segunda-feira, março 10, 2014

O caso BCP/Jardim Gonçalves visto pela Esquerda

Movido pela curiosidade sobre o assunto BCP-Jardim Gonçalves vs Joe Berardo, comendador da Bacalhôa, impulsionador dos processos contra os antigos administradores do banco, por razões obscuras e nunca perfeitamente explicadas, eventualmente por conta da Maçonaria, aqui ficam dois textos extraídos de dois sítios na Rede que explicam o que se passou no início dos procedimentos contra Jardim Gonçalves et al. no BdP.
 

O caso BCP de Jardim Gonçalves, visto pela Esquerda ( BE, PCP e PS), num escrito de um tal Jorge Costa, “dirigente do BE”, tipo continuação dos escritos sobre os "donos de Portugal"... em 14 maio 2010:

A característica principal do BCP agrava-se a partir daqui -  uma estrutura de accionistas nacionais fragmentária e devedora ao próprio BCP: em 2005, 2,7 milhões de euros de créditos e de garantias estavam concentrados em quatro accionistas, com cerca de 13 por cento do capital (EDP, Grupo Mello, Teixeira Duarte e Joe Berardo). Na crise de crescimento, Jardim Gonçalves precisa de realizar dinheiro: começa a vender activos no valor de mil milhões de euros, entre eles os seguros Império. Mas é também aqui que o BCP começa a emitir títulos que são adquiridos por testas-de-ferro do banco, através de veículos off-shore.

A partir de 2005, Jardim Gonçalves passa para o Conselho de Supervisão e é substituído na presidência do BCP por Paulo Teixeira Pinto, mais um antigo secretário de Estado de Cavaco, que chegou a ser porta-voz do governo. Tal como o seu antecessor, é destacado membro da Opus Dei. Teixeira Pinto segue o trilho de Jardim Gonçalves, angariando mais accionistas endividados e fracos: Moniz da Maia, Filipe Botton, Diogo Vaz Guedes, João Rendeiro. Mas na sequência da OPA fracassada contra o BPI, a relação entre o fundador e o seu substituto depressa se degrada e, na prolongada disputa de poder que se segue, os crimes de gestão cometidos pela administração Jardim Gonçalves vêm a público, abrindo o maior escândalo da história bancária portuguesa até então, em perdas financeiras e impacto social.

Ainda seria necessário esperar pelos casos do BPN e do Banco Privado Português para uma panorâmica mais completa, mas o caso do BCP já expunha de forma inédita a opacidade total em que decorre a componente criminal do negócio bancário e, com ela, a falta de comparência do Banco de Portugal, então governado por Vítor Constâncio, que só actuou perante a denúncia de um accionista e muitos anos depois da manipulação de mercado estar montada pela cúpula do BCP.

Em finais de 2007, a supervisão constata que as contas e resultados do BCP estavam falseados pelo menos desde 2000. O buraco ronda os 600 milhões de euros. Outros dados sobressaem: os administradores do BCP tinham interesse pessoal e directo na declaração de resultados artificialmente elevados, dado que as suas remunerações indirectas resultavam de prémios em percentagem dos resultados, podendo chegar a 10% dos lucros (no caso de Jardim Gonçalves, os ganhos chegaram a 10 milhões de euros); o auditor externo, a KPMG, ratificou contas que estavam falseadas; o BCP ocultou a actuação das sociedades offshore que tinha criado e financiado para a compra de acções próprias, mesmo se o Banco de Portugal tinha conhecimento da existência - que não investigou - de pelo menos quatro sociedades que compraram sem registar acções do BCP a partir de 2002; os clientes do BCP com pequenas poupanças foram induzidos a comprar acções a crédito e os prejuízos decorrentes levaram muita gente à ruína (o próprio BCP veio a reconhecer o abuso, ainda sob Teixeira Pinto, ressarcindo alguns dos pequenos accionistas); o BCP discriminou entre os accionistas, tendo perdoado crédito a alguns dos grandes accionistas, em particular aos que agiam como intermediários na compra de acções próprias e a familiares de administradores.

Já em 2010, seis antigos administradores do BCP foram condenados pelo Banco de Portugal pela prestação de informação falsa e falsificação de contas. Jardim Gonçalves, António Rodrigues e Christopher de Beck foram condenados com um período de inibição de exercício da actividade bancária de nove anos, os demais por períodos entre os cinco e os nove anos. Paulo Teixeira Pinto e Filipe Abecasis foram ilibados. O próprio BCP foi condenado pelo Banco de Portugal ao pagamento de uma coima única de 5 milhões de euros, pela prática de contra-ordenações relativas aos exercícios anteriores a 2007. Para além da inibição de exercício da actividade bancária os condenados vão ter de pagar coimas que variam entre os 230 mil e um milhão de euros. Jardim Gonçalves, fundador e presidente do BCP desde 2005, recebeu a coima máxima no processo.
Mesmo depois de sair, no final de 2007, o fundador continuou a dispor de dezenas de seguranças privados e a voar no avião de luxo do BCP. É que o acordo realizado com o conselho de remunerações do BCP incluía "segurança e protecção na saúde". E o médico de Jardim Gonçalves só tem consultório em Nova Iorque.

Depois, um escrito assinado por um tal Ressarcido, suspeito de interesse no caso...
A acusação do BdP segundo tal escrito consistiria nisto:
 
(...)
Foram concedidos às ‘offshores’ créditos no valor de 590 milhões de euros entre 1999 e 2004, ano em que as sociedades passaram para três accionistas.
Cinco administradores, incluindo Pedro Líbano Monteiro, que não está acusado neste processo, assinaram os créditos e as renovações às dezassete ‘offshores’ que fazem parte da acusação do Banco de Portugal: António Rodrigues, António Castro Henriques, Christopher de Beck e Filipe Pinhal, alguns tinham os pelouros da Direcção Internacional, outros eram os ‘alternantes’, uma vez que no crédito é sempre preciso uma segunda assinatura de um qualquer administrador. Alípio Dias não consta desta lista, porque só interveio mais tarde, nas ‘offshores’ de Goes Ferreira que acabou por extinguir em 2007. Há ainda assinaturas de vinte directores do Grupo BCP (incluindo da sucursal de Cayman) que propunham o crédito. Pedro Líbano Monteiro foi apenas testemunha deste processo, o que se pode explicar pelo facto de as suas assinaturas serem anteriores a 2003, e por isso o seu envolvimento ter prescrito.
Os administradores visados explicam que o facto de assinarem crédito não implicava que soubessem que as ‘offshores’ não tinham ‘beneficial owner’ (e que por isso eram do BCP) só os preocupava a relação crédito /garantias.
Em causa estão empréstimos concedidos para a compra de acções que só tinham as acções como garantia. O montante global de crédito autorizado às 17 sociedades Cayman foi de 525 milhões de euros, tendo em consideração as várias alterações ao limite de crédito que acabou por ser de 590 milhões. Estas operações provocaram elevadas perdas patrimoniais, em consequência da acentuada depreciação que as acções em carteira viriam a sofrer a partir de 2001. Até Dezembro de 2003 os créditos chegaram aos 489 milhões de euros, enquanto que as acções que cobriam esses empréstimos não ultrapassavam 100,5 milhões de euros. No fim desse ano “o BCP terá procurado ocultar, com recurso a pessoas singulares (Frederico Moreira Rato, Bernardino Gomes e Ilídio Monteiro) e colectivas por si instrumentalizadas as perdas”. Os prejuízos das ‘offshores’ acabaram por ser assumidos pela Edifício Atlântico em 2004.
Em 2005, Paulo Teixeira Pinto chega a presidente do BCP, e nesta altura são as ‘offshore’ do Goes Ferreira que acumulam perdas. As sociedades Sevendal, Hendry, Sherwell e Somerset, segundo o BdP, são do BCP e deveriam ter sido contabilizadas as perdas que estas tiveram desde 2001 até 2006, inclusive. Prejuízos de 79,8 milhões em 2001; de 25,3 milhões em 2003; lucros de 25,2 milhões em 2005; perdas de 3,12 milhões em 2006, altura em que foi proposta a sua extinção já com Alípio Dias no pelouro da Direcção Corporate Sul IV, que lhe estava atribuída desde Janeiro de 2006. A 30 de Novembro de 2006 o BCP formalizou a cessão dos créditos sobre a Hendry à Intrum Justitia Debt Finance e estes foram cessados em 28 de Dezembro. Em 28 de Fevereiro foram cedidos os créditos sobre a Somerset à Intrum Justitia e em 31 de Julho de 2007 o BCP cedeu os créditos sobre a Sherwell à Branimo (promoção imobiliária).
Obs...
Também estão em causa estão alegadas irregularidades relacionadas com o financiamento da aquisição de acções do próprio banco por “off-shores”.
Este processo, que se arrasta há mais de um ano, tem assim um primeiro passo positivo ao eliminar quatro nomes ao rol dos possíveis condenados do chamado caso BCP. Começa agora uma outra fase, com o período de contestação pelos nove notificados – sete ex-administradores e dois directores gerais do banco – e a posterior análise e dedução de acusação por parte do Banco de Portugal. Com os prazos legais em vigor, a fixação das sanções por parte da instituição vai ainda demorar algum tempo, podendo ser depois contestada judicialmente. Uma situação que, com as tácticas dilatórias dos advogados, através de pedidos de informação e arrolamento de inúmeras testemunhas, pode atirar uma decisão final para daqui a vários anos.
Esse tipo de situações viveu-se no passado em instituições mais pequenas, como a Caixa Económica Faialense ou a Caixa Económica Açoreana. A grande diferença é que essas instituições acabaram por desaparecer e o BCP é um dos mais importantes bancos portugueses e continua a andar, como já disse um dos seus responsáveis, nas bocas do mundo pelos maus motivos, o que, como refere um comunicado, de sábado, do banco, tem produzido “imputações susceptíveis de afectar o seu bom nome e reputação”.
Sabe-se que, entre os nove notificados pelo Banco de Portugal, existem graduações diferentes de responsabilidades que deverão redundar em diferentes tipos de penalizações. Também se sabe que o banco foi notificado, quer pelo Banco de Portugal, quer pela CMVM, e que a entidade reguladora do mercado de capitais deverá notificar, em breve, as pessoas envolvidas em alegadas irregularidades de mercado. Isto para já não falar dos processos que estão a ser instruídos pelo Ministério Público. Por isso, é bom que a justiça seja célere e os culpados condenados, para bem do banco, das estruturas judiciais e de regulação e do país.(Francisco Ferreira da Silva, DE)

 A defesa do BCP e de Jardim Gonçalves também é assim apresentada...


O BCP já enviou a sua defesa para a CMVM, que acusa a instituição de, entre outras coisas, ter prestado falsa informação e de ter usado offshores para compra de acções próprias BCP sem comunicar às autoridades.
O banco, que está a ser assessorado pelo gabinete de advocacia de João Soares da Silva, alega que os veículos foram criados no final dos anos noventa, pelo BCP e pelo extinto BPA, e que depois passaram para as mãos de outros veículos detidos por três clientes - Ilídio Monteiro, Bernardino Gomes e Frederico Moreira Rato. Em 2001 e 2002 estas sociedades aparecem a transaccionar acções próprias do BCP, sem conhecimento dos supervisores, o que terá tido impacto nos fundos próprios do banco e alterado o seu valor real. O BCP responde às acusações afirmando que estes veículos passaram para as mãos da família Paupério, um ex-quadro da instituição, associado a negócios imobiliários em Angola. Os advogados asseguram ainda que as várias alterações de titularidade não foram articuladas. Mas a CMVM já transmitiu ao Ministério Público um conjunto de factos que considera suspeitos de poderem configurar a prática de crimes contra o mercado, da responsabilidade quer do banco, quer de gestores da anterior administração liderada por Jardim Gonçalves.

Perante isto tudo continuo sem saber como foi a decisão do juiz Hora e que argumentos juridicos foram fundamentados. 



O neo-realismo reinventado

O artigo de Vasco Pulido Valente, hoje no Público suscita alguma perplexidade que me leva a comentar.

O assunto do "empobrecimento" dá pano para muitas mangas opinativas e quando leio que em Portugal, nos anos cinquenta e sessenta a miséria e a pobreza contaminavam tudo " o que se vestia, o que se comia, o que se fazia e o que se pensava"  e que a "tirania estava na necessidade de se poupar, na privação perpétua da frivolidade e do prazer, no mundo imóvel e sem saída e que pouco a pouco se tornava numa prisão a céu aberto", fico mesmo  a pensar em que mundo viveu VPV.

Para quem viveu os sessenta do século que passou, este panorama miserabilista parece um resumo de um livro de Alves Redol dos anos 40, mesmo sem ter vivido esse tempo. Mas... nos sessenta era tudo miserável assim?

Eu tenho recordações desse tempo e a tal miséria e pobreza, que existia, não era drama neo-realista. A ideia de poupança e contenção na "frivolidade" não era sinónimo de tristeza e não havia tirania alguma nessa circunstância.

Por outro lado, o mentor do Estado Novo, Salazar, vinha de uma aldeia beirã, de uma das tais famílias que VPV refere como vivendo no "horror". Os pais eram caseiros de terratenentes. Mas Salazar singrou, mesmo assim, o que desmente o prognóstico póstumo de uma suposta miséria que cairia sobre o actual primeiro-ministro caso nascesse nesse "horror".

