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domingo, 22 de julho de 2012

O tabu de Júdice: haute cuisine

Perde-se já a conta às vezes que o advogado José Miguel Júdice apareceu em capas de jornais e revistas para anunciar entrevistas extensas sobre tudo e coisa nenhuma.
Não sei que estranho fascínio pode exercer sobre os media tal personagem que de relevante e público fez apenas uma coisa: ser sócio da firma de advogados PLMJ que congrega além dele, alguns dos maiores "tubarões" da advocacia portuguesa ( a comparação com os predadores dos oceanos é coisa corriqueira).

Com esta é a enésima vez que o advogado Júdice se pronuncia sobre o fenómeno da corrupção! E é  notável o que diz agora, repetindo aliás o que já houvera dito anteriormente: é um dos que  passou a vida a combater a corrupção. Sério! E conta a história da única vez que foi alvo de tentativa de corrupção. É clicar na imagem da Tabu, suplemento do Sol desta semana, para ler.

Diz sobre o assunto uma coisa acertada em que os Paulos Morais deveriam reflectir: " Se eu for padre e disser que os padres são desonestos, estou a contribuir para a generalização. Se disser que o padre "X" é desonesto estou a fazer bem à profissão. As profissões regeneram-se atacando aqueles que merecem e não atacando a generalidade." Ora bem.

Então aqui vai: como é que José Miguel Júdice explica o assunto da assessoria que a sua firma de advocacia prestou à Parpública, no já longínquo tempo do governo de Durão Barroso e que tinha como ministro  um dos advogados ( então de indústria, ou seja de trabalho à peça) da PLMJ, precisamente Nuno Morais Sarmento e que rendeu à firma uma quantia nunca devida e publicamente apurada?
Tal assunto nunca foi devidamente explicado, apesar das perguntas públicas do deputado do PS António Galamba que perdeu subitamente o interesse em saber,  logo que o PS se apanhou com a mão no pote...
Outro caso que a entrevistadora ( Raquel Carrilho) não lhe apresentou para comentar foi o assunto Eleven. Júdice é um dos onze sócios do restaurante de luxo que ocupa uma área de terreno público ao cimo do parque Eduardo Sétimo. Sem dúvida que o projecto de aprovação de tal restaurante de super-luxo esteve isento de corrupção do tipo toma- lá- dá- cá, a única que Júdice efectivamente mostra conhecer pelo que conta na entrevista e que evidentemente lhe repugna.

Sobre este assunto do Eleven já se escreveu aqui em tempos, o seguinte:

O então presidente João Soares abriu um concurso público para um restaurante no alto do Parque Eduardo VII, um concorrente ganhou, e assumiu em tal vitória – pois creio que até resultava do tal caderno de encargos do concurso- o compromisso de construir um edifício de qualidade arquitectónica que, no final da concessão de 20 anos, reverte para a câmara.”E continua Júdice a rebater a “calúnia”:
“ Não soube do resultado de tal concurso. Meses depois, através de um amigo, o meu filho mais velho soube que o accionista que controlava a empresa vencedora do concurso estava interessado em ceder as acções da sociedade, desde que fosse ele- que é arquitecto- a fazer o projecto. Juntei um grupo de amigos dispostos a dar a Lisboa um restaurante de grande qualidade ( e realmente um ano depois de abrir ganhou uma estrela Michelin, ainda hoje a única de Lisboa), que aceitaram investir e correr o risco ( que mais de três anos depois não receberam um euro de resultados, apesar do sucesso financeiro que também felizmente tem tido, pois foi elevado o endividamento para a construção), e comprámos a posição do accionista da sociedade que fora vencedora do concurso. Com isso investimos quase dois milhões de euros num edifício que reverterá para o município no final da concessão.”

Quem ler isto, seguindo o fio de raciocínio de Júdice, publicamente apresentado, mas com reservas de lógica do senso comum, fica indignado com a prosápia de José Sá Fernandes e Teresa Caeiro ( vituperada por Júdice como insinuadora reles de putativa desonestidade), ao apresentarem publicamente as suas perplexidades, com o negócio estampado no edifício do Parque.

Este artigo de Júdice é, parece-me, exemplar da estultícia na argumentação de virgem pudica que sempre apresenta em público, relativamente a fenómenos socialmente disruptivos.
No outro dia na tv, até jurou, como antes o fizera Jorge Coelho que a corrupção é o cancro fatal que mina as sociedades, fazendo coro de fundo com Marinho e Pinto, mas desbastando-no logo a seguir, na forma, apelidando-o de “gordo” com “voz de cana rachada”. Um dos sócios do escritório, o fiscalista Mota de Campos, em tempos, disse em voz alta na tv que não conhecia nenhum caso de corrupção no país e que o assunto era empolado em modo de exagero.

Bem. Sabendo que foi a Câmara de João Soares ( até ao ano de 2001) quem decidiu a construção de um restaurante no local ( inaugurado em 2005), afastando a ideia peregrina de uma Basílica ou outra mais prosaica, de um hotel, prevendo já a ocupação do espaço seguinte pelo Corte Inglês, já temos a história do concurso e do restaurante, contada na primeira pessoa, pelo vencedor do leilão, ocorrido cinco anos atrás:

«Concorri com o projecto de arquitectura, e ganhei», disse então João Correia, aparente ganhador singular, do concurso ganho afinal por uma sociedade .


E terá sido o mesmo quem começou a procurar sócios: «Não apenas pelo financiamento, porque se tratou de um investimento grande, mas especialmente por causa do know-how ; queria alguém que me pudesse ajudar a pôr em funcionamento um grande restaurante».

Desse modo, segundo a notícia linkada, "cruzou-se com a família Júdice, da Quinta das Lágrimas. Diz-nos Miguel Júdice, filho de José Miguel, e administrador do negócio hoteleiro do pai: «Estávamos nessa altura a pensar criar em Lisboa um restaurante gourmet, que fosse também um espaço agradável do ponto de vista do ambiente. E eu andava a ver espaços, vi imensos, quando um amigo me pôs em contacto com o arquitecto João Correia». Quando soube que havia já um concurso da Câmara ganho, apressou-se a ir ver o local com o pai: «Ficámos apaixonados pelo sítio, e fizemos um acordo com o arquitecto João Correia».

Antes porém, já o mesmo arquitecto, ainda nos seus quarentas, declarava que“Quando elaborei o projecto de arquitectura do restaurante [Eleven, no Alto do Parque Eduardo VII] não pude deixar de lembrar-me da catedral que fora prevista para o local. Havia uma ideia de grandiosidade associada. O esboço que aqui apresento traduz, de alguma maneira, a reacção a esse conceito. E assim, tomando em linha de conta o desafio que me foi lançado, pensei em reconverter o espaço ‘Eleven’ e transformá-lo não numa catedral mas numa simples casa. Naturalmente, esta é uma casa com vistas excepcionais, mas também com preocupação de sustentabilidade e de futuro. Sem fundamentalismos, mesmo porque arquitectura sustentável é sinónimo de conforto e qualidade.”

Assim, perante estas histórias sobre o Eleven, ficam aqui onze perguntas, tantas quantas as referências simbólicas do local de prândia:

O concurso que “João Soares”, em nome da Câmara de Lisboa, abriu, teve publicidade suficiente e apareceram mais concorrentes ao negócio?

Quem eram esses concorrentes, que propostas apresentaram e como é que afinal veio a ganhar uma sociedade, com um sócio conhecido, arquitecto e que depois acaba sócio de mais dez, amigos e conhecidos, perfazendo os onze beneméritos do alto do Parque?

Como se chama a sociedade vencedora do concurso e quantos e quais sócios e que tem?

Como era o caderno de encargos desse concurso público e onde foi publicado?

Quanto e quando é que João Correia ou a sociedade do mesmo, pagou ao município, durante os anos que mediaram entre o concurso e a realização do projecto?

Foram sempre os 500 euros da renda fundiária?

Afinal, quando é que Júdice tomou conhecimento do resultado do concurso: “meses depois” como indica no artigo, ou “anos depois”, como deixa entrever o depoimento de João Correia?

Júdice ou algum associado ao negócio, já conhecia João Correia, antes do concurso?

Quando e como, exactamente, surgiu a ideia “Eleven”?

Foi ideia de João Correia, como deixa entrever na entrevista ao Correio da Manhã?

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