terça-feira, março 15, 2016

O presidente pop e o espírito da Gente

Esta capa de uma revista de actualidades sociais é bem interessante pelo título:






Este espírito ligeiro joga bem com este presidente algo enigmático. Diz que a primeira visita oficial é ao Vaticano por causa de ter sido o primeiro Estado a reconhecer o nosso Estado, logo no início da nacionalidade do séc. XII. Curioso.

Depois, alinha estas boutades com a primeira declaração na noite da vitória eleitoral em que se referiu a um Portugal antigo, na antiga faculdade de Direito. Ainda mais curioso.
Depois assistiu a um concerto nocturno, ao frio, na praça do Município de Lisboa, logo após ter tomado posse do cargo. Um concerto pop com artistas como Anselmo Ralph, ou lá o que é. Triplamente curioso. 

Esta tendência pop na sociedade portuguesa começou a notar-se com maior intensidade logo no dealbar de 1974, quando surgiu uma revista intitulada Gente, uma das pioneiras da imprensa pop que agora domina o panorama com as Flash, caras, vip etc. etc.



Em Outubro desse ano o sumário da revista semanal já no nº 48 , era este:


E no nº 83 de Junho de 1975 a estrela de capa era...um jornalista que fez um retrato bem interessasnte do actual presidente pop, acerca da fábula dos "dez negrinhos", já por aqui apresentada em tempos.



Por falar em Gente, quem começou a falar dela na imprensa periódica e dum modo pop foi o Expresso.

No início de 1975, por altura do Carnaval, ninguém levou a mal este apanhado de graças pop.



Como dizia o outro..."isto anda tudo ligado". O que se torna infinitamente mais curioso.

segunda-feira, março 14, 2016

Jornalismo apadrinhado

Jornal i de hoje, um assunto bem explicado por Mário Ramires:


Repórter "tocado" da Lusa chocado com justiça brasileira

Sapo/Lusa ( de um anónimo repórter tocado):

"O povo brasileiro foi às ruas. Entre os diversos motivos, para protestar contra a corrupção que se entranhou em parte das nossas instituições e do mercado. Fiquei tocado pelo apoio às investigações da assim denominada Operação Lava Jato", disse Sérgio Moro num comunicado citado pela imprensa.

O juiz destacou "o trabalho institucional robusto que envolve a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e todas as instâncias do Poder Judiciário".

"É importante que as autoridades eleitas e os partidos ouçam a voz das ruas e igualmente se comprometam com o combate à corrupção, reforçando as nossas instituições e cortando, sem excepção, na própria carne, pois actualmente trata-se de iniciativa quase que exclusiva das instâncias de controlo", referiu.


O  modo como é apresentada esta notícia revela bem o que é um certo jornalismo em Portugal em que afinal os camões pululam como pulgas no meio natural da imundície moral " :

Juiz responsável pela Lava Jato diz-se "tocado" com apoio dos manifestantes


domingo, março 13, 2016

Um príncipe a quem chamaram lelé ( da cuca) e o futuro da direita nacional.

A jornalista Maria João Avilez alinhou há  dias um texto em modo de testemunho pessoal, no Observador, sobre Francisco Pinto Balsemão, por ocasião da passagem do grupo Impresa para as rédeas da família, novamente. Intitulou-o "Um príncipe do jornalismo. E da política". A parte mais interessante é esta:

Só uma única vez vi Francisco Sá Carneiro “triste” com o seu amigo: como é que o proprietário do Expresso consentia na “pouca vergonha” em que se encontrava naquela altura? Tudo “tinha limites”… Subentendido: trabalhar mediaticamente a política daquela forma enviesada mancharia de “indiferença” quem era suposto estar em posição de não consentir – nem apreciar – tal estado de coisas. Falava-me com um misto de espanto e pena. E tanto assim era, que ele, Sá Carneiro, decidira patrocinar um novo jornal (avisando-me de resto que eu iria ser contactada para a empreitada e cheguei a sê-lo por um dos seus secretários de Estado com quem, apercebi-me depois, muito o então chefe do governo já discutira e detalhara tal projecto).

