sábado, 24 de abril de 2010

O nosso fado


Este artigo de Vasco Pulido Valente no Público de hoje ( clicar para ler) é um portento de análise histórica e social portuguesa. Raras vezes li, assim condensada, a história trágico-intelectual que nos marcou o rumo dos últimos trinta anos e que obviamente seriam suficientes para fazer de um país como Portugal o resultado das promessas que o 25 de Abril de 1974 fez nascer com o advento de uma maior liberdade de expressão, reunião e associação do que aquela que antes existia.

Vasco Pulido Valente atribui essencialmente a Cavaco Silva e aos seus governos a origem e a raiz do descalabro, o que me parece justo, em parte, mas incompleto para o retrato integral.
Para isso e como uma imagem vale mais que mil palavras aqui fica uma que mostra o nosso Estado em 1990 e cinco anos depois em 1995. Imagem composta do Expresso de 22.12.1990 e de 18.3.1995. Clicar para ampliar.

É uma imagem síntese com quase todos os protagonistas que marcaram a época e os anos vindouros dos últimos vinte. VPV assinala o erro e a ilusão do cavaquismo, mas é justo que se diga outra coisa que não vejo assinalada: os governos de Cavaco foram os mais cuidadosos na abertura da bolsa pública, logo que começaram a chover os fundos da Europa, para satisfazer clientelas e particularmente as que dependiam directamente do Estado, ou seja, os funcionários públicos e assimilados. A reestruturação de carreiras e reforma da administração pública poderá não ter sido a mais eficiente e adequada, mas não abriu descontroladamente os portões à turba-multa dos assaltantes dos cofres do Estado que se seguiram a 1995 com os governos Guterres e as reformas miríficas para professores e funcionários e a proliferação de institutos e capelas laicas da mais variegada espécie. Abriram para alguns banqueiros, no que resultou depois a sucessão de escândalos ainda agora replicados no BPN, mas não estendeu a milhões o rega-bofe.
Cavaco pode ter errado estrategicamente, conforme agora se verifica e até no escrito se aduz. Mas tinha um sentido de poupança e comedimento no gasto público que se perdeu depois.
E parece ter sido esse a raiz do actual mal-estar. Logo...

Uma coisa, porém, me parece absolutamente certa na análise de VPV: é a ignorância histórica e cultural que afecta particularmente certos governantes o que por vezes constitui o maior drama no nosso país.
A escolha de estratégias de desenvolvimento em que o Estado seja parte determinante ( como são quase todas em Portugal) depende muitas vezes dessa cultura e desse conhecimento específico das realidades históricas. O conhecimento da Economia, em muitos casos, confere aos seus cultores um auto-convencimento perigoso e que se desliga de outras realidades.
O caso concreto de Cavaco ( que um dia confundiu um Moro e noutro não sabia quantos cantos havia nos Lusíadas) é apenas o mais flagrante e trágico. E devia ter sido um sinal para mudar de rumo.
Tal como hoje os sinais se acumulam nesta incrível e tragi-cómica figura que temos no lugar de primeiro-ministro.

5 comentários:

joserui disse...

Eu tenho uma tese que explica esse cuidado: ainda se andava a apalpar terreno. Os milhões eram muitos e davam para todos, era escusado ser à bruta.
Foi com cuidado para não levantar muitas lebres, mas que desbravaram muito caminho para os vindouros, não tenho dúvida.
Pior que o PS no roubo ao país é impossível, mas que o resto não vem muito atrás, não tenho dúvida. -- JRF

José Domingos disse...

Por ser verdade.....

Mani Pulite disse...

ESSAS FOTOS SÃO ÓPTIMAS PARA A LISTA DOS MAIS PROCURADOS DAQUI A UNS MESES.DEPOIS DA BANCARROTA...

Neo disse...

Ahahaha!
É verdade que esta tropa dde choque é toda corrupta.
Mas com a maralha do súcialismo é difícil rivalizar.
O Pater Famílias ainda escondia.
Agora este traste é demasiado óbvio.

Carlos disse...

Correndo o risco...

As consequências não podiam ser outras. Podiam é ter acontecido há mais tempo.

Porque na verdade: NÃO PASSAMOS DE UM PAÍS DE TRAFULHAS, GOVERNADO POR UM PULHAS!

Como diria um profissional destas coisas: "habituem-se"

Carlos Silva