o meu pai não tinha nada a ver com isso. Fui aí parar por causa do Nicola. Era um tempo em que as pessoas podiam ficar sentadas nos cafés. Tenho uma amiga que ia ao Monte Carlo só para ver o Herberto Hélder.)
Que idade tinha quando o seu pai morreu? É tão doloroso falar do assunto que divaga imediatamente?
Tinha 21 anos. É um tema de que me é muito difícil falar. Era fundamental que trabalhasse, mas nem por isso deixo de ter a impressão de que o deixei mais sozinho. Veio dos Açores, a vida dele não correu muito bem, não tinha muitos amigos, estava muito dependente da minha companhia.
Não o viu formado?
Curiosamente é uma das razões porque me formei. Há uns tempos encontrei o livro de curso dele, de Coimbra, 1947, com caricaturas e poemas feitos pelos colegas. Lendo o poema que faziam sobre o meu pai, podiam tê-lo feito sobre mim.
O que é que dizia?
Tem a ver com o que lhe dizia, dos meus amores, das minhas amizades. Foi estranho para mim, que conhecia já uma versão austera do meu pai, perceber que tinha tido uma juventude como eu.
Sabe daquele verso do Sérgio Godinho, “pode alguém ser quem não é”? E nesse caso, é esse, foi sendo esse.
Tem a ver com o que lhe dizia, dos meus amores, das minhas amizades. Foi estranho para mim, que conhecia já uma versão austera do meu pai, perceber que tinha tido uma juventude como eu.
Sabe daquele verso do Sérgio Godinho, “pode alguém ser quem não é”? E nesse caso, é esse, foi sendo esse.
O que somos é muito o resultado das pessoas com quem nos cruzamos. O Dr. Salgado Zenha, que era uma grande referência para mim. O José António Pinto Ribeiro, com quem tenho uma longa amizade. O David Mourão-Ferreira, que tem uma frase espantosa: “A felicidade não existe, há momentos de felicidade”. (Isto ajuda-me a viver, durante muito tempo aspirei à felicidade absoluta. Agora sei que se tivermos momentos de felicidade já é muito bom.) “Pode alguém ser quem não é” tem todo o sentido. Há coisas estruturantes em nós, não sei se são genéticas, mas temos um fio condutor.
Ia dizer a razão por que se formou.
O meu pai adoece e morre num período muito curto. Sou apanhado no 4º ano pelo 25 de Abril e nunca mais liguei nada à faculdade. Em 1975 pensei que era uma coisa que podia fazer pelo meu pai. Ele teria tido prazer em que tivesse acabado o curso.
A minha avó açoriana morreu uns anos largos depois do meu pai, com 97 ou 98 anos. Quando fui arrumar a casa encontrei uma carta do meu pai para ela dizendo que estava muito preocupado comigo, porque andava muito envolvido politicamente, e no jornalismo. Que andava a ver se me conseguia fazer mudar de vida. Nunca fez essa diligência. Os meus pais tiveram sempre um pudor, que não posso senão admirar, de nunca me imporem coisas, de terem tolerância. Em jovem podia entrar em casa completamente bêbado e os meus pais faziam de conta que não percebiam.
Perguntando pela morte precoce do seu pai, e pela marca que isso deixa, além da marca emocional, há também uma certa desprotecção em que fica.
Por todas as razões foi preciso trabalhar. Meu Deus, porque é que ele já não está cá? Há uns anos fui ao casamento de uma prima, jovem, e a grande surpresa foi já não haver ninguém da geração do meu pai. É muito difícil fazer essa transição de ser filho para ser pai.
Que idade tem? 57.
Porque é que teve um filho tão tarde? É o único.
O meu pai adoece e morre num período muito curto. Sou apanhado no 4º ano pelo 25 de Abril e nunca mais liguei nada à faculdade. Em 1975 pensei que era uma coisa que podia fazer pelo meu pai. Ele teria tido prazer em que tivesse acabado o curso.
