sábado, abril 11, 2015

A nossa História tal como contada em 1940

Em 1940 o jornal O Século comemorou um duplo centenário - o oitavo da Fundação da Nacionalidade e o terceiro da Restauração da mesma-, com um número especial em que dedicava uma boa parte a contar a nossa História pregressa com o entusiasmo mítico das gestas de antanho, misto de epopeia e tragédia alavancada pelos mitos que ainda perduram.

O capítulo que relata os séculos de independência até à sua perda em 1580 vale a pena ler. Escrito por um romancista poético, - Castelo de Morais-, todo eivado de realismo fantástico, é a versão da nossa História que evoca os heróis de infância. Era uma época em que os animais ainda falavam nos livros e a poesia saltava das pedras da calçada, nos versos de Afonso Lopes Vieira.

Era esta História que se ensinava nos anos sessenta, nas escolas primárias e foi assim que a aprendi, tal  como muitos da minha geração. A alguns ficou-lhes para sempre a nostalgia do maravilhoso que estes relatos traziam ao imaginário pobre do Portugal de então. Era uma espécie de compensação. Éramos pobres mas tínhamos oitocentos anos de História tão rica quanto os mais ricos de todo o mundo. E isso nos valia a pena de sermos que éramos. Lá ao fundo do imaginário espreitava sempre o Império das quintas de além-mar.
Lembro bem de ler num dos manuais escolares a triste história do cardeal D. Henrique em versos de pé quebrado -" o cardeal D. Henrique, velho e doente, é bem a imagem da pátria decadente". Isso imediatamente antes de se contar como perdemos a independência para a terrível Castela, aqui ao lado, na sequência da funesta aventura guerreira de D. Sebastião, o vindouro numa manhã de nevoeiro .

Descubro agora neste relato de epopeia que o dito cardeal no fim prematuro da sua vida, lá nos 66 anos,  só se alimentava a leite...de mulher.

Quanto ao resto, na última página, o relato das nossas borregadas sucessivas até impressiona.

Quanto ao demais da nossa História, relatada na edição, temos a "dinastia brigantina e os primeiros dezasseis anos de república" contados em...cinco páginas. Os dezasseis anos da tal república leva meia página a contar e nem se fala no Afonso Costa.

"Ia iniciar-se, primeiro em regime de ditadura, e depois, no Estado Novo Corporativo, um dos períodos de mais profunda transformação que houve até hoje, em Portugal". Até 1940, claro.


Salazar e o trabalho

Os primeiros vinte anos do Governo de Salazar apanharam algumas transformações sociais, económicas e culturais.
O Salazar do pós-Guerra não é o mesmo de antes ( deixou de ter a foto de Mussolini em cima da Secretária, tal como Churchill, que não a tendo admirou o ditador italiano) e as "condições objectivas" modificaram-se.

Porém, certos valores permaneceram inalterados no pensamento de Salazar. Num livrinho que compendia o pensamento económico e social de Salazar nesse período ( O Trabalho e as Corporações no pensamento de Salazar, edição da Junta de Acção Social, em 1960). É nesse livrinho que aparece uma boa parte de discursos de Salazar a defender a excelência do Corporativismo como doutrina de organização social do "operariado", para quem havia duas perspectivas, "dois caminhos" segundo o autor: ou o comunismo ou o corporativismo. "O comunismo criando a miragem de os trabalhadores serem eles o Poder e o Estado; o corporativismo dando-lhes a realidade da sua comparticipação no Estado e da sua solidariedade com todos os outros portugueses nos interesses da Nação".

Ficam aqui algumas páginas que se lêem num ápice sobre o assunto.


 

 

sexta-feira, abril 10, 2015

Causídicos que mediatizam processos...


Estes dois causídicos ( imagem da Lusa a anunciar conferência de imprensa daqui a bocadinho) são advogados de um recluso que se encontra em prisão preventiva desde Novembro de 2014, há quase quatro meses.

Durante esse período de tempo usaram já de todos os expedientes processuais, incluindo recursos ordinários e extraordinários como o habeas corpus, para sindicarem as decisões jurisdicionais tomadas por quem de direito e nos termos da lei. Perderam-nos todos.

Esta lei que devia ser igual para todos tem sido torpedeada algumas vezes em declarações públicas de um deles, no sentido de sindicar mediaticamente o resultado das decisões proferidas judicialmente, inclusivé por tribunais superiores.
A última vez que tal sucedeu foi num dia desta semana, num inenarrável programa da RTP1, animado por um tal Zé Pedro, muito contentinho da silva a prestar o microfone e a câmara ao dito cujo Araújo para o mesmo defender o seu constituinte, acolitado vivamente por aquele animador com riso de bico de pato.

Anteriormente, em entrevistas avulsas e a vol d´oiseau o mesmo Araújo disparou em várias direcções, inclusivè contra jornalistas a quem apelidou de "canzoada".

A defesa que faz do constituinte, fora do processo, e à revelia de todas as regras deontológicas, processuais e estatutárias,  torna-se patética porque já por mais que uma vez que aldrabou justificações, falseando a verdade de factos como o de o processo carecer dos mesmos para manter o constituinte em prisão preventiva, no que foi cabalmente desmentido pelo teor do acórdão de um tribunal superior e mesmo assim não se desmanchou. Sendo filho de um juiz, não percebe a função judicial e protestando respeito pela mesma, sapa tal declaração de intenções em cada  aparição pública difundida pelos media.

Veremos o que sai agora, tanto mais que vem acompanhado do parceiro pensador. E veremos principalmente o que vai fazer a Ordem dos Advogados para quem estes dois causídicos são como dois elefantes numa loja de porcelana chinesa.

E pronto! Lá disseram ao que vinham: acelerar o processo e mais uma vez mistificar factos fora do processo, para confundir as pessoas que são crédulas. Tudo o que a deontologia devia proibir e obrigar a Ordem a agir. Mas não agirá...

Agora, o Delille também já se juntou a dançar o vira e a cantar o solidó:
 
Pedro Delille disse ainda que  justiça portuguesa está "refém" deste processo e que Sócrates esta preso por um crime que não existe: "enriquecimento ilícito".
A defesa de Sócrates acusa o Ministério Público (MP) português de ter retido propositadamente durante um ano a carta rogatória das autoridades suíças.

ADITAMENTO em 11 de Abril:

Ontem num programa de tv que congrega os comentários de Paulo Morais e Marinho e Pinto, aquele disse publicamente que José Sócrates tem que explicar a origem do dinheiro que usufruiu por conta de um amigo, por causa deste ter sido administrador de uma sociedade que foi favorecida em muitos milhões de euros enquanto aquele foi primeiro-ministro.
Marinho e Pinto concordou, mas apenas na parte da responsabilidade política. Na penal, não. Nesta parte, a explicação caberá a quem acusa...
Paulo Morais sugeriu que José Sócrates é um corrupto, Marinho e Pinto concordou. Porém, só com decisão transitada em julgado o poderá ser...caso contrário teríamos a repristinação dos processos que condenaram por exemplo um Thomas More, em que um acusado que não fale é condenado. Marinho dixit...Morais perguntou se era a mesma coisa, um caso e outro, Marinho embatucou e continuou na sua.

Este Marinho é um ponto...


quinta-feira, abril 09, 2015

Champallimaud e João Martins Pereira. Quem tinha razão?

Tenho escrito e parece-me cada vez mais evidente que após o golpe militar de 25Abril de 1974, se mantivéssemos o sistema produtivo que existia à época, com  os capitalistas e grupos económicos subsistentes e a organização social assente nos valores então prevalecentes, teríamos ultrapassado a crise que então se apresentava no nosso país e ter-nos-íamos tornado noutro país, mais próspero e moderno.

No fundo, se tivéssemos mantido o anterior regime, liberalizando o sistema político e encontrado uma solução para o problema do Ultramar, não andaríamos hoje a discutir três bancarrotas em menos de 40 anos e uma situação económico-social que se afigura preocupante, com figurinhas políticas de baixa extracção e um ex-primeiro-ministro preso por corrupção.

Essa noção torna-se para mim mais evidentes quando se contrasta o pensamento politico-económico dos que alteraram as regras do jogo, nos meses a seguir ao 25A, ou seja a esquerda, incluindo a socialista democrática, com o que então era a nossa tradição e que aliás seguia a europeia, capitalista e burguesa.

O melhor exemplo que se pode ler para tal poder demonstrar-se reside no que sucedeu ao grupo Champallimaud, logo a seguir ao 25 de Abril.

Nestes recortes de revista Vida Mundial  de finais de 1974 e início de 1975 mostra-se o que pensava essa esquerda e o que dizia e pensava o próprio Champallimaud.

Preparando já o assalto às empresas privadas e grupos económicos que ocorreu após o 11 de Março de 1975, João Martins Pereira, falecido há relativamente pouco tempo e que era uma espécie de guru dos Louçãs e companhia esquerdista habitual, questionava na revista, no número de 5.12.1974,  a Siderurgia de Champallimaud.

Este, no número de 9 de Janeiro, respondia-lhe assim:
 




João Martins Pereira respondeu no número seguinte:


A resposta de JMP, do tipo das que Louçã hoje em dia debita  quase todos os dias na SICN, falha na explicação de uma coisa prosaica e simples de entender e que Champallimaud dizia claramente:

"Tivesse tido a Siderurgia Nacional o Estado como proprietário e ela não passaria hoje de um lamentável empreendimento a custar ao erário público, isto é, a todos nós, fortunas sobre fortunas, contribuindo, como tantos outros negócios para que alguns políticos impelem o Estado, para o agravamento sucessivo dos impostos e o retardamento da elevação do nível de vida da população".

 Foi exactamente isto que se produziu dali a meia dúzia de anos, já com uma bancarrota em cima.

A esquerda, essa, nada aprendeu, nada esqueceu e está na mesma, passados estes 40 anos.

Por isso estamos como estamos.

Quanto ao resto, ou seja aos recortes destes "pasquins",  é preciso lê-los para se entender o que informam.  Basta clicar nas imagens e ampliá-las noutra página...a não ser que não se dê qualquer importância a isto e tudo continue como dantes, na tranquilidade do realismo fantástico ou da loucura ambiente da esquerda reinante. A diferença entre ambos reside apenas no lugar de observação...

quarta-feira, abril 08, 2015

Portugal já teve um Império...criado por decreto.

Um estreito colaborador de Salazar, Armindo Rodrigues de Sttau Monteiro ( pai, além dos demais,  de um Luís Sttau Monteiro que fazia redacções da Guidinha, ainda antes de 25A e que esteve preso por ser esquerdista subversivo, apesar do pai que tinha...) foi o co-autor de um Acto Colonial, em 1930 que instaurou a ideia peregrinado nosso Império, à semelhança de outras grandezas europeias, já nessa altura em declínio colonial.

No livro recente de Manuel de Lucena, "Os lugares-tenentes de Salazar", Armindo Monteiro biografa-se em poucas páginas com algum detalhe neste aspecto. O livro recomenda-se vivamente a quem quiser conhecer melhor Salazar, através do velho ditado "diz-me com quem andas..." e a invenção do nosso Império relata-se assim:


Porém,  esta ideia fantástica de Império, era uma elaboração mental de Armindo Monteiro.
De facto, como escrevia Marcello Caetano em Dezembro de 1970, desde 1930 que se reconhecia constitucionalmente a autonomia das províncias ultramarinas que passaram a ser assim designadas com a abolição do Acto Colonial em 1951, com a respectiva matéria integrada na Constituição de 1933, então revista.





Conclusão: nunca tivemos um Império, a não ser num papel molhado que perdeu validade antes de se consolidar, na Constituição de 1933, revista em 1951. 

Além disso, a ideia estapafúrdia de Império que caira em desuso durante o séc.XX é digna de quem precisa de de tal.
A nós, tal como Marcello Caetano definiu. bastar-nos-ia uma Nação com um território que compreendia também províncias de além-mar, administradas de acordo com critérios objectivos de eficácia e realismo prático e nunca fantástico.

Mais uma vez, era Marcello quem tinha razão...

Ontem, um programa da RTP1 que foi um frete. Mais um.

O programa da RTP1, 5 para a meia-noite, agora recomeçado, costuma ver-se bem, quando calha.

Ontem, o convidado era o advogado Araújo e o convite terá partido do animador, um tal Zé Pedro Vasconcelos, aparentemente muito dado às artes teatrais e publicitárias.

Começou a entrevista com uma rábula acerca do filósofo Sócrates para chegar logo ao verdadeiro assunto da causa.
Durante toda a breve entrevista ao advogado Araújo o tema foi o actual recluso 44 que, coitado, está inocente e a justiça está uma lástima e até há medo em Portugal e o juiz único é um problema sério "não é?" e isto nunca mais acaba "pois não?" e temos este problema em Portugal em que um antigo primeiro-ministro está preso e não se sabe de quê , " isto não é estranho?" e afinal os juízes é que deveriam mandar nos tribunais, sózinhos porque esse é o principal problema da justiça e o antigo primeiro-ministro não se defende e quem acusa tem que provar e afinal ainda não há provas " o que é terrível, não é?" e isso é mesmo terrível porque o zé pedro foi ali fazer um frete ao antigo primeiro-ministro e entourage que aparentemente frequenta ou é das suas amizades políticas ou de interesses difusos. E  se não é, parece, sendo certo que em política assim é porque foi o que esteve ali a fazer o tempo todo. Quem lhe paga é o erário público e por isso isenção precisa-se. Se quiser rabular a favor de alguém que vá para o teatro! E quem pagar bilhete que lha bata palmas.

Este programa com o tal Zé Pedro que  se ri muito com aquele ar de bico-de-pato,  foi um nojo. Mais um. Para fretes destes já basta a SIC e a TVI. Juntar a RTP ao lote é preparar o futuro que pode muito bem sair furado...
O cardápio das tv´s, ontem e antes das doses maciças de futebol falado, congregou o fradique Louçã, a fraldiqueira Catarina Martins, o supino Silva que sabe de sarjetas como poucos e quejandos comentadores que todos os dias se repetem na azáfama de atacar quem está no governo para poderem vir a estar. A estação mais empenhada na tarefa é a da Lourença mas as demais estão apostadas em lhe pedir meças. 

terça-feira, abril 07, 2015

O SIS e a malta assanhada: tudo favas contadas


Conforme se lê nesta notícia que transcreve partes de um acórdão, o SIS de Júlio Pereira, durante o ano de 2014, andou a ajudar um arguido que agora está preso por factos em que aqueles serviços não tinham que se intrometer.
O actual governo, Passos Coelho pessoalmente,  em vez de despedir sumariamente o tal Júlio, apaparicou-lhe outra vez o comando. Não se compreende.  Nem se aceita. É um escândalo que não tem explicação, o que dá azo a suspeitas ainda maiores.
Para os envolvidos isto já são favas contadas de irrelevância. Veremos se a "malta assanhada" vai nas tretas.

E isto que vem a seguir na notícia ainda mais incrível se torna e demonstra que os magistrados, particularmente os juízes,  não deviam ocupar lugares assim,  senão depois de testes psicotécnicos apurados e mesmo assim, nunca fiando...

Sendo certo que as nódoas caem nos melhores panos, também o Rifoneiro ensina que a ocasião faz o ladrão e ou se é verdadeiramente imune a este tipo de solicitações de almoçatas e passeatas e videirinhas parolas ou então o resultado é este:

É preciso também que se escreva que por coincidência foi depois destes acontecimentos e doutros ocorridos no ano passado que o juiz Carlos Alexandre ouviu um desmiolado a dizer para se "cuidar"... e teve outros dissabores de quem sabe da poda e sabe como as fazer pela calada do anomimato. Canalhas...


ADITAMENTO em 8.4.2015:

O jornal i de hoje continua a noticiar sobre o assunto e escreve que no acórdão da Relação há indicação de que os arguidos foram avisados da investigação quando esta ainda se encontrava em estrito segredo de justiça, conhecido apenas por uma escassa dúzia de pessoas entre procuradores e inspectores da PJ.
A violação de segredo, uma das mais graves de sempre, a par com a ocorrida no processo Face Oculta, poderá ter partido de alguma dessas pessoas e colocou em causa a investigação porque permitiu aos arguidos destruirem provas e passarem a comportar-se como se fossem inocentes, sabendo que estavam a ser investigados e escutados.

O editorial do i é este, realçando a gravidade de uma situação e que não é para menos:


SEGUNDO ADITAMENTO:

SicN:

O Ministério Público arquivou o segundo inquérito contra o juiz Carlos Alexandre. O inquérito visava mais uma vez apurar, com base numa denúncia anónima, se o juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal tinha ou não violado o Segredo de Justiça. Desta vez, a denúncia ia mesmo mais longe, a ponto de afirmar que o juiz estaria mesmo refém de um jornalista a quem passaria toda a informação.


A vida anda a correr mal para quem aposta na canalhice...

Marcello Caetano e a herança jacente de Salazar II

Aqui ficam mais uns textos sobre o terceiro ano de Governo de Marcello Caetano, publicados no livro homónimo em 1971.

Estes textos demonstram sem margem para qualquer dúvida que Marcello Caetano foi um continuador da obra de Salazar ajustando-a às exigências do tempo mas sem a adulterar na sua essência. Provavelmente fez o que Salazar teria feito em seu lugar.

Para rebater estas ideias é preciso ler os textos...porque escrever de cor não vale.  Isto não são recortes de jornal mas de livro e demora muito menos a realizar do que transcrever os textos.
Por outro lado isto não se encontra em lado algum e duvido que alguém tenha consultado isto para escrever sobre Marcello Caetano. Há muitos eruditos de saber já feito e opiniões prontas a emitir, juntando um pouco de pó de preconceito e de água de esquecimento. O micro-ondas da escrita faz o resto.
Porém, manuseando os ingredientes todos e esperando a cozedura certa, demora mais tempo, saindo mais saboroso.












Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso