Na SICN, agora mesmo (22:45) a dona Lourenço convidou um advogado de firma, Eduardo Paz Ferreira para comentar coisas da Grécia e arredores.
O dito causídico que ensina direito acaba de dizer que a Hungria é um país com um regime fascista ( "não tenhamos medo de o dizer"...).
Estes indivíduos nunca diriam o mesmo de uma Cuba ou de uma URSS ou da Rússia actual. Portanto, o regime húngaro é fassista. Porque sim e por uma razão suplementar que explicou: está a construir um muro de quase duzentos quilómetros para impedir que os sérvios emigrem para lá...
É assim que a dona Lourenço assegura a pluralidde informativa no canal do senhor Francisquinho Balsemão. E imediatamente a seguir temos o "dr. Francisco Louçã", em directo da Grécia...
quinta-feira, junho 18, 2015
O recluso 44 e a claque de apoio
Os jornais de hoje noticiaram a decisão de ontem, do TRLisboa, em desatender a pretensão do arguido, recluso 44, para que o processo em que está envolvido não seja considerado de especial complexidade.
Segundo se soube ontem, um juiz desembargador votou vencido na decisão.
Como é que os jornais afectos ao recluso 44 ( por manterem ligações importantes ao mesmo, na respectiva direcção e administração) noticiaram hoje tal facto? Assim:
Jornal de Notícias:
Diário de Notícias ( Carlos Lima que espero não tenha sido o autor do título da notícia...):
Ambas denotam uma vontade de que se prove que não há prova alguma que prove a corrupção...
Sobre esta vontade assolapada, vale a pena ler o editorial da revista Sábado de hoje que volta a publicar a segunda dose da transcrição da gravação do interrogatório ao arguido, recluso 44, do passado dia 27 de Maio.
E também a pequena crónica de Eduardo Dâmaso que coloca o dedo na ferida exposta e à vista de todos os que querem ver:
E agora para lembrar tempos passados, do ano de 2009, aqui ficam estes recortes avulsos:
Do extinto 24 Horas, jornal que foi dirigido pelo expoente jornalístico Pedro Tadeu, agora reduzido a colunas de opinião avulsa.
E do mesmo jornal, de 5 de Setembro de 2009, depois do caso Manuela Moura Guedes/TVI, o que então se dizia nas redacções...
Segundo se soube ontem, um juiz desembargador votou vencido na decisão.
Como é que os jornais afectos ao recluso 44 ( por manterem ligações importantes ao mesmo, na respectiva direcção e administração) noticiaram hoje tal facto? Assim:
Jornal de Notícias:
Diário de Notícias ( Carlos Lima que espero não tenha sido o autor do título da notícia...):
Ambas denotam uma vontade de que se prove que não há prova alguma que prove a corrupção...
Sobre esta vontade assolapada, vale a pena ler o editorial da revista Sábado de hoje que volta a publicar a segunda dose da transcrição da gravação do interrogatório ao arguido, recluso 44, do passado dia 27 de Maio.
E também a pequena crónica de Eduardo Dâmaso que coloca o dedo na ferida exposta e à vista de todos os que querem ver:
E agora para lembrar tempos passados, do ano de 2009, aqui ficam estes recortes avulsos:
Do extinto 24 Horas, jornal que foi dirigido pelo expoente jornalístico Pedro Tadeu, agora reduzido a colunas de opinião avulsa.
E do mesmo jornal, de 5 de Setembro de 2009, depois do caso Manuela Moura Guedes/TVI, o que então se dizia nas redacções...
quarta-feira, junho 17, 2015
Outra jogada perdida. E já vão sete...
Observador:
O Supremo Tribunal de Justiça recusou o sétimo pedido de libertação imediata de José Sócrates, apresentado a semana passada por um jurista do norte do país, por considerar que “não se verifica a ilegalidade da prisão”.
O pedido de habeas corpus, que pode ser requerido por qualquer cidadão, foi apresentado por Miguel Paulo de Sousa Mota Cardoso. O jurista, que vive no norte do país, acredita que o antigo primeiro-ministro se encontra detido ilegalmente. Este é o segundo pedido a libertação imediata de Sócrates pedido por Mota Cardoso.
E vai mais uma.
O Supremo Tribunal de Justiça recusou o sétimo pedido de libertação imediata de José Sócrates, apresentado a semana passada por um jurista do norte do país, por considerar que “não se verifica a ilegalidade da prisão”.
O pedido de habeas corpus, que pode ser requerido por qualquer cidadão, foi apresentado por Miguel Paulo de Sousa Mota Cardoso. O jurista, que vive no norte do país, acredita que o antigo primeiro-ministro se encontra detido ilegalmente. Este é o segundo pedido a libertação imediata de Sócrates pedido por Mota Cardoso.
E vai mais uma.
Lerpou mais uma vez
Observador:
O Tribunal da Relação de Lisboa recusou o recurso apresentado pela defesa de José Sócrates, que contestava a declaração de especial complexidade do processo judicial, foi esta quarta-feira divulgado pelo juiz presidente do TRL.
A decisão do tribunal superior foi tomada por maioria, tendo votado vencido o juiz relator José Reis, que no seu voto considerou que não se verifica a especial complexidade do processo de José Sócrates.
Quanto ao aspecto jurídico, parece que houve um juiz a votar contra a decisão por entender que o processo não será de especial complexidade. Acho que vou gostar de ler os fundamentos e atentar no nome do juiz: José Reis.
A associação destas decisões a um jogo de lerpa não é para vilipendiar gratuitamente ou gozar com o assunto. É apenas a consequência de entender que a defesa do recluso encara este processo como um jogo, no caso de lerpa. Vai a jogo temerariamente à espera que os parceiros se arrependam de jogar as suas cartas...
O advogado Araújo enganou-se no jogo: julga que está no póker quando é de lerpa que se trata...
O Tribunal da Relação de Lisboa recusou o recurso apresentado pela defesa de José Sócrates, que contestava a declaração de especial complexidade do processo judicial, foi esta quarta-feira divulgado pelo juiz presidente do TRL.
A decisão do tribunal superior foi tomada por maioria, tendo votado vencido o juiz relator José Reis, que no seu voto considerou que não se verifica a especial complexidade do processo de José Sócrates.
Quanto ao aspecto jurídico, parece que houve um juiz a votar contra a decisão por entender que o processo não será de especial complexidade. Acho que vou gostar de ler os fundamentos e atentar no nome do juiz: José Reis.
