segunda-feira, agosto 22, 2022

O filho de Sérgio Figueiredo é um caso para estudo...

 Observador:











Porque é que isto é um caso de estudo? 

Em primeiro lugar o CEO da Planetiers diz que "trabalhou enquanto estudava". Em quê? Quem lhe arranjou trabalho e a fazer o quê? Parece ser um caso notável mas nem por isso singular, o de um jovem estudante, que não precisando, opta por "trabalhar" enquanto estuda, portanto ainda na casa dos vintes. Merecia ser entrevistado a propósito de vários assuntos e questionado para se perceber o  país que somos, realmente e não aquele que aparece nos media tradicionais, com as notícias sensacionalistas que confundem o retrato verdadeiro do país, embora o mostrem em lampejos de fulgor escandaloso.
Depois diz que quanto acabou o mestrado, em Engenharia Biológica, em 2014 se lembrou do "empreendedorismo" e embora não explique terá sido então que surgiu a ideia da Planetiers World Gathering 2020, um nome absolutamente parolo para uma empresa portuguesa se meter num projecto que o subscritor define como destinada a "consciencializar a população para as urgências ambientais e soluções já existentes, apoiar empreendedores e inovar dentro destes temas, captar investimento internacional para a economia portuguesa, atrair grandes organizações e nomes no mundo da sustentabilidade para trabalho em ou com Portugal".  Como?  Um evento! Organizar um evento, voilá! Um encontro de sumidades para lidar com o assunto, eis o móbil e objectivo deste empreendedorismo! A data? 2020!, dali a meia dúzia de anos de vista, segundo o CEO. 
 E como isto custa dinheiro- que o diga um tal Paddy das websummit- e o Sérgio, CEO da Planetiers não o tinha, havia que o arranjar. É aqui que as perguntas fariam sentido. Quem é que fazia parte da Planetiers? Quem é que se organizou para recolher fundos e de que modo? Como é que se desenvolveram os sistemas de contactos e quem eram os contactados e que sistema era esse?
A resposta a estas perguntas era utilíssima para se perceber como funciona Portugal para um grupo restrito de pessoas, alguns milhares, que se movem no meio paralelo da realidade invisível ao comum dos cidadãos: o das empresas que conseguem recolher dádivas e subsídios públicos para "eventos" e iniciativas empresariais duvidosas. 
Porque escrevo duvidosas? Por duas razões: para além da génese da própria empresa, os objectivos da empresa em causa de que o tal Sérgio é CEO ( outra parolice do economês e da vulgaridade destas pessoas) são duvidosos, como decorre do próprio enunciado: "consciencializar a população para as urgências ambientais". Isto pode ser muito interessante mas quando se vê a qualidade dos apoiantes deste tipo de iniciativas percebe-se logo a redundância inerente: no caso concreto, o CEO conseguiu arranjar apoios importantes, da ordem de 3 milhões de euros e num prazo recorde de "dois anos" ( antes de 2020, claro), todos de natureza pública, sem excepção, porque não apresenta um único caso de financiador privado apesar de o citar. Ora estas instituições públicas são elas próprias um meio idóneo e adequado ao prosseguimento dos objectivos do CEO. Vejamos:
Para além de organizações colectivas e de Estado, como a União Europeia ou as Nações Unidas, qualquer uma delas provida de excelentes contactos nacionais e sistema inerente, propício ao tráfico habitual, o Turismo de Portugal e a Câmara Municipal de Lisboa são entidades que dependem exclusivamente dos impostos dos contribuintes nacionais e são geridas por pessoas ligadas a interesses políticos da área deste CEO precoce que no fim de um curso universitário teve logo a ideia ambiciosa de organizar um "evento", no caso patrocinado pelas instituições do Estado, e no caso, inevitavelmente socialista e dado a este género de iniciativas. O objectivo do "evento" deveria ser uma preocupação permanente, destas entidades e não seria necessário qualquer iniciativa do género, para torrar três milhões de euros para o efeito. 
É aqui que a porca torce o rabo já bem retorcido: como é que isto sucede em Portugal? Como é que se desenvolve este tipo de projectos? Como é que se organiza ab ovo uma coisa destas? Era isto que deveriam perguntar a este CEO.   
Enquanto estas respostas não surgirem fica a jeremíade do CEO que começa a ver a vida a andar para trás quando tinha tudo à frente para prosperar neste meio fétido dos apoios públicos com respaldo institucional e de fedor partidário, sem dúvida alguma. Este é o meio em que se movimenta uma clique partidária de topo, como é por exemplo o caso dos adões e silva desta praça. Como não são muitos e afinal poderiam ser identificados através dos vários "projectos", sempre com dinheiros públicos outorgados, seria um serviço público inestimável que o jornalismo de investigação se dedicasse a este sector e a este fenómeno. Afinal, escândalos não faltariam e o sensacionalismo está garantido!

