segunda-feira, novembro 22, 2021

As reedições dos discos Orfeu de Zeca Afonso começaram mal

 Há uns meses foi notícia o interesse de algumas pessoas da família de José Afonso em reeditar o catálogo musical de 11 álbuns do artista, gravados entre 1968 e 1981 para a etiqueta Orfeu, de Arnaldo Trindade. As vicissitudes do negócio, em 1983, tinham  deixado tal catálogo Orfeu ao cuidado de outra editora, a Movieplay, de um tal José Serafim que se tinha tornado sócio daquele enquanto detentor de lojas de discos ( uma na Rua do Carmo, em Lisboa) e fábrica, para além de estúdios. 

Esta Movieplay portuguesa faliu e entre os seus "activos" encontrava-se o acervo original das gravações em fita, os "masters" que serviriam para reeditar com a máxima qualidade possível, as obras em disco do cantor e poeta. Sobre os méritos deste já escrevi em tempos algo que me parece definitivo, sobre o "prego e a fruteira" e nada mais tenho a acrescentar de relevante, para além do que vai no final.   

Quanto à reedição da obra do artista devo dizer que é algo difícil traçar o percurso exacto desde a publicação das edições originais dos discos, em lp, saídos entre o final dos anos sessenta até meados dos oitenta, passando pelas reedições dos lp´s. algumas delas a cargo de editoras marginais e as reedições em formato cd, ocorridas em 1987, 1996 e 2012.  Desde logo porque a informação é escassa e nem sequer o sítio oficial dedicado ao artista é fonte segura desse tipo de informação. 

Aliás o assunto destas reedições já é conturbado e embrulhado em querelas sobre os direitos de autor e talvez tal explique a estranha e manifesta escassez de informações nos discos respectivos que se teme venha a repetir-se na reedições que se seguirão, incluindo as do formato em lp. 

O projecto destas reedições assume assim um carácter pouco transparente e nem sequer as declarações do responsável pela nova editora- Lusitanian music, dedicada a obras de calibre completamente oposto e bizarro- esclarecem seja o que for, mormente o modo como se fez o trabalho de digitalização para produção dos cd´s e novos vinis. Nem sequer publicitam os discos na secção dos "news"...

O Discogs traça um roteiro interessante e informativo acerca das edições originais e sucessivas reedições, que não foram muitas, aliás. 

Assim, em 12 de Junho do ano passado o jornal i anunciava uma intenção para o "projecto" agora em curso, da reedição da obra discográfica, em cd e lp, ou seja em formato digital e analógico e também noticiava os desenvolvimentos do processo de classificação como sendo de interesse público e portanto "governamental" de tal obra de José Afonso. O processo de classificação parou no tempo, como é habitual nestas coisas que metem governos. E talvez afinal haja razões para isso, atendendo a que os interesses da Associação José Afonso não são necessariamente os mesmos de alguns membros da família do artista. 

Portanto há actualmente em curso uma "guerra" acerca dos direitos ( e rendimentos respectivos) atinentes a tal obra e o habitual non sequitur da entidade governamental, no caso o ministério da Cultura. O "processo está parado"





Para se perceber melhor como isto sucedeu, vale a pena ler a entrevista de Arnaldo Trindade à mesma edição do i em que explica em tom diplomático o habitual em Portugal...



 No artigo dava-se conta de um problema de monta: o paradeiro das fitas originais dos "masters" era desconhecido, depois da falência da Movieplay portuguesa. E o projecto tinha em vista recuperar a discografia através dos registos existentes em colecções privadas, mormente os discos propriamente ditos...em cd e lp. Como? Certamente em suporte digital, através de conversão informática, mas nada foi explicado quanto ao procedimento. 

O mesmo tinha acontecido há uns anos atrás com o disco da Banda do Casaco, Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos, publicado originalmente em 1977 na editora Imavox, cuja falência e desaparecimento dos masters originais impossibilitaram a reedição por essa via e obrigou a recuperação do som do vinilo directamente para o formato digital, o que alias aconteceu em 2006 através do empenho dos seus autores ( Nuno Rodrigues e António Pinho) e colaboração pericial do engenheiro de som José Fortes. Neste caso, pelo menos tal intervenção pautou-se pelo cuidado dos autores que explicaram na edição do cd, em 2006 o que fizeram e como fizeram. Ou seja, que na impossibilidade de gravarem o novo "master" para a reedição a partir do original tiveram que gravar a partir de um simples disco de vinilo, com as limitações que tal implica. Uma delas, notória é a inversão dos canais de reprodução dos sons: no disco em vinilo o que aparece a soar à esquerda, como o do instrumento inicial, surge a soar à direita no cd e sem vantagem aparente. O mesmo se diga da gravação em geral, mais cansativa no cd do que no vinilo original porque geralmente com volume sonoro mais "puxado", mais estridente,  o que é defeito geral deste tipo de medium e gravações respectivas ( o mesmo acontece com as reedições recentes dos discos dos Beatles). No caso do disco da Banda do Casaco, no primeiro tema, Acalanto, logo que surgem as vozes em coro e os pífaros mais a percussão e cordas em uníssono, o equilíbrio é mais perfeito, detalhado  e audível no vinil do que no cd. Mais repousante e tranquilo. Em suma, melhor. 

Nas actuais reedições da obra de Zeca Afonso, no entanto, a audição do exemplo que é possível e disponível online, no caso o primeiro tema do primeiro disco, Natal dos Simples, a comparação é mais subtil. Na versão em vinil, original, comparando a versão digital, o tema em causa aparece bem equilibrado, sem troca de canais ou degradação sonora evidente. O único defeito que lhe aponto é aquele já indicado: o som geral é mais "puxado" no ficheiro digital, mais projectado ao ouvido de quem escuta do que o vinil, mais relaxado e mais repousante a meu ver e até mais definido. De resto é pormenor a que só alguns darão importância, como é o meu caso particular. Tirando isso, a gravação parece-me excelente, mesmo em formato digital necessariamente comprimido na resolução, pelo meio usado ( computador, internet e portanto com o som a sair a uma resolução aparentemente baixa, inferior à de um cd). O mesmo se passa no tema O Cavaleiro e o Anjo, igualmente excelente na nova gravação digital, para alguns superior ao do vinil original. 

Veremos como será o caso do disco Traz Outro Amigo também que sairá em vinil e cd no próximo dia 26 de Novembro e aí poderá comparar-se a qualidade sonora do vinil original de 1970 com aquela do vinilo agora republicado. 

Quanto ao resto, ou seja à apresentação dos artefactos, vendo pelos dois cd´s já publicados, dos primeiros discos, há uma ausência completa de informação acerca do modo como foram produzidos.  Os cd´s pouco mais têm que o objecto em si e a capa, com a indicação de terem sido "masterizados" no estrangeiro por um tal Florian Siller. 

A editora Movieplay tinha publicado logo em 1987, com o advento e desenvolvimento do formato cd, a discografia do artista, com um pormenor: as capas dos dois primeiros discos- Cantares do Andarilho e Contos Velhos Rumos Novos- foram modificadas relativamente às originais que apareceram em 1968 e 1969, respectivamente e tal como se pode ver na imagem acima. 

Não se conhece reedição em formato de lp, dos discos, pela Movieplay portuguesa, sendo que os lp´s que apareceram depois dos originais foram em alguns casos publicados pela editora Riso e Ritmo e num caso, o Cantigas do Maio, pela Círculo de Leitores, aliás a prensagem que tenho de tal disco. 

A Movieplay reeditou tal obra discográfica em 1987e cerca de dez anos depois, em 1996, sempre em formato cd. 

Assim, as capas originais dos dois primeiros lp´s em causa, publicados em 1968 e 1969,  são estas. tal como mostrado aqui:




As capas agora publicadas em reedição, desses dois primeiros discos não são por isso as originais mas as correspondentes às reedições da Movieplay, em cd, de 1987 e também no caso do segundo disco, em lp, publicado em data incerta algures no final dos anos setenta, início dos oitenta, pela Orfeu, eventualmente já com intervenção do tal José Serafim, associado de Arnaldo Trindade até a etiqueta Movieplay dar o estouro da falência, acarretando consigo a Orfeu de tão boa memória e espólio fantástico. 
Esta é a capa do lp então reeditado e a do cd actual é idêntica e da autoria de artista differente do que organizou a capa original. A original é da autoria de Fernando Aroso e a que agora se mostra em reedição é da autoria de José Santa-Bárbara. Confesso que não sei qual aprecio mais, mas a original é sempre a original, mesmo em fotografia. 


É por isso que este artigo no Público de 29.10.2021 a assinalar estas reedições peca por grande defeito ao não evidenciar estes pormenores que são essenciais, a meu ver.

Esta reedição da obra de José Afonso não só não é "definitiva" como nem sequer reproduz os originais, ao contrário do afirmado no artigo. E quanto ao som não se explica como foi obtido o som digital que se pode ouvir nos aliás excelentes exemplos apresentados. 

Será mesmo uma cópia digital e melhorada, já dos anos de 2012, altura em que se efectuaram reedições cuidadas das obras em causa? 

Dei-me ao cuidado de comparar o som do primeiro tema do disco Traz Outro Amigo Também, escutando e gravando o do vinil original de 1970, gravado em Londres, na Pye Records e cujo disco que possuo tem estampado no rótulo, "made in England", original,  portanto diverso da versão prensada em vinil, na Rádio Triunfo, estampada como "made in Portugal",  em 1973, eventualmente retocada. 

Ouvi e gravei a versão em cd de 1996, da Movieplay, apresentada numa caixinha de cartão com um livrinho catita no qual se explicam algumas coisas menos os pormenores da reedição. E ouvi também e gravei, comparando, a de 2012, da Orfeu, retocada novamente por António Pinheiro da Silva, que é autor da "masterização" para o cd, em "24 bits" e provinda dos "masters originais" o que provará que nessa altura ainda existiam e aliás foi reedição patrocinada pela RTP-Antena1. 

O resultado? Simples: o som do vinilo original conserva todas aqueles características acima apontadas: mais relaxado, tranquilo, eventualmente melhor definido e preferível a meu ver, ao som mais empurrado para os ouvidos, de ambos os cd´s. Quanto à "masterização" de 2012, eleva o som um pouco mais no patamar da qualidade digital, mas não suplanta o lp, a meu ver.  



  Assim, não espero para ouvir a versão agora publicada, em vinil e cd, porque suspeito que a conclusão irá ser a mesma: o original é  sempre preferível, embora as actuais versões sejam excelentes e adequadas a quem queira ouvir os discos intemporais de Zeca Afonso, mesmo com todos os caveat já aqui apontados na história da fruteira empenhada e na pobre transportadora que a carregava, a vários títulos. 

Para se complementar algo sobre a personalidade de José Afonso e o que representou para a música popular portuguesa vale a pena ler uma entrevista que o mesmo proporcionou a repórteres da revista Cinéfilo, tirada daqui, no contexto de um concerto realizado em 1973 e publicada no dia em que saiu o disco Venham mais cinco, ou seja em 22 de Novembro de 1973. Faz hoje 48 anos. Tantos como durou o fassismo...ahahah.









Os temas conversados, as ideias sobre a linguagem e costumes tradicionais, o gosto musical etc. etc. são absolutamente extraordinários e revelam alguém que pensava fora da caixa do comunismo e que ao mesmo tempo vivia na ilusão do "poder popular", o que aliás não resulta na entrevista porque na época ainda não estava na "ordem do dia". Só dali a meia dúzia de meses...

Num livro de Joaquim Vieira sobre a figura de José Afonso mostra-se a capa da revista e ainda de outras em que o artista foi figura de capa, o que aliás desmente a teoria de conspiração de que o mesmo foi alvo de censura feroz durante o fassismo, para além dos cortes de que foi vítima naquilo que consistia propaganda do comunismo.


Em relação aos seus amigos está aqui uma foto, tirada do mesmo livro com alguns deles, todos da extrema-esquerda comunista e do "poder popular". 




Sem comentários:

Revistas e música popular