segunda-feira, abril 25, 2022

A música de há 50 anos, arregimentada à esquerda.

 Fez agora 50 anos que apareceram meia dúzia de discos que foram verdadeiros marcos na mudança de estilo da música popular portuguesa apoiada pela esquerda. 

 Como se disse num postal anterior, a música popular de então estava dividida entre o "nacional-cançonetismo" que incluía os intérpretes mais populares e com maior divulgação no rádio e em discos, geralmente singles ou ep´s e os cantores que intervinham politicamente e protestavam contra o regime de então em músicas e discos incensados pela intelectualidade que escrevia em jornais e revistinhas de esquerda, como a única Mundo da Canção, claramente associada ao social-comunismo. 

Nesta última categoria estavam estes dois intérpretes que então lançaram os seus primeiros discos que também se tornaram referências da qualidade da música popular, porque "em terra de cegos quem tem um olho é rei". 

Ambos se encontravam no estrangeiro, das terras de França, fugidos ao regime e à tropa que os queria para combater no Ultramar e eles repudiavam. 

Eram social-comunistas e por isso fugiram ao degredo interno e ideológico, libertando-se numa terra alheia às que praticavam o regime que os mesmos pretendiam que fosse o de cá. Paradoxal? Nem por isso, apenas exemplo de contradição e incoerência. Em vez dos países socialistas escolheram um capitalista e onde podiam usufruir de vantagens económicas que naqueloutros nem vislumbrariam. Aí tinham liberdade de expressão para cantar os males do país e lamentarem que não fosse como aqueles para onde aliás não queriam ir e se fossem nunca teriam tal liberdade...

O primeiro desses intérpretes era José Mário Branco, já veterano das "terras de França" e onde lançou estes dois discos, o primeiro no final do ano de 1971 e o segundo já em 1972.

As letras de ambos os discos apelam claramente a uma revolta contra o medo do fassismo, do capitalismo e da "exploração do homem pelo homem". Portanto, um apelo marxista, comunista até. As músicas, orquestradas e de instrumentação muito simples, com umas percussões, uns sopros e uns laivos de guitarra eléctrica mais uns naipes de som acústico e "está a andar", sendo um dos discos emblemáticos desse tempo. 

As melodias são cativantes e ouviam-se muito nos tempos antes do golpe militar de 25 de Abril de 1974, em certos programas de rádio, em fm, particularmente do Rádio Clube Português e Rádio Renascença, os patrocinadores mediáticos do golpe em causa. 

Ambos são panfletos da política de esquerda que pretende combater a "burguesia" para a substituir pela classe da teoria combatente. Daí a "intervenção".  

Os segundos, gravados em 1971 e 1972,  no mesmo sítio que aqueles, no "Chateau d´Hérouville", antes de o local ser conhecido dos eltons johns. 

São os primeiros de Sérgio Godinho e  versam a mesmíssima temática, tendo até canções em comum, no mesmo estilo e instrumentação. Talvez os de José Mário Branco sejam um pouco mais elaborados e aperfeiçoados tecnicamente. 

Porém, deve dizer-se que em termos de som não são discos aperfeiçoados e deixam muito a desejar mesmo em termos relativos de tal época de início dos anos setenta. São medíocres em termos sonoros, tanto aqueles como estes:


A par destes e nessa mesma altura de 1971 e 1972 saíram mais dois discos com outra dimensão artística e mais contidos no panfleto ideológico, embora da mesma estirpe. Eram estes que passavam muito no rádio da época. 
O do colectivo da "Fala do homem nascido" , de 1972,  muito bem conseguido artisticamente, tinha temas suaves sobre uma pobre Luísa que subia a calçada ou o poema da malta das naus, do tempo das nossas descobertas. Cifradas, pretendiam o mesmo objectivo daqueles: minar cultural e ideologicamente o regime, como aliás conseguiram. 
O de Adriano, de Coimbra, saudoso do fado à beira da Sé velha, cantava em música de José Niza, um socialista vindouro, os desatinos de um senhor Morgado ou de um Alegre que se fez triste por combater Portugal na Argélia, sendo português e substituindo o país pelo regime. 


Sérgio Godinho, logo a seguir, em 1974, já no dealbar da Revolução que se seguiu ao golpe de 25 de Abril lançou outro disco, ainda mais panfletário e de intervenção directa, com letras da crueza de um "cão raivoso", ou "tem ratos", de "coração e raça" e finalizando numa ode ao "grande capital" que "está vivo em Portugal e quem não o combate é que dele faz parte", pois claro, tudo acompanhado por uma flauta de bisel e duas guitarras, sendo uma de baixo que não era preciso mais. 
A par desse e ainda mais raivoso e intervencionista apareceu na mesma altura outro disco, de Fausto e que tinha letras ainda mais panfletárias e explícitas contra o "sr.burguês" em que o cantor afiançava que da próxima "o paleio vai acabar; da próxima, raios nos partam, há-de ir de queixo a abanar pois nunca há duas sem três". Era a versão revolucionária do antigo "par de safanões" que estavam destinados a tais artistas se o tempo de Salazar se repetisse. 
Os discos eram estes e ouviam-se a horas mortas e bem vivas no tempo da Revolução do PREC, aliás com muito proveito musical porque têm grandes canções e melodias, com as tais letras incendiárias e de guerra civil. 
O de Sérgio Godinho já tinha sido preparado e gravado no Canadá e depois por cá;  o de Fausto fora em Madrid, "até 17 de Abril de 1974" o que denota bem o espírito que o animava, ainda antes do golpe:


Foi esta a banda sonora dos dois anos que antecederam o golpe que hoje se celebra com pompa e circunstância nas instituições nacionais, tendo sido estes e mais alguns, poucos, os artistas do tempo. Falta aqui mencionar o autor da Grândola, vila morena que em 1973 publicou o seu disco de referência desse tempo, "Venham mais cinco". E vieram. Foram mais de cinco mas eram menos de cinco mil na altura. Saíram de baixo das pedras, nem sei bem como nem porquê. 
É aliás essa a razão deste blog, além do mais: perceber como se multiplicaram da noite para o dia, estes intervencionistas revolucionários que nos definiram o futuro cultural dos últimos 50 anos.

O 25 de Abril de 1974 visto por Marcello Caetano

 Nos jornais de hoje repete-se a mesma merda de sempre, nos media nacionais: a História recente e contemporânea, de há 48 anos, contada pela esquerda em geral e os social-comunistas em particular. É uma grande vergonha, até democrática porque fica de fora a versão dos que foram afastados do poder na altura. 

Tem sido assim há décadas e funciona como se alguém contasse a história de um acidente ouvindo apenas quem o provocou e saiu ileso. Quem perde é quem procura saber a verdade dos factos. 

Por isso aqui ficam passagens do livro Depoimento de Marcello Caetano, escrito no exílio ( Mário Soares e outros queixavam-se do exílio em Paris...como se tivessem o direito indiscutível de não serem obrigados a tal, por força de leis existentes, podendo forçar outros a tal destino, igualmente por motivos estritamente políticos) e ainda o livro Confidências no Exílio, escrito por Joaquim Veríssimo Serrão já depois da morte de Marcello Caetano em 1980. Ambos foram publicados originalmente no Brasil porque neste país democrático não havia editores para tal. E era democrático, não era do tempo do fassismo em que o Portugal Amordaçado de Mário Soares, também não foi permitido por cá e até foi escrito no francês que se sabe...
















Estes textos são raros porque os livros de onde se extraem nunca foram reeditados, por desinteresse de editores e ostracização manifesta de quem não tem interesse nisso: a esquerda social-comunista, em geral. 

Democracia é isto?!

domingo, abril 24, 2022

Os festivais da canção e a música popular em 1972

 Como disse no postal anterior, este cartoon de João Abel Manta, publicado no Diário de Lisboa de 11 de Novembro de 1972 tem um contexto que não se torna evidente. 

Ao representar o símbolo nacional associou-lhe uma pose de um estilo musical que na época se tornara maldito para a esquerda social-comunista. 

É uma figura masculina com cabelo em poupa, olhos de coruja e dentadura branqueada, a cantar alegadamente num "festival" nacional. 

Na época de 1972 quando se falava em festival, a referência única era ao festival anual da canção da RTP, nesse ano já na  nona edição. 

Curiosamente não aparecia lá, no festival da RTP,  nenhum dos ditos cantores de poupa no cabelo e dentadura branqueada pelo que o equívoco começava logo aí. 

A referência remetia-se por isso e para quem sabia,  aos cantores apodados de intérpretes do nacional-cançonetismo e acantonados por essa clique de esquerda social-comunista a certos intérpretes cujo símbolo se poderia encontrar em António Calvário ou Gabriel Cardoso, ambos cultores da poupa em pose, das letras delicodoces e das melodias ainda mais melosas que deliquescentes. 

Apesar de venderem mais discos que os autores das cançonetas de intervenção, eram escorraçados do meio artístico e cultural por serem apenas artistas da música popular, sem pretensões a mudar o mundo mesmo que fosse o pequeno mundo português da época. E, pior dos pecados e razão última da ostracização, não estavam comprometidos politicamente com a esquerda. 

Tais cantores que se estendiam no estilo a outros géneros, incluindo o popular de um Trio Boreal, Trio Odemira, Conjunto António Mafra, Conjunto Maria Albertina e muitos outros como uma Corina ou certos fadistas com expressão em teatro de revista e afins, não tinham divulgação mediática na imprensa da época. Encontravam eco no rádio e em "discos pedidos" de ocasião e eram desprezados pela elite intelectual que apreciava outros intérpretes e outras músicas. 

Havia ainda outro género de música, influenciado pelos ritmos anglo-saxónicos, no tempo do "ié-ié" da primeira metade da década de sessenta,  mas de que aqui não se cura e se exprimia nos Sheiks ou nos Claves e outros.  

O poster de João Abel Manta tem esse contexto que não aparece evidente. 

Tais autores e intérpretes encontravam público em festivais alternativos realizados em cidades de "província" como a Guarda ou Figueira da Foz. A tv não lhe ligava e se apareciam notícias sobre os mesmos talvez fosse na Plateia ou na Crónica Feminina. Para o resto nem existiam.

Na edição de 31 de Julho de 1971 da revista R&T dava-se conta do que significavam tais festivais para a imprensa corrente, mesmo sem pretensões intelectuais de esquerda típica:


Os intérpretes malditos eram por exemplo estes, como se mostra na edição da R&T de 17 de Julho de 1971, com a figura de Gabriel Cardoso ( com as figuras femininas retocadas por uma irmã minha...):



E na edição de 13 de Março de 1970, com António Calvário em caricatura:


Este tipo de música e intérpretes foram ignorados, no mínimo, pelos cultores da intelectualidade musical que apreciavam os cantores de intervenção que apareceram nos anos sessenta particularmente depois da segunda metade da década e prolongaram a experiência até depois do golpe de 25 de Abril de 1974.

Um dos intérpretes que se situava no mesmo campo e igualmente proscrito mas em vias de ser recuperado era este, que cantava um êxito da altura ( 1971)- A minha cidade (Ó Elvas).  


Paco Bandeira participou em 1972 num desses festivais marginais e também no festival da canção da RTP que já ia na nona edição e eventualmente inspirou o poster de JAM.

Na transição deste tipo de música festivaleira para a outra, de intervenção, encontra-se este músico que apesar de não ser suficientemente culto para a erudita era bastante erudito para a ligeira, de festival. Tal como o mesmo refere na R&T de 31.7.1971

Portanto, os "reis da rádio" eram outros, precisamente os malditos do "nacional-cançonetismo", termo espúrio e preconceituoso cuja origem se conta a seguir. 

O termo surgiu pela pena de um dos social-comunistas que preponderava no rádio da época, João Paulo Guerra, tal como se conta no livro de Setembro de 2000, Cantores de Abril de Eduardo Raposo.

O suplemento A Mosca do Diário de Lisboa, a partir de 1969, foi o veículo onde apareceu o termo que pretendia significar o tipo de música que não incomodava o sistema, por oposição à música de intervenção. 


 


Em finais de 1971 a revista Mundo da Canção em editorial dava o mote e a nota e afinava o diapasão do politicamente correcto da época para o ambiente mediático que era dominado pelo social-comunismo, a saber os jornais Diário de Lisboa e o República e a revista Mundo da Canção, por exemplo. 

Este é o contexto que explica o surgimento do poster de João Abel Manta, a que se junta o outro que agora se convoca para completar o retrato da época:

Em 1972 o ambiente social e político, tal como contado pela esquerda social-comunista, actualmente, seria um universo concentracionário  e totalitário do fassismo, não já de Salazar, morto e enterrado dois anos antes, mas do novo Estado Social de Marcello Caetano, que aqueles associavam e continuam a associar ao regime de Salazar e da repressão fundamental das liberdades cívicas. 

Vejamos então como Marcello Caetano explicou tal ambiente no seu livro Depoimento, publicado em Agosto de 1974, para se defender das acusações e caricaturas, como as de JAManta.



Nada do que Marcello Caetano diz releva para o contexto necessário à compreensão do tempo porque a história agora é contada do ponto de vista do social-comunismo que aquele combatia, pelas razões apontadas. Ninguém se interessa, actualmente, pelo que Marcello Caetano dizia do social-comunismo e do que explicava sobre o seu próprio regime. O seu livro Depoimento nem em alfarrabistas se encontra, actualmente, o que é um sintoma de saúde democrática, pelos vistos. 

Assim, em Fevereiro de 1972, o festival da RTP tinha outro contorno que é necessário rememorar para se compreender o significado do cartaz.

A revista Observador de 25 de Fevereiro de 1972 mostrava o lado normal, desprovido de ideologia ou de enviesamento esquerdista que se observa noutras publicações, como o Mundo da Canção. 





A revista Flama na semana anterior dava conta do que seria e também em modo normal, como toda a  gente via o festival. A figura da capa é o tio do actual director do Sol ( nascer do dito):





A R&T de 19.2.1972 idem:





Quem é que destoava e porquê? A Mundo da Canção...na edição de 20.12.1971:



Porque é que isto acontece e o tal Tito Lívio escreve com aguarrás e vitríolo contra a música popular que mais se vendia e apreciava no rádio? Vem lá tudo explicado: foram rejeitadas canções de certos artistas afectos ao social-comunismo em prol de outros que nada tinham a ver com tal. Essa, uma das razões. A outra, ideológica pura: o festival associava-se assim ao nacional-cançonetismo caricaturado por João Abel Manta...porque não era suficientemente contestatário do regime. Enfim.

Em Outubro desse ano, a mesma revista e o mesmo crítico malhavam forte e feito em...José Cid. O pobre atreveu-se a escrever e cantar uma canção que intitulou Camarada e não lhe deu o sentido de um Jean Ferrat. Sacrilégio! A canção, aliás melodicamente interessante, é relegada para o entulho "reaccionário"! E Paulo de Carvalho leva por tabela, por se ter...internacionalizado para Espanha!



E quem é que merecia encómios? Ora...por exemplo um Cantigueiro, na edição de Novembro desse ano:


É neste contexto que em 1972 aparecem dois discos que se enquadram no sistema ideológico social-comunista e por isso foram incensados, até hoje. 

São estes e amanhã se escreverá sobre os mesmos:




sábado, abril 23, 2022

João Abel Manta, a grande falsificação histórica do comunista que caricaturava Salazar

 A revista Seara Nova, um apêndice informativo e cultural do PCP, apresenta no número desta Primavera umas páginas sobre o artista plástico e caricaturista João Abel Manta, um comunista que nunca se inscreveu no PCP, já por aqui algumas vezes evocado, por ter pintado a manta no PREC e também por ocasião de exposições da sua obra.









Este artigo e toda a iconografia exposta é uma falsificação histórica completa e acabada, no sentido que o historiador Rui Ramos dá neste escrito no Observador e que se sintetiza nesta passagem:


 O ascendente que o comunismo obteve em Portugal é manifestamente desproporcional ao que os comunistas e esquerda em geral representavam, mesmo em termos eleitorais, como se viu em 25 de Abril de 1975. 
Contudo o imaginário comunista e de esquerda povoou em poucos meses quase todo o ambiente colectivo e mediático ao ponto de se tornar dominante, até aos dias de hoje. E por isso esta constatação de Rui Ramos:

Os desenhos e caricaturas de JAM, absolutamente espantosos do ponto de vista técnico e artístico, ao ponto de poderem muito bem constituir o cume de tal arte em Portugal, representam uma visão histórica e social facciosa do que era e foi Portugal nos anos que retratam. 

Basta comparar o escrito de Rui Ramos e outros com este desenho publicado no Diário de Lisboa de Maio de 1969, em que se retrata o tempo de Marcello Caetano. Muito próximo da realidade e ao mesmo tempo totalmente manipulador da mesma:

Ou atentar no desenho publicado na Seara Nova, acima, retratando Avery Brundage e publicado originalmente no Diário de Lisboa de 15 de Agosto de 1969, tendo passado na Censura feita Exame Prévio, apesar da iconografia totalmente marxista. Não falta nada, nem sequer o punho do black power.  Aqui a cópia do álbum de 1975:



É a visão estritamente esquerdista da História, com a iconografia toda junta. 
O desenho da capa da revista comunista, reporta o "cinema" nacional, tal como JAM o via nos anos de Salazar e foi originalmente publicado em 1978 num álbum de recolha de caricaturas e desenhos do mestre precisamente intitulado Caricaturas Portuguesas dos anos de Salazar, editado pelas edições O Jornal, embora "subsidiada pela Secretaria de Estado da Cultura, da época. 

Tinha este aspecto e vi-o no escaparate da Bertrand, a preço demasiado alto, apesar do tal subsídio. O álbum aparecia "encadernado" por um embrulho em cartão rugoso e que lhe dava encanto suplementar. 


Lá dentro começava assim, com duas caricaturas de Salazar, geniais e cujo enviesamento ideológico não retira um grama de valor artístico. Ao mesmo tempo que representa outra falsificação histórica, ao apresentar Salazar num enquadramento voyeur em que lhe dá a dignidade de personagem mítica que afinal parece ser o problema principal do desenhador. Nunca resolvido.




Para JAM, um Cunhal, pelo contrário,  não passava disto: súbdito obediente de um povo esclarecido e soberano, com barrete de caserna. Outra falsificação histórica e ainda mais grave...
Como cantava o Banda do Casaco quase na mesma altura,  "Morgadinha, quem te disse a ti que a tua terra era um jardim, cheirando a erva e a alecrim, enganou-te, trocou-te a gramática, virou-te a fonética que a tua terra não cheira assim." 



Estes dois desenhos foram publicados durante o ano de 1975, num destes jornais: Diário de Lisboa, Diário de Notícias e O Jornal, este último a partir de Maio, quando se começou a publicar com esta primeira página em que aparece o artista a obrar na rua:


Os desenhos e muitos outros foram depois recolhidos noutro álbum, de 176 páginas, aliás o primeiro, em 1975, assim anunciado no O Jornal de 5.12.1975 e sem qualquer apoio de secretarias de Estado...
A qualidade gráfica é ligeiramente inferior ao álbum de 1978 ( que tem 144 páginas), com a gramagem do papel um pouco mais leve, mas é tudo porque a impressão é muito boa, apesar de vindos de gráfica diferentes ( o de 1975 é de Gráfica Brás Monteiro e o de 1978 é da Gris, Impressores, SARL).



Quando saiu este álbum, no dia 18.12.1975, José Carlos Vasconcelos, responsável pelo O Jornal e grande incentivador da obra gráfica publicada em jornais, de João Abel Manta, entrevistou este para a publicação, contando a história de um cartoon, de 11 de Novembro de 1972, publicado no Diário de Lisboa e não submetido a Exame Prévio. Tal publicação originou um processo criminal que terminou com a absolvição do autor, cujo decisão o tribunal criminal de então sufragou, incluindo o representante do MºPº o que desmente ipso facto a alegação de que os tribunais estavam afectos ao regime e não havia separação de poderes. 
O artigo é um panfleto contra o fassismo e a censura que no tempo de Marcello Caetano ainda proibia manifestações artísticas que promoviam ideias de esquerda, comunistas ou cripto-comunistas. 
A esquerda comunista queria liberdade plena de propagandear as delícias e maravilhas dos países de Leste e de caminho preparar o terreno para o socialismo, tal como vieram a fazer em 1975 e 1976, na própria Constituição. A contradição não os incomodava minimamente porque entendiam que desaparecido o regime anterior, viria uma era de leite e mel de liberdades amplas, com predomínio da ideologia comunista, paradigma supremo de tais liberdades. Era isso que pretendiam e revoltavam-se contra o regime que tal impedia, pela censura e limitação de outras liberdades. Como hoje se faz em relação a expressões políticas como o Chega, tido e achado como de extrema-direita e por isso proscrito no ambiente democrático. Era esta democracia que pretendiam...ao fustigar o regime anterior, o que diz tudo dos respectivos propósitos hipócritas.
Este escrito é o exemplo perfeito da argumentação capciosa que tal demonstra.



O cartoon maldito que foi objecto de processo criminal é este, publicado originalmente no Diário de Lisboa e tirado do álbum de 1975:


Este desenho e simbologia entendem-se no contexto do tempo em que se publicou. O festival da canção de 1972 suscitava reacções diversas mas não era o que o desenho pretende mostrar. A intenção do desenho ia além do contexto, alargando-o para denegrir o trabalho artístico e musical dos autores que a esquerda comunista e não só, ostracizava e desprezava, preferindo os cantores comunistas e cripto-comunistas que em 1972 apareciam em plena luz do rádio e discos da época. 
O tema presta-se a outros postal que virá a seguir...no entanto isto mostra a perfídia da argumentação enviesada e hipócrita deste esquerdismo que subsiste em Portugal e que está bem exemplificado na prosa de José Carlos de Vasconcelos. 

Por outro lado, o autor do escrito explica como trabalhava JAM, exemplificando com uma cartoon publicado no Diário de Notícias do dia 9 de Agosto de 1974, "último dia da presidência de Nixon" e feito na tarde do dia anterior. Notável.  


Com o sucesso artístico além fronteiras, em 1976 uma editora alemã publicou outro álbum que reproduzia os desenhos publicados no álbum de 1975, tendo na capa o poster cujo original, publicado no O Jornal de 11.7.1975 não tenho, infelizmente:


Ainda do álbum de 1975 esta caricatura de Salazar mostra novamente o mito que incomoda JAM, reportando-o então a um saudosismo serôdio e irreal, com figuras excêntricas e desprovidas de realismo, provindas dos fantasmas do autor. O "beco sem saída" saudosista reunia certos tipos de pessoas caricaturadas frequentemente por JAM, como sendo os oligarcas do regime de então, já numa altura em que tais figuras eram de cera. JAM acendia as suas velas a tais santinhos da sua iconografia particular, destacando-as sempre nos seus desenhos e falsificando mais uma vez a realidade e a História.  


Assim, durante os anos de 1975 e 1976 desenhou para O Jornal verdadeiros hinos a essa falsificação histórica, mostrando um Portugal já desaparecido porque jamais existente, para além de uns tantos  exemplares sem réplica. 

Em 14.11.1975 dava à estampa este poster fantástico em que aparecem figuras de proa da burguesia cujos exemplares únicos, espectrais e fantasmáticos já tinham sido escorraçados durante esse ano para o estrangeiro. Era isto que povoava o espírito do desenhador na época em que já se encontrava em Londres, para onde emigrara no auge da luta revolucionária do pós-PREC. Ao fresco que se faz tarde!


No aniversário do O Jornal, em 7.5.1976, os "maus" estavam todos retratados noutro poster. A iconografia de JAM está aqui toda. O mundo fantasmático de um comunista de 1976 era este.

Curiosamente, escolheu como país de acolhimento um em que estes exemplares estavam todos bem mais representados do que em Portugal e que detinham verdadeiramente o poder político e económico. Escolheu Londres como sítio de descanso, mas não desatou a desenhar o povo britânico, infelizmente. Por outro lado, não escolheu nenhum dos países cujo modelo político e social se afanava em encomiar por contraste, nos seus desenhos. Típico, também. 


Para conhecer João Abel Manta e os seus fantasmas vale a pena ler uma entrevista publicada no Público de 24 de Abril de 1999 em que explica todas as contradições, sem tirar as ilações devidas. 




Como se lê, JAM tratava Salazar "à Walt Disney". Coitado do Disney, tão vilipendiado em tal frase.

Era assim, o Salazar de disneylândia, segundo ilustrações publicadas no álbum de 1978: . 







Resta saber como é que JAM caricaturaria o povinho que em 1975 dava ordens a Cunhal e outros, com o desassombro com que se encarapuçava de bivaque. 
De facto, o povo que aparece nos "anos de Salazar" é este, muito diferente daquele que se impunha aos políticos e se apresentava com a autoridade moral de sempre, imaginada e própria das fantasias marxistas, portanto irrealista e falsificadora da História.

O desenho da capa da Seara Nova mostra um breve lampejo de tal imaginário neo-realista:


 Continuado nesta vinheta da mesma altura:


E nesta, simplesmente obscena para além do caricatural, reduzindo o folclore ao trivial da menoridade cultural e grotesca:


O neo-realismo serôdio foi sempre  marca destes desenhos, aqui noutra obscenidade relativa ao "artesanato". Uma ofensa ao povo, naturalmente. Um povo rural apresentado em modo grotesco:



E que contrasta com o retrato do verdadeiro povo: o que tinha como líder os próceres de Lenine, pois claro. Existe falsificação maior que esta?!



Finalmente o verdadeiro retrato do povo que tínhamos e temos. Nada de brandos costumes e sempre manhoso e beligerante perante os inimigos identificados e reais. Não os imaginários, como os retratados por JAM.


Foi este povo que em Braga e no Norte, em 1975 deu água pela barba aos Joões abel mantas que andavam por lá.
Ou seja, este que JAM nunca soube retratar...preferindo o imaginário e neo-realista.
Por cá, na altura dos desenhos de JAM não se publicavam estas imagens. E não havia censura...pelo que só a Paris Match de 23 de Agosto de 1975 o fez:



Ah! E já me esquecia: o cónego Melo, cuja imagem de costas é a que está mais próxima de quem olha para a foto, também fazia parte desse povo. E do clero...

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso