sábado, janeiro 14, 2017

Outra Geringonça, se calhar

Observador:

É uma associação, mas ainda não é um partido. Tem membros, mas ainda não tem militantes. Tem uma visão de sociedade, mas ainda não tem um manifesto final. Um grupo de liberais — sem medo de serem acusados de “papões neoliberais” — criaram em setembro a Associação Iniciativa Liberal. O objetivo final é criar um partido liberal em Portugal, ao estilo do Ciudadanos (Espanha) ou dos Lib Dems (Reino Unido). Já começou a recolha de assinaturas para a constituição de um partido que, no espectro político, estará situado ao centro (entre o PSD e PS).

Estes novos "Liberais" que assim reinventam a roda política, têm no seu seio o "politólogo" ( será que o mesmo aceita o epíteto?) José Adelino Maltez um "liberal" sufragado pela Maçonaria, imagine-se!

E que diz Maltez sobre o liberalismo luso?

Isto, por exemplo:

 O politólogo diz que nem sabe “dizer se o mais liberal é Passos, se é Costa, que é herdeiro do partido com mais liberais políticos”. Quanto ao partido que poderá surgir da Iniciativa Liberal, Adelino Maltez explica que seria “claramente à direita de Costa e à esquerda de Passos Coelho”.

Está tudo dito sobre o novel partido que virá a ser, se calhar.

O seu secretário-geral, como assessor, poderia ser um tal Marques Lopes que costuma figurar numa estação de tv, sempre em tristes trajes de luces liberais.

Vasco Vieira de Almeida, outra vez...

Sobre o advogado "de negócios" Vasco Vieira de Almeida já escrevi várias vezes. Por uma simples razão: é outro dos "sombras" do regime que temos, uma vez que não aparece na ribalta a não ser quando se fala nele...e ultimamente tem-se falado por motivos pouco abonatórios e que acabam por esfumar-se na espuma dos dias, sem mais.

Hoje no Público ( que comprei exclusivamente por isso e pelo artigo de Pacheco Pereira a propósito de José Silva Marques, cuja leitura se recomenda) escreve um artigo de página à guisa de obituário de Mário Soares.
Vale a pena ler e destacar dois ou três pontos.



Primo: "se a ditadura assenta na força sem justiça, a democracia não sobrevive com uma justiça sem força". Um disparate porque referido ao Estado Novo. Desafio o autor a enumerar os casos da "força sem justiça", perpetrados pela PIDE/DGS, nos casos de prisões dos "subversivos" comunistas. Não basta citar a propaganda comunista, mas enumerar os casos que denotam a tal "força sem justiça" que se demarquem dos que ocorreram já em democracia e durante o PREC, por exemplo ou os que denotam o arbítrio puro que conduziram a condenações injustas e iníquas e não apenas os abusos que evidentemente existiram.
Os comunistas eram presos porque sabiam que não podiam legalmente existir como tal e propagandear as ideias subversivas. Pode discutir-se se tal estaria certo, mas não pode dizer-se que eram presos arbitrariamente e sem qualquer ideia de justiça, porque exista a  legalidade vigente que tal não permitia e punia. Isso não era força sem justiça. Os desmandos? Aconteciam como acontecem agora, embora com nuances. A tortura era proibida? Que tortura?  Enfim.

Secundo: "creio que a explicação da durabilidade e intensidade da acção política que desenvolveu [Mário Soares] está numa palavra-cultura. Cultura como conhecimento e compreensão dos valores da produção intelectual do país"

 Cultura? Que cultura? A jacobina, republicana e laica? É essa a única cultura que conta? E a que inclui Deus, Pátria e Família, para não ir mais longe,  é o quê? Incultura? Trogloditismo e selvajaria? Enfim, novamente.

Tertio: vai a seguir porque já foi em Junho de 2013, com um pequeno acrescento:

Vasco Vieira de Almeida foi responsável, como Pilatos, do que se passou em Angola, em 1974. Não teve força, inteligência, vontade, determinação, enfim, postura de Estado para fazer alguma coisa de jeito e evitar o banho de sangue que anunciou nessa altura, directamente resultante da nossa atitude, enquanto país, para as forças do MPLA a quem entregamos o poder de mão beijada. Isso é uma nódoa para a vida e Vasco Veira de Almeida ostenta-a permanentemente. Não se lava nem branqueia.