A associação destas decisões a um jogo de lerpa não é para vilipendiar gratuitamente ou gozar com o assunto. É apenas a consequência de entender que a defesa do recluso encara este processo como um jogo, no caso de lerpa. Vai a jogo temerariamente à espera que os parceiros se arrependam de jogar as suas cartas...
O advogado Araújo enganou-se no jogo: julga que está no póker quando é de lerpa que se trata...
A História e os ventos de mudança
No final dos anos cinquenta Salazar tinha 70 anos e estava cansado, como escreveu o seu biógrafo-apologista Franco Nogueira- Vol V de Salazar: "estão mortos os grandes mestres do seu tempo: Álvaro Vilela, José Alberto dos Reis, Carneiro Pacheco, Fezas Vital, Manuel Rodrigues, outros ainda. Ou estão aposentados e vivem em Lisboa, como José Gabriel Pinto Coelho ou Caeiro da Matta. Parecem outros os alunos. E mal reconhece a Universidade com os seus novos casarões, nem se identifica com os Grilos reconstruídos, diferentes daqueles onde estudara e lutara pela causa que depois triunfa."
Segundo o biógrafo, foi nessa altura que confidenciou aos seus amigos íntimos: "já vivi muito, já vivi de mais".
Ironicamente foi nessa altura que se lhe pediu um esforço suplementar que decorria da circunstância das guerras no Ultramar que então se iniciaram.
Salazar, já velho e cansado, ainda deu mais de si, num esforço extraordinário de análise e decisão sobre a guerra e o problema que surgiu com as nossas províncias ultramarinas, ora colónias. As decisões tomadas não podiam deixar de reflectir a mentalidade que até então prevalecia e que não dava qualquer hipótese de ponderação de outra solução que não a de afirmar a defesa intransigente e inegociável dos territórios ultramarinos que eram parte integrante de Portugal e portanto indiscutível.
A Coimbra de Salazar, em obras na "alta, era esta, em 1952, conforme o Mundo Ilustrado da época:
Foi assim que se entrou na década de sessenta, de grandes mudanças no mundo.
Em 1962 o professor de Direito, Pedro Soares Martinez, um salazarista convicto, foi nomeado ministro da Saúde.
No passado Sábado, ao Expresso, contava assim a experiência, para além do mais:
O que o mesmo conta sobre a "alteração da lei das enfermeiras" é notável e digno de registo porque releva do ar do tempo e da História que se muda com essas correntes que alguns não querem reconhecer:
"Havia coisas que [Salazar] não gostava como por exemplo de ter alterado a lei das enfermeiras. Aquela ideia que as enfermeiras tinham de ser freirinhas dedicadas aos doentes e não poderem casar, era uma coisa fora do tempo e fui eu que a alterei. Disto os esquerdistas esquecem-se".
Depois, fala como convenceu Salazar:
"Argumentei que por esse motivo os serviços tinham dificuldades em recrutar enfermeiras. Custou-lhe, mas passou. Outra coisa que lhe custou foi ter nomeado a primeira directora-geral do sexo feminino, Maria Luísa Van Zeller, para dirigir a maternidade Alfredo da Costa. Dessa vez pu-lo perante o facto consumado. Não disse nada, mas ficou desesperado. " Se são directoras-gerais, porque não juízas, diplomatas, por aí fora?" A questão era sempre o precedente."
Esta mentalidade muito elogiada por certos indivíduos pode de facto ter os seus méritos, mas Soares Martinez tinha nessa altura menos de 40 anos...e denotava com isso não se alhear dos ventos da História, por muito que custe a aceitar a quem não os queira ver nem pintados.
Esta mentalidade de Soares Martinez já não era a que se retrata aqui, no mesmo Mundo Ilustrado do início dos anos cinquenta:
Nessa mesma altura decorria em Roma, no Vaticano, o Concílio. A revista francesa L´Histoire, número de Maio deste ano, conta em poucas páginas o que foi, como começou e o que significou: uma viragem à esquerda, da Igreja Católica. Nem mais.
Este "aggiornamento" da Igreja pelo diapasão da Esquerda não foi um fenómeno conjuntural ou de acaso.
Em Portugal, em 1968, a evolução do Tempo e dos costumes levou a que se pudesse ler isto numa revista para jovens- Cine Disco:
E assim, aos poucos Portugal se foi modificando. Estas imagens dos "domingos dos tristes", tiradas da mesma revista de 1968, ano em que Salazar perdeu o poder por doença, eram deprimentes mas "o tempo estava a mudar".
Quem catalisou a mudança foi a Esquerda, evidentemente e como é reconhecido ( Eduardo Lourenço disse que a Esquerda dominava a intelligentsia desde os anos 40...). Primeiro de mansinho, como se mostra na capa deste disco emblemático.
Em 1974 já não havia volta a dar e o culpado da mudança não foi o Marcello como alguns dizem. Foi o Tempo, a Mudança. Ou os "ventos da História", como eufemisticamente se pode dizer.
Contra isso não há força que resista.
Segundo o biógrafo, foi nessa altura que confidenciou aos seus amigos íntimos: "já vivi muito, já vivi de mais".
Ironicamente foi nessa altura que se lhe pediu um esforço suplementar que decorria da circunstância das guerras no Ultramar que então se iniciaram.
Salazar, já velho e cansado, ainda deu mais de si, num esforço extraordinário de análise e decisão sobre a guerra e o problema que surgiu com as nossas províncias ultramarinas, ora colónias. As decisões tomadas não podiam deixar de reflectir a mentalidade que até então prevalecia e que não dava qualquer hipótese de ponderação de outra solução que não a de afirmar a defesa intransigente e inegociável dos territórios ultramarinos que eram parte integrante de Portugal e portanto indiscutível.
A Coimbra de Salazar, em obras na "alta, era esta, em 1952, conforme o Mundo Ilustrado da época:
Foi assim que se entrou na década de sessenta, de grandes mudanças no mundo.
Em 1962 o professor de Direito, Pedro Soares Martinez, um salazarista convicto, foi nomeado ministro da Saúde.
No passado Sábado, ao Expresso, contava assim a experiência, para além do mais:
O que o mesmo conta sobre a "alteração da lei das enfermeiras" é notável e digno de registo porque releva do ar do tempo e da História que se muda com essas correntes que alguns não querem reconhecer:
"Havia coisas que [Salazar] não gostava como por exemplo de ter alterado a lei das enfermeiras. Aquela ideia que as enfermeiras tinham de ser freirinhas dedicadas aos doentes e não poderem casar, era uma coisa fora do tempo e fui eu que a alterei. Disto os esquerdistas esquecem-se".
