sábado, outubro 01, 2022

Revistas e música popular

 Certamente como muitos da minha geração, só descobri e me interessei pela música popular no dealbar dos anos setenta. 

Como tal, uma boa parte das obras-primas publicadas antes, particularmente na segunda metade dos sessenta ficaram por conhecer, até mais tarde. 

E havia muito para conhecer dessa época: os discos mais importantes de Bob Dylan, dos Beatles, dos Beach Boys, Byrds, Creedence Clearwater Revival, The Doors, Jimi Hendrix, Simon & Garfunkel, Procol Harum, só para mencionar os mais notórios.

À míngua de reedições que aliás se faziam relativamente aos mais vendidos, o conhecimento de tais obras era esporádico e à mercê de programas de rádio ou de discos aparecidos de conhecidos e amigos. 

Por isso havia muito conhecimento que vinha apenas da leitura de publicações especializadas e mesmo os livros dedicados ao assunto da música popular eram raros.

Porém, tudo isso se modificou nas décadas posteriores, particularmente a partir dos anos noventa. 

Antes disso, o conhecimento do que estava para trás fazia-se através dessas publicações, todas estrangeiras porque em Portugal copiava-se tudo. Como agora, aliás. 

A primeira revista que me lembro de ser uma ajuda preciosa para entender o que eram as obras de certos artistas e grupos foi a francesa Rock & Folk que comecei a comprar no Outono de 1974, nessa altura para ver e acompanhar o que ia surgindo de novo e não o que ficara para trás. 

No entanto, ironicamente tudo começou por causa do que já tinha sido publicado anos antes, com o grupo Crosby Stills Nash & Young que no Verão desse ano tinham dado um concerto em Londres, em Wembley e tal coincidira com a descoberta do seu disco ao vivo, de 1971, Four Way Street e da parte acústica de tal disco que passara no rádio e me impressionara particularmente no tema Right Between the Eyes e G. Nash e Cowgirl in the sand, de Neil Young. 

A Rock & Folk trazia uma menção aos CSN&Y na capa, referindo-se no interior ao concerto do Verão de 1974 em Wembley e que aliás acabou por ser publicado em cd e blu ray, com video do concerto, em  2014, numa edição comemorativa especial, mas cuja qualidade técnica e de execução musical do grupo nem sequer se aproxima da revelada naquele disco ao vivo, de 1971, tornando-se mesmo fastidioso assistir a quase duas horas de prestação sofrível do grupo, nada comparável à impecável excelência manifestada na gravação de 1971.

Sendo escassíssima a informação que então tinha acerca do grupo, aproveitei para saber mais um pouco sobre o mesmo e os seus elementos, cuja música me agradava muitíssimo na época e continua, aliás, a agradar.

A revista tinha publicado anos antes, em Janeiro de 1972, numa página inteira, os discos do grupo e dos membros, individualmente, porém não tinha visto tal edição e desconhecia alguns discos. Na  verdade, deles todos só conhecia o Déja Vu porque o tinha visto mais ou menos por essa altura na casa de um amigo.


Por outro lado a mesma revista trazia em todos os números uma página - Érudit Rock- na qual respondia a questões de leitores acerca de discografias e pormenores técnicos e outras particularidades da música popular e que se revelava uma fonte de informação preciosa para quem não tinha nenhuma.

Um exemplo do nº de Outubro de 1974:


Deve ter sido a primeira vez que vi escrito o nome dos Flying Burrito Brothers, mas na próxima em que tal sucedeu já me soava a déja vu, com curiosidade aumentada.

Durante alguns números foi essa a fonte de informação acerca de discografias e outros pormenores até que em Fevereiro de 1976 apareceu isto, um artigo extenso sobre a discografia dos Velvet Underground e Lou Reed, nessa altura já muito conhecido por causa do disco ao vivo Rock n roll animal que passava muitas vezes  no rádio ( Sweet Jane depois da longa introdução)  e de Transformer, de anos anteriores:

Em Março, foi a discografia dos The Who, com capa dedicada e número especial:


Em Abril a de Neil Young:


Em Junho número especial dedicado aos Rolling Stones e a capa com foto tirada do álbum Black & Blue do ano anterior e da autoria do japonês Hiro:



E em Novembro a discografia dos Beatles que vi pela primeira vez a cores:



E em Março de 1977 a dos Pink Floyd:


E os Genesis, algum tempo depois, em Julho de 1977.

Com isto e a informação dos eruditos da Rock & Folk já estava convenientemente ilustrado sobre esta matéria. Mas continuavam a faltar os discos. 

Quanto aos Stones e Beatles no rádio de vez em quando lá passavam temas antigos mas era esporádico e incerto. Em 1976 ou 77, num programa de rádio, possivelmente no Rádio Comercial e com Jaime Fernandes passaram uma série de canções dos Rolling Stones que gravei em cassete e cuja compilação desconheço até hoje se consta de algum álbum do grupo. Idem para Bob Dylan, nas mesmas circunstâncias.