Fica-se a saber, portanto, que se Sá Carneiro não tivesse morrido em Camarate, teria aparecido um jornal para concorrer com o Expresso. E provavelmente não se confundiria com um Semanário, surgido anos mais tarde.
Tal projecto jornalístico aparecia porque o Expresso não era o lugar ideal para se escrever sobre a mudança política e social que se impunha, após os anos de PREC e as bancarrotas em sucessão.

Sá Carneiro tinha essa noção e provavelmente tudo teria sido diferente nos anos a seguir, na década de oitenta, do modo como foram.

Tal como Jaime Nogueira Pinto escreve no DN de hoje, há uma direita que há quarenta anos desertou em combate e o lugar foi tomado pela esquerda que ainda predomina. No entanto, os  valores daquela direita continuam vagos nessa herança que ninguém quer assumir, para já.


O tal príncipe a quem o actual presidente da República, em 1978 chamou lelé da cuca, num arroubo irreverente ou mesmo num retrato impiedoso, foi um dos protagonistas da derrocada da direita que repudiou toda a herança do que vinha de antes de 25 de Abril de 1974.

Balsemão foi do grupo "liberal" na Assembleia Nacional e em 1973,como o mostra o Observador original, em 8 de Agosto de 1973 participava numa reunião desse grupo de liberais que se posicionavam como futuros políticos social-democratas .



Como "militante nº1" acompanhou a fundação do PPD/PSD e foi jornalista antes e depois disso. A hora de maior glória política de Balsemão surgiu logo após a morte de Sá Carneiro, sucedendo-lhe no cargo de primeiro-ministro, em nome de uma AD que não duraria muito mais.
O Jornal de 19 de Dezembro de 1980 mostrava um retrato em foto-maton, acompanhado de uma vinheta do jornalista Baptista-Bastos, amigo do dito. 



Esses  meses de AD, que se seguiu a um PREC de efeitos devastadores e a uma bancarrota logo consequente, são um dos períodos menos esclarecidos sobre os efeitos económicos que se procuraram reverter e com medidas assinadas pelo ministro das Finanças de Sá Carneiro, de seu nome Cavaco Silva.

Em 8 de Fevereiro de 1980 o economista Silva Lopes fez uma análise no O Jornal desses anos pós-PREC:

Estávamos condicionados por um regime político e económico esquerdista, sem perspectivas de mudança a curto prazo.

O clima era este no primeiro trimestre de 1980, com a AD no poder: obstáculos da esquerda a uma mudança na estrutura económica do país. Não queriam mexer nas nacionalizações e não queriam altera a Constituição. E a AD sózinha não conseguiria tal desiderato e o PS não queria.

Para Almeida Santos a lei das privatizações era inconstitucional porque não lhe interessava mexer no assunto.
A Esquerda portuguesa portou-se então como força reaccionária e contrária à mudança de sistema económico que tínhamos herdado do PREC.


E que fez então Cavaco Silva entre outras coisas? Isto:






Provavelmente para dar uma ideia de evolução e de maior desenvolvimento económico, algo fictício mas bom para a "confiança", diminuiu o ritmo da desvalorização do escudo, afectando irremediavelmente a indústria exportadora e contando que a inflação desse ano se situaria na casa dos 15% e não nos 20% inicialmente ponderados. Isto aconteceu em Junho de 1980. Dali a três anos estávamos outra vez no limiar da bancarrota.  E a revisão Constitucional de 1982 só acabou com o Conselho da Revolução porque economicamente deixou tudo na mesma. Seria preciso chegar a 1989 para se conseguir algo mais e ainda assim tirado a ferros à Esquerda que temos, incluindo um PS que é o que é.

Entretanto, durante esse ano e para alterar a propaganda esquerdista, nomearam para a televisão do Estado, a única existente, um figurão que ainda hoje anda por aí: o grande democrata Proença de Carvalho. No fim do ano foi corrido. A diferença destes dois recortes é de seis meses, entre Junho e Dezembro de 1980.



Culturalmente, no país, tínhamos isto que o mesmo O Jornal mostrava em Dezembro de 1980:


Proença usou o poder de informação na tv apenas como modo de exercício de propaganda partidária. Nada mais. A mudança cultural era impossível e ainda hoje é assim.
E é esse o nosso problema, em Portugal, tal como Jaime  Nogueira Pinto o expôs acima.

