O resultado do estudo sumário desses caprichos é um texto medíocre, pretensamente documentado em factos históricos cuja interpretação pessoal perverte o sentido da realidade ainda vivida por muitos.
Aqui fica a primeira parte desse texto que pouco mais é que uma hagiografia despudorada de alguém que viveu no mesmo meio, frequentou as mesmas famílias, usou dos mesmos privilégios e foi educado em modo semelhante. Entre parênteses o meu comentário:
No dia em que Mário Soares desembarcou em Lisboa, em Santa
Apolónia, em Abril de 1974, não desembarcava sem apoios, sem um instrumento e
sem um papel. Havia muita força sob a sua aparente fraqueza.
[Falso: o próprio MS disse que nesse dia nem sabia bem o que o esperava e até veio um pouco a medo do que poderia encontrar]
A carreira de Mário Soares não teve nada de particularmente
notável até 1962.
Como muito boa gente começou aos vinte anos pelo PC, atraído
pela aventura (e os perigos dela), pelo radicalismo e pelo facto simples de não
existir na oposição qualquer outra alternativa. Com o PC e pelo PC trabalhou no
MUD e, a seguir, na candidatura de Norton de Matos à Presidência da República.
A “colaboração” com os comunistas, se assim se pode chamar, porque ele chegou a
dirigente, não resistiu à ineficiência e à intolerância geral da seita. Em
1950, é expulso do “Partido” por “indisciplina” e “derrotismo”.
[ em 1962 MS tinha já quase 40 anos e nessa idade quase toda a gente
notável produziu o que de melhor teria na sua essência. MS a partir
dessa idade produziu política de pendor socialista-marxista com laivos
de oportunismo de gaveta para escapar às contradições. Como tinha
renegado o comunismo em que acreditou até aos 26 anos ( que tolo!)
aderiu à chamada social-democracia europeia de pendor socialista
nórdico, único destino dos arrependidos do comunismo que não deixaram de
ser marxistas]
Isto, que lhe deu tempo para acabar de se formar em
Histórico-Filosóficas e começar o curso de Direito, também o deixou isolado e
sem destino político evidente. Fora a actividade platónica de um pequeno
círculo de advogados da Baixa, não havia nesse tempo desértico nada a que ele
pudesse aplicar a sua habilidade e energia política. De quando em quando, lá
vinha um abaixo-assinado ou protesto de personalidades, que no fundo só serviam
para actualizar os ficheiros da PIDE. A oposição foi um incómodo para a
Ditadura, mas nunca foi uma verdadeira ameaça. Certamente sem grande esperança
e por puro desemprego cívico, Soares funda em 1955, a Resistência Republicana
com uma dezena de amigos, que não se distinguiu por coisa alguma na vida
política portuguesa; e adere ao Directório Democrático Social de três figuras
venerandas da democracia (António Sérgio, Jaime Cortesão e Azevedo Gomes), que
eram um símbolo mais do que uma força.
Entretanto o mundo mudava. Em 1958, aparece
surpreendentemente a candidatura de Humberto Delgado (com o apoio de Soares),
que revelou ao melancólico país da Ditadura a extensão e a fúria de uma boa
parte da população. E, em 1962, a chamada “crise académica”, para grande
estupefacção dos próceres do regime, veio provar que nem com os filhos da
burguesia podiam contar. Infelizmente, as relações entre os dirigentes da
“crise” e Mário Soares não foram boas. Primeiro, por culpa dos dirigentes da
“crise”, que com uma ridícula arrogância desprezavam a “velha” oposição
republicana (mas não o PC). Eles mobilizavam de um dia para o outro milhares de
estudantes, tinham uma espécie de imprensa (em stencil), tinham instalações,
tinham automóveis e tinham dinheiro. E o que tinham os democratas da Baixa,
excepto 30 anos de mal empregada indignação e de conspirações falhadas? Mas,
fora isso, que já não era pouco, o pessoal do movimento académico, quando não
militava no Partido Comunista, exibia – por competição e para defesa própria –
um radicalismo que Soares já várias vezes rejeitara. A geração de 1962 ficou
por isso longe da social-democracia europeia e do futuro PS até muito depois do
“25 de Abril”.
[ Bastava este encadeado de frases relacionando factos para se perceber e não entrar em contradições evidentes que o regime de Salazar era mais tolerante do que querem fazer crer; era mais "democrático" do que fascista e era menos ditatorial do que o pintam. Nas ditaduras de Leste não havia nenhuma destas veleidades e nas ditaduras verdadeiramente fascistas muito menos. Mas enfim. O mito tem de perdurar senão perde-se o sentido da História que agora contam]
De qualquer maneira estas pequenas questões domésticas
interessavam pouco perante a guerra de África, que em 1961 começou em Angola.
Dos políticos portugueses com uma certa notoriedade só Soares percebeu que a
Ditadura deixara de ser um pequeno problema de um país pequeno e sem influência
para se tornar um problema internacional, em que tarde ou cedo as grandes
potências se envolveriam. A oposição já não se fazia, ou devia fazer, em Lisboa
ou no Alentejo, mas na América e na Europa, principalmente na Europa. Em 1962,
Soares transformou a Resistência Republicana em Resistência Republicana
Socialista e, em 1964, criou na Suíça a Acção Socialista Portuguesa, uma
maneira hábil de se ir ligando aos grandes partidos europeus.
[Então só MS é que percebeu a natureza maléfica da coisa? Genial, o indivíduo epicurista. A não ser que nos lembremos de um livro editado em 1962, de Manuel José Homem de Mello ( "o homem dos americanos") que defendia, dentro do regime, a oposição à guerra no Ultramar, com um prefácio do general Craveiro Lopes...e como ele havia outros.
Trazer MS para a frente única desse combate ideológico, agora, parece-me extravagante, sem mais.
Por outro lado, a oposição que se fazia na Europa não era certamente a de um De Gaulle. Confundir a oposição esquerdista, comunista ou socialista marxista, com toda a oposição é um erro ]
Estabelecer a credibilidade da oposição portuguesa num
Ocidente anticomunista e desconfiado era uma extraordinária tarefa para um
extraordinário homem. [ Não acredito nisto. Estamos a falar do final dos anos sessenta? Soares à solta é que iria convencer a Inglaterra, França, Alemanha e EUA da bondade da sua posição anticomunista, mas contra a guerra? Santa ingenuidade que só se compreende em quem faz hagiografia] Sem a sobre-humana simpatia e a sobre-humana confiança de
Mário Soares talvez fosse impossível. Mas, pouco a pouco, ele conseguiu; [ mas ele conseguiu o quê, exactamente? Quem é que dava importância a MS nesse tempo? Quem é que lhe reconhecia méritos políticos de monta? Quem é que o ajudava nesse labor? Os comendadores do regime que o sustentaram em Paris? Santo Deus como é difícil compreender VPV por vezes...] e
Salazar percebeu. [ Percebeu que MS era o génio da nossa política encarcerado ainda na garrafa? Não desvalorizemos a inteligência de Salazar. Salazar não admitia oposição comunista ou marxista ao regime e particularmente à guerra no Ultramar. Qualquer regime tem destas idiossincrasias, como a Inglaterra democrática o teve no tempo das Malvinas ou a França no tempo da saída dos pieds-noirs do Norte de África. MS era um opositor mas não necessariamente O Opositor. Julgo arriscado refazer a História atribuindo-lhe tal papel em prognose póstuma] O regime não se inquietava excessivamente com a agitação da Baixa
ou com um ou outro protesto de estudantes, nem sequer com as raras greves que o
PC ia promovendo. Mas Soares falando à solta na América, na Alemanha ou em
Inglaterra, era um risco real, ainda por cima com uma guerra em curso e sendo
ele advogado do general Humberto Delgado, que a PIDE matara. Salazar não
hesitou em o desterrar para S. Tomé. [ Desterrou-o para S. Tomé para não andar à solta armado em traidor à Pátria que queria entregar ao comunismo esquerdista, como aliás quase aconteceu em 1974.]
Quando ascendeu a Presidente do Conselho, Marcelo Caetano,
provavelmente para mostrar o seu duvidoso liberalismo, arranjou uma
tranquibérnia jurídica para permitir que Soares voltasse a Portugal. [ A tranquibérnia resultou eventualmente de se aperceberam ( Marcello Caetano) que MS não era tão perigoso
quanto isso, deixaram-no à solta].
No congresso da Oposição dos anos
setenta, em 1973 Voltou e
imediatamente concorreu à eleição para a Assembleia Nacional (como na altura se
chamava o “parlamento”) com uma lista de gente socialista ou próxima do
socialismo, rompendo com a tradição de “unidade” anti-salazarista sob a qual o
Partido Comunista se disfarçava sempre. Mais do que isso. Marcelo prometera
eleições “honestas” (que evidentemente o não seriam) e Mário Soares trouxe a
Portugal um grupo de inspectores da Internacional Socialista, que as declararam
falsas. [ MS não apareceu em Aveiro-mandou a mulher- porque estava no bem-bom de Paris, sustentado pelos próceres do regime e poderia ter aparecido, mas teve medo de ser preso. Entre os organizadores do Congresso estavam luminárias como Salgado Zenha e Francisco Sousa Tavares. Não admira que entre estes, MS tenha lugar de destaque como político de génio para o agora hagiógrafo improvável...]
Dali em diante, a presença em Portugal do homem que o denunciara em
público como mentiroso e que lhe retirara qualquer espécie de legitimidade era
intolerável para Marcelo Caetano. Ameaçando Soares com a prisão e o desterro,
Marcelo conseguiu que ele ficasse num exílio forçado até 1974. Mas perdeu mais
com esta manobra do que ganhou. Por uma vez relativamente livre, Soares tinha
tempo e meios para expandir e fortalecer a ASP, que em 1972 a Internacional
Socialista admitiu como membro pleno; e para escrever um livro, o “Portugal
Amordaçado”, publicado em francês. [ Este livro medíocre não passa de um panfleto. Atribuir-lhe virtualidades por exemplo semelhantes ao Portugal e o Futuro de Spínola, é ver a História ao contrário. Alguém o leu, porventura?]
Mas nem nestes anos de solidão se aproximou
dos novos “resistentes”, que haviam fugido à PIDE, à guerra e a Penamacor (uma
unidade penal), e que em Paris se deixaram absorver pelo “renascimento marxista”,
conduzido por um louco, Louis Althusser, que acabou por se proclamar um profeta
e matar a mulher. De revista para revista, esta gente discutia com ódio
teológico as miudezas da sua fé, enquanto Soares tratava do que era importante
e consequente. [ Pois foi mesmo com estas loucuras que MS alinhou politicamente e isso a hagiografia releva como se fosse algo de somenos...]
Por essa altura, já o império soviético se começava a
desfazer. A Europa de Leste e a própria URSS estavam endividadas ao Ocidente
até ao pescoço e a URSS, em particular, não queria pagar uma segunda Cuba ao
dr. Álvaro Cunhal e mesmo depois do “25 de Abril” foi parca com o PCP e crítica
da política “revolucionária”. A Europa ocidental, pelo contrário, ainda não
sentia a gravidade da sua decadência e abria a porta a um (ainda modesto)
alargamento. Soares já se tornara parte dessa Europa. Conheceu Brandt, Schmidt,
Callaghan, Nenni, Mitterrand e a generalidade das grandes personagens que,
tarde ou cedo, decidiriam do nosso destino. [ Exactamente, conheceu essa gente socialista da Europa numa altura em que os respectivos países eram capitalistas de raiz e essência e com isso podiam fazer social-democracia. Eram ricos porque alguém, ou seja, o capitalismo, produzia a riqueza necessária a tal e julgo que VPV já escreveu sobre isso. Por isso mesmo é lamentável que não recorde essa circunstância e dê alento a um mito que tal nunca compreendeu, julgando que o dinheiro nasce do chão ou cai das árvores, quase literalmente]
Em 1973, fundara o PS na Alemanha, com dinheiro alemão e o
patrocínio do SPD, e no dia em que desembarcou em Santa Apolónia não desembarcava
sem apoios, sem um instrumento e sem um papel. Havia muita força sob a sua
aparente fraqueza.
Talvez haja uma razão para perceber esta hagiografia encomiástica que eleva um político medíocre aos píncaros olímpicos da nossa modernidade.
VPV pertenceu a um meio social muito parecido com o que Mário Soares experimentou.
Mário Soares teve este background pessoal e político, como relatava em Outubro de 1990 ao Expresso:
VPV teve um background semelhante. A família é toda jacobina ou aparentada. Em Março de 1971 o regime de Caetano permitia isto: enaltecer o jacobinismo republicano e laico que esteve na origem dos desmandos da I República. Se fosse uma verdadeira ditadura nunca permitiria e estas pessoas estão constantemente a esquecer estes género de factos, a ocultá-los e a falsificar a História, na ânsia premente de diabolizar o passado de que não gostavam e no qual foram educados pelos pais e avós. Portugal não era só esta gente e até passava muito bem sem esta gente, mas enfim as coisas são o que são. E são muitos e muitos factos que o demonstram...
Há um artigo de VPV na revista Cinéfilo de Fevereiro de 1974 que ajuda a perceber estas idiossincrasias que o levam a defender um medíocre como se fosse o último génio da paróquia. É este:
Mário Soares teve o mesmo género de ambiente...mas apenas depois do 25 de Abril de 1974. E isso deveria dar que pensar. Aliás, VPV chegou a pensar nisso, mas já foi há muito tempo, em Janeiro de 1992, no Independente ( e tem outra crónica de Agosto de 1991 que não encontrei que ainda é mais demolidora da personagem) e deve estar esquecido:
Mário Soares, conforme disse a sua própria mulher, nunca passou disto: a política como um meio de atingir um fim que era apenas o seu bem estar pessoal. A Pátria? Nunca teve. E isso parece-me tão claro que até dói.