Mário Soares ainda cumpria o seu primeiro mandato como
Presidente da República mas já pensava no segundo. Não lhe passava pela cabeça
viver menos de uma década no Palácio de Belém - e, concluiu, nunca o
conseguiria se não tivesse o apoio de um grupo de comunicação social. Problema:
por aqueles dias, Soares considerava que a imprensa lhe era hostil. Solução que
encontrou: promover a criação do seu próprio grupo, que funcionasse como uma
espécie de ponta de lança da sua agenda política – e se, pelo caminho, ainda
fosse possível fazer algum dinheiro para financiar o Partido Socialista (PS),
tanto melhor. Foi assim que nasceu a Emáudio.
Para ficar à frente da empresa, o Presidente, que
formalmente não podia ter nada a ver com o projecto, escolheu um homem da sua
total confiança: Rui Mateus, seu braço-direito e presidente da Fundação para as
Relações Internacionais (FRI) [uma entidade inspirada por Soares, alegadamente
criada para gerir interesses ligados a si e ao financiamento do PS], que ficou
com 60% do capital. Os restantes 40% foram divididos por oito sócios, todos
próximos de Soares, como eram os casos de Carlos Melancia, João Soares ou
Almeida Santos.
A captação do dinheiro necessário para os grandes
investimentos foi feita ao mais alto nível. Sílvio Berlusconi, o magnata da
comunicação social italiana que viria a tornar-se Primeiro-Ministro, foi o
primeiro convidado a apresentar uma proposta a Soares. Apesar do pequeno show
que montou no Palácio de Belém – onde instalou um mini-estúdio de televisão
para impressionar a assistência –, o excêntrico empresário ficou pelo caminho.
O candidato seguinte foi sugerido por Frank Carlucci, ex-embaixador americano
em Lisboa e velho conhecido de Soares, que apresentou o nome do australiano
Rupert Murdoch, dono do gigante da comunicação social News Corporation, como
uma possibilidade.
Em Março de 1987, já depois de ter enviado representantes
para negociar com Rui Mateus, Murdoch deslocou-se a Portugal, onde após um
jantar em Belém com Mário Soares firmou um acordo com Mateus com vista à
criação conjunta de uma empresa destinada a investimentos nos media em Portugal
e nos territórios de língua portuguesa – e Macau estava no seu radar.
Também Murdoch acabaria por ficar pelo caminho, varrido por
um terceiro gigante dos média: Robert Maxwell, o seu rival número um que,
segundo relata Rui Mateus em Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido,
conquistou Soares ao sublinhar que "os nossos muitos milhões de leitores,
dos nossos seis jornais de grande circulação na Grã-Bretanha, necessitam e
desejam conhecer mais, da mais alta autoridade, o pensamento e os planos do
primeiro socialista da Europa".
O ego de Soares não resistiu a tanto carinho: não passaria
muito tempo até que a ligação fosse oficializada. "Com muitas dezenas de
milhar de contos 'oferecidos' por Maxwell em 1987 e 1988, com consideráveis
verbas oriundas do 'ex-MASP' [Movimento de Apoio de Soares à Presidência] e uma
importante contribuição de uma empresa próxima de Almeida Santos, houve o
suficiente para aumentar o capital da empresa de cinco para cem mil contos,
para comprar um prédio no Príncipe Real e equipá-lo com algum luxo",
descreve Rui Mateus.
Rapidamente se percebeu que o objectivo basilar de Maxwell
era Macau, o admirável território onde havia tantos milhões de patacas para
distribuir e para onde Soares nomearia brevemente como Governador o seu amigo e
camarada Carlos Melancia. O empresário sugeriu a criação de um canal de
televisão sob administração portuguesa. Soares, ou os seus próximos por si,
criaram condições para que isso acontecesse, abrindo a possibilidade da entrada
no capital da Teledifusão de Macau (TDM). Tudo parecia correr bem até que
Maxwell decidiu recuar, comunicando aos sócios da Emáudio o seu desinteresse em
continuar. Mas já muito tinha sido feito até àquele momento – e nem tudo de
forma limpa.
Em 1988, o Expresso noticiou um esquema de alegado tráfico
de influências em favor da Emáudio no processo de privatização da TDM,
colocando Soares de nervos em franja – a sua reeleição podia ser posta em xeque
caso o seu nome fosse associado repetidamente ao caso. Paralelamente, os
interesses da Emáudio em Macau tinham evoluído para outros sectores. E quem
apareceu para lhe "dar a mão" na viagem ao sempre agitado submundo da
economia macaense? Stanley Ho, o dono do jogo macaense, milionário encartado e
homem mais influente do território. Ofereceu-se para entrar no capital da Emáudio.
Rui Mateus garante que fez tudo para que isso não acontecesse. Sem efeito.
O aeroporto que estragou o sonho
Um dos grandes projectos de Carlos Melancia era a construção
de um aeroporto internacional em Macau. Um investimento faraónico que
movimentaria muitos milhões de patacas e em que a Emáudio acabou por se ver
envolvida. Conta Rui Mateus que um dia depois da tomada de posse de Carlos
Melancia como Governador, recebeu instruções da secretária da Presidência da
República, Osita Eleutério, para receber o "camarada" António Strecht
Monteiro, filho de um militante do PS amigo de Mário Soares. Monteiro
representava os interesses de uma empresa pública alemã, ligada ao partido SPD,
que administrava o aeroporto de Frankfurt. Objectivo: garantir que, agora que o
Governador mudara, a empresa alemã continuaria, como até então, ligada ao
projecto do novo aeroporto.
Em 1988 Strecht Monteiro contactaria novamente a Emáudio,
mas desta vez em representação da Weidleplan, uma empresa germânica de
consultadoria que pretendia, também ela, estar envolvida no projecto do
aeroporto. "Pediam-nos apenas que lhes abríssemos portas (…) Como era
habitual nestas situações, o alemão Peter Beier [director da empresa] prometia
um donativo político de 50 mil contos [hoje seriam cerca de 250 mil euros] à
organização que lhe indicássemos. E, uma vez mais, como sempre acontecera,
informámos Mário Soares, os sócios da Emáudio e (…) Carlos Melancia, todos
concordando com a proposta desde que a Weidleplan estivesse disposta a
submeter-se às regras e aos eventuais concursos", continua Rui Mateus, um
homem cujo paradeiro é hoje desconhecido.
Feito o acordo, o dinheiro foi transferido para a Emáudio.
Mas um pequeno percalço deitou tudo a perder: a Weidleplan acabou por ficar de
fora do projecto por decisão de Carlos Melancia, que escolheu a Aeroportos de
Paris para a prestação de serviços de consultadoria. O caldo estava entornado.
Apertado pelos alemães para "cobrar" a contribuição, Strecht Monteiro
exigiu a Mateus uma conversa com Melancia. Mas este já não lhe ligava.
Foi então que Rui Mateus - que entretanto caíra em desgraça
junto de Soares, Melancia e restantes sócios da Emáudio por se recusar a
abdicar da sua quota na empresa em favor de um projecto ligado à Fundação Mário
Soares - teve uma ideia: porque não tentar contactá-lo por fax?
"Ofereci-me logo para lhe dar o número de fax de casa do Governador (…)
Naquela altura eu não estava exactamente na melhor das relações com Mário
Soares ou Melancia. Estava (...) furioso e, num aparte, acrescentei que
aproveitasse para lhe pedir a ele o dinheiro, uma vez que tinha ficado com
ele", descreve em Contos Proibidos.
Dois dias depois, quando Mateus chegou ao seu gabinete tinha
em cima da secretária uma cópia do fax que efectivamente fora enviado.
"Nele lamentavam não terem 'ainda recebido qualquer resposta referente ao
projecto do Aeroporto de Macau' e, salientando terem cumprido os desejos de
Melancia 'em termos financeiros', pediam para reaver o dinheiro gasto.
Aproximadamente cinquenta mil contos pagos 'de acordo com as suas instruções' e
juros de 9%!"
Carlos Melancia, a quem aquele documento deixava em muitos
maus lençóis, ignorou a sua recepção, numa decisão que viria a perceber ter
sido trágica. Mas Rui Mateus estava disposto a levar o caso às últimas
consequências. Acreditava que a Emáudio tinha o "dever moral" de
devolver o dinheiro à Weidleplan. E recusava sair prejudicado caso a Emáudio
fosse liquidada, como tudo indicava que iria acontecer. Em meados de Janeiro de
1990, telefonou a Strecht Monteiro, ameaçando-o com a possibilidade de revelar
o fax à comunicação social. Em Fevereiro de 1990, naquilo que classificou como
um "acto desesperado", Rui Mateus entregou mesmo, contra a vontade
dos seus autores, uma cópia do fax alegadamente incriminatório ao jornal O
Independente. Um míssil que sabia que, uma vez rebentado, não deixaria pedra
sobre pedra. E não deixou mesmo.
Na manhã em que a história fez manchete, Melancia recebeu
muitas chamadas. A primeira foi de Jorge Coelho – o homem que lhe deu a
notícia. A sua reputação estava de rastos. Em Portugal falava-se de suborno e
de corrupção. Pouco depois, ligou-lhe o inevitável Stanley Ho.
- Senhor Governador, queria falar consigo, pode ser?
- Sim, claro. Passe cá no palácio.
Face a um Melancia desolado, o empresário foi directo ao
assunto.
- De que é que precisa, em que posso ajudá-lo?
O Governador ainda acreditava que sobreviveria apenas com a
protecção de Soares.
- Deixe lá, isto é uma intrigalhada que tenho de resolver
com o Presidente da República.
Stanley acenou com esferas de influência ao mais alto nível.
- Pensa que seria útil se eu activasse os meus contactos no
Governo chinês?
Melancia continuava em negação.
- Acho que não, isto é algo que pode prejudicar muito a
imagem de Portugal, mas vou tentar resolvê-lo em breve.
A repercussão da notícia foi brutal. Soares foi colocado
instantaneamente em xeque. Teria ele tomado conhecimento da existência do fax?
Qual a sua real ligação ao projecto megalómano da Emáudio? Melancia pediu-lhe
uma audiência. Juntos haveriam de encontrar uma solução digna para os dois.
Quando chegou a Belém apanhou um banho de água fria: Soares estava mais
preocupado com a sua imagem pessoal do que em defender a reputação destroçada
do amigo. "Senti-me atraiçoado. Percebi que ele estava dedicado a assegurar
a sua reeleição e que isto era um problema que dispensava", viria a
declarar.
O castelo de cartas desmoronava-se à sua frente. As dúvidas
em torno das suas responsabilidades no caso, alimentadas ao longo de vários
meses pelas notícias - sobretudo as publicadas
no Expresso, em que o jornalista Joaquim Vieira expôs detalhadamente o
escândalo -, tornaram, no espírito de Soares, inevitável a saída de Melancia.
Aconselhou-o a demitir-se. Este resistiu. Achava que não devia nada a ninguém.
Acabaria por não suportar a pressão. Quando aterrou em Portugal para entregar a
carta de demissão, alguém lhe perguntou: "Bom, se tu alguma vez recebeste
esta verba da empresa que perdeu, quanto é que recebeste da que ganhou?"
Depois de ter sido acusado de corrupção pelo Ministério
Público, em 1993, o ex-Governador foi absolvido em tribunal. A absolvição foi
confirmada nove anos depois pelo Supremo Tribunal de Justiça. No dia em que a
sentença foi divulgada, Mário Soares ligou-lhe. Melancia mandou dizer que não
estava.
Fontes:
Soares, Uma Vida, de Joaquim Vieira - Esfera dos Livros
Jorge Coelho: o Todo-Poderoso, de Fernando Esteves - Esfera
dos Livros