Entretanto, sobre essa mesma direita desaparecida em combate de que desertou e que repudiou a herança jacente, em 6 de Junho de 1981, o actual presidente da República que ainda era jornalista-director no Expresso, retratava assim um expoente dessa direita e do jornal que lhe deu corpo durante um par de anos.



Quanto a Balsemão anda por aí a ganhar dinheiro com os media. É o príncipe desse reino, de facto.


PCP, a rezidentura dos traidores à pátria portuguesa

O jornal Expresso de ontem publicou uma série de páginas na Revista, sobre o "arquivo Mitrokhin", um jurista-arquivista que trabalhou no KGB soviético desde 1946    e que inspirado por Sakharov e Soljenitsine,  resistentes ao totalitarismo comunista,   coligiu milhares de informações que escondeu até aos anos noventa do século XX.
Tais notas e informações foram reunidas em livro que em Portugal foi publicado em 2000, pena d. quixote, perante a indiferença geral, como é costume em tudo o que respeita ao totalitarismo comunista.
Actualmente tal arquivo encontra-se em Londres, "em boas mãos", ao contrário do arquivo da antiga PIDE/DGS que foi contrabandeado para Moscovo, tudo indicando que por iniciativa do PCP.

Esse arquivo foi consultado desde Novembro por jornalistas do Expresso que agora o dão a conhecer relativamente a informações que interessam directamente o nosso país. O livro de 2000 era  muito parco nessas informações e por isso a investigação jornalística do Expresso merece louvor. Mas caiu já na indiferença geral outra vez. Ninguém mais pegou no assunto e o Público de hoje nem uma simples notícia lhe dá. A redacção artsy do jornal achou mais gira a reportagem de duas páginas sobre a livraria Ulmeiro, que foi centro de conspiração anti-fascista e com visitas da Pide para perseguir os pobres traidores à Pátria que queriam entregar Portugal a Moscovo. Esta lógica do pensamento politicamente activo em Portugal sempre me escapou...e só encontra justificação porque quem a segue é também subsidiário de ideias semelhantes e familiar, afiliado ou simpatizante da causa comunista de antanho, por si ou interposto familiar. É uma questão hereditária, se calhar e que tem razões que a razão desconhece.

O Correio da Manhã dá uma página que resume o assunto central: a traição de comunistas portugueses ao seu próprio país. Os mesmos que se dizem patriotas são os maiores traidores à pátria que os viu nascer e ninguém se importa, mesmo que tal constitua crime punido pelo Código Penal da época ( artigos 141 a 151 do C. Penal de 1886) e também o que entrou em vigor em 1982.

Estes inimigos de Portugal por amor à União Soviética que achavam ser o sol que iluminaria o Ocidente, foram traidores à sua pátria. Octávio Pato, por exemplo, era um traidor nato, um salafrário que se vivesse na União Soviética e fosse apanhado a fazer o que fazia cá, seria executado sumariamente. Andou por aí como se nada fosse e até todo contente, se calhar com a figura de traidor estampada na cara. Mas há mais...


Para além de traidores, mentirosos relapsos:

Vítor Dias, antigo dirigente do PCP e militante do partido, defende no seu blogue que não houve qualquer transmissão de ficheiros entre o PCP e Moscovo, depois de serem desmantelados os arquivos da PIDE nos dias que se seguiram ao 25 de Abril. Trazer este assunto de volta à esfera mediática, tem, segundo o comunista, “o objectivo óbvio de difamar e enxovalhar o PCP”.

No tempo em que o PCP achava que em Portugal nunca iria suceder uma democracia de feição ocidental, também o PCP desmentiu uma entrevista do então secretário-geral à jornalista italiana Oriana Falacci, na edição de 6 de Junho de 1975 da revista L´Europeo que ninguém na altura se incomodou de traduzir na íntegra. Tal como agora, o que pode denegrir o PCP é obliterado e  censurado.
Quando surgiu o desmentido, a mesma jornalista só disse que tinha consigo a gravação da entrevista e que se dispunha a mostrá-la...
Parece que nunca quiseram tal prova, porque o que lhes interessa é o ruído da mentira. 

sábado, março 12, 2016

O 11 de Março de 1975 é para lembrar...