O resto vai a seguir e é um dos exemplos da corrupção que campeia em Portugal de há 40 anos a esta parte. Não a do Código Penal, explicitamente, mas a moral, a mais deletéria e mortífera para os valores de uma sociedade. O advogado VVA é também isto:


Vasco Vieira de Almeida, abaixo citado no jornal Diário de Lisboa de 12 de Julho de 1974, como sendo um ex-futuro candidato a ministro do II Governo provisório, foi ministro do primeiro, durante dois meses na coordenação económica.
Vasco Vieira de Almeida era, até ao 25 de Abril e segundo a Wiki, aliás muito parca em dados biográficos desta personagem central do actual regime, presidente da administração do Crédito Predial Português.

Em 17 de Dezembro de 1975, VVA foi retratado numa coluna no Expresso, a propósito de "quem é quem na descolonização".  VVA, então com 41 anos,  assume por isso uma faceta de Sombra do regime, a par de um Almeida Santos e outros. Um submarino que submergiu na política nacional logo a seguir ao 25 de Abril, de modo que o seu nome foi logo escolhido para o governo.

"É grande amigo de Marcelino dos Santos, Agostinho Neto, Arménio Ferreira, Melo Antunes", escrevia o Expresso, onde aliás era colunista na página de Economia. "Sempre se achou um líder" dizia dele Fonseca e Costa, o cineasta.
Esteve preso pela PIDE, por motivos que explica por aqui., numa entrevista de 2001 ao Público  Esteve preso 15 dias e depois disso, já advogado, um director-geral de um banco, do BPA, convidou-o para trabalhar no banco. O modo como VVA explica o convite- feito depois de o presidente do banco ter indagado na faculdade sobre o que "havia de melhor"- e o folclore à volta do mesmo é interessante. Diz que se apresentou à entrevista com um livro de Marx ( na realidade de economia marxista, de Maurice Dobb que era recomendado em 1975 na faculdade de direito de Coimbra pelo professor Aníbal Almeida, já falecido-nota minha) debaixo do braço ( em 1959...), "desculpando-se de não poder aceitar  o convite, visto possuir uma formação marxista que de modo algum se coadunava com a banca". Mas ficou e a explicação que dá para a contradição é fascinante e relata mais sobre a personalidade e o carácter do que muitas linhas de biografia. Há uma explicação mais detalhada na mesma entrevista de 2001.



Em seguida ao primeiro governo provisório esteve em Angola, onde assumiu funções governativas no governo de transição e certamente passou pela saída apressada dos "retornados", com todo o cortejo de desgraças que a "descolonização exemplar" lhes trouxe. Não se dá por achado, o que revela numa pequena entrevista  ao primeiro número do jornal a Luta de 25 de Agosto de 1975 ( jornal do PS e dirigido por Raul Rego).


 E depois disso, segundo o Sempre Fixe de 21 de Setembro de 1974, foi embaixador. Em Paris.. Paris é sempre uma festa...mesmo quando se estava já ligado ao grupo Bulhosa, depois de se ter sido empregado de Cupertino de Miranda, mesmo na administração.


Vasco Vieira de Almeida tem assim um currículo imbatível- foi esquerdista, até do MUD-Juvenil, foi ajudante de banqueiro e administrador de banco capitalista; foi governante, conheceu por dentro o deslize de Portugal do capitalismo para o socialismo, apoiou tal mudança, associou-se ao esquerdismo comunista e acabou onde está: na advocacia de negócios mais liberal que pode haver e mais dependente do Estado que existe em Portugal porque cingida aos negócios de alto gabarito dominados pelos governantes.

A sua firma de advocacia tem já currículo como uma das poucas firmas que outro personagem lendário destas lides disse em tempos serem de consulta obrigatória para o Estado. E foram e têm sido...

Recentemente, em 2012, noutra entrevista ao Jornal de Negócios disse uma coisa espantosa, já por aqui comentada:


Outra coisa espantosa que disse em 2001, ao Público: A entrevistadora, Maria João Seixas. uma esquerdista, perguntou-lhe qual "a pior herança que o regime fascista nos legou e que ainda se faça sentir na sociedade portuguesa? " Resposta: "o conformismo e o corporativismo. "


Passada uma década, ao Jornal de Negócios, sobre o mesmo tema dizia isto: que continua a existir o corporativismo, ainda pior que dantes.


Resta saber o que VVA fez de útil e positivo, no campo da sua actividade, para acabar com aquilo que considera a pior herança de 48 anos que se prolongaram por mais 40...tendo em conta o modo de actuação das firmas de advocacia no nosso país, actualmente. E saber, principalmente, se Salazar ou Caetano permitiriam a maior pouca-vergonha de que essas mesmas firmas dão mostras, em vários casos de intervenção medianeira em negócios do Estado, na parecerística avulsa que prestam ao Estado a troco de milhões e na mais completa ausência de escrúpulos morais quando se diz, como Júdice disse que o Estado tem a obrigação de consultar essas firmas. 