Depois, fala como convenceu Salazar:
"Argumentei que por esse motivo os serviços tinham dificuldades em recrutar enfermeiras. Custou-lhe, mas passou. Outra coisa que lhe custou foi ter nomeado a primeira directora-geral do sexo feminino, Maria Luísa Van Zeller, para dirigir a maternidade Alfredo da Costa. Dessa vez pu-lo perante o facto consumado. Não disse nada, mas ficou desesperado. " Se são directoras-gerais, porque não juízas, diplomatas, por aí fora?" A questão era sempre o precedente."
Esta mentalidade muito elogiada por certos indivíduos pode de facto ter os seus méritos, mas Soares Martinez tinha nessa altura menos de 40 anos...e denotava com isso não se alhear dos ventos da História, por muito que custe a aceitar a quem não os queira ver nem pintados.
Esta mentalidade de Soares Martinez já não era a que se retrata aqui, no mesmo Mundo Ilustrado do início dos anos cinquenta:
Nessa mesma altura decorria em Roma, no Vaticano, o Concílio. A revista francesa L´Histoire, número de Maio deste ano, conta em poucas páginas o que foi, como começou e o que significou: uma viragem à esquerda, da Igreja Católica. Nem mais.
Este "aggiornamento" da Igreja pelo diapasão da Esquerda não foi um fenómeno conjuntural ou de acaso.
Em Portugal, em 1968, a evolução do Tempo e dos costumes levou a que se pudesse ler isto numa revista para jovens- Cine Disco:
E assim, aos poucos Portugal se foi modificando. Estas imagens dos "domingos dos tristes", tiradas da mesma revista de 1968, ano em que Salazar perdeu o poder por doença, eram deprimentes mas "o tempo estava a mudar".
Quem catalisou a mudança foi a Esquerda, evidentemente e como é reconhecido ( Eduardo Lourenço disse que a Esquerda dominava a intelligentsia desde os anos 40...). Primeiro de mansinho, como se mostra na capa deste disco emblemático.
Em 1974 já não havia volta a dar e o culpado da mudança não foi o Marcello como alguns dizem. Foi o Tempo, a Mudança. Ou os "ventos da História", como eufemisticamente se pode dizer.
Contra isso não há força que resista.
terça-feira, junho 16, 2015
As calinadas entressachadas de Sousa Tavares.
O Expresso desta semana tem uma crónica de Miguel Sousa Tavares sobre "o preso 44" que vale a pena ler para se perceber como este cronista pode ser idiota qb. Não pela opinião que emite que vale o que vale, ou seja quase nada, mas pelas asneiras jurídicas que debita a eito e sem qualquer preocupação com o conhecimento daquele módico de direito que qualquer cidadão deve ter. MST é formado em Direito e até chegou a advogar!
Neste caso, o MºPº é fustigado por "promover estes prè-julgamentos públicos" e passado este preâmbulo ignominioso lança a primeira calinada: " convém relembrar que a prisão preventiva, ao contrário do que deixou entender o acórdão da Relação de Lisboa neste caso, só pode ter por fundamento as quatro situações de salvaguarda processual previstas na lei e jamais um convencimento sobre a culpabilidade do suspeito-sob pena de se transformar num pré-julgamento e numa prè-condenação".
Não explica quais são as "quatro situações" porque presumivelmente não sabe ( são três as alíneas e entre a b) e a c) tem um "ou") e dá a entender que são todas elas, juntas, que se devem verificar.
E presumivelmente não sabe que essas "situações" só se ponderam no caso de existirem "fortes indícios de prática de crime doloso punível com pena de prisão de máximo superior a 5 anos", como manda o artº202º nº 1 al. a) do CPP. Ou seja, é sempre necessário um juízo de culpabilidade presumida, embora em termos indiciários.Se não se imputarem factos criminosos, graves, a alguém, em modo indiciário, não há prisão preventiva que se possa aplicar. E têm que ser "fortes indícios".
Ora, para este cronista nada há para se imputar e o MºPº anda a pescar por "arrasto". A vida de Paris, os milhões do amigo, as transferências manhosas, os gastos sumptuosos para quem ganhava salário de funcionário público, as dádivas a amigos e familiares, na ordem dos milhões, o secretismo envolvido e outras circunstâncias, nada disse lhe desperta um átomo de suspeita.
Depois, para continuar na senda das calinadas avança para a consideração avalizada pelo seu saber jurídico: como a Relação já descartou " a invocação do perigo de fuga" , tal "constitui caso julgado". E pronto, branco é, galinha o põe. Cócó. Nem o demove de tal o ter mencionado na mesma frase que o MºPº reconhece ser agora "diminuto" tal perigo, o que o deveria fazer pensar na eventualidade dinâmica da coisa...
Por último e só para ficar por aqui, explica um detalhe de sabedor relativamente à "fuga ao segredo de justiça" para a revista Sábado, deixando pressuposto o autor dessa "fuga": "como é que a gravação de um interrogatório, feita pelo MºPº, foi parar a uma revista: terá o dr. Rosário Teixeira fornecido cópia à defesa de Sócrates"? pergunta perfunctoriamente o Tavares rico, sem se dar conta que foi mesmo assim e fazendo por isso, uma vez mais, figura de urso.
Eu só me espanto como um indivíduo destes escreve em jornais e debita opinião em tv´s. Eco! Precisa-se.
Enfim, nada melhor para explicar estes eflúvios tavaritchs, sedentos de provas que provem que nada se prova, do que outro artigo de outro Tavares, com escritos que são vinho de outra pipa.
João Miguel Tavares, no Público de hoje:
domingo, junho 14, 2015
"Prender para investigar" é o novo mantra mediático...
A jornalista Judite de Sousa que se dedica a ouvir o "professor pardal", perdão, Marcelo, na TVI acaba de interpelar o dito sobre o caso do recluso 44. Mencionou se se deve "prender para investigar" e o professor disse-lhe que no caso não era bem assim, mas não explicou bem como era. A jornalista Judite deve ter ficado na mesma e na próxima volta ao mesmo.
Na SICN, às 21:25 a locutora de serviço disse que a meio da semana, a transcrição do interrogatório ao recluso, pela revista Sábado, "roubou o protagonismo às celebrações do Dia de Portugal". Afinal, não foi à Convenção do PS...
Umberto Eco devia ouvir estas e talvez mudasse de opinião sobre o jornalismo. Pelo menos o nacional.
Na SICN, às 21:25 a locutora de serviço disse que a meio da semana, a transcrição do interrogatório ao recluso, pela revista Sábado, "roubou o protagonismo às celebrações do Dia de Portugal". Afinal, não foi à Convenção do PS...
Umberto Eco devia ouvir estas e talvez mudasse de opinião sobre o jornalismo. Pelo menos o nacional.
A radiotelevisão nacional
Artigo de Lucy Pepper no Observador:
O que é que andam a fazer exactamente os canais de TV terrestre em Portugal?
Não conheço quase ninguém que ainda acompanhe a sua programação, para além do telejornal da noite, o que já é um enorme desafio. Quem é que, às oito da noite, tem uma hora e meia ou duas horas para se sentar a ver tantas notícias, embora de facto não sejam muitas notícias, mas apenas três ou quatro histórias, espremidas até a última gota para encher a primeira hora (o contrário da ideia de soundbites).
Há reportagens de tiro rápido, filmadas na rua por jornalistas sem fôlego, sempre com “vox pops” de demasiadas pessoas com demasiadas coisas para dizer, mas que nunca acrescentam substância ou informação à notícia. No fundo, o vox pop da rua é o equivalente das caixas de comentários “below the line”. Depois segue o futebol, que enche o resto da programação. Poucos outros desportos aparecem.
Umas vezes, o telejornal fica num canto da sala como papel de parede. Outras vezes, é simplesmente ignorado.
Ao fim da noite, aparecem os tudólogos, sempre as mesmas caras cada semana, sempre nas mesmas discussões (ou não-discussões) sobre pormenores que pouco interessam à maior parte da gente, que naturalmente não vive obcecada pela política.
As horas do dia enchem-se com “shows” fúteis, feitos para velhotas pouco curiosas e capazes de se pasmarem perante muita coisa. As audiências no estúdio são compostas de mulheres de meia-idade ou velhotas com penteados grandes e pullovers justos, que seguem as deixas dos apresentadores para se rirem ou fazerem caras tristes nos sítios certos.
Depois, aos fins de semana, há os programas que seguem as festas dos santos pelo país todo, com apresentadores-palhaços entusiasmados pelos produtos do região, entrevistando os produtores de enchidos e cerâmica, tal como fazem em todas as cidades, todas as semanas, como se ainda ninguém soubesse o que é um chouriço ou um prato decorado. Quando a música pimba começa a tocar, a multidão salta devidamente e bate palmas, com as velhotas aparentemente indiferentes ao facto de o cantor estar apoiado por bailarinas, moças com idade para serem suas netas, e que não dançam muito bem mas que, praticamente nuas, mexem bem os cabelos, os rabos e os dentes para as câmaras.
A pior praga são as telenovelas, um disparate emitido durante horas, horas e horas em todos os canais terrestres durante a semana toda. Aos guiões falta quase tudo, de timing a interesse. Tudo consiste em histórias de homicídio, vingança e discussões de dinheiro e/ou amantes e, sem qualquer explicação, toda a gente parece ter criados que usam fardas. A representação é escandalosamente horrível, dando à nação (e a todas as nações onde se vendem as telenovelas portuguesas) a ideia de que a ficção televisiva é isto. Mas isto não é ficção televisiva. Nem é representação. Os solilóquios são especialmente hilariantes: os actores entram num quarto e falam com eles próprios. É que na telenovelalândia portuguesa não há diálogos internos expressos através da representação, porque ninguém sabe representar.
Esta infantilização do país que se chama televisão é pontuada por pausas para publicidade que são mais longas do que os programas, e durante as quais perdemos a vontade de viver, depois de vermos o mesmo anúncio três ou quatro vezes. Ou desligamos a televisão ou enfiamos um tijolo pelo écran.
Há, obviamente, uma audiência para estas tretas do dia e da noite… por enquanto. As pessoas que veem e gostam disto não conhecem outras coisas, e continuam a ver e a gostar, e a acreditar que isto é que é televisão. As velhotas sem curiosidade devem gerar rendimentos suficientes para que os canais continuem. Para já. Mas no futuro, o que poderá acontecer?
O que será quando a geração das velhotas sem curiosidade desaparecer, para ser substituída por uma geração mais sofisticada que nunca viu a televisão terrestre porque está agora a ver os canais americanos? Na televisão terrestre, não há uma evolução visível nas espécies de programação feitas. Não há ficção nacional (não… repito, telenovela não é ficção, é treta), não há comédia que valha uma menção, os documentários são tão raros como os dentes de uma galinha, e quando existem são entediantes até chega.
Um dia, a pimbalhada vai deixar de cativar as pessoas, ninguém ligará mais para as linhas de valor acrescentado para ganhar €1000, os “game shows” deixarão de receber autocarros das aldeias e talvez, um dia, as pessoas comecem a não apreciar a humilhação das audições dos “talent shows”.
Não haverá rendimento. E a televisão terrestre deixará de ser viável.
O que é que eles julgam que estão a fazer exatamente?
O que é que andam a fazer exactamente os canais de TV terrestre em Portugal?
Não conheço quase ninguém que ainda acompanhe a sua programação, para além do telejornal da noite, o que já é um enorme desafio. Quem é que, às oito da noite, tem uma hora e meia ou duas horas para se sentar a ver tantas notícias, embora de facto não sejam muitas notícias, mas apenas três ou quatro histórias, espremidas até a última gota para encher a primeira hora (o contrário da ideia de soundbites).
Há reportagens de tiro rápido, filmadas na rua por jornalistas sem fôlego, sempre com “vox pops” de demasiadas pessoas com demasiadas coisas para dizer, mas que nunca acrescentam substância ou informação à notícia. No fundo, o vox pop da rua é o equivalente das caixas de comentários “below the line”. Depois segue o futebol, que enche o resto da programação. Poucos outros desportos aparecem.
Umas vezes, o telejornal fica num canto da sala como papel de parede. Outras vezes, é simplesmente ignorado.
Ao fim da noite, aparecem os tudólogos, sempre as mesmas caras cada semana, sempre nas mesmas discussões (ou não-discussões) sobre pormenores que pouco interessam à maior parte da gente, que naturalmente não vive obcecada pela política.
As horas do dia enchem-se com “shows” fúteis, feitos para velhotas pouco curiosas e capazes de se pasmarem perante muita coisa. As audiências no estúdio são compostas de mulheres de meia-idade ou velhotas com penteados grandes e pullovers justos, que seguem as deixas dos apresentadores para se rirem ou fazerem caras tristes nos sítios certos.
Depois, aos fins de semana, há os programas que seguem as festas dos santos pelo país todo, com apresentadores-palhaços entusiasmados pelos produtos do região, entrevistando os produtores de enchidos e cerâmica, tal como fazem em todas as cidades, todas as semanas, como se ainda ninguém soubesse o que é um chouriço ou um prato decorado. Quando a música pimba começa a tocar, a multidão salta devidamente e bate palmas, com as velhotas aparentemente indiferentes ao facto de o cantor estar apoiado por bailarinas, moças com idade para serem suas netas, e que não dançam muito bem mas que, praticamente nuas, mexem bem os cabelos, os rabos e os dentes para as câmaras.
A pior praga são as telenovelas, um disparate emitido durante horas, horas e horas em todos os canais terrestres durante a semana toda. Aos guiões falta quase tudo, de timing a interesse. Tudo consiste em histórias de homicídio, vingança e discussões de dinheiro e/ou amantes e, sem qualquer explicação, toda a gente parece ter criados que usam fardas. A representação é escandalosamente horrível, dando à nação (e a todas as nações onde se vendem as telenovelas portuguesas) a ideia de que a ficção televisiva é isto. Mas isto não é ficção televisiva. Nem é representação. Os solilóquios são especialmente hilariantes: os actores entram num quarto e falam com eles próprios. É que na telenovelalândia portuguesa não há diálogos internos expressos através da representação, porque ninguém sabe representar.
Esta infantilização do país que se chama televisão é pontuada por pausas para publicidade que são mais longas do que os programas, e durante as quais perdemos a vontade de viver, depois de vermos o mesmo anúncio três ou quatro vezes. Ou desligamos a televisão ou enfiamos um tijolo pelo écran.
Há, obviamente, uma audiência para estas tretas do dia e da noite… por enquanto. As pessoas que veem e gostam disto não conhecem outras coisas, e continuam a ver e a gostar, e a acreditar que isto é que é televisão. As velhotas sem curiosidade devem gerar rendimentos suficientes para que os canais continuem. Para já. Mas no futuro, o que poderá acontecer?
O que será quando a geração das velhotas sem curiosidade desaparecer, para ser substituída por uma geração mais sofisticada que nunca viu a televisão terrestre porque está agora a ver os canais americanos? Na televisão terrestre, não há uma evolução visível nas espécies de programação feitas. Não há ficção nacional (não… repito, telenovela não é ficção, é treta), não há comédia que valha uma menção, os documentários são tão raros como os dentes de uma galinha, e quando existem são entediantes até chega.
Um dia, a pimbalhada vai deixar de cativar as pessoas, ninguém ligará mais para as linhas de valor acrescentado para ganhar €1000, os “game shows” deixarão de receber autocarros das aldeias e talvez, um dia, as pessoas comecem a não apreciar a humilhação das audições dos “talent shows”.
Não haverá rendimento. E a televisão terrestre deixará de ser viável.
O que é que eles julgam que estão a fazer exatamente?
Ecco: Os vigilantes da imbecilidade
(ANSA) - TORINO, 10 GIU -"I social media danno diritto di parola
a legioni di imbecilli che prima parlavano solo al bar dopo un
bicchiere di vino, senza danneggiare la collettività. Venivano subito
messi a tacere, mentre ora hanno lo stesso diritto di parola di un
Premio Nobel. E' l'invasione degli imbecilli". Attacca internet Umberto Eco
nel breve incontro con i giornalisti nell'Aula Magna della Cavallerizza
Reale a Torino. Ha appena ricevuto dal rettore Gianmaria Ajani la
laurea honoris causa in 'Comunicazione e Cultura dei media' perché "ha
arricchito la cultura italiana e internazionale nei campi della
filosofia, dell'analisi della società contemporanea e della letteratura,
ha rinnovato profondamente lo studio della comunicazione e della
semiotica".
(...)
"La tv aveva promosso lo scemo del villaggio rispetto al quale lo spettatore si sentiva superiore. Il dramma di Internet è che ha promosso lo scemo del villaggio a portatore di verità", osserva Eco che invita i giornali "a filtrare con équipe di specialisti le informazioni di internet perché nessuno è in grado di capire oggi se un sito sia attendibile o meno". "I giornali dovrebbero dedicare almeno due pagine all'analisi critica dei siti, così come i professori dovrebbero insegnare ai ragazzi a utilizzare i siti per fare i temi."
Umberto Eco refere-se à Itália, naturalmente. Acha que as chamadas redes sociais albergam um cóio incomensurável de imbecis. E apela mesmo aos jornalistas para dedicarem duas páginas diárias à análise crítica desses sítios de malfeitorias.
Em Portugal, porém, o valhacouto da imbecilidade estende-se um pouco mais além e invade mesmo as redacções onde Eco julga poder encontrar a redenção.
Para entender a comparação e sendo Eco uma pessoa da esquerda ampla, basta ler o La Repubblica e o Público. Não necessariamente para se detectarem os focos da imbecilidade ambiente, mas para se perceber que o jornal português nunca conseguirá aproximar-se da qualidade redactorial daqueloutro italiano e portanto o eventual esforço seria inútil.
Em Portugal a análise passa necessariamente por uma indagação prévia sobre preferências político-partidárias dos jornalistas e causas que defendem particularmente. Causas da modernidade, artísticas e abertamente políticas. O jornalismo que praticam reflecte quase sempre tais idiossincrasias.
O predomínio absoluto da ideologia difusa de uma esquerda infusa marca indelevelmente o conteúdo das notícias, a redacção dos textos e a inflexão de voz da locução televisiva e radiofónica. Para se perceber melhor e com exemplos, basta ouvir uma Maria de São José na Antena Um e uma Ana Lourenço na SIC-N. Até aflige quem estiver atento e à espera da isenção ausente.
Depois temos os camões e paulos ferreiras, delgados, judites e afins anas sá lopes.
Ver e ouvir a tv e rádio públicas é testemunhar o anúncio do advento da próxima governação socialista, todos os dias.
O despudor é tal que o alinhamento noticioso entre as cadeias de informação televisiva nos vários canais é uniforme e de pensamento único.
Aqui há uns dias, a jornalista Judite de Sousa justificou a um Medina Carreira inconformado em ver que as tv´s não dão qualquer relevância à candidatura de um Henrique Neto, preferindo-lhe um Sampaio da Nóvoa, a circunstância de este ser apoiado por três ex-presidentes da República e se o melhor colocado em sondagens. E com isso ficaria definido o critério editorial de preferência permanente por aquele candidato da esquerda. Medina Carreira respondeu-lhe que nesse caso, o melhor seria proclamar desde já eleito como presidente o dito cujo...
Claro que esta imbecilidade não releva de qualquer rede social mas do suposto profissionalismo de alguém que tem poder e influência num órgão de informação de calibre televisivo.
Os opinadores televisivos são escolhidos a dedo da mão esquerda para comentarem tudo e o par de botas habitual, desde anões e silva a louçãs comunistas e modernaços, passando pelos marquesmendes e marcelos da habitualidade corrente. É inútil procurar outra qualidade para além desta.
Nos jornais detectam-se, aqui e ali, um ou outro que sendo excepções confirmam a regra: ideias de esquerda über alles.
Se contassem a Umberto Eco o que sucedeu com o Expresso de um Costa&Nicolau no célebre episódio Artur Baptista da Silva, o escritor ficaria banzado e teria que rever a sua teoria: a imbecilidade escondida no sítio "de referência". Pedir a estas pessoas para vigiarem a imbecilidade das "redes sociais" seria como pedir a um varredor o controlo de qualidade dos aspiradores.
(...)
"La tv aveva promosso lo scemo del villaggio rispetto al quale lo spettatore si sentiva superiore. Il dramma di Internet è che ha promosso lo scemo del villaggio a portatore di verità", osserva Eco che invita i giornali "a filtrare con équipe di specialisti le informazioni di internet perché nessuno è in grado di capire oggi se un sito sia attendibile o meno". "I giornali dovrebbero dedicare almeno due pagine all'analisi critica dei siti, così come i professori dovrebbero insegnare ai ragazzi a utilizzare i siti per fare i temi."
Umberto Eco refere-se à Itália, naturalmente. Acha que as chamadas redes sociais albergam um cóio incomensurável de imbecis. E apela mesmo aos jornalistas para dedicarem duas páginas diárias à análise crítica desses sítios de malfeitorias.
Em Portugal, porém, o valhacouto da imbecilidade estende-se um pouco mais além e invade mesmo as redacções onde Eco julga poder encontrar a redenção.
Para entender a comparação e sendo Eco uma pessoa da esquerda ampla, basta ler o La Repubblica e o Público. Não necessariamente para se detectarem os focos da imbecilidade ambiente, mas para se perceber que o jornal português nunca conseguirá aproximar-se da qualidade redactorial daqueloutro italiano e portanto o eventual esforço seria inútil.
Em Portugal a análise passa necessariamente por uma indagação prévia sobre preferências político-partidárias dos jornalistas e causas que defendem particularmente. Causas da modernidade, artísticas e abertamente políticas. O jornalismo que praticam reflecte quase sempre tais idiossincrasias.
O predomínio absoluto da ideologia difusa de uma esquerda infusa marca indelevelmente o conteúdo das notícias, a redacção dos textos e a inflexão de voz da locução televisiva e radiofónica. Para se perceber melhor e com exemplos, basta ouvir uma Maria de São José na Antena Um e uma Ana Lourenço na SIC-N. Até aflige quem estiver atento e à espera da isenção ausente.
Depois temos os camões e paulos ferreiras, delgados, judites e afins anas sá lopes.
Ver e ouvir a tv e rádio públicas é testemunhar o anúncio do advento da próxima governação socialista, todos os dias.
O despudor é tal que o alinhamento noticioso entre as cadeias de informação televisiva nos vários canais é uniforme e de pensamento único.
Aqui há uns dias, a jornalista Judite de Sousa justificou a um Medina Carreira inconformado em ver que as tv´s não dão qualquer relevância à candidatura de um Henrique Neto, preferindo-lhe um Sampaio da Nóvoa, a circunstância de este ser apoiado por três ex-presidentes da República e se o melhor colocado em sondagens. E com isso ficaria definido o critério editorial de preferência permanente por aquele candidato da esquerda. Medina Carreira respondeu-lhe que nesse caso, o melhor seria proclamar desde já eleito como presidente o dito cujo...
Claro que esta imbecilidade não releva de qualquer rede social mas do suposto profissionalismo de alguém que tem poder e influência num órgão de informação de calibre televisivo.
Os opinadores televisivos são escolhidos a dedo da mão esquerda para comentarem tudo e o par de botas habitual, desde anões e silva a louçãs comunistas e modernaços, passando pelos marquesmendes e marcelos da habitualidade corrente. É inútil procurar outra qualidade para além desta.
Nos jornais detectam-se, aqui e ali, um ou outro que sendo excepções confirmam a regra: ideias de esquerda über alles.
Se contassem a Umberto Eco o que sucedeu com o Expresso de um Costa&Nicolau no célebre episódio Artur Baptista da Silva, o escritor ficaria banzado e teria que rever a sua teoria: a imbecilidade escondida no sítio "de referência". Pedir a estas pessoas para vigiarem a imbecilidade das "redes sociais" seria como pedir a um varredor o controlo de qualidade dos aspiradores.
sábado, junho 13, 2015
A violação impossível do segredo de justiça
imagem do jornal i de hoje.
Sobre as mais recentes violações de segredo de justiça no caso do Marquês importa reter algumas ideias que me parecem interessantes.
Em primeiro lugar, o advogado Araújo já anunciou que vai violar tal segredo sistematicamente. Já o violou no outro dia em que ao sair da prisão onde se encontra o seu cliente, no fim de semana passado, anunciou urbi et orbi que o MºPº tinha proposto ao mesmo uma alteração da medida de coacção de prisão preventiva e que foi assim noticiado pelo Correio da Manhã e pelo Expresso:
"(...)à saída do Estabelecimento Prisional de Évora, avançou aos jornalistas a proposta do Ministério Público em passar a medida de coação de prisão preventiva para prisão domiciliária. "A mim pessoalmente não me agrada". "Não me agrada, porque acho que não há motivos para qualquer medida de coação, esta ou outra", frisou, citado pela agência Lusa.
A decisão cabe agora ao juiz Carlos Alexandre, que não pode aplicar uma medida que seja superior ao que for promovido pelo Ministério Público."
Sobre estas violações do segredo de justiça, o penalista Rui Pereira numa crónica no C.M.no passado dia 5 de Fevreriro, explicava o que tem que ser explicado:
Os acontecimentos mais recentes em torno da "Operação
Marquês" confirmam outra regra menos óbvia: em geral, as violações do
segredo são irrelevantes na perspectiva do "bem jurídico" protegido
pela norma incriminadora, que é, muito precisamente, o êxito da investigação
criminal e a descoberta da verdade material. Na esmagadora maioria dos casos,
as notícias referem-se a factos – reais ou putativos – que são do sobejo
conhecimento dos sujeitos do processo. Está aí em causa, apenas, o chamado
"segredo externo", isto é, o conhecimento por parte de terceiros.
Esta constatação transporta-nos para outra questão mais complexa: para que
serve o dito segredo externo e qual deve ser o seu âmbito, num sistema que
consagra, desde a Reforma de 2007, a publicidade como regra e o segredo como
excepção? Um segredo orientado apenas para o exterior do tribunal pode, por
vezes, preservar o bom nome do arguido, antes de um julgamento incerto.
Todavia, é necessário cumprir o dever de informar. Como reagiriam, afinal, os
portugueses à detenção de um ex-primeiro-ministro, se tal detenção não fosse
acompanhada de nenhuma explicação? Talvez o segredo de justiça seja um segredo
de polichinelo, cuja violação é impossível evitar. Isso não deveria ser
difícil, uma vez que tal violação é um crime que pode ser cometido por qualquer
pessoa e não só por magistrados, advogados ou polícias. Sempre foi assim, e a
Reforma de 2007 clarificou-o em nome da eficácia. Mas vale a pena repensar a
questão: será que podemos equiparar, em sede de ilicitude e de culpa, quem
decreta ou tem o dever de guardar o segredo (e o viola) a quem tem o dever de
informar e até mesmo o direito de desconfiar do sistema de justiça?
Ou seja:não há crime onde não se viola qualquer bem jurídico...
Quanto à violação de tal segredo pela revista Sábado é preciso atender a datas. A gravação em dvd terá sido entregue à defesa no próprio dia do interrogatório ( em que o recluso faz um show off suspeito) e o director da revista revelou que tiveram acesso a tal gravação "ainda antes de ser conhecida a decisão do MºPº de sugerir a alteração da medida de coacção". E mais è frente escreve que "o seu conteúdo seria importantíssimo em qualquer contexto, mas quando, dias depois, se soube da proposta do procurador Rosário Teixeira" (...)
Tal sucedeu no dia 5 de Junho e no dia 6 tal foi conhecido publicamente através da violação do segredo pelo advogado Araújo.
Portanto, a conclusão lógica é que alguns dias antes, a revista já tinha conhecimento da gravação. Qualquer Sherlock Holmes de vão de escada concluirá que a entrega da gravação ocorreu entre 27 de Maio e qualquer coisa como 4 de Junho ( alguns dias antes de conhecida a proposta de alteração da medida...).
É saber quem teve acesso a tal coisa nesses dias...se realmente interessar saber quem divulgou o assunto. Crime? Não parece que tenha havido, na interpretação de Rui Pereira.
Os acontecimentos mais
recentes em torno da "Operação Marquês" confirmam outra regra menos
óbvia: em geral, as violações do segredo são irrelevantes na perspetiva
do "bem jurídico" protegido pela norma incriminadora, que é, muito
precisamente, o êxito da investigação criminal e a descoberta da verdade
material. Na esmagadora maioria dos casos, as notícias referem-se a
factos – reais ou putativos – que são do sobejo conhecimento dos
sujeitos do processo. Está aí em causa, apenas, o chamado "segredo
externo", isto é, o conhecimento por parte de terceiros.
Esta constatação transporta-nos para outra questão mais complexa: para
que serve o dito segredo externo e qual deve ser o seu âmbito, num
sistema que consagra, desde a Reforma de 2007, a publicidade como regra e
o segredo como exceção? Um segredo orientado apenas para o exterior do
tribunal pode, por vezes, preservar o bom nome do arguido, antes de um
julgamento incerto. Todavia, é necessário cumprir o dever de informar.
Como reagiriam, afinal, os portugueses à detenção de um
ex-primeiro-ministro, se tal detenção não fosse acompanhada de nenhuma
explicação?
Talvez o segredo de justiça seja um segredo de polichinelo, cuja
violação é impossível evitar. Isso não deveria ser difícil, uma vez que
tal violação é um crime que pode ser cometido por qualquer pessoa e não
só por magistrados, advogados ou polícias. Sempre foi assim, e a Reforma
de 2007 clarificou-o em nome da eficácia. Mas vale a pena repensar a
questão: será que podemos equiparar, em sede de ilicitude e de culpa,
quem decreta ou tem o dever de guardar o segredo (e o viola) a quem tem o
dever de informar e até mesmo o direito de desconfiar do sistema de
justiça?
Ler mais em: http://www.cmjornal.xl.pt/opiniao/colunistas/rui_pereira/detalhe/justica_sem_segredo.html
Ler mais em: http://www.cmjornal.xl.pt/opiniao/colunistas/rui_pereira/detalhe/justica_sem_segredo.html
Porém
Pinto Monteiro continua mediático...
Pinto Monteiro continua mediático. A última vez que o tinha sido, ameaçou o actual presidente do Sindicato dos magistrados do MP por referir publicamente uns tantos factos que não estão esclarecidos, relacionados com o exercício do cargo. "Pinto Monteiro não apoiava investigações a pessoas poderosas", disse então António Ventinhas.
Na verdade, antes, Pinto Monteiro tinha dado azo a críticas ainda mais contundentes: "Dizer que o processo Freeport foi um processo político, é uma afirmação gravíssima", disse à agência o presidente do SMMP, Rui Cardoso, reagindo à entrevista de Fernando Pinto Monteiro à RTP.
O que se passou durante o processo Face Oculta é do conhecimento geral e é uma das maiores vergonhas da justiça nacional, ao nível dos seus dirigentes de topo. Nada sucedeu a Pinto Monteiro...
Assim, porque é que os media entrevistam o juiz jubilado Pinto Monteiro, que foi PGR nomeado no tempo de José Sócrates e amigo deste e nada lhe perguntam sobre aqueles acontecimentos?
A Antena Um e o Diário Económico acharam por bem que seria interessante ouvir mais uma vez Pinto Monteiro falar. E falou para dizer absolutamente nada de especial, a não ser uma defesa encapotada dos interesses do seu amigo preso, com quem almoçou na véspera de o ser e cuja ementa é conhecida, mas sem se saber se fumou no fim . Sobre isso, porém, nem uma palavra. Sobre outros factos relacionados com o amigo, enquanto foi PGR, nada também.[Corrijo agora, depois de ouvir a entrevista, passada ao meio dia de Sábado: afinal Pinto Monteiro foi perguntado sobre esse almoço. A explicação que deu, porém, foi a mesma de sempre: nunca tinha almoçado antes com o seu amigo de ocasião, por quem nutre simpatia e nada sabia sobre o processo. Sobre o fumo do fim, no entanto, também nada adiantou porque nada lhe foi perguntado].
Pinto Monteiro cai no goto destes jornalistas de esquerda soft e que dissimulam as preferências políticas ( tal como Pinto Monteiro) para levar água a um moinho obscuro.
Tem sido sempre assim ao longo destes anos que já são muitos. A estação de rádio pública, nos noticiários que emite "à hora certa" e nos programas que radiodifunde tem sempre essa pecha de puxar à esquerda.
Porquê? Não seria possível um esforço de contenção maior da parte de quem se esforça por servir uma causa?
E que tal a causa da liberdade de informação sem amarras ideológicas ou partidárias, como é o caso e tem sido sempre, como agora mais uma vez se comprova?
Porque é que temos de gramar um jornalismo destes que envergonha a verdadeira profissão?
Na verdade, antes, Pinto Monteiro tinha dado azo a críticas ainda mais contundentes: "Dizer que o processo Freeport foi um processo político, é uma afirmação gravíssima", disse à agência o presidente do SMMP, Rui Cardoso, reagindo à entrevista de Fernando Pinto Monteiro à RTP.
O que se passou durante o processo Face Oculta é do conhecimento geral e é uma das maiores vergonhas da justiça nacional, ao nível dos seus dirigentes de topo. Nada sucedeu a Pinto Monteiro...
Assim, porque é que os media entrevistam o juiz jubilado Pinto Monteiro, que foi PGR nomeado no tempo de José Sócrates e amigo deste e nada lhe perguntam sobre aqueles acontecimentos?
A Antena Um e o Diário Económico acharam por bem que seria interessante ouvir mais uma vez Pinto Monteiro falar. E falou para dizer absolutamente nada de especial, a não ser uma defesa encapotada dos interesses do seu amigo preso, com quem almoçou na véspera de o ser e cuja ementa é conhecida, mas sem se saber se fumou no fim . Sobre isso, porém, nem uma palavra. Sobre outros factos relacionados com o amigo, enquanto foi PGR, nada também.[Corrijo agora, depois de ouvir a entrevista, passada ao meio dia de Sábado: afinal Pinto Monteiro foi perguntado sobre esse almoço. A explicação que deu, porém, foi a mesma de sempre: nunca tinha almoçado antes com o seu amigo de ocasião, por quem nutre simpatia e nada sabia sobre o processo. Sobre o fumo do fim, no entanto, também nada adiantou porque nada lhe foi perguntado].
Pinto Monteiro cai no goto destes jornalistas de esquerda soft e que dissimulam as preferências políticas ( tal como Pinto Monteiro) para levar água a um moinho obscuro.
Tem sido sempre assim ao longo destes anos que já são muitos. A estação de rádio pública, nos noticiários que emite "à hora certa" e nos programas que radiodifunde tem sempre essa pecha de puxar à esquerda.
Porquê? Não seria possível um esforço de contenção maior da parte de quem se esforça por servir uma causa?
E que tal a causa da liberdade de informação sem amarras ideológicas ou partidárias, como é o caso e tem sido sempre, como agora mais uma vez se comprova?
Porque é que temos de gramar um jornalismo destes que envergonha a verdadeira profissão?
sexta-feira, junho 12, 2015
Isaltino e Sócrates: mártires do sistema judicial
Jornal i de hoje:
Maria Helena jura que sabe do que fala. Andou na escola com Isaltino Morais, em Mirandela, e por isso pode atestar que o ex-presidente é “um homem genuíno e verdadeiro”. Só tem um problema: “É um bocado rabo de saias”. Namorou uma prima dela, mas não havia maneira de a pedir em casamento e a rapariga, cansada de esperar, acabou por emigrar para o Brasil.
Os dramas de família são “águas passadas” e a antiga desenhadora da câmara de Lisboa foi “apoiar o presidente” à sessão de autógrafos de ontem, ao final da tarde, na FNAC de Oeiras. A jogar em casa, Isaltino Morais esbanjou cumprimentos e falou do livro “A minha prisão” – um exercício de “reflexão” sobre “a corrupção do sistema” e “os poderes absolutos”. A começar pelos juízes, cujo poder não é escrutinado: “São infalíveis, quais deuses”.
Críticas e acusações
Durante quase uma hora, o ex-presidente de Oeiras disparou em todas as direcções. Do sistema prisional – que “não respeita a dignidade dos que, justa ou injustamente, estão presos” – à ministra da Justiça, que “não zela pela paz” nas cadeias.
Sem esquecer as greves “constantes” dos guardas prisionais, que retiram aos reclusos “os seus já reduzidos direitos” e desestabilizam as prisões. “Os guardas gostam de motins e de pancadaria, especialmente com reclusos, para que o poder político sinta que são poucos”, atirou Isaltino. Já o funcionamento da Justiça em Portugal também não se recomenda. “Condena-se por convicção” e, como escreveu um dia Pinto Monteiro, “os jornalistas julgam na praça pública e os magistrados, pressionados, condenam”. Enquanto isso, a classe política “esconde-se na separação de poderes e “ninguém escrutina os juízes quando violam a lei”. O sistema judicial, garantiu Isaltino à plateia, é “uma corporação tenebrosa em que ninguém toca”.
Inocência
Isaltino insistiu que foi preso apesar de a Autoridade Tributária se ter “certificado que não tinha dívidas ao Fisco” e atirou-se aos que o prenderam: “Em, Portugal é possível um juiz de primeira instância tomar uma decisão desrespeitando uma decisão de um tribunal superior e não lhe acontecer nada”. No final de tudo, todos os magistrados que participaram no processo “foram promovidos”.
Contou como a procuradora Leonor Furtado, titular do processo, lhe pediu, na década de 1990, “para meter uma cunhazinha ao Cavaco porque gostava de ser directora-geral ou como a juíza Carla Cardador era “novinha” e o procurador Luís Eloy – “o magistrado do copianço no CEJ” – foi promovido a subdirector do Centro de Estudos Judiciários. “Quem me meteu na prisão não foram os políticos que não gostavam de mim. Esses limitaram-se a pressionar os magistrados, juntamente com a comunicação social. E os magistrados não se podem deixar pressionar”, acusou.
É por estas e por outras que Isaltino garante que as cadeias “estão cheias de inocentes”. Como aliás comprova o artigo recente da revista “Sábado” que revela uma conversa entre Rosário Teixeira e José Sócrates. “O procurador faz uma figura triste porque não diz de que factos é acusado José Sócrates. Não imaginam a quantidade de Sócrates e Isaltinos que há nas prisões. Em Portugal abusa-se da prisão preventiva”, assegurou. No final, e antes dos autógrafos, o ex-presidente de Oeiras deixou um aviso: “E se isto lhe acontece a si? Nós pensamos que só acontece aos outros, mas pode acontecer a nós”.
Maria Helena, a prima da noiva, não duvida das palavras de Isaltino. A prisão é