O 11 de Março de 1975 já não entusiasma ninguém. Porém, foi uma data charneira da nossa tragédia nacional das últimas décadas. Foi aí que a esquerda comunista ficou com rédea livre para nos conduzir à primeira bancarrota, dali a poucos meses.

Ninguém quer lembrar essa verdade e é pena porque quem esquece a História está condenado a repeti-la. A revista Flama ( que pertencia ao Patriarcado de Lisboa mas acoitava um ninho comunista nascido do nada)  de 21 de Março de 1975 embandeirava em arco comunista.

Desde então andamos a pagar as favas com bancarrotas e pobreza. E com uma agravante: são eles mesmos, os provocadores directos do descalabro, quem acusa os que expulsaram nessa altura, ou seja os poucos capitalistas que tínhamos, de serem os fautores da desgraça. E convencem muita gente...

sexta-feira, março 11, 2016

Octávio Ribeiro e o jornalismo do Correio da Manhã

No jornal i de hoje aparece uma grande entrevista a Octávio Ribeiro, o responsável pelas edições do Correio da Manhã e da televisão correspondente.

Vale a pena ler as três primeiras páginas porque as outras estão a mais.


Octávio Ribeiro explica que o director da TVI, Sérgio Figueiredo não é jornalista mas apenas comissionista de certos interesses e ainda vai mais longe: é um abcesso na democracia e como carácter recortou o facto de ter dito que iria visitar Sócrates na cadeia e nunca lá ter ido...

Não obstante, o que OR diz sobre o jornalismo do CM merece reflexão. A melhor que se pode fazer será esta publicada num pequeno jornal francês que todos os verdadeiros jornalistas portugueses deviam ler: Le Un, desta semana e que já vai na 97ª semana de publicação, num formato único, desdobrável até superar o "broadsheet" e versando um tema específico em cada número. Não há nada assim na internet e não há nada assim que eu conheça no mundo ocidental. É francês e recomenda-se pela excelência e pelo exemplo de que é possível fazer coisas novas nos media. Custa em Portugal €2,90 e é difícil de encontrar. Não se vê nas Fnacs, nos quiosques habituais ou em lojas especializadas, mas anda por aí.



O artigo mais interessante é de Soljenitsine e refere-se a um discurso proferido em Harvard, em Junho de 1978, mais ou menos na mesma altura em que o actual presidente da República chamava ao director e proprietário do Expresso, "lelé da cuca". Amanhã, se Deus quiser, lembrar-se-á o assunto...

Esse discurso de Soljenitsine, proferido na América, escassos anos após o seu exílio da Rússia,  numa altura em que as televisões privadas e jornais sensacionalistas ainda não existiam por cá, mostra uma reflexão que é necessário fazer sobre um fenómeno que Umberto Eco já enunciou também no seu último romance, Número Zero: " não são as informações que fazem um jornal, mas o jornal que faz a informação"...

 Soljenitsine perguntava então uma coisa essencial: em contraposição ao slogan em voga sobre "toda a gente tem o direito de saber", se não seria preferível adoptar outro direito que é o de não saber, de não ensombrar a  nossa alma criada por Deus com mexericos, ninharias, futilidades. E mais importante ainda: o jornalista que escreve informações  falsas ou tira conclusões erróneas, induzindo em erro a opinião pública, não tem necessidade de se retratar, passando logo a escreve o contrário do que disse ou informou, com a mesma desenvoltura e sem prestar contas do que fez. O jornalista tem essa liberdade que não é conferida a mais ninguém na esfera pública.

Noutro artigo escreve-se sobre as metáforas jornalísticas e sobre este uso da linguagem muito se poderia dizer do jornalismo português que se pratica actualmente e do uso de tais metáforas como significantes de um léxico esquerdista enraizado no tempo que passa.


domingo, março 06, 2016

Sobre clientelas, posso meter o bedelho?

Vasco Pulido Valente e Rui Ramos encetaram uma conversa a dois sobre o assunto das clientelas do nosso Estado. Tudo começou por Rui Ramos ter escrito que "O PS, o Bloco e o PC não se definem pela sua preocupação com os "mais desfavorecidos", mas por tentarem fazer dos dependentes do Estado a sua "base de apoio".