A minha avó açoriana morreu uns anos largos depois do meu pai, com 97 ou 98 anos. Quando fui arrumar a casa encontrei uma carta do meu pai para ela dizendo que estava muito preocupado comigo, porque andava muito envolvido politicamente, e no jornalismo. Que andava a ver se me conseguia fazer mudar de vida. Nunca fez essa diligência. Os meus pais tiveram sempre um pudor, que não posso senão admirar, de nunca me imporem coisas, de terem tolerância. Em jovem podia entrar em casa completamente bêbado e os meus pais faziam de conta que não percebiam.
Por todas as razões foi preciso trabalhar. Meu Deus, porque é que ele já não está cá? Há uns anos fui ao casamento de uma prima, jovem, e a grande surpresa foi já não haver ninguém da geração do meu pai. É muito difícil fazer essa transição de ser filho para ser pai.
Que idade tem? 57.
Há um filme do Ingmar Bergman, “Morangos Silvestres”, no qual um velho professor faz o percurso de regresso…
Um percurso rumo à jubilação, na sua universidade. Detalhe importante porque há a nudez que o velho professor descobre ao longo da viagem a caminho da consagração.
Ele faz a viagem com a nora, que está separada do filho por causa de uma discussão sobre ter ou não um filho. O filho do velho professor tem esta posição: “Um filho, achas que vai viver num mundo melhor que nós? Achas que vai ser mais feliz que nós?”. Durante muito tempo eu tinha essa imprecisa impressão. Não era capaz de ter essa coragem moral. Depois talvez nunca me tenha apetecido muito. Com a Francisca, sim.
Conte-me a história da máquina de escrever, que ficou perdida no meio da nossa conversa.
Ele faz a viagem com a nora, que está separada do filho por causa de uma discussão sobre ter ou não um filho. O filho do velho professor tem esta posição: “Um filho, achas que vai viver num mundo melhor que nós? Achas que vai ser mais feliz que nós?”. Durante muito tempo eu tinha essa imprecisa impressão. Não era capaz de ter essa coragem moral. Depois talvez nunca me tenha apetecido muito. Com a Francisca, sim.
Conte-me a história da máquina de escrever, que ficou perdida no meio da nossa conversa.
Começou com o Medeiros Ferreira, quando fui para o ministério dos Negócios Estrangeiros. Trabalhava n´A Luta na altura, e tinha uma máquina de escrever, uma Smith Corona, que adorava. Ofereci-me para comprar a máquina. “Ó rapaz, vamos fazer um negócio, levas a máquina e quando voltares, voltas com a máquina”. Depois de sair do ministério, A Luta tinha acabado. Muitos anos depois o Vítor Direito telefona-me: “Rapaz, está na altura de trazeres a máquina de volta”. É quando funda o Correio da Manhã.
Esteve na fundação do Correio da Manhã?
Estive, embora indirectamente, não era redactor. Escrevia artigos de opinião, e coordenava e escolhia os grupos de pessoas que escreviam os artigos de opinião. Ao fim de uns quatro meses os accionistas do Correio da Manhã disseram que não era nada daquilo [que pretendiam do jornal]. E o Vítor Direito disse-me que podia levar a máquina embora outra vez.
Nunca gostei deste Paz Ferreira, nem sei bem porquê. Tenho escrito ao longo dos anos postais algo vitriólicos contra a figura pública do dito e a mulher come por tabela. Mas...tenho uma pedra no sapato contra esta gente "muito bem": são pessoas que se instalaram no sistema de contactos do PS e arredores e vivem disso. Se não tivessem tal sistema de contactos, facilitado pelos cargos e lugares que foram ocupando ( até numa fundação, com dinheiros públicos, com aquela Roseira do PS!) eram pessoas vulgares como muitos professores universitários o são. E certamente não teriam os rendimentos que têm os privilégios que usufruem e denegam ipso facto a "igualdade" que apregoam em ideologia montada a preceito.
Podem ter os seus méritos, como de facto os terão, mas há milhares de pessoas por esse país fora que também os têm e não têm isto que é público e já muito notório, para além do mais: em 2018 mais de duzentos mil euros de rendas, perdão, honorários, a troco de pareceres. em 2019 já vai com mais d e 300 mil.
Preside agora a uma comissão qualquer, nomeado por uma tal Vitorino casada com o tal Cabrita, que fez figura de maluco na AR há uns anos, num episódio picaresco com o então governante Paulo Núncio ( tirava, desligava e mexia no microfone do dito) que mexe com muitos milhões, mas é pro bono. Enquanto esteve na CGD na comissão de auditoria nos anos de Vara e Sócrates não viu nada, de nada soube e se ouviu alguma coisa, já esqueceu. Será isto uma honra, para alguém que se tem como gente de bem?
Não acho nada.
Considero isto um escândalo e uma vergonha nacional. Por isso se compreende que o dito Paz "não abdica de trabalhar para o Governo". Pudera!
Estas pessoas são amigas daquela tal governante, Vitorino, casada com o outro governante Cabrita. Duas figuras ímpares do PS e da democracia parlamentar.
Ora repare-se na figura da primeira, sem esquecer a do segundo, em plena Assembleia da República.
Tirado daqui:
https://www.facebook.com/arnaldo.paredes66/videos/10214233001245246/
Estas pessoas julgam-se donas disto tudo, claro. E talvez este diagnóstico de Alexandre Soares dos Santos, no CM de hoje esteja certíssimo porque isto faz parte da corrupção do regime que temos:
Nunca gostei deste Paz Ferreira, nem sei bem porquê. Tenho escrito ao longo dos anos postais algo vitriólicos contra a figura pública do dito e a mulher come por tabela. Mas...tenho uma pedra no sapato contra esta gente "muito bem": são pessoas que se instalaram no sistema de contactos do PS e arredores e vivem disso. Se não tivessem tal sistema de contactos, facilitado pelos cargos e lugares que foram ocupando ( até numa fundação, com dinheiros públicos, com aquela Roseira do PS!) eram pessoas vulgares como muitos professores universitários o são. E certamente não teriam os rendimentos que têm os privilégios que usufruem e denegam ipso facto a "igualdade" que apregoam em ideologia montada a preceito.
Podem ter os seus méritos, como de facto os terão, mas há milhares de pessoas por esse país fora que também os têm e não têm isto que é público e já muito notório, para além do mais: em 2018 mais de duzentos mil euros de rendas, perdão, honorários, a troco de pareceres. em 2019 já vai com mais d e 300 mil.
Preside agora a uma comissão qualquer, nomeado por uma tal Vitorino casada com o tal Cabrita, que fez figura de maluco na AR há uns anos, num episódio picaresco com o então governante Paulo Núncio ( tirava, desligava e mexia no microfone do dito) que mexe com muitos milhões, mas é pro bono. Enquanto esteve na CGD na comissão de auditoria nos anos de Vara e Sócrates não viu nada, de nada soube e se ouviu alguma coisa, já esqueceu. Será isto uma honra, para alguém que se tem como gente de bem?
Não acho nada.
Considero isto um escândalo e uma vergonha nacional. Por isso se compreende que o dito Paz "não abdica de trabalhar para o Governo". Pudera!
Estas pessoas são amigas daquela tal governante, Vitorino, casada com o outro governante Cabrita. Duas figuras ímpares do PS e da democracia parlamentar.
Ora repare-se na figura da primeira, sem esquecer a do segundo, em plena Assembleia da República.
Tirado daqui:
https://www.facebook.com/arnaldo.paredes66/videos/10214233001245246/
Estas pessoas julgam-se donas disto tudo, claro. E talvez este diagnóstico de Alexandre Soares dos Santos, no CM de hoje esteja certíssimo porque isto faz parte da corrupção do regime que temos:
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