Ou haverá dúvidas quando a isso e ao inerente fedor de corrupção, neste caso a legalizada pela praxis do tráfico de influência oligárquico?

Andei à procura de um ditado, um refrão que se adaptasse à situação e não encontrei nenhum que fosse explícito e adequado. Por uma razão: este fenómeno, com esta dimensão e natureza é relativamente recente. Dantes havia mais pejo e vergonha. E menos dinheiro público para torrar...
Dito isto, uma conclusão: não é o rapaz em causa que tem culpa disto: é a geração que o precede, ou seja a do pai. E por isso não tendo culpa de ser filho de quem é, não deve enjeitar a paternidade que lhe proporcionou que assim seja. 

Entretanto fui espreitar o que é a Planetiers...e é muito elucidativo o que se pode ler. Desde logo não é um sitio em português mas bilingue, em inglês também, porque é assim que agora é. E por isso é que o leitor é tratado por tu, um lugar-comum entre amigalhaços. 
Projectos?  Financiadores? Os conhecidos. Este ano, em Outubro de 2022, a maçaroca já lá está a tilintar no bolso e por isso haverá "gathering". O resultado disso? Ver-se-á...provavelmente com promessas de novos "eventos". Afinal o Paddy deu o mote... 

Para já a coisa promete mais de cem investidores planetários. Só gostava de saber quem são e porque o são... 




domingo, agosto 21, 2022

A Censura sempre existiu e a informação não é vaca sagrada

 No Correio da Manhã de hoje aparece uma pequena notícia sobre um assunto que gera controvérsia: a informação e a censura, no caso sobre suicídios. 

Conforme resulta de "um estudo" financiado pela FCT, mais de metade dos jornalistas inquiridos sobre o assunto entende que os suicídios não devem ser noticiados qua tale.  A razão parece tão evidente que nem sequer é enunciada.


Uma das armas de arremesso contra a censura no regime anterior era mesmo esta: a censura nas notícias sobre suicídios, a que foi dado espavento pelos pachecos pereiras deste pobre país para denegrir o antigo regime e legitimar o que temos. Nunca falha quando se escreve sobre censura...mesmo que os factos possam desmentir tal verdade inventada a preceito.

Como se lê, as dúvidas e reticências, derivadas do simples bom senso, permanecem nos tempos actuais, mesmo com a libertinagem jornalística à solta. 

Por outro lado, o sensacionalismo que determina a escolha de notícias e a estratégia da informação actual destinada ao grande público, encontra terreno fértil num tipo de acontecimentos que suscita indignação selectiva: a que se relaciona com o uso de recursos públicos por quem tem o estrito dever de cuidar dos mesmos para o exclusivo bem comum. 

O abuso generalizado permite que se relativize a denúncia jornalística dos respectivos factos e autores e se acantone a indignação num grupo reduzido de jornalistas que apesar de tudo ainda não perderam o norte e a capacidade de mostrar o que deveria ser o interesse público, para além do sensacionalismo inerente ao escândalo. 