O que é verdadeiramente a miséria? A família de Salazar era miserável segundo aquele standard do "horror"? Talvez. Mas não era. De facto, não era e VPV não está certo no que escreve.

Esta notícia do Correio da Manhã de há uns dias pode servir de exemplo sobre o que é a miséria. Mas não é a que aparentemente se mostra. É outra...a moral, muito mais deletéria que a corrente.

Porém, o melhor comentário a esta crónica é a citação que aparece em epígrafe, no jornal, atribuída a George Bernard Shaw: "alguns homens vêem as coisas como são e dizem "Por quê?"  Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo "Por que não?"
É mesmo isto.



sábado, março 08, 2014

O jornalismo do costume

 No Público de hoje escreve-se em primeira página em caracteres engarrafados que "Jardim Gonçalves escapa à condenação do Banco de Portugal" e a seguir que "o Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa considerou prescritas condenações decretas pelo Banco de Portugal".

Quando li a menção ao facto de se terem considerado "prescritas condenações" torci logo o nariz e comprei o jornal para ler a notícia sobre o assunto, para me informar, como é suposto com um jornal dito de "referência".
Em má hora o fiz porque a notícia que informa é esta:


Passando por cima da asneirola grave de se escrever que as condenações prescreveram, o que denota logo o conhecimento do assunto de quem escreveu, desafio quem quiser a perceber o sentido do que aparece escrito. Perceber o assunto como deve ser, quero dizer. A confusão entre factos, direito e circunstâncias é de tal ordem que teria sido melhor nada escrever. Admite-se que a jornalista não tenha estado nos seus melhores dias, mas ainda assim...

Ou então fazer como o Diário de Notícias ( Carlos Rodrigues Lima) que resume em poucas linhas o essencial que precisa de ser melhor explicado por um jornalismo que aparentemente não temos.


O juiz António da Hora, do Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa, considerou que as nove contra-ordenações imputadas pelo Banco de Portugal a Jardim Gonçalves, ex-presidente do BCP, já prescreveram. Sendo assim, o magistrado anulou a multa de um milhão de euros e a inibição do exercício de funções bancárias durante nove anos. O processo do Banco de Portugal é um dos três em que Jardim Gonçalves está envolvido. Paralelamente a este, há o processo-crime, a ser julgado nas Varas Criminais de Lisboa, e o da Comissão de Mercados e Valores Mobiliários (CMVM).
Segundo o despacho do juiz, os ilícitos contra-ordenacionais imputados pelo supervisor bancário a Jardim Gonçalves estão prescritos desde março de 2013. Por isso, todas as acusações do BdP ao ex-presidente do BCP foram retiradas, as quais passavam pela prestação de informação falsa e falsificação de contas.
Aos restantes administradores acusados no processo contra-ordenacional do BdP, Filipe Pinhal, Christopher de Beck, António Seabra, António Rodrigues e Luís Gomes, o juiz também declarou prescritas algumas das contra-ordenações que lhes tinham sido imputadas.


O que seria preciso saber para que a informação fosse mais completa e precisa e ao mesmo tempo jornalística? Desde logo entender o que é a prescrição, como instituto penal, aplicado às contra-ordenações. O Google hoje em dia opera milagres....mas é preciso saber para se questionar, claro está.  Depois saber minimamente as razões da aplicação do instituto. O Público, em vez de perguntar ao advogado Magalhães e Silva, velha raposa, a sua opinião sobre a decisão de uma juíza avulsa, deveria tê-lo questionado sobre a essência da questão, ou seja da prescrição:  o que é, como funciona e que particularidades tem no caso concreto. Poderia perguntar-lhe assim:

Os factos em causa no processo que origina a notícia, são de quando, exactamente? Por onde andou o processo desde o seu início e que factos ocorreram que pudessem parar de algum modo ( suspendendo ou interrompendo o decurso do prazo da prescrição) alterar o sentido de uma decisão que foi objecto de recurso? Que tempo seria necessário decorrer para se operar a tal prescrição, com essas circunstâncias já apuradas? Então, no caso concreto o que é que se passou em concreto?

Enfim, coisas que o jornalismo nacional entende supérfluas, actualmente, mas que há 40 anos eram corriqueiras e constituíam a essência da nobre arte de informar, numa altura em que os jornalistas não eram licenciados, mas sabiam o b-a-b-a do que o Público em geral espera da informação.

Isto assim é uma tristeza e uma desilusão. Ainda por cima, este jornalismo, depois atira para "a Justiça" o opróbrio da sua própria ignorância e desprezo pelo conhecimento. É evidente que isto origina equívocos porque os magistrados que julgaram e decidiram sabem o que fizeram e como o fizeram e ao ler isto que aparece nos media, só podem sentir pena pelo que aparece escrito e lamentar que mais uma vez se informe mal e com motivações de ataque à "Justiça", evidentes em certos casos.
Depois, o resultado está à vista: no ranking das profissões mais vilipendiadas publicamente, caracola bem lá no fundo a magistratura e "os tribunais". O Jornalismo, mesmo o deste tipo, encimeira as considerações encomiásticas ( tinha escito encomiosas, mais expressivo, mas é palavra inexistente e não quero dar o flanco marginal, sem necessidade)  dos leitores que aceitam o que lhes dão...
Em resultado deste jornalismo, perde-se o respeito, de parte a parte ( magistratura versus jornalismo e vice-versa) e ninguém ganha nada com isso.

Jornalismo tipo para quem é bacalhau basta, como dantes se dizia. Ou de meia-tijela como ainda agora se diz.


ADITAMENTO em 9 de Março 2014:












Comprei o Diário de Notícias de hoje e o Público para me informar melhor sobre o assunto "prescrição do processo do BdP a Jardim Gonçaves."  Fiquei na mesma que ontem, quase.
Hoje a notícia é que o BdP ficou enxofrado com a decisão judicial e comentou-a em modo formal e com um comunicado em que alegadamente manifesta "revolta" ( versão do Correio da Manhã) e "queixume" ( versão do Público, citando a Lusa, numa pequena notícia que diz mais e melhor que ontem).
O BdP não tem nada que comentar decisões judiciais, portanto de um órgão de soberania, em comunicado. Este comunicado é uma vergonha e uma ignomínia que só a democracia débil que temos ( os partidos é quem mais ordena e quem manda neles são aqueles que sabemos...) pode admitir sem mais. Impõe-se uma atitude do poder judicial perante este dislate e eventualmente de quem o representa associativamente porque não há outra entidade para tal . As decisões judiciais deste género, em que o BdP é apenas uma entidade que procedeu a investigaçõe e se encontram pendentes, comentam-se por essas entidades, em sede de recursos, se forem admissíveis,e mais nada. Num país democrático, sei lá. como a Inglaterra, o senhor Carlos Costa a esta hora estava fora do BdP, pelo abuso e falta de respeito para com um órgão de soberania.
Para além disso e atingindo as raias da ignorância básica, parece ( segundo o Correio da Manhã) que " não está afastada uma queixa formal contra o juiz no CSM". Isto é ainda mais incrível porque esta gente do BdP, se a notícia for verdadeira, não percebe que o CSM não pode interferir nas decisões jurisdicionais dos juízes. No entanto, parece que a questão é outra: o tempo que demorou para essa decisão. Segundo o Público de hoje, uma das razões do "queixume" será o facto alegado de ter demorado "quase um ano entre a acção por si, BdP, desencadeada e a primeira sessão de julgamento, que ocorreu após recurso ( da decisão de aplicação das coimas) dos arguidos". Ou seja, o BdP quer sindicar, através do CSM, o cumprimento do prazo e a diligência do tribunal neste caso, o que já se torna possível e poderá ocorrer. O CSM, nesse caso,  designa um inspector que vai analisar o processo e verificar se há razões justificativas do atraso. Se não houve, propôe sanção disciplinar ao juiz e o CSM vota e é assim que funciona. Não sei o que se passou no processo mas estou em crer que não haverá razões de crítica ao magistrado,atendendo ao sistema de prazos, de funcionamento de secretarias  que temos e da burocracia inerente e ainda outras circunstâncias como sejam as razões de agendamento de julgamentos, com os diversos interessados.  Mas veremos...
 
O Diário de Notícias ( Carlos R.Lima) faz hoje um apanhado das vicissitudes processuais, mas continua por esclarecer o que é mais importante, no meu modesto entender: as datas dos factos e as diligências efectuadas pelas diversas entidades. Isso para se entender desde quando começou a contar a prescrição e se houve algo que a interrompeu ou suspendeu.
Ontem o Público escrevia, citando a decisão e mencionando que " o tribunal alega", o que é incrível, que todas as contra-ordenações imputadas pelo BdP a Jardim Gonçalves "respeitavam a um período que terminava em Março de 2005, altura em que deixou de ser presidente do conselho de administração do banco", o que permite questionar se todos os factos passíveis de integrar as referidas contra-ordenações ocorreram até essa data e se foi a partir daí que se contou o prazo de prescrição, que alás o jornalismo continua a não indicar nem esclarecer os leitores. O Público de onte, escreve que "o processo cessou  em 2013" . "Cessou"?!

O Diário de Notícias escreve hoje que o BdP condenou esse arguido e outros, em 27 de Abril de 2010. E depois de 38 sessões de julgamento ( é obra e não é nada comum, um julgamento assim) proferiu decisão em 7 de Abril de 2011 em que já se concluía pela invalidade da denúncia do comendador da Bacalhôa, baseada em elementos obtidos subrrepticiamente por quem sabia da poda. Ou seja, a obtenção dos elementos bancários violou a regra geral do sigilo bancário. Essa decisão foi objecto de recurso e o processo foi para a Relação onde ficou até 7 de Outubro. A decisão da Relação foi ela mesma objecto de recurso, até para o Constitucional e só em 1 de Outubro de 2013 este Tribunal decidiu pelo envio do processo para onde foi agora proferida decisão.

Resta saber, jornalisticamente, quem foi que despachou esse processo e decidiu nas datas assinaladas e como é que se contou o prazo da prescrição.

Com isso ficaríamos melhor informados e ontem já era tarde porque já poderia ter sido feito. O Público fez o que fez e o DN fez um pouco melhor, mas insuficiente. Do CM; sobre estas matérias e outras há pouco a esperar, porque o que lhe interessa é a cacha de encher o olho e levar o incauto a comprar o papel. Como disse, escreveu hoje que o BdP ficou "revoltado" com a decisão do tribunal.



Revoltado fico eu com tanto jornalismo de meia-tijela.



sexta-feira, março 07, 2014

Teófilo Santiago, inspector da PJ, reformou-se





Já me esquecia de referir um fait-divers com muito interesse. Teófilo Santiago,  inspector da PJ com um “crachá” de ouro,  reformou-se e deu pelo menos duas entrevistas. Uma há cerca de um mês, ao Correio da Manhã, com excerto acima. Outra, á revista do DN/JN de Domingo passado.

 Curioso porque julgo termos frequentado o mesmo curso de Direito, em Coimbra. E julgo saber a quem se refere quando logo no início da entrevista menciona um professor universitário detido pelo mesmo, logo no início da carreira. Poderá ser um professor de processo penal, precisamente nesses anos de 1977 ou 78 e com um nome que tem apelido Almeida.
O que Teófilo Santiago diz de relevante nesta entrevista não é novidade para quem já leu algo sobre o processo Face Oculta, eventualmente até escrito neste blog.
O que se passou no Verão de 2009, imediatamente antes das eleições legislativas é uma das maiores vergonhas de toda a nossa história judiciária e teve como protagonistas os mais altos representantes do poder judicial e judiciário: o então presidente do STJ e o PGR que saiu. 
Santiago diz que esse processo lhe deu a machadada final na réstea de inocência que ainda tinha no sistema político-juidiciário.
“Nesse processo, o «Face Oculta», o que me chocou e ainda hoje me considero injuriado, eu e as pessoas que trabalharam comigo, foi haver pessoas que, aproveitando tribunas públicas, se permitiram dizer com a maior impunidade que tinha sido feita espionagem política. É uma acusação absolutamente inaceitável.”
É preciso chamar os boys pelos nomes e neste caso o nome da rosa é o sinistro Vieira da Silva. Foi esse indivíduo que boquejou desse modo.
Quanto ao resto é ler e meditar porque é que o PS- sempre o PS- desde o caso Casa Pia se intromete sem qualquer réstea de pudor ou vergonha nas investigações criminais que lidam com os putativos criminosos que andam no partido e que o fazem sem qualquer receio de serem incriminados.
Porque é que esse partido, essencialmente, porque não se vê tal coisa noutros partidos, se julga  intocável na vida política portuguesa de tal modo que qualquer suspeita que recaia sobre algum dos seus próceres mais notáveis gera sempre uma reacção desproporcionada e desmedida, com apelos a levantamentos e denúncias de cabalas a eito? Não se compreende. 
É incrível como um partido destes ainda resiste a estes escândalos sem a punição eleitoral necessária. 
Este comportamente de um partido com vocação para o poder executivo, em alternância é escandaloso, mesmo em termos europeus e inadmissível democraticamente. A única razão que perscruto para não ser castigado nas urnas por causa desses comportamentos é o silenciamento cúmplice da maior parte dos media. Os socialistas estão por todo o lado e "quem se mete com o PS, leva", como dizia o "hádem" in illo tempore". Ainda dirá, se calhar.

Segue a entrevista, parcial:
 
DN- Vamos aos seus casos mais complicados. Mais mediáticos.
Teófilo Santiago_Não gosto dessa situação, sabe porquê? Depois do prazer de fazer uma investigação, vem um desprazer enorme com todas as circunstâncias laterais que se geram à volta. Muitas vezes, desvirtuadas. Procura-se esse mediatismo. Mas eu não gosto. O taxista fala de uma coisa de manhã e à tarde há uma reacção.

DN-Mas o seu nome fica ligado a alguns processos complicados, pelo menos para a opinião pública, desde o «Aveiro Connection», passando pelo Pedro Caldeira e acabando, obviamente, no «Apito Dourado» e no «Face Oculta».
TS_Houve outros complicados. O processo do pelotão de segurança do Porto foi muito complicado. Tive milhares de processos. Tenho consciência que as minhas equipas foram das primeiras a confrontar-se com algumas realidades. Não vamos chamar mérito a isto, é a evolução que coincidiu temporalmente comigo nas situações. No «Aveiro Connection» foi a primeira vez que não estamos perante um simples caso de contrabando de tabaco, é uma situação de corrupção generalizada nas forças policiais, na Polícia Marítima, na Guarda Fiscal e na Capitania. Apareceu o corporativismo naquilo que menos bom tem o corporativismo. Mas as equipas que liderava não vacilaram. Porque hierarquia tinha absoluta confiança em nós.

DN-Isso mudou, essa confiança? Quando? Em que processos?
TS_Estou-me a referir às primeiras hierarquias porque era delas que tinha uma maior dependência. Depois fui ganhando algum espaço. Apareciam coisas novas, pouco comuns, mas não olharmos para o lado. Em Aveiro, pela primeira vez, foram apreendidos prédios completos porque não respeitavam as regras da boa construção, um crime novo. Naquela altura foi uma singularidade, uma excentricidade quase. Naturalmente, quanto mais e melhor se trabalha mais situações chegam ao nosso conhecimento. Recebíamos notícias de factos mais ou menos delicados de várias partes do país, pessoas que queriam dar conhecimento àquelas equipas, àquele departamento.

DN-E lidar com o protagonismo dos próprios suspeitos, era tão ou mais difícil que a própria investigação?
TS_Nunca me preocupou. Não ligava muito a isso. Tinha um grande respeito por todos os intervenientes processuais, seja o da mais modesta condição social, seja da mais elevada. É evidente que só se fosse um leviano é que não via que, nalgumas circunstâncias, daí viria outro tipo de dificuldades… E até 2004…

DN-Até ao «Apito Dourado»?
TS_Até 2004 não tinha nenhuma razão para não acreditar que as coisas são assim, funcionavam assim.

Li algures, que o «Apito Dourado» foi o processo com o qual diz que perdeu a inocência.
TS_É verdade. Nunca me passou pela cabeça… Sempre transmiti às pessoas que estavam comigo para que não se preocupassem. Que era impensável que alguém nos pudesse querer fazer o que quer que seja, porque nem se atreveriam a tal. E olhe, as circunstâncias falam por si… O sermos despedidos se calhar foi o menos… O que se passou foi feio, foi das coisas mais feias… Nem consigo encontrar um adjectivo para qualificar o procedimento ou o processo que levou à nossa saída.

DN-Responsabilidade apenas da hierarquia de então?
TS_Também teve a ver. Mas, como foi dito, por vontade do poder político. Depois vem por aí abaixo.

DN-Foi o poder do futebol? Não tinha a noção desse poder?
TS_Tínhamos. Mas o problema ali não foi o futebol. Foram as implicações de pessoas que estariam ligadas aos vários poderes, nomeadamente ao político, em tudo aquilo. E a necessidade enorme que alguns responsáveis tinham em saber o que é que se passava na investigação. Até aí, o poder político, pelo menos que eu me apercebesse, independentemente de pessoas mais ou menos próximas serem tocadas, nunca tinha ultrapassado aquela linha. Aqui não! Ultrapassou-se tudo. Disseram-me claramente, «até às tantas horas, tem que se saber quem são as pessoas e o grau de envolvimento». Eu ri-me.

DN_Conta-se que na lista das buscas colocou alguns nomes no fim para que ninguém se apercebesse. Isso é uma história ou foi verdade?
TS-Não foi assim. Nem tive um peso tão grande na investigação do «Apito Dourado» como tive noutras. Tinha as equipas de vigilância comigo e a partir da morte do Fehér há uma situação particular na investigação que dá o salto e aí é que, juntamente com os outros elementos da direcção, tivemos que tomar uma opção de estratégia a seguir. E a opção foi não comunicar à hierarquia o que se estava a passar. Se nós cumpríssemos com esse dever de lealdade que nos era exigido, então o director nacional da PJ teria também que ter o mesmo dever para com a ministra da Justiça e lá ia tudo, como sói dizer-se em linguagem policial, com os ciganos. Mas nunca me passou pela cabeça o que se seguiu… Quer dizer … pressentia-se qualquer coisa, mas aquilo?! A grande vítima foi o Dr. Artur Oliveira.

DN-A história do pai e do irmão serem investigados em Coimbra por burla na Caixa Agrícola?
TS_Investigados?! Um processo que já estava mais do que encerrado, ressuscitou-se, fazem-se buscas com aparato e tudo mais para justificar o que iam fazer!!! Não se faz!

DN-Ele, director, demitiu-se. Vocês, adjuntos, solidarizaram-se… Esperava ser reconduzido? Não acha que foi de alguma ingenuidade?
TS_Rejo-me por princípios. Perdi a inocência nesta coisa porque apesar de já ter muita experiência disto há limites. Adivinhava o que se estava a passar, ele não era o alvo. Por isso é mais lamentável ainda o que lhe foi feito. Houve pessoas, n pessoas, que me disseram «não ponha o lugar à disposição, não faça isso, obrigue-os a ser eles a tomar a atitude». Mas por uma questão de ficar bem comigo… Tenho três regras, a Constituição, as leis e a ética.

DN-Os alvos eram vocês os dois, você e o João Massano?
TS_Éramos. A partir daí…

DN-E a causa era o «Apito Dourado»?
TS_A causa não era o «Apito Dourado», eram os poderes entenderem que não podia haver uns cidadãos, embora com responsabilidades policiais, que não lhes respondessem àquilo que eles queriam saber.

DN-As pressões chegaram-lhe directamente a si?
TS_Ao Dr. Artur Oliveira, porque era mais fácil, Mas ele também nunca vacilou. Punha-nos as questões e eu tentava tranquilizá-lo, aconselhava «diga-lhe que não sabe». «Ah, mas então pergunte ao Teófilo». E eu, «o Teófilo diz que não lhe diz». Passámos de bestiais a bestas em menos de 15 dias, só no futebol é que acontece com essa frequência. Exactamente quando, sabe-se lá porquê, algum poder político começou a ficar incomodado com eventuais conhecimentos laterais, fortuitos como agora se diz, relativamente a todo o conjunto da investigação. Foi um processo feio. Não era preciso chegar àquilo. E eu aí, de facto, comecei a ver que a vida não era como a Teresa escolhia nas cartas.

DN-E entre esse processo e o« Face Oculta», recentemente, que acabou por envolver o então primeiro-ministro, qual foi o mais complicado?
TS_Todo os processos são complicados. Todos têm a mesma atenção. São situações complexas, mas desde que saibamos que estamos a trilhar o caminho certo, tudo bem. Nesse processo, o «Face Oculta», o que me chocou e ainda hoje me considero injuriado, eu e as pessoas que trabalharam comigo, foi haver pessoas que, aproveitando tribunas públicas, se permitiram dizer com a maior impunidade que tinha sido feita espionagem política. É uma acusação absolutamente inaceitável. A injúria resultante de algumas afirmações proferidas por pessoas com grandes responsabilidades foi para nós um grande problema, porque não pudemos responder à letra como mereceriam. Espionagem política?! Nunca, em circunstância alguma, houve qualquer intuito de natureza política. Por alma de quem?

DN-Por estar um primeiro-ministro envolvido? Pelo processo paralelo, com as restrições que se conhecem?
TS_Foi um conhecimento fortuito. E que fique bem claro, não houve nenhuma escuta ilegal. Houve conversas telefónicas que não foram validadas, é completamente diferente. A ilegalidade implicava necessariamente um ilícito, um crime. Não foi assim. No âmbito de investigações relativamente a uma rede organizada de tráfico de influências, corrupção e outros crimes, aparece uma outra situação. Havia um plano de controlar os órgãos de informação que corria lateralmente. Não podíamos olhar para o lado. Estava a ser gizado e concretizado um plano que tinha por fim o controlar a comunicação social no geral, nomeadamente a que era menos favorável ao poder de então. E, no meio disso tudo, que já não era pouco, aparece de forma fortuita um cidadão, que na altura era primeiro-ministro, a falar.

DN-Defendeu sempre que esse processo fosse investigado em separado?
TS_Tinha que ser! Depois, o resto são as mistificações, esse arrazoado de pessoas com grandes responsabilidades a intervir, que me leva a crer que não estavam de forma tão bondosa assim, porque tinham obrigação de saber de todo o formalismo que isso implicava. Concretamente foi assim: houve um acumular de situações paralelamente a esse plano, e não sou eu que estou a dizer que era um plano, os próprios envolvidos diziam e explanavam a maneira como iria. A partir do momento em que aparece o cidadão que na altura era primeiro-ministro, isso implicou um formalismo próprio. Agora diz-se, «as conversas deste e tudo o mais, não têm interesse nenhum». As conversas têm interesse, como toda a gente sabe, contextualizadas. Aquele processo era uma amostra do país que somos. Mas a partir do momento em que o senhor primeiro-ministro, seja ele qual for, goza de uma prerrogativa que só pode ser investigado pela Relação e só podem ser autorizadas eventuais instâncias telefónicas pelo Supremo…

DN-Pelo presidente do Supremo…
TS_Não é assim. Tenho um entendimento diferente. Acho que é pelo Supremo. Mas logo que apareceu essa situação não havia outra coisa a fazer, até porque o prazo é curto, foi autonomizar imediatamente a situação, mandar para validação e investigar. Porque investiga-se quando há indícios, não é quando há certezas. E tudo apontava já para estar em marcha um plano ilegal do ponto de vista criminal. Fiz uma participação, em que disse que no âmbito da investigação em curso havia uma situação que era susceptível de vir a configurar ilícito, um plano concertado, com objectivo definido para controlo dos meios de comunicação social. O Ministério Público de Aveiro acolheu, o juiz acolheu. O fundamento eram as escutas telefónicas. A conversa que apareceu, de forma fortuita, juntamente com as outras gravações, porque não podia ir desintegrada. À medida que iam aparecendo outras mandávamos certidões para serem incorporadas. Estive convencido, eu e todos os que trabalhámos naquilo, até Outubro, que havia uma investigação. Ninguém nos dizia nada, ninguém tinha que nos dizer nada. Depois, vem a história absolutamente rocambolesca, às pinguinhas, com cassetes, um arrazoado sem ponta por onde se lhe pegue, impróprio de pessoas que ocupavam lugares de grande responsabilidade pelos quais tenho grande respeito, umas confusões danadas. Mas são confusões procuradas, não resultaram de qualquer procedimento impróprio da investigação.

DN-A investigação foi acusada de fazer justiça na praça pública por não conseguir provas legais e concretas?
TS_Isso seria um contra-senso, sabe porquê? Estivemos a investigar aquilo durante dois anos e ninguém soube de nada. E no momento mais crítico, que foi o das eleições, elas decorreram sem que ninguém soubesse coisa nenhuma. É estúpido, porque se alguém descesse tão baixo para pensar que podíamos ter intuitos de natureza política, então evidentemente teríamos aproveitado o momento certo em que aquilo poderia representar algo de bastante significativo. A lei obriga a que nos mandados de busca se digam os factos. E só nesse dia é que se começou a conhecer a situação, por causa dos mandados, que apareceram na televisão. E também está mais que demonstrado quem é que entregou isso ao vosso colega, que fez o trabalho dele. Nesse dia tornaram-se conhecidos quais eram os alvos. A seguir começaram os interrogatórios e toda a gente teve acesso aos factos, às escutas e s tudo o mais. Fiz, já não me lembro de quantas participações por hipotética violação do segredo de justiça. Embora ache que só há violação do segredo de justiça se aquilo que é dito corresponder à verdade… e até cheguei a ler que tínhamos utilizado os meios da Mossad ou coisa assim, coisas do outro mundo. Quem é que fala para a imprensa? Toda a gente! Toda a gente menos os polícias e possivelmente os magistrados…

DN-Os polícias não falam?
TS_Não posso responder, eu não falo normalmente.

A "batalha da produção" de 1975...

Como é sabido e por aqui tenho mostrado, a partir de 11 de Março de 1975, culminando os meses a seguir ao 25 de Abril de 1974 em que o PCP e os partidos compostos por  doentes terminais afectados irremediavelmente pelo  síndroma da doença infantil do comunismo ( designação de Lenine, adoptada sempre pelo PCP) , tomaram conta do destino político de Portugal, com apoio da tropa fandanga do MFA, integrando intelectuais tipo Melo Antunes e quejandos, o tecido industrial português e a maior parte da indústria, banca e seguros do país, foram nacionalizados e por isso mesmo passou tudo a ser "nosso". Aparentemente, sendo nosso, seria melhor do que sendo "deles" dos capitalistas burgueses, não era assim?  Era, era. Dali a um ano estávamos na bancarrota, com toda essa sorte de tudo o que era nosso...e uma coisa que então nos valeu foi o ouro amealhado por Salazar durante décadas ( mais de 800 mil toneladas de que restam nem sequer metade...).
O PCP, com suprema nostalgia desse tempo, anda agora mesmo a colocar cartazes na rua, com dizeres muito simples e que se resumem a duas frases: " o que é público é nosso; o que é privado é só de alguns". Com esta verdade falaciosa conquistam adeptos que pensam com um neurónio e assim se vão mantendo na mentira permanente em que consiste a sua actividade política.

Em Julho de 1974 a Esquerda ( PCP e PS, mais MFA) rejeitou a contribuição capitalista de alguns empresários nacionais que não tinham fugido para o estrangeiro ( e de alguns que apesar disso, continuavam a acreditar nas potencialidades económicas do país) que se propunha investir alguns milhões de contos em empreendimentos económicos nacionais. Portanto, patrióticos, sem dúvida alguma.
O jornal Sempre Fixe pouco tempo antes de 25 de Abril de 1974 tinha elencado quem eram os maiores patrões nacionais. O objectivo, oculto, era simples: mostrar quem eram os "exploradores da burguesia capitalista", porque era esse o entendimento atávico dessa esquerda. 


Depois de 11 de Março de 1975 e paulatinamente, tais empresários deixaram de contar como contribuintes para a riqueza nacional porque o país tinha mudado de paradigma político e até social.
A Esquerda correu com eles quase todos. Actualmente, os mais ricos de Portugal, são os que ficaram, milagrosamente ( Alexandre Soares dos Santos), e os que vieram depois, arribando a pulso e de modo muito diverso dos anteriores ( Américo Amorim e Belmiro de Azevedo). Todos eles pagam um tributo revolucionário à Esquerda que ficou e se metamorfoseou, para não serem incomodados se calhar . Soares dos Santos, com a Fundação. Belmiro com o Público e Amorim...não sei bem, mas deve ser a mesma coisa. É o "pizzo" que se paga nesta democracia para prosperar...

O capitalismo, como sistema de produção de bens e serviços, deixou de ser o modelo e tentou-se a adopção de outro  modelo que apesar de não ter resultado em qualquer parte do mundo e ser um falhanço de tal ordem que conduziu, anos depois ( em 1989) à implosão do próprio sistema, foi sôfregamente adoptado por indivíduos ditos inteligentes e que se formaram em Economia e noutas áreas, constituindo uma elite que passou a mandar no país, politicamente.

Como dá conta O Jornal de Maio de 1975, o Estado socialista a "caminho da sociedade sem classes", controlava praticamente todos os sectores-chave da economia, a partir dessa altura. .


As coisas chegaram a tal ponto que A Vida Mundial de 10 de Abril de 1975 com um escrito de um tal Maia Cadete, não tinha dúvidas: o Estado poderia controlar nove décimos da Economia!


 Por isso mesmo, quem alvitrava palpites sobre tal assunto e a nossa sorte colectiva eram...os comunistas que dominavam o aparelho produtivo do Estado ( apesar de negarem tal facto, atribuindo a outras forças que não eles, esse domínio de facto, mormente na gestão das empresas públicas e banca...)

Na Vida Mundial de 10 de Julho de 1975, o aparatchick do PCP Octávio Pato, dizia abertamente o que entendia e até esta coisa espantosa que é uma confissão de delito político indesculpáve, a propósito da manipulação da imprensa da época pelo PCP ( estava ao rubro o caso República e o do Diário de Notícias, já aqui tratado,  surgiria dali a pouco) l: "Se a imprensa fosse por nós manipulada, como se diz, então faríamos desaparecer, como é evidente, todas as notícias de carácter reaccionário e contra-revolucionário.". Esta é a confissão mais cândida e estúpida da estultícia do PCP quanto á censura efectiva que adoptariam em caso de domínio do poder político  total. Quem ainda acredita no PCP depois disto é o quê? Inteligente? De boa-fè?




Os comunistas e Esquerda em geral, incluindo os vários "compagnons de route" e socialistas "democráticos" aceitaram este estado de coisas na Economia, sem se darem conta, porventura, de que dali a um ano estávamos na bancarrota, como seria por demais previsível. Nem as batalhas da produção nos valeriam perante a gritante falta de capital e a delapidação acelerada dos recursos.

Então como é que esta pan-Esquerda procurava resolver os problemas básicos de uma Economia que ainda no ano anterior crescia a olhos vistos, mesmo com uma Guerra no Ultramar? Esta gente não via isto, claramente? Não queria perceber a asneira política? Como é possível?!

De um modo muito curioso e nada original: com palavreado patriótico e de incentivo voluntarista, que se revelaria sempre inútil porque nunca experimentado com resultados em qualquer país ou parte do mundo em nenhuma época, apareceu a solução mágica: "a batalha da produção"!

O Jornal de 16 de Maio de 1975 , enfileirado nos "compagnons de route" da Esquerda comunista e socialista, pela pena incrível de um Francisco Sarfsfield Cabral ( seria bom perguntarem-lhe o que pensa agora deste escrito...) punha assim quatro páginas ao serviço da causa comunista, com um póster a condizer, da autoria de João Abel Manta, o crente.


Claro que dali a pouco, apareciam os intelectuais comunistas a darem os seus palpites sobre o assunto. Octávio Pato no Jornal de 23 de Maio de 1975 foi um deles. Incrível como as pessoas levavam estas idiotices a sério.
Aliás, parece que ainda levam porque os comunistas portugueses não desviaram um milímetro ideológico destas patetices, em 40 anos. 


E portanto, como dá conta a Vida Mundial, em 7 de Junho de mesmo ano, com estas batalhas da produção, deixavam de fazer qualquer sentido as greves. Aliás, havia direito à greve, nos países de Leste? Melhor ainda: o PCP não aboliria imediatamente esse direito, com as mais fundadas razões, caso tomasse o poder em Novembro de 1975? Alguém, mas alguém mesmo tem alguma pequena dúvida que seja? Se têm, é ler o que então diziam: o mesmo que o regime de Caetano, ainda no ano anterior...
Greves, em 1975? Só no dia dos enganos, como cantava um Sérgio Godinho. E já por lá andava um Arménio Carlos a aplaudir. E o Jerónimo electricista, pois claro. Já nem deve saber as fases dos fios, por esta altura.

Mas que maluqueira é esta de dar crédito a um PCP deste jaez?  Quando é que acaba esta fantasia nacional de entender o PCP como uma força democrática como as demais, se efectivamente o não é e nunca o foi?
Acaso já se esqueceram do que disse Álvaro Cunhal em Junho de 1974 a uma Oriana Falacci, numa entrevista ( desmentida, claro está, mas reafirmada pela mesma, também) ao semanário italiano L´Europeo? Portugal, no entender de Cunhal,  nunca teria uma democracia parlamentar de tipo europeu...

Enganou-se o Cunhal, agora elevado aos altares profanos da idolatria estúpida, mas os seus herdeiros continuam a acreditar no mesmo e só toleram esta democracia como um passo para a outra, a real., segundo o seu entendimento ideológico. Só que nunca o confessam explicitamente...

quinta-feira, março 06, 2014

O que diz Belmiro...

 RR:

Os salários em Portugal só podem aumentar quando os trabalhadores tiverem a mesma produtividade que, por exemplo, os alemães. É o que defende o presidente do conselho de administração da Sonae, Belmiro de Azevedo.
"Os salários só podem aumentar - e oxalá que isso aconteça – quando, de facto, um trabalhador português fizer uma coisa igual, parecida, com um trabalhador alemão ou inglês, seja o que for", afirmou Belmiro de Azevedo, esta quinta-feira, à margem da cerimónia de entrega dos diplomas dos finalistas do MBA Executivo da Porto Business School.

Para o "chairman" da Sonae, que voltou a defender que a competitividade em Portugal só pode ser estimulada através da "educação das pessoas e [da] aquisição das máquinas correctas", é impossível comparar os salários em Portugal com os de países como a Alemanha "pura e simplesmente porque os alemães, por hora, fazem três ou quatro vezes mais do que os portugueses".
"Portanto, é uma maneira de fugir à realidade, porque se não formos igualmente competitivos não exportamos. E, não exportando, não vamos a sítio nenhum", disse Belmiro de Azevedo, citado pela Lusa.
O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, reiterou, na quarta-feira, que considera que o país não pode regressar ao "nível salarial", nem ao "nível remuneratório das pensões" de 2011.
De acordo com dados do Eurostat e dos institutos nacionais de estatísticas reunidos pela Pordata, em 2012, se num índice da União Europeia a 27, a produtividade do trabalho por hora era 100, em Portugal seria 64,3, enquanto na Alemanha o valor era de 124,8.

 Isto é um balde de água fria para os que protestam contra o "empobrecimento", tendo sido os autores directos das suas  causas.
Em 1975, o partido comunista e os socialistas já sabiam disto e inventaram um slogan: "batalha da produção".

Amanhã mostro as imagems...

Portugal pós-revolucionário: a estética do casaco

Apontei em postal anterior que a principal novidade musical dos anos 74-75, na música portuguesa, foi o aparecimento da Banda do Casaco, grupo animado por António Pinho e Nuno Rodrigues e que congregava outros músicos de gema. Até 1978 produziram quatro discos- o primeiro, Dos benefícios de um vendido no reino dos bonifácios,  em 1975; Coisas do arco da velha, de 1976; Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos, em 1977 ( e que é o meu preferido, porque o tenho ouvido vezes sem conta, ultimamente e em vinil. De facto, estou a ouvi-lo agora mesmo)  e Contos da  Barbearia, em 1978-  que são um assombro musical e que se podem ouvir vezes sem conta que não cansam e trazem sempre uma pequena novidade escondida nos arranjos ou nas letras.
Todos esses discos são uma raridade de antiquário. O primeiro, ainda ando à procura dele, porque só tenho o LP duplo que foi publicado mais tarde e juntava esse e o seguinte, o que não é a mesma coisa. Segundo  António Pinho ( ou seria Nuno Rodrigues?) disse recentemente, o lp vendeu para aí uns quatro mil exemplares. Ora, alguns podem andar por aí esquecidos e sem interesse da parte de quem os tem...por isso, poderiam colocá-los à venda, no ebay ou coisa assim.

Em finais de 1974 o programa Página Um, da Rádio Renascença passou Lavados, lavados sim,  o primeiro single do grupo e que iria integrar o álbum que sairia no início de 1975.

O som era diferente do que até então se ouvira em Portugal. Nada tinha a ver com a sonoridade dos baladeiros ou dos cantautores da intervenção revolucionária e os grupos rock era coisa para aparecer dali a uns anos, apesar de uma incipiente Go Graal Blues Band. Os Psico de antanho ou o Objectivo, Sindicato, Quarteto 1111 ou mesmo os Pop Five Music Inc não contam para esta história.
E as palavras de António Pinho ainda menos se ouviam em Portugal, nessa altura. Feitas de trocadilhos e alusões antigas e achadas, as letras de António Pinho surpreendiam como anos depois as de Carlos T, o fizeram no primeiro disco de Rui Veloso, Ar de rock ( produzido pelo mesmo António Pinho, e lançado no mercado em Julho de 1980).

Para além das letras também os desenhos da capa eram estranhos, num disco português. Eram de Carlos Zíngaro e chamavam a atenção. O título era desenho do dito.


Imagens tiradas da Rede, porque não tenho estes discos. . 

Em Março de 1975, ainda aturdido com estes sons, apareceu nos quiosques uma espécie de revista em papel pardo e de embrulho, de fazer cartuchos para as "vendas". Os originais tinham uma risca em vermelho ou azul e este era de cor variável, mas sempre parda.
 Esta espécie de revista era coisa do outro mundo estético a que estávamos habituados, embora de qualidade sofrível e com alguns desenhos intragáveis. Porém, na capa trazia o nome mágico: Carlos Zíngaro. Com o título improvável de Evaristo, comprei e este é o primeiro número que merece ser relembrado pelos desenhos do dito. António Pinho aparece outra vez, na ficha redactorial. A revisteca deve ser mais rara que aquele disco. Troco ( os dois números), se alguém estiver interessado...



O número 4 ainda era mais idiossincrático que o primeiro e com desenhos impubicáveis, tanto pela fraca qualidade gráfica como pela temática abaixo de cão. Ainda assim havia duas páginas de Zíngaro.



 


Na mesma altura apareceu uma outra revista do mesmo género estético, a imitar uma Actuel francesa, ou a IT britânica,  na época já a cair em desuso, com um título sugestivo e desenhos que são impublicáveis porque sim, de um tal Scoriels.


Porém, em Junho de 1974 tinha surgido a maior experiência surrealista em publicações deste género. A revista de banda desenhada Aleph. O nº 3. tinha banda desenhada...chinesa. E um texto introdutório escrito pelos camaradas afectados irremediavelmente pela doença infantil mais pegajosa de todas: o maoismo.


Nesta altura do ano de 1975, para além destas leituras e audições, tentava ainda "ir mais além com..." este livro que se perdeu algures, mas ficou a imagem obtida por aí. O livro, traduzido do original francês,  recolhia entrevistas que apareceram originalmente na revista francesa  L´Express, na parte final da revista e intituladas "L´Express va plus loin avec..."



Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso