quarta-feira, outubro 26, 2022

Em matéria social, não há ciência...

Era isso que dizia Fernando Pessoa, num opúsculo publicado originalmente na Revista de Comércio e Contabilidade de Fevereiro de 1926, intitulado "A essência do comércio". E diz mais: " a sociologia é uma pseudociência, ou pelo menos, uma protociência". E termina tal consideração, afirmando que "Desconhecemos por completo que leis regem as sociedades, ignoramos por inteiro, o que seja, em sua essência, uma sociedade, porquê e como nasce, segundo que leis se desenvolve, porquê e de que modo se definha e morre"

Ufa! Lá vai todo o ISCTE para o caixote do lixo das inutilidades perversas. 

E depois  de escrever sobre tal essência, apresenta outros pontos de vista, ou seja, opiniões sobre o comércio e sobre o capitalismo, os monopólios, etc. Até sobre a escravatura, citando Aristóteles que dizia ser a escravatura um dos fundamentos da vida social. Lá se vai toda a filosofia grega pelo cano abaixo do wokismo...assim como todo o marxismo "científico". 

E no entanto são as ideias de um tempo anterior a Fernando Pessoa, que continuam alimentar a filosofia actual e a sociologia vigente. 

São ideias do século XIX e dos que o precederam, das filosofias germâncias e greco-latinas que continuam a influenciar os nossos pensadores da actualidade, nenhum deles capaz de elaborar teoricamente algo como o que se vai ler...e se o fosse seria engolido mediaticamente pela avalanche de vitupérios e desvalorizações habituais. 

Todo o esquerdismo é deitado borda fora com estas considerações que seguem...e por outro lado a escrita é tão clara, perfeita e sintéctica que em meia dúzia de páginas fica tudo dito. Até parece alguém a escrever assim ( pois, é o tal...o que discursava por escrito e que tem reunidos os seus ditos em vários volumes cuja publicação é relegada para iniciativas individuais de quem ainda aprecia tais escritos esquecidos).

Fernando Pessoa, o autor de Mensagem e de outras obras consideradas mestras na nossa literatura, o maior iconoclasta social e que pode ser lido deste modo.

Um Fernando Pessoa esquecido que apesar de ter uma casa em seu nome, alimentando uns burocratas à custa do erário público tem pelo menos a vantagem de se poderem ler os seus livros e escritos avulsos. 

Como este, publicado em 2009 pela Guimarães Editores, numa edição da Ática, patrocinada pela Câmara Municipal de Lisboa, pejada de "pensadores" do género que Pessoa aponta, da Casa Fernando Pessoa, ainda mais pejada e o INum instante tudo muda.  

 

















Ao ler frases como " como os incidentes e contingências económicos são, como os fenómenos sociais, complexos e compostos de elementos vários, um conjunto inorgânico e instabilizado imediatamente pelo embate neles, e os elementos incoordenados, que compõem esse conjunto, agitados em sentidos diferentes pelas forças diferentes de que cada incidente ou contingência se compõe", temos um retrato aperfeiçoado da complexidade da vida social que torna utópica a ideia de sociologia como ciência e as consequências daí advenientes. 
Foi sempre isto que pensei acerca dos fenómenos sociais: que são demasiado complexos para se entenderem perfeitamente e algumas tentativas para resolver problemas acabam por ter efeito contrário ao desejado. 
Dois exemplos: o marxismo aplicado à economia, com o leninismo e o poder do Estado totalitário e num aspecto mais prosaico e particular a actual tentativa de resolver a "violência doméstica" pelo lado repressivo aumentado e desejado por alguns próceres da sociologia caseira. 

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