quarta-feira, 24 de abril de 2019

As memórias anti-fassistas de Manuel Soares, presidente da ASJP



O juiz Manuel Soares, presidente da ASJP escreveu no Público, mostrado hoje, um artigo assim, em que explica a sua "lembrança de 25 de Abril".  É filho de operários, "órfão muito cedo" e que beneficiou de apoios sociais do Estado para estudar, o que nunca teria conseguido sem tal ajuda. E conclui que foi isso que o 25 de Abril lhe deu "de mais palpável e duradouro".

Pois este caso singular, semelhante a tantos outros, ajuda a perceber as idiossincrasias de certas pessoas.
Para Manuel Soares o regime anterior não lhe teria concedido tais facilidades. Está enganado e é esse o primeiro equívoco. Nem vou explicar porquê, uma vez que os apoios sociais a estudantes pobres não começaram com o 25 de Abril e não acabariam se o mesmo não tivesse acontecido. Provavelmente, no tempo em que Manuel Soares foi para a universidade, já nos anos oitenta, e em altura de bancarrota, a situação económica do país, com Marcello Caetano ou outro que lhe sucedesse e tivesse continuado no mesmo rumo,  estaria muitíssimo melhor e nisso nem é preciso ser grande analista retrospectivo, especializado em prognoses póstumas.
Se o sistema económico que tínhamos, com os ricos da "meia dúzia de famílias" se tivesse mantido, teria sido bem melhor, com maior eficiência  e produção de riqueza nacional do que as maravilhosas conquistas de Abril que nos garantiram duas bancarrotas, antes ainda de  Manuel Soares ser estudante universitário.

Só isso chegará para dizer que muitos outros como Manuel Soares, se calhar não puderam estudar por efeito dessa bancarrotas que empobreceram o país de modo duradouro, que ainda nos afecta. Somos o país mais atrasado da Europa, por causa disso, essencialmente.

Portanto, louvar o 25 de Abril por causa desse efeito milagroso será, no mínimo uma fantasia esquerdista de saudade de um futuro que nem se realizou.

Por outro lado a história do tio anti-fascista, comunista encartado também merece comentário. Um tio de Manuel Soares nos anos trinta já era comunista, pelos vistos. Em Almada, terra de comunistas.
Saberá Manuel Soares o que era o comunismo nos anos trinta e por essas décadas fora até aos anos oitenta do século que passou: uma história de um totalitarismo que não tinha qualquer comparação com a ditadura de Salazar. Nem de perto nem de longe.

Nos anos trinta, quarenta ou cinquenta, altura em que o tal tio foi preso pela temível PIDE, por apoiar indivíduos que o regime entendia como "subversivos" e sê-lo igualmente, o regime que o tio queria para Portugal era o de Estaline, Krutschev e Brejnev. Será supérfluo mencionar aqui todas as qualidades que tal regime oferecia aos povos onde se implantou e que o tio queria também para Portugal, em nome de uma liberdade e igualdade míticas. Nem liberdade teria e muito menos igualdade alguma poderia almejar, se tivesse por cá tal regime.

O tio foi preso pela PIDE e isso quer dizer ipso facto que foi um herói? Então sê-lo-ão igualmente os milhões de mortos que se opuseram ao comunismo que o tio defendeu e que se pudesse ajudaria a matar porque os comunistas nisso são muito solidários. Quanto a uma PIDE tinham uma KGB e antes ainda pior. Quanto a partidos e eleições livres, o Delgado ainda pôde concorrer. Lá, nem sequer se poderia manifestar nesse sentido, quando mais concorrer.

Sobre os julgamentos em tribunais especiais, talvez nem valha a pena mencionar os processos de Moscovo que decorriam quando o tio aderiu ao comunismo soviético porque não havia mais nenhum.

Enfim, uma tristíssima memória a que nos traz Manuel Soares e que ficaria muito melhor guardada para si porque não tenho dúvida que tal tio seria uma pessoa de boa gente.

Quanto ao regime anterior e ao modo como tratava os comunistas, enfim, pode sempre dizer-se que apesar de tudo, quem poupa os seus inimigos às mãos lhe morre. Estaline e os seguintes não os pouparam e não os poupariam os comunistas portugueses e o tio  de Manuel Soares, inclusivé, se tivessem alcançado o poder.

Essa condescendência a meio- termo para com os comunistas foi o que conduziu ao PREC, depois do 25 de Abril de 1974, ironicamente...e louvar tais inimigos do antigo regime como exemplares da democracia, liberdade e progresso económico só mesmo como exercício humorístico, negro, no caso.

Uma coisa é certa, porém: fica sempre muito bem lembrar estas memórias antifassistas e não há politicamente melhor correcção.  Se o tio fosse um extremista de direita que tivesse participado no Verão Quente contra o comunismo ou fosse trucidado pelos facínoras das FP25, isso é que duvido que mencionasse assim, do mesmo modo...

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