Este escrito que não coligi foi comentado por VPV na sua crónica no Público de 28 de Fevereiro de 2016.

Em resumo, VPV acha que o assunto das clientelas em Portugal é tão velho quanto os tempos de consolidação da monarquia liberal, no séc. XIX. A República fez jus à tradição de alfobre de clientelas e o salazarismo procurou acabar com o feudo. A partir de 1976 retomamos os velhos costumes.

Rui Ramos respondeu no Observador em 4.3.2016:

A propósito de um artigo que escrevi aqui no Observador, Vasco Pulido Valente perguntou que sentido faz falar do “clientelismo” dos partidos políticos. Não foi sempre assim? Sim, as “clientelas”, se quisermos usar a nomenclatura romana, terão até tido mais relevância noutras épocas, quando para um bacharel em direito havia poucos empregos condignos fora da política e da administração. Quem leu Camilo Castelo Branco, Júlio Diniz, Eça de Queirós ou Oliveira Martins aprendeu pelo menos isso. Também não terá esquecido a história do “carneiro com batatas” que os caciques serviam aos eleitores no século XIX. Mas o país mudou. Em 1870, os políticos usavam o Estado para controlar um eleitorado rural e analfabeto, e absorver uma pequena classe de letrados. A questão hoje é outra: o modo como uma parte da oligarquia elevou a dependência dos cidadãos em relação ao Estado à condição de ideal, e pretende fazer assentar nessa dependência o seu domínio político do país.

A dependência do Estado nunca teve as dimensões actuais. O Estado paga hoje 655 mil salários e 3,6 milhões de pensões. A despesa pública vale 51,7% do PIB. Já não se trata de uma refeição num dia de eleições. Para muitos portugueses, o seu modo de vida decorre do rendimento e dos serviços prestados pelo Estado. É tentador para a classe política alegar que nunca obteriam esses rendimentos e serviços de outra maneira, e que os podem garantir de um modo muito simples: votando nos partidos certos, sem mais esforços. Foi o que Alexis Tsipras fez na Grécia, e que António Costa e os seus parceiros parlamentares fazem em Portugal.

Este ideal de dependência tem pelo menos duas dificuldades. A primeira é que a dependência interna produz, em Portugal tal como na Grécia, dependência externa. O Estado português, mesmo depois de quatro anos de ofegante consolidação orçamental e de vinte anos de agravamento incansável de impostos, continua a gerar um défice equivalente a 3% do PIB (desde 1995, que nunca o défice desceu abaixo desse valor). Ora, essa diferença, devido à insuficiente poupança nacional, tem de ser largamente financiada no exterior, sujeitando-nos àquelas condições a que chamamos “austeridade”.

A consequência deste sistema de dependência não é só a dívida e a austeridade: é também uma economia estagnada e um desemprego que subiu quase todos os anos desde 2001. Quem culpa o Euro por tudo isto está apenas a admitir que a solução seria a desvalorização do escudo, isto é, o empobrecimento. Não haverá meio de obter outros resultados? Muitas organizações internacionais recomendam-nos que baixemos os impostos e racionalizemos a burocracia e as regulações, de modo valorizar o estudo, o trabalho e o investimento. Mas isso implica discutir o Estado e o papel do Estado. Não basta “cortar gorduras”, como a oligarquia gosta de dizer. Seria mesmo preciso conceber a relação dos cidadãos com o poder político noutros termos, que não os da dependência actual.

Vasco Pulido Valente lembrou que a cultura literária portuguesa alberga uma velha tradição de nojo pela política nos sistemas representativos. Muita desse nojo viveu da expectativa do poder absoluto de um salvador, ou da mitificação de um povo pronto a assumir directamente o governo. Não pretendo imaginar uma política sem políticos, nem tão pouco contestar as credenciais democráticas do actual regime: desde 1975 que nunca houve dúvida que os presidentes, deputados e autarcas eleitos foram mesmo eleitos, em eleições limpas. O que está em causa aqui é isto: tem a classe política capacidade para estabelecer outra relação com os cidadãos, que não seja a de uma dependência cada vez mais perversa? As coisas já não são como eram, mas ainda têm de mudar
.

VPV retomou o assunto ontem e hoje:

Ontem, explicava o clientelismo pela proverbial pobreza que nos acompanha desde o séc. XIX; hoje acrescenta que o clientelismo veio sempre a aumentar desde o liberalismo do séc. XIX, até Salazar, no primeiro quarto do séc. XX. Depois da Ii Guerra Mundial foi sempre a subir nas expectativas clientelares para o Estado satisfazer.

Por mim, ao ler isto, dá-me vontade de me meter na conversa, e só o faço, naturalmente, porque a mesma se desenvolve em público. Meto portanto o bedelho como aqueles putos que se atreviam a interpelar os mais velhos e que por vezes os mandavam rachar lenha. Corro o risco da irreverência, da irrelevância e da ignorância e pergunto:

Mas, afinal de que clientelas falam? Dos apaniguados do Estado que assinam papel a dizer que cumprirão com lealdade as funções que lhes são confiadas e que são aos milhares, actualmente, num crescendo que nunca parou de há quarenta anos a esta parte?  Parece que o Estado, segundo Rui Ramos, alimenta directamente uma prole de mais de 6 centenas de milhar de dependentes crónicos e profissionais. É desses de quem se fala?
Se for, teremos que perceber se o fenómeno teve a sua origem na democracia propriamente dita; no sistema económico que se engendrou há quarenta anos e se desenvolveu do modo ( des) conhecido ou se afinal a tendência é universal perante o alargamento das dependências que os cidadãos preferem ter em relação ao Estado, na Educação, Saúde e Habitação, para não falar na Paz, o Pão, etc...
Em resumo: o comunismo e o marxismo o que tiveram a ver com isso? É que esta discussão não se faz e há muito boa gente que acha que nem se deve fazer, por não interessar nada...

Se forem essas clientelas, ou seja os simples servidores da causa pública, em vínculo definitivo ou provisório, é uma coisa. Se forem outras clientelas que se alcandoram nos múltiplos úberes ou tetas do Estado e se serviram do aleitamento permanente como maná para crescerem e se desenvolverem, aí o panorama é diverso.
Neste último caso é necessário estudar quem atrela sempre a essas tetas salvíficas, aproveitando esses subsídios de aleitação permanentes: empresas públicas dos ipe´s e quejandos, advogados de elite e parcerias público-privadas, etc. etc.

Por outro lado e para compreender tudo isso será necessário questionar o papel do Estado, como aliás faz Rui Ramos. E aqui sabemos de ciência certa uma coisa: no tempo do Estado Novo, o Estado era exíguo, mas para o conseguir ser carecia, paradoxalmente, de ser omnipotente.
Ora isto é um exemplo de sistema político que alguns definem como "fassista" precisamente porque não lhes interessa discutir as virtualidades de um tal sistema. Se o deixassem fazer livremente perderiam audiência e...clientela.

É este o problema e agora mandem-me cavar batatas. Não tenho horta...

Antes disso e em complemento permito-me deixar aqui dois ou três estudos alargados que permitem entender melhor o fenómeno. Dois deles são de índole marxista e rebatem na tecla mirrada da luta de classes. O outro é apenas um estudo de facto e circunstância estatística sobre os moluscos cefalópodes que nos invadem o espaço público.


Enquanto me retiro para o alpendre a mirar a hipótese imaginária de cavar batatas alegóricas, fico a pensar se não seria bem melhor circunscrever a discussão ao que se passou nos últimos 40 anos e tentar perceber porque temos o sistema económico que temos e o Estado que herdámos de quem o foi gizando. Com factos, nomes, datas e ideias.

É isto um jornalista?


Hoje no DN aparece uma entrevista a um auto-denominado "jornalista" que exerce funções, agora, na TVI, a dirigir a sua informação. Sérgio Figueiredo, chama-se o indivíduo que se relata assim, depois de ter passado pela Fundação EDP, desde 2007, nomeado em estilo "camões" certamente, pelo então primeiro-ministro José Sócrates, nos anos de vacas a engordar para a bancarrota.

