Dani, o vermelhinho, reciclou a vidinha na social-democracia. Escreve no Expresso e fala na SIC. Por mês, entram-lhe no bolsinho para aí, sei lá, uns dez mil euros, não?
Pois isso fará toda a diferença. E a prova é que estão aqui todos os cambiantes que fazem de alguém um canalha político. A escola está aqui toda nestas frases de circunstância.
Daqui:
"Para mim, a solução – e aí discordo de muita gente do PCP e do Bloco
–, eu acredito na reconstrução do espaço à esquerda que tem como polo
central a social-democracia. Penso, aliás, que foi essa plataforma que
Bernie Sanders conseguiu oferecer, um núcleo duro social-democrata com
uma série de sectores radicais que apostaram nessa candidatura. Não digo
que tem de ser sempre em torno dos partidos socialistas, mas de
respostas sociais-democratas – isso dependerá de país para país.
Infelizmente, acho que o Syriza perdeu esta batalha. Acho que António
Costa conseguiu perceber isso a tempo, ao contrário do que aconteceu em
Espanha, onde os socialistas perdem pé para o Podemos.
Em quem votaria hoje?
Hoje votaria no BE. Tenho muitas críticas ao Bloco, mas acho que teve
um papel positivo ao ajudar a construir esta solução. Não fez mais que o
PCP, mas eu tenho muitas divergências ideológicas com o PCP. Tenho
divergências em matérias de política interna, como se organiza e de
política internacional. Estou bastante satisfeito até com a gestão do
Partido Socialista. A razão por que votaria no BE e não no PS é que
acredito que a solução mais à esquerda para este país exige que isto
seja uma solução partilhada. Não quereria ver o PS com maioria absoluta
porque acredito que mesmo que António Costa quisesse seguir outra
política, não conseguiria, porque as suas alianças seriam outras, e
seriam exclusivamente internas e não externas. E isso, historicamente,
deu mau resultado. Há coisas que ainda me incomodam no Bloco deste ponto
de vista: do ponto de vista estratégico, é muito mais frágil que o PCP,
continua a ser um partido com pouca estratégia e muita tática, e com
pouco rumo. E neste sentido não se percebe o que procuram sem ser a
curto prazo. Não preciso de amanhãs que cantam como o PCP, mas gostava
que isso fosse mais claro no Bloco. Nos momentos mais difíceis da
geringonça, vejo o PCP mais firme no percurso que decidiu fazer do que o
Bloco: demasiadas vezes, o Bloco distrai-se com o seu próprio
fogo-de-artifício, e não é tempo para isso. Vivemos um tempo de muita
urgência. Mesmo que isso implique alguma cedência. Portugal é hoje um
oásis de normalidade no mundo. Aqui ainda se pode discutir em padrões
normais, não estamos a discutir o mais elementar dos direitos humanos, e
isso vale tanto que todos os partidos têm de estar à altura deste
facto. Devem pensar todos 20 vezes antes de colocarem em causa uma
solução que, enquanto os partidos não se desentenderem, tem claro apoio
maioritário. Até porque as pessoas têm consciência disso. Há, apesar de
tudo, um ar diferente do que se respira no resto do mundo. Às vezes não
sinto que os três partidos valorizem esta solução, que é acarinhada
pelos eleitores.
(...)
Pegando num caso da actualidade, como vê o caso José Sócrates?
Vejo como?
Acho que inicialmente não acreditava muito na possível culpabilidade do antigo primeiro-ministro. Hoje tem a mesma impressão?
A questão nunca se pôs assim para mim. Eu nunca coloquei a questão
assim e as pessoas tendem a não compreender isto. Há uma coisa de que eu
tenho muito receio...
É não acreditar na justiça portuguesa?
É mais do que isso. É qualquer tentativa de ultrapassar a frustração
política que sentimos encontrando nos tribunais o que não resolvemos na
política. Tenho uma resistência à partida que choca com a vontade que
tenho de que os nossos interesses e os do Estado sejam defendidos dos
corruptos e de pessoas que o utilizam para seu benefício próprio.
Receia uma judicialização da política?
Não quero uma República dos juízes. Não confio mais em juízes que em
políticos. Confio menos até, porque nos políticos eu voto, e nos juízes
não. O político, se for mau, eu arranjo maneira de me livrar dele, como
nos vimos livres do José Sócrates, e dos juízes não. A segunda coisa a
que eu me oponho é a aliança tática entre os jornais tabloides e a
justiça, que eu acho que é perigosíssima para a democracia, a utilização
dos tabloides para se fazer na praça pública o que não se consegue nos
tribunais. Estas são as minhas duas resistências. Sobre o processo em
concreto, não sei mais do que a maioria das pessoas. Eu não tinha, e
isso distingue-me de muitas pessoas, nenhuma convicção especial sobre
José Sócrates: nunca votei nele, nunca o apoiei. Não tinha nenhuma
convicção sobre a sua honestidade pessoal; hoje tenho algumas e nem
dependem do resultado em tribunal de coisas de que ele possa ser acusado
criminalmente. Há coisas que eu sei, porque o próprio confirmou, sobre
uma dependência económica em relação a uma pessoa que não têm
justificação possível. Não há nenhuma justificação legítima. Ao
contrário de outras pessoas honestas que apoiaram Sócrates, compreendo
que essas pessoas se considerem traídas; eu não me considero porque
nunca tive essa posição em relação a ele.
Chegou a almoçar com ele?
Várias vezes. Mas também almocei com Marcelo Rebelo de Sousa e, como é
natural, conheço muitos políticos. Conheço quase todos os políticos que
estão no activo. Conversei várias vezes com José Sócrates, nunca sobre
estes temas, sempre sobre política. É uma figura que eu continuo a
considerar curiosa.
Porquê?
Há um lado trágico e excessivo da figura que a torna curiosa do ponto
de vista romanesco. É uma figura, no que tenha de odioso e
extraordinário, densa. Há qualquer coisa tão excessiva em José Sócrates,
nos seus defeitos e nas suas qualidades – muitas estão relacionadas.
Ninguém põe em causa que Sócrates era um combatente temível e
extraordinário, e isso vem do seu excesso. Desse ponto de vista, ele é
uma figura interessante. Há outras que, nesta perspectiva, visto de fora,
considero muito interessantes: Paulo Portas, com densidade intelectual e
até como personagem. A razão por que eu nunca tive qualquer interesse
em Passos Coelho e Cavaco Silva é que eles eram figuras desinteressantes
e sem nenhuma densidade. São bonecos de coisas previsíveis, sem
qualquer interesse. Há muitos anos escrevi que, depois de Cunhal e
Soares, só havia duas figuras políticas intelectualmente extraordinárias
na política portuguesa: Francisco Louçã e Paulo Portas.
sábado, janeiro 28, 2017
Como se ensina a História em Portugal
Este ano faz cem anos que a Revolução Russa triunfou, acabando com o regime monárquico dos czares e impondo a oligarquia comunista que durou até ao final da década de oitenta do século.
Antes de tal suceder, em Outubro de 1917, a Revolução Russa foi uma espécie de 25 de Abril de 1974. Em 2 de Março de 1917 o czar Nicolau II da dinastia dos Romanov abdicou do trono e entrou em funções um governo provisório, muito à semelhança do que ocorreu por cá, com Spínola e o de Palma Carlos.
Lenine só entrou na Rússia em 3 de Abril de 1917, vindo da Suíça e com poucas esperanças de tomar o poder. Mas foi aí que enunciou "dez teses", diante dos bolcheviques.
Em Julho já havia manifestações contra o governo provisório, tal como por cá aconteceu. Um certo Kerenski formou então um "governo de salvação revolucionária" , mas em Setembro Trotski torna-se presidente do Soviete e em Outubro aconteceu a "insurreição" bolchevique e o triunfo do comunismo em marcha, com a tomada de assalto ao palácio de Inverno. Foi criado o Conselho dos comissários do povo e a polícia política Tcheka entrou em funções.
O resto foi, ao contrário do que por cá aconteceu, o triunfo da Revolução de Outubro que por cá queriam que tivesse acontecido em Novembro...
Como é que isto se sabe por cá? Lendo revistas estrangeiras, nomeadamente francesas.
A Revolução Russa de 1917 não começou em Outubro, com Lenine, mas em Fevereiro com a deposição voluntária do czar Nicolau II, dos Romanov que até aí tinham um poder formal impressionante sobre toda a Rússia. A família desse czar, mulher e cinco filhos, foi dizimada pelos bolcheviques, em segredo, e Lenine terá eventualmente dado assentimento póstumo. O mistério da morte dos Romanov só após a queda da URSS se tornou possível investigar devidamente. O comunismo tem horror à História.
Por cá, estas histórias não se conhecem nem se divulgam, de tal modo que até um tarimbeiro da politiquice esquerdista, Louçã de sobrenome, filho de um oficial da Armada salazarista, escreve patacoadas num prefácio a um biografia de Estaline que o Expresso anda a publicar aos bochechos. Para esse politiqueiro da extrema-esquerda a Revolução Russa começou em Outubro e pôs fim a um regime ignóbil de ditadura monárquica. "Uma Revolução contra uma ditadura e uma guerra, que libertou milhões de servos e prometeu o fim da exploração" foi assim que este palerma, elevado a figura de culto, escreveu no prefácio.
Não admira muito porque a noção de História que temos em Portugal sobre a Revolução de Outubro continua a ser a que é veiculada pelo O Militante do PCP.
Hoje o Sol publica uma entrevista com uma historiadora que publicou um livro sobre a viagem de Lenine, da Suíça até ao sítio da revolução de Outubro.
O esquema é sempre o mesmo, por cá: conta-se a partir de um olhar sectorial para árvores bem podadas e perde-se a visão essencial na floresta de enganos que elas ocultam. De há 40 anos a esta parte que a História contada nos media tem sido esta tristeza.
Pelo contrário, em França aproveitou-se a efeméride par dar a conhecer o contexto, a cronologia histórica, a explicação dos acontecimentos e até uma entrevista com a mesma historiadora mas inserida nessa visão periférica ( aparece na revista L´Histoire deste mês):
Em Portugal o que conta é a História do O Militante...e depois o resultado é este, sem paralelo na Europa Ocidental:
Antes de tal suceder, em Outubro de 1917, a Revolução Russa foi uma espécie de 25 de Abril de 1974. Em 2 de Março de 1917 o czar Nicolau II da dinastia dos Romanov abdicou do trono e entrou em funções um governo provisório, muito à semelhança do que ocorreu por cá, com Spínola e o de Palma Carlos.
Lenine só entrou na Rússia em 3 de Abril de 1917, vindo da Suíça e com poucas esperanças de tomar o poder. Mas foi aí que enunciou "dez teses", diante dos bolcheviques.
Em Julho já havia manifestações contra o governo provisório, tal como por cá aconteceu. Um certo Kerenski formou então um "governo de salvação revolucionária" , mas em Setembro Trotski torna-se presidente do Soviete e em Outubro aconteceu a "insurreição" bolchevique e o triunfo do comunismo em marcha, com a tomada de assalto ao palácio de Inverno. Foi criado o Conselho dos comissários do povo e a polícia política Tcheka entrou em funções.
O resto foi, ao contrário do que por cá aconteceu, o triunfo da Revolução de Outubro que por cá queriam que tivesse acontecido em Novembro...
Como é que isto se sabe por cá? Lendo revistas estrangeiras, nomeadamente francesas.
A Revolução Russa de 1917 não começou em Outubro, com Lenine, mas em Fevereiro com a deposição voluntária do czar Nicolau II, dos Romanov que até aí tinham um poder formal impressionante sobre toda a Rússia. A família desse czar, mulher e cinco filhos, foi dizimada pelos bolcheviques, em segredo, e Lenine terá eventualmente dado assentimento póstumo. O mistério da morte dos Romanov só após a queda da URSS se tornou possível investigar devidamente. O comunismo tem horror à História.
Por cá, estas histórias não se conhecem nem se divulgam, de tal modo que até um tarimbeiro da politiquice esquerdista, Louçã de sobrenome, filho de um oficial da Armada salazarista, escreve patacoadas num prefácio a um biografia de Estaline que o Expresso anda a publicar aos bochechos. Para esse politiqueiro da extrema-esquerda a Revolução Russa começou em Outubro e pôs fim a um regime ignóbil de ditadura monárquica. "Uma Revolução contra uma ditadura e uma guerra, que libertou milhões de servos e prometeu o fim da exploração" foi assim que este palerma, elevado a figura de culto, escreveu no prefácio.
Não admira muito porque a noção de História que temos em Portugal sobre a Revolução de Outubro continua a ser a que é veiculada pelo O Militante do PCP.
Hoje o Sol publica uma entrevista com uma historiadora que publicou um livro sobre a viagem de Lenine, da Suíça até ao sítio da revolução de Outubro.
O esquema é sempre o mesmo, por cá: conta-se a partir de um olhar sectorial para árvores bem podadas e perde-se a visão essencial na floresta de enganos que elas ocultam. De há 40 anos a esta parte que a História contada nos media tem sido esta tristeza.
Pelo contrário, em França aproveitou-se a efeméride par dar a conhecer o contexto, a cronologia histórica, a explicação dos acontecimentos e até uma entrevista com a mesma historiadora mas inserida nessa visão periférica ( aparece na revista L´Histoire deste mês):
Em Portugal o que conta é a História do O Militante...e depois o resultado é este, sem paralelo na Europa Ocidental:
quinta-feira, janeiro 26, 2017
O monstro dos impostos continua esfomeado
24Sapo:
De acordo com a síntese da execução orçamental de 2016, divulgada hoje pela Direcção-Geral do Orçamento (DGO), a receita fiscal líquida do Estado aumentou 1.375,4 milhões de euros até Dezembro, um aumento de 3,5% face ao ano anterior, totalizando os 40.224,9 milhões de euros.
No entanto, a arrecadação da receita com impostos ficou aquém da última projecção do Governo, que foi apresentada em Outubro do ano passado aquando do orçamento deste ano. Nesta altura, o Ministério das Finanças apontava para uma receita fiscal de 40.953,8 milhões de euros e acabou por arrecadar menos 728,9 milhões do que o antecipado.
Seria interessante saber e comparar qual era a receita fiscal equivalente, no final do ano de 1973. Com guerra em três frentes ( Angola, Moçambique e Guiné), perceber como se governava então e se relativamente aos serviços prestados pelo Estado o custo de vida era mais alto ou mais baixo que hoje.
Há quem saiba fazer as contas. Duvido é que o queira fazer...
Mas uma breve consulta dá-nos alguns números:
Enfim, números. Para todos os gostos?
De acordo com a síntese da execução orçamental de 2016, divulgada hoje pela Direcção-Geral do Orçamento (DGO), a receita fiscal líquida do Estado aumentou 1.375,4 milhões de euros até Dezembro, um aumento de 3,5% face ao ano anterior, totalizando os 40.224,9 milhões de euros.
No entanto, a arrecadação da receita com impostos ficou aquém da última projecção do Governo, que foi apresentada em Outubro do ano passado aquando do orçamento deste ano. Nesta altura, o Ministério das Finanças apontava para uma receita fiscal de 40.953,8 milhões de euros e acabou por arrecadar menos 728,9 milhões do que o antecipado.
Seria interessante saber e comparar qual era a receita fiscal equivalente, no final do ano de 1973. Com guerra em três frentes ( Angola, Moçambique e Guiné), perceber como se governava então e se relativamente aos serviços prestados pelo Estado o custo de vida era mais alto ou mais baixo que hoje.
Há quem saiba fazer as contas. Duvido é que o queira fazer...
Mas uma breve consulta dá-nos alguns números:
Enfim, números. Para todos os gostos?
Vão é para o raio que os parta!
Ontem na TVI, agora num espaço mediático sempre ao dispor de certas personalidades, animado por uma cretinice sorumbática , o advogado Júdice, um dos maiores sucessos profissionais do Portugal pós 25 de Abril ( tem um dos maiores escritórios de advocacia do país) referiu-se ao depoimento de Hélder Bataglia sobre Ricardo Salgado.
Arranjou um estranho paralelo com a "delação premiada" que é instituto processual no Brasil mas ainda cá não chegou, para dizer que sendo assim o depoimento de Bataglia era nulo. Não estava previsto na nossa lei processual penal. Não o disse tal e qual mas foi esse efeito que pretendeu comunicar, perante o ar seráfico da animadora daquele espaço televisivo que nem contestou para perguntar mais nada.
A melhor resposta a estas pessoas é dada por Eduardo Dâmaso hoje, na Sábado: "vão dar banho ao cão!"
Arranjou um estranho paralelo com a "delação premiada" que é instituto processual no Brasil mas ainda cá não chegou, para dizer que sendo assim o depoimento de Bataglia era nulo. Não estava previsto na nossa lei processual penal. Não o disse tal e qual mas foi esse efeito que pretendeu comunicar, perante o ar seráfico da animadora daquele espaço televisivo que nem contestou para perguntar mais nada.
A melhor resposta a estas pessoas é dada por Eduardo Dâmaso hoje, na Sábado: "vão dar banho ao cão!"
Salazar dixit
Observador:
Portugal “fica mal na fotografia quando comparado com quase todos os países do mundo”, no que diz respeito ao endividamento do Estado e do sector privado, lamenta a agência Fitch. Para que o “rating” suba e saia de “lixo”, terá de haver “mudanças estruturais”, avisa o analista responsável pela notação de risco de Portugal. A Fitch avisa que estará atenta a qualquer solução para a banca (Novo Banco, crédito malparado) que afecte as contas públicas.
As declarações foram proferidas por Federico Barriga Salazar, diretor da Fitch, durante a conferência que a agência Fitch realiza anualmente em Lisboa.
“A ligação entre o sector bancário e a dívida pública é muito importante. Qualquer solução que se encontre para o sector bancário que tenha impacto na dívida pública, estaremos muito atentos”, afirmou o analista, lembrando que não pode falar muito sobre Portugal porque está iminente uma nova decisão sobre o “rating” de Portugal (3 de Fevereiro).
Portugal “fica mal na fotografia quando comparado com quase todos os países do mundo”, no que diz respeito ao endividamento do Estado e do sector privado, lamenta a agência Fitch. Para que o “rating” suba e saia de “lixo”, terá de haver “mudanças estruturais”, avisa o analista responsável pela notação de risco de Portugal. A Fitch avisa que estará atenta a qualquer solução para a banca (Novo Banco, crédito malparado) que afecte as contas públicas.
As declarações foram proferidas por Federico Barriga Salazar, diretor da Fitch, durante a conferência que a agência Fitch realiza anualmente em Lisboa.
“A ligação entre o sector bancário e a dívida pública é muito importante. Qualquer solução que se encontre para o sector bancário que tenha impacto na dívida pública, estaremos muito atentos”, afirmou o analista, lembrando que não pode falar muito sobre Portugal porque está iminente uma nova decisão sobre o “rating” de Portugal (3 de Fevereiro).
segunda-feira, janeiro 23, 2017
Qual é o spread dos jornalistas?
Uma boa ideia, aqui, vinda de Nuno Garoupa um dos tudólogos mais em voga:
Escreveu recentemente sobre a imprensa. Porque acha que esta se declara em crise?
O consumidor da classe média portuguesa não está disposto a pagar por conteúdo. Se se faz copy/paste de tudo o que é notícia, é óbvio que quem escreve a notícia não é valorizado. Esse é um dos problemas para o jornalismo em Portugal estar assim e eu não sei se tem uma solução fácil. E nas televisões ainda é mais grave. Com os problemas financeiros, a linha editorial acabará por ser sempre pró-governo - qualquer um que lá esteja - e perde--se a independência que é necessária.
Os Panama Papers não foram um “grito” em nome dessa independência?
Foi uma pequena machadada. Não se pode fazer uma capa a dizer que vem aí uma bronca e depois ai, ai, que o leitor é que tem de ir fazer a pesquisa pelo jornalista. Era interessante ver quantos jornalistas e políticos tinham hipotecas no BES com spread zero. Aí não há lista nenhuma e nem é ilegal, mas saber a quantidade de gente com empréstimos sem spread seria importante. É uma forma muito indirecta de ser financiado...
Escreveu recentemente sobre a imprensa. Porque acha que esta se declara em crise?
O consumidor da classe média portuguesa não está disposto a pagar por conteúdo. Se se faz copy/paste de tudo o que é notícia, é óbvio que quem escreve a notícia não é valorizado. Esse é um dos problemas para o jornalismo em Portugal estar assim e eu não sei se tem uma solução fácil. E nas televisões ainda é mais grave. Com os problemas financeiros, a linha editorial acabará por ser sempre pró-governo - qualquer um que lá esteja - e perde--se a independência que é necessária.
Os Panama Papers não foram um “grito” em nome dessa independência?
Foi uma pequena machadada. Não se pode fazer uma capa a dizer que vem aí uma bronca e depois ai, ai, que o leitor é que tem de ir fazer a pesquisa pelo jornalista. Era interessante ver quantos jornalistas e políticos tinham hipotecas no BES com spread zero. Aí não há lista nenhuma e nem é ilegal, mas saber a quantidade de gente com empréstimos sem spread seria importante. É uma forma muito indirecta de ser financiado...
Can no more
Morreu Jaki Liebezeit um músico alemão ( nasceu em Dresden, em 1938, antes da destruição da cidade pelos aliados) que fez parte de um grande grupo de música popular, os Can.
Há quase 40 anos ( em Maio de 1977) estiveram em Portugal em concerto em Lisboa e Porto e a revista Música & Som dessa altura dava conta do acontecimento:
Jaki Liebezeit tocava percussão e os discos mais importantes do grupo já tinham sido publicados e está aí a lista. Os primeiros originais valem pequenas fortunas, mesmo usados.
Olhando para a foto lembra-me o que andei, na altura, para encontrar um polo às riscas como o do músico da direita...mas encontrei, numa feira, com peças de roupa deixadas por conta das fábricas de exportação, porque tinha um pequeno defeito.
Na altura e na sequência da primeira bancarrota, era assim que se encontrava o que não havia por cá: nas feiras, vendidas por ciganos e sobras ou restos que as fábricas já não queriam para exportar. Era roupa fora de série, de qualidade superior e cujo lote de primeira escolha ia preencher as prateleiras das lojas francesas ou americanas. Era fabricada no Vale do Ave, um dos poucos redutos produtivos que o PREC deixou intacto e serviu para termos as divisas que necessitávamos para comprar o que comer...
Há quase 40 anos ( em Maio de 1977) estiveram em Portugal em concerto em Lisboa e Porto e a revista Música & Som dessa altura dava conta do acontecimento:
Jaki Liebezeit tocava percussão e os discos mais importantes do grupo já tinham sido publicados e está aí a lista. Os primeiros originais valem pequenas fortunas, mesmo usados.
Olhando para a foto lembra-me o que andei, na altura, para encontrar um polo às riscas como o do músico da direita...mas encontrei, numa feira, com peças de roupa deixadas por conta das fábricas de exportação, porque tinha um pequeno defeito.
Na altura e na sequência da primeira bancarrota, era assim que se encontrava o que não havia por cá: nas feiras, vendidas por ciganos e sobras ou restos que as fábricas já não queriam para exportar. Era roupa fora de série, de qualidade superior e cujo lote de primeira escolha ia preencher as prateleiras das lojas francesas ou americanas. Era fabricada no Vale do Ave, um dos poucos redutos produtivos que o PREC deixou intacto e serviu para termos as divisas que necessitávamos para comprar o que comer...
Esta actriz tem alguma coisa a ensinar ao país?
Pelos vistos tem, segundo o Dinis do Público que volta a dar páginas e páginas de publicidade política, ou seja propaganda, a uma das forças de extrema-esquerda que existem em Portugal, o Bloco de Esquerda.
Esta actriz pretende manter em cena, em cartaz permanente, a sua troupe de farsantes que procuram passar a ideia que são muito democratas e burgueses o suficiente para aceitarem as regras das democracias ocidentais, com os seus sistemas de produção de bens e serviços.
A contradição representa-se há dezenas de anos e a fantasia já ocupou o lugar da realidade que quase ninguém denuncia.
O BE é um partido revolucionário, trotskista se preciso for que pretende a alteração da sociedade e do seu modelo de produção, a la longue se necessário se tornar e rapidamente se as circunstâncias o permitirem.
Para o Público no entanto, assim não é porque a actriz empregada na política tem ideias que passam por ser o mais normais possível, dentro dos padrões da democracia burguesa que ideologica e programaticamente execram.
Não faz mal algum a contradição porque nunca é apresentada como tal, pelo Dinis e seus colegas da imprensa formatada no mesmo modelo.
Não se pergunta à actriz o mais básico: que sociedade verdadeiramente pretende? A do seu programa de partido a fazer de conta ou a de uma democracia burguesa que não o admitiria? A reestruturação da dívida, apresentada como solução mágica para os problemas é ideia baseada em que sistema de produção de bens e serviços? O que admite as multinacionais e a livre troca de bens e serviços dentro da União Europeia? Também sendo, o entendimento é comum ou apenas táctico e destinado a confundir os votantes, apresentando este BE como um partido igual aos outros?
Até quando perdurará esta fantasia de entendermos, salvo seja, os media entenderem a extrema-esquerda como uma ideologia capaz de governar um Estado como Portugal?
Será isto a vingança do 25 de Novembro de 1975? Se não é, parece. Veja-se o caso das filhas do pirata e outros que tais.
domingo, janeiro 22, 2017
As receitas dos fósseis
24Sapo:
Em entrevista à agência Lusa, o secretário geral da CGTP, Arménio Carlos, garantiu que as estruturas sindicais da Intersindical vão bater-se no terreno pela instituição de um salário mínimo de 600 euros, que não foi conseguido em sede de Concertação Social, para romper com o modelo de baixos salários, acentuado pela redução excepcional da Taxa Social Única (TSU) pelo terceiro ano consecutivo.
"A medida da TSU fomenta o modelo de salários baixos e trabalho precário e coloca permanentemente a Segurança social e o Orçamento do Estado (OE) a financiar as empresas que actualizam o Salário Mínimo Nacional (SMN)", disse. O sindicalista considerou que o salário mínimo está a ser usado para reduzir os encargos das empresas com os trabalhadores, "o que é errado, falacioso e falso", dado que "o grande problema das empresas hoje não está nos salários".
Citando dados do Banco de Portugal, lembrou que em 2015 os salários não representavam mais de 13,6% dos custos totais do trabalho. "Há custos mais elevados, mas não há coragem para os atacar", disse Arménio Carlos, referindo os custos de contexto das empresas, nomeadamente com a energia, combustíveis e as telecomunicações.
Portanto, para este fóssil do sindicalismo, comunista do PCP, a receita que não explica mas se encontra implícita abaixo naquelas duas páginas do O Militante, é simples de entender: acabar com o capitalismo, voltar ao PREC de 1974 e 75, estatizar as empresas de energia. combustíveis e telecomunicações e já está.
A frase chave é esta: "Agudizam-se as contradições do sistema a começar pela contradição entre o carácter social da produção e a apropriação privada dos meios de produção o que trava o desenvolvimento das forças produtivas"...está lá, preto no branco e quem esquece isto ou não quer ler, como o palerma que dirige o Público, faz o jogo objectivo destes fósseis ideológicos e conduz-nos directamente a isto por que já passamos há 40 anos:
Para tal foram atacar o "capital" o que está muito bem explicado neste livro:
Resultado? Bancarrota.
Estas pessoas não se enxergam e os "públicos" não sabem isto?! Ainda não perceberam que este Arménio quer isto, outra vez?
Quererão porventura um Portugal como a Venezuela da actualidade? Se calhar querem mesmo...
Em entrevista à agência Lusa, o secretário geral da CGTP, Arménio Carlos, garantiu que as estruturas sindicais da Intersindical vão bater-se no terreno pela instituição de um salário mínimo de 600 euros, que não foi conseguido em sede de Concertação Social, para romper com o modelo de baixos salários, acentuado pela redução excepcional da Taxa Social Única (TSU) pelo terceiro ano consecutivo.
"A medida da TSU fomenta o modelo de salários baixos e trabalho precário e coloca permanentemente a Segurança social e o Orçamento do Estado (OE) a financiar as empresas que actualizam o Salário Mínimo Nacional (SMN)", disse. O sindicalista considerou que o salário mínimo está a ser usado para reduzir os encargos das empresas com os trabalhadores, "o que é errado, falacioso e falso", dado que "o grande problema das empresas hoje não está nos salários".
Citando dados do Banco de Portugal, lembrou que em 2015 os salários não representavam mais de 13,6% dos custos totais do trabalho. "Há custos mais elevados, mas não há coragem para os atacar", disse Arménio Carlos, referindo os custos de contexto das empresas, nomeadamente com a energia, combustíveis e as telecomunicações.
Portanto, para este fóssil do sindicalismo, comunista do PCP, a receita que não explica mas se encontra implícita abaixo naquelas duas páginas do O Militante, é simples de entender: acabar com o capitalismo, voltar ao PREC de 1974 e 75, estatizar as empresas de energia. combustíveis e telecomunicações e já está.
A frase chave é esta: "Agudizam-se as contradições do sistema a começar pela contradição entre o carácter social da produção e a apropriação privada dos meios de produção o que trava o desenvolvimento das forças produtivas"...está lá, preto no branco e quem esquece isto ou não quer ler, como o palerma que dirige o Público, faz o jogo objectivo destes fósseis ideológicos e conduz-nos directamente a isto por que já passamos há 40 anos:
Para tal foram atacar o "capital" o que está muito bem explicado neste livro:
Resultado? Bancarrota.
Estas pessoas não se enxergam e os "públicos" não sabem isto?! Ainda não perceberam que este Arménio quer isto, outra vez?
Quererão porventura um Portugal como a Venezuela da actualidade? Se calhar querem mesmo...
O livro dos mortos comunistas
Na Europa já ninguém reconhece o comunismo como força política válida e alternativa de poder. Veja-se este artigo na revista francesa Philosophie, último número em que analisa de que doença padecerá a esquerda, no caso francesa, mas alargada a todo o continente. Com excepção de um pequeno reduto na extremidade ocidental, Portugal, que assim figura como uma aldeia de Astérix, ninguém tem um partido comunista e os países que o tiveram despacharam esse lixo histórico para o âmbar das memórias perdidas:
O comunismo na Europa acabou, excepto para uns fósseis que ainda por cá habitam no âmbar ideológico que os consome e fazem esta revista bimestral:
Ao mencionarem as relações internacionais do PCP são incapazes de citar um único partido comunista europeu condizente com o PCP. Nem um. Mas há um no extremo-oriente que se lhes assemelha: o do Vietname!
Quem quiser saber mesmo a sério o que o PCP deseja e sempre desejou para o nosso país há décadas e décadas tem aqui um pequeno vademecum:
Sempre que esta pequena seita de fósseis precisa de exposição eleitoral lá estão os media de sempre prontos ao frete de espanejar o âmbar para mostrar a relíquia. Tudo porque o pai, ou o tio, avô ou mestre foram do Partido ou estiveram presos por causa disso e publicam textos de página com as belíssimas ideias que ninguém pode seguir e a Europa já abandonou há décadas.
Por cá existe ainda o culto a estes mortos, com o respeito que lhes é devido, por causa da família que sofreu as agruras do fassismo ou a solidão das celas de recolhimento onde salgaram as ideias fossilizadas.
O comunismo na Europa acabou, excepto para uns fósseis que ainda por cá habitam no âmbar ideológico que os consome e fazem esta revista bimestral:
Ao mencionarem as relações internacionais do PCP são incapazes de citar um único partido comunista europeu condizente com o PCP. Nem um. Mas há um no extremo-oriente que se lhes assemelha: o do Vietname!
Quem quiser saber mesmo a sério o que o PCP deseja e sempre desejou para o nosso país há décadas e décadas tem aqui um pequeno vademecum:
Sempre que esta pequena seita de fósseis precisa de exposição eleitoral lá estão os media de sempre prontos ao frete de espanejar o âmbar para mostrar a relíquia. Tudo porque o pai, ou o tio, avô ou mestre foram do Partido ou estiveram presos por causa disso e publicam textos de página com as belíssimas ideias que ninguém pode seguir e a Europa já abandonou há décadas.
Por cá existe ainda o culto a estes mortos, com o respeito que lhes é devido, por causa da família que sofreu as agruras do fassismo ou a solidão das celas de recolhimento onde salgaram as ideias fossilizadas.
sábado, janeiro 21, 2017
Vão dizer a este Ministério Público que isto não é assim...
Observador:
A ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, disse este sábado que pretende retirar das cadeias os crimes “bagatelares”, permitindo assim baixar o número da população reclusa. “Portugal tem uma taxa de encarceramento muito elevada para os padrões médios da União Europeia”, afirmou a ministra na sessão de abertura do 12.º Encontro Nacional da Pastoral Penitenciária, que decorre em Fátima, no concelho de Ourém.
À margem do encontro, Francisca Van Dunem admitiu que o problema português é do excesso de população prisional. “A minha lógica não é tanto que precisamos de ir aumentando os meios. Temos de criar condições efectivas e dignas de trabalho para quem trabalha nesses espaços, mas temos de trabalhar a montante e que tem a ver com as taxas de encarceramento”, começou por explicar.
Segundo a ministra, há “crimes bagatelares, simples”, como a
condução sob o efeito de álcool, ou sem habilitação legal, que “ao fim
de várias reincidências acabam por dar penas de prisão”.
“A percepção que temos é que cerca de 10/11% daquilo que é a população prisional pode estar relacionada com este tipo de infracções. Faz pouco sentido que se encarcere pessoas que não vivem em ambientes criminosos, que não têm carreiras criminais, mas que por razões de natureza sociológica se comportam de determinadas maneiras. Obviamente que comentem crimes. Mas a gravidade dessas infracções não justifica que as pessoas estejam em prisão, por isso temos de encontrar alternativa”, sublinhou a ministra.
Nesse sentido, a governante anunciou que estão a ser estudadas alternativas “no quadro de uma comissão formada por professores de Direito e que envolve outros profissionais, nomeadamente a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais”.
Para a ministra, estas pessoas podem “cumprir penas alternativas”, nomeadamente em regime de permanência na habitação ou outro mediante vigilância electrónica”.
“É possível criar sistemas de contenção e obrigá-las simultaneamente à prática de determinados actos. Não faz sentido que uma pessoa que não tirou a carta de condução e persista em não encontrar uma forma de tirar a carta de condução.”
Afastada está a possibilidade de amnistia já que, para a ministra, “a amnistia também não resolveria o problema das pessoas que não tiraram a carta de condução e continuam a conduzir sem carta. Temos que encontrar respostas, que sejam eficazes para os problemas que temos”, rematou.
Nota: a senhora foi e é magistrada do Ministério Público, perdão, foi entretanto nomeada juiz do STJ. Para aquela entidade ainda é válida a asserção de que as condenações e de preferência em penas de prisão é que são o valor a preservar pelos seus magistrados que fazem julgamentos. É o entendimento das inspecções, o dos magistrados combativos que lutam pelas condenações, mesmo à outrance.
A ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, disse este sábado que pretende retirar das cadeias os crimes “bagatelares”, permitindo assim baixar o número da população reclusa. “Portugal tem uma taxa de encarceramento muito elevada para os padrões médios da União Europeia”, afirmou a ministra na sessão de abertura do 12.º Encontro Nacional da Pastoral Penitenciária, que decorre em Fátima, no concelho de Ourém.
À margem do encontro, Francisca Van Dunem admitiu que o problema português é do excesso de população prisional. “A minha lógica não é tanto que precisamos de ir aumentando os meios. Temos de criar condições efectivas e dignas de trabalho para quem trabalha nesses espaços, mas temos de trabalhar a montante e que tem a ver com as taxas de encarceramento”, começou por explicar.
“A percepção que temos é que cerca de 10/11% daquilo que é a população prisional pode estar relacionada com este tipo de infracções. Faz pouco sentido que se encarcere pessoas que não vivem em ambientes criminosos, que não têm carreiras criminais, mas que por razões de natureza sociológica se comportam de determinadas maneiras. Obviamente que comentem crimes. Mas a gravidade dessas infracções não justifica que as pessoas estejam em prisão, por isso temos de encontrar alternativa”, sublinhou a ministra.
Nesse sentido, a governante anunciou que estão a ser estudadas alternativas “no quadro de uma comissão formada por professores de Direito e que envolve outros profissionais, nomeadamente a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais”.
Para a ministra, estas pessoas podem “cumprir penas alternativas”, nomeadamente em regime de permanência na habitação ou outro mediante vigilância electrónica”.
“É possível criar sistemas de contenção e obrigá-las simultaneamente à prática de determinados actos. Não faz sentido que uma pessoa que não tirou a carta de condução e persista em não encontrar uma forma de tirar a carta de condução.”
Afastada está a possibilidade de amnistia já que, para a ministra, “a amnistia também não resolveria o problema das pessoas que não tiraram a carta de condução e continuam a conduzir sem carta. Temos que encontrar respostas, que sejam eficazes para os problemas que temos”, rematou.
Nota: a senhora foi e é magistrada do Ministério Público, perdão, foi entretanto nomeada juiz do STJ. Para aquela entidade ainda é válida a asserção de que as condenações e de preferência em penas de prisão é que são o valor a preservar pelos seus magistrados que fazem julgamentos. É o entendimento das inspecções, o dos magistrados combativos que lutam pelas condenações, mesmo à outrance.
A defesa de José Sócrates esgota-se nas palavras
Sapo24:
A defesa de José Sócrates disse hoje serem “falsas, destituídas de qualquer fundamento e verdadeiramente absurdas” as notícias sobre um alegado depoimento prestado no inquérito da ‘Operação Marquês’ que implica o ex-primeiro-ministro.
O comunicado dos advogados de Sócrates surge após notícias de hoje que dão conta que Helder Bataglia (arguido) terá dito ao Ministério Público (MP) que o antigo presidente do BES Ricardo Salgado, constituído arguido esta semana, lhe terá pedido para transferir 12 milhões de euros para a conta de empresário Carlos Santos Silva, também arguido no processo.
O que haveria de dizer a defesa? Que eram verdadeiras?! Perante essa impossibilidade, esgotam as palavras de negação, os adjectivos desqualificativos e os advérbios de incómodo.
Enfim, pouco mais lhes resta...a não ser queixarem-se "deste verdadeiro bullying processual e mediático contra ele dirigido ao serviço deste Ministério Público”.
E queixarem-se das violações do segredo de justiça cujos responsáveis são, naturalmente e sem margem para dúvidas, do Ministério Público. E se não fosse tinha que ser, ora! Já o Patrício que advoga o Bataglia dizia há muito e agora o Francisquinho que defende quem tem que defender também diz.
Os candongueiros...
...do jornalismo.
Hoje no Sol, o director Mário Ramires dá uma imagem de incompetência profissional que nem sequer é rara, porque repetida.
Escreve assim, para realçar uma ideia peregrina que apanhou em qualquer viagem fantástica pelo mundo do jornalismo caseiro:
Para o director do Sol estes quatro juízes são representantes do mesmo fenómeno: " a judicialização dos regimes políticos de Estados ditos de Direito democrático" . Tal e qual e sem pôr mais na carta. Numa palavra escolhida por este candongueiro do jornalismo: são todos "justiceiros".
E porque chamo candongueiro, ou seja contrabandista de ideias avulsas, a este jornalista? Por dois motivos, um deles claro e o outro presumido.
O primeiro porque não percebe do que escreve e por isso debita asneiras.
É uma asneira escrever que em Itália, o "superjuiz" Falcone trabalhou com o "superprocurador Di Pietro" no caso Mãos Limpas. Bastaria uma breve consulta ao Google para perceber a asnática menção que aliás revela o desconhecimento básico do funcionamento das magistraturas, cá e lá.
Em Itália, a magistratura- juízes e procuradores- assumem um corpo único em que pode existir trânsito de uma para a outra, nas respectivas funções. Falcone, juiz, foi coordenador, investigador, depois de outros, do "pool antimafia". Di Pietro foi procurador, investigador do "pool mani pulite". Esta diferença é de vulto e não de pormenor.
Quem decidiu a constituição dos mencionados "pool" foi essencialmente o poder político perante a enormidade dos fenómenos criminais que se agigantavam na sociedade italiana e incomodavam os cidadãos. Não foram os "superjuízes" que tomaram em mãos tal tarefa de reversão do Estado de Direito que tanto incomoda estes candongueiros. O trabalho desses "superjuízes" foi depois mediatizado por outros candongueiros do jornalismo local e deu no que deu: a ideia peregrina que agora este repenica como papagaio.
O juiz espanhol Garzón é outro fenómeno também pelo mesmo motivo: a Audiência Nacional, uma espécie de DCIAP e TCIC juntos, ou "pool" ainda mais estruturado e sofisticado, funcionava em Espanha, por causa de outro fenómeno assustador para os espanhóis: essencialmente terrorismo, motivo primeiro da criação em 1977 do tribunal da Audiência Nacional, mormente o terrorismo da ETA e depois do narcotráfico que em Espanha assumiu foro de escândalo, na Galicia.
Garzón era juiz de instrução e é preciso saber que a Instrução em Espanha ( ou em França) não é o mesmo que em Portugal, porque lá quem investiga, judiciariamente é o juiz de instrução e não o Ministério Público como por cá acontece.
É precisamente nesta confusão que os candongueiros incorrem sempre com as ideias simplistas que transmitem.
Em Portugal quem tem o poder de iniciativa e de investigação criminal em casos desta gravidade e nos demais é o Ministério Público. A Alemanha tem um modelo similar, na Europa e os restantes países seguem o modelo "francês" em que é o juiz que investiga, dirigindo tal função no papel de autoridade judiciária.
Por cá é o Ministério Público, no caso o DCIAP. O papel do juiz de instrução, cá, ou seja de Carlos Alexandre e do colega que agora lá está e estes candongueiros nunca referem, não se percebendo porquê, é apenas, no caso dos inquéritos criminais, o de assegurarem que o MºPº não cometa ilegalidades na detenção de suspeitos ou arguidos e compete-lhes aplicarem medidas de coacção que o MºPº pode propor. Para tal terão que avaliar os indícios recolhidos pelo MºPº e por isso mesmo interrogar os suspeitos ou arguidos para lhes aplicar a medida de coacção adequada.
Ou seja, os verdadeiros "justiceiros" não são os juizes de instrução mas os magistrados do MºPº do DCIAP, neste caso.
A citação do presidente Marcelo sobre a lentidão das investigações também vem muito a calhar nesta candonguice que omite as razões de fundo para tal e as dificuldades que existem e as condicionam.
Assim, ao mencionar o juiz Moro, brasileiros, deveria dizer que na operação Lava Jato, a par de Moro trabalham centenas de centenas de magistrados, todos "justiceiros" no conceito da candonguice.
E por último é asneira repetida e estúpida porque esclarecido o assunto vezes sem conta por quem está atento que o caso Madoff nos EUA foi demasiado rápido porque o assunto assim o permitiu: o arguido confessou logo parte das acusações e os "justiceiros" americanos viram a vida facilitada porque lhes permitiu negociar a pena de 150 anos de prisão. Foi rápido, fácil e os milhões desaparecidos foram declarados culpados. Para perceber que o sistema americano pouco terá a ensinar neste aspecto bastaria recordar o tempo que demorou até o jovem assassino de um tal Carlos Castro ser julgado e condenado...apesar de os factos serem claros e objectivos e não se tratar de caso que envolvesse offshores ou contas na Suíça em nome de outrém.
Assim como segundo motivo, neste caso suspeito, desta candonguice, resta o seguinte: quando o jornalismo se preocupa com os magistrados que investigam crimes graves que colocam em risco sério a coesão nacional, como seja o de corrupção de alto coturno que atinge agora um Sócrates ou os angolanos, é preciso ficar com a pulga atrás da orelha e tentar perceber se estes jornalistas querem mesmo que o assunto seja indagado ou apenas ficar como está. Aposto mais nesta última hipótese, por causa dos angolanos...e isso é bem pior que a mera candonguice.
OUTRA desta candonguice:
JN, via JE:
Primeiro a notícia "choque" típica do candongueiro que apresenta o produto contrabandeado e que encarece:
Estado paga advogadas a filhos de embaixador do Iraque
Depois o desenvolvimento sem a explicação devida:
O Jornal de Notícias escreve hoje que Ridha e Haider, os filhos do embaixador Saad Mohammed Ali, foram representados, no processo de inquérito aberto por causa das agressões a Rúben Cavaco, pelas advogadas oficiosas Patrícia Lista e Dina Fouto que “estavam de escala” na noite em que ocorreram os factos.
De acordo com o diário, os filhos do embaixador iraquiano “foram representados, do princípio ao fim do inquérito” por estas duas advogadas, com os custos inerentes a serem pagos pelo Estado português.
E qual era a explicação devida? Esta, do Código de Processo Penal:
Artigo 61.º
Direitos e deveres processuais
Um dos direitos dos arguidos é terem um advogado ou solicitarem que lhes seja nomeado um.
Se lessem isto, a notícia seria sobre quem seria o responsável pelo pagamento dessas despesas e se o Estado iria reclamar as mesmas junto de quem de direito...
Claro que não dava um título daqueles e a candonguice não compensaria.
Hoje no Sol, o director Mário Ramires dá uma imagem de incompetência profissional que nem sequer é rara, porque repetida.
Escreve assim, para realçar uma ideia peregrina que apanhou em qualquer viagem fantástica pelo mundo do jornalismo caseiro:
Para o director do Sol estes quatro juízes são representantes do mesmo fenómeno: " a judicialização dos regimes políticos de Estados ditos de Direito democrático" . Tal e qual e sem pôr mais na carta. Numa palavra escolhida por este candongueiro do jornalismo: são todos "justiceiros".
E porque chamo candongueiro, ou seja contrabandista de ideias avulsas, a este jornalista? Por dois motivos, um deles claro e o outro presumido.
O primeiro porque não percebe do que escreve e por isso debita asneiras.
É uma asneira escrever que em Itália, o "superjuiz" Falcone trabalhou com o "superprocurador Di Pietro" no caso Mãos Limpas. Bastaria uma breve consulta ao Google para perceber a asnática menção que aliás revela o desconhecimento básico do funcionamento das magistraturas, cá e lá.
Em Itália, a magistratura- juízes e procuradores- assumem um corpo único em que pode existir trânsito de uma para a outra, nas respectivas funções. Falcone, juiz, foi coordenador, investigador, depois de outros, do "pool antimafia". Di Pietro foi procurador, investigador do "pool mani pulite". Esta diferença é de vulto e não de pormenor.
Quem decidiu a constituição dos mencionados "pool" foi essencialmente o poder político perante a enormidade dos fenómenos criminais que se agigantavam na sociedade italiana e incomodavam os cidadãos. Não foram os "superjuízes" que tomaram em mãos tal tarefa de reversão do Estado de Direito que tanto incomoda estes candongueiros. O trabalho desses "superjuízes" foi depois mediatizado por outros candongueiros do jornalismo local e deu no que deu: a ideia peregrina que agora este repenica como papagaio.
O juiz espanhol Garzón é outro fenómeno também pelo mesmo motivo: a Audiência Nacional, uma espécie de DCIAP e TCIC juntos, ou "pool" ainda mais estruturado e sofisticado, funcionava em Espanha, por causa de outro fenómeno assustador para os espanhóis: essencialmente terrorismo, motivo primeiro da criação em 1977 do tribunal da Audiência Nacional, mormente o terrorismo da ETA e depois do narcotráfico que em Espanha assumiu foro de escândalo, na Galicia.
Garzón era juiz de instrução e é preciso saber que a Instrução em Espanha ( ou em França) não é o mesmo que em Portugal, porque lá quem investiga, judiciariamente é o juiz de instrução e não o Ministério Público como por cá acontece.
É precisamente nesta confusão que os candongueiros incorrem sempre com as ideias simplistas que transmitem.
Em Portugal quem tem o poder de iniciativa e de investigação criminal em casos desta gravidade e nos demais é o Ministério Público. A Alemanha tem um modelo similar, na Europa e os restantes países seguem o modelo "francês" em que é o juiz que investiga, dirigindo tal função no papel de autoridade judiciária.
Por cá é o Ministério Público, no caso o DCIAP. O papel do juiz de instrução, cá, ou seja de Carlos Alexandre e do colega que agora lá está e estes candongueiros nunca referem, não se percebendo porquê, é apenas, no caso dos inquéritos criminais, o de assegurarem que o MºPº não cometa ilegalidades na detenção de suspeitos ou arguidos e compete-lhes aplicarem medidas de coacção que o MºPº pode propor. Para tal terão que avaliar os indícios recolhidos pelo MºPº e por isso mesmo interrogar os suspeitos ou arguidos para lhes aplicar a medida de coacção adequada.
Ou seja, os verdadeiros "justiceiros" não são os juizes de instrução mas os magistrados do MºPº do DCIAP, neste caso.
A citação do presidente Marcelo sobre a lentidão das investigações também vem muito a calhar nesta candonguice que omite as razões de fundo para tal e as dificuldades que existem e as condicionam.
Assim, ao mencionar o juiz Moro, brasileiros, deveria dizer que na operação Lava Jato, a par de Moro trabalham centenas de centenas de magistrados, todos "justiceiros" no conceito da candonguice.
E por último é asneira repetida e estúpida porque esclarecido o assunto vezes sem conta por quem está atento que o caso Madoff nos EUA foi demasiado rápido porque o assunto assim o permitiu: o arguido confessou logo parte das acusações e os "justiceiros" americanos viram a vida facilitada porque lhes permitiu negociar a pena de 150 anos de prisão. Foi rápido, fácil e os milhões desaparecidos foram declarados culpados. Para perceber que o sistema americano pouco terá a ensinar neste aspecto bastaria recordar o tempo que demorou até o jovem assassino de um tal Carlos Castro ser julgado e condenado...apesar de os factos serem claros e objectivos e não se tratar de caso que envolvesse offshores ou contas na Suíça em nome de outrém.
Assim como segundo motivo, neste caso suspeito, desta candonguice, resta o seguinte: quando o jornalismo se preocupa com os magistrados que investigam crimes graves que colocam em risco sério a coesão nacional, como seja o de corrupção de alto coturno que atinge agora um Sócrates ou os angolanos, é preciso ficar com a pulga atrás da orelha e tentar perceber se estes jornalistas querem mesmo que o assunto seja indagado ou apenas ficar como está. Aposto mais nesta última hipótese, por causa dos angolanos...e isso é bem pior que a mera candonguice.
OUTRA desta candonguice:
JN, via JE:
Primeiro a notícia "choque" típica do candongueiro que apresenta o produto contrabandeado e que encarece:
Estado paga advogadas a filhos de embaixador do Iraque
Depois o desenvolvimento sem a explicação devida:
O Jornal de Notícias escreve hoje que Ridha e Haider, os filhos do embaixador Saad Mohammed Ali, foram representados, no processo de inquérito aberto por causa das agressões a Rúben Cavaco, pelas advogadas oficiosas Patrícia Lista e Dina Fouto que “estavam de escala” na noite em que ocorreram os factos.
De acordo com o diário, os filhos do embaixador iraquiano “foram representados, do princípio ao fim do inquérito” por estas duas advogadas, com os custos inerentes a serem pagos pelo Estado português.
E qual era a explicação devida? Esta, do Código de Processo Penal:
Artigo 61.º
Direitos e deveres processuais
| 1 - O arguido goza, em especial, em qualquer fase do processo e salvas as excepções da lei, dos direitos de:
(...) e) Constituir advogado ou solicitar a nomeação de um defensor; f) Ser assistido por defensor em todos os actos processuais em que participar e, quando detido, comunicar, mesmo em privado, com ele; (...) h) Ser informado, pela autoridade judiciária ou pelo órgão de polícia criminal perante os quais seja obrigado a comparecer, dos direitos que lhe assistem; |
Um dos direitos dos arguidos é terem um advogado ou solicitarem que lhes seja nomeado um.
Se lessem isto, a notícia seria sobre quem seria o responsável pelo pagamento dessas despesas e se o Estado iria reclamar as mesmas junto de quem de direito...
Claro que não dava um título daqueles e a candonguice não compensaria.
quinta-feira, janeiro 19, 2017
Insídias num ninho de víboras
Repare-se nestas duas páginas da revista Sábado de hoje que tratam de um assunto mais grave do que parece: o juiz Carlos Alexandre alvo de uma insídia insuspeita, vinda de quem menos se esperaria, o DCIAP.
A história é contada assim pela Sábado:
Portanto, para começar existe um inquérito no qual é suspeito de corrupção um magistrado do MºPº, Orlando Figueira, que até Setembro de 2012 trabalhou no DCIAP, ao lado de Rosário Teixeira e outros.
Esse inquérito foi subtraído ab initio, no DCIAP, ao foro natural do juiz de instrução Carlos Alexandre por algo que não está bem esclarecido mas se diz no artigo: por alguém no DCIAP suspeitar da imparcialidade e isenção do juiz Alexandre uma vez que era amigo do suspeito Orlando Figueira. Amigo? Sim, como outros, incluindo alguns colegas do DCIAP. Mas a suspeita foi suficiente para afastar o juiz e escolherem uma juíza anónima, de instrução. Primeira insídia ( nem terão dado oportunidade ao juiz natural para se escusar se fosse caso disso) e primeira dúvida acerca da legalidade estrita do acto. Veremos o que isto dará.
Em seguida, durante as buscas ao escritório do advogado Blanco, presidida pelos magistrados do DCIAP ( incluindo Rosário Teixeira) e juíza de instrução, descobre-se em Fevereiro de 2016 um currículo profissional de um engenheiro, tal como outros aí existentes ( o advogado é representante de interesses dos angolanos da Sonangol) e o nome faz soar campainhas na mente insidiosa de um dos investigadores que entrega os documentos aos responsáveis pelo DCIAP ( incluindo Rosário Teixeira que dá o consentimento no acto): é do filho do juiz Carlos Alexandre.Segunda insídia ( desconfiaram logo, através daquele documento, da probidade do juiz Alexandre, isso é incontornável e muito, muito lamentável).
O Juiz explicou agora à Sábado ( a pedido expresso de António José Vilela que tal publica) , depois de estes factos se saberem e serem comentados "nos corredores do DCIAP e da PJ" que o currículo fora apresentado ao advogado, pelo filho numa altura em que estaria a fazer um estágio curricular no ramo dos petróleos, na Galp, em 2011/2012.
Porque é que isto são insídias?
Em primeiro lugar porque se desconfiou no DCIAP, à partida, da probidade de um juiz que já deu provas mais que suficientes da sua honradez. Os colegas magistrados do DCIAP que com ele trabalham deviam saber melhor porque o relacionamento profissional que com o mesmo mantém tem sido ao longo dos anos- muitos anos- excelente e de trato pessoal impecável até um certo ponto.
A mera noção que o juiz - que não é ingénuo ou indigente mental- teve, no sentido desta desconfiança é atroz, seja para quem for e muito mais para quem julgaria merecer a confiança de quem investiga e de pessoas que lhe eram próximas.
Justificar-se-ia na essência tal procedimento? Ou seja e de começo, justificar-se-ia a subtracção do processo ao juiz perante as circunstâncias conhecidas? Não, no meu entender. Tal efeito seria logo à partida arrasador porque pressupõe factos delicados que se supuseram e prevaleceram no juizo de oportunidade. E objectivamente é uma prova de desconfiança que arrasa anos e anos de confiança.
Justificar-se-ia pelo receio de o suspeito vir a ser avisado dos desenvolvimentos processuais? Também não. Se tal sucedesse seria facto a averiguar. Mas, afinal, que prova poderia ter sido subtraída se o suspeito fosse avisado?
Estas considerações dão corpo à primeira insídia.
A segunda reside na actuação perante a descoberta do documento. Que poderia provar ou sustentar indiciariamente um documento como esse, ou seja, um currículo apresentado por um filho de um juiz de instrução, amigo de um procurador que terá ajudado o mesmo a arranjar um estágio numa empresa do ramo em que o mesmo estava a especializar-se profissionalmente?
Só relevaria se o juiz aproveitasse pessoalmente o favor, servindo-se do medianeiro, no caso o amigo procurador, no sentido de este tentar ajudar um juiz que futuramente o pudesse ajudar e este soubesse do facto, ou seja o de o procurador andar a receber "por fora", através desse advogado.
Porém, para se chegar a este terminal, as conjecturas seriam tantas e tão perversas que se perde a razoabilidade para se poder sustentar uma apreensão inútil.
E isso é a segunda insídia. Como se veio a comprovar: o assunto não tinha qualquer relevo especial e não indiciava à partida qualquer facto de índole menos correcta.
Finalmente e para mostrar o lado insidioso de tudo isto: se fosse relevante para os processos penais saber todas as ligações e sistemas de contactos que os magistrados entretêm com diversas pessoas, da profissão jurídica e fora dela, para sustentar suspeitas de má conduta ou mesmo de corrupção, estaríamos certamente num mundo impossível de viver.
Basta que cada magistrado ponha a mão na consciência e pense nos filhos que têm e que já trabalham. Seja no CEJ, seja em empresas do Estado, seja privadas, seja até no SIS ( esta lembrei-me agora mas não é gratuita). Ou então que certos magistrados que ocupam cargos de certo relevo reflictam uns segundos para saberem como chegaram onde chegaram: quem contactaram o que disseram como se fizeram os arranjos e como se decidiu e por quem...e depois tirem-se as devidas conclusões sobre a hipocrisia desse ninho de víboras.
Tudo isto é lamentável e muito lamentável e mais uma vez publicamente endereço a minha solidariedade ao juiz Carlos Alexandre.
O Estado não deve ser isto e muito menos o Ministério Público.
A história é contada assim pela Sábado:
Portanto, para começar existe um inquérito no qual é suspeito de corrupção um magistrado do MºPº, Orlando Figueira, que até Setembro de 2012 trabalhou no DCIAP, ao lado de Rosário Teixeira e outros.
Esse inquérito foi subtraído ab initio, no DCIAP, ao foro natural do juiz de instrução Carlos Alexandre por algo que não está bem esclarecido mas se diz no artigo: por alguém no DCIAP suspeitar da imparcialidade e isenção do juiz Alexandre uma vez que era amigo do suspeito Orlando Figueira. Amigo? Sim, como outros, incluindo alguns colegas do DCIAP. Mas a suspeita foi suficiente para afastar o juiz e escolherem uma juíza anónima, de instrução. Primeira insídia ( nem terão dado oportunidade ao juiz natural para se escusar se fosse caso disso) e primeira dúvida acerca da legalidade estrita do acto. Veremos o que isto dará.
Em seguida, durante as buscas ao escritório do advogado Blanco, presidida pelos magistrados do DCIAP ( incluindo Rosário Teixeira) e juíza de instrução, descobre-se em Fevereiro de 2016 um currículo profissional de um engenheiro, tal como outros aí existentes ( o advogado é representante de interesses dos angolanos da Sonangol) e o nome faz soar campainhas na mente insidiosa de um dos investigadores que entrega os documentos aos responsáveis pelo DCIAP ( incluindo Rosário Teixeira que dá o consentimento no acto): é do filho do juiz Carlos Alexandre.Segunda insídia ( desconfiaram logo, através daquele documento, da probidade do juiz Alexandre, isso é incontornável e muito, muito lamentável).
O Juiz explicou agora à Sábado ( a pedido expresso de António José Vilela que tal publica) , depois de estes factos se saberem e serem comentados "nos corredores do DCIAP e da PJ" que o currículo fora apresentado ao advogado, pelo filho numa altura em que estaria a fazer um estágio curricular no ramo dos petróleos, na Galp, em 2011/2012.
Porque é que isto são insídias?
Em primeiro lugar porque se desconfiou no DCIAP, à partida, da probidade de um juiz que já deu provas mais que suficientes da sua honradez. Os colegas magistrados do DCIAP que com ele trabalham deviam saber melhor porque o relacionamento profissional que com o mesmo mantém tem sido ao longo dos anos- muitos anos- excelente e de trato pessoal impecável até um certo ponto.
A mera noção que o juiz - que não é ingénuo ou indigente mental- teve, no sentido desta desconfiança é atroz, seja para quem for e muito mais para quem julgaria merecer a confiança de quem investiga e de pessoas que lhe eram próximas.
Justificar-se-ia na essência tal procedimento? Ou seja e de começo, justificar-se-ia a subtracção do processo ao juiz perante as circunstâncias conhecidas? Não, no meu entender. Tal efeito seria logo à partida arrasador porque pressupõe factos delicados que se supuseram e prevaleceram no juizo de oportunidade. E objectivamente é uma prova de desconfiança que arrasa anos e anos de confiança.
Justificar-se-ia pelo receio de o suspeito vir a ser avisado dos desenvolvimentos processuais? Também não. Se tal sucedesse seria facto a averiguar. Mas, afinal, que prova poderia ter sido subtraída se o suspeito fosse avisado?
Estas considerações dão corpo à primeira insídia.
A segunda reside na actuação perante a descoberta do documento. Que poderia provar ou sustentar indiciariamente um documento como esse, ou seja, um currículo apresentado por um filho de um juiz de instrução, amigo de um procurador que terá ajudado o mesmo a arranjar um estágio numa empresa do ramo em que o mesmo estava a especializar-se profissionalmente?
Só relevaria se o juiz aproveitasse pessoalmente o favor, servindo-se do medianeiro, no caso o amigo procurador, no sentido de este tentar ajudar um juiz que futuramente o pudesse ajudar e este soubesse do facto, ou seja o de o procurador andar a receber "por fora", através desse advogado.
Porém, para se chegar a este terminal, as conjecturas seriam tantas e tão perversas que se perde a razoabilidade para se poder sustentar uma apreensão inútil.
E isso é a segunda insídia. Como se veio a comprovar: o assunto não tinha qualquer relevo especial e não indiciava à partida qualquer facto de índole menos correcta.
Finalmente e para mostrar o lado insidioso de tudo isto: se fosse relevante para os processos penais saber todas as ligações e sistemas de contactos que os magistrados entretêm com diversas pessoas, da profissão jurídica e fora dela, para sustentar suspeitas de má conduta ou mesmo de corrupção, estaríamos certamente num mundo impossível de viver.
Basta que cada magistrado ponha a mão na consciência e pense nos filhos que têm e que já trabalham. Seja no CEJ, seja em empresas do Estado, seja privadas, seja até no SIS ( esta lembrei-me agora mas não é gratuita). Ou então que certos magistrados que ocupam cargos de certo relevo reflictam uns segundos para saberem como chegaram onde chegaram: quem contactaram o que disseram como se fizeram os arranjos e como se decidiu e por quem...e depois tirem-se as devidas conclusões sobre a hipocrisia desse ninho de víboras.
Tudo isto é lamentável e muito lamentável e mais uma vez publicamente endereço a minha solidariedade ao juiz Carlos Alexandre.
O Estado não deve ser isto e muito menos o Ministério Público.
A origem das bancarrotas
Em 1984, data da segunda bancarrota cuja paternidade, sendo do sistema foi plenamente apadrinhada por Mário Soares, um desconhecido gestor, Reis Mota, publicou um pequeno livro de autor com factos e números que intitulou "Portugal em bancarrota".
Como não percebo muito de Economia e números associados fico fascinado com estas revelações que não encontro explicadas pelos actuais komentadores.
O que será feito destes factos e números?Foi algum gato, fedorento ou não, que lhes comeu a língua?
Como não percebo muito de Economia e números associados fico fascinado com estas revelações que não encontro explicadas pelos actuais komentadores.
O que será feito destes factos e números?Foi algum gato, fedorento ou não, que lhes comeu a língua?
Fátima, 1917
Há cerca de 100 anos uma história de pequenos pastores de ovelhas da região de Vila Nova de Ourém transformou-se num dos mais extraordinários acontecimentos do nosso século XX.
Três crianças de 10, 9 e sete anos de idade, chamadas Lúcia, Francisco e Jacinta, filhos de camponeses pobres da região costumavam apascentar gado nas redondezas do local onde viviam, Aljustrel e um dia de Maio de 1917 foram até Fátima, lugar de azinheiras e pasto para ovelhas.
Aí, nesse dia terão visto em cima de uma dessas árvores uma figura de mulher, vestida de branco, com um manto da mesma cor pela cabeça. O rosto da senhora era o mais belo que os catraios jamais tinham visto e era tão resplandecente que ficaram encantados.
Ao chegarem a casa contaram aos pais, que não acreditaram e procuraram esconder tais factos proibindo as crianças de os contar mas a certeza do que tinham visto não os demoveu e a mais velha, Lúcia, contou ao Prior da aldeia.
Depois a história assume outros contornos no tempo em que Portugal vivia ainda sob os auspícios da I República. Cerca de meia dúzia de anos antes, os responsáveis políticos pelos destinos de Portugal, com destaque para Afonso Costa, um letrado de Direito, tentaram eliminar o poder de influência da Igreja Católica, expulsando novamente jesuítas, com a retoma de leis do tempo do Marquês de Pombal, fechando escolas religiosas e limitando os usos e costumes do culto. O dito Afonso Costa acreditava que em duas gerações eliminaria por completo o Catolicismo do nosso país.
Esta história foi agora novamente contada em livro da autoria de uma jornalista, ainda jovem, Patrícia Carvalho ( escreve no Público) , cujas primeiras páginas me incitaram a continuar a leitura por se tornar muito interessante.
O relato, pelas primeiras páginas afigura-se prometedor e o estilo é agradável.
Nestas páginas descreve-se o ambiente rural em matéria de religiosidade no início do século XX em Portugal e que o tal jacobino-mor procurou erradicar para sempre, com o sucesso bem conhecido.
Numa altura quem em Portugal a História passada se resume ao tempo do fassismo torna-se muito interessante ler que durante esses anos de I República o analfabetismo na pequena aldeia de Aljustrel era próximo dos 88%. Portanto, não terá sido obra de Salazar...
E os usos de rezar todos os dias nas casas era um hábito muito enraizado em quem acreditava em Deus, seguindo os ensinamentos pregados pelos padres das aldeias. Em Aljustrel ou no Alto-Minho.
Por conseguinte aqui está um livro que vale a pena ler, apesar de ainda não ter lido mais que duas dúzias de páginas ( tem 230 e custa o preço de uma refeição média num restaurante médio).
Três crianças de 10, 9 e sete anos de idade, chamadas Lúcia, Francisco e Jacinta, filhos de camponeses pobres da região costumavam apascentar gado nas redondezas do local onde viviam, Aljustrel e um dia de Maio de 1917 foram até Fátima, lugar de azinheiras e pasto para ovelhas.
Aí, nesse dia terão visto em cima de uma dessas árvores uma figura de mulher, vestida de branco, com um manto da mesma cor pela cabeça. O rosto da senhora era o mais belo que os catraios jamais tinham visto e era tão resplandecente que ficaram encantados.
Ao chegarem a casa contaram aos pais, que não acreditaram e procuraram esconder tais factos proibindo as crianças de os contar mas a certeza do que tinham visto não os demoveu e a mais velha, Lúcia, contou ao Prior da aldeia.
Depois a história assume outros contornos no tempo em que Portugal vivia ainda sob os auspícios da I República. Cerca de meia dúzia de anos antes, os responsáveis políticos pelos destinos de Portugal, com destaque para Afonso Costa, um letrado de Direito, tentaram eliminar o poder de influência da Igreja Católica, expulsando novamente jesuítas, com a retoma de leis do tempo do Marquês de Pombal, fechando escolas religiosas e limitando os usos e costumes do culto. O dito Afonso Costa acreditava que em duas gerações eliminaria por completo o Catolicismo do nosso país.
Esta história foi agora novamente contada em livro da autoria de uma jornalista, ainda jovem, Patrícia Carvalho ( escreve no Público) , cujas primeiras páginas me incitaram a continuar a leitura por se tornar muito interessante.
O relato, pelas primeiras páginas afigura-se prometedor e o estilo é agradável.
Nestas páginas descreve-se o ambiente rural em matéria de religiosidade no início do século XX em Portugal e que o tal jacobino-mor procurou erradicar para sempre, com o sucesso bem conhecido.
Numa altura quem em Portugal a História passada se resume ao tempo do fassismo torna-se muito interessante ler que durante esses anos de I República o analfabetismo na pequena aldeia de Aljustrel era próximo dos 88%. Portanto, não terá sido obra de Salazar...
E os usos de rezar todos os dias nas casas era um hábito muito enraizado em quem acreditava em Deus, seguindo os ensinamentos pregados pelos padres das aldeias. Em Aljustrel ou no Alto-Minho.
Por conseguinte aqui está um livro que vale a pena ler, apesar de ainda não ter lido mais que duas dúzias de páginas ( tem 230 e custa o preço de uma refeição média num restaurante médio).
A democracia enriquece as pessoas...
Flash:
O antigo Presidente da República Mário Soares, que morreu a 7 de Janeiro aos 92 anos, deixa aos dois filhos, João e Isabel, uma fortuna indeterminada em casas, quintas e terrenos, mas também uma biblioteca, obras de arte, fundos de investimento, acções e obrigações, avaliadas em dezenas de milhões de euros.
Ao longo da sua vida, o ex-chefe de Estado herdou, ganhou e acumulou uma fortuna incalculável que agora ficará disponível para os filhos: o deputado socialista João Soares, 67 anos, e a irmã, Isabel Soares, 66 anos, a actual directora do Colégio Moderno, a instituição de ensino privado da família Soares, em Lisboa.
Com o testamento de Mário Soares ainda não tornado público, a base de toda a informação recolhida pelo site FLASH! acaba por ser a última declaração pública que fez no Tribunal Constitucional aquando da candidatura, em finais de 2005, às eleições a um terceiro mandato para a Presidência da República, escrutínio que perdeu a 22 de Fevereiro de 2006, para Aníbal Silva.
Essa declaração de rendimentos revela um Mário Soares verdadeiramente rico. Só no capítulo dos rendimentos, o "pai da democracia", como foi classificado por muitos nestes últimos dias, declara ter usufruído, em 2004, qualquer coisa como 482 mil euros, divididos entre rendimentos de trabalho, de capitais, prediais e de pensões.
Umas folhas mais adiante, os valores crescem, e de que maneira: com dados de 2005, Mário Soares assume possuir, entre aplicações, depósitos a prazo, fundos de investimento, acções, obrigações, produtos estruturados e produtos de eficiência fiscal um valor que, somado, com cotações válidas nessa data, davam um total de poupanças perto de 1,2 milhões de euros, repartidos por três bancos: BPI, Millenium/bcp e Caixa Geral de Depósitos (CGD).
MILHÕES EM CASAS, LIVROS E QUADROS
Além das quantias em produtos financeiros depositadas nos bancos, que em Janeiro de 2017, depois da crise financeira, deverão ser menores, João e Isabel vão herdar do pai uma biblioteca com mais de 40.000 volumes de livros que, pela sua dimensão, o próprio Mário Soares declarou em 2005 como sendo "de valor indeterminado", resultante da compra e oferta de livros que Mário e Maria de Jesus Barroso juntaram ao longo de toda a vida e que também terão herdado.
Torna-se inevitável o contraste com Salazar. Não porque este agora finado mereça sequer a comparação no estatuto, craveira intelectual ou feitos, mas apenas porque foi governante e político e é apontado como "pai da democracia".
Assim, para registo é sabido que Salazar, à sua morte deixou uma fortuna cujo valor está assim documentado:
Salazar deixou 847 toneladas de ouro e 100 milhões de contos de divisas em cofre – a célebre "pesada herança", mas pertencente ao país, à sua Pátria.
Este pobre agora finado deixou, como "pai da democracia", duas ou três bancarrotas; uma dívida "incobrável" de mais de uma centena de milhar de milhões de euros que todos teremos que pagar. Porém, através de cargos sempre públicos, com uma empresa de ensino particular, conseguiu amealhar uma fortuna de dezenas de milhões de euros. Notável!
Salazar, como bens pessoais amealhou à sua morte, numa conta da CGD, cerca de 250 contos, dos antigos. Dizem aqueles que era ditador, mas morreu pobre, coitado ou pelo menos remediado e com bens cuja proveniência é conhecida.
Aquele grande democrata, pai da dita, morreu rico e de que maneira! Coisas da vida.
Salazar, o que deixou foi apenas fruto de poupanças da reforma que usufruía, como aqui se explica.
Conclusão: a democracia enriquece as pessoas. O salazarismo só empobreceu...
ADITAMENTO:
Ainda sobre os bens e riqueza pessoal de Salazar à data da sua morte não é fácil encontrar elementos concretos sobre isso, na internet.
O que existe são artigos que procuram denegrir a sua imagem imputando-lhe o facto de ter sido o Estado a custear as despesas de internamento e tratamento enquanto esteve doente e particularmente a partir de 28 de Setembro de 1968, altura em que foi substituído nas funções por Marcello Caetano.
Contudo e conforme escreve o biógrafo Filipe Ribeiro de Menezes, a fls. 634 da sua obra ( Salazar, Uma biografia política, d. quixote, 2009) "Sem emprego e sem poupanças dignas do nome, Salazar não tinha condições para cuidar de si próprio; foi necessário aprovar legislação para corrigir esta situação. Foi também decidido que o Estado continuaria a suportar as despesas do tratamento do agora cidadão António de Oliveira Salazar, ainda em estado de coma, em Benfica. Só sairia do coma em finais de Outubro, depois de vários incidentes que ameaçaram a sua vida".
A propósito daqueles bens e rendimentos que Salazar deixou à hora da sua morte a única referência que encontrei a tal, digna de credibilidade foi a que Franco Nogueira lhe faz na sua Biografia ( Salazar Vol. VI-O último combate -1964-1970 , Livraria Civilização Editora, Porto, 1985).
Fortuna de Salazar na hora da sua morte: entre 150 e 200 contos...é comparar com os ricos que a democracia engendrou e principalmente indagar o modo como angariaram tal riqueza.
E esta última nota em jeito de obituário que nenhum outro português, depois dele teve, por direito e mérito:
O antigo Presidente da República Mário Soares, que morreu a 7 de Janeiro aos 92 anos, deixa aos dois filhos, João e Isabel, uma fortuna indeterminada em casas, quintas e terrenos, mas também uma biblioteca, obras de arte, fundos de investimento, acções e obrigações, avaliadas em dezenas de milhões de euros.
Ao longo da sua vida, o ex-chefe de Estado herdou, ganhou e acumulou uma fortuna incalculável que agora ficará disponível para os filhos: o deputado socialista João Soares, 67 anos, e a irmã, Isabel Soares, 66 anos, a actual directora do Colégio Moderno, a instituição de ensino privado da família Soares, em Lisboa.
Com o testamento de Mário Soares ainda não tornado público, a base de toda a informação recolhida pelo site FLASH! acaba por ser a última declaração pública que fez no Tribunal Constitucional aquando da candidatura, em finais de 2005, às eleições a um terceiro mandato para a Presidência da República, escrutínio que perdeu a 22 de Fevereiro de 2006, para Aníbal Silva.
Essa declaração de rendimentos revela um Mário Soares verdadeiramente rico. Só no capítulo dos rendimentos, o "pai da democracia", como foi classificado por muitos nestes últimos dias, declara ter usufruído, em 2004, qualquer coisa como 482 mil euros, divididos entre rendimentos de trabalho, de capitais, prediais e de pensões.
Umas folhas mais adiante, os valores crescem, e de que maneira: com dados de 2005, Mário Soares assume possuir, entre aplicações, depósitos a prazo, fundos de investimento, acções, obrigações, produtos estruturados e produtos de eficiência fiscal um valor que, somado, com cotações válidas nessa data, davam um total de poupanças perto de 1,2 milhões de euros, repartidos por três bancos: BPI, Millenium/bcp e Caixa Geral de Depósitos (CGD).
MILHÕES EM CASAS, LIVROS E QUADROS
Além das quantias em produtos financeiros depositadas nos bancos, que em Janeiro de 2017, depois da crise financeira, deverão ser menores, João e Isabel vão herdar do pai uma biblioteca com mais de 40.000 volumes de livros que, pela sua dimensão, o próprio Mário Soares declarou em 2005 como sendo "de valor indeterminado", resultante da compra e oferta de livros que Mário e Maria de Jesus Barroso juntaram ao longo de toda a vida e que também terão herdado.
Torna-se inevitável o contraste com Salazar. Não porque este agora finado mereça sequer a comparação no estatuto, craveira intelectual ou feitos, mas apenas porque foi governante e político e é apontado como "pai da democracia".
Assim, para registo é sabido que Salazar, à sua morte deixou uma fortuna cujo valor está assim documentado:
Salazar deixou 847 toneladas de ouro e 100 milhões de contos de divisas em cofre – a célebre "pesada herança", mas pertencente ao país, à sua Pátria.
Este pobre agora finado deixou, como "pai da democracia", duas ou três bancarrotas; uma dívida "incobrável" de mais de uma centena de milhar de milhões de euros que todos teremos que pagar. Porém, através de cargos sempre públicos, com uma empresa de ensino particular, conseguiu amealhar uma fortuna de dezenas de milhões de euros. Notável!
Salazar, como bens pessoais amealhou à sua morte, numa conta da CGD, cerca de 250 contos, dos antigos. Dizem aqueles que era ditador, mas morreu pobre, coitado ou pelo menos remediado e com bens cuja proveniência é conhecida.
Aquele grande democrata, pai da dita, morreu rico e de que maneira! Coisas da vida.
Salazar, o que deixou foi apenas fruto de poupanças da reforma que usufruía, como aqui se explica.
Conclusão: a democracia enriquece as pessoas. O salazarismo só empobreceu...
ADITAMENTO:
Ainda sobre os bens e riqueza pessoal de Salazar à data da sua morte não é fácil encontrar elementos concretos sobre isso, na internet.
O que existe são artigos que procuram denegrir a sua imagem imputando-lhe o facto de ter sido o Estado a custear as despesas de internamento e tratamento enquanto esteve doente e particularmente a partir de 28 de Setembro de 1968, altura em que foi substituído nas funções por Marcello Caetano.
Contudo e conforme escreve o biógrafo Filipe Ribeiro de Menezes, a fls. 634 da sua obra ( Salazar, Uma biografia política, d. quixote, 2009) "Sem emprego e sem poupanças dignas do nome, Salazar não tinha condições para cuidar de si próprio; foi necessário aprovar legislação para corrigir esta situação. Foi também decidido que o Estado continuaria a suportar as despesas do tratamento do agora cidadão António de Oliveira Salazar, ainda em estado de coma, em Benfica. Só sairia do coma em finais de Outubro, depois de vários incidentes que ameaçaram a sua vida".
A propósito daqueles bens e rendimentos que Salazar deixou à hora da sua morte a única referência que encontrei a tal, digna de credibilidade foi a que Franco Nogueira lhe faz na sua Biografia ( Salazar Vol. VI-O último combate -1964-1970 , Livraria Civilização Editora, Porto, 1985).
Fortuna de Salazar na hora da sua morte: entre 150 e 200 contos...é comparar com os ricos que a democracia engendrou e principalmente indagar o modo como angariaram tal riqueza.
E esta última nota em jeito de obituário que nenhum outro português, depois dele teve, por direito e mérito:
quarta-feira, janeiro 18, 2017
O jornalismo de investigação carece de muito cuidado
A propósito da crise dos jornais e do congresso de jornalistas, a RR foi entrevistar o chefe de edição do jornal francês Le Canard Enchainé que por cá custa € 1,60 ( mais 40 cêntimos que em França), tem oito páginas sem qualquer publicidade e emprega, segundo se diz, cerca de 30 jornalistas. Quase não tem fotografias mas tem muitas ilustrações, cartoons e caricaturas. É um sucesso quase centenário porque tem lucro e continua a vender bem. Não tem sítio na internet com as notícias todas e dedica a atenção aos assuntos domésticos, sendo um dos principais media de investigação jornalística.
Sobre as investigações o seu editor é muito claro: só publicam algo quando estão seguros de o poder fazer com rigor "porque temos uma enorme preocupação com a verificação exaustiva de todas as notícias que damos. Não publicamos informações se não tivermos provas suficientes que as sustentem. Somos muitas vezes ultrapassados pela concorrência porque consideramos que não tínhamos provas suficientes para publicar determinada história."
Aqui fica a entrevista:
RR:
Sobre as investigações o seu editor é muito claro: só publicam algo quando estão seguros de o poder fazer com rigor "porque temos uma enorme preocupação com a verificação exaustiva de todas as notícias que damos. Não publicamos informações se não tivermos provas suficientes que as sustentem. Somos muitas vezes ultrapassados pela concorrência porque consideramos que não tínhamos provas suficientes para publicar determinada história."
Aqui fica a entrevista:
RR:
O jornal "Le Canard
Enchaîné" pode ser descrito como o irredutível gaulês da imprensa a
nível mundial. Há 100 anos que sai para as bancas francesas. Em papel,
claro, e impresso a duas cores – preto e vermelho. Com uma redacção
relativamente pequena, com aproximadamente 30 jornalistas, vende,
semanalmente, 400 mil exemplares.
Apesar de não ter escapado à queda nas vendas, o jornal, que nunca teve publicidade, dá lucro – cerca de três milhões de euros, em 2015.
A Renascença falou com Érik Empatz, editor-chefe deste jornal que faz sátira, mas também jornalismo de investigação, para tentar perceber o segredo para este "pato acorrentado” manter a independência de grandes grupos económicos.
Qual é o segredo do vosso sucesso?
Para começar, a razão do nosso sucesso, é que desde o início, que o "Canard" é um jornal completamente independente. Isto quer dizer que o nosso jornal nunca dependeu de um grupo financeiro e sempre foi independente da publicidade. Ou seja, desde o início que nunca tivemos publicidade. Não dependemos dos grandes grupos económicos, como foi acontecendo com outros jornais franceses que foram comprados. Penso que é isso que nos torna fortes.
Actualmente, as pressões exercidas sobre os meios de comunicação, e sobre os jornais em particular, não são tanto pressões dos Governos a dizer "não devem escrever isto ou aquilo". Existem muitas pressões económicas, pressão dos anunciantes, que, de uma forma ou de outra, dizem: "Se escreverem mal da nossa empresa, retiramos a publicidade do vosso jornal". Como se sabe, neste momento, os jornais são muito dependentes das receitas publicitárias e isso cerceia-lhes a liberdade. Mas nós temos liberdade plena e, sem dúvida, que essa é a razão do nosso sucesso.
O custo de produção do vosso jornal é baixo...
Sim, custa 1,20 euros. E não aumentámos o preço do jornal desde 1993.
Há 24 anos que não aumentam o preço do jornal?
Sim. Consideramos que o jornal vende bem e que os nossos leitores devem beneficiar das nossas vendas. Mas, por outro lado, não oferecemos nada.
Refere-se ao facto de "Le Canard Enchaîné" ter uma presença muito limitada na internet e nas redes sociais e não disponibilizar conteúdos digitais de forma gratuita?
Não cometemos um erro que muitos jornais em França – e noutros países – cometeram, quer sejam diários ou semanários. A maioria precipitou-se e foi a correr para a internet. Passaram a disponibilizar os artigos de forma gratuita. E, depois, graças a esta "fórmula gratuita", perderam uma boa parte dos seus leitores.
Muitos jornais perderam metade dos leitores e, agora, é muito difícil regressar a uma fórmula em que o leitor tenha que pagar para ler. Nós não fizemos isso. Para já, a nossa presença na internet é extremamente minimalista. O nosso site apenas disponibiliza os títulos do jornal às quartas-feiras. Por enquanto, a internet não está no topo das nossas prioridades porque as nossas vendas em papel ainda são muito boas. Vendemos 400 mil exemplares por semana. E vamos continuar a vender o jornal em papel, enquanto isso for possível. Se, um dia, passarmos apenas a estar disponíveis na internet, o que deverá acontecer no futuro – provavelmente, num futuro muito próximo –, isso será também porque em França há uma diminuição muito acentuada dos pontos de venda. Existem cada vez menos quiosques, desapareceram muitos nos últimos anos. E isso é muito preocupante. Mas, por enquanto, as nossas vendas são boas. O jornal dá lucro e o problema ainda se não coloca.
No dia em que passarem definitivamente à versão digital, será através de um modelo pago?
Sim. Passaremos directamente a um modelo pago, de certeza.
São um jornal satírico que também faz jornalismo de investigação. Já revelaram muitos escândalos e dão muitas notícias. Como conseguem unir estas duas facetas e, em simultâneo, serem um jornal com tanta credibilidade?
Para responder a essa pergunta, tenho que voltar à questão da independência. Quando investigamos negócios, por exemplo, que envolvem bancos ou somas de dinheiro importantes, não estamos acorrentados. Temos uma certa independência que nos permite investigar a fundo esses casos. Por outro lado, somos muito rigorosos em relação às informações. Como temos uma tiragem muito significativa e somos credíveis, quando fazemos perguntas, as pessoas têm tendência a responder-nos.
Não têm dificuldade em investigar?
Se telefonarmos a um ministro, por exemplo, ele responde. Sempre que ligamos a alguém importante, se o "Canard" ligar a perguntar, é atendido e temos respostas. Isto também acontece porque temos uma enorme preocupação com a verificação exaustiva de todas as notícias que damos. Não publicamos informações se não tivermos provas suficientes que as sustentem. Somos muitas vezes ultrapassados pela concorrência porque consideramos que não tínhamos provas suficientes para publicar determinada história. Mas é o facto de não abdicarmos desse rigor, em detrimento da velocidade de publicação, que, no fim das contas, nos garante a reputação de sermos exactos e precisos nas investigações que levamos a cabo.
Têm uma regra que exige um certo anonimato aos vossos jornalistas. É muito raro ver um jornalista do "Le Canard Enchainê" num canal de televisão a comentar uma investigação, um escândalo que tenham revelado, por exemplo...
No último ano, tivemos alguma presença na televisão, fomos a alguns programas, a propósito da celebração dos 100 anos do jornal. Fizemos um livro de comemoração do centenário do "Canard" e também fomos para o promover, tem vendido bem. Mas, fora deste quadro, a regra do nosso jornal defende que as nossas informações e comentários são reservados aos nossos leitores, às pessoas que compram o jornal. É por isso que não participamos de programas de debate com outros jornalistas ou comentadores para discutir determinado tema ou assunto. Não o fazemos porque consideramos que isso não é benéfico, não nos traz nada de palpável. Somos muito discretos.
No que diz respeito aos artigos que não são assinados, isso tem a ver com o facto de serem artigos nos quais trabalharam várias pessoas e serem relativamente curtos. No entanto, também temos muitos artigos assinados. O anonimato não é literal. Mas é verdade que permanecemos muito discretos. Não alimentamos nem defendemos o vedetismo, nem seguimos a onda dos jornalistas-vedeta. É algo que não faz parte da cultura do nosso jornal.
O "Le Canard Enchaîné" alia a investigação jornalística à sátira, através de uma linguagem humorística muito própria. Referem-se a muitas das personagens políticas através de alcunhas que criaram para elas. É isso que vos diferencia de um jornal como o "Charlie Hedbo"?
O "Charlie Hedbo" também é um jornal satírico, mas não fazem investigação. Nós fazemos as duas coisas: investigações jornalísticas sérias, mas que tentamos sempre dar a conhecer aos nossos leitores sem nos levarmos muito a sério. Ou seja, tentamos escrever essas histórias de forma engraçada. Maurice Maréchal, que fundou o "Canard" durante a I Guerra Mundial, em 1916, um dos anos mais mortíferos da guerra, tinha uma “fórmula” para dar as notícias. Dizia: "Quando vejo uma coisa que me escandaliza, a minha primeira reacção é indignar-me. Mas a minha segunda reacção é rir-me. É mais difícil rir, mas é mais eficaz." Nós tentamos seguir esta máxima. Tentamos falar de coisas muito sérias, de contar histórias, de fazer investigação, de escrever editoriais, de comentar, de opinar, mas fazê-lo sempre sem nos levarmos demasiado a sério. Tentando sempre rir das coisas.
Em Portugal, os jornalistas passaram os últimos dias em congresso, a discutir o futuro do jornalismo e dos jornais. O "Le Canard Enchaîné" tem uma receita que funciona, vende, dá lucro. Como resolver os problemas que muitos jornais enfrentam?
No "Canard" não damos lições a ninguém. Temos perfeita noção do luxo que é podermos fazer o que fazemos, da forma como o fazemos, nos dias que correm, e sem termos de enfrentar problemas de vendas ou de falta de rendimentos publicitários. Não queremos nem podemos estar em posição de dar lições a quem quer que seja. Mas, se tivéssemos apenas um conselho a deixar, seria este: a independência de um jornal começa na caixa registadora. O quero dizer com isto é que devemos tentar ser o mais independentes possíveis em termos financeiros. A independência financeira dá uma força que agrada aos leitores. Porque, quando todos os jornais vendem espaços publicitários aos mesmos anunciantes, às mesmas empresas, e dão todos as mesmas notícias, o mesmo tipo de informação e no mesmo tom, é fácil de perceber que, ao fim de um tempo, deixam de fazer falta ao leitor.
Os jornais são de tal forma parecidos que se estão a tornar irrelevantes?
“Voilá”! É preciso preservar a alma do jornal e a sua especificidade. Devemos fazer o que sabemos fazer bem e ser um jornal particular, diferente. Não devemos tentar ser parecidos com todos os outros. Devemos é ser diferentes uns dos outros. E tentar ser o mais independentes possível, em termos financeiros. Se temos um conselho muito vago a deixar, é este. Mas, repito: nunca nos colocamos em posição de quem dá lições. Isso é algo que também não faz parte da nossa cultura enquanto jornal.
Agora tomemos o caso paradigmático do Correio da Manhã. Na edição de hoje aparece esta página:
As notícias acerca deste caso da "máfia do sangue" tem sido escritas na perspectiva da culpabilidade assente dos suspeitos e não deveria ser assim. Não é necessário tomar partido neste assunto assumindo logo que os suspeitos são corruptos, praticaram os factos e apresentando sempre a versão de uma investigação criminal que ainda não terminou.
Seria preferível, a meu ver, apresentar os factos tais como se vão descobrindo, sem juízos de valor implícitos a não ser os que decorrem dos próprios factos.
Gostaria mais de ler um jornal que apresenta os factos de modo neutro e sem ocasionar desmentidos como o que agora se pode ler no jornal, uma vez que há tempo para que tais circunstâncias se esclareçam.
Andar sempre à cabeça das notícias sobre estes assuntos com a mentalidade inquisitória conduz ao erro e leva sempre a um jornalismo fraco e tendencioso, mesmo que tal agrade a muitos leitores e possa incentivar vendas.
O jornalismo do Correio da Manhã, neste aspecto dos casos mediáticos com incidência criminal tem sido muito ligeiro, com incorrecções frequentes e denota pouco cuidado e atenção a certos aspectos que deveriam merecer essa atenção, mormente os que contendem com a honra das pessoas.
A jornalista Tânia Laranjo faz um bom trabalho que é por vezes completamente desmerecido por essa atitude persecutória implícita no modo como relata os factos e escolhe as frases. Bom jornalismo não é isso, parece-me. Seja neste caso, seja no do Sócrates.
A sobriedade inteligente nos relatos não significa que omitam os aspectos que podem ser duvidosos e suscitem reservas devendo o jornalismo dar conta disso mesmo para as pessoas saberem e ficarem informadas.
Não vale tudo no jornalismo. Tal como o Le Canard Enchainé ensina...
Apesar de não ter escapado à queda nas vendas, o jornal, que nunca teve publicidade, dá lucro – cerca de três milhões de euros, em 2015.
A Renascença falou com Érik Empatz, editor-chefe deste jornal que faz sátira, mas também jornalismo de investigação, para tentar perceber o segredo para este "pato acorrentado” manter a independência de grandes grupos económicos.
Qual é o segredo do vosso sucesso?
Para começar, a razão do nosso sucesso, é que desde o início, que o "Canard" é um jornal completamente independente. Isto quer dizer que o nosso jornal nunca dependeu de um grupo financeiro e sempre foi independente da publicidade. Ou seja, desde o início que nunca tivemos publicidade. Não dependemos dos grandes grupos económicos, como foi acontecendo com outros jornais franceses que foram comprados. Penso que é isso que nos torna fortes.
Actualmente, as pressões exercidas sobre os meios de comunicação, e sobre os jornais em particular, não são tanto pressões dos Governos a dizer "não devem escrever isto ou aquilo". Existem muitas pressões económicas, pressão dos anunciantes, que, de uma forma ou de outra, dizem: "Se escreverem mal da nossa empresa, retiramos a publicidade do vosso jornal". Como se sabe, neste momento, os jornais são muito dependentes das receitas publicitárias e isso cerceia-lhes a liberdade. Mas nós temos liberdade plena e, sem dúvida, que essa é a razão do nosso sucesso.
O custo de produção do vosso jornal é baixo...
Sim, custa 1,20 euros. E não aumentámos o preço do jornal desde 1993.
Há 24 anos que não aumentam o preço do jornal?
Sim. Consideramos que o jornal vende bem e que os nossos leitores devem beneficiar das nossas vendas. Mas, por outro lado, não oferecemos nada.
Refere-se ao facto de "Le Canard Enchaîné" ter uma presença muito limitada na internet e nas redes sociais e não disponibilizar conteúdos digitais de forma gratuita?
Não cometemos um erro que muitos jornais em França – e noutros países – cometeram, quer sejam diários ou semanários. A maioria precipitou-se e foi a correr para a internet. Passaram a disponibilizar os artigos de forma gratuita. E, depois, graças a esta "fórmula gratuita", perderam uma boa parte dos seus leitores.
Muitos jornais perderam metade dos leitores e, agora, é muito difícil regressar a uma fórmula em que o leitor tenha que pagar para ler. Nós não fizemos isso. Para já, a nossa presença na internet é extremamente minimalista. O nosso site apenas disponibiliza os títulos do jornal às quartas-feiras. Por enquanto, a internet não está no topo das nossas prioridades porque as nossas vendas em papel ainda são muito boas. Vendemos 400 mil exemplares por semana. E vamos continuar a vender o jornal em papel, enquanto isso for possível. Se, um dia, passarmos apenas a estar disponíveis na internet, o que deverá acontecer no futuro – provavelmente, num futuro muito próximo –, isso será também porque em França há uma diminuição muito acentuada dos pontos de venda. Existem cada vez menos quiosques, desapareceram muitos nos últimos anos. E isso é muito preocupante. Mas, por enquanto, as nossas vendas são boas. O jornal dá lucro e o problema ainda se não coloca.
No dia em que passarem definitivamente à versão digital, será através de um modelo pago?
Sim. Passaremos directamente a um modelo pago, de certeza.
São um jornal satírico que também faz jornalismo de investigação. Já revelaram muitos escândalos e dão muitas notícias. Como conseguem unir estas duas facetas e, em simultâneo, serem um jornal com tanta credibilidade?
Para responder a essa pergunta, tenho que voltar à questão da independência. Quando investigamos negócios, por exemplo, que envolvem bancos ou somas de dinheiro importantes, não estamos acorrentados. Temos uma certa independência que nos permite investigar a fundo esses casos. Por outro lado, somos muito rigorosos em relação às informações. Como temos uma tiragem muito significativa e somos credíveis, quando fazemos perguntas, as pessoas têm tendência a responder-nos.
Não têm dificuldade em investigar?
Se telefonarmos a um ministro, por exemplo, ele responde. Sempre que ligamos a alguém importante, se o "Canard" ligar a perguntar, é atendido e temos respostas. Isto também acontece porque temos uma enorme preocupação com a verificação exaustiva de todas as notícias que damos. Não publicamos informações se não tivermos provas suficientes que as sustentem. Somos muitas vezes ultrapassados pela concorrência porque consideramos que não tínhamos provas suficientes para publicar determinada história. Mas é o facto de não abdicarmos desse rigor, em detrimento da velocidade de publicação, que, no fim das contas, nos garante a reputação de sermos exactos e precisos nas investigações que levamos a cabo.
Têm uma regra que exige um certo anonimato aos vossos jornalistas. É muito raro ver um jornalista do "Le Canard Enchainê" num canal de televisão a comentar uma investigação, um escândalo que tenham revelado, por exemplo...
No último ano, tivemos alguma presença na televisão, fomos a alguns programas, a propósito da celebração dos 100 anos do jornal. Fizemos um livro de comemoração do centenário do "Canard" e também fomos para o promover, tem vendido bem. Mas, fora deste quadro, a regra do nosso jornal defende que as nossas informações e comentários são reservados aos nossos leitores, às pessoas que compram o jornal. É por isso que não participamos de programas de debate com outros jornalistas ou comentadores para discutir determinado tema ou assunto. Não o fazemos porque consideramos que isso não é benéfico, não nos traz nada de palpável. Somos muito discretos.
No que diz respeito aos artigos que não são assinados, isso tem a ver com o facto de serem artigos nos quais trabalharam várias pessoas e serem relativamente curtos. No entanto, também temos muitos artigos assinados. O anonimato não é literal. Mas é verdade que permanecemos muito discretos. Não alimentamos nem defendemos o vedetismo, nem seguimos a onda dos jornalistas-vedeta. É algo que não faz parte da cultura do nosso jornal.
O "Le Canard Enchaîné" alia a investigação jornalística à sátira, através de uma linguagem humorística muito própria. Referem-se a muitas das personagens políticas através de alcunhas que criaram para elas. É isso que vos diferencia de um jornal como o "Charlie Hedbo"?
O "Charlie Hedbo" também é um jornal satírico, mas não fazem investigação. Nós fazemos as duas coisas: investigações jornalísticas sérias, mas que tentamos sempre dar a conhecer aos nossos leitores sem nos levarmos muito a sério. Ou seja, tentamos escrever essas histórias de forma engraçada. Maurice Maréchal, que fundou o "Canard" durante a I Guerra Mundial, em 1916, um dos anos mais mortíferos da guerra, tinha uma “fórmula” para dar as notícias. Dizia: "Quando vejo uma coisa que me escandaliza, a minha primeira reacção é indignar-me. Mas a minha segunda reacção é rir-me. É mais difícil rir, mas é mais eficaz." Nós tentamos seguir esta máxima. Tentamos falar de coisas muito sérias, de contar histórias, de fazer investigação, de escrever editoriais, de comentar, de opinar, mas fazê-lo sempre sem nos levarmos demasiado a sério. Tentando sempre rir das coisas.
Em Portugal, os jornalistas passaram os últimos dias em congresso, a discutir o futuro do jornalismo e dos jornais. O "Le Canard Enchaîné" tem uma receita que funciona, vende, dá lucro. Como resolver os problemas que muitos jornais enfrentam?
No "Canard" não damos lições a ninguém. Temos perfeita noção do luxo que é podermos fazer o que fazemos, da forma como o fazemos, nos dias que correm, e sem termos de enfrentar problemas de vendas ou de falta de rendimentos publicitários. Não queremos nem podemos estar em posição de dar lições a quem quer que seja. Mas, se tivéssemos apenas um conselho a deixar, seria este: a independência de um jornal começa na caixa registadora. O quero dizer com isto é que devemos tentar ser o mais independentes possíveis em termos financeiros. A independência financeira dá uma força que agrada aos leitores. Porque, quando todos os jornais vendem espaços publicitários aos mesmos anunciantes, às mesmas empresas, e dão todos as mesmas notícias, o mesmo tipo de informação e no mesmo tom, é fácil de perceber que, ao fim de um tempo, deixam de fazer falta ao leitor.
Os jornais são de tal forma parecidos que se estão a tornar irrelevantes?
“Voilá”! É preciso preservar a alma do jornal e a sua especificidade. Devemos fazer o que sabemos fazer bem e ser um jornal particular, diferente. Não devemos tentar ser parecidos com todos os outros. Devemos é ser diferentes uns dos outros. E tentar ser o mais independentes possível, em termos financeiros. Se temos um conselho muito vago a deixar, é este. Mas, repito: nunca nos colocamos em posição de quem dá lições. Isso é algo que também não faz parte da nossa cultura enquanto jornal.
Agora tomemos o caso paradigmático do Correio da Manhã. Na edição de hoje aparece esta página:
As notícias acerca deste caso da "máfia do sangue" tem sido escritas na perspectiva da culpabilidade assente dos suspeitos e não deveria ser assim. Não é necessário tomar partido neste assunto assumindo logo que os suspeitos são corruptos, praticaram os factos e apresentando sempre a versão de uma investigação criminal que ainda não terminou.
Seria preferível, a meu ver, apresentar os factos tais como se vão descobrindo, sem juízos de valor implícitos a não ser os que decorrem dos próprios factos.
Gostaria mais de ler um jornal que apresenta os factos de modo neutro e sem ocasionar desmentidos como o que agora se pode ler no jornal, uma vez que há tempo para que tais circunstâncias se esclareçam.
Andar sempre à cabeça das notícias sobre estes assuntos com a mentalidade inquisitória conduz ao erro e leva sempre a um jornalismo fraco e tendencioso, mesmo que tal agrade a muitos leitores e possa incentivar vendas.
O jornalismo do Correio da Manhã, neste aspecto dos casos mediáticos com incidência criminal tem sido muito ligeiro, com incorrecções frequentes e denota pouco cuidado e atenção a certos aspectos que deveriam merecer essa atenção, mormente os que contendem com a honra das pessoas.
A jornalista Tânia Laranjo faz um bom trabalho que é por vezes completamente desmerecido por essa atitude persecutória implícita no modo como relata os factos e escolhe as frases. Bom jornalismo não é isso, parece-me. Seja neste caso, seja no do Sócrates.
A sobriedade inteligente nos relatos não significa que omitam os aspectos que podem ser duvidosos e suscitem reservas devendo o jornalismo dar conta disso mesmo para as pessoas saberem e ficarem informadas.
Não vale tudo no jornalismo. Tal como o Le Canard Enchainé ensina...
A Extrema-Esquerda comunista continua por cá e o Público é a sua guarida
No Público de hoje mostra-se que o director Dinis que sucedeu à artsy Bárbara é carta do mesmo baralho e até do mesmo naipe.
Três artigos a propagandear as ideias fósseis da esquerda comunista e da extrema-esquerda. Nem em 1975 havia tamanho desplante em fazer passar como democrático e plenamente integrado na sociedade burguesa quem nunca aceitou os respectivos princípios ideológicos.
A prova está aqui mas não há gente que queira saber ler. São mais analfabetos que os da percentagem mirífica que existia antes do 25 de Abril e era sempre apontada como sintoma de subdesenvolvimento.
Quem dá guarida a estes trânsfugas dos bons regimes comunistas é cúmplice dos seus desideratos. Há 40 anos que é assim.
Neste caso, o patrão Belmiro ou quem o substituiu resfolega de complacência porque deste modo tem "paz social" na empresa. É um pizzo que paga a esta mafia fossilizada em Portugal.
Aqui há dias o mesmo Louçã, agora estrela televisiva como nunca antes tinha sido, até disse que a patarata da Mortágua, filha do pirata, ainda viria a ser um dia ministra das Finanças! Só se for num dos episódios do "Governo Sombra"...
Três artigos a propagandear as ideias fósseis da esquerda comunista e da extrema-esquerda. Nem em 1975 havia tamanho desplante em fazer passar como democrático e plenamente integrado na sociedade burguesa quem nunca aceitou os respectivos princípios ideológicos.
A prova está aqui mas não há gente que queira saber ler. São mais analfabetos que os da percentagem mirífica que existia antes do 25 de Abril e era sempre apontada como sintoma de subdesenvolvimento.
Quem dá guarida a estes trânsfugas dos bons regimes comunistas é cúmplice dos seus desideratos. Há 40 anos que é assim.
Neste caso, o patrão Belmiro ou quem o substituiu resfolega de complacência porque deste modo tem "paz social" na empresa. É um pizzo que paga a esta mafia fossilizada em Portugal.
Aqui há dias o mesmo Louçã, agora estrela televisiva como nunca antes tinha sido, até disse que a patarata da Mortágua, filha do pirata, ainda viria a ser um dia ministra das Finanças! Só se for num dos episódios do "Governo Sombra"...
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