Aqui, numa pequena nota do jornalista Eduardo Dâmaso, ainda há quem se indigne e consiga dizer que o rei vai nu. No caso é o reizinho Medina, um medíocre da política que perdeu todo o sentido do decoro e moral ou ética que se exige a um político. 

Os dois retratados na imagem não entendem o assunto de igual modo porque são parte do esquema mental e político que relativiza estes problemas. 


sexta-feira, agosto 19, 2022

A outra senhora advogada

 Público de hoje, artigo da advogada Carmo Afonso, muito lá de casa da esquerda que há...


A temática é a dos juízes corruptos segundo a percepção de uns tantos que acham que é assim que outros juízes serão. 

A advogada que escreve nas sementes de alfarroba também acha tremendo que assim seja, ou seja, que haja muitos juízes a pensar que outros poderão ser corruptos e que o CSM deve intervir neste caso concreto dos juízes que pensam mal de outros juízes. 

E acha nas suas sementes de alfarroba que é o "desprestígio da justiça e o dos juízes" que está em causa quando alguns juízes, mesmo sendo muitos, pensam que outros juízes podem ser corruptos. E que nesse caso da percepção que uns juízes têm de outros é preocupante e "ignorar os resultados do inquérito é objectivamente criar um novo problema, e pelo menos esse poderia ser imediatamente acautelado ou resolvido". 

Esta advogada que escreve nas sementes de alfarroba exige que os "factos sejam encarados publicamente pelas entidades com responsabilidade na magistratura judicial e que sejam anunciadas medias para os resolver".

o presidente do CSM, sensatamente, desvalorizou a "percepção" dos juízes inquiridos e alvitrou que se devem recusar leituras apressadas, ficando o CSM atento e pronto a actuar disciplinarmente sempre que haja indícios de fenómenos corruptivos. Que mais poderia fazer? 

Esta advogada que escreve nas sementes de alfarroba acha que é pouco e que isso é "fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes". 

Há por isso que fazer mais, tomar medidas, sei lá! Que medidas sugere? Nenhuma! Fica nas sementes de alfarroba que como é sabido é alimento preferido de mulas e burros...

Por mim, sugiro que se faça o seguinte: um inquérito entre advogados para saber se têm a mesma percepção. Por uma razão singela e fatal: se há juízes corruptos, então entre os advogados devem ser legião. E mais: se há alguém susceptível de corromper juízes, são precisamente os advogados, como o mais chão senso comum ensinaria se não se desse o caso de preferirem escrever em sementes de alfarroba.

Enfim, esta senhora advogada escolheu bem o título da página onde escreve. Fica-lhe a matar...

quinta-feira, agosto 18, 2022

Os rifões são para as ocasiões

 A propósito de um rifão sobre a caramunha aqui fica um compêndio deles, já antigo ( a edição é da primeira metade do séc. XX) mas muito instrutivo sobre a sabedoria popular e a nossa cultura ancestral. 

O autor, Pedro Chaves, prefaciou a obra de compilação em 1928 e voltou a anotar em 1945. Assim:







Há ditados e rifões  para todos os gostos e feitios e vou escolher  para aqui os relacionados com a justiça e tribunais e a higiene e medicina, já no final do livro de 452 páginas:






E as páginas sobre o fazer...




Esta cultura perdeu-se e os que a perderam mais depressa são os literatos e jornalistas...


quarta-feira, agosto 17, 2022

Como é que nos informamos sobre os incêndios?

 Confesso a minha perplexidade que deve ser igual à de muitos, acerca dos incêndios dos últimos dias no interior Beirão que começou no dia 6 de Agosto em Garrocho, na Covilhã, distrito de Castelo Branco, passando depois aos concelhos de Manteigas, Gouveia, Guarda e Celorico da Beira, no distrito da Guarda e no dia 12 era anunciado como "controlado".

Não estava controlado ou não foi controlado como deve ser? A questão assume relevo para se saber se quem lida com estes assuntos percebe dessa poda. Por mim é só perplexidades. 

