terça-feira, agosto 13, 2013

Guilherme de Oliveira Martins a desculpar os maus gestores públicos...

O presidente do Tribunal de Contas, Guilherme de Oliveira Martins, do PS, concede uma entrevista hoje, ao Diário Económico, inserida nas "entrevistas de Verão" que aquele jornal anda a publicar diariamente, durante este mês.

O que GOM diz é o habitual bla bla exculpatório de eventuais apaniguados partidários, armados em gestores da coisa pública e que são directos responsáveis pelo descalabro de milhares de milhões de euros com reflexo nas contas públicas. GOM, em resumo e depois de apontar que o tribunal de Contas avisou em devido tempo para o risco das operações swap ou para as PPP´s catastróficas, acaba por dizer: "não diabolizemos as PPP, não diabolizemos os swaps". Ou seja, deixem lá, perdoem aquilo que foi sem querer e para a próxima a ver se não se repete. Uma doutrina católica, de caridade aplicada a quem nos prejudicou a vida colectiva em modo irremediável e horrendo de consequências.
Tal, sendo válido para os pecados católicos de quem acredita, não o pode ser para quem pecou contra o regime democrático que temos, laico por excelência jacobina.  Quem decidiu em nome de um interesse público que negligenciou de modo grosseiro tem que ser punido e de modo exemplar porque outra coisa será escandaloso. Nenhum dos gestores que estiveram nos processos de decisão foram para essas empresas empurrados ou obrigados. Ganham muito mais que os salários mais elevados da função pública. Tem regalias inerentes que não têm comparação com outras funções do Estado, com excepção das governativas. Têm geralmente futuros profissionais assegurados na troca de lugares de administração entre empresas públicas e tal não pode continuar sem consequências visíveis e reconhecíveis pela população que paga os desmandos dessa gente, com sacrifícios e penúria, enquanto os mesmos continuam com a vidinha que tinham e não tem comparação com a vida do cidadão médio. Daí o escândalo destas declarações deste "compõe" da política nacional erigido em presidente de um tribunal que deveria ser levado mais a sério.



segunda-feira, agosto 12, 2013

Filarmónica Fraude

Faz hoje 45 anos, segundo nos lembra este magnífico blog, que o "conjunto" português Filarmónica Fraude foi anunciado ao país no Diário de Lisboa de 12 de Agosto de 1968.
A/O  Filarmónica Fraude era uma criação de cinco  jovens de  Tomar, estudantes então a acabar o Secundário, orientados por um estudante do IST, António Avelar Pinho, um dos génios da mpp. Escusado será dizer que é  um dos meus grupos preferidos da mpp, a par da Banda do Casaco, também com a orientação fundamental de António Pinho.

O artigo do Diário de Lisboa, assinado por Assis Pacheco (um dos expoentes do jornalismo luso, já desaparecido) ainda mencionava uma canção em preparação pelo grupo, "conjunto" como então se dizia. A canção, para mim a melhor do grupo é Animais de Estimação que é uma pérola do pop nacional.

Aqui fica a imagem do artigo surripiada naquele blog.

A revista Mundo da Canção, mensal, editada então no Porto, publicou logo no seu terceiro número, de Fevereiro de 1970, uma entrevista com o grupo.

Em 26 de Junho de 2009, a banda reformulou-se em Tomar, lugar de aparecimento e tocou um concerto memorável a que António Pinho assistiu,participando. A foto documenta o acontecimento, com António Pinho, à direita na foto,  acompanhado de um anónimo que assim pretende continuar a ser.



O caso da capela do Rato relatado no diário das sessões da Assembleia Nacional de 31 de Janeiro de 1973

O chamado caso da Capela do Rato, tantas vezes citado como um exemplo do que foi o regime de que Marcello Caetano era presidente do Conselho, foi discutido publicamente, na Assembleia Nacional durante o mês de Janeiro de 1973. Tal debate foi transcrito, do Diário das Sessões dessa época, num livro editado pela Assembleia da República, em 2005, intitulado Livros Proibidos no Estado Novo.
Aqui fica a discussão entre deputados do regime que não aceitavam discutir o problema do Ultramar, ou seja a guerra e os da oposição, da Ala Liberal e não só que então aí se encontravam.
Torna-se curioso comparar os termos da disputa parlamentar de então, entre a "situação" e a oposição, relativamente a um assunto grave e que viria a suscitar a queda do regime e a "descolonização exemplar". Tudo já estava definido quando à oposição: entregar os territórios ultramarinos, sem mais. 













































































































sábado, agosto 10, 2013

O jornalismo no tempo de Salazar e Caetano.


Traços desta nossa gente, que assim mantém o espírito crítico, cada vez mais preciso no meio desta "guerra civil" que se vive

Do calhambeque do pai, então estacionado no Caxito do seu nascimento, à ruralidade do Douro da infância, sem esquecer uma escala em Coimbra antes do curso de Filologia Românica na capital. A memória escapa a preguiças, como aquela que em boa hora o levou para as redacções de uma Lisboa que puxava dos galões para fintar a censura. Foram tempos de irreverência, transgressão e luxos que hoje se ficaram pelo patamar do sonho. Começamos pela imprensa, numa terra que vê a hora de receber uma boa notícia.
Já que falávamos de jornais, quando é que entrou numa redacção pela primeira vez?
Foi em meados da década de 70. Os jornais eram muito divertidos nessa época. Entrávamos às oito da manhã e trabalhávamos só até à uma da tarde. Aliás, eu fui para jornalismo não porque gostasse da profissão, porque para mim era igual ao litro, mas por ser muito preguiçoso. Podia ir para professor, mas tinha de aturar os monstrinhos das crianças, e pensei nos jornais. Os jornais tinham um ambiente muito engraçado e livre. Não eram nada a pasmaceira que são hoje. Hoje são praticamente câmaras de tortura, com as pessoas aterrorizadas.
O regime de então aterrorizava menos?
Nesta altura era tudo contra o Salazar e contra o Estado Novo; era uma alegria. Liam-se os jornais da véspera, as coscuvilhices políticas, as conspirações que estavam a ser preparadas, as de sempre, razão pela qual o Salazar esteve lá até ao fim [risos]. Era no Bairro Alto. Não é por acaso que os antigos puseram os jornais no centro da cidade; depois houve a peregrina ideia de os levar para fora da vida das pessoas. Depois de deitarmos abaixo o Salazar, íamos para os cafés, como a Brasileira, onde se sabiam as notícias. No Chiado encontrava-se tudo o que era importante neste país. Até o Américo Tomás passeava lá. Ao fim da manhã regressávamos ao jornal; escrevíamos as notícias e, à medida que íamos dominando a coisa, sabíamos melhor como despistar a censura.
Que se fazia à tarde?
À tarde não se fazia nada. Íamos passear. E à noite era farra. Ganhava-se bem. Quem diz que se vivia muito mal antes do 25 de Abril é uma treta. Em 73 estava a ganhar 17 contos no "Diário de Lisboa", o que era uma fortuna. Depois, os jornais eram habitados por grandes vultos da cultura. Acho muita graça quando os novos vêm dizer que antigamente eram todos analfabetos. Veja lá, eu trabalhava com os analfabetos José Saramago, José Cardoso Pires, Herberto Hélder, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues, Luís de Stau Monteiro. Hoje rio-me quando ouço essas coisas. E havia uma coisa notável que era o sentido de camaradagem, que era superior às convicções ideológicas. A classe unia-se. Entre o "República", na Rua da Misericórdia, e o "Diário da Manhã", que era do governo e ficava em frente, quando faltava papel para sair o jornal, emprestavam um ao outro.
Eram vultos livres de redomas.
Sim, completamente. Gostei muito desse ambiente todo, da intrigalhada, das grandes irreverências. Nunca um administrador teve a ousadia de entrar numa redacção. Sou de uma geração que foi criada com este espírito de autonomia e liberdade. Tínhamos o problema da censura, que chateava, mas que aprendemos a fintar. No "Diário de Lisboa", o editorialista era o José Saramago, dos jornalistas a quem menos a censura cortava, porque escrevia muito bem e escrevia nas entrelinhas, com subtileza. Como não chocava, os censores deixavam passar. Outro notável a lidar com a censura era o Luís de Stau Monteiro, que era muito violento e perverso. Escrevia uma crónica, dava-a ao paquete que levava ao censor. Regressava ao jornal com as provas cortadas. Nessa altura, já ele tinha outra redacção pronta para levar ao censor. À sexta ou sétima vez, o pobre do censor já estava louco.
Vencia-os pelo cansaço?
Era. Aliás, os jornalistas, depois dos militares, foram a classe mais importante para o 25 de Abril. Depois veio a democracia, a tentativa grotesca de os partidos políticos transformarem os jornais em órgãos da propaganda política, que foi uma machadada brutal na sua credibilidade. Depois, esta situação que temos, com a ditadura economicista, que é uma maneira de controlar a informação. A censura prévia controla pelo corte e pelo silêncio, a democracia é pelo contrário, controla pelo chinfrim.
Chegou a viver essa fase?
Uma vez estava no "Diário de Lisboa" a fazer a campanha do Otelo Saraiva de Carvalho e ele ia a um sítio qualquer. Manhosamente, disseram que não havia dinheiro, carro, etc. Dias depois, o primeiro-ministro ia ao Algarve inaugurar um hospital que já tinha sido inaugurado, e já havia dinheiro para tudo. É claro que essas manigâncias se pagam caro, pelo desprestígio. O grande problema da imprensa começou com a concentração. Dantes havia uns 15 grupos de comunicação. Era uma alegria. Daqui a pouco, é o big brother. Hoje, não há jornalismo. Há uma pantominice chamada comunicação social, que não sei o que é. Como perguntava o Baptista-Bastos, são os comboios? São os telefones? Os aviões? É um guarda-chuva vistoso que serve para tapar vigarices.
Fazia-se melhor jornalismo num tempo sem internet, telemóveis inteligentes, etc.?
Fazia-se na mesma. Qual era o problema? Havia telefones, telexes. Tínhamos um contacto mais directo. Não era por isso que não se fazia bom jornalismo. Havia grandes repórteres. O "Diário Popular" tinha uma secção de grande reportagem com o Mário Ventura Henriques, o Baptista-Bastos. Eu fartei-me de viajar pelo mundo inteiro. Os grandes repórteres chegavam de viagem e não iam para a redacção, iam para uma vivenda que o jornal tinha na Caparica, para não se preocuparem com nada a não ser o seu trabalho. Estavam ali. Chegou a haver um grande despique entre o "Diário Popular" e o "Diário de Lisboa", onde havia grandes repórteres como o Joaquim Letria, grande jornalista deste país. Hoje, a grande reportagem desapareceu.
Convenhamos que também desapareceram luxos como os refúgios para escrevê-las. Temos a alternativa do livro?
Para mim, não há distinção entre literatura e jornalismo. Aliás, o Baptista-Bastos diz que o jornalismo é uma disciplina da literatura, como é a ficção, a poesia, a história, etc. Quando escrevo, não estou a pensar se é para uma página de jornal ou de um livro. Recuso essa ideia mentecapta de que há uma escrita de primeira para os livros e uma de segunda para os jornais. Dantes, a melhor literatura encontrava-se nos jornais. Aliás, o grande pilar da literatura portuguesa é a crónica, que é consanguínea quer da literatura quer do jornalismo. Temos o Pêro Vaz de Caminha, que é genial, a "Campanha Alegre" do Eça de Queirós.
Com esse ambiente, mesmo para alguém que não tinha ideia especial de ir para o jornalismo, estava fora de questão mudar de área?
Sempre gostei muito. Ir embora não, até pelo contrário. Nessa altura, quando ia para um jornal, tinha já em perspectiva um outro. Não havia desemprego. As pessoas eram acarinhadas e recompensadas. Não éramos contratados a prazo, como agora. Havia realmente o problema da censura, mas hoje a manipulação é maior. A censura é apenas um capítulo do controlo da informação. Hoje há a obrigatoriedade de dizer. A Natália Correia, a certa altura, diz assim: "Tão censurante é impedir de dizer como obrigar a dizer." Basta ver o caso Casa Pia. Como rendia, lá se escrevia para encher. Hoje, o conselho que dou é que se resguardem, que não digam o que pensam, que tentem resistir.
Não é um pouco deprimente depender dessa inércia para sobreviver?
É um conflito, claro. No meu tempo era a capacidade de rebeldia e intervenção do jornalista, hoje é o contrário. Não dizer o que se pensa. É uma servidão.
No jornalismo, como noutras áreas, nem todos serão capachos.
Claro que não, óbvio que isto é uma caricatura, e gente com talento sempre houve. Para o povo português, nunca houve o problema da falta de talento. Em todas as épocas há gente muito criativa. Daí sermos dos mais antigos da Europa, temos uma sobrevivência muito grande.
Com um toque de desenrascanço, que já faz parte da nossa mitologia?
Sim, de criatividade. Como podemos aturar isto, é contornando. Ao longo da história tem sido assim. Explorações, ditaduras. A nossa história é pródiga nisto. São séculos e séculos a apanhar. Mas atenção que o português não é de bons costumes, como se pensa. Só quem não conhece a história pode dizer essa treta.
Já lutámos contra a própria mãe, para não ir mais longe.
É, quando extravasamos, somos frescos. Só no século XX matámos um rei, um príncipe herdeiro, um presidente da República, um primeiro-ministro. Foi uma alegria. Este povo não é muito bom da cabeça e pode tornar-se complicado controlar as pessoas. Estamos a lidar com um povo que faz coisas imprevisíveis, e esta garotada que nos governa, uns arrivistas que não sabem nada de nada, comporta-se como se Portugal tivesse nascido com eles. Já vi passar 17 primeiros-ministros desde que cá ando. É ir embora. Desde que vi Salazar ir embora, e eu pensava que Salazar era imortal...
Era a ideia que tinha?
Era assim uma espécie de deus, que se achava que existia mas ninguém via. Eu, por acaso, tive a prova disso. Conheci-o pessoalmente como jornalista, ouvi-o a discorrer. Agora, a maior parte das pessoas não esteve com ele. Houve ministros que nunca falaram com o Salazar. O nosso povo é muito manhoso, imprevisível, e capaz de coisas muito grandes. Natália Correia disse que o ultraliberalismo selvagem que aí vinha seria tão pernicioso como a Inquisição. No século XVI éramos dos países mais desenvolvidos que havia, o que contaminou outros países e alertou os poderes instituídos. Num passado recente, a Europa era a região mais desenvolvida do mundo. O ultraliberalismo está agora a provocar outro retrocesso civilizacional. Estamos a viver uma inquisição. Os humanistas, que se opõem, são queimados vivos, despedidos, difamados.
Quem são os grandes culpados?
Esta quadrilha que tomou conta da Europa, com a senhora Merkel à frente, que tem mesmo cara de inquisidora; só lhe falta pegar num ferro em brasa. Em Portugal é o que a gente vê. Estão contra a história, a evolução, o humanismo. Os nossos intelectuais também não percebem ou não têm uma visão deste conjunto. Os jornalistas também não têm independência. Estamos a assistir a um holocausto, agora contra a classe média. Dizem que temos um país de velhos. Qual é o problema disso? Hoje a produtividade não advém tanto do trabalho das pessoas; depende mais da sofisticação tecnológica do que do corpo humano. Como dizia a Natália, Portugal foi grande quando tinha dois milhões e meio de pessoas, depois começou a fornicar e a multiplicar-se e caiu nesta desgraça em que está. Temos mão-de-obra barata, carne fresca para os canhões. Querem mais jovens para não terem emprego? Porque é que a segurança social tem de ser sustentada com os nossos descontos e não com o rendimento do país? Tudo aldrabices.
Para quem passou pelo antigo regime e por 17 primeiros-ministros, este momento é o pior?
Ah sim, nunca vi um tempo tão complicado. O professor Agostinho da Silva bem formulou que a humanidade está a viver um dos momentos mais radicais de toda a história, que é a passagem da era do trabalho como obrigação para a era do trabalho como libertação. Da escravidão para o lazer. Mexe com os poderes instituídos. Isto está tudo condenado.
Fazem sentido suspiros por uma figura como Salazar?
Temos de contextualizar as coisas. Salazar não saberia actuar em democracia, só em ditadura. Cada época carrega as suas coisas. O que desanima muito as pessoas é o predomínio da mentira sistemática completamente impune; ninguém é responsabilizado. Estão perdidas, amedrontadas. E a igreja abençoou isto tudo. Agora que isto é o que é, a igreja está calada como um rato. Como tem muita experiência, escolheu um papa contracorrente para garantir o poder. Com o Ratzinger, fazia-se em cacos. Este tem uma linguagem de futuro, com boas qualidades, para enganar meio mundo. São muito habilidosos. Enfim, não sou católico. Está a ver, a minha conversa é uma chatice [risos].
Muito mudou, ou nem por isso, entre o livro "Os retornados estão a mudar Portugal", de há quase 30 anos, e o recente "Os retornados mudaram Portugal"?
Esse é outro fenómeno que houve, sobre as consequências da trágica e imprudente descolonização, que se abateu sobre quem vivia em África. Este retorno foi dos êxodos mais pungentes da segunda metade do século XX a nível mundial. Com a nossa má consciência, passámos uma borracha por cima. Ainda não entendi porque é que agora este tema voltou.
Temos uma relação de amor-ódio com a memória?
Não gostamos da memória. Temos má consciência. Branqueamos e não a recuperamos. Andámos todos de cravo no ar a lutar por uma sociedade mais justa e nunca estivemos numa fase tão desgraçada como hoje, sem um mínimo de orgulho, independência e dignidade. Cada vez há mais ricos mais ricos e mais pobres mais pobres. Vale a pena lembrar o Rousseau: "Uma democracia só o é se as pessoas não forem tão ricas que possam comprar outras pessoas e os pobres não forem tão pobres que tenham de se vender a outros." Temos o oposto disto tudo. Só mentecaptos no governo. Nunca vi tanto medo no meu país como hoje.
Que diferenças entre a Assembleia que frequentava há 40 anos e a de agora?
Nunca gostei da Assembleia. Achei aquilo uma palhaçada. Os deputados não são escolhidos por nós. É como ir ao restaurante. O empregado traz-me uma lista com quatro pratos e a minha liberdade é escolher dentro daquilo. Daí esse voltar de costas aos partidos. Basta ver como o PS não descola. Ninguém acredita nele. Este centrão, com PS, PSD e uma perninha de CDS, é o grande responsável pelo que há de mau neste país nas últimas décadas. Têm de ser responsabilizados. Eu tenho uma boa memória e termo de comparação. Ou se muda as políticas ou isto vai dar mau resultado. Lembro-me perfeitamente do dia 24 de Abril de 1974.
Onde estava?
Não vou dizer. Encontrei um administrador meu do jornal. Esse senhor dizia que o país não estava preparado para a democracia, para a revolução. Nessa noite, houve uma revolução. Na tarde do dia seguinte andava ele a chorar baba e ranho, a fugir para o Brasil. Depois voltou e teve um alto cargo nesta bela democracia. Percebam a precaridade disto. Estes tecnocratas programam o dia de amanhã como sendo igual ao de hoje, e não é. Estamos numa guerra civil atroz e, quando as pessoas não tiverem nada a perder, avançam. Espero que a componente católica mexa com a má consciência dos políticos, porque senão não vão sobreviver. Quando o Afonso Costa caiu, a população de Lisboa, onde havia imensos reformados, cercou a casa onde ele vivia e até o piano lhe atiraram para o olho da rua.
Com piano ou sem piano, podemos ver o povo a cercar Massamá?
Então não temos visto na Assembleia? A mostarda está a chegar ao nariz das pessoas. Nunca vi na minha vida qualquer político ser assobiado em todo o lado. Não têm o apoio da população. Mas com certeza que há soluções. Quando é necessário um líder com determinadas características, arranja-se. O papa Francisco ou o Obama, em poucas semanas, tornaram-se estrelas mundiais. Claro que pessoas de valor não vão agora partir pedra. O que temos são senhoras Merkel, que parecem criadas de servir, formatadas pelo Bloco de Leste. Que raio de gente a elege a mulher mais poderosa do mundo? Bem, vou calar-me com isto.
Usemos a sua boa memória para falar de memórias boas. Saiu de perto de Luanda com três anos. Lembra-se de alguma coisa?
Tenho memórias, sim. Do automóvel do meu pai. Naquela altura era um calhambeque [risos]. Já lá vão décadas, mas lembro-me de ir brincar para uma avenida com muitas árvores. Cinquenta e tal anos depois, voltei lá e a casa ainda existe. Sou um apaixonado por África.
Só lá voltou 50 anos depois?
À fazenda onde nasci, sim. Mas já tinha ido várias vezes a África. Angola é o país mais rico do mundo. Pode ser uma grande potência, tem gente muito criativa. Os povos de língua portuguesa estão muito criativos. Aliás, Pessoa diz que o primeiro afloramento internacional que projectou Portugal além-fronteiras não foi nenhum feito militar nem comercial, foi literário, com as cantigas de amigo e as crónicas de cavalaria. O nosso herói nacional é o Camões. Isto traduz a nossa grande criatividade.
Veio viver para o Douro em criança. Que país encontrou?
Vou-me dividindo entre o Alto Douro e a Beira Alta. Era um país rural, de pequena propriedade, em que as pessoas tinham na agricultura a sua subsistência, mas um país com grande espírito de solidariedade. Vivi numa aldeiazinha onde havia um forno comunitário, matava-se o porco. Na cidade havia o pequeno comércio, que era sustentáculo da família. Era um país pobre, mas também de entreajuda. A Agustina Bessa-Luís tem uma frase notável. "Nós, portugueses, temos a cultura da afectividade, como outros outros povos têm a cultura das ciências e das filosofias." Para o bem ou para o mal, para mim é inestimável. Hoje é só novos-ricos. Ao menos, os aristocratas não eram exibicionistas.
E como foi a sua vinda para Lisboa, depois de uma passagem por Coimbra?
Achei uma Lisboa muito divertida, pujante, com cafés abertos até às quatro da manhã, como o Monte Carlo, a Brasileira, onde convergiam os jornalistas, boémios, prostitutas, chulos, etc. Era gente muito viva, humana. Havia muita respeitabilidade por causa do regime, mas por baixo da mesa era só transgressão. E que grandes safadezas se faziam, não é como esta água-chilra de agora. Havia muita coscuvilhice. A coscuvilhice tem sido uma salvação do povo português. É muito saudável, porque incentiva o espírito crítico. Conspirava-se, mas como Salazar dizia que preferia ser temido a ser amado, não se ralava nada com isto. E ninguém defendia o Estado Novo nessas tertúlias. Muita gente gostava de Salazar sem ser salazarista. Como pessoa, era encantador.
Que recorda dele?
Era delicadíssimo. Agora, o Salazar político era implacável. Como homem, suscitava muitas paixões entre mulheres e homens. Tinha um carisma enorme. Era até engraçado haver essa divisão. Tinha as suas máscaras. Um estadista deve ser assim. Não era como Marcello Caetano, que dizia que não podia fazer nada porque até as mulheres dos seus ministros diziam mal dele no cabeleireiro.
Há uns três anos falou da sua homossexualidade num livro da jornalista Raquel Lito. A orientação nunca foi um problema nesses tempos idos?
Nessa altura as coisas faziam-se. A vida privada de cada um era a vida privada de cada um, e estava tudo bem. Bastava ter algumas manhas. Faz parte do português ser manhoso.

 E agora a crónica de um jornalista desse tempo, Baptista Bastos, hoje no Jornal de Negócios. O jornalismo no tempo de Marcello Caetano e Salazar não era bem como costumam contar os Rosas& Pereira. Era mais ou menos assim, como aqui se conta. Mas só quando estão distraídos. Se alguém lhes perguntar a propósito, respondem algo diverso disto que escreveram, porque a "narrativa" passa a ser outra. Ideológica, como o Baptista-Bastos, filho do Chico Bastos, sem hifen e tipógrafo, bem sabe contar e aqui dá uns laivos de récita: " A volta a Portugal era a fuga à enxada, às jornas de sol a sol, ao trabalho violentíssimo dos campos"...ou seja, um contraste flagrante com a vida preguiçosa de que fala Fernando Dacosta em que se trabalhava algumas horas da parte da manhã e a tarde era para a "rambóia". O Bastos, filho do Chico, sabe muito bem que assim era, mas continua a ser um dever falsificar a História para lhe dar o colorido habitual...
Não têm emenda.


Volta, Relvas. Estás perdoado.

Expresso online:


Rui Machete adquiriu ações do grupo BPN ao valor nominal de um euro quando era presidente da Fundação Luso-Americana (FLAD). Já a FLAD pagou 2,2 euros por ação.

Estas ações tinham opção de recompra a um preço de 2,86. Contactado pelo Expresso, Rui Machete não explica porque comprou ações a um preço inferior ao da instituição que presidia.

A entrada de Machete no grupo de Oliveira Costa é em tudo idêntica ao investimento feito por Cavaco Silva entre 2001 e 2003. 


Este indivíduo, um dos piores exemplos do que a política portuguesa produziu nas últimas décadas, não explica nem precisa de explicar o que é óbvio e conduziu ao escândalo BPN, às PPP´s, ao forrobodó do despesismo, ao novo-riquismo cavaquista e a tantas outras situações que nos conduziram até ao lugar onde nos encontramos.
Escolher um indivíduo destes para um governo é não entender nada de nada do que é essencial, hoje, para Portugal. 
Antes o Miguel Relvas que este exemplar que só exala cheirete a política podre.

sexta-feira, agosto 09, 2013

Um escândalo, uma vergonha e o símbolo da verdadeira podridão

Tomem nota desta notícia. Diz quase tudo sobre a competência do nosso órgão de poder legislativo por excelência, a Assembleia da República, onde estagiam deputados eleitos nas listas partidárias escolhidas pelos caciques e  virtuosos do palavreado oco e retórico, treinados na litigância partidária da politiquice.

Não têm ninguém na Assembleia da República que seja capaz de legislar de modo "simples", ou seja, competente e capaz de cumprir o que de mais básico se lhe exige a esse poder que é precisamente o legislativo.
Foram escolher um "perito" em outsourcing, não eleito em lista alguma, professor de universidade, para ajudar a fazer as leis!

Se isto não é a maior vergonha nacional, neste campo, não sei o que será...talvez os próprios deputados que lá estão, alguns há um ror de anos e sempre a ruminar litigâncias de ocasião para chatear o adversário partidário.

Quando chega a hora da verdade, a de legislar como deve ser...nicles. Não sabem. Pedem  ajuda externa. A pagar. Por todos os que descontam e pagam impostos.

Daqui, InVerbis ( que cita o i):

A Assembleia da República contratou um perito em ciência da legislação para dar apoio durante seis meses ao recém-criado grupo para consolidar leis, por 18 mil euros. Na contratação, feita por ajuste directo, o parlamento diz não dispor "de meios próprios para satisfação desta necessidade".
No passado mês de Junho, a presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, justificou a criação deste grupo com a necessidade de tornar "a legislação mais simples", atribuindo-lhe a tarefa de analisar as leis já publicadas em vários sectores e procurar agregá-las de modo a serem de "fácil acesso e compreensão pelos operadores jurídicos".
A participação de Alexandre Sousa Pinheiro como assessor técnico ao grupo de trabalho foi desde logo divulgada aquando da criação do grupo. Já a contratação por ajuste directo só foi publicada a meio de Julho. O apoio do perito, que tem já alguns trabalhos desenvolvidos sobre a agregação de leis e é professor da Universidade de Direito da Universidade de Lisboa, custará 18 mil euros e terá a duração de seis meses - 3 mil euros mensais.
Sobreposição
Questionada pelo i sobre a justificação avançada no ajuste directo para a contratação de um perito em legislação - "a Assembleia da República não dispõe de meios próprios para satisfação desta necessidade" -, a secretária-geral afirma que "os trabalhos a desenvolver pelo grupo de trabalho da consolidação legislativa se sobrepõem ao trabalho normal que os serviços do parlamento já desenvolvem".
"A maioria dos assessores parlamentares têm, como é óbvio, formação em legística", refere a secretária-geral, acrescentando que "no último triénio a Assembleia teve uma redução de efectivos de cerca de 10%". Pelo que "foi necessário contratar externamente, por seis meses, um perito que, juntamente com os serviços do parlamento proceda a esse esforço de racionalização da actividade normativa".
Unanimidade nos trabalhos
A tarefa de simplificar o conjunto das leis produzidas e já publicadas quer pelo governo quer pela Assembleia, para além da ajuda de Alexandre Sousa Pinheiro, será levada a cabo pelos deputados Gabriel Goucha (PSD), Luís Pita Ameixa (PS), José Lino Ramos (CDS), João Oliveira (PCP), Luís Fazenda (Bloco de Esquerda) e José Luís Ferreira (PEV). Até agora o grupo já se reuniu duas vezes e escolheu começar a actividade pelo sector da Saúde.
Ao i, José Lino Ramos disse que as primeiras reuniões serviram para "definir a metodologia de trabalho" e que a simplificação das leis vai passar por uma "forte articulação com o governo". Segundo o centrista, as alterações introduzidas pretendem "simplificar o acesso à legislação", sublinhando ainda que todas as decisões terão de ser tomadas de forma consensual pelos deputados que integram o grupo de trabalho.
Catarina Falcão | ionline | 08-08-2013

quinta-feira, agosto 08, 2013

Um entrevista cândida e com minhoquices lamentáveis


 Cândida de Almeida é uma magistrada, procuradora geral-adjunta,  no activo e que agora exerce funções no STJ.  Por razões que certamente a razão desconhece concedeu uma "entrevista de Verão" ao Diário Económico de hoje. A entrevista é de Cristina Esteves, uma quase nulidade jornalística, com carinha laroca e  que se presta ao frete de ouvir Sócrates semanalmente na tv.
Para além das banalidades já repetidas noutras, muitas, ocasiões, Cândida de Almeida dá a sua opinião de magistrada, antiga directora do DCIAP, sobre processos que correram termos nesse departamento do MºPº, em modo muito semelhante ao do jornalismo tipo para quem é, bacalhau basta. Neste caso será, portanto, uma justiça tipo para quem é, bacalhau basta. Só dois exemplos, os mais focados, aliás:

O "freeport" continua a ser prato do dia, portanto. Agora nem aquenta nem arrefenta. E Cândida de Almeida continua a achar que aquilo nada tinha contra o antigo primeiro. "uma coisa era o que se dizia; outra o que lá estava", diz Cândida de Almeida, sem explicar o que lá estava porque agora qualquer um pode ir ver.
Quanto a este processo, a pergunta a colocar a Cândida de Almeida é só uma, simples: ponderou alguma vez que Sócrates poderia ser responsável  por algum facto ilegal e criminoso, relacionado com o licenciamento do Freeport? E uma outra, desta decorrente e na pressuposição de tal ter ponderado: pode dizer que foi tudo feito para se descobrir tal facto?
E não me refiro aos dois investigadores directos do processo ( que nunca deram uma entrevista na vida sobre estes assuntos), em conjunto com a PJ, mas à antiga directora do DCIAP que, segundo julgo saber, estava de fora da investigação...o que basta para que esteja calada a propósito deste assunto e doutros.
E depois há aquela coisa deliciosa do "pedi para investigarem tudo"... à maneira típica do "barão honesto" que não tinha medo de ninguém a não ser de uns certos figurões e que também dizia tudo na primeira pessoa do singular. Cândida de Almeida não tinha que pedir fosse o que fosse a quem quer que fosse. Primeiro porque não é inspectora de coisa alguma. Depois, uma directora do DCIAP pode apenas esperar que os colegas que aí trabalham façam o serviço de modo competente e se tal não ocorrer não é a directora quem paga as favas, em princípio e se não tiver poder de fiscalização. Pode apenas responsabilizar quem o faça, mas nos temos estatutários. E tudo isso por causa de uma característica estatutária que esquece: a autonomia interna do MP.  O DCIAP não era dela, apesar de considerar o mesmo como "um filho". Lamentável. Lamentável, outra vez. E igualmente no assunto seguinte.

Por exemplo, o do BPN.

A vox populi sobre o BPN é simples de enunciar e Cândida de Almeida alimenta o eco: é um caso de polícia. Será mesmo?
Cândida de Almeida também não investigou este(s) processo(s), uma vez que foram da responsabilidade directa de um Rosário Teixeira ( que nunca deu uma entrevista na vida sobre estes assuntos) mas não se coíbe de falar nos processos como se tivesse lido as folhas ( milhares e milhares) do processado, estivesse ao corrente dos esquemas criminosos que enuncia e a que dá o nome de "minhocas": "aquilo mexe-se na terra e sai minhoca por todo o sítio". "minhoca" neste contexto lamentável só poderá ser "crime", porque de outra coisa não poderá falar Cândida de Almeida nesse ambiente de lavoura. Mas...será que se podem ver minhocas a sair da terra quando se está ao largo, a ver de longe os cavadores?

De resto que "minhocas" sairam até agora dos buracos da terra? "Burlas"? A quem? "Falsificações"? De quê? "Abusos de confiança"'? A quem?

Se em julgamento se provar que afinal tais esquemas minhoqueiros não passam de práticas usuais na banca de todos os sítios, Cândida de Almeida irá então dizer que nem viu um boi à frente do Freeport e se lhe atravancam minhocas na frente do bestunto?

Lamentável. Mesmo lamentável porque este género de entrevistas, inúteis, vaidosas, solipsistas, só contribuem para a crise da justiça.

ADITAMENTO em 9. 8. 2013:

Quem também lamenta a entrevista é Pinto Monteiro, o anterior PGR, embora por razões eventualmente diferentes. Uma delas, obviamente, é a de que Cândida de Almeida acusa-o na entrevista de falta de solidariedade, até de lealdade.
O Diário de Notícias é quem dá a notícia. Assim e de maneira continuada com o aquele tipo de jornalismo...porque o caso BPN não pode ter sido um dos mais difíceis para a antiga directora, pela simples razão de que quem investigou o mesmo não foi ela, ao contrário do que sucedeu no caso FP25 ( no qual, aliás,  também teve o apoio do marido, o falecido Rodrigues Maximiano) , cujos contornos se explicarão aqui, dentro de dias.

Enfim, aqui vai o lamento profundo de Pinto Monteiro, cujas lamentações são conhecidas. Nunca se lamentou, porém, contra as patifarias de Sócrates e a ajuda que o seu amigo Proença de Carvalho lhe deu. E isso é que deveria ter lamentado. Resta saber porquê, exactamente. Exactamente significa compreender porquê, com todos os pormenores pessoais, institucionais, contextuais, porque se parte do princípio que um antigo juiz conselheiro, "do cível", apesar de ignorante "no crime", não é imbecil ou estúpido de todo. Há coisas que carecem de explicação para serem compreendidas e uma delas é um certo embevecimento com a actuação do antigo primeiro-ministro que tem a personalidade que tem e fez o que fez que só um sectário partidário pode aceitar sem questionar seriamente e sem integrar como prática criminosa e lesiva do interesse nacional. Fosse noutro país qualquer, até em França e o que José Sócrates fez e a vida que levou e leva teria sido escrutinada criminalmente, como deveria ser. Aqui, teve um Pinto Monteiro...

 "Lamento a entrevista, como lamento que tenha sido afastada do lugar que ocupava pouco tempo depois de ter terminado o meu mandato como procurador-geral da República". Foi esta, em declarações ao DN, a reacção de Fernando Pinto Monteiro, ex-procurador-geral da República, à entrevista de Cândida Almeida ao Diário Económico, na qual a antiga directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) se queixou de falta de apoio de Pinto Monteiro durante a investigação do processo Freeport."


Jornalismo tipo para quem é bacalhau basta. E do corrente.

Uns dias  fora, sem saber nada de cá, sem ler nada de cá e sem internet ou interesse provocado em saber algo de cá, dei agora com as notícias da actualidade nacional.
Como lá fora ninguém falou de nós, presumi que "nós por cá, tudo bem". E não me enganei porque continuamos a ser quem somos. E com dois assuntos se demonstra um dos nossos problemas: o jornalismo tipo para quem é, bacalhau basta. O jornalismo dos baptistas bastos e também- hélas!- de um Ferreira Fernandes que apesar de cronista é essencialmente jornalista, uma profissão que o meu pai ponderou poder ser o meu futuro, por causa de um tipo que estava na Capital - José Meira- filho do barbeiro que frequentava ( e me cortava o cabelo na infância) que tinha conseguido ser alguém no meio. Os dicionários de latim do meu pai tinham servido para ele consultar os significados da língua e depois ficaram para mim. Está contada a história de um hipotético futuro que poderia ter sido o meu e que saiu frustrado. Tal como a minha frustração com este jornalismo desgraçado que se alimenta de desconhecimentos petulantes, para não dizer ignorâncias escusadas e estultas do "em política o que parece, é", como diria um Salazar que aqueles detestam e eu admiro cada vez mais.

 A primeira, tratada neste postal,  tem a ver com  os cortes nas pensões de alguns servidores da coisa pública, como os militares e os magistrados ( juízes e do ministério público e começa logo aqui a receita jornalística do para quem é, bacalhau basta, porque magistrados são todos, os juízes e os do ministério público...) .

O Diário de Notícias, dirigido por um dos cultores mais treinados neste tipo de receitas com mil e uma maneiras de serem cozinhadas, João Marcelino  de sua graça, vindo do jornalismo da bola e dos records, coloca a "cacha" de um modo chocante para o leitor desprevenido destes truques de cozinha :  Pensões dos magistrados ficam isentas de "contribuições extraordinárias".

A "cacha" diz tudo e nada mais é necessário para que a ideia básica, simples e directa, percorra o caminho mais rápido da cozinha para o prato do leitor, ainda a fumegar a cebola que nem faz chorar. O cheiro está espalhado e o sabor estragado, porque é a trampa habitual.  
Qualquer leitor inteligente, medianamente, interrogar-se-ia imediatamente sobre "o porquê" da excepção e exigiria do jornalista-cozinheiro, a explicação dos ingredientes do "bacalhau à moda da casa". Qualquer jornalista que sirva outro prato para além do habitual, perguntaria sempre a quem de direito "o porquê" da excepção. Mas tal não acontece porque o prato da casa é o mais barato, o que tem mais saída e o que dá maior...lucro.  E resulta sempre, como receita. 
Ora leia-se a notícia do jornal de Marcelino que acolita um tal Mascarenhas, sindicalista deste jornalismo que teme o regresso do "fascismo " e já lhe aponta protagonistas...:à boa maneira de um Kastrim de antanho. Para este tipo de fascismo prefiro o do Domingos Abrantes que sibila os ss. Este Mascarenhas parece mais a figura vicentina que citou.


O Parlamento aprovou hoje por unanimidade uma proposta do PCP que elimina a possibilidade das pensões dos magistrados jubilados serem alvo de contribuições extraordinárias, como as incluídas no orçamento.
A proposta do PCP foi aprovada por unanimidade, já que os restantes partidos, incluindo da maioria, também tinham propostas iguais que visavam eliminar o artigo 73 da proposta de lei do Orçamento do Estado para 2012.
Este artigo previa dois pontos: um estabelecia que o cálculo das pensões dos magistrados era feita com base em todos os descontos respectivos, não podendo, no entanto, ser superior à remuneração de um juiz de igual categoria ainda no activo, e outro que previa que as pensões dos magistrados podiam ser alvo de contribuições extraordinárias.
"As pensões de aposentação dos magistrados jubilados podem ser objecto de contribuições extraordinárias nos termos da lei do Orçamento do Estado", dizia a proposta de lei original.
No entanto, os pareceres enviados à Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias contradiziam e geravam polémica em torno destes artigos e os partidos consideraram que o Estatuto do Ministério Público não deve conter normas orçamentais de vigência provisória.

Nem sequer a circunstância de ter sido o PCP a propor a alteração da lei projectada lhes fez aguçar o apetite para saber mais e melhor. Nada, contentam-se mesmo com o  habitual bacalhau corrente que é o dos pobres e neste caso, de espírito. Nem ao graúdo lhe chegam, quanto mais ao especial!

E que faz o Governo perante mais este fogo ateado na cozinha do jornal de Marcelino? Usa a gasolina do comunicado que complica e que os jornalistas que cozinham aquele tipo de bacalhau não entendem porque só percebem o básico da receita corrente. Assim:

O Gabinete do Secretário de Estado da Administração Pública esclareceu, a propósito de uma notícia publicada em diversos jornais diários, referindo que juízes e diplomatas não seriam abrangidos pelos cortes de 10% nas pensões do Estado, que estes pensionistas «não podem ser sujeitos, em simultâneo, a medidas de redução de remunerações e de pensões aplicáveis, respectivamente, a trabalhadores no ativo e a pensionistas», o que «seria uma dupla penalização, dificilmente sustentável do ponto de vista dos princípios de equidade que devem presidir à conformação deste tipo de medidas de reforma».
«As pensões dos referidos grupos de beneficiários estão, por motivos de indexação às remunerações no activo, automaticamente sujeitas a medidas de redução remuneratória, ou outras, que impendem sobre os trabalhadores no activo do sector público. Por força desta circunstância, estes beneficiários tiveram o valor da respetiva pensão diminuído pela aplicação da redução remuneratória (até 10%) imposta pela Lei que aprovou o Orçamento de Estado para o ano de 2011 e mantida nos anos seguintes», refere o esclarecimento, acrescentando que «as pensões destes beneficiários estão sujeitas a todas as medidas que possam vir a ser adotadas futuramente em matéria de política remuneratória aplicável aos trabalhadores no activo do sector público».
As notícias referem-se a um anteprojecto de proposta de lei «que reforça os mecanismos de convergência das regras de cálculo das pensões aplicáveis aos beneficiários da Caixa Geral de Aposentações para as regras previstas no Regime Geral de Segurança Social, ontem enviada aos Sindicatos, refere explicitamente que não são alteradas as pensões "automaticamente actualizadas por indexação à remuneração de trabalhadores no activo, líquida de quotas para aposentação e pensão de sobrevivência"».
Nesta situação estão «alguns grupos de pensionistas que, por força dos seus estatutos específicos, têm o valor da sua pensão automaticamente indexada à remuneração da respectiva categoria profissional no activo, tendo por fundamento circunstâncias especiais associadas à sua situação de pensionista, nomeadamente, os juízes jubilados e os funcionários diplomáticos com a categoria de embaixador ou de ministro plenipotenciário jubilados».
De facto, os estatutos dos magistrados judiciais e dos funcionários do serviço diplomático referem:
«Estatuto dos Magistrados Judiciais - Lei n.º 21/85, de 30 de Julho
Artigo 67.º - Jubilação
6 - A pensão é calculada em função de todas as remunerações sobre as quais incidiu o desconto respectivo, não podendo a pensão líquida do magistrado judicial jubilado ser superior nem inferior à remuneração do juiz no activo de categoria idêntica.
7 - As pensões dos magistrados jubilados são automaticamente actualizadas e na mesma proporção em função das remunerações dos magistrados de categoria e escalão correspondentes àqueles em que se verifica a jubilação.

Estatuto profissional dos funcionários do quadro do serviço diplomático - Decreto-Lei n.º 40-A/98, de 27 de Fevereiro
"Artigo 33.º - Aposentação e jubilação
2 - Serão considerados jubilados os funcionários diplomáticos com a categoria de embaixador ou de ministro plenipotenciário que, reunindo os requisitos legalmente exigíveis para a aposentação e contando mais de 30 anos de serviço efectivo na carreira diplomática, passem àquela situação por motivos não disciplinares.
5 - As pensões de aposentação dos funcionários diplomáticos jubilados serão automaticamente actualizadas em percentagem igual à do aumento das remunerações dos funcionários diplomáticos no activo de categoria e escalão correspondentes aos detidos por aqueles no momento da jubilação.»

A recusa da dupla penalização foi expressa «em diversas decisões judiciais a propósito da aplicação, em 2011, da redução remuneratória (de 10%) aos juízes jubilados, com a aplicação, em simultâneo, da Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES). Foram, com base nessas decisões, estes pensionistas retirados do âmbito de aplicação da CES, mantendo-se, naturalmente, no âmbito de incidência das medidas de restrição salarial aplicáveis aos trabalhados no activo».

E que faz o PCP, autor da correcção? Nada. Cala-se como um rato associado ao largo dos ditos, para aproveitar a confusão do costume.

E que acontece a este jornalismo tipo para quem é, bacalhau basta? Nada. Continuam a cozinhar, refogar, grelhar, fritar quem muito bem lhes apetece, com privilégio garantido aos tais "juízes e magistrados" sem que haja voz autorizada que lhes digam que já basta de tanto bacalhau podre...e que esta receita acabará por os envenenar ainda mais do que já estão.

quinta-feira, agosto 01, 2013

Os Heróis da guerra do Ultramar

Os heróis do Ultramar foram estes que aqui passam no video capturado no YouTube, colocado por Joaquim Coelho ( que tudo indica ter sido combatente no Ultramar). Não foram os Alegres que desertaram e outros que fugiram para França, a cantar e assobiar e regressaram depois com a cantiga como arma.
Os heróis verdadeiros, antigos combatentes e não estes, antigos desertores, na altura das festas natalícias enviavam mensagens filmadas que passavam depois na RTP durante horas, manifestando o desejo de boas festas aos familiares e amigos. Falavam depressa, alguns engasgavam-se na mensagem decorada, quase sempre muito simples e de alguns segundos. Trocavam o próspero pelo feliz mas notava-se que falavam sempre no "adeus, ate ao meu regresso". 

Aproveito para também desejar boas férias e..."adeus até ao meu regresso".  Daqui a uns dias, se Deus quiser.


A ética é a mentira

Para começar as férias nada como uma pequena reflexão daqueles que ainda a sabem fazer. Jacques Julliard, um intelectual de esquerda, na revista Marianne desta semana ( dedicada ao tema da mentira, em política principalmente), tem estas duas páginas impressionantes sobre a mentira em política.

É ler, uma vez que por cá só um VPV poderia escrever algo semelhante mas com menor brilho, sem tanta extensão intelectual e com cinismo maior.

A reflexão de Julliard ajuda a compreender o caso das "swaps" no Parlamento e como uma questão que queima inteiramente um PS que governou, é transformada em assunto para chamuscar um Governo. Típico e exemplar do modo como a ética é entendida por essa bancada, à esquerda.

quarta-feira, julho 31, 2013

A entrega do Ultramar pela Esquerda portuguesa

Durante o ano de 1974 e até 1975 consumou-se em Portugal a entrega dos territórios ultramarinos aos...africanos. A África portuguesa deixou de o ser num espaço breve de alguns meses e acordos para inglês ver. Foram todos promovidos pela Esquerda nacional que entendia que a solução para a guerra no Ultramar e para os portugueses de todas as raças que aí viviam era entregar o domínio político e militar aos movimentos terroristas que até aí tinham feito a guerra aos portugueses, em nome da "libertação", conceito universalmente aceite pelo politicamente correcto e adoptado pela Esquerda portuguesa em nome da ideologia comunista e "terceiro-mundista". Na base de tudo está a ideologia anti-capitalista que via na colonização portuguesa nada mais que a expressão do "imperialismo" a abater. De nada serviam os discursos de Marcello Caetano e Salazar que apontavam, muito justamente, para outros colonialismos que apenas acabaram quando a ideologia comunista ruiu fragorosamente com o muro, em Berlim.
Como o que tinha quer ser passou a ter imensa força, a "descolonização exemplar" processou-se em meia dúzia de meses, com guerras civis garantidas nas ex-províncias ultramarinas que provocaram milhares e milhares de mortos, sem comparação com os que morreram durante os 13 anos de guerra do Ultramar.. Os nossos "estadistas" de então, tinham à cabeça um Mário Soares e um seu "homem de mão", verdadeiro arquitecto das ideias brilhantes que conduziram a mais uma tragédia: Almeida Santos. Um advogado colonial, suficientemente esperto para se por ao fresco de Moçambique em tempo oportuno, resguardando teres e haveres que em relação aos demais portugueses que aí se encontravam foi incapaz de assegurar com idêntica sabedoria e presteza. Foram estes os "estadistas" da entrega do Ultramar aos movimentos e libertação que não tardaram a degladiar-se entre si pela conquista do poder, em guerra civil fratricida e trágica que durou décadas.

Tudo isso tinha a ver com ideologia e com um complexo de esquerda relativo ao "fardo do homem branco", uma parvoice que a Seara Nova de Julho de 1974 lembrava para mostrar o "crime" e o pecado original, relacionado com os Descobrimentos e a gesta heróica dos portugueses. É preciso lembrar que esta época histórica sempre tinha sido exaltada pelo regime do Estado Novo e o que se seguiu, de Caetano, como uma época de patriotas e guerreiros dignos de Portugal. De repente, a linguagem mudou, em 25 de Abril de 1974, e o que era digno passou a ser desprezível, em nome de uma ideologia estrangeira, soviética, celerada e que prometia o céu na terra com amanhãs a cantar. Parece parvoíce? É porque o foi e continua a ser.



Nada melhor para recordar esses "estadistas" do que lembrar o que fizeram e como fizeram, pela imprensa da época.

Em primeiro lugar, pelo Século Ilustrado, verdadeiro arauto desta esquerda dita moderada com laivos comunistas. Em 26 de Abril de 1975, para comemorar "um ano de revolução rumo ao socialismo" a revista fez um "apanhado" do processo de descolonização e entrevistou o mentor principal, Almeida Santos. Fica aqui o registo para a posteridade.

Estes "estadistas" deviam todos ter uma lápide comemorativa do seu feito histórico, junto ao Padrão dos Descobrimentos, com os seguintes dizeres: "estes são os que entregaram o Ultramar português aos movimentos de libertação". Para registo histórico e para lembrar aos vindouros os que descobriram aquelas terras e os que as entregaram de mão beijada aos que se intitulavam seus donos, sendo apenas da tribo a que pertenciam. A História os julgaria.

Com esta ideologia à ilharga os media nacionais, dando eco aos sentimentos comunistas e socialistas faziam capas como esta, em 7 de Setembro de 1974, na qual se exaltava um dos movimentos de guerrilha, promovido a grande movimento de libertação, esquecendo os demais que representavam uma parte substancial desse povo a "libertar". A ideologia comunista foi assim e se o socialismo entendeu, dali a algum tempo, apoiar o outro movimento, Unita, tal se deve simplesmente a interesses partidários obscuros. E nada mais.

 Portanto, em Janeiro de 1975 a independência de Angola "estava por um fio". Dois dos representantes dos movimentos de libertação, aqui fotografados ao lado de outro herói nacional, que aliás os combateu meses antes, foram liminarmente afastados, por um dos outros,  da partilha do poder e o processo durou décadas e milhares de mortos pelo meio.


A libertação de Moçambique, em Julho de 1975 também ficou bem encaminhada, com a entrega do país a um dos movimentos de libertação, Frelimo, de Samora Machel.


E como é que tal sucedeu? Explica-se rapidamente. Em Setembro de 1974 a Guiné já era. E os demais foi logo a seguir. E os portugueses que lá estavam? Ah! Esses, coitados, às centenas de milhar, foram abandonados à sua sorte e muita sorte tiveram em lhes terem arranjado à última hora umas pontes aéreas para os trazer de volta ao "puto" com a roupa que tinham no corpo e as bagagens mal amanhadas no porto de mar à espera de barco que viria ou não.

O acordo de Lusaka está aí, com as assinaturas daqueles "estadistas".

 E aqui estão todos os "estadistas" que merecem lápide comemorativa ao lado do Padrão dos Descobrimentos. Falta um que não compareceu porque ninguém o convidou, mas é um dos inspiradores do feito: Álvaro Cunhal, o herói lendário e centenário do comunismo.


Para se compreender ainda melhor como pensavam estes estadistas, dá-se a palavra ao maior deles todos, o Sombra deste regime tão edificante. Este merece ainda, ao lado da lápide uma estátua. Em plástico, para perdurar durante os séculos vindouros, sem se degradar.

As "negociações" que estes "estadistas" levaram a cabo estão retratadas noutro número da Flama de 17 de Janeiro de 1975. Devem orgulhar todos os portugueses, do mesmo modo que a gesta dos Descobrimentos. Por isso a lembrança ao lado do Padrão...

Em que é que isto redundou? Simples e que todos os verdadeiros estadistas sabiam e adivinhavam. Isto que se vê na imagem, multiplicado por milhares de vezes. A consciência daqueles "estadistas" está ali, no chão. Ao lado da lápide poderá colocar-se esta imagem porque fica bem.



terça-feira, julho 30, 2013

O 25 de Abril de 1974 e o Ultramar

O Movimento das Forças Armadas que fez o 25 de Abril em 1974 tinha como objectivo alcançar a paz no Ultramar, na sequência do livro de Spínola, Portugal e o Futuro.
O programa do MFA e os primeiros comunicados saídos já em 25 de Abril, reconheciam uma alteração fundamental na polícia utramarina seguida até então: tal como Spínola propusera implicitamente no livro " a solução das guerras no Ultramar é política e não militar".


Esse princípio deu origem a todo o problema da "descolonização exemplar" e começou logo nos meses seguintes.

O Expresso de 2 de Agosto de 1974 abria a discussão com um caderno dedicado ao assunto.

A "mesa redonda" já não enganava ninguém: o director do semanário, Balsemão, baseado num discurso de Spínola proferido dias antes, a 27 de Julho, deixava-o convencido que o caminho era a independência dos territórios ultramarinos.
Acontece, porém, que Spínola anos mais tarde ( em 1978), no livro País sem Rumo, veio esclarecer que afinal o que disse nesse discurso não foi o que lhe atribuiram...

Não obstante, Mário Soares pronunciava-se abertamente por essa solução, sem alternativas, em entrevistas à Der Spiegel alemã, em 19 de Agosto de 1974, publicada no livro "Mário Soares- Democratização e Descolonização", publicado em 1975 pela dom Quixote. E também se refere ao discurso de Spínola de 27 de Julho de 1974...
Esta entrevista de Mário Soares, acompanhada de  uma outra em 6 de Maio de 1974, praticamente do mesmo teor, permitiu interpretações deveras acintosas parra com Soares, uma vez que lhe extrairam das entrevistas propósitos que o mesmo não declarou, como por exemplo o de querer lançar os antigos "colonos" portugueses aos tubarões ou coisa que o valha, se os mesmos não aceitassem o programa político do MFA e do governo da época, de que fazia parte, juntamente com o Sombra Almeida Santos...


António Barreto quer as cabeças dos PPP´s e das swaps numa bandeja política


O sociólogo António Barreto acusa todos os partidos e responsáveis políticos que estiveram no poder ao longo dos últimos anos que terem "deixado Portugal debaixo de uma ameaça terrível de bancarrota".

"Todos os partidos sempre quiseram aumentar os benefícios e as benesses e os contratos a pagar daqui a dez, 20, 30, 40 anos", diz António Barreto em entrevista à Antena 1, considerando um "escândalo nacional" as PPP (Parcerias Público-Privadas) e os swaps (Contratos de Gestão de Risco Financeiro).

"As operações deste género que vieram hipotecar um país inteiro por muitos e muitos anos", acrescenta.

Segundo António Barreto, "os dirigentes políticos que os fizeram" obtiveram "vantagens para si próprios nalguns casos, para seus partidos noutros casos, para os seus governos noutros casos ainda" e permitiu-lhes "arranjar emprego para outras pessoas para depois ganharem os votos" e "concursos para empresas e grupos económicos para poderem repartir um bolo melhor com pagamentos a longo prazo".

"Toda esta operação, de repente, verificou-se que tinha deixado Portugal debaixo de uma ameaça terrível de banca rota", remata.
"Todos devem ser responsabilizados"
Para António Barreto, todos os políticos e gestores de empresas públicas que lesaram o Estado "devem ser responsabilizados politicamente e judicialmente só aqueles que cometeram verdadeiras ilegalidades".

"Quando agora se descobre que vamos ter de pagar hospitais e autoestradas durante mais 30 ou 40 anos e que o preço final é várias vezes superior ao que seria com outros procedimentos, não vejo onde haja crime nisto", disse, para logo acrescentar: "O que acho é que essas pessoas, esses partidos, essas instituições, com nome, deveriam ser tornadas públicas: quem é que fez o quê e quem é que assinou o quê, não para meter na cadeia, mas para os impedir de voltar a fazer política, para os impedir de voltar a ter acesso à decisões".

Decisões sobre PPP´s e "swaps"?  Responsáveis? 
A revista Visão, em Outubro de 2012 "desmontou" o esquema e mostrou o nome dos responsáveis directos, enquanto políticos.

António Barreto quer o nome deles? Alguns estão aqui. Veja-se onde param estes criminosos políticos e que percurso fizeram desde os "crimes" políticos que cometeram ( há já quem fale em "crimes em série")...e quem os nomeou para os cargos que ocupavam e ocupam. Veja-se depois quem autorizou em conselhos de ministros o que os mesmos promoveram, quem promulgou e quem publicou. E quem elegeu...esses mesmos. Ou seja, quem votou nas eleições. Será assim que se defenderão sempre...os maiores responsáveis pelo descalabro.
E de resto é ver quem é que a SIC das anas lourenços convida sempre para explicar a "crise". Geralmente estes nomes que estão envolvidos até ao pescoço nestas negociatas de alto coturno.
O "crime" não é apenas politico. Esses foram os executantes directos. Mas há os cúmplices e co-autores. Entre os mesmos avulta a Impresa de Balsemão e demais universo mediático e...os bancos, com destaque para um certo Ricardo Salgado. Quanto a este basta saber como foram inventados os RERT´s de amnistia fiscal, logo em 2005 ( é ler o artigo 5º desta lei que alterou o Orçamento de Estado para esse ano, publicada em Julho de 2005, ou seja a meio do ano e metida a mascoto por alguém) , repetido em 2010 e em 2012, sempre metidos a mascoto no Orçamento de Estado. Basta saber quem foram os governantes que tal decidiram, como e porquê, exactamente.  
Acho que há um indivíduo que sabe exactamente o que se passou. É este e trabalhaou para o BES durante muitos anos, até 2005, precisamente. Era ministro deste Governo, desde Março de 2005.

António Barreto se quiser fazer uma caça a estes bruxos, inteiramente justificável, aliás, deve começar por enunciar as razões contextuais que tal permitiram e agora que se sabe a extensão dos "crimes" cometidos, impedi-los de facto de governarem seja o que for, com relevância pública. Nos casos mais gritantes, como é o de Jorge Coelho, a meu ver só haverá uma medida de justiça à altura: expropriá-lo de tudo o que tem, ganho na Mota-Engil, e colocá-lo no tempo do "hádem". No "hades", exactamente.
E anda-se a falar do BPN...como se esse escândalo financeiro, envolvendo na sua maioria entidades privadas ( até à nacionalização e esta deve também entrar no rol dos crimes políticos aqui enunciados) fosse coisa que se visse ao pé disto.

Nunca como agora as Parcerias Público Privadas estiveram sob tal escrutínio. O Tribunal de Contas confirmou a "falta de transparência" dos contratos assinados com as concessionárias; no Parlamento, vão ser ouvidas 182 pessoas a esse respeito; no DCIAP, investiga-se a eventual troca de favores entre empresas privadas e ex-governantes. Saiba quem foram os ministros que "patrocinaram" as PPP, quais os desvios e quanto custou ao Estado cada um desses negócios
  • Recorde aqui o percurso dos governantes das PPP
FERREIRA DO AMARAL, 67 anos - Assinou uma das primeiras PPP, em 1995, e deixou o Governo nesse mesmo ano, assumindo o cargo de deputado. Manteve-se na política ativa até 2001. Antes de ingressar na Lusoponte, em 2005, passou pela Cimianto, pela Semapa, pela Inapa, pela Engil e pela Galp Energia
ANTÓNIO MEXIA, 55 anos - Ministro das Obras Públicas durante oito meses, entre 2004 e 2005, sempre se moveu no mundo das empresas públicas. Antes de 2004, esteve na Galp Energia, no ICEP, no BES Investimentos, na Gás de Portugal e na Transgás. Em 2006, passou a presidir à EDP
VALENTE DE OLIVEIRA, 75 anos - Foi várias vezes ministro entre 1979 e 2002. Foi, também, professor catedrático, passou pela AEP, pela Parque Expo, pela Comissão de Coordenação da Região do Norte e tornou-se coordenador europeu das Auto-Estradas do Mar
JOÃO CRAVINHO, 76 anos - Depois de ser ministro do Equipamento de Guterres, foi deputado e propôs um pacote anticorrupção, na AR. Em 2007, o Governo designou-o para administrador do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento, em Londres
JORGE COELHO, 58 anos - Abandonou o Governo de António Guterres após a queda da ponte de Entre-os-Rios, em 2001. Depois disso, manteve-se como deputado até sair, em 2006, para a empresa de consultoria que fundou, a Congetmark. Deixou de ser conselheiro de Estado pouco antes de se tornar presidente da Mota-Engil, em 2009
FERRO RODRIGUES, 62 anos - Substituiu Jorge Coelho no Governo, em 2001, e sucedeu a Guterres na liderança do PS, entre 2002 e 2004. Foi nomeado embaixador português junto da OCDE, em 2005, cargo que deixou para regressar ao Parlamento, em 2011, onde é deputado e vice-presidente
MÁRIO LINO, 72 anos - Deixou o Governo de José Sócrates em 2009. É, desde maio de 2010, presidente do Conselho Fiscal das companhias de seguros do grupo Caixa Geral de Depósitos
ANTÓNIO MENDONÇA, 58 anos - Saiu do Governo, em 2011, na sequência da queda de José Sócrates. É professor catedrático de Economia no ISEG - Instituto Superior de Economia e Gestão e preside a um centro de estudos na mesma faculdade
PAULO CAMPOS, 47 anos - Até 2005, altura em que se tornou secretário de Estado Adjunto das Obras Públicas e Comunicações nos dois Governos de José Sócrates, foi administrador de várias empresas do grupo Águas de Portugal. É deputado

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso