segunda-feira, fevereiro 13, 2006

A censura da expressão escrita antes de 25A74


Em Junho de 1974, as revistas de grande informação portuguesas da época - Flama e O Século Ilustrado - publicavam reportagens dos primeiros retornados vindos em debandada do Ultramar ( ainda)português.
O número de 22.6.1974 de O Século Ilustrado, além dessas reportagens e da relativa ao encontro Spínola- Nixon, nos Açores, trazia um texto de Maria Antónia Palla,jornalista, acerca de um acontecimento horrível, ocorrido em Julho de 1969.
O texto, de que aqui se deixa cópia, desenvolvia em três páginas, considerações que ainda hoje são relevantes.
O texto foi integralmente cortado pelos "serviços de censura" ( ainda não se chamava Exame Prévio) do regime de Salazar/Caetano.

Particularmente interessante, é a parte final do texto, sobre "E a vítima?".

Cartoons portugueses-pintar a Manta

Este cartoon deu muito que falar, pouco mais de um ano antes de 25 de Abril 74. O seu autor, João Abel Manta, arquitecto, desenhou vários para o desaparecido O Jornal , para além de ilustrações várias, depois disso, para o JL.
Os temas, invariavelmente, ligavam-se ao PREC e à luta política de raiz e inspiração comunista. Ficou célebre o cartoon, publicado no O Jornal, de 11.7.1975, no qual representava um painel de filósofos , sábios e figuras históricas, a olharem todos para o mesmo lado: um quadro negro com um desenho do rectângulo Portugal. Na esquina do desenho, à direita baixa, ao lado de uma improvável Rosa Luxemburgo, figura um Kissinger anão, com orelhas de burro…
Antes de 25 de Abril 74, João Abel Manta publicou o cartoon intitulado “Festival”, em formato de poster nas páginas centrais de um suplemento ( A Mosca) do jornal Diário de Lisboa, de 11.11.1972. O desenho não foi submetido ao Visto de “Exame Prévio” , que podava sistematicamente os textos que eram analisados e impedia a prática do exercício de liberdade de expressão, só plena e teoricamente assumido depois de 25 de Abril 74.
Dois dias depois da publicação do poster, o jornal Época, afecto ao regime político de Marcelo Caetano, denunciou o caso, num escrito do director Barradas de Oliveira, com o seguinte teor:
Duas páginas a cores representavam a bandeira verde-e-rubra e, no centro desta, a esfera armilar com o escudo deformado, sem as quinas nem os castelo, misturava-se com um boneco horrível de mulher a cantar ao microfone”, adiantando depois que o poster tinha “ desrespeitado, abandalhado e achincalhado, pela forma mais perigosa do piparote na barriga, o símbolo da unidade nacional.”.
Logo a seguir, o Diário de Lisboa, repudiava em editorial a “absurda acusação”, esclarecendo que aquilo que o poster pretendia, não era injuriar a bandeira nacional , mas exactamente o contrário. Debalde,o argumento.
Em 21 de Novembro o caso é denunciado à polícia judiciária, e um mês depois era deduzida a acusação contra JAM por ofensa à bandeira nacional, com base em factos resumidos ao seguinte: “ O símbolo da pátria é posto a latere de um background de opereta.
O julgamento que se seguiu, na Boa Hora foi notícia censurada. Após a prova produzida, o próprio delegado do MP defendeu a…defesa, calando-se estrategicamente. O juiz, absolveu o cartoonista, atendendo à argumentação da defesa, representada por José Carlos Vasconcelos que o fez nestes termos:
O poster tem um sentido que é exactamente contrário do que a mentalidade censória, inquisitorial, dos acusadores lhe quis dar. O poster é uma defesa da pátria e do seu símbolo, a bandeira, contra aqueles que a usurpam, servindo-se abusivamente dela em manifestações artísticas medíocres ou em certos actos ainda muito mais graves. Mas julgo que os acusadores e os seus chefes têm sobejos motivos para se sentirem atingidos pela crítica acerada de João Abel, pois ela atinge também em cheio, todos os que vivem ao nível de um país de cançoneta, os que são a imagem viva, na política e na finança, no jornalismo, do cançonetismo mais baixo e que, pior, são capazes de todas as covardias e das maiores infâmias.”
O julgamento em primeira instância e a absolvição veio a ser confirmada por acórdão da Relação de Lisboa, de Fevereiro de 1974. UM dos desembargadores, Pinheiro Farinha, veio a ser ministro da Justiça, em Dezembro de 1975, data de publicação de O Jornal de onde estas notas são respigadas.

Não obstante a censura ao poster em causa que só passou em desobediência qualificada ao estipulado na lei vigente na altura, a revista Cinéfilo, em 27.12.1973, publicava uma extensa entrevista a um crítico de televisão do Diário de Lisboa, falecido há alguns anos: Mário Castrim. Nela, Castrim, refere-se à intelectualidade lusa, em termos singelos, para dizer que “condeno os intelectuais que deixam a televisão servir-se deles. Que foram fazer á televisão, por exemplo, mais do que a sua promoçãozinha pessoal, o António Gedeão, o João Gaspar Simões, a Agustina Bessa Luís, o Mário Cesariny, o Palma Ferreira, o António Ramos Rosa, a Natália Correia? “Que foram lá fazer, senão enrederem-se em minhoquices e darem-nos uma tristíssima figura deles próprios? Onde provaram serem homens das esquerdas, se a sua presença foi tão inócua como a presença dos homens das direitas?”
Este discurso, passou no Exame Prévio de Dezembro de 1973, como passou a imagem de Castrim, tendo em pano de fundo, o mesmo poster censurado um ano antes…e cuja publicação tinha sido objecto de julgamento por ofensa à bandeira, julgamento esse que só viria a terminar em Fevereiro do ano seguinte.Pode dizer-se a propósito deste caso emblemático da publicação de um cartoon censurado e que provocou polémica, até mesmo jurídica , que o que era escandaloso para o regime de Caetano, em 1972; um ano depois, deixara de o ser do mesmo modo e mais um ano a seguir, a mentalidade do regime mudara… radicalmente.
Senão, vejamos:
Em Setembro de 1974, a revista Seara Nova, dirigida por Rodrigues Lapa, publicou um artigo intitulado “O episcopado e o 25 de Abril”. O artigo, com colaboração de um frade, Bento Domingues, era ilustrado com um cartoon que assimililava a hierarquia da Igreja Católica à imagem do salazarismo de triste memória, ainda recente. O texto, acompanhava e distinguia “…muitos destes bons bispos não se salientaram mais a benzer instalações de bancos e noutras quejandas cerimónias, do que na defesa das classes trabalhadores ?”Em Setembro desse mesmo ano, estas contradições ideológicas iriam suscitar a reacção daqueles que ficaram de repente sem voz, por lha terem tirado em 25 de Abril aqueles que antes se viram privados de exercer livremente a sua expressão ideológica e política.
Em 28 de Setembro foi convocada para o Campo Pequeno uma manifestação daquela “maioria silenciosa” que se revia em Spínola e rejeitava o extremismo comunista.
Para a convocação, foi elaborado um cartaz, com uma imagem pouco conseguida, desenhada por Quito( Francisco Hipólito Raposo) e que foi imediatamente aproveitado, pela reacção de sinal oposto que o redesenhou e apresentou em termos totalmente desconstruidos. Em vez de “maioria silenciosa” passou a figurar “minoria tenebrosa” e a palavra de ordem “abaixo a reacção”!



















Em Dezembro de 1975, o mesmo João Abel Manta publicou em O Jornal, o cartoon que serve de exemplo para a inversão de valores entretanto verificada com a Revolução.
Numa imagem, aparece caricaturado um casal do antigo regime que hipocritamente observava e censurava os desmandos nos costumes de ordem sexual, ao mesmo tempo que permitia o curso livre a ofensa bem mais graves e soezes para a sociedade. Neste caso, porém, as inscrições murais são inequívocas das preferências ideológicas do autor. Nos anos oitenta, os cartoons de Augusto Cid que desenhava já no Observador de 1971, deram motivos de escândalo, enquanto Ramalho Eanes se manteve na presidência da República. Dois volumes de caricaturas dedicados a Eanes, foram mesmo apreendidos o que parece inédito no panorama português da caricatura, em que só há notícia de ter sido incomodado um Vilhena… e, aliás, por delito de mau gosto.

domingo, maio 01, 2005

Compagnons de route

“Era um punhado de jornalistas, unidos pelo ideal comum da dignificação profissional, que, enfim, a queda do fascismo e a abolição da censura estatal iriam tornar possível. Mas no início de 1975. esse grupo de profissionais experimentava uma sensação de desencanto em face dos caminhos então trilhados pela Imprensa portuguesa, abalada pelo tumultuar de paixões que, após décadas de silêncio e de sujeição, fervilhavam no seio da sociedade portuguesa , reflectindo-se, naturalmente, no ambiente dos jornais.”

Foi assim que em 12 de Maio de 1978 a redacção de O Jornal, celebrou editorialmente os três anos de aniversário, mostrando numa fotografia colectiva todos os que faziam o “esforço colectivo” de todas as semanas, a cada sexta-feira, porem nas ruas e quiosques o jornal que no primeiro número de 2.5.1975, se afirmava como “um semanário de jornalistas que para tal se constituíram em sociedade, decididos a trabalhar por uma informação objectiva e esclarecedora, desligada das pressões de sectores económicos e da influência de quaisquer forças políticas, culturais ou religiosas, optando perante os acontecimentos uma posição crítica progressista, norteada pelos princípios de isenção e de defesa do interesse público, que entendem ser impostos à sua função pelas regras deontológicas da Imprensa e pela sua ética profissional.”

Com tais desideratos, aliás ainda hoje plenamente válidos, como resistir a tal oferta pública de qualidade informativa?

O O Jornal, faria agora( 2 de Maio) trinta anos se não tivesse desaparecido da circulação em 27 de Novembro de 1992. Mesmo assim, merece a celebração, porque foi, a par do Expresso e do Público, um dos jornais mais influentes na sociedade portuguesa destes últimos trinta anos, particularmente até final da década de oitenta.

A memória destes trinta anos, aliás, não se perdeu, porque esta semana, a revista Visão, herdeira directa do legado do defunto jornal, não deixou passar em claro a efeméride.

Ao contrário, porém, do que aí se escreve, o O Jornal, não foi “o primeiro jornal criado no pós-25 de Abril”. A palma do feito, nessa área, pertence ao Jornal Novo dirigido por Artur Portela Filho ( o actual membro da AACS); e ainda apareceu nesse ano, no dia 1de Abril, outro semanário, A Gazeta da Semana, dirigido por João Martins Pereira ( vindo da colaboração na Vida Mundial, um dos viveiros do futuro O Jornal, que aí foi recrutar Afonso Praça, Pedro Rafael dos Santos, Fernando Antunes e…Francisco Mata).
Também em 9 de Abril desse ano saiu o único jornal que alguma vez assumiu uma posição extremada à direita, ultrapassando nessa área, o sector conservador do caetanismo caído:
A Rua, dirigido por um homónimo de um dos redactores do jornal: Manuel Maria Múrias( o do O Jornal era Manuel Beça Múrias) E também não deve esquecer-se que o primeiro jornal a sair depois do 25 de Abril de 1974, terá sido um fulminante, discreto e efémero O Raio, dirigido por Vítor Ilharco, em reedição, tal como outra, na mesma ocasião, de um jornal muito antigo, o Sempre Fixe, cuja 2ª série se orientou, logo em 1974, por uma via de esquerda, íngreme e pronunciada. Acabou cedo, talvez por causa disso e aquele Raio acabou também por se autodestruir, lá para as bandas da Covilhã…
Em 1 de Janeiro de 1976 apareceu O Diário, para que o Avante do PCP, pudesse cumprir com garbo e isenção, uma função mais típica e sectária.

A análise dos jornais de onde provieram os jornalistas que fundaram o O Jornal e a escola de jornalismo- que frequentaram e que foi a da tarimba diária na reportagem assistida por colegas mais velhos e experimentados,-mereceria alguma atenção e possivelmente será objecto de estudo em escolas de jornalismo, actualmente.
Porém, sempre será interessante referir que essa escola da vida profissional, em exercício, tem as suas cátedras em anteriores meios de informação escrita, durante os anos sessenta: A Flama; o Século Ilustrado; a Vida Mundial e os jornais diários, República, A Capital, Diário de Lisboa e Diário de Notícias.

Da Flama, dirigida então(1974) por António dos Reis e que tinha sido propriedade do Patriarcado da Igreja Católica, através da União Gráfica vieram por exemplo, Edite Soeiro que em 1974 era chefe de redacção dessa importante revista dos anos sessenta portugueses. Antes, no início dos anos setenta, e quanto a revista ainda era do Patriarcado, como aliás a Rádio Renascença, por lá tinham passado, Manuel Beça Múrias, J. Silva Pinto, Daniel Ricardo( actualmente um director executivo da Visão), todos eles futuros fundadores do O Jornal.
A Flama merecia, só por si, um site inteiro na net, tanto é a importância que assumiu como órgão de informação geral no Portugal salazarista e escola de jornalismo da nossa paróquia.
Outro órgão semellhante e de concorência semanal era o Século Ilustrado.
Em 1974, era dirigido por J.R. Redondo Júnior, mas tinha como redactores por exemplo, Rogério Petinga, colaborador futuro do Jornal de Letras( um rebento de O Jornal) e autor de artigos sobre José Cardoso Pires. Mas em 1971, o Século Ilustrado que pertencia à Sociedade Nacional de Tipografia e tinha como redactores, por exemplo, Daniel Ricardo ( exactamente); Cáceres Monteiro ( exactamente) ; Maria Antónia Palla ( mãe de António Costa, do PS) e tinha como director Francisco Mata ( exactamente).
Em 1968, o mesmo Século Ilustrado, tinha um leque redactorial interessante: além dos mais, Fernando Brederode dos Santos, Roby Amorim, Manuel Figueira ( para a Vida Mundial depois), Lauro António, José Mensurado, Carlos Pinhão, etc.
A diferença assinalável entre a Flama e o Século Ilustrado, a meu ver, era uma atenção mais aprimorada à música pop, em páginas assinadas por “Flipie”; a reprodução de artigos de Oriana Fallaci; as palavras cruzadas mais originais e…as fotos de “página três”! Sim! O Século Ilustrado, publicava em página discreta, fotografias indiscretas de mulheres interessantes em trajes de lucir e isso tornava a revista irresistível face á concorrência da revista do Patriarcado e dava-lhe vantagem competitiva nos quiosques…

Assim, O Jornal, em 1975, tornou-se herdeiro dessa geração de jornalistas que sabiam escrever um português irrepreensível; tinham aprendido a profissão em tarimbas de redacções salazaristas… ma no troppo- e alinhavam pelos ideias democráticos proclamados logo em Abril de 1974, porque também trabalharam para isso e sentiram diariamente o esforço da censura marcelista que lhes podavam constantemente as intenções e artigos mais ousados ou apenas mais interessantes.

Talvez por essas razões combinadas, os jornalistas e a redacção de O Jornal, bem como os colaboradores, entre os quais se contaram por exemplo, José Cardoso Pires, Fernando Assis Pacheco e Dinis Machado na escrita e João Abel Manta no desenho, acompanhassem a experiência do PREC, como autênticos compagnons de route do extremismo rompante, liderado por Vasco Gonçalves e o PCP.
Enquanto que o Expresso se demarcava ao ponto de ter sido apelidado de “pasquim” pelo dito Vasco, O Jornal mostrava na redacção das notícias uma boa compreensão para com os bravos capitães e militares de Abril transformados em agentes activos de um PREC impetuoso e imparável até ao 25 de Novembro.
Basta comparar manchetes, durante o PREC.
9.5.1975, O Jornal nº2- “Só a Unidade é revolucionária”, título que legenda uma foto em que se vêem Soares e Cunhal noo comício do 1º de Maio no Estádio…1º de Maio.
16.5.1975, O Jornal nº 3: “Na agenda do MFA- Tribunal Revolucionário”
23.5.1975, O Jornal nº 4: “ Por onde vamos Portugal?” e em legenda a uma foto de Costa Gomes e Vasco Gonçalves, “ na unidade do MFA a garantia da Revolução”.
4.7.1975, O Jornal nº 10: em pleno início do Verão Quente, por altura da fuga de 89 Pides de Alcoentre, o jornal dirigido por Joaquim Letria, perguntava : “ os homens sem sono andam a dormir?” E editorializava, logo na primeiras página: “ É urgente defender e consolidar a nossa Revolução-para defendermos agora, até, as nossas vidas, e para comnquistarmos o socialismo. Para isso é indispensável a unidade, coesão, formeza e disciplina revolucionária do MFA e do Povo. Fidel Castro o disse e repetiu: ser revolucionário consistirá em fazer coisas insensatas? Consiste em agir sem disciplina e fazer o que nos parece?(…)”
Em 15.8.1975,no período mais quente do Verão, titulava: “Só com documentos a gente não se governa”. No interior, um certo Eduardo Prado Coelho, articulava ideias luminosas como esta: “Estamos também a reconhecer que a etapa por agora nos importa consolidar é a de uma democracia avançada- com base numa aliança das forças monopolistas, mesmo que seja a pequena-burguesia a tomar a hegemonia do processo.” Só isto, ao transcrever, provoca alguma náusea, ao abrir actualmente o Público e dar de trombas com a crónica do costume…mais à frente, e para que não haja dúvidas: “ É importante que se faça uma frente de unidade popular”. Claro…
A fls. 8 e 9, o destaque vai todo para o papel da Igreja Católica e de um certo arcebispo, Francisco Maria da Silva( com direito a foto) e subtítulo “ detidos pelo COPCON dez reaccionários”, a propósito de uma manifestação de apoio ao episcopado bracarense que redundou num assalto à sede do PCP.
Em 26.9.1975, a notícia é: “O Governo aquece e o país escalda”; Bombas em Lisboa”; “A marcha dos SUV” e “Deficientes em luta”. Em editorial, reafirmava-se que “ Somos apenas jornalistas…” Pois eram!
Como os do Expresso, aliás, e que no número de 26 de Julho de 1975, titulava: “Costa Gomes, V. Gonçalves e Otelo tomam direcção política da revolução” e ainda “ “Uma Frente Unida Popular condição do V Governo?”
Em Janeiro de 1975, este jornal, em editorial tinha escrito: “ O que está em causa efectivamente é a liberdade. Do sindicato único ao partido único a distância pode ser curta.”

O O Jornal nunca teve, nessa época do PREC, um discurso assim tão claro- e é essa a diferença que marca uma geração: a dos que fizeram um caminho do lado de uma ala liberal, vinda já dos tempos do marcelismo, como foi o caso inequívoco do Expresso e a daqueles que retomaram uma rota ao lado dos pretensos lutadores pelas mais amplas liberdades e que se aprestavam a dizimá-las com a melhor das intenções e nas oportunidades que foram criando, sempre, sempre ao lado do povo.
O melhor exemplo disso mesmo, aliás jaz na experiência notável do nosso Nobel á frente do Diário de Notícias:
"Militante comunista desde 1969, José Saramago deixa de assumir uma posição discreta quando é nomeado director-adjunto do Diário de Notícias em 10 de Abril. Ao lado do director, Luís de Barros, torna-se então, o defensor do 'verdadeiro socialismo', contra a 'democracia burguesa' e os 'salazaristas do CDS'.
Durante o "Verão Quente", o jornal transforma-se em palco de saneamentos por motivos puramente políticos. Muitos jornalistas queixam-se de serem obrigados a relatar tudo o que se passava no PCP e outras forças progressistas e que os artigos são passados a pente fino. As repreensões verbais sucediam-se. O processo ficou conhecido pelo "Manifesto dos 24", quando um conjunto de jornalistas resolveu organizar-se para denunciar o clima interno. Vinte de duas pessoas foram afastadas sem indemnizações.
Em 1991, Saramago ripostava, a esse respeito: "O jornal tinha uma certa linha e não podia transformar-se numa espécie de tribuna onde toda a gente poderia dizer do jornal aquilo que quisesse."
Em Novembro de 1975, a livraria do Diário de Notícias é destruída por uma bomba. Uma semana depois, dá-se o 25 de Novembro, Luís de Barros e um conjunto de jornalistas alinhados com as suas posições são afastados, por sua vez, do jornal.”- In Público, As polémicas de Saramago, 9 de Outubro de 1998

E efeméride de O Jornal deve assim assinalar-se, mas com o destaque devido a uma reconstituição histórica que não se fique pelo mero panegírico. É que realmente muito se caminhou desde Maio de 1975 até chegar à Visão das coisas de hoje, mas a verdade é que muito desse caminho foi feito com compagnons de route de companhia democraticamente duvidosa.
E esse caminho bifurcou-se depois por outras publicações que são referências incontornáveis da nossa vida cultural popular, dos últimos trinta anos: O Sete; o Jornal de Letras , o Jornal da Educação e a revista História, são outros tantos rebentos dessa linha editorial começada em 1975, mas com tradições ainda mais antigas e remotas que atingem a essência de um envolvimento socio-cultural cuja história está por fazer, mas que me parece fundamental para perceber o desenvolvimento cultural e até político, em Portugal.

Está por entender como cerca de duas dúzias de pessoas - se tanto!- em cerca de trinta anos de vida pública, condicionaram e acompanharam também um modo de pensar a política e as orientações socio-culturais, de forma singular e que sob um manto diáfano de fantasia moderada chegaram, numa época propícia, a acreditar em amanhãs que cantavam supostamente noutras latitudes.

sexta-feira, março 18, 2005

Atrás dos tempos...

O diário 24 horas de 17.3.2005 -da Global Notícias, Publicações SA, da Lusomundo Media,- tem 48 páginas, na sua maioria a cores e na primeira página traz uma notícia de importância eventualmente transcendente para os seus garantidos 80 mil leitores, mais os milhares virtuais que passam no escaparate e espreitam:
“ Joana Lemos pirou-se para o Brasil”. E esclarece em letras miudas que “pegou nas crianças e no marido e fugiu dos escândalos”! E para mostrar que a notícia não é a brincar, brinda o leitor e o passante com foto de corpo inteiro da “piloto”!

No miolo do jornal, as notícias são coloridas com as fotos de Gisele Bundchen e pergunta-se na segunda página , a propósito de Kirsten Dunsten, “muito lá de casa” e epigrafada a “coisas de vedeta”, “Quem dá tampa a quem?”.
O pobre do Rui Rio na página seguinte tem também o seu direito a foto com a mulher em escusada pose de circunstância e que acompanha outras fotos de notáveis da nossa praça dos prémios Marketing 2004, com a notícia importante a assinalar as “gaffes” da apresentadora Sílvia Alberto- “Ai as gaffes, Sílvia!” O derrotado da noite, coitadinho e que aparece de mão no bolso do casaquinho de cerimónia, foi Ricardo Costa. Mas não fica sozinho da desdita, pois também a incontornável Margarida Pinto Correia ficou “ a ver navios”.
Na página seguinte, há histórias de um caçador de manequins e na do lado direito, aparece então o desenvolvimento da grande notícia da primeira página: “Brasil aí vou eu ( que estou farta disto)”. Nas duas que se seguem, vem o prato forte da edição: Roberta Close e Castelo Branco! “Modelo brasileira vem a Portugal dar uma lição de sexologia”! A mulher de Miguel Sousa Tavares e o padre Borga, ambos com direito a fotografia, vão ouvir…e falar também! Na mesma página e numa coluninha de uma dúzia de linhas dá-se conta que “Magistrado explica cachecol”, para dizer que o CSM analisa hoje as explicações dadas pelo seu vice-presidente sobre a foto comprometedora no dia das eleições. Diz ainda que o magistrado já fez uma exposição por escrito a explicar o sucedido.
Na pág. 8, assegura-se que Freitas “promete contar segredos aos jornalistas” e dá-.se destaque de página inteira ao programa Quadratura do Círculo” , para dizer que Jorge Coelho “não vai ter vida fácil”.. dixit JPP! Vocês há-dem ver…

As 3 páginas seguintes são a preto e branco para mostrar o sangue, suor e lágrimas dos crimes de Portugal do dia anterior. As que vêm a seguir são dedicadas aos fait-divers das “conjuntivites” que levam á urgência ou os problemas dos doentes uma mãe de família, para preparar o leitor para a notícia da página seguinte sobre Pinochet, bem disposto e em traje de golfista, para se dizer que o ditaro “tinha conta no BES”! O suplemento de desporto que segue tem oito páginas, antes d eum anúncio de página inteira sobre as dores e o seu alívio milagroso,” sem medicamentos, sem efeito secundários”. Depois temos 10 páginas de pequenos e grandes anúncios e as quatro páginas seguintes são dedicadas à…televisão, antes de lermos um reputado “investigador criminal” chamado Barra da Costa a dizer numa página inteira com foto de Sócrates num comício: “Vigaristas”. E pronto, é assim o 24 horas, pois a última página é dedicada a assuntos que deviam caber nas consagradas aos temas a “preto e branco”. Tem ainda uma coluna da 25ª hora, mas por isso mesmo, fora de prazo de validade. E uma foto do Papa, também a preto e branco, de bónus! Para este trabalho jornalístico estrénuo, a ficha técnica diz que estarão lá mais de sessenta pessoas, dirigidos pelo intrépido Pedro Tadeu.

Agora, o Correio da Manhã de 16.3.2005:
A front page e demais pages, são também a cores e aquela é dedicada a “30 mil por dia furam via verde”! Outras notícias em quadradinhos miúdos de baixo de página, permitem saber que “Ladrão morre por causa de tiro da GNR” e que “Portugal tem os miúdos mais gordos” e ainda que “Sócrates pede controlo verbal aos ministros”.

O CM, tem uma tiragem assegurada para …olha! Na ficha técnica, mesmo por baixo da “caixa de reclamações”, não reclama tiragem alguma , mas diz que é membro da APCT! Bem, o CM tem lá em permanência, para aí uns trinta trabalhadores das letras de imprensa e das fotos publicadas.

O CM tem as primeiras quinze páginas dedicadas aos factos noticiosos que o 24 horas publica a preto e branco, em 3 singelas páginas, sem contar com a última e a 25ª hora. Nessas quinze densas páginas não cabem notícias como a dos 30 mil infractores que na primeira página furam a Via Verde, número que pode baixar para 20 mil. Segundo se explica mais em detalhe e que é, ainda assim, “tendo em conta que alguns destes automobilistas podem passar indevidamente na Via Verde mais do que uma vez por dia.” A notícia da primeira página tem um desenvolvimento de duas colunitas de algumas centenas de caracteres ( vá, lá não os contei, mas não deve andar longe…) na página 17, já no suplemento Economia, pois nas tais quinze só há espaço para isto: “ As cisternas em Portugal são seguras”, a seguir ao “Inferno na estrada”, sobre o mesmo assunto; “patrulha da GNR mata ladrão a tiro”; “Tiros de desespero” para explicar a titude do ancião que alvejou um médico em Portimão; “parou na estrada e foi sequestrado”; “Ladrões na cadeia”;”Assassino vilou a mãe”; “Solitário livre no estrangeiro”, referindo-se a um fugitivo da cadeia de Coimbra; “testemunhas fartas de estar à espera” , no caso da pedofilia dos Açores; e a seguir, “Crimes iguais, tempos diferentes”; “Bombas de gasolina exigem vender medicamentos” ; “Os miúdos mais gordos da EU”, para dizer que são os nossos; a série negra acaba com “Ex-ministra suspende prova global”.

Então, o leitor tem direito ao miolo do jornal: O suplemento de Economia, com …4 páginas; um suplemento de Política, com 5 e a seguir a “pièce de résistence”: duas páginas centrais sobre…a pedofilia feminina, bem encartada no suplemento vigoroso das 34 (!!) páginas dos Anúncios classificados!! E a seguir vem o Mundo e o desporto e a meterologia e a Cultura! Sim! A cultura tem direito a duas páginas suculentas de informação sobre Dan Brownw , repescado do Times; sobre um novo filme português que é …”Um tiro no escuro” e sobre tauromaquia, antes de entrar nas páginas finais das Vidas e da Televisão.
É esta a imprensa popular no Portugal de 2005! Como já era há dez anos atrás, aliás, mesmo sem o 24 horas.

E em 1971, por exemplo? Nessa época havia jornais da manhã e da tarde e era nestas edições vespertinas que se concentravam as atenção dos “populares”, como era o caso do Diário Popular e do República, para além do Diário de Lisboa, para ficarmos pela Capital.
A edição de 9 de Novembro de 1971 do Diário Popular, dirigido por Martinho Nobre de Melo não trazia ficha técnica nem indicação de tiragem, mas epigrafava-se como “O jornal de maior expansão no mundo português”! E talvez fosse, nas suas 36 páginas incluindo o suplemento Volta ao Mundo..
Com a censura vigente e que exigia visto prévio à publicação, o que é que se podia ler no jornal da tarde, desse dia de terça-feira, de feira da ladra?
A notícia de primeira página vinha destacada da foto que ao lado direito espevitava a atenção: uma morenaça de bikini em tom leopardo e miss que não foi Mundo, mas Vera Lagoa, a páginas tantas, de Londres e por telex, relatava o acontecimento, em que também entrava o tal da 25ª Hora: “António Jorge veio ao primeiro andar das “misses” com o Joaquim Letria, que vinha em nome da BBC mas não documentado.Deixaram entrar o António Jorge e puseram o Letria na rua.Ah!Ah!Ah!”
A notícia ao lado era “Portugal e o Mercado Comum-Luz verde em Bruxelas Luz vermelha em Washington” e numa página inteira do interior, documentava-se o assunto com títulos de artigos curtos como “Os Estados Unidos contra a integração europeia”; O ministro suíço da economia contesta a posição americana”: Acompanhamos com simpatia o esforço de Portugal para estabelecer diálogo em África, afirmou um governante britânico” ; A argumentação de Washington” e o título de desenvolvimento: “Mercado Comum-Efta: da luz verde de Bruxelas ao Stop norte-americano”
As primeiras cinco páginas do jornal destinam-se aos programas de Teatro, com o anúncio de uma peça brasileira a estrear em breve, “A Cafona” e o perfil de uma actris portuguesa, Delfina Cruz; o cinema em cartaz, com crónica de filmes novos assinada por JVP ( José Vaz Pereira, certamente); e a crítica dos programas de televisão do dia anterior, assinada por…Alice V ieira, no Canal Nómada, a encimar o anúncio do filme Morte em Veneza de Luchino Visconti, ao lado do cartaz do dia da tv: às 22 h. o filme Uma luz nas trevas de Ingmar Bergma, e antes, mesmo antes do telejornal, a ir para o ar às 21h, poderia ver-se meia hora de “O Tempo e a Alma “ do dr. José Hermano Saraiva.
Este, aliás, na pág. 6 , pergunta em foto a acompanhar: “É possível um programa erudito na televisão?” E na entrevista, à pergunta “Em que consiste essa erudição?”, responde: “Existe uma descrição dos costumes em Espanha e, em particular, dos Lusitanos, escrita há precisamente 2000 anos- É o famoso livro terceiro da Geográfica de Estrabão. O programa de hoje é uma leitura comentada e ilustrada desse texto. Vamos ver, repito, como o público reage, visto que, em cada número do programa eu procuro seguir as indicações quer da crítica pública quer da que se lê nas cartas que me são enviadas. Tentarei hoje, obter uma resposta a esta pergunta: é possível um programa erudito na Televisão?”

Na página seguinte do jornal, a crónica a quatro colunas de Vitorino Nemésio, As Sombras da Cidade, na qual o autor diz, no fim: “ Higiene não é só arte de ruas limpas e de tabuleiros de géneros apurados. É ordem interior nas pessoas, convívio civilizado, responsabilidade social criada nos órgãos do trabalho, da escola, da família, dos grupos. Fica por atacar o mal dos ruídos urbanos: rádios, cláxones, aviões baixos, reclamos sonoros, o bruto individualismo do transístor, do acelerador, da rica expansão sonorizada da gana de cada um- e o vizinho que estoire ou amarre os nervos!”
As notícias da capital e provincia ocupavam uma página, tal como as do “Estrangeiro” e a página 18 aparece esta notícia:
No Tribunal Plenário da Boa-Hora, presidido pelo desembargador Morgado Florindo, começou o julgamento dos srs. Francisco José Cepeda Bruto da Costa, de 20 anos; António Manuel de Almeida Santos Cordeiro, de 21 anos; Manuel António de Oliveira Carmelo Rosa, de 20; Maria da Graça Melo Cabral Marques Pinto, de 20; António José Martins Cabral, de 20; Maria João Jordão Pinto Lobo, de 19. todos solteiros e alunos da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, e Mário Costa Martins de Carvalho, casado, de 26 anos, candidato à advocacia, de Lisboa, acusados de actividades subversivas contra a segurança do Estado. Com excepção do segundo e do terceiro, os restantes encontram-se presos.
Segundo a acusação, são todos membros do chamado Partido Comunista português como tal desenvolveram diversas actividades. Foram aliciados em 1969 e 1970, passando todos eles a usar pseudónimo para melhor esconderem tais actividades que foram exercidas na Faculdade de Direito de Lisboa. (…)Têm procurações dos acusados os drs. Salgado Zenha, Carvalho de Oliveira, Vasconcelos Abreu, Goucha Soares, Lopes de Almeida e Herculano Pires e foram indicados para serem ouvidos no julgamento dois declarantes, duas testemunhas de acusação e cinquenta e quatro testemunhas de defesa.”

Ao lado da notícia, decorria o folhetim do “Julgamento do caso da Herança Sommer”, com relato do depoimento da testemunha José Cruz Silva, técnico fiscal, que foi instado pelo dr. Salgado Zenha, advogado do réu revel ( António Champalimaud), esgotaram mais uma sessão, a 208ª do julgamento do caso da herança Sommer.” (…) Perguntado à testemunha se algo sabe sobre a restituição dos respectivos títulos, feita pelo arguido ausente a suas tias, respondeu afirmativamente. Declarou que essas acções foram restituídas em 1957. A ordem, dirigida ao sr. Constantino Sobral, partiu do sr. António Champalimaud. Declarações de registo, Pgamento de dividendos. Correspondência entre os títulos e o registo. Técnicas para operar a destrinça de acções – campo em que o depoente espraiou os seus conhecimentos.”

Para emoldurar o quadro das notícias a preto e branco, esta: “Comunicado das forças armadas de Moçambique- Quase mil baixas entre os geurrilheiros nos últimos dias”.
Em baixo, a encerrar a página em local quase discreto, um “comunicado das Forças Armadas. O serviço de Informação Pública das Forças Armadas comunica que morreram em combate, na província de Angola, o soldado do recrutamento da província nº 61032770, João Wans Wuter, natural de Balombo e o soldado nº 04956771, Leonel Bento Duarte, natural de Alborgas, Sintra, filho de Joaquim António Duarte e de Adelina Gertrudes.”
E a seguir vem a página de desporto- “Agostinho poderá ser o chefe de fila da equipa da Poulidor”!

No fim da leitura do jornal, encartado no meio ainda vinha o suplemento de 20 páginas, com artigos como “ A democracia do Pobre”, crónica de Jean François Revel; o cartoon de José de Lemos; um folhetin tirado de um qualquer romamce policial, no caso de Maxwell Grant; uma resenha de Jornal de Jornais, compilada por José Augusto, correspondente em Paris; “Só para si, minha Senhora” e ementas culinárias e duas páginas centrais dedicadas a um tema: alcoolismo ou Louse Michel, a “virgem vermelha” da comuna de Paris”; um artigo sobre as eleições italianas e o destino da Europa , num exclusivo da revista francesa L´Express.
À quinta feira, o suplemento do Popular chamava-se “Quinta –Feira à tarde” e trazia textos encimandos na primeira página por uma pintura.

O Quinta-Feira à tarde de 24-5-1973, punha uma pintura de Peter Orlando, “ o pintor norte-americano que expôs em Paris, sob a égide da Casa de Portugal”, a encimar um conto de Augusto Abelaira- O texto Diabólico. Na página seguinte, Urbano Tavares Rodrigues dizia que “escrevo para dar consciência a quem me leia de que temos a obrigação de transformar o mundo” e mesmo em baixo, escrevia-se sobre Daniel Defoe, perguntado João Gaspar Simões:“criador do primeiro anti-romance?” As páginas centrais eram dedicadas ás Letras e Artes. Manuel Poppe criticava um livro de João Araújo Correia sobre Camilo ( Uma sombra picada das bexigas) e havia saudades para José Rodrigues Miguéis assinadas por um tal B.-B. Entre os livros escolhidos estava a revista “Análise Social” do Instituo Superior de Economia, assinada por Ruben Andresen Leitão e na página 5, um título intrigante – “Mafaldinha e Charlie Brown” – que começava assim: Quando Rabelais escreveu o seu Gargantua, estava cansado de receitar unguentos e vesicatórios para a miséria física das pessoas. Então usou a lanceta do riso no ventre da sua época.” E continua Agustina Bessa Luís – sim! É mesmo dela!- citando o Rabelais: “ Ao ver as aflições que vos consomem, antes risos que prantos escrever, sendo certo que rir é próprio do homem”. E transporta as citações para a análise das bandas desenhadas de Quino e Schultz. A página 15 é preenchida por um conto- de Maria Fernanda Adão Marques. Poupo o tempo da transcrição, mas não poupo a referência ao rigor da linguagem; à pontuação aperfeiçoada e ao vocabulário escolhido. A fls. 5, ao lado da continuação do Texto Dialógico de Abelaira, está a recensão crítica a uma obra emblemática do sec. XX- “O Homem sem qualidades “ do austríaco Robert Musil. Uma recensão crítica não assinada para “Um grande romance dum grande romancista”.
E não fica por aqui o recheio deste “Quinta Feira à tarde” de 24.5.1973! Nas páginas centrais das Artes e Letras, aparece um desenho de Gustrave Flaubert, para ilustrar o artigo de João Gaspar Simões sobre a “Correspondence” do mestre. JGS chama-lhes “Notas Marginais”…e na secção de crítica literária , por Manuel Poppe, um artigo em forma sobre o DIárioXI de Miguel Torga – “literatura forte e descomprometida” e um anúncio a um livrito de Millor Fernandes, brasileiro do humor, “Computa, computador, computa”, a par com a recensão crítica e breve do livro de Jacques Le Goff, Os intelectuais na Idade Média. Fecha a página, um outro artigo de Fernando Pamplona, sobre Camões- Camões revive, com a reprodução da gravura da primeira edição inglesa dos Lusíadas.
Mais exemplos de “Quintas Feiras à tarde”?
Em 8.10.1970, João Gaspar Simões escrevia sobre a literatura francesa, para perguntar se estaria doente. J. Rentes de Carvalho fazia uma antologia de contos, desde Fernando Pessoa. Nas Letras e Artes, Alfredo Marques, escrevia sobre “ A linha estética na obra de Gottfried Tritten” e na Crítica Literária, sobre a obra Mistérios de Lisboa de Camilo.
Em 18.5.1970, escrevia-se sobre Giorgio de Chirico e Agustina Bessa Luís escrevia sobre “ A chave dos Sonhos”.
Em 21.1.1974, aparecia Mário Dionísio a dizer: A publicidade neste caso só poderia ser uma séria e demorada, constante, obra de educação, que elevasse o nível cultural do País e criasse a necessidade de ler”. João Gaspar Simões escreve sobre alguns poetas que conheceu, neste caso, Fernando Pessoa- a última vez que o vi. O tema principal é sobre Ungaretti e algumas traduções. No centro das Letras e Artes aparece “ O regresso de João Sem Medo” de José Gomes Ferreira e do outro lado, Soljenitsine e a recensão crítica a “Agosto, 1914”.

Porém, não era apenas o Diário Popular que tinha suplementos deste tipo.
A Capital, à quarta Feira, não deixava os créditos nessa área, por mãos alheias. No dia 17.5.1972, o suplemento Literatura e Arte passava um texto de Afonso Cautela sobre Orson Welles e “O Processo” no texto de Kafka e interpretação do actor.Na página 4 o crítico Nuno de Sampayo escreve sobre “A mosca iluminada” de Natália Correia e na página seguinte, Romeu de Melo disserta sobre “Filosofia e Cultura”. No centro do jornal, “Gritos e Dichotes” de Alexandre O´Neill, com dois “poemas”. Na última página a nova sobre as “Novas Cartas Portuguesas” das três mulheres, Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. A obra deu brado e foi notícia lá fora, pela sua proibição…
E não ficaria completra a revista de imprensa dos inícios dos anos setenta se não se mencionasse A Mosca” do Diário de Lisboa.

Comparando isto com a imprensa actual, mesmo os jornais mais intelectualizados, como o Público ou o Diário de Notícias, nem é preciso chamar aqui a testemunhar, as revistas de antanho: a Vida Mundial de finais dos sessenta e princípios dos setenta; Ou até o Cinéfilo, revista já da era marcelista, dirigida por Fernando Lopes e António-Pedro Vasconcelos, redigida por Adelino Cardoso e João César Monteiro, entre outros, onde se inclui Vasco Pulido Valente e primorosamente paginada por Luís Filipe da Conceição e José Araújo ( onde estão estes tipos?).
Também não é preciso chamar a terreiro o Observador, aparecido em 19 de Fevereiro de 1971.

Termino com dois textos. Um deles é do Diário de Lisboa de 4.6.1973. Outro, do 24 horas de 17.3.2005.
Escolham os autores. Um deles é Pedro Tadeu.

1. “ Dar lição tem sido talvez a atitude mais frequente entre nós nos últimos cinquenta anos, durante os quais se usou largamente do tom magistral, mesmo quando de caseiras matérias se tratava. Sempre o período buscou o arredondado retórico, a fórmula lapidar, e sempre as palavras desceram do alto das tribunas como do alto dos púlpitos, graves, definitivas, significantes de um mundo estabelecido na suma perfeição. Tal como a assistência nas igrejas, o silêncio respeitoso era de regra (…). O tom modificou-se algum tanto nos últimos tempos: tornou-se mais coloquial, mais conversado, e o discurso admite já certas expressões que antes ofenderiam a pureza estilística.”

2. “ Começo a achar que este Governo ainda pode vir a ter tanta piada como o anterior. O primeiro-ministro mandou os seus homens andaram calados.

Atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir…








domingo, março 13, 2005

Memórias de músicas

Águas de Março- Tom Jobim, 1972


É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba no campo, é o nó da madeira
Caingá candeia, é o matita-pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho
É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É um pingo pingando, é uma conta, é um ponto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manha, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É um resto de mato na luz da manhã



A canção de Tom Jobim é de 1972 e a genial interpretação de Elis Regina, também.
Em Março de 1975, já nos meus últimos “teens”, ouvia música, como os “teens” de hoje. E lia. Livros, jornais e revistas- que guardei.
Em dois dias do mês, a 6 e 7, tinham tocado os Genesis, em Cascais, num pavilhão desportivo.
A imprensa da época ligou menos ao assunto do que a de agora, trinta anos passados sobre a efeméride. O Expresso, no seu suplemento ( excelente, aliás) Actual, de 5.3.05, dá-lhe quatro páginas, em que César Avó tenta explicar o fenómeno musical e o acontecimento desse mês de há trinta anos, nada parco doutros acontecimentos historicamente marcantes. A crítica musical do Expresso de há trinta anos, num quadradinho de fim de página do segundo caderno do dia 1.3.1975, intitulado Pop Corner, sem assinatura, dizia assim:
“ Nas próximas quinta e sexta feiras ( 6 e 7 de Março) o calmo meio musical português vai ser abalado por um grande acontecimento: a actuação de um importante grupo britânico em dois concertos que constituirão porventura os mais altos momentos de “rock” ao vivo no nosso país, depois dos concertos dos Procol Harum há dois anos atrás. O nome desse grupo é Génesis.” E continuava por mais umas linhas a apelar à presença nos concertos, porque “perder os Genesis é seguramente perder uma das raras oportunidades de ver um bom concerto de “rock” em Portugal.”
Mesmo ao lado da crónica, Pedro Pyrrait assinava a recensão crítica dos discos de Leonard Cohen, “New Skin for the old ceremony” , um disco single dos ELP( Emerson Lake and Palmer) e o primeiro dos Bad Company que continha “Can´t Get enough”!
Seria de esperar que na semana seguinte, viesse a reportagem com fotos e entrevista…mas quem folhear o número do Expresso de 8.3.1975, lerá muita coisa; porém, sobre música, e sobre o concerto dos Génesis, a melhor metáfora vem no fim da página VIII, sob a forma de um anúncio a um filme de Igmar Bergam: “O Silêncio” . Nem uma linha sobre o concerto que seria um “grande acontecimento”!
Silêncio que se redrobou na semana seguinte, para dar conta de “O 11 de Março passo a passo” e perguntar “ Quem armou a mão de Spínola?”, cuja resposta, ao fim de umas linhas se adivinha: “ ainda não encontrámos uma resposta cabal”! Contudo, fala-se em “ ambiente de profunda tensão, com rumores de golpes,inclusivé anunciados na imprensa estrangeira”Nós próprios”, diz o Expresso no artigo não assinado, “alertámos através do noticiário apresentado, descrevendo as correntes divisionistas no seio das Forças Armadas. E essas divisões eram tais e tantas que conduziram ao que se viu”, escreve o Expresso então dirigido por F. Balsemão, Augusto de Carvalho e…Marcelo Rebelo de Sousa!

Quanto à imprensa estrangeira, basta dizer que o L´Express francês capeou a 1ª página da edição de 10 a 16 de Fevereiro desse ano de 75, a vermelho vivo e com uma foto severa e determinada de…Álvaro Cunhal, aureolada pela foice e martelo de um amarelo desbotado, mas luminoso! Só nesse ano essa revista e a TIme americana fizeram três capas sobre Portugal e o seu inexorável caminho para o abismo comunista. O L´Express de 24 a 30 de Março desse ano, titulava a primeira página com o título expressivo “L´Offensive communiste”, mostrando um tinteiro vermelho com tinta espalhada sobre o mapa da Europa e salpicada na parte desenhada da Itália e de Portugal! A Time de 11 de Agosto de 1975, em desenho passado a aerógrafo e emoldurado a vermelho e amarelo da foice e do martelo, mostrava as caras de Otelo, Vasco Gonçalves e Costa Gomes e apunha-lhes o título de “A troika de Lisboa-Ameaça vermelha em Portugal”. Assim, sem dúvidas!
O Expresso do dia seguinte ao último concerto dos Genesis, dedicava duas páginas a uma “mesa redonda “ sobre o “Programa Económico”onde, além dos mais, intervinha um tal Vasco Pulido Valente, que sobre “os processos revolucionários originais“ dizia: “ Num certo sentido, todos os processos revolucionários são originais. Noutro sentido, muito poucos o foram. Há só três modelos básicos. Portanto, quando se fala em originalidade é preciso saber do que se está a falar.”
Pois, o gajo já nessa altura falava assim! E tem mais umas coisas interessantes. Sobre populismo, por exemplo: “Normalmente entende-se por populismo um tipo de política que pretendendo embora alterar as relações de força de classe, o não faz. Isto é, tendo por objectivo demagógico( no sentido próprio da palavra) fortalecer as classes trabalhadoras – não vamos discutir aqui o que são classes trabalhadoras- o não faz. Não me parece que este programa esteja compreendido nesse caso. De facto, há nele, muito claramente, uma vontade de alterar as relações de força existentes neste país.”

Neste país”, era , nessa altura, expressão de bordão, para quem se pronunciava publicamente. Neste país, isto; neste país, aquilo. No mesmo número do Expresso, em quatro páginas do 2º caderno, perguntava-se “Que Gulbenkian queremos?” onde se fala de tudo, menos daquilo que a Fundação significou para muitos anónimos frequentadores das carrinhas Citroên que por vilas e aldeias de todo o Portugal, periodicamente, emprestavam livros a quem queria: as bibliotecas itinerantes, verdadeiros e únicos agentes culturais da época e já por aqui e também por aqui, devida e notavelmente foi assinalado.
Em 1975, a Fundação editava o seu boletim informativo, já em série II começada em 1964 com um número muito interessante sobre "o Romance", com artigos sobre os antepassados, passando no séc XIX naturalista e realista e entrando no séc.XX de Proust e Joyce, com visita aos clássicos. O boletim serviu-me nesses anos como um blog avanta la lettre dedicado à cultura das humanidades. No número de 1975, começava a série III, reintitulado "democracia e cultura" e logo a abrir a pág. 3, uma imagem de crianças a espreitar para o interior de uma das carrinhas e o título: "as bibliotecas itinerantes devem ser feitas por todos". Melhor paráfrase para o colectivismo nascente não há! E a seguir, Vítor Silva Tavares fala-nos do "cravo lírico e do revolucionário" , com a imagem ícone do 25 de Abril, um cravo numa espingarda. Mais para o interior, imagens da "Dinamização Cultural", a qual doutrina que a "labuta dos soldados", não deve, "evidentemente, circunscrita ao específico da "cultura" que é onde a pretende encerrar a ideologia burguesa: há que a tornar, para que seja útil e consequente, instrumento de trabalho político".
Este trabalho, fazia-se também noutras frentes:
No número de 18 de Abril de 1975, a revista Flama, com capa dedicada à campanha eleitoral e aos partidos, epigrafada pelos símbolos da UDP e do partido de Unidade Popular, trazia uma entrevista a Vasco Gonçalves, com o título “Pretendemos, de facto, construir uma sociedade socialista” e ainda uma outra a…Jean Paul Sartre, por ocasião da sua visita ao nosso país, para “in loco, compreender a evolução social de Portugal”, no dizer de Dionísio Domingues que assina a reportagem.
Sartre, que este ano faria cem anos, diz: “ a revolução ainda não foi feita! Está em vias de se fazer!” As relações económicas da sociedade portuguesa continuam a ser dominadas pelo capitalismo, razão por que ainda não se vive uma situação propriamente revolucionária.” E ainda: “ Considero a revolução portuguesa o acontecimento mais importante destes últimos anos. Assistiu-se ao derrube fulgurante do fascismo com o apoio de toda a população.”
E ainda mais: “ As eleições são uma ratoeira para idiotas(…) Defendo, pelo contrário, o exercício da democracia directa, em detrimento da democracia por sufrágio universal.”

Porém, o mesmo Sartre, em Junho desse ano já só jurava pelo “socialismo libertário” e cinco anos depois, pouco antes de morrer, em entrevista por partes, ao Nouvel Observateur, publicada entre nós pelo desaparecido O Jornal, abjurou completamente.

Assim, em Março de 1975, muita gente meteu água…
A capa da revista Vida Mundial datada de 13.3.1975, era sobre os liceus, assoberbados por RGA´s e pichagens nas paredes com símbolos da FREP, da UEC e da CLEP, tendo o MEC ( ministério, entenda-se) como bode expiatório da falta de “ alternativa para a reforma Veiga Simão”, em nome dos 70 mil professores e um milhão e meio de alunos então no activo!

Como a capa estaria nessa data, já feita, a direcção da revista, sob a batuta de Augusto Abelaira embandeirou uma sobre-capa a branco e vermelho e titulada: “11 de Março- A reacção atirou a matar”.
A Reacção! Esta palavra entrou no léxico dos meses e anos vindouros. E os artigos encomiásticos aos revolucionários, eram assinados por Afonso Praça, Fernando Antunes, M.A.P. ( Maria Antónia Palla?), Miguel Serras Pereira e Fernando Dil, alguns deles (AP e FA) a integrarem no futuro próximo do seguinte mês de Maio o novel O Jornal, um jornal de jornalistas que não guardava notícias na gaveta, dirigido por José Carlos Vasconcelos e em cujo nº1, dava direito de livre expressão a um figurão da época: Rosa Coutinho, o almirante vermelho, dizia logo na segunda página que “Nem democracia-cristã nem social-democracia” enquanto nas páginas centrais de dava um panorama alargado do significado nacional e mundial do 1º de Maio, encapado num cartoon( magnífico, aliás) de João Abel Manta sobre a efeméride e com um Marx benevolente a observar por detrás de uma nuvem no céu(!), as tremendas manifestações populares, cá em baixo, ao mesmo tempo que o seu chapéu de coco, servia de base de apoio aos helicópteros do MFA que fustigavam, a metralha, alguns porcos com asas e cifrões nas costas, numa metáfora alegre do capital em fuga.

Na mesma revista de 6.2.1975, assinado por Afonso Praça ( já falecido), vinha um artigo sobre o arcebispo de Braga, que concluía assim:
Compreende-se assim que em Braga não haja diálogo, que em Braga não se viva o Vaticano II e que a descristianização seja progressiva. E se alguns destes problemas dizem respeito essencialmente à Igreja Católica e aos católicos, também é verdade que a situação criada tem repercussões na sociedade civil, agora num processo de democratização que não pode parar.” Que processo era esse?! Todos o sabem já: o PREC!

Assim, que poderia fazer um teenager pré-esclarecido destas andanças, nessa época de brasas a saltitar todos as semanas para os jornais? Sim, que poderia fazer se não estivesse virado para os lados desse PREC de MRPP´s, PCP´s ml, FEC-ml,UDP, LCI, FSP, MES e PCP estivesse à espera de um serviço cívico para ingressar numa qualquer faculdade ?!
Pois, poderia projectar um futuro na comunicação escrita ou desenhada e “cristalizar através de “flashes”, “tranches de vie”, uma visão não necessariamente subjectiva, em que transpareça por vezes o ridículo das situações, o fanatismo, a honestidade de actuação também, a ingenuidade, a hipocrisia reinante em todos os sectores de actividade . Estilo de resportagem tipo “Z” com incidência na desmistificação. Basear-se em fotografias por vezes. Não apenas contar uma história com estrutura própria mas sobretudo conseguir pistas possíveis para várias histórias. Textos cuidados. O texto deve prevalecer sobre a imagem, mas a imagem no caso de bem conseguida, deve aglutinar o interesse e procurar jogo constante entre estes dois aspectos: texto-imagem”. Foi esse o propósito escrito por um tal José Miguel, adolescente anónimo, em 17 de Março 1975, numa máquina de escrever da Messa e para além desse propósito piedoso ainda poderia … ouvir música na rádio!

A rádio desses anos parecia à procura de um modelo formatado e sem roteiro, tornara-se num local de encontro de quem queria conhecer as novidades na música. Alguns programas, muito poucos, eram um portento de imaginação e diversidade. Não havia play lists; alguns programas passavam álbuns integrais de música que não se ouvia por estas bandas e gravavam-se sonoridades em cassettes com marcas da BASF.
Uma das fontes das águas límpidas de Março era o programa Página 1, da Rádio Renascença que fechou em 19 de Fevereiro de 75, por força do PREC e das lutas dos trabalhadores da rádio contra o Patriarcado proprietário, em greve que durou até 5 de Abril. Com o silêncio do melhor programa de música popular na rádio portuguesa da época, mesmo apresentado por Artur Albarran, acabaram as audições atentas e veneradas, das 7 e meia às nove da noite que foram desviadas para outros programas também interessantes, em formato de 2 Pontos e Espaço 2P, animados pelos Jaimes Fernandes e Lopes, Fernando Balsinha e depois João David Nunes e Nuno Martins.
Ficou assim irremediavelmente prejudicada a audição de discos novos vindos de Inglaterra, de França e doutros sítios. Nunca mais se ouviram os Snafu ou os Splinter; Johnny Nash ou Jonathan Edwards e quanto a Maxime le Forestier só há alguns anos recoligi os LP´s e voltei a ouvir Mai 68…e quanto aos brasileiros do Quinteto Violado, ainda estou para descobrir o Lp A Feira, com A matança do porco. Em compensação, continua a ser um regalo a audição de José Afonso no Coro dos Tribunais; de Fausto P´ro Que der e vier e do Sérgio Godinho de À Queima-Roupa. Os temas faziam coro e davam o mote para outros Operários em Construção da Revolução.
Mesmo assim, na classificação de gostos hierarquizados da altura, influenciado pelas audições da Página 1, os Genesis contavam pouco e abaixo dos Roxy Music de Country Life, saído alguns meses antes; dos Sparks de Propaganda; dos Man de Slow Motion e dos Rolling Stones de It´s only rock n´roll.e sõ não incluo o LP Blood on the Tracks de Bob Dylan porque o ouvi nessa estação e nesse programa, pela primeira vez, em 18.2.1975, precisamente um dia antes do silêncio.
Os trabalhadores da revista FLAMA de 7 de Março desse ano, dirigida por António dos Reis , Edite Soeiro, e outros, exprimiram em telegrama “ aos camaradas Rádio Renascença solidariedade justa luta travada contra prepotências entidade patronal certos que firmeza trabalhadores defesa intransigente seus direitos conduzirá vitória final.”
Assim, foi numa frequência mais ao lado, no rádio Clube Português, prestes a passar.a rádio Comercial, -nacionalizado, nosso – que se puderam ouvir em repetidas audições, os acordes do LP The Lamb lies Down on Broadway dos Genesis.
Lembro bem a primeira vez- como se fosse hoje! Foi algum tempo antes de Março e o convidado de um programa, João Filipe Barbosa ( que será feito dele?!) anunciou uma novidade e pôs o disco a tocar, perguntando misteriosamente aos ouvintes se seriam capazes de adivinhar de que grupo se tratava.
Ao ouvir os primeiros compassos do piano em crescendo galopante, atirei a resposta para mim próprio, numa perspicácia auto-indulgente, de leitor assíduo, há já alguns meses, da Rock & Folk francesa: Genesis! O novo disco! E era. Foi assim que encontrei pela primeira vez os sons dos subterrâneos Carpet crawlers; da misteriosa Lilywhite Lily; e da ainda mais temível Lamia, em tudo diferentes da anterior cantarolice do grupo, I Know what i like que vinha dos tempos do liceu.
No dia 14 de Fevereiro de 75, na Página 1, o mesmo João Filipe Barbosa, na época uma espécie de consultor erudito da música popular publicada, esteve no programa, em debate alargado sobre os próximos concertos dos Genesis e aí passou inevitavelmente a então obra prima do grupo, muito falada e pouco escutada, Supper´s Ready ou a faixa de abertura folk de Selling England by the Pound- Dancing with the moonlight mile.
Nesse tempo, a boa música pop era escutada e debatida em programas de rádio, como se debateria a Sinfonia do Novo Mundo de Dvorak. Os Joões Filipes Barbosas, em dia de rei fazer anos, prendavam o auditório sequioso de novas sonoridades, com as suas cópias exclusivas dos LP´s mais procurados nas revistas da especialidade e a audição era de recolhimento religioso em auscultadores. Foi assim que por cá se divulgou obra antiga dos Grateful Dead ou do Captain Beefheart ou mesmo dos Derek and the Dominoes da celebrada Layla de 1970.

Era nesta penúria de bens musicais de qualidade escassa que a rádio se aguentava e os ouvintes sofriam. Em 1975 tinha passado já à história da música popular, todo o acervo fundamental dos ritmos e acordes produzidos pelos melhores autores e intérpretes de expressão anglo-saxónica. Em Portugal, poucos programas de rádio os divulgaram e por isso a excepção tornava-se acontecimento e um deles chamava-se Em Órbita, apresentado por um improvável Pedro Castelo e realizado por um tímido Jorge Gil de quem se diz possuir a gravação integral desse espólio fabuloso da segunda metade dos anos sessenta. Em 1975 o programa já não existia para passar novidades da música popular, mas sim andamentos da erudita.
Essa penúria passava ainda para a imprensa escrita, especializada nas sonoridades e fenómenos da pop.

Em Novembro de 1970 a revista Mundo da Canção, publicada mensalmente, com origem no Porto e distribuída pela Livraria Bertrand, alcançava um ano de vida e para comemorar a efeméride apresentava pela primeira vez a capa a cores.
Outro veículo da música popular, na imprensa portuguesa, era o jornal quinzenal, Disco, publicado em Lisboa e surgido no início do ano de 1971, dirigido por A. de Carvalho e que indicava como “serviço internacional”, a informação obtida nos jornais ingleses Melody Maker, New Musical Express e Disc music & echo, dos quais reproduzia artigos inteiros e a lista de êxitos na música pop na Inglaterra e EUA, geralmente o top 10.
Para dar uma ideia do ar do tempo de uma certa inteligentsia, em Portugal, relativamente à musica popular, cita-se uma parte do artigo de Tito Lívio publicado no número de 15 .4.1971, desse jornal Disco , intitulado ` Algumas considerações sobre a nova canção portuguesa´ : “Até há pouco, a nossa música ligeira era uma amostra cabal de uma indigência poética aflitiva. Música desenraizada para distracção de um público mal (in)formado. Público passivo que não sabia e não podia ( por ausência de educação musical de base que lhe permitisse optar lucidamente) distinguir o bom do mau. Que consumia Calvário e Madalena Iglésias e outros quejandos, fazendo deles “ prato forte” dos programas de discos pedidos, estilo “ Quando o telefone toca”. O tema das suas canções era o amor, mas um amor piegas, cor- de- rosa, deturpado, gasto e cansado. Amor com forma de foto-novela, indo assim, de encontro aos gostos ( não educados e evoluídos) de um predominante sector de público.
De repente apareceu quem cantasse algo diferente. Quem remasse contra a banalidade confrangedora do luso-cançonetismo vigente. “Movimento” que teve os seus chefes de fila em José Afonso, Luís Cília, Nuno Filipe, Daniel e Adriano Correia de Oliveira. Simultaneamente, novos compositores de valia têm surgido ( embora aqui o progresso seja bastante mais lento). Pedro Jordão, Fernando Tordo, Fernando Guerra, José Cid, Luís Miguel de Oliveira, Jaime Queimado, Luís Rego, entre outros, sem esquecer autores- ntérpretes como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília, Esnesto César, Rita Olivaes, Hugo Maia de Loureiro, Intróito e Nuno Filipe.”

Era este o tom geral da crítica à musica ligeira portuguesa mais popular e os respectivos artistas, apesar de venderem discos e participarem em espectáculos integrados em festas populares e romarias , não só não encontravam lugar para se promoverem nesses jornais, como o Disco, ou a Mundo da Canção, como eram sistematicamente menosprezados e ridicularizados pela inteligentsia crítica dominante. Nomes como Marco Paulo, Trio Odemira, Conjunto de Maria Albertina, Madalena Iglésias, Conjunto António Mafra, e muitos outros, não tinham lugar no firmamento da crítica bem pensante, por não terem a “qualidade” artística adequada.
Porém, a sua música passava com facilidade nos canais de rádio e dominava o mercado.
Esse mercado musical em Portugal, nessa altura, foi analisado numa entrevista à revista Flama de 30.7.1971, por Carlos Cruz que dizia : “ O mercado musical no nosso país deve ser o mais estranho do mundo. Existe uma camada que continua a aderir a uma música fácil, sem o mínimo interesse. Depois, há uma camada que se situa no meio termo, que já não adere facilmente a essa música chamada nacional-cançonetismo , como diz o João Paulo Guerra, mas que ainda não se libertou totalmente duma percentagem de gosto fácil. Esta segunda camada tem vontade de se libertar. Para tanto é necessário que a produção que se dirige à terceira camada, a mais exigente, seja desenvolvida. Em termos de música, o caminho a seguir seria este: tentar acabar, a pouco e pouco, com a música fácil, fazer ver às pessoas que lhe aderem que a música é uma coisa maravilhosa e que elas concluiriam através de uma produção de qualidade "

A música popular de qualidade, na televisão, restringia-se nesses anos e até pelo menos a 1973, a alguns programas de variedades, sem correspondência com o que passava na rádio. Só em 1973, com o programa quinzenal Disco & Daquilo, na RTP, ainda da responsabilidade de Carlos Cruz, Dinis de Abreu e Luís Vilas Boas , se começou a dar alguma atenção aos então chamados telediscos e spots publicitários produzidos pelas editoras e com incidência na música popular , o rock e o jazz.
No mundo editorial, dirigida aos jovens, publicava-se ainda, sob a égide da editora Agência Portuguesa de Revistas, a revista Mundo Moderno, com muita ilustração fotográfica, em tons monocromáticos , é certo, mas com preocupação em arrumar graficamente os artigos, de forma diferente do simples texto em colunas, inserido entre fotografias e ilustrações, com tipos de letra e paginação inovadores e destaque para os espectáculos de vário tipo, desde o teatro de revista e fotografias de coristas e modelos, até letras de canções de música ligeira; artigos e reportagens sobre cinema , moda e outras manifestações no âmbito da cultura popular.
Na televisão,antes de 1970 já tinha ocorrido um fenómeno cultural , com um programa chamado ZIP ZIP, apresentado por três entertainers que se afirmaram profissionalmente nos anos seguintes : Carlos Cruz, Raul Solnado e Fialho Gouveia .
O programa, apresentado em Maio de 1969, até ao fim desse ano, num teatro de Lisboa , o teatro Villaret, misturava pequenos sketches humorísticos e apresentações musicais com entrevistas a personalidades de relevo na cultura nacional ( por exemplo ,Almada Negreiros) e apesar do ambiente cultural e politicamente fechado em que se vivia em Portugal nessa altura, teve um êxito retumbante e marcou a maneira de fazer esse tipo de programas de modo a que os seguintes forçosamente teriam que se lhe referir.
Entre as manifestações culturais e espectáculos populares, dava-se muita importância à volta a Portugal em bicicleta e ao ciclismo; ao rali de Portugal vinho do Porto; às touradas e a algumas séries estrangeira de televisão, como o Daktari, o Casei com uma Feiticeira, o Olho vivo e acima de tudo ao festival da canção.
A televisão assumira uma relevância cultural importante, de modo que se tornou também veículo de promoção de produtos culturais como sejam livros, neste caso de bolso e de parceria com uma editora, a Verbo.
Os livros, lançados a partir do ano de 1970, constituíam uma colecção de obras de diversos autores nacionais e estrangeiros, pretendendo ser uma biblioteca básica a que se deu o nome comercial de livros RTP. Na campanha de promoção, introduziu-se um logotipo( a letra grega omega, achatada, e duplicada em espelho) , grafismo e apresentação uniformes, variando apenas as cores do logotipo, tudo servido a grandes doses – para o tempo - de publicidade, com saída semanal, distribuição nacional, em quiosques e a preço reduzido ( 15$00) e que transformaram a colecção em sucesso imediato, que inspirou outro editor no ano seguinte a publicar uma outra colecção de livros de bolso a que chamou ...livros de bolso Europa América , cuja colecção atingiu algumas centenas de títulos, ao longo de vários anos e que se revelou outro sucesso editorial.


Em 1970, as artes gráficas já estavam suficientemente desenvolvidas em Portugal para que qualquer revista de actualidades apresentasse, pelo menos a capa e as páginas de publicidade, em quadricomia, como era o caso da Flama e do Século Ilustrado, nessa altura as principais revista desse género. Porém, só em 1971, a mesma Flama escrevia em editorial : “ A partir deste número, a Flama surge com um novo rosto – totalmente impressa em offset e composta pelo mais moderno processo electrónico a frio.”
Comparando com o que se passava no estrangeiro, nomeadamente na Europa e EUA, a Life , a Look, a Paris Match, a Stern, a Epoca, mesmo no Brasil, a Manchete e a Cruzeiro, tinham evidentemente outra qualidade gráfica e de conteúdo, mas ainda não tinha chegado o tempo do papel couché generalizado e da profusão da quadricomia e por isso as revistas nacionais, nesse aspecto, não se diferenciavam muito daquelas, até porque alguns dos artigos e reportagens eram publicados originariamente nessas revistas ou provinham das agências como a Gamma ou a Dias da Silva. A Paris Match, por exemplo, já no ano de 1965, publicava a revista com centena e meia de páginas, com algumas a cores e com profusão de publicidade, também geralmente a cores.

Em 1971 surgiu, logo no início do ano, uma revista semanal de actualidades, em formato de newsmagazine, com uma apresentação gráfica cuidada e que se intitulou Observador, e que logo nos primeiros números procurou tratar temas tão diversos como a olivicultura, o problema dos judeus da Palestina ( nº4) e a emancipação da mulher e a barragem de Vilarinho da Furnas que iria submergir a aldeia do mesmo nome ( nº6). A revista assumiu assim um papel inovador no panorama da imprensa portuguesa da época.
Além dessas revistas, outras mais especializadas existiam. Uma delas, a Nova Antena, dirigida por João Coito, dedicava-se à televisão, rádio e actualidade e no número de 7.8.1970, aquando da morte de Salazar, escrevia em editorial aquilo que Marcelo Caetano dissera do mesmo, ou seja um panegírico que destacava as virtudes do “grande governante” e “grande português” e que o mesmo deixara o país “ ordenado, unido, consciente, seguro dos seus objectivos e com capacidade para os atingir.”
Na mesma área, da rádio e televisão, publicava-se ainda a revista Rádio & Televisão, com a tiragem de 30 mil exemplares e que publicava em suplemento a programação semanal dos dois canais de televisão, bem como a apreciação sumária dos programas com maior destaque do dia. Publicava ainda a programação das três estações de rádio mais importantes do país, a Emisora Nacional, o Rádio Clube Português e a Rádio Renascença.

( continua)

segunda-feira, setembro 06, 2004

La Biblioteca de Babel de Jorge Luís Borges

O conto de Borges, para manutenção do blog. Um conto incompreendido, para ler e reler e ficar quase na mesma.




By this art you may contemplate the variation of the 23 letters...The Anathomy of Melancholy, part. 2, sect. II, mem. IV.

El universo (que otros llaman la Biblioteca) se compone de un número indefinido, y tal vez infinito, de galerías hexagonales, con vastos pozos de ventilación en el medio, cercados por barandas bajísimas. Desde cualquier hexágono se ven los pisos inferiores y superiores: interminablemente.
La distribución de las galerías es invariable. Veinte anaqueles, a cinco largos anaqueles por lado, cubren todos los lados menos dos; su altura, que es la de los pisos, excede apenas la de un bibliotecario normal. Una de las caras libres da a un angosto zaguán, que desemboca en otra galería, idéntica a la primera y a todas. A izquirda y a derecha del zaguán hay dos gabinetes minúsculos.
Uno permite dormir de pie; otro, satisfacer las necesidades finales. Por ahí pasa la escalera espiral, que se abisma y se eleva hacia lo remoto. En el zaguán hay un espejo, que fielmente duplica las apariencias. Los hombres suelen inferir de ese espejo que la Biblioteca no es infinita (si lo fuera realmente ¿a qué esa duplicación ilusoria?); yo prefiero soñar que las superficies bruñidas figuran y prometen el infinito... La luz procede de unas frutas esféricas que llevan el nombre de lámparas. Hay dos en cada hexágono: transversales. La luz que emiten es insuficiente, incesante
Como todos los hombres de la Biblioteca, he viajado en mi juventud; he peregrinado en busca de un libro, acaso del catálogo de catálogos; ahora que mis ojos casi no pueden descifrar lo que escribo, me preparo a morir a unas pocas leguas del hexágono en que nací. Muerto, no faltarán manos piadosas que me tiren por la baranda; mi sepultura será el aire insondable; mi cuerpo se hundirá largamente y se corromperá y disolverá en el viento engendrado por la caída, que es infinita.
Yo afirmo que la Biblioteca es interminable. Los idealistas arguyen que las salas hexagonales son una forma necesaria del espacio absoluto o, por lo menos, de nuestra intuición del espacio. Razonan que es inconcebible una sala triangular o pentagonal. (Los místicos pretenden que el éxtasis les revela una cámara circular con un gran libro circular de lomo continuo, que da toda la vuelta de las paredes; pero su testimonio es sospechoso; sus palabras, oscuras. Ese libro cíclico es Dios.) Básteme, por ahora, repetir el dictamen clásico: La Biblioteca es una esfera cuyo centro cabal es cualquier hexágono, cuya circunferencia es inaccesible.
A cada uno de los muros de cada hexágono corresponden cinco anaqueles; cada anaquel encierra treinta y dos libros de formato uniforme; cada libro es de cuatrocientas diez páginas; cada página, de cuarenta renglones; cada renglón, de unas ochenta letras de color negro. También hay letras en el dorso de cada libro; esas letras no indican o prefiguran lo que dirán las páginas. Sé que esa inconexión, alguna vez, pareció misteriosa. Antes de resumir la solución (cuyo descubrimiento, a pesar de sus trágicas proyecciones, es quizá el hecho capital de la historia) quiero rememorar algunos axiomas.
El primero: La Biblioteca existe ab aeterno. De esa verdad cuyo colorario inmediato es la eternidad futura del mundo, ninguna mente razonable puede dudar. El hombre, el imperfecto bibliotecario, puede ser obra del azar o de los demiurgos malévolos; el universo, con su elegante dotación de anaqueles, de tomos enigmáticos, de infatigables escaleras para el viajero y de letrinas para el bibliotecario sentado, sólo puede ser obra de un dios. Para percibir la distancia que hay entre lo divino y lo humano, basta comparar estos rudos símbolos trémulos que mi falible mano garabatea en la tapa de un libro, con las letras orgánicas del interior: puntuales, delicadas, negrísimas, inimitablemente simétricas.(1)
El segundo: El número de símbolos ortográficos es veinticinco. Esa comprobación permitió, hace trescientos años, formular una teoría general de la Biblioteca y resolver satisfactoriamente el problema que ninguna conjetura había descifrado: la naturaleza informe y caótica de casi todos los libros. Uno, que mi padre vio en un hexágono del circuito quince noventa y cuatro, constaba de las letras MCV perversamente repetidas desde el renglón primero hasta el último. Otro (muy consultado en esta zona) es un mero laberinto de letras, pero la página penúltima dice Oh tiempo tus pirámides. Ya se sabe: por una línea razonable o una recta noticia hay leguas de insensatas cacofonías, de fárragos verbales y de incoherencias. (Yo sé de una región cerril cuyos bibliotecarios repudian la supersticiosa y vana costumbre de buscar sentido en los libros y la equiparan a la de buscarlo en los sueños o en las líneas caóticas de la mano... Admiten que los inventores de la escritura imitaron los veinticinco símbolos naturales, pero sostienen que esa aplicación es casual y que los libros nada significan en sí. Ese dictamen, ya veremos no es del todo falaz.)
Durante mucho tiempo se creyó que esos libros impenetrables correspondían a lenguas pretéritas o remotas. Es verdad que los hombres más antiguos, los primeros bibliotecarios, usaban un lenguaje asaz diferente del que hablamos ahora; es verdad que unas millas a la derecha la lengua es dialectal y que noventa pisos más arriba, es incomprensible. Todo eso, lo repito, es verdad, pero cuatrocientas diez páginas de inalterables M C V no pueden corresponder a ningún idioma, por dialectal o rudimentario que sea. Algunos insinuaron que cada letra podia influir en la subsiguiente y que el valor de MCV en la tercera línea de la página 71 no era el que puede tener la misma serie en otra posición de otra página, pero esa vaga tesis no prosperó. Otros pensaron en criptografías; universalmente esa conjetura ha sido aceptada, aunque no en el sentido en que la formularon sus inventores.
Hace quinientos años, el jefe de un hexágono superior (2) dio con un libro tan confuso como los otros, pero que tenía casi dos hojas de líneas homogéneas. Mostró su hallazgo a un descifrador ambulante, que le dijo que estaban redactadas en portugués; otros le dijeron que en yiddish. Antes de un siglo pudo establecerse el idioma: un dialecto samoyedo-lituano del guaraní, con inflexiones de árabe clásico.
También se descifró el contenido: nociones de análisis combinatorio, ilustradas por ejemplos de variaciones con repetición ilimitada. Esos ejemplos permitieron que un bibliotecario de genio descubriera la ley fundamental de la Biblioteca. Este pensador observó que todos los libros, por diversos que sean, constan de elementos iguales: el espacio, el punto, la coma, las veintidós letras del alfabeto. También alegó un hecho que todos los viajeros han confirmado: No hay en la vasta Biblioteca, dos libros idénticos.
De esas premisas incontrovertibles dedujo que la Biblioteca es total y que sus anaqueles registran todas las posibles combinaciones de los veintitantos símbolos ortográficos (número, aunque vastísimo, no infinito) o sea todo lo que es dable expresar: en todos los idiomas. Todo: la historia minuciosa del porvenir, las autobiografías de los arcángeles, el catálogo fiel de la Biblioteca, miles y miles de catálogos falsos, la demostración de la falacia de esos catálogos, la demostración de la falacia del catálogo verdadero, el evangelio gnóstico de Basilides, el comentario de ese evangelio, el comentario del comentario de ese evangelio, la relación verídica de tu muerte, la versión de cada libro a todas las lenguas, las interpolaciones de cada libro en todos los libros, el tratado que Beda pudo escribir (y no escribió) sobre la mitología de los sajones, los libros perdidos de Tácito.
Cuando se proclamó que la Biblioteca abarcaba todos los libros, la primera impresión fue de extravagante felicidad. Todos los hombres se sintieron señores de un tesoro intacto y secreto. No había problema personal o mundial cuya elocuente solución no existiera: en algún hexágono. El universo estaba justificado, el universo bruscamente usurpó las dimensiones ilimitadas de la esperanza. En aquel tiempo se habló mucho de las Vindicaciones: libros de apología y de profecía, que para siempre vindicaban los actos de cada hombre del universo y guardaban arcanos prodigiosos para su porvenir. Miles de codiciosos abandonaron el dulce hexágono natal y se lanzaron escaleras arriba, urgidos por el vano propósito de encontrar su Vindicación. Esos peregrinos disputaban en los corredores estrechos, proferían oscuras maldiciones, se estrangulaban en las escaleras divinas, arrojaban los libros engañosos al fondo de los túneles, morían despeñados por los hombres de regiones remotas. Otros se enloquecieron... Las Vindicaciones existen (yo he visto dos que se refieren a personas del porvenir, a personas acaso no imaginarias) pero los buscadores no recordaban que la posibilidad de que un hombre encuentre la suya, o alguna pérfida variación de la suya, es computable en cero.
También se esperó entonces la aclaración de los misterios básicos de la humanidad: el origen de la Biblioteca y del tiempo. Es verosímil que esos graves misterios puedan explicarse en palabras: si no basta el lenguaje de los filósofos, la multiforme Biblioteca habrá producido el idioma inaudito que se requiere y los vocabularios y gramáticas de ese idioma. Hace ya cuatro siglos que los hombres fatigan los hexágonos... Hay buscadores oficiales, inquisidores. Yo los he visto en el desempeño de su función: llegan siempre rendidos; hablan de una escalera sin peldaños que casi los mató; hablan de galerías y de escaleras con el bibliotecario; alguna vez, toman el libro más cercano y lo hojean, en busca de palabras infames. Visiblemente, nadie espera descubrir nada.
A la desaforada esperanza, sucedió, como es natural, una depresión excesiva. La certidumbre de que algún anaquel en algún hexágono encerraba libros preciosos y de que esos libros preciosos eran inaccesibles, pareció casi intolerable. Una secta blasfema sugirió que cesaran las buscas y que todos los hombres barajaran letras y símbolos, hasta construir, mediante un improbable don del azar, esos libros canónicos. Las autoridades se vieron obligadas a promulgar órdenes severas. La secta desapareció, pero en mi niñez he visto hombres viejos que largamente se ocultaban en las letrinas, con unos discos de metal en un cubilete prohibido, y débilmente remedaban el divino desorden.
Otros, inversamente, creyeron que lo primordial era eliminar las obras inútiles. Invadían los hexágonos, exhibían credenciales no siempre falsas, hojeaban con fastidio un volumen y condenaban anaqueles enteros: a su furor higiénico, ascético, se debe la insensata perdición de millones de libros. Su nombre es execrado, pero quienes deploran los "tesoros" que su frenesí destruyó, negligen dos hechos notorios. Uno: la Biblioteca es tan enorme que toda reducción de origen humano resulta infinitesimal. Otro: cada ejemplar es único, irreemplazable, pero (como la Biblioteca es total) hay siempre varios centenares de miles de facsímiles imperfectos: de obras que no difieren sino por una letra o por una coma. Contra la opinión general, me atrevo a suponer que las consecuencias de las depredaciones cometidas por los Purificadores, han sido exageradas por el horror que esos fanáticos provocaron. Los urgía el delirio de conquistar los libros del Hexágono Carmesí: libros de formato menor que los naturales; omnipotentes, ilustrados y mágicos.
También sabemos de otra superstición de aquel tiempo: la del Hombre del Libro. En algún anaquel de algún hexágono (razonaron los hombres) debe existir un libro que sea la cifra y el compendio perfecto de todos los demás: algún bibliotecario lo ha recorrido y es análogo a un dios. En el lenguaje de esta zona persisten aún vestigios del culto de ese funcionario remoto. Muchos peregrinaron en busca de Él.
Durante un siglo fatigaron en vano los más diversos rumbos. ¿Cómo localizar el venerado hexágono secreto que lo hospedaba? Alguien propuso un método regresivo: Para localizar el libro A, consultar previamente un libro B que indique el sitio de A; para localizar el libro B, consultar previamente un libro C, y así hasta lo infinito... En aventuras de ésas, he prodigado y consumido mis años. No me parece ínverosímil que en algún anaquel del universo haya un libro total (3); ruego a los dioses ignorados que un hombre—¡uno solo, aunque sea, hace miles de años!—lo haya examinado y leído. Si el honor y la sabiduría y la felicidad no son para mí, que sean para otros. Que el cielo exista, aunque mi lugar sea el infierno. Que yo sea ultrajado y aniquilado, pero que en un instante, en un ser, Tu enorme Biblioteca se justifique.
Afirman los impíos que el disparate es normal en la Biblioteca y que lo razonable (y aun la humilde y pura coherencia) es una casi milagrosa excepción. Hablan (lo sé) de "la Biblioteca febril, cuyos azarosos volúmenes corren el incesante albur de cambiarse en otros y que todo lo afirman, lo niegan y lo confunden como una divinidad que delira". Esas palabras que no sólo denuncian el desorden sino que lo ejemplifican también, notoriamente prueban su gusto pésimo y su desesperada ignorancia.
En efecto, la Biblioteca incluye todas las estructuras verbales, todas las variaciones que permiten los veinticinco símbolos ortográficos, pero no un solo disparate absoluto. Inútil observar que el mejor volumen de los muchos hexágonos que administro se titula Trueno peinado, y otro El calambre de yeso y otro Axaxaxas mlö. Esas proposiciones, a primera vista incoherentes, sin duda son capaces de una justificación criptográfica o alegórica; esa justificación es verbal y, ex hypothesi, ya figura en la Biblioteca. No puedo combinar unos caracteres
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que la divina Biblioteca no haya previsto y que en alguna de sus lenguas secretas no encierren un terrible sentido. Nadie puede articular una sílaba que no esté llena de ternuras y de temores; que no sea en alguno de esos lenguajes el nombre poderoso de un dios. Hablar es incurrir en tautologías. Esta epístola inútil y palabrera ya existe en uno de los treinta volúmenes de los cinco anaqueles de uno de los incontables hexágonos—y también su refutación. (Un número n de lenguajes posibles usa el mismo vocabulario; en algunos, el símbolo biblioteca admite la correcta definición ubicuo y perdurable sistema de galerías hexagonales, pero biblioteca es pan o pirámide o cualquier otra cosa, y las siete palabras que la definen tienen otro valor. Tú, que me lees, ¿estás seguro de entender mi lenguaje?).
La escritura metódica me distrae de la presente condición de los hombres. La certidumbre de que todo está escrito nos anula o nos afantasma. Yo conozco distritos en que los jóvenes se prosternan ante los libros y besan con barbarie las páginas, pero no saben descifrar una sola letra. Las epidemias, las discordias heréticas, las peregrinaciones que inevitablemente degeneran en bandolerismo, han diezmado la población. Creo haber mencionado los suicidios, cada año más frecuentes. Quizá me engañen la vejez y el temor, pero sospecho que la especie humana—la única— está por extinguirse y que la Biblioteca perdurará: iluminada, solitaria, infinita, perfectamente inmóvil, armada de volúmenes preciosos, inútil, incorruptible, secreta.
Acabo de escribir infinita. No he interpolado ese adjetivo por una costumbre retórica; digo que no es ilógico pensar que el mundo es infinito. Quienes lo juzgan limitado, postulan que en lugares remotos los corredores y escaleras y hexágonos pueden inconcebiblemente cesar—lo cual es absurdo. Quienes lo imaginan sin límites, olvidan que los tiene el número posible de libros. Yo me atrevo a insinuar esta solución del antiguo problema: La biblioteca es ilimitada y periódica. Si un eterno viajero la atravesara en cualquier dirección, comprobaría al cabo de los siglos que los mismos volúmenes se repiten en el mismo desorden (que, repetido, sería un orden: el Orden). Mi soledad se alegra con esa elegante esperanza.(4)
Mar del Plata, 1941

(1) El manuscrito original no contiene guarismos o mayúsculas. La puntuación ha sido limitada al la coma y al punto. Esos dos signos, el espacio y las veintidós letras del alfabeto son los veinticinco símbolos suficientes que enumera el desconocido. (Nota del Editor). (volver)
(2) Antes, por cada tres hexágonos había un hombre. El suicidio y las enfermedades pulmonares han destruido esa proporción. Memoria de indecible melancolía: A veces he viajado muchas noches por corredores y escaleras pulidas sin hallar un solo bibliotecario. (volver)
(3) Lo repito: basta que un libro sea posible para que exista. Sólo está excluido lo imposible. Por ejemplo: ningún libro es también una escalera, aunque sin duda hay libros que discuten y niegan y demuestran esa posibilidad y otros cuya estructura corresponde a la de una escalera. (volver)
(4) Letizia Álvarez Toledo ha observado que la vasta Biblioteca es inútil; en rigor, bastaría un solo volumen, de formato común, impreso en cuerpo nuevo o cuerpo diez, que constara de un número infinito de hojas infinitamente delgadas. (Cavalieri, a principios del siglo XVII, dijo que todo cuerpo sólido es la superposición de un número infinito de planos.) El manejo de ese vademecun sedoso no sería cómodo: cada hoja aparentemente se desdoblaría en otras análogas; la inconcebible hoja central no tendría revés. (volver)