 Durante dez anos foi este o panorama da informação sobre estes temas. Foram saindo entretanto livros de documentação e biografias do rock, poucos e quase nada publicado por cá. 

Daí a vantagem de quem tinha acesso a publicações estrangeiras, como jornais, revistas ou mesmo livros, como este, dos anos setenta e com reedições posteriores. A minha foi adquirida em 1986 e trazia as discografias completas, até tal data, dos grupos e artistas mais conhecidos da música popular, com fotos das capas dos discos. Muitos deles foi por aqui que os fiquei a conhecer: 

Por essa altura, já quase nos finais dos oitenta, a revista americana Rolling Stone começou também a publicar números especiais sobre o passado da música rock, sendo certo que já em meados dos setenta tinha publicado uma "enciclopédia", aliás resumida e concisa de tal género musical e que nunca cheguei a ter, por isso mesmo e ter lido alguns verbetes na revista quando a mesma foi publicada.
 O primeiro surgiu em Agosto de 1987 e depois no início dos anos noventa seguiram-se outros números de antologia:


Os americanos mais práticos e sóbrios nestas andanças, começaram a publicar números especiais sobre estas matérias, como na Guitar Player em janeiro de 1987, uma edição das mais cuidadas e completas  que me foi dado ler: 





Quanto aos ingleses também foi por meados dos oitenta que o panorama se modificou para começarem a organizar antologias e números especiais acerca de grupos e artistas do rock. 

Em 1986 surgiu uma revista mensal importante neste domínio e que se acrescentou aos jornais semanais de sempre que no Reino Unido eram vários e de qualidade, como o NME ou o Melody Maker, Sounds ou Disc and Music Echo, para além do Zig Zag. 

Esta revista, simplesmente intitulada Q surgiu e depois dela apareceram outras ainda mais interessantes e importantes, como a Vox, a Mojo e a Uncut. Estas duas últimas, tal como a Record Collector, mais antiga, de finais dos setenta, ainda existem. 


A partir dos anos noventa e até hoje estas revistas escalpelizaram tudo o que havia a dizer sobre a música popular, os grupos e artistas variados, discos novos e reimpressões mais reedições,  de expressão anglo-americana e que constituem o sector amplo da música rock em geral. Algumas especializaram-se, como a Prog, já com edição italiana, aliás muito interessante, e outras acabaram como a efémera The Word.


A Vox surgiu em finais de 1990 e foi a primeira pedra no charco do imobilismo em que os semanários tinham caído. 


Neste terceiro número de Dezembro de 1990, o primeiro que comprei, a variedade e qualidade de artigos era impressionante.
Desde o elenco de grupos que tinham ficado desfalcados com a morte de algum dos seus componentes, assim tratados:


Passando por uma análise, faixa a faixa, do então novo disco de Paul Simon, The Rythm of the Saints:


Até a anúncios a fitas de cassetes, assim:


E com uma entrevista a Jimmy Page, organizada pelo mentor de outras reportagens sobre o grupo, no NME, Nick Kent:


Um artigo sobre desenhos de capas de discos feitos pelos próprios artistas. Alguns tinham jeito. Mas não era o caso da maioria, como John Entwistle dos The Who:


E trazia um suplemento apenas dedicado aos caçadores de discos. No caso, uma compilação dos Byrds que foi a primeira que tive, do grupo:


Um artigo desenvolvido sobre uma etiqueta de discos, americana, a Elektra:




Este tipo de artigos tornou-se usual nestas revistas ao longo dos anos e nesse número já se aludia á diferença de qualidade do lp em face do cd...


Os franceses da Rock & Folk não se deixaram ficar e nestas coisas foram um pouco mais longe e bem, antecipando-se uns anos a tendências que depois os ingleses seguiram. Publicaram antologias dos melhores discos da música rock, segundo os seus critérios, aliás lidos por mim desde sempre e com maior aproveitamento do que os dos críticos ingleses, demasiado tongue in cheek para o meu gosto.
Em Dezembro de 1991:


E em Dezembro de 1999:


Entretanto em Novembro de 1993 apareceu esta revista que modificou ainda um pouco mais este panorama,  melhorando-o significativamente:



E seguindo a tradição da Vox tinha artigos deste tipo:


E em Junho de 1997 outra, Uncut,  do mesmo género e aparentemente dedicada a algo que não teria muita continuidade, a ligação da música rock e do cinema. Acabou por prevalecer a primeira e a revista ainda existe, concorrente da Mojo e com idêntica qualidade. 


Quanto ao velhinho NME, ainda chegou aos 50 mas não durou muito mais...porque afinal não há mão de obra suficiente para todos os media, mesmo na velha Albion, com carradas de velhos hippies ou pseudos, para manterem à tona tudo isto, com um público leitor interessado e que se conta aos milhares e milhares. Lembra-me um velho ditado algo escatológico que resguardo por algum pudor, acerca das musas...


E quanto a livrinhos também foram saindo uns quantos nestas últimas décadas. Não há fome nos setentas que não tenha dado em fartura nas décadas a seguir...




Sem comentários:

Dantes havia mais corrupção?