Tudo começou numa "dança de cadeiras"...como contava o jornal O Diabo em Janeiro de 2006:
Evidentemente, havia quem soubesse muito bem que festa estava para começar...
E para prevenir estragos de maior, houve até uma "Unidade de Missão" encabeçada pelos ingénuos do costume, como Rui Pereira que agora comenta os resultados da festa, na CMTV.
Havia quem avisasse contra o que aí vinha...Público 10 de Abril de 2006:
Entretanto a festa alargou-se a uns tantos...que agora são muito falados, dez anos depois...como relata o extinto 24H de um inenarrável jornalista Tadeu, em 28.9.2006:
E houve quem preparasse o caminho para não se estragar a "festa"...como era o caso deste desconhecido juiz do STJ, no Público de 6 de Agosto de 2006.
Em 10 de Outubro de 2006 deixou de ser um juiz desconhecido...e assegurava que iria exercer os "poderes" na mais alta instância do titular exclusivo da acção penal. E como os exerceu!
Entretanto, havia também os que queriam estragar a festa e foram desterrados para reformas douradas...como relata o Público de Novembro de 2006:
Mas a festa estava muito bem controlada e orientada, sendo este festeiro um dos maiores desta cantareira:
Ou este que assegurava que tudo estava dentro da normalidade e que a festa corria muito bem, sem percalços de maior ( Sol de 21.7.2007), tendo trocado de partido para tal suceder.
Como é que isto foi possível? Bastou que poucos soubessem da verdadeira natureza da festa e para tal isto serve de amostra explicativa ( Público, 29 de Março de 2006):
Isto foi só em 2006...nos anos seguintes a festa continuou e até se tornou mais garrida. Como se verá a seguir...
sexta-feira, junho 17, 2016
quinta-feira, junho 16, 2016
Pescanova e o jornalismo CM: o bom que saiu mal
O Correio da Manhã tem hoje um título manhoso que desmerece o de ontem: "peixe espanhol no buraco da caixa". E em subtítulo, "unidade de produção de pregados já originou 23,8 milhões de prejuízo à CGD".
Estas noticias, sendo verdadeiras, deveriam contextualizar melhor o que se passou com este assunto. No interior, em duas páginas, dá-se conta de que a "Acuinova, unidade de aquicultura da Pesacanova em Morra: em conjunto com a Pescanova Portugal é responsável por uma exposição de 36,1 milhões de euros e uma imparidade registada de 23,8 milhões".
Conta-se depois que essa unidade de criação de rodovalho em aquicultura, a maior do mundo, teve problemas em 2013 por deficiências técnicas na concepção do projecto de captação de água do mar. Não sei se foi assim ou não mas leio que este projecto foi apadrinhado pelo então primeiro-ministro José Sócrates que o considerou um dos projectos PIN, supostamente de elevado potencial de interesse nacional. Também não sei se assim foi e quem deu essa indicação ao governo da altura.
Relativamente ao dinheiro em causa, alguns milhões, serão uma gota de água salgada no mar das dívidas da Pescanova que no início de 2013 entrou em processo de insolvência, o qual foi estancado em 2015 com um acordo de credores. Meses antes, o principal responsável e accionista da empresa galega, o snr Fernandes Sousa vendeu metade das acções, sem dizer nada a ninguém e acabou condenado em 2014 devido ao colapso da empresa. Uma justiça célere, em Espanha e um exemplo do que por aqui não temos...
Os negócios da Pescanova em todo o mundo, ainda em 2011 eram considerados rentáveis, com perspectivas de futuro radioso...e portanto o que o CM faz hoje é uma notícia com um conteúdo manhoso porque associa a dívida da CGD a negócios manhosos do tempo de José Sócrates, sem haver fundamento claro.
Este tipo de jornalismo acaba por desacreditar o bom que foi a notícia de ontem. Saiu mal, hoje.
Estas noticias, sendo verdadeiras, deveriam contextualizar melhor o que se passou com este assunto. No interior, em duas páginas, dá-se conta de que a "Acuinova, unidade de aquicultura da Pesacanova em Morra: em conjunto com a Pescanova Portugal é responsável por uma exposição de 36,1 milhões de euros e uma imparidade registada de 23,8 milhões".
Conta-se depois que essa unidade de criação de rodovalho em aquicultura, a maior do mundo, teve problemas em 2013 por deficiências técnicas na concepção do projecto de captação de água do mar. Não sei se foi assim ou não mas leio que este projecto foi apadrinhado pelo então primeiro-ministro José Sócrates que o considerou um dos projectos PIN, supostamente de elevado potencial de interesse nacional. Também não sei se assim foi e quem deu essa indicação ao governo da altura.
Relativamente ao dinheiro em causa, alguns milhões, serão uma gota de água salgada no mar das dívidas da Pescanova que no início de 2013 entrou em processo de insolvência, o qual foi estancado em 2015 com um acordo de credores. Meses antes, o principal responsável e accionista da empresa galega, o snr Fernandes Sousa vendeu metade das acções, sem dizer nada a ninguém e acabou condenado em 2014 devido ao colapso da empresa. Uma justiça célere, em Espanha e um exemplo do que por aqui não temos...
Os negócios da Pescanova em todo o mundo, ainda em 2011 eram considerados rentáveis, com perspectivas de futuro radioso...e portanto o que o CM faz hoje é uma notícia com um conteúdo manhoso porque associa a dívida da CGD a negócios manhosos do tempo de José Sócrates, sem haver fundamento claro.
Este tipo de jornalismo acaba por desacreditar o bom que foi a notícia de ontem. Saiu mal, hoje.
terça-feira, junho 14, 2016
Um crime público na primeira página do Correio da Manhã?
Esta notícia no Correio da Manhã de hoje é a notícia de um crime, tout court. O crime é de índole económica e o MºPº tem obrigação estrita de proceder a um Inquérito através desta notícia, pelo menos e se já o não fez por outras notícias que motivaram que se falasse publicamente na instauração de um inquérito parlamentar que tem outra natureza. O PCP, o PS e o BE não querem sequer ouvir falar no assunto, o que é altamente suspeito e revelador do duplo critério que usam para estas coisas. O PSD e o CDS também passam bem sem tal incómodo porque lá tiveram no "board" as suas peças-chave, como foi o caso de Faria de Oliveira e Celeste Cardona, por exemplo. Tal sucedeu no tempo final que precedeu o desastre nacional com José Sócrates e a nomeação de Armando Vara, então licenciado em Relações Internacionais, de fresco, pela Independente e Santos Ferreira, um dos melhores alunos de Direito do curso de Marcelo Rebelo de Sousa e outros. A CGD, aliás, foi o retiro preferido de ex-ministros e secretários de Estado, durante anos a fio. Nada menos do que 23 nomeações de tão excelsas personagens que fizeram a figura que agora se vê e que iremos todos pagar, mais uma vez.Eles, estão reformadinhos com milhares e milhares de euros por mês. Reformas douradas e ninguém os incomodará nas suas idas ao Guincho dos restaurantes ou ao estrangeiro das compras.
Porém, o verdadeiro forrobodó e descalabro de contas em empréstimos com garantias para inglês ver ou nem isso, ocorreu no consulado daquela dupla fantástica, nomeada pelo ministro das Finanças de Sócrates, Teixeira dos Santos que agora fala na TV ao lado de outros economistas. Como dizia outro fantástico, o Jorge Coelho da Quadratura, antes de ir para a Mota-Engil, " a memória das pessoas é muito curta"...
A notícia do CM de hoje limita-se a interpretar os resultados de uma auditoria de 2015 às contas do banco público, agora com um buraco do tamanho de vários BPN´s mas que agora ninguém parece querer considerar um caso de polícia, ao contrário do que diziam daquele...e do desgraçado O. Costa, bode expiatório.
Os maiores créditos concedidos, pelos vistos foram-no sem grandes considerações acerca do risco. Se nos lembrarmos do que sucedeu no tempo do comendador da Bacalhôa, Joe "fuck you" Berardo, a propósito do assalto ao BCP, nunca verdadeiramente esclarecido apesar das entrevistas de alguns vencidos nestas andanças nos finais dos anos 2000( Jardim Gonçalves e Belmiro de Azevedo) então temos assunto para várias comissões de inquérito. Mais extensas, interessantes e proveitosas do que todas as que ocorreram neste âmbito bancário. Mais interessante que o BPN, o BPP, o BES ou o BANIF.
Curioso, suspeito e escandaloso são os motivos por que a Esquerda Unida quer esquecer o assunto, tendo como aliados os partidos do centrão.
Assim, todo o espectro político quer esquecer este escândalo e deixar passar impunes estas figuras de proa de uma ópera bufa que se desenrolou diante de todos nós que vimos o que foi, como foi e acabamos comidos com casca e tudo.
A única entidade que resta para dizer que este rei vai nu é o Correio da Manhã. E o PSD do Passos, se calhar, mas não se deve apostar muito nisso...
O articulista Eduardo Dâmaso escreve na última página que estes silêncio é criminoso. E é. Por isso o Ministério Público tem o estrito dever de agir, como nunca agiu nestes casos. É imperativo e já o deveria ter feito: um inquérito criminal para se apurar se houve favorecimento especial a certos clientes que passou pela negligência em se tomarem devidas precauções a propósito de garantias e exigíveis e que a auditoria revela.
No caso Duarte Lima este foi condenado por burlar o BPN de Oliveira Costa, o que continua a parecer-me extraordinário. Assim, entreguem o Inquérito ao Procurador José Pina. Para além de muito competente é implacável nesta matéria.
ADITAMENTO:
Conforme se torna evidente já há quem procure tirar o cavalinho da chuva e tirar dividendos políticos..e este ministro Centeno já tenta inverter a ordem das coisas e atirar as culpas para quem governou depois de 2011.
Onde estava o Centeno quando isto aconteceu? Além do mais, no Banco de Portugal e no Departamento de Estudos Económicos. Estas coisas passaram-lhe ao lado...
No entanto, no Relatório de Contas da CGD de 2010 era claro o papel a desempenhar pela Comissão de Risco que analisava estes assuntos do crédito concedido e a conceder:
"Análise de Risco: – o Grupo CGD tem implantado um sistema de identificação, avaliação e controlo do risco da sua carteira de crédito, que abrange todos os segmentos de clientes e é activo tanto no momento da concessão de crédito como na monitorização do risco ao longo da vida das operações."
Tem tem...não há dúvida que tem. E até aposto que quem lá trabalha na tal comissão de risco ganha salário chorudo que envergonharia qualquer funcionário público de topo.
Quem era quem no tal Gabinete de Risco, nos anos em causa? Os nomes são tantos que só uma auditoria poderá esclarecer...mas os relatórios de contas dos diversos anos podem mostrar alguns...
E como é que recomendavam aos funcionários os comportamentos adequados? Por exemplo, assim, no Código de Conduta:
Corrupção
1. A CGD rejeita activamente todas as formas de corrupção, não devendo os seus Colaboradores envolver -se em situações propiciadoras de actos susceptíveis de associação a este fenómeno.
2. A actividade da CGD está sujeita a rigorosos mecanismos de controlo interno, os quais
incluem normativos internos orientados para a prevenção e combate à corrupção.
Sobre isto, a ver vamos, como diria o cego...
Seja como for, o assunto do crédito mal-parado ou concedido com negligência ao factor risco era tema de denúncia de...Garcia Pereira sobre a «reiterada manutenção da impunidade»» e acusa a actual administração de ter «ocultado» à secretária de Estado do Tesouro (Maria Luís Albuquerque, que tutela a CGD) os vários «indícios de crime» denunciados, bem como várias informações vindas a lume em 2008, num relatório interno.
No documento – enviado à procuradora-geral da República, ao primeiro-ministro, ao ministro das Finanças, à referida secretária de Estado e ao director da Polícia Judiciária -, Garcia Pereira enumera várias situações em que aqueles responsáveis estiveram envolvidos. O documento foi enviado para o DIAP, onde já correm outros inquéritos sobre os factos participados pelos trabalhadores em litígio com a CGD.
A carta de Garcia Pereira foi entregue em mão a Nogueira Leite na véspera de este anunciar a sua saída da administração da CGD, mas o responsável já desmentiu que a sua demissão esteja relacionada com estes casos.
Portanto, processo-crime já temos. Mas não sabemos nada sobre o assunto, pelo que será altura de a PGR se pronunciar. Hoje já é tarde, porque ontem já demorava.
De resto, o banqueiro Fernando Ulrich, em Setembro de 2012, "à margem de uma conferência organizada pela revista Exame, num hotel em Lisboa, o presidente do BPI declarou que "se fosse feita uma auditoria à gestão CGD no tempo dos governos socialistas, nenhum dirigente socialista teria coragem para fazer qualquer pronunciamento sobre a CGD". E mais: "Na opinião de Fernando Ulrich, uma auditoria encontraria uma "actuação que não é própria de um banco do Estado e permitiria demonstrar claramente que não tem havido vantagem nenhuma, para ninguém, em que a CGD pertença ao Estado".
Em 2013 a própria CGD pediu investigação criminal a alguns negócios do grupo ( os que abrangiam a Fundimo, por exemplo...)
Portanto, este assunto deveria ser tratado pelos jornais de um modo mais consentâneo com a função do jornalismo.
Para já quem o faz é o Correio da Manhã e suspeito que mais nenhum o fará tão cedo. Porquê? A Esquerda unida não está nada interessada...
segunda-feira, junho 13, 2016
Os capitalistas portugueses e a esquerda nacional
A recente discussão sobre a CGD e o buraco financeiro de vários milhar de milhões de euros, cavado por sucessivas levas de gestores pagos em centenas de milhar de euros por ano, suscitou a hipótese de um inquérito parlamentar, à semelhança do ocorrido com outros bancos, como o BPN, o BES e o BANIF. Pelos vistos a esquerda unitária que governa não quer tal inquérito e as razões são muito suspeitas.
A saga dos bancos nacionais, bem como dos seus donos antes e depois de 25 de Abril de 1974 já terá sido contada em livro ou em artigos avulsos de jornal.
Porém, com estes recortes percebe-se melhor, por exemplo, o que sucedeu com um dos maiores capitães da nossa indústria e que ao morrer deixou 500 milhões de euros, seus, para uma Fundação com o seu nome: Champalimaud.
Quando se deu o golpe de 25 de Abril de 1974 Champalimaud bateu palmas porque andava de candeias às avessas com o regime. O Diário de Lisboa de 30 de Abril dá conta de que se congratulou com o golpe e enviou felicitações a Spínola e a "todos os que estiveram na base da gloriosa arrancada"...
Durou pouco tempo a perceber que foi um logro. Em Outubro de 1974 já se discutia abertamente a natureza do regime económico ( e político) e Champalimaud não tinha lugar no mesmo...
Um tal João Martins Pereira que tinha sido empregado na Siderurgia Nacional e desafiava publicamente a natureza do nosso capitalismo, defendendo a proposta marxista de nacionalização e colectivização. O comunismo, puro e simples.
A expectativa de Champalimaud e dos demais empresários capitalistas portugueses durou poucos meses. Ou semanas. O tempo para se porem ao fresco e tentarem guardar algo do muito que ainda tinham. As medidas económicas de Vasco Gonçalves acabaram por liquidar toda a esperança numa confiança como factor essencial da economia de qualquer país. As greves, o aumento do salário mínimo, a pressão para as nacionalizações e a diabolização dos empresários acabaram por nos conduzir a 11 de Março de 1975 e às nacionalizações subsequentes de uma parte significativa da economia. Em 14 de Abril de 1975, com 57 anos, Champalimaud ficou-se pelo Brasil. E como ele, outros o fizeram, descapitalizando significativamente o que ainda havia de capitalismo em Portugal.
A partir daí foi sempre a descer na nossa capacidade de progresso económico significativo. Até hoje.
Fundamentalmente, a ideia era esta, numa imagem de João Abel Manta, por ocasião do 1º de Maio de 1975 e que vale mil palavras:
Em Junho de 1976 os bens de Champalimaud foram congelados em Portugal. Em Dezembro desse ano, Mário Soares, primeiro-ministro foi ao Brasil e chamou a Champalimaud e Espírito Santo "exploradores do povo".
Champalimaud respondeu no Jornal do Brasil, em 30.12.1976 argumentando que afinal o maior explorador fora Mário Soares com as suas políticas que "em tempo extraordinariamente curto" levou o país à condição mendicante, com a delapidação e o abandalhamento dos recursos públicos e privados. Como lógica era impecável porque nessa altura Portugal estava em bancarrota.
Para disfarçar o descalabro apareciam artigos como este, no O Jornal de 6.2.1976: a culpa era...dos capitalistas que fugiram. Incompetentes e protegidos pelo regime anterior.
Não obstante havia quem perguntasse se afinal as nacionalizações valeriam a pena:
Durante dez anos andamos a brincar às empresas públicas e com o aplauso vibrante do PS ( além de toda a Esquerda unida do PCP aos doentes infantis do comunismo, com os vários mr. ruis). Em Outubro de 1975 o PS queria mesmo a "irreversibilidade" dessas nacionalizações, tal como ficou na Constituição de 1976 ( artº 83º- "todas as nacionalizações são conquistas irreversíveis das classes trabalhadoras"...).
O que se passou a seguir é conhecido e Champalimaud tinha dito o que era verdade: bancarrota atrás de bancarrota. Empobrecimento progressivo, atraso significativo em relação aos demais países europeus, miséria desnecessária. Quanto às indústrias nacionalizadas, dez anos depois era isto:
Em 1988 e 1989 o Expresso lembrava-se dos "foragidos" escorraçados pelo regime da Esquerda Unida e lembrava assim o que sucedera:
Fatalmente este estado de coisas teria que se alterar e Champalimaud não tinha ainda desistido, apesar da idade e das perseguições desta esquerda de sempre, de fazer alguma coisa em Portugal. E o que fez conta-se em oito páginas da biografia de 2011, escrita por Isabel Canha e Filipe S. Fernandes que explicam o essencial do que ocorreu depois:
Como se pode ler, não contentes com o que fizeram ao país, ao escorraçarem os capitalistas que tinham dinheiro, ideias e projectos, com provas dadas nas décadas anteriores, a Esquerda Unida ainda procurou impedir os mesmos de retomarem o controlo de algumas empresas que deixaram, sem indemnização alguma. O processo de atribuição dessas indemnizações foi alvo de inquérito parlamentar em 1992, promovido pela Esquerda Unida do PCP ( oito deputados requereram) e PS e ainda alvo de inquérito criminal na PGR...para apurar se tinha existido prejuízo para o Estado. Manuela Ferreira Leite, nessa altura, afiançou que não. Se fosse hoje, não é certo que o tivesse dito...
Comparando esta situação com o que se passa na CGD é caso para perguntar a que lógica obedece o PCP e a Esquerda Unida: à das conveniências políticas em que a coerência é um mero pormenor.
Os obreiros das bancarrotas estão sempre de serviço porque acreditam no trabalho de formiga para destruir um país. Fizeram-no há quarenta anos e estão apostados em voltar a fazê-lo.
É esse o seu verdadeiro patriotismo.
A saga dos bancos nacionais, bem como dos seus donos antes e depois de 25 de Abril de 1974 já terá sido contada em livro ou em artigos avulsos de jornal.
Porém, com estes recortes percebe-se melhor, por exemplo, o que sucedeu com um dos maiores capitães da nossa indústria e que ao morrer deixou 500 milhões de euros, seus, para uma Fundação com o seu nome: Champalimaud.
Quando se deu o golpe de 25 de Abril de 1974 Champalimaud bateu palmas porque andava de candeias às avessas com o regime. O Diário de Lisboa de 30 de Abril dá conta de que se congratulou com o golpe e enviou felicitações a Spínola e a "todos os que estiveram na base da gloriosa arrancada"...
Durou pouco tempo a perceber que foi um logro. Em Outubro de 1974 já se discutia abertamente a natureza do regime económico ( e político) e Champalimaud não tinha lugar no mesmo...
Um tal João Martins Pereira que tinha sido empregado na Siderurgia Nacional e desafiava publicamente a natureza do nosso capitalismo, defendendo a proposta marxista de nacionalização e colectivização. O comunismo, puro e simples.
A expectativa de Champalimaud e dos demais empresários capitalistas portugueses durou poucos meses. Ou semanas. O tempo para se porem ao fresco e tentarem guardar algo do muito que ainda tinham. As medidas económicas de Vasco Gonçalves acabaram por liquidar toda a esperança numa confiança como factor essencial da economia de qualquer país. As greves, o aumento do salário mínimo, a pressão para as nacionalizações e a diabolização dos empresários acabaram por nos conduzir a 11 de Março de 1975 e às nacionalizações subsequentes de uma parte significativa da economia. Em 14 de Abril de 1975, com 57 anos, Champalimaud ficou-se pelo Brasil. E como ele, outros o fizeram, descapitalizando significativamente o que ainda havia de capitalismo em Portugal.
A partir daí foi sempre a descer na nossa capacidade de progresso económico significativo. Até hoje.
Fundamentalmente, a ideia era esta, numa imagem de João Abel Manta, por ocasião do 1º de Maio de 1975 e que vale mil palavras:
Em Junho de 1976 os bens de Champalimaud foram congelados em Portugal. Em Dezembro desse ano, Mário Soares, primeiro-ministro foi ao Brasil e chamou a Champalimaud e Espírito Santo "exploradores do povo".
Champalimaud respondeu no Jornal do Brasil, em 30.12.1976 argumentando que afinal o maior explorador fora Mário Soares com as suas políticas que "em tempo extraordinariamente curto" levou o país à condição mendicante, com a delapidação e o abandalhamento dos recursos públicos e privados. Como lógica era impecável porque nessa altura Portugal estava em bancarrota.
Para disfarçar o descalabro apareciam artigos como este, no O Jornal de 6.2.1976: a culpa era...dos capitalistas que fugiram. Incompetentes e protegidos pelo regime anterior.
Não obstante havia quem perguntasse se afinal as nacionalizações valeriam a pena:
Durante dez anos andamos a brincar às empresas públicas e com o aplauso vibrante do PS ( além de toda a Esquerda unida do PCP aos doentes infantis do comunismo, com os vários mr. ruis). Em Outubro de 1975 o PS queria mesmo a "irreversibilidade" dessas nacionalizações, tal como ficou na Constituição de 1976 ( artº 83º- "todas as nacionalizações são conquistas irreversíveis das classes trabalhadoras"...).
O que se passou a seguir é conhecido e Champalimaud tinha dito o que era verdade: bancarrota atrás de bancarrota. Empobrecimento progressivo, atraso significativo em relação aos demais países europeus, miséria desnecessária. Quanto às indústrias nacionalizadas, dez anos depois era isto:
Em 1988 e 1989 o Expresso lembrava-se dos "foragidos" escorraçados pelo regime da Esquerda Unida e lembrava assim o que sucedera:
Fatalmente este estado de coisas teria que se alterar e Champalimaud não tinha ainda desistido, apesar da idade e das perseguições desta esquerda de sempre, de fazer alguma coisa em Portugal. E o que fez conta-se em oito páginas da biografia de 2011, escrita por Isabel Canha e Filipe S. Fernandes que explicam o essencial do que ocorreu depois:
Como se pode ler, não contentes com o que fizeram ao país, ao escorraçarem os capitalistas que tinham dinheiro, ideias e projectos, com provas dadas nas décadas anteriores, a Esquerda Unida ainda procurou impedir os mesmos de retomarem o controlo de algumas empresas que deixaram, sem indemnização alguma. O processo de atribuição dessas indemnizações foi alvo de inquérito parlamentar em 1992, promovido pela Esquerda Unida do PCP ( oito deputados requereram) e PS e ainda alvo de inquérito criminal na PGR...para apurar se tinha existido prejuízo para o Estado. Manuela Ferreira Leite, nessa altura, afiançou que não. Se fosse hoje, não é certo que o tivesse dito...
Comparando esta situação com o que se passa na CGD é caso para perguntar a que lógica obedece o PCP e a Esquerda Unida: à das conveniências políticas em que a coerência é um mero pormenor.
Os obreiros das bancarrotas estão sempre de serviço porque acreditam no trabalho de formiga para destruir um país. Fizeram-no há quarenta anos e estão apostados em voltar a fazê-lo.
É esse o seu verdadeiro patriotismo.
domingo, junho 12, 2016
Dr. Pacheco, mr. Rui e a social-democracia do PSD
Pacheco Pereira escreveu um artigo na última edição da revista Sábado em que procura desqualificar o actual PSD, retirando-lhe o ideário social-democrata para lhe colar a designação actualmente equivalente ao fassismo: neo-liberal.
Para tal socorre-se do historial do PSD quando este partido ainda estava em embrião na Ala Liberal e após o nascimento do PPD em que o dr. Pacheco ainda era o mr. Rui, pseudónimo da sua semi- -clandestinidade de extrema-esquerda a esconder panfletos debaixo de soleiras de portas esconsas.
Observador ( the real thing) de 3.8.1973:
O artigo de Dr. Pacheco é filisteu e desonesto qb. Tenta explicar o que é a social-democracia citando Sá Carneiro e assimilando-o à doutrina social da Igreja. Ora isto faz tanto sentido quanto o de um Basílio Horta proclamar ( em 2 12 2012 à Visão ) que "um democrata-cristão só pode fazer política no PS".
Não dá conta de que a social-democracia teve origem na esquerda marxista e que em 1914 o partido socialista russo se chamava social-democrata, apostado já em superar o capitalismo por meio da revolução e violência.
Norberto Bobbio ensina bem tal coisa a quem colecciona papéis velhos e não os lê:
Toda a gente informada sabe que o PSD do início em que ainda era PPD se afirmava social-democrata sem complexos, distinguindo-se do PS por afastar o marxismo como matriz inspiradora, mas não só.
Sá Carneiro explicava tal ideário em várias entrevistas, designadamente nesta, ao Globo em 8.11.1974, resumindo claramente que " a linha que defendemos é a das sociais-democracias que surgiram nos fins dos anos 50 abandonando o marxismo e a sistemática apropriação colectiva dos meios de produção":
E para temperar o eventual fervor ideológico dos variados "ruis" de então, dizia também claramente que o PPD era um partido pragmático, acima de tudo. Século Ilustrado, 30 de Novembro de 1974:
Esta linha de pensamento não autoriza, como este dr.Pacheco agora faz a seguir o raciocínio de um mr. Rui, colocando o PPD/PSD ao lado da Esquerda unida, socialista, que agora existe.
Isso era visível na época e continuou pelas décadas fora. Um ano depois, em 18 de Outubro de 1975, após o Verão Quente e o PREC que continuava, Sá Carneiro escrevia no Expresso que a social-democracia era a única forma de socialismo em Portugal que via como possível. Não era o socialismo de então que o PS defendia nem muito menos o que a Esquerda dos mr. Ruis andava a proclamar.
Por causa disso, Álvaro Cunhal, já em 18.3.1977 sabia muito bem o que dizer para demarcar as águas políticas: a esquerda comunista nunca aceitou o PPD como social-democrata.
Na sequência dos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975 Sá Carneiro, ao contrário de Mário Soares, fora claro e conciso na intransigência para com o comunismo dos mr. ruis que pululavam ainda pelos PCP-ml e quejandos e que agora permitem o aparecimento de drs Pachecos. O Jornal de 5.12.1975:
Por essa altura ou dali a alguns meses o PPD, por causa da intransigência social-democrata de Sá Carneiro para com a esquerda rompante dos mr. ruis e seus compagnons de route, defrontava-se com "opções inadiáveis", como esta:
Sabe-se bem o que deu esta opção que não se adiou: um advogado de regime que encarna o espírito...social-democrata? De centro-esquerda? Enfim...
Mas não foi apenas este social-democrata de centro-esquerda que se incompatibilizou politicamente com a social-democracia de Sá Carneiro, naquela época, e que se notabilizou nestas opções. Havia um socialista de gema e clara que também se revelou nas décadas seguintes: Proença de Carvalho, aqui a evidenciar, décadas depois, os méritos de um banqueiro, Rendeiro de apelido que tinha então a gerência de um banco, o BPP, actualmente uma referência do ideário que conduziu o país à bancarrota em 2011 e se prepara novamente para conseguir tal feito, com estas políticas social-democratas que este dr. Pacheco agora defende, depois de defender o cavaquismo liberal em 1991.
Não obstante e para mostrar a desonestidade deste dr. Pacheco que assume muitas vezes a pele do antigo mr.Rui. aqui fica um apanhado de várias declarações de Sá Carneiro que mostra claramente como evoluiu o pensamento político, de 1973 a 1979 e por que o fez, não desvirtuando aquilo em que acreditava. Semanário de 3.12.1983.
Afinal quem é que este dr. Pacheco quer enganar? Papalvos? E porque continuam a dar-lhe credibilidade?
terça-feira, junho 07, 2016
A barragem milagrosa do Tua
Uma colecção de factos:
A barragem da foz do Tua começou a ser construída em 2011, depois de vicissitudes várias dos movimentos ecologistas e do BE que a tal se opunham. O projecto vinha já de 2006 ( tudo governo Sócrates).
No início da construção, a UNESCO identificou um conflito entre a existência da barragem e a classificação do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial mas, em 2012, considerou que o projecto era compatível, desde que uma série de requisitos fossem seguidos. Acontece que não foram, escreveu-se por aqui.
E que conflito existia entre o Estado Português e a UNESCO? No sítio da EDP, interessada no assunto, explicava-se em português quase macarrónico:
A missão de aconselhamento do ICOMOS de Abril de 2011 refere que Estudo de Impacto Ambiental ignorou o impacto da barragem sobre o valor Universal excepcional do Bem ADV. E considerou que o projecto teria um grande efeito sobre uma área alargada do Bem, resultando numa perda física permanente de parte da paisagem cultural. O Estado português informou, entretanto, que já desde os anos 50 se verifica extracção e utilização de água do rio Douro que em muito contribuíram para o valor cénico e patrimonial do Bem. O Estado também sublinha que o Bem é considerado como sendo uma paisagem cultural evolutiva, em que "Vida" e "Evolução" devem continuar a ser assegurados e que este projecto hidroeléctrico não tem impacto específico sobre as vinhas que é um dos atributos basilares do Bem.
Este conflito resolveu-se da seguinte maneira, de acordo com informação daquele sítio:
O Comité decidiu por unanimidade, e sob iniciativa da França, alterar a Proposta de Decisão que previa a recomendação, ao Estado português, da imediata suspensão das obras da barragem. O ritmo dos trabalhos, de acordo com a nova redacção da decisão do organismo internacional responsável pela classificação de Património da Humanidade, vai ajustar-se ao calendário da nova missão técnica, que visita a região do Douro já no dia 31 de Julho, tornando assim compatíveis as novas conclusões da UNESCO e o interesse nacional.
Tudo bem quando acaba bem? Bem...a ideia mágica ( enterrar o edifício da central eléctrica) , do arquitecto Souto Moura parece que convenceu a UNESCO...mas Os Verdes e o GEOTA acharam a decisão chocante. Os autarcas locais aplaudiram entusiasticamente. E o Alto Douro Vinhateiro lá continua Património da Humanidade, como é desde 2001..
E como é que isto sucedeu diplomaticamente? Os franceses, coisa e tal...mas parece que alguma coisa se fez na embaixada de Portugal nesse país.
A UNESCO em 2010 deixara de ter lá o embaixador Carrilho, corrido segundo ele por aquele Sócrates.
Em 2012 o Governo de então acabou com o cargo de embaixador privativo e adjudicou as funções ao embaixador em França. Na altura e até 2013 quando se reformou, era Seixas da Costa o contemplado e é o próprio que esclarece o seu papel inefável no desenrolar dos acontecimentos que deram luz à solução milagreira, lamentando de caminho a extinção do posto privilegiado que um Pacheco Pereira não aceitou:
A barragem da foz do Tua começou a ser construída em 2011, depois de vicissitudes várias dos movimentos ecologistas e do BE que a tal se opunham. O projecto vinha já de 2006 ( tudo governo Sócrates).
No início da construção, a UNESCO identificou um conflito entre a existência da barragem e a classificação do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial mas, em 2012, considerou que o projecto era compatível, desde que uma série de requisitos fossem seguidos. Acontece que não foram, escreveu-se por aqui.
E que conflito existia entre o Estado Português e a UNESCO? No sítio da EDP, interessada no assunto, explicava-se em português quase macarrónico:
A missão de aconselhamento do ICOMOS de Abril de 2011 refere que Estudo de Impacto Ambiental ignorou o impacto da barragem sobre o valor Universal excepcional do Bem ADV. E considerou que o projecto teria um grande efeito sobre uma área alargada do Bem, resultando numa perda física permanente de parte da paisagem cultural. O Estado português informou, entretanto, que já desde os anos 50 se verifica extracção e utilização de água do rio Douro que em muito contribuíram para o valor cénico e patrimonial do Bem. O Estado também sublinha que o Bem é considerado como sendo uma paisagem cultural evolutiva, em que "Vida" e "Evolução" devem continuar a ser assegurados e que este projecto hidroeléctrico não tem impacto específico sobre as vinhas que é um dos atributos basilares do Bem.
Este conflito resolveu-se da seguinte maneira, de acordo com informação daquele sítio:
O Comité decidiu por unanimidade, e sob iniciativa da França, alterar a Proposta de Decisão que previa a recomendação, ao Estado português, da imediata suspensão das obras da barragem. O ritmo dos trabalhos, de acordo com a nova redacção da decisão do organismo internacional responsável pela classificação de Património da Humanidade, vai ajustar-se ao calendário da nova missão técnica, que visita a região do Douro já no dia 31 de Julho, tornando assim compatíveis as novas conclusões da UNESCO e o interesse nacional.
Tudo bem quando acaba bem? Bem...a ideia mágica ( enterrar o edifício da central eléctrica) , do arquitecto Souto Moura parece que convenceu a UNESCO...mas Os Verdes e o GEOTA acharam a decisão chocante. Os autarcas locais aplaudiram entusiasticamente. E o Alto Douro Vinhateiro lá continua Património da Humanidade, como é desde 2001..
E como é que isto sucedeu diplomaticamente? Os franceses, coisa e tal...mas parece que alguma coisa se fez na embaixada de Portugal nesse país.
A UNESCO em 2010 deixara de ter lá o embaixador Carrilho, corrido segundo ele por aquele Sócrates.
Em 2012 o Governo de então acabou com o cargo de embaixador privativo e adjudicou as funções ao embaixador em França. Na altura e até 2013 quando se reformou, era Seixas da Costa o contemplado e é o próprio que esclarece o seu papel inefável no desenrolar dos acontecimentos que deram luz à solução milagreira, lamentando de caminho a extinção do posto privilegiado que um Pacheco Pereira não aceitou:
Em 2012, o Governo decidiu que a nossa
missão junto da UNESCO deixaria de ter um embaixador dedicado
exclusivamente à organização, como sempre aconteceu, e que o lugar
passaria a ser exercido, cumulativamente, pelo embaixador em França.
Várias
vozes se ouviram contra esta decisão, demonstrando a insensatez da
mesma, num tempo em que o país comemorava ainda a elevação do fado a
"património imaterial" da UNESCO, quando aí levávamos a cabo uma
delicada negociação para a compatibilização da construção da Barragem de
Foz Tua com o estatuto do Alto Douro Vinhateiro como "património
material", além de outros dossiês complexos.
Seixas da Costa ainda se referia ao facto de o ministro dos Negócios Estrangeiros que extinguiu o posto ( Paulo Portas) ser ainda membro do governo, na posição de vice-primeiro ministro quando em Junho de 2015 se decidiu repristinar o lugar de embaixador na tal UNESCO.
Que destino tiveram estes personagens exelentíssimos do nosso panorama político, sabendo que a barragem do TUA é obra de vulto em que avulta uma Mota-Engil?
Seixas da Costa é consultor "estratégico" da firma desde que se reformou em Março de 2013 e agora até parece que tem mais tempo porque acumula cargos na Fundação Gulbenkian, Jerónimo Martins e agora na EDP-Renováveis. Escreve por aí, tem um blog, vai à Universidade de Coimbra fazer uma perninha quase aos setenta anos. Valente!
P.Portas é agora administrador da mesmíssima Mota-Engil.
Como dizia o outro cómico: "fantástico, Mike!"
O que diria disto Salazar se fosse vivo? Ou Marcello Caetano?
ADITAMENTO:
Se isto for verdade, aceito o argumento e retracto-me das observações feitas a propósito da pouca-vergonha.
Seixas da Costa ainda se referia ao facto de o ministro dos Negócios Estrangeiros que extinguiu o posto ( Paulo Portas) ser ainda membro do governo, na posição de vice-primeiro ministro quando em Junho de 2015 se decidiu repristinar o lugar de embaixador na tal UNESCO.
Que destino tiveram estes personagens exelentíssimos do nosso panorama político, sabendo que a barragem do TUA é obra de vulto em que avulta uma Mota-Engil?
Seixas da Costa é consultor "estratégico" da firma desde que se reformou em Março de 2013 e agora até parece que tem mais tempo porque acumula cargos na Fundação Gulbenkian, Jerónimo Martins e agora na EDP-Renováveis. Escreve por aí, tem um blog, vai à Universidade de Coimbra fazer uma perninha quase aos setenta anos. Valente!
P.Portas é agora administrador da mesmíssima Mota-Engil.
Como dizia o outro cómico: "fantástico, Mike!"
O que diria disto Salazar se fosse vivo? Ou Marcello Caetano?
ADITAMENTO:
Se isto for verdade, aceito o argumento e retracto-me das observações feitas a propósito da pouca-vergonha.
segunda-feira, junho 06, 2016
Sacaduras na Mota-Engil: para sacar?
Os primos Sacaduras estão agora de malas feitas e mãos dadas na Mota-Engil, a empresa portuguesa que o regime tem acalentado de há décadas a esta parte. É uma pouca-vergonha? É, claro que é, mas para o caso tanto faz. Paulo Portas perdeu a inocência há muitos anos. Praticamente desde que entrou no Independente.
Um amigo dele, MEC de sobriquet, já disse há uns tempos que "o Paulo ainda há-de mandar nesta merda". Terá razão, literal, se assim for...
Económico:
O antigo líder do CDS e antigo vice-primeiro ministro Paulo Portas está a caminho da Mota-Engil, confirmou o 'Económico'.
Paulo Portas vai assumir um cargo no conselho estratégico da empresa, liderado pelo seu presidente, António Mota, e que integra já um outro ex-político, o socialista Jorge Coelho.
Um amigo dele, MEC de sobriquet, já disse há uns tempos que "o Paulo ainda há-de mandar nesta merda". Terá razão, literal, se assim for...
Económico:
O antigo líder do CDS e antigo vice-primeiro ministro Paulo Portas está a caminho da Mota-Engil, confirmou o 'Económico'.
Paulo Portas vai assumir um cargo no conselho estratégico da empresa, liderado pelo seu presidente, António Mota, e que integra já um outro ex-político, o socialista Jorge Coelho.
domingo, junho 05, 2016
Os ventos musicais da História
Em Janeiro de 1967 a revista Século Ilustrado publicou estas cinco páginas dedicadas a um programa de rádio que então já tinha dois anos de existência no Rádio Clube Português: Em Órbita, apresentado por Cândido Mota e organizado por estudantes universitários, com destaque para Jorge Gil.
Obviamente qualquer um deles já tinha ouvido falar em Cassius Clay e na entrevista, João Alexandre, outro membro da equipa fala na música de expressão anglo-saxónica e do público a quem se dirige, tendo a noção de que a sociedade inglesa ou americana era diferente da nossa. " Os fenómenos Dylan na América e Beatles em Inglaterra vêm exactamente integrar-se nessa perspectiva ( "pensar a cultura em termos de massas, não de grupos"). É que para além de serem indivíduos com ideias são indivíduos cujo inconformismo, cuja novidade são ataques frontais às sociedades de que são simultaneamente consequência e causa".
Dali a pouco mais de um ano aconteceu o Maio de 1968 em Paris e Portugal não estava fechado a esses acontecimentos mundiais que mudaram o curso da História, apesar de alguns antifassistas de agora afirmarem que sim. Ventos...que não sopravam no Leste da Europa para onde alguns queriam ir nesse tempo e conduzir o país também. Cândido Mota seria comunista ou compagnon de route e os membros do Em Órbita eram "progressistas" evidentemente que outro destino não poderiam ter.
Esquerda über alles...que iria condicionar o destino do país durante décadas, precisamente as que decorrem dos últimos 40 anos.
Obviamente qualquer um deles já tinha ouvido falar em Cassius Clay e na entrevista, João Alexandre, outro membro da equipa fala na música de expressão anglo-saxónica e do público a quem se dirige, tendo a noção de que a sociedade inglesa ou americana era diferente da nossa. " Os fenómenos Dylan na América e Beatles em Inglaterra vêm exactamente integrar-se nessa perspectiva ( "pensar a cultura em termos de massas, não de grupos"). É que para além de serem indivíduos com ideias são indivíduos cujo inconformismo, cuja novidade são ataques frontais às sociedades de que são simultaneamente consequência e causa".
Dali a pouco mais de um ano aconteceu o Maio de 1968 em Paris e Portugal não estava fechado a esses acontecimentos mundiais que mudaram o curso da História, apesar de alguns antifassistas de agora afirmarem que sim. Ventos...que não sopravam no Leste da Europa para onde alguns queriam ir nesse tempo e conduzir o país também. Cândido Mota seria comunista ou compagnon de route e os membros do Em Órbita eram "progressistas" evidentemente que outro destino não poderiam ter.
Esquerda über alles...que iria condicionar o destino do país durante décadas, precisamente as que decorrem dos últimos 40 anos.
Um ídolo com pés de barro, Ali, no Público
O jornal Público de hoje deu a capa toda a um pugilista americano que faleceu agora e foi campeão do mundo da modalidade há mais de 50 anos, voltando a sê-lo alguns anos depois. Dizia-se "o maior" sendo essa uma retórica de marca que nem um Ibrahimovic dos tempos modernos consegue imitar.
Porém, a capa não aparece por causa desse feito antigo, mas em virtude de outros feitos, fora do ringue, porque o Público é assim mesmo: o simbólico é capa permanente de notícias ideologicamente enviesadas. A explicação para a capa reside no artigo acima publicado sob a epígrafe Ali tinha a Marcha de Washington nos dois punhos". É essa a razão da capa e do artigo de cinco páginas. Quanto à grafia "Muhammad" é o habitual parolismo nacional de publicar os nomes foneticamente originais, presumindo que o inglês é a língua franca do mundo inteiro.
O pugilista em causa chamava-se por nascimento Cassius Clay e assim foi conhecido pelo menos até meados da década de sessenta do século passado, há 50 anos, quando ainda era treinado por um branco de origem italiana, Angelo Dundee.
Depois de vencer o título mudou o nome para Moamed Ali e assim ficou, ligando-se à seita dos Muçulmanos Negros, tornando-se islamita por opção.
Em 1967 ou por aí, quando já tinha sido campeão de boxe, categoria de pesados, e decidira objectar problemas de consciência para não ir para a tropa, no Vietnam, Cassius Clay-Moamed Ali foi destituído dos títulos e arriscou pena de prisão prolongada, conseguindo safar-se em 1971, por decisão judicial do Supremo americano, altura em que fez um regresso triunfal aos ringues, com o "combate do século" que aliás perdeu, com Joe Frazier.
É deste "combate do século" que ainda me lembro bem e do ruído mediático que então provocou, muito por causa das tiradas retóricas do boxeur.
No entanto, tudo isto aconteceu há mais de 45 anos e não me ocorre nada de especial para perceber o actual ruído mediático à volta deste ídolo com pés de barro que sendo americano, jogava boxe e nada mais.
A não ser a tal pertença à irmandade islâmica, a recusa em cumprir serviço militar e a defesa dos direitos civis dos negros norte-americanos, o que fez nessa altura, sendo semi-analfabeto, mas sabendo bem de que lado soprava o vento da História.
Em Abril de 1967, a jornalista italiana Oriana Fallaci, uma entrevistadora de grande gabarito, foi a Miami ver e ouvir Cassius-Moamed e a revista Século Ilustrado de 8.4.1967 publicou a entrevista que mostra bem como era e como pensava O Maior, nessa altura, a propósito e certos assuntos, como o racismo, as mulheres, etc etc.
Lendo o que o Público escreve agora sobre a razão da mudança de nome de Cassius para Moamed, fica uma dúvida: o jornal diz que o nome original de Clay provinha de um político americano "defensor da emancipação dos negros no séc. XIX" .
Na entrevista, Clay-Moamed explica que afinal mudara de nome porque o que tinha era de escravo, Cassius Marcellus Clay era um branco que dava o seu nome aos seus escravos. E por isso mudou, para ter o nome de um deus...
Quanto às mulheres ( "as mulheres perderam a moral") ou a sua particular concepção de futuro de vida, a sua instrução ( próxima do analfabetismo voluntário) , o seu patriotismo ( "talvez chegue a presidente de qualquer Estado africano porque eu nada tenho a ver com a América nem com os americanos, eu sou muçulmano", apesar de algumas linhas antes dizer que dali a uns anos seria rico e teria avião, casas em vários sítios, limusines etc etc, tudo na América) é ler a entrevista e depois ajuizar como é que os jornalistas de agora conseguem escrever o que escrevem sem se questionarem acerca da realidade das coisas e das pessoas reais que transformam em mitos por causa de símbolos e ideologia avulsa. Virá tudo da Wikipedia? Não, não virá, mas é assim que este sistema triste funciona. É tudo espectáculo ideológico e de esquerda, sempre. Gramsci vence.
Em Outubro de 1975 a revista americana Rolling Stone que já lhe tinha dado um destaque em Março de 1971 por ocasião do tal "combate do século" deu-lhe outra primeira página por causa da sua biografia ( escrita por um "nègre" uma vez que Cassius-Moamed quase nem sabia escrever)...
Em 26 de Dexembro de 1969, outra revista americana de grande difusão, a Life, publicou um número especial acerca do fim dos sessenta. No miolo dos artigos nem uma única menção a Cassius-Moamed, então em quarentena por causa da recusa de cumprimento do serviço militar. Na capa aparecia, porém, a sua imagem...
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