Este pseudo que de jornalismo aprendeu no falecido O Diário, da verdade que tínhamos direito, passou por jornais económicos marginais e falidos ( Diário Económico e Jornal de Negócios) e apresenta-se agora como mais um funcionário da causa certa na TVI dominada pelo capital espanhol das Cullels e companhia socrática em derrocada acelerada.
Veremos até onde chega este currículo repescado daqui:
  • Nome: Sérgio Figueiredo.
  • Idade: 40 anos (nasceu em 1966).
  • Sexo: masculino.
  • Habilitações académicas: Licenciado em Economia pelo ISE – Instituto Superior de Economia (actual ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa). Pós-graduado em Gestão das Comunicações e Multimédia (ISEG).
  • Órgão de comunicação social em que trabalha: Director do Jornal de Negócios e apresentador do concurso “AUDAX – Negócios à Prova” (para empreendedores com novos planos de negócio) e do programa “Balanço e Contas” (sobre macroeconomia, Bolsa e empresas), ambos transmitidos pela RTP2.
  • Órgãos/empresas de comunicação social em que trabalhou: Jornalista – O Diário (de 1989 a 1990); Semanário Económico (1990); Expresso (de 1990 a 1995).
  • Director editorial ou outras funções – Diário Económico (grande repórter, de Abril de 1995 a Fevereiro de 1996; director-adjunto, de Fevereiro a Outubro de 1996 e director, de Outubro de 1996 a Setembro de 2001); Económica SGPS (director-geral editorial, de Fevereiro a Setembro de 2001, e administrador, de 1998 a Setembro de 2001).
  • Colunista ou comentador especializado em Economia – Público (Outubro de 2001 a Agosto de 2002); Correio da Manhã (de Setembro de 2002 a Maio de 2003); Sábado (Maio de 2004 a Janeiro 2007); TSF (em 1991 e 1992, e rubrica semanal “Opinião Económica”, em 1998 e 1999), Rádio Comercial (rubrica semanal em 1996 e 1997) e Antena 1 (s.d.); RTP2 e SIC (colaborações nos serviços noticiosos, de 1996 a 2001); TVI(de 1999 a Setembro de 2001); SIC Notícias(autor e apresentador do programa semanal “Linha de Crédito” e comentador, de Outubro de 2001 a Dezembro de 2003) e RTP1 (de Março de 2005 a Janeiro de 2007).
  • Data em que se iniciou na profissão: 1989.
  • Estatuto profissional (na data da entrevista): Director editorial do Jornal de Negócios.
  • Local: Gabinete de Sérgio Figueiredo, na redacção do Jornal de Negócios, em Lisboa.
  • Data: 03.07.06.
Ler mais:
http://www.jornalistas.online.pt/noticia.asp?id=409&idCanal=406
http://www.pje.universia.pt/cv/Sergio_Figueiredo.pdf
http://www.audax.tv/Default.aspx?tabid=130

Antes disso leia-se esta entrevista obscena do antigo estagiário do O Diário, hoje publicada no Diário de Notícias dominado pelas forças político-económicas que então predominavam na EDP do tempo da Fundação.

Quem não quiser ler tudo que é indigesto e gerador de vómito mental, pode ler só esta parte, em que se refere ao despudor com a maior das tranquilidades da impunidade em ter sido jornalista da verdade a que tínhamos direito:
 

 


Ou seja, este indivíduo era amigo do multimilionário por interposta pessoa e declarou-se como tal, quando isto já se sabia. Mais, enquanto director da tal informação da TVI apadrinhou a pseudo-entrevista realizada com o dito multimilionário por interposta pessoa, realizada para explicar a tremenda cabala que lhe foi montada pela justiça portuguesa. O dito jornalista está pronto a acreditar nessa cabala até ao momento em que deixar de lhe interessar. Parece estar perto, tal momento...pelo teor das últimas declarações.
 
Parafraseando um Primo, é isto um jornalista?

sábado, março 05, 2016

A gente que "existia para participar"...

Lendo a história do IPE, sumariada neste artigo do Expresso de 8 de Julho de 1989 poderemos entender como a nossa Economia funcionou depois do PREC de há quarenta anos.



Em 22 de Dezembro de 1978 O Jornal mostrava uma publicidade a esta holding de empresas públicas. Pode perguntar-se para que serviria esta publicidade...




Se as empresas nacionalizadas e as participadas pelo Estado estavam nessa situação em que existiam para participar nas bancarrotas sucessivas e descalabros económicos permanentes,  Ferraz da Costa lembrava  em1.3.1986 no Semanário.



A "banca" não se incluía nesse universo de ipe´s que existiam para participar. E para recordar a petite histoire do BES, agora que o seu mentor anda por aí a justificar-se, em livro a preceito, este pequeno artigo daquele número do Expresso ajuda.




 No final dos anos oitenta o panorama era este:


 E a seguir apareceu o "cavaquismo" em força. Oportunamente lá iremos como já fomos há algum tempo, mas vale sempre a pena recordar porque é que somos o país mais atrasado da Europa: sempre por causa da Esquerda. Pelo PCP nunca teríamos saído do universo IPE, mas com gestores à maneira soviética. Pelo BE que então andava disseminado em partidos de extrema muito menos. Pelo PS, saímos, mas a muito custo, depois de se terem convencido que afinal lá fora não havia alternativa e porque lhes continuava a render lugares nos pequenos ipe´s que foram aparecendo, incluindo o principal lugar de formação, a madrassa ISCTE.

Quem é que ganhava com esta Economia de terceiro mundo? Estes figurões, por exemplo. Suas famílias alargadas por supuesto e mai-los descendentes políticos sempre amarrados às participações.
Muito participaram estes gajos...até o pobre Camões, o pau-mandado do Sócrates, participou através do advogado Proença, outro participante de grande vulto.


Teremos o que merecemos? 

Os pombras brancas do regime

Vai por aí uma indignação política muito curiosa sobre a circunstâncias de uma antiga ministra das Finanças, saída há quatro meses de um governo, ter aceite integrar quadros técnicos de uma empresa estrangeiro de "gestão de dívidas públicas" e que esteve envolvida em negociações com o Estado português, a propósito de um banco privado, durante o consulado da tal ministra, Maria Luís Albuquerque.
Não há suspeita de qualquer conluio prejudicial para o Estado, nem sequer qualquer indício de corrupção funcional. Há apenas o reconhecimento por essa empresa da qualidade profissional da tal ministra e por isso a sua contratação.

Nada que um Jorge Coelho não tenha feito ( Mota-Engil, com outros contornos ainda mais questionáveis). Nada que um José Sócrates também não tenha feito ( Octapharma, a empresa que lhe deu "um bom tacho" segundo afirmou António Guterres.
Nada que uma ressabiada Manuela Ferreira Leite não tenha feito ( foi trabalhar para o Santander).
A questão parece ser o período de nojo. Se for mais de seis meses talvez se aceite. Menos que isso é anti-ético...vergonhoso e talvez criminoso.

Portanto, o assunto tem muito mais que se lhe diga e estes hipócritas que agora rasgam vestes nada disseram disto que agora se relembra:

Este autor- Gustavo Sampaio - publicou em 2014 o livro Os Facilitadores, sobre as sociedades de advogados que negociaram com o Estado português e também do lado privado, contra o Estado português e são provavelmente os responsáveis pelas PPP´s que negociaram, pelo modo como ocorreram certas privatizações, concessões e sub-concessões. São um poder relativamente oculto, sem fiscalização democrática de espécie alguma. Um dos seus principais mentores, Proença de Carvalho anda sempre a falar de democracia e a exigir transparência e responsabilização do MºPº, mas o conceito falha-lhe a essência nestas questões. Assim, a suspeita sobre a razão por que o faz é maior que os ganhos que acrescenta na sociedade que partilha com espanhóis e que acabou por escorraçar um agora arrependido Nuno Godinho de Matos. Espero que este advogado fale e volte a falar, para que se conheça melhor o "perfil democrático" deste pomba branca do regime.

Portanto, o melhor exemplo destas sociedades "jurídico-empresariais" é a Uria Menendez, de Proença de Carvalho, como explica o autor:


Pois segundo o Correio da Manhã de hoje, o grande vencedor na derrota do Estado português, na acção que envolveu discussão sobre swaps, foi o advogado de José Sócrates...Proença de Carvalho. Está em todas e ganha em todos os tabuleiros. Até quando?


Sobre isto não há e nunca houve da parte dos tais indignados postiços nenhuma questão pública a colocar.

A propósito disto e muito mais vale a pena ler este pequeno artigo do director do C.M. edição de hoje.


Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso