terça-feira, julho 19, 2022

O que era bom antigamente: o jornal voador do príncipe Valente

 Começa uma série cuja continuidade dependerá das circunstâncias de motivação ou interesse, acerca de coisas boas do passado que vivi directa ou indirectamente. 

A primeira é uma edição de um suplemento dominical do jornal portuense O Primeiro de Janeiro que o meu pai costumava receber em casa desde os primeiros anos de que tenho memória e que eu lia, vendo as imagens a cores dos quadradinhos que trazia. O jornal era arremessado literalmente do combóio em andamento, saído do Porto e cujo revisor o atirava embrulhado e dobrado até atingir a dimensão mínima e de modo a permitir o voo de alguns metros sem se estragar. Ao Domingo de manhã cedo era por isso uma correria para o apanhar logo que arremessado. 

A edição aqui mostrada integralmente não faz parte desse lote de jornais voadores porque é de 1973, quando já não havia revisor para o atirar e o jornal chegava por outras vias mais tradicionais. 

A capa de 16 de Setembro de 1973:


E a contracapa, com as aventuras do Corisco, personagem da Disney:


Pelo miolo e em sequência:









As centrais em todo o esplendor de cores de jornal:



E a parte mais interessante  era a série do Príncipe Valente, aventuras que se publicavam semanalmente desde o ano de 1937 nos EUA e noutros países, aqui numa prancha de 1970, veiculadas pela King Features Syndicate, com as cores esborratadas e desviadas da tonalidade da versão original:









As páginas de quadradinhos eram o principal motivo de interesse para um jovem a descobrir as alegrias do desenho e historietas associadas.
O Príncipe Valente, em Portugal, publicava-se em várias revistinhas como o Mundo de Aventuras ou Condor e mesmo em álbuns, mas foi no Primeiro de Janeiro, desde Abril de 1959 até Abril de 1995 que se publicaram as aventuras dos anos de 1956 a 1974, desenhadas por Hal Foster até 1971, tal como se ensina aqui. Portanto a prancha mostrada é ainda da autoria de Hal Foster.
Praticamente a minha infância e anos de escola primária foram acompanhados pelas aventuras do Príncipe Valente, no Primeiro de Janeiro. 
A beleza e virtuosismo dos desenhos de Foster, com os temas relacionados com a família e amigos do protagonista no tempo do Rei Artur, davam um colorido a tal época que influenciaram o imaginário sobre esse tempo remoto, mesmo no tom desmaiado da cor de jornal. 
Muito melhor era a cor original publicada nos jornais americanos e com este exemplo tirado do livro The Smithsonian Collection of Newspaper Comics, de 1977, aqui com uma imagem de 1938, quase do início da série:


Porém, tais subtilezas artísticas só muitos anos depois descobri como dignas de menção e atenção. Em meados dos anos 2000 um autor português, Manuel Caldas  começou um projecto ambicioso de reedição integral da obra de Hal Foster, considerada, nos poucos volumes entretanto publicados, como exemplar no rigor de impressão e fidelidade ao original, embora a preto e branco. 
 Manuel Caldas  viu o projecto soçobrar por dificuldades editoriais ( em Portugal estes projectos dificilmente vingam, por falta de público suficiente) e assim ficou por publicar a edição completa que se anunciara. 
Manuel Caldas, da Póvoa de Varzim explica numa entrevista o seu interesse pela personagem dos quadradinhos americanos sobre a época do rei Artur, na Europa. 
Diz que uma das melhores versões impressas, actualmente, é a da Fantagraphics, com o que concordo em parte. A impressão de tal editora americana, aliás como Manuel Caldas refere, não é perfeita e podia ser melhor. 
Não obstante, há uns anos, a editorial Agostini publicou em fascículos a obra completa e com qualidade gráfica também assinalável, como se pode ver por esta prancha de 1970 que reproduz outra do Primeiro de Janeiro, numa edição de 1973:




 A discussão acerca da melhor edição de O Príncipe Valente é interminável...e os franceses têm uma palavra a dizer, como se mostra por esta prancha de 1966 publicada em 1995 pela editora Zenda:

E os sítios acerca do autor e das suas historietas também são intermináveis, com destaque para este que tem quase tudo...
E por exemplo, que dizer das cores e subtilezas destas duas pranchas da mesma página, do ano de 1951, a primeira publicada nos fascículos da Planeta Agostini, de proveniência brasileira e relativamente recente:

E a segunda publicada por Manuel Caldas em Dezembro de 2006, num volume - Foster e Val Os trabalhos e os dias do criador de "Prince Valiant", que traz também algumas pranchas a cores:


Qual será a mais fiel ao original distribuído nos anos cinquenta pela King Features Syndicate por variadíssimos jornais e publicações? 

E do mesmo volume um fac-simile de uma página do Primeiro de Janeiro do ano de 1960, precisamente da mesma altura em que comecei a olhar para estes desenhos, neste caso com impressão melhor do que a de cima, na edição de 16 de Setembro de 1973:




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