De facto, o percurso biográfico de Vasco Vieira de Almeida tem encalhado ultimamente nos escândalos mais mediáticos dos últimos anos.
Esteve ligado ao Freeport e está ligado aos submarinos que Ana Gomes anda agora a tentar desvendar com a delicadeza e savoir-faire que se lhe conhece, porque se apercebeu que pode entalar Paulo Portas ou Durão Barroso.
No Freeport participou no negócio principal e sabe com certeza todos os pormenores do mesmo, designadamente o que os ingleses pensam e disseram, publica e particularmente sobre o caso e o então governante José Sócrates.
Sobre os submarinos e o negócios de quase mil milhões de euros, do Estado português com a Ferrostaal ou empresa subsidiária desta, sabe ainda melhor porque participou igualmente no negócio, representando os...alemães.
Estes, concluíram nas respectivas instância judiciais que houve grande corrupção no caso e até identificaram a fonte de corrupção concreta e os destinatários, num processo cujo embrulho é de muitas camadas e difícil de lidar pelo DCIAP português, cuja habilidade e competência profissional está à prova. O assunto já vem de final dos anos noventa e por isso é de temer o pior, tendo em conta a especial complexidade do esquema corruptivo, com a criação de empresas fantasma e testas-de-ferro como modus operandi, misturados em off-shores e empresas espalhadas por vários cantos do mundo.
Tudo isso foi já aflorado nos media, e comentado aqui, aqui e aqui. E também aqui. Com uma boa resenha do essencial , por aqui 
O nome de Vasco Vieira de Almeida surge assim associado a este caso dos submarinos, bem ou mal e há outros nomes na berlinda, referenciados por aqui, deste modo:  Helder Bataglia dos Santos, quadro do Grupo Espírito Santo (GES), Luís Horta e Costa, ex-presidente da ESCOM, empresa do GES que prestou assessoria ao consórcio alemão, Miguel Horta e Costa, ex-presidente da PT, o advogado Vasco Vieira de Almeida, entre outros.
Quanto a Helder Bataglia, o tal quadro da Escom ( já vendida como coisa que queima e agora toda virada para Angola) é uma referência que merecia maior história publicamente conhecida. Está todo integrado em Angola...

Por causa disto, a firma e o escritório de advocacia de Vasco Vieira de Almeida foi alvo de buscas, o que é quase inédito em Portugal e deu azo a protestos dos incomodados do costume.

A questão que se coloca neste contexto é delicada e permite avaliar o balanço de um quase quarenta anos de democracia:

Seria possível a Vasco Vieira de Almeida, enquanto advogado prosperar como prosperou, com um regime como o de Marcello Caetano? Seria possível que Vasco Vieira de Almeida fosse advogado dos alemães, num negócio que envolveu muitos milhões de euros do Estado português?

O deslize moral que se verificou logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 em matéria deste teor, dos negócios de particulares com o Estado, porque é que ocorreu?
Que carácter e moral têm personalidades como Vasco Vieira de Almeida, suspeitos de se conluiarem, ou pelo menos terem conhecimento concreto disso mesmo,  em actos de corrupção gravíssimos e gravosos para o Estado quando foram indivíduos que atentaram contra o regime anterior, a quem apodavam de várias coisas e vituperavam a corrupção que então nem sequer existia com este nível e desembaraço?
Onde pára afinal a moralidade? Agora ou antes?
E uma  final: é esta a Esquerda que Vasco Vieira de Almeida representa e em que acredita?

São estas perguntas que ficarão eventualmente sem resposta mas que se impunha fossem discutidas na praça pública.

Em coda e porque me parece necessário, tenho a dizer que não me parece que Vieira de Almeida seja corrupto, no sentido corrente da expressão e com laivos criminais. Não é bem isso. É outra coisa ainda pior: Vieira de Almeida, tal como Proença de Carvalho ou Júdice ou mesmo Sérvulo Correia ( impoluto nesse aspecto, parece-me) é uma das figuras deste regime corrupto que temos. Essencialmente, visceralmente corrupto como nunca o foram os regimes de Salazar e Caetano. Dificilmente se lhes apanhará seja o que for susceptível de ser julgado por um tribunal colectivo e para opróbrio final. Não creio em tal acontecimento porque o sistema que ajudaram a gizar os livra de tais incómodos e vilipêndios públicos. E não apenas por causa das dificuldades processuais, mas por outra coisa ainda pior: o regime acaparou-se de leis e regulamentos que legitimam essa corrupção endémica que mina qualquer Estado, como nunca o salazarismo ou o caetanismo foram capazes de fazer, ainda que o quisessem- e não quiseram, sendo isso um facto indesmentível, quanto a mim.
É esse o problema maior e Vieira de Almeida, por quem foi e por quem é, sabe que assim é. 


sexta-feira, janeiro 13, 2017

O povo e os apaniguados nos funerais de Estado

Parece que terá ido pouca gente ao funeral de Mário Soares e isso incomoda certos oráculos que eventualmente esperavam uma manifestação política demonstrativa da importância supostamente lendária do visado, merecedora do epíteto canhestro de  "pai da democracia" .

As revistas de "sociedade" mostram hoje a pindérica ausência de um povo  que se presumia presente em contraste com a maciça presença numérica dos notáveis que homenagearam um dos seus.
Torna-se por isso interessante ver quem foi ao enterro para se perceber a  nossa sociedade actual e a sua nomenklatura de interesses e referências.

Mário Soares, através de um partido que liderou ideologicamente durante décadas e do poder que alcançou através dele, agregou os militantes, apaniguados, simpatizantes e aboletados de vária espécie no regime que ajudou a criar.
O enterro de Mário Soares é também um retrato de um certo país em que o povo não está representado, mas apenas os que o regime adoptou.

Nestas imagens que seguem não estão todos, claro. Mas estão os que dominam os media. Aliás, o enterro foi isso: mediático.

Lux com data de 16.1.2017


Nova Gente com a mesma data:


Agora compare-se com o que sucedeu em 30 de Julho de 1970, em alguns dos mesmos locais de Lisboa. A reportagem é do Século Ilustrado de 1.8.1970, assinada entre outros por Maria Antónia Palla, mãe do babush que foi à Índia e é actual primeiro-ministro de Portugal.







Da comparação resulta uma evidência: a democracia prescinde de povo no funeral do seu pai putativo...mas não suporta a ausência dos seus apaniguados, filhos bastardos de um regime que se perverteu
Pelo contrário, o regime odiado pela democracia e vilipendiado como fassista teve povo a rodos no funeral do seu máximo representante e poucos apaniguados visíveis.
A História já não é o que era.

Só uma nota mais: consta que um dos militares que acompanharam o féretro e ajudaram a transportar o caixão, teria sido, nem mais nem menos que...Otelo Saraiva de Carvalho. A fonte é de boa cepa e si non e vero e ben trovato. Mas carece de confirmação. Do próprio, se calhar. Ou talvez não porque sempre teve propensão para actor...

quarta-feira, janeiro 11, 2017

Para que conste: o Correio da Manhã não violou o segredo de justiça no caso Marquês, de José Sócrates.



Ainda sobre o Correio da Manhã: é o jornal que melhor tem feito a "cobertura" do funeral de Mário Soares. Embora a redacção seja apologética do antigo dirigente do PS que considera ter sido o "pai da democracia" e sei lá do que mais, revelando uma costela esquerdista que virá da juventude, a verdade é que as fotos e textos se aproximam do que deveria ser a notícia dos jornais, nestes dias. Tenho folheado os outros jornais e compro este, porque é o melhor nessa parte das notícias do dia.

Por outro lado, uma certa "elite" de pachecos e mais zé pereiras, é descamada hoje nesta crónica de Francisco José Viegas, com muita propriedade e acerto:


De resto, como o CM reporta e mais ninguém o fez ou fará, a cerimónia do enterro correu muito bem. Como de costume, com a indigência habitual de quem não sabe sequer distinguir a verdadeira bandeira nacional que surgiu com a República laica de um qualquer farrapo lustroso feito no Oriente ou num vão de escada de empresa clandestina.


Entretanto a vidinha prossegue...

CM de segunda-feira:


O Bando de Portugal precisava de alguém que lhes prestasse uns serviços de natureza jurídica, durante três semanas ( 20 dias).
 Como parece que  o BdP anda muito desfalcado de juristas ( três concursos, anos seguidos...e continuam) e até nem tem corpo especializado, nem nada, ganhando muito pouco os seus funcionários, (uma média de quase cinco mil euros por mês) viu necessidade premente em escolher alguém com talento próprio para tal.

Eduardo Paz Ferreira foi o feliz contemplado, certamente depois de aturado escrutínio entre as centenas de candidatos prováveis, especializados na matéria e que trabalham na advocacia, suando as estopinhas para mostrar que sabem do assunto nos tribunais fiscais e administrativos. E alguns sabem mesmo, muito mais que os Ferreiras deste país que lhes caiu no regaço. Entre todos ninguém mais que Eduardo Paz Ferreira, fundador do PS, professor de direito fiscal e presumido especialista na matéria, se apresentou com melhor currículo. Logo, é ele que vai empochar os 35 mil euros da "avença" que muita falta farão, certamente, para pagar os vencimentos dos advogados  que trabalham no escritório e que devem ganhar a miséria do costume ( não certamente os 5 mil euros por mês que o BdP paga...).
Porém, ninguém se lembrou de indicar ao responsável da escolha. noo BdP,  que EPF foi administrador da CGD durante uns anos e até presidente da sua comissão de auditoria. Também parece que ninguém se lembrou de dizer que EPF é casado com a actual ministra da Justiça e que o BdP e a CGD têm contenciosos com o Estado- e de que maneira!- e que a promiscuidade entre estes poderes aconselhava uma higiénica separação destas pessoas que lidam com estes assuntos de modo sorrateiro e de que ninguém se apercebe porque ficam sempre no silêncio dos gabinetes vazios.

A corrupção não é apenas um artigo no Código Penal. É um fenómeno sociológico que se evitaria se houvesse outra visão ética das coisas. Mas não há...apenas se vê algum fogo de vista, muita parra, pouca uva e uma tremenda condescendência com os poderes de facto.

Portugal é uma choldra muito por causa disto.

Nota: por lapso de escrita ficou "Bando de Portugal". Mas pensando bem, fica mesmo bem assim.

terça-feira, janeiro 10, 2017

A nova sociedade portuguesa do espectáculo

No final dos anos sessenta do séc. XX foi vulgarizada a obra de Guy Debord, A Sociedade do espectáculo cujas premissas estão assim definidas na Wikipedia:

Le spectacle est une idéologie économique, en ce sens que la société contemporaine légitime l’universalité d’une vision unique de la vie, en l’imposant aux sens et à la conscience de tous, via une sphère de manifestations audio-visuelles, bureaucratiques, politiques et économiques, toutes solidaires les unes des autres. Ceci, afin de maintenir la reproduction du pouvoir et de l’aliénation : la perte du vivant de la vie.

Aussi le concept prend plusieurs significations. Le « spectacle » est à la fois l'appareil de propagande de l'emprise du capital sur les vies, aussi bien qu'un « rapport social entre des personnes médiatisé par des images »
.

 Em 5 de Dezembro de 1980 o então primeiro-ministro Sá Carneiro e mais Adelino Amaro da Costa, também governante e outros acompanhantes pereceram num desastre de avião em Camarate que ainda hoje suscita dúvidas acerca da eventual origem criminosa.

Dali a três dias realizar-se-iam eleições presidenciais em que aqueles líderes políticos apoiavam um candidato que se opunha ao general Ramalho Eanes, apoiado por toda a esquerda, com a excepção dos extremistas.
Com aquelas mortes desvaneciam-se a maior parte das hipóteses, aliás já reduzidas de o candidato daqueles poder ser eleito.
No Sábado, dia 6 de Dezembro, como relata O Jornal de 9 de 12.1980, "o corpo de Sá Carneiro foi passeado pelas ruas de Lisboa, sob os olhares de milhões de espectadores que seguiram o cortejo através da TV."
 A televisão já era a cores mas ainda havia poucos aparelhos que assim transmitiam. Proença de Carvalho era o então presidente da RTP e primeiro responsável pela emissão do referido dia de espectáculo funéreo.

Os principais jornais da época referiram o acontecimento assim.

O Expresso quase nem deu relevo para além de escrever ( Benjamim Formigo, Maria João Avillez, Madalena Fragoso, entre outros) sobre o acontecimento e suas consequências políticas e pessoais.

O Jornal foi mais além e denunciou "os mercadores de cadáveres", no dizer do articulista Augusto Abelaira, um intelectual da elite de esquerda moderada o regime.




Se fosse hoje vivo, o que escreveria Abelaira sobre o espectáculo dos  novos "mercadores de cadáveres", particularmente com o que se passa em todas as televisões que se copiam umas às outras?

Falaria Abelaira e os intelectuais de esquerda na "sociedade do espectácul" assim exposta de forma tão nua e crua?



 Entretanto o primeiro-ministro de Portugal foi à Índia, terra do pai e fez estas figuras, além-mar:


O espectáculo continua...



segunda-feira, janeiro 09, 2017

Carlos Melancia e Rui Mateus não falam sobre a vida de Mário Soares?

Daqui, um lembrete de acontecimentos funestos que prejudicaram Portugal, neste dia de cerimónias fúnebres:
 

Mário Soares ainda cumpria o seu primeiro mandato como Presidente da República mas já pensava no segundo. Não lhe passava pela cabeça viver menos de uma década no Palácio de Belém - e, concluiu, nunca o conseguiria se não tivesse o apoio de um grupo de comunicação social. Problema: por aqueles dias, Soares considerava que a imprensa lhe era hostil. Solução que encontrou: promover a criação do seu próprio grupo, que funcionasse como uma espécie de ponta de lança da sua agenda política – e se, pelo caminho, ainda fosse possível fazer algum dinheiro para financiar o Partido Socialista (PS), tanto melhor. Foi assim que nasceu a Emáudio.
Para ficar à frente da empresa, o Presidente, que formalmente não podia ter nada a ver com o projecto, escolheu um homem da sua total confiança: Rui Mateus, seu braço-direito e presidente da Fundação para as Relações Internacionais (FRI) [uma entidade inspirada por Soares, alegadamente criada para gerir interesses ligados a si e ao financiamento do PS], que ficou com 60% do capital. Os restantes 40% foram divididos por oito sócios, todos próximos de Soares, como eram os casos de Carlos Melancia, João Soares ou Almeida Santos.
A captação do dinheiro necessário para os grandes investimentos foi feita ao mais alto nível. Sílvio Berlusconi, o magnata da comunicação social italiana que viria a tornar-se Primeiro-Ministro, foi o primeiro convidado a apresentar uma proposta a Soares. Apesar do pequeno show que montou no Palácio de Belém – onde instalou um mini-estúdio de televisão para impressionar a assistência –, o excêntrico empresário ficou pelo caminho. O candidato seguinte foi sugerido por Frank Carlucci, ex-embaixador americano em Lisboa e velho conhecido de Soares, que apresentou o nome do australiano Rupert Murdoch, dono do gigante da comunicação social News Corporation, como uma possibilidade.
Em Março de 1987, já depois de ter enviado representantes para negociar com Rui Mateus, Murdoch deslocou-se a Portugal, onde após um jantar em Belém com Mário Soares firmou um acordo com Mateus com vista à criação conjunta de uma empresa destinada a investimentos nos media em Portugal e nos territórios de língua portuguesa – e Macau estava no seu radar.

Também Murdoch acabaria por ficar pelo caminho, varrido por um terceiro gigante dos média: Robert Maxwell, o seu rival número um que, segundo relata Rui Mateus em Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido, conquistou Soares ao sublinhar que "os nossos muitos milhões de leitores, dos nossos seis jornais de grande circulação na Grã-Bretanha, necessitam e desejam conhecer mais, da mais alta autoridade, o pensamento e os planos do primeiro socialista da Europa".

O ego de Soares não resistiu a tanto carinho: não passaria muito tempo até que a ligação fosse oficializada. "Com muitas dezenas de milhar de contos 'oferecidos' por Maxwell em 1987 e 1988, com consideráveis verbas oriundas do 'ex-MASP' [Movimento de Apoio de Soares à Presidência] e uma importante contribuição de uma empresa próxima de Almeida Santos, houve o suficiente para aumentar o capital da empresa de cinco para cem mil contos, para comprar um prédio no Príncipe Real e equipá-lo com algum luxo", descreve Rui Mateus.

Rapidamente se percebeu que o objectivo basilar de Maxwell era Macau, o admirável território onde havia tantos milhões de patacas para distribuir e para onde Soares nomearia brevemente como Governador o seu amigo e camarada Carlos Melancia. O empresário sugeriu a criação de um canal de televisão sob administração portuguesa. Soares, ou os seus próximos por si, criaram condições para que isso acontecesse, abrindo a possibilidade da entrada no capital da Teledifusão de Macau (TDM). Tudo parecia correr bem até que Maxwell decidiu recuar, comunicando aos sócios da Emáudio o seu desinteresse em continuar. Mas já muito tinha sido feito até àquele momento – e nem tudo de forma limpa.

Em 1988, o Expresso noticiou um esquema de alegado tráfico de influências em favor da Emáudio no processo de privatização da TDM, colocando Soares de nervos em franja – a sua reeleição podia ser posta em xeque caso o seu nome fosse associado repetidamente ao caso. Paralelamente, os interesses da Emáudio em Macau tinham evoluído para outros sectores. E quem apareceu para lhe "dar a mão" na viagem ao sempre agitado submundo da economia macaense? Stanley Ho, o dono do jogo macaense, milionário encartado e homem mais influente do território. Ofereceu-se para entrar no capital da Emáudio. Rui Mateus garante que fez tudo para que isso não acontecesse. Sem efeito.

O aeroporto que estragou o sonho
Um dos grandes projectos de Carlos Melancia era a construção de um aeroporto internacional em Macau. Um investimento faraónico que movimentaria muitos milhões de patacas e em que a Emáudio acabou por se ver envolvida. Conta Rui Mateus que um dia depois da tomada de posse de Carlos Melancia como Governador, recebeu instruções da secretária da Presidência da República, Osita Eleutério, para receber o "camarada" António Strecht Monteiro, filho de um militante do PS amigo de Mário Soares. Monteiro representava os interesses de uma empresa pública alemã, ligada ao partido SPD, que administrava o aeroporto de Frankfurt. Objectivo: garantir que, agora que o Governador mudara, a empresa alemã continuaria, como até então, ligada ao projecto do novo aeroporto. 

Em 1988 Strecht Monteiro contactaria novamente a Emáudio, mas desta vez em representação da Weidleplan, uma empresa germânica de consultadoria que pretendia, também ela, estar envolvida no projecto do aeroporto. "Pediam-nos apenas que lhes abríssemos portas (…) Como era habitual nestas situações, o alemão Peter Beier [director da empresa] prometia um donativo político de 50 mil contos [hoje seriam cerca de 250 mil euros] à organização que lhe indicássemos. E, uma vez mais, como sempre acontecera, informámos Mário Soares, os sócios da Emáudio e (…) Carlos Melancia, todos concordando com a proposta desde que a Weidleplan estivesse disposta a submeter-se às regras e aos eventuais concursos", continua Rui Mateus, um homem cujo paradeiro é hoje desconhecido.

Feito o acordo, o dinheiro foi transferido para a Emáudio. Mas um pequeno percalço deitou tudo a perder: a Weidleplan acabou por ficar de fora do projecto por decisão de Carlos Melancia, que escolheu a Aeroportos de Paris para a prestação de serviços de consultadoria. O caldo estava entornado. Apertado pelos alemães para "cobrar" a contribuição, Strecht Monteiro exigiu a Mateus uma conversa com Melancia. Mas este já não lhe ligava.

Foi então que Rui Mateus - que entretanto caíra em desgraça junto de Soares, Melancia e restantes sócios da Emáudio por se recusar a abdicar da sua quota na empresa em favor de um projecto ligado à Fundação Mário Soares - teve uma ideia: porque não tentar contactá-lo por fax? "Ofereci-me logo para lhe dar o número de fax de casa do Governador (…) Naquela altura eu não estava exactamente na melhor das relações com Mário Soares ou Melancia. Estava (...) furioso e, num aparte, acrescentei que aproveitasse para lhe pedir a ele o dinheiro, uma vez que tinha ficado com ele", descreve em Contos Proibidos.

Dois dias depois, quando Mateus chegou ao seu gabinete tinha em cima da secretária uma cópia do fax que efectivamente fora enviado. "Nele lamentavam não terem 'ainda recebido qualquer resposta referente ao projecto do Aeroporto de Macau' e, salientando terem cumprido os desejos de Melancia 'em termos financeiros', pediam para reaver o dinheiro gasto. Aproximadamente cinquenta mil contos pagos 'de acordo com as suas instruções' e juros de 9%!"

Carlos Melancia, a quem aquele documento deixava em muitos maus lençóis, ignorou a sua recepção, numa decisão que viria a perceber ter sido trágica. Mas Rui Mateus estava disposto a levar o caso às últimas consequências. Acreditava que a Emáudio tinha o "dever moral" de devolver o dinheiro à Weidleplan. E recusava sair prejudicado caso a Emáudio fosse liquidada, como tudo indicava que iria acontecer. Em meados de Janeiro de 1990, telefonou a Strecht Monteiro, ameaçando-o com a possibilidade de revelar o fax à comunicação social. Em Fevereiro de 1990, naquilo que classificou como um "acto desesperado", Rui Mateus entregou mesmo, contra a vontade dos seus autores, uma cópia do fax alegadamente incriminatório ao jornal O Independente. Um míssil que sabia que, uma vez rebentado, não deixaria pedra sobre pedra. E não deixou mesmo.

Na manhã em que a história fez manchete, Melancia recebeu muitas chamadas. A primeira foi de Jorge Coelho – o homem que lhe deu a notícia. A sua reputação estava de rastos. Em Portugal falava-se de suborno e de corrupção. Pouco depois, ligou-lhe o inevitável Stanley Ho.

- Senhor Governador, queria falar consigo, pode ser?

- Sim, claro. Passe cá no palácio.

Face a um Melancia desolado, o empresário foi directo ao assunto.

- De que é que precisa, em que posso ajudá-lo?

O Governador ainda acreditava que sobreviveria apenas com a protecção de Soares.

- Deixe lá, isto é uma intrigalhada que tenho de resolver com o Presidente da República.

Stanley acenou com esferas de influência ao mais alto nível.

- Pensa que seria útil se eu activasse os meus contactos no Governo chinês?

Melancia continuava em negação.

- Acho que não, isto é algo que pode prejudicar muito a imagem de Portugal, mas vou tentar resolvê-lo em breve.

A repercussão da notícia foi brutal. Soares foi colocado instantaneamente em xeque. Teria ele tomado conhecimento da existência do fax? Qual a sua real ligação ao projecto megalómano da Emáudio? Melancia pediu-lhe uma audiência. Juntos haveriam de encontrar uma solução digna para os dois. Quando chegou a Belém apanhou um banho de água fria: Soares estava mais preocupado com a sua imagem pessoal do que em defender a reputação destroçada do amigo. "Senti-me atraiçoado. Percebi que ele estava dedicado a assegurar a sua reeleição e que isto era um problema que dispensava", viria a declarar.

O castelo de cartas desmoronava-se à sua frente. As dúvidas em torno das suas responsabilidades no caso, alimentadas ao longo de vários meses pelas notícias  - sobretudo as publicadas no Expresso, em que o jornalista Joaquim Vieira expôs detalhadamente o escândalo -, tornaram, no espírito de Soares, inevitável a saída de Melancia. Aconselhou-o a demitir-se. Este resistiu. Achava que não devia nada a ninguém. Acabaria por não suportar a pressão. Quando aterrou em Portugal para entregar a carta de demissão, alguém lhe perguntou: "Bom, se tu alguma vez recebeste esta verba da empresa que perdeu, quanto é que recebeste da que ganhou?"

Depois de ter sido acusado de corrupção pelo Ministério Público, em 1993, o ex-Governador foi absolvido em tribunal. A absolvição foi confirmada nove anos depois pelo Supremo Tribunal de Justiça. No dia em que a sentença foi divulgada, Mário Soares ligou-lhe. Melancia mandou dizer que não estava.
 
 Fontes:

Soares, Uma Vida, de Joaquim Vieira - Esfera dos Livros

Jorge Coelho: o Todo-Poderoso, de Fernando Esteves - Esfera dos Livros


sábado, janeiro 07, 2017

O obituário adequado...


Proença de Carvalho:  "Soares gostava de tudo o que era agradável na vida"

 O obituário é de um Sombra do regime e fica tudo dito...

Portugal tem os heróis que merece e este é agora  um dos que mais conta. A nossa tragédia nacional também se reflecte nisto.

O José Manuel Fernandes embarca no mito e escreve assim:

 Não tenho grandes dúvidas que Mário Soares será julgado pela História da mesma forma. E que nessa altura o que dele recordaremos antes de tudo o mais é o seu papel na defesa da democracia no período revolucionário – quando o PS foi o grande dique que impediu que se concretizasse a profecia de Henry Kissinger, isto é, que se repetisse em Portugal o destino da Rússia em 1917, quando depois de uma revolução democrática (a de Fevereiro de 1917) tudo acabou por soçobrar quando se lhe seguiu uma revolução comunista (a de Outubro). Mário Soares não foi o “Kerensky português” (Kerensky foi o socialista russo que a revolução bolchevique trucidaria), e nesse momento isso deveu-se sobretudo ao seu instinto, à sua coragem e à sua determinação. E, claro, à sua liderança do país que resistia à vertigem revolucionária.

Soares foi mesmo um Kerenski, ao proporcionar ao PCP, a seguir ao 25 de Novembro, a garantia de continuar a mandar na intelligentsia no que se refere à linguagem corrente para designar a História do que se passou antes do 25 de Abril. E isso foi fundamental para termos nos últimos 40 anos um partido comunista que ainda existe quando todos desapareceram na Europa. Foi apenas isso que Mário Soares fez...
Se temos uma Educação que é orientada pelos sindicatos comunistas, a Mário Soares podem agradecer. Se temos uma organização económica sem capital e sem capitalistas como existiam antes do 25 de Abril de 74 ao PCP podem agradecer e também a Mário Soares que o apoiou nisso, aprovando a Constituição de 1976 que tal consagrou durante mais de 10 anos.

Quanto ao 25 de Novembro de 1975 se Mário Soares não existisse, o PCP ( e muito menos a extrema-esquerda que agora se acoita no BE)  nunca teria conseguido vencer a Igreja Católica e o povo. É isso que deve ser entendido por quem espalha mitos...

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso