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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Quem abandalhou o ensino público?

O texto que coloco a seguir foi copiado daqui, de um sítio nem sequer identificado com autor mas que se detecta indo à página anterior: Jaime Carvalho e Silva, professor de Matemática em Coimbra.
O tema suscitou-me curiosidade porque vi no outro dia numa feira da ladra, um livro em francês, Le plaisir des mathématiques, da autoria de W.W. Sawyer e publicado originalmente em 1943. Na introdução da edição francesa escreve-se que foi o livro que ensinou milhares de ingleses a gostar das matemáticas. Em Portugal, houve tradução desse livro, segundo consta. E houve também um indivíduo que era comunista e que poderia ombrear com aquele nas tarefas de divulgação da disciplina: Bento de Jesus Caraça.
Acontece que o livro de Sawyer destinava-se a um nível de ensino básico ou quase, embora os conceitos e elaboração do mesmo nem sequer seria hoje compreensível pela maioria dos alunos do ensino secundário.
Este fenómeno de abandalhamento do nosso ensino começou há décadas e há responsáveis por isso que nos custará muito mais do que pagar o que devemos ao estrangeiro.
Mas vale a  pena ler o texto de Jaime Carvalho e Silva para perceber quem e como se abandalhou o ensino em Portugal. Ironicamente, na parte final do texto publica-se uma passagem de um discurso de Mariano Gago, um dos autores do abandalhamento.

Começa assim, com uma citaçãod e Carl Sagan:

Gostaria de vos falar de professores de Ciências que me tivessem estimulado na escola primária ou no liceu. Mas, quando recordo esses tempos, vejo que não existiu nenhum. Havia a memorização maquinal da tabela periódica dos elementos, alavancas e planos inclinados, a fotossíntese das plantas verdes e a diferença entre a antracite e a hulha. Mas não havia um sentimento de exultação e deslumbramento, o menor vestígio de perspectiva evolucionista e nada sobre ideias erradas em que toda a gente em tempos acreditara. Nas aulas laboratoriais do liceu havia uma resposta que devíamos dar e, se não o conseguíamos, tínhamos nota negativa. Não havia estímulo para nos debruçarmos sobre os nossos interesses, palpites ou erros conceptuais. No final dos manuais havia material que se podia considerar interessante, mas o ano acabava sempre antes de lá chegarmos. Encontravam-se livros maravilhosos sobre astronomia nas bibliotecas, por exemplo, mas não na sala de aula. As contas de dividir eram ensinadas como um conjunto de regras de um livro de cozinha, sem qualquer explicação sobre o modo como esta sequência particular de pequenas divisões, multiplicações e subtracções nos dava a resposta certa. No liceu a extracção de raízes quadradas era-nos apresentada com veneração, como se fosse um método sagrado. Tudo o que tínhamos a fazer era recordar o que nos tinham mandado fazer. Dá a resposta certa e não te rales se não percebes o que estás a fazer. (...) O meu interesse pelas ciências manteve-se todos esses anos por ler livros e revistas científicos e de ficção científica.


Carl Sagan, Um mundo infestado de demónios





6 comentários:

Carlos disse...

Actualidade.

Caso "Freeport", a "janela de oportunidade!"

rita disse...

Excelente! Vou partilhar.

Duarte Meira disse...

Repare-se na idade que têm hoje os que entraram com 6 anos em 1974 no sistema de ensino público...

... Vamos vendo já a todos os níveis da vida social e política a qualidade da gente estragada e a causar estragos.

E tudo se continua a reproduzir e perpetuar.

SGFiltro disse...

A abandalhar estas janelas anda o Carlinhos do Rio Tinto , não perde uma única ...oportunidade .

Carlos disse...

SGFiltro

É melhor passares a ventil. Sempre dá outra aragem.

Confesso que me dava mais gozo responder à CriSor, mas insistir em Rio Tinto, a que propósito?

mujahedin مجاهدين disse...

Acrescento que o livro de W.W. Sawyer referido pode ser adquirido na Amazon UK numa edição de 1961, muito embora apenas em língua inglesa.