quarta-feira, outubro 05, 2022

Princípio, meio e fim da monarquia em Portugal

 Decorre hoje em três cidades do país uma comemoração da "independência de Portugal", tal como anunciado e já publicitado aqui

Independência de quem e de quê? Na comemoração aparece a imagem do fundador da Nacionalidade em destaque no programa e portanto sindica-se tal independência ao dia 5 de Outubro de 1143, data em que o rei de Leão assentiu na separação do território do Condado Portucalense para originar um novo reino, assinando um tratado em Zamora. Portanto uma fundação, mais que uma independência.

Não obstante, antes disso já D. Afonso Henriques era considerado rei pelos que por cá viviam no Condado Portucalense que aliás ainda nem se tinha estendido às nossas fronteiras actuais, só definidas após o assalto e conquista de Lisboa, em 1147 ( portanto em 1143, data da aludida independência comemorada também em Lisboa, esta cidade ainda era dos mouros)  e depois, só em 1249, já no reinado de Afonso III Portugal quando passou a abranger os Algarves. E por outro lado, só em 1179 é que o Papa Alexandre III reconheceu a nossa nacionalidade independente e distinta das demais, com o reconhecimento de D. Afonso Henriques como rei. Na época era assim e nem Carlos Magno escapou ao costume, alguns séculos antes. A prova está à entrada da basílica de S. Pedro, em Roma.

Portanto, os monárquicos que organizam as comemorações sabem muito bem disto tudo e mesmo assim preferiram reunir nesta data a ideia de comemorar a nossa independência, coincidente com a do fim da própria monarquia. Mau gosto?  Enfim, vale a pena relembrar a nossa História, tal como contada por outros. 

Neste caso, a História documentada mas recontada em tom delicodoce, em 1940, altura em que o Estado Novo comemorou o duplo centenário, precisamente o da fundação e o da restauração, da independência, claro.

Assim, sem preconceitos contra a monarquia mas também sem exaltações desnecessárias. A nossa História foi o que foi:


 
A bula que nos concede verdadeiramente e de direito,  a independência...em 1179:


E a evocação de um facto importantíssimo que vejo muito esquecido nestas comemorações, algo jacobinas por isso mesmo: a ideia religiosa que nos alumiava sempre nessa época, de modo a que o Rei combatia com a espada e a cruz para assegurar que éramos tementes a Deus e que nos fora ensinado na Bíblia cristã, sendo por isso cruzados, nessas batalhas pela expansão da cristandade e contra os mouros, ou seja os muçulmanos que foram sempre nossos inimigos na conquista da nacionalidade a par dos espanhóis e a quem reconquistamos a efectiva independência em 1640, o que dá pleno sentido ao duplo centenário aludido.



A Ínclita Geração e o aparecimento fortuito da Casa de Bragança, que deu um novo rumo à monarquia portuguesa, até ao fim desta:



E o fim da História monárquica, triste e revelador, também hoje comemorado pelo jacobinismo ambiente e mata-frades de substância:



Portanto, em toda esta História há um ponto comum salientado aliás pelos historiadores que foram ler os cronistas da época: o povo! É o povo português, no seu geral e classes que o compõe, que manda nos reis, sem excepção e lhes impõe soluções políticas. Ou talvez a excepção que determinou o fim da monarquia: a solução liberal não parece ter seguido a Tradição. E provavelmente daí a queda, com a participação infausta de uma Casa de Bragança que já não era o que foi...ou se calhar nunca foi. 

Para se entender melhor a importância do povo, o real e concreto, de algumas classes populares e não a poba em geral, vale a pena ler estas páginas de Domingos Mascarenhas, no livro Portugalidade já por aqui citado ( e esgotado) que aliás se limita a reproduzir o que os cronistas escreveram...interpretando à sua maneira a ausência de "luta de classes", sem contudo evitar a indicação de um povo alargado a gentes do campo e das cidades, incluindo o clero que de algum modo se opunha a uma nobreza renitente.






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