E tanto maiores quanto leio no Público de hoje isto, na entrevista a Xavier Viegas que está muito mais contido e comedido nas críticas a quem manda. Não sei porquê, mas já o ouvi na tv com este discurso mais conformista e surpreendente que contrasta muito com o que dizia no tempo do incêndio de Pedrógão e depois disso, porque ainda há pouco tinha dito que estávamos na mesma quanto a prevenção e que as condições atmosféricas e climáticas, este ano, era mais perigosas do que jamais o foram:




A perplexidade aumenta quando se lêem coisas destas, no caso no Observador, escrito por João Adrião, "gestor ambiental e florestal", portanto alguém à partida mais qualificado para se pronunciar sobre estes assuntos:





Nas páginas anteriores do jornal aparece este pequeno artigo de alguém que tem a coragem de dizer que "dantes" era melhor do que agora, no que ao combate e prevenção a incêndios diz respeito. Tenho a mesma impressão, mas é só isso, uma vez que nunca vi tantos especialistas a tentarem explicar e cada vez menos gente a entender as explicações...incluindo eu cada vez mais confuso com as notícias e a falta de informação credível e que se perceba. 



Os truques do Tal & Qual para vender qualquer coisinha...

 O jornal Tal&Qual, originalmente lançado em 1980, relançado há pouco mais de um ano, depois de uma hibernação prolongada de  vinte anos, anda em busca de leitores perdidos e procura avidamente em cada edição uma capa salvífica que lhe reponha os rendimentos para os seus mentores. 

O destaque redactorial vai para um tal Manuel Catarino, verdadeiro faz-tudo do jornal que se esgaça em artigos sensacionalistas para concorrer num mercado saturado. No tempo em que apareceu, nos idos dos oitenta, era um tablóide de pequenas escandaleiras nacionais que dava guarida a submarinos da redacção escrita, como um Ferreira Fernandes ou um Joaquim Letria, o fundador, muito do grupo dos zambujais de todo o género. Uma fauna da escrita lusitana. 

Actualmente o redactor-mor esfalfa-se em encontrar a capa certa, todas as semanas, para levar ao engano o leitor desprevenido e sempre com o leit-motiv do costume jornalístico: a pequena escandaleira, misteriosa se for possível, para dar o toque de cereja no topo do bolo mole e tentar vender parte da tiragem anunciada de 17 mil e 500 exemplares. Venderá cinco mil?  Duvido.  

Hoje a capa é assim, do género aludido: 


O Pinho malfadado da EDP e do BES anda em bolandas, amarrado a uma pulseira electrónica da justiça à perna. Os factos de que é ainda suspeito são graves porque contendem com a corrupção mais soez e que utilizou os recursos do Estado para afundar a Economia de que o dito era ministro. Pior, seria impossível. 

Pois o Ministério Público e a Justiça andaram a investigar e demorou anos até conseguir  pôr-lhe a perna com o adereço, numa modalidade bem mais benevolente do que a medida requerida que era pura e simplesmente a pildra. 

O Tal & Qual desta semana condoído de tal vítima do sistema de Justiça atira uma pedra ao charco para tornar sensação o que nunca deveria ser: o "truque" do Ministério Público para manter este Pinho preso à pulseira que o condiciona na perna e liberdade no andar. 

Qual o truque inventado pelo Tal & Qual para descobrir o ardil do Ministério Público? Está assim explicado pelo tal Manuel Catarino à míngua de sensações, como a do infausto Sérgio Figueiredo, se calhar muito lá de casa e por isso ausente de qualquer notícia do jornal. Truques. 


Leia-se o caso que se explica em poucas linhas: O processo EDP é complexo e Manuel Pinho e o seu advogado excelentíssimo, o fabuloso Sá Fernandes, provavelmente também muito lá de casa do jornal, tentou tudo e mais um par de botas para atrasar os trâmites processuais, conseguindo-o até um certo ponto, com o tribunal Constitucional já requisitado várias vezes para a tarefa, como é de tradição nestes casos. Já passaram 10 anos e a culpa permanece solteira. 

O ponto é que Pinho apesar os esforços do seu advogado, ainda não conseguiu dinamitar o processo, até hoje, mas ainda não desistiu de anular qualquer hipótese de se fazer justiça material, preferindo mil vezes a famigerada justiça formal, a que existe para proteger arguidos de imputações injustas e condenações iníquas, o que no caso de Pinho é claríssimo como água de rosas, como todos sabem e pressentem. 

Em vez de noticiar isto e dar a devida explicação aos leitores, o jornalista Manuel Catarino prefere usar outro truque: imputa ao MºPº um ardil processual nefando e aparentemente escandaloso, ou não fosse esse o motivo de primeira página: separar o processo em dois, articulando factos que se podem autonomizar para tornar mais célere o que o arguido pretende à viva força emperrar até ao limite do possível e a uma desejadíssima prescrição salvífica que o liberte da amarra compulsória e da previsão de vários anos à sombra de uma carregueira qualquer. 

Pois esta iniciativa do Ministério Público, legal, constitucional, desejável e importante para o funcionamento da justiça,  é apresentada pelo Manuel Catarino como um "ardil", apresentado jocosamente como uma "genialidade" dos procuradores encarregados da investigação. Porque, segundo o mesmo, os investigadores ainda não têm provas no processo. Só "indícios" e ele sabe ou alguém lhe disse que assim seria. Adivinha-se quem...enfim, não é difícil de saber. 
Mas o facto que sustenta o processo autonomizado é que é uma porra difícil de contornar: o banqueiro Salgado deu uma avença regular, secreta e sigilosa ao arguido enquanto o mesmo foi ministro e este escondeu-a numa offshore, branqueando capitais. E objectivamente o ministro, agora arguido, deu uma grande ajuda ao antigo patrão, que por seu turno está numa grande embrulhada por ter aproveitado diversas manigâncias, incluindo com a EDP. 

Perante isto o Tal & Qual considera que há um ardil para tramar Manuel Pinho. E truques à mistura...

Quanto a isto Manuel Catarino presta-se ao frete. Quanto ao resto, não responde aos costumes. Tal e qual. 

Sérgio Figueiredo, corrido a pontapé mediático, faz a caramunha habitual...

 Sapo24:


É um acabado sem-vergonha e a prova está aí,

E já são dois sem-vergonha. Nem sei qual o maior...porque este é ministro das Finanças, julgo que no caso sem saber ler nem escrever, para além do discurso político stricto sensu que é o que interesse. Para o essencial há sempre assessores e ajudantes... 

No outro dia o socialista João Soares, na tv, depois de ter concordado com a explicação de Poiares Maduro sobre o acto de ausência de vergonha protagonizado por "ambos os dois" retratados, disse que tinha a ideia que Medina era sério, incapaz de favorecer seja quem for  e que até conhecia os pais dele, pessoas igualmente sérias. 

Há pessoas assim, cuja ingenuidade é tocante tendo em conta quem são e o que sabem da política e do PS em particular e cuja noção de seriedade fica sempre no primeiro patamar, o da aparência. 




terça-feira, agosto 16, 2022

A corrupção entre juízes

 O Público de ontem tinha esta notícia, misturada com opinião da articulista e dos comentadores convidados para a comentar, no estilo habitual do jornal, como se estes fossem neutros ou isentos na apreciação:


O pressuroso sindicalista dos juízes, interrompendo as férias, já veio comentar, com a figura do costume que é exigir sempre responsabilidades, neste caso ao CSM, todo de férias também. 

Assim:




O que é que traz a notícia de substancial e de premente para a exigida intervenção do CSM?  Pois que há cerca de 500 juízes portugueses, inquiridos no primeiro trimestre deste ano, por uma entidade internacional ( Rede Europeia dos Conselhos de Justiça) e destes, cerca de um quarto acha que nos últimos três anos houve subornos ou outras formas de corrupção para alguns juízes decidirem a contento de quem os corrompeu. 
A mesma percentagem de juízes inquiridos entende que as regras de distribuição de processos foi subvertida igualmente, no período indicado, ou seja durante os anos de 2019, 2020 e 2021. 

 O juiz sindicalista, acompanhando a ideia dos comentadores do jornal, acha que isto é tremendo e exige intervenção urgente do CSM ( e eventualmente do CSMP). Que intervenção? Pois...só leio uma coisa: 



Portanto, só isto como medida proposta: declaração de interesses dos juízes ou dos magistrados em geral. 
Chega como medida? Adiantará alguma coisa para resolver os eventuais casos concretos que cerca de um pouco mais de 100 juízes ouvidos no inquérito suspeitam poderem tratar-se de situações de corrupção judicial, mesmo sem se saber que tipo de corrupção e quão lata será?

A resposta é o óbvio ululante: não chega coisa nenhuma e adianta nada de nada e por isso a fatwa do sindicalista dos juízes sabe à habitual demagogia que só tem um efeito: agitar as águas onde se move. Então dir-se-á: deveria estar calado ou não se manifestar perante o fenómeno exposto da suspeita levantada por cerca de cem juízes num universo de mais de mil e quinhentos, ou que sejam cerca de 400 no universo todo dos juízes, seguindo a regra das sondagens? 
Também não, mas deveria começar, antes de lançar as habituais farpas, por analisar como é que se lida com uma situação destas, ou seja, a de haver um quarto entre cerca de 500 juízes inquiridos e principalmente redefinir os termos da questão formulada, procurando uma resposta para algumas perguntas que se tornam evidentes:
Quem foram os juízes inquiridos? De todas as instâncias ou só de algumas? Que grau de conhecimento podem ter acerca do assunto em causa que lida com a probidade dos seus colegas e a honra profissional e pessoal de uma parte importante da magistratura? 
Mais: em que instâncias é que entendem existir corrupção? Em todas, só na primeira ou nos tribunais superiores e neste caso, em que tribunais, mormente no STJ, STA e outros? Sim, no Constitucional é desse que falo. 
Ainda mais: que tipo de corrupção, para além da designação corriqueira e jornalística de "suborno", admitem como sendo a pecha suspeita? O tráfico de influências também conta? A escolha "a dedo" e a não escolha de outros, também "a dedo", de certos magistrados para inspectores judiciais também entra nas contas? O alargamento do número de juízes em certos tribunais ( sim estou a referir-me ao TCIC e à perseguição miserável a um dos juízes, Carlos Alexandre, patrocinada por insuspeitas figuras) também entra no rol?

Finalmente: se o sindicalista dos juízes quisesse mesmo inteirar-se da razão profunda do mal estar que este tipo de inquéritos suscita e que obviamente é real, deveria ter em atenção as questões agora colocadas e deixar de focar-se apenas em fenómenos tipo "Rangel" que muitos, incluindo membros do CSM,  sabiam há anos e anos que era suspeito de ser corrupto e pouco ou nada fizeram para resolver tal problema, denunciando claramente o que se passava e não deixando correr o marfim das inspecções que não se imiscuem nos aspectos "jurisdicionais", suprema hipocrisia para emoldurar o problema real: as inspecções judiciais!

Apetecia-me outra vez colocar aqui o cartoon que mereceu insultos personalizados e sugestão de inquisição ao autor, ou seja quem assina este postal. Fica para uma próxima- que certamente virá. 

A Felgueirinhas atingiu há muito o patamar de Peter...

 Sapo:


Confesso que fiquei espantado quando vi há meses a Felgueirinhas ( é filha de Fátima Felgueiras...) a assumir o comando da revista Sábado, originando a saída de alguns jornalistas ( Carlos Lima, por exemplo e que poderia ter sido um melhor director do que a dita...). Vaticinei a mim próprio que não duraria muito tempo e só não previ que fosse tão rápido, embore não fique nada admirado. Desde que comecei a ver os lotes de revistas Sábado, no quiosque,  a ficarem quase intactos e a Visão ao lado a diminuir o monte, ao contrário do que até então acontecia, fiquei elucidado. 

Esta Felgueirinhas é uma jornalista que nem sequer para investigação serve por aí além porque busca sempre a perversidade e o sensacionalismo inerente mesmo quando o assunto o não suscita. Este jornalismo da Felgueirinhas é o jornalismo trash, da miséria humana exposta para consumo corrente. É um sinal dos tempos e se calhar a Felgueirinhas julga que deve ser assim e vai continuar, pelos vistos, na TVI. Até ao dia em que a estação, ou seja, quem nela manda para ganhar algum, perceber que afinal as audiências não precisam dela...porque foi essa a conclusão da Cofina que disso sabe mais e melhor, por uma razão: é o modelo desta onda de jornalismo miserável. É o padrão. Eduardo Dâmaso é a excepção que confirma a regra, apenas, embora tenha que alinhar no esquema. Não há oferta jornalística em Portugal capaz de contrariar esta tendência. O Expresso? Talvez, mas expurgado do wokismo.... 

domingo, agosto 14, 2022

A propósito do Padrinho e da mitificação estética

 No suplemente de hoje do CM aparece esta apreciação do filme O Padrinho por causa da efeméride dos 50 anos da sua exibição.





Este tipo de artigos é um género de paráfrase a outros do mesmo género sobre outros assuntos e que acabam por denotar a mitificação ocorrida ao longo do tempo relativamente a acontecimentos que no seu tempo não tiveram o impacto, relevo ou sequer a importância mediática agora concedida. 
Pode dizer-se que este tipo de acontecimentos culturais foram "seminais", como dizia a Visão em artigo já comentado. Porém, seminal tem implícita a ideia de semente, de algo que frutifica e dá origem a qualquer coisa nova. E tal característica, naturalmente só com o tempo se descobre. 
Terá sido esse o caso do Padrinho, como filme estreado no Verão de 1972 nos EUA e por cá no Outono ( 24 de Outubro) desse ano?
O título do artigo diz que foi um sucesso de público, aclamado pela crítica e apreciado pela máfia. Tirando este último aspecto, anedótico, serão verdadeiras as duas acepções do êxito de tal filme no tempo em que apareceu? 

Que foi um sucesso de público, na altura em que estreou, parece evidente, mas...nuance!- nos EUA. Em Portugal não foi. 
Portanto quando se proclama o sucesso de público é preciso dizer onde e como. E no artigo não se diz, deixando implícito que foi em todo o lado e arredores. Por cá, não foi e isso é atestado pela programação espelhada e documentada nos recortes da época.

Na Capital de 15 de Outubro de 1972 anunciava-se a estreia do filme no dia 24 desse mês e ao lado aparecia o elenco dos filmes em cartaz nessa semana. 

O filme estrearia em três salas e era para "maiores de 18 anos":


Se o filme fosse o sucesso retumbante de público que se diz que foi em todo o lado, então em Agosto do ano seguinte, 1973,  ainda estaria em cartaz, como acontecia com alguns dos filmes que apareciam na época. 
E não foi esse o caso, como se demonstra pelo Diário Popular de 30 de Outubro de 1973, em que por exemplo o Trinitá, Cowboy Insolente ainda estava em cartaz, mais de um ano depois...e do Padrinho nem sombras porque devia andar pela "província", certamente com audiências de sucesso mas não as que reflectem o título do artigo. E até se pode ler quantos espectadores é que então iam ao cinema...ver filmes portugueses.
Poderia mesmo mostrar aqui o cartaz dos filmes relativo aos meses anteriores mas asseguro que no início do ano, em Março, já O Padrinho tinha desaparecido de tais cartazes. 


Por outro lado, em 1972 ou 73 não encontrei qualquer artigo de recensão crítica ao filme, ou sequer menção a propósito do seu carácter "seminal", original ou importância cinematográfica, como acontecia com outros filmes e realizadores.  Os críticos da praça nacional, na época não deram qualquer importância ao filme ou sequer ao realizador, F.F. Coppola. 
Agora é o que se lê...
Mas para entender esta discrepância mitificadora poderemos tentar perceber se na terra em que o filme se realizou e estreou houve assim tamanha comoção estética com tal obra agora julgada "seminal".

Se lermos o que se passava no contexto da época, segundo os registos de hoje, falíveis precisamente pelo que acabo de descrever, poderemos ao menos ler alguns factos e acontecimentos de 1972. Aqui, por exemplo:




Portanto, nos EUA foi um sucesso de público aquando da sua estreia, embora mitigado, comparado por exemplo com O Violino no Telhado, do ano anterior e que em Portugal  estreou na mesma altura do Padrinho, também com um sucesso de bilheteira muito superior a este.
Portanto impõe-se uma relativização principalmente para tentar compreender a origem do mito que entretanto se criou  e como é que estes fenómenos acontecem nos media. Nisto como noutros assuntos, por exemplo o caso Watergate, da mesma altura. 

E na crítica, foi uma "aclamação"? Talvez, no caso de Pauline Kael, a crítica respeitada do New Yorker que viu no filme e na interpretação dos seus actores uma obra importante, logo em 10 de Março de 1972. 


Porém, na Rolling Stone, o crítico Jon Landau, também respeitado, em Maio do mesmo ano não tinha exactamente a mesma opinião e considerava-o mesmo um "unsuccessful film":



Portanto, para termos uma ideia mais precisa do que era o gosto e o ambiente estético em 1972, no contexto dos EUA e que pouco tinha a ver com Portugal, ao contrário de hoje, cuja influência me parece notória, por causa da facilidade de consulta de opiniões alheias, via internet, talvez valha a pena dizer que a Rolling Stone não dedicou em 1972 ou no ano seguinte qualquer artigo de fundo ao Padrinho ou ao seu realizador, o agora muito celebrado Coppola. Nada. 
Porém, relativamente a outro filme também julgado "seminal", O Último Tango em Paris o assunto era diverso e talvez mais esclarecedor do que parece.

Em 23 de Novembro de 1972 foi notícia a ante-estreia do filme de Bertolluci num festival cinematográfico e vale a pena ler para se poder perceber que em Itália o filme fora censurado, em partes importantes. Por cá a censura foi total, até 1974, mas para quem apresenta a Censura como um argumento acerca do fassismo é bom de ler isto que segue:


E o filme teve tanta importância que na edição  de 21 de Junho de 1973, apareceu uma entrevista com Bertolucci, pelo intelectual da revista, Jonathan Cott, com ênfase no Último Tango em Paris:


 

Por cá, como já indiquei, a crítica local primeiro exigiu a exibição e "abaixo a censura"; depois de o ver e já em finais de 1974,  demoliu-o como obra de pequeno-burguês, sem interesse algum. 

Portanto para se compreender o ar do tempo é preciso cheirá-lo ou apreender o cheiro pelos sinais, como faziam os índios nos tempos dos cóbóis. 

Aqui, em Portugal, na crítica actual dos media, nem uma coisa nem outra. Preferem copiar os cheiros que outros sentiram...lendo e voltando a ler, para escrever coisas como esta.
É tão fácil ser crítico em Portugal: basta saber fazer redacções e cópias. Ditados é que é mais difícil...

O pior é que depois o que lemos acaba por ser uma mistela em que os factos são verdadeiros, os acontecimentos também,  mas a explicação dos mesmos é que se torna um enigma resolvido do único modo que sabem fazer: de acordo com o ar do tempo. Presente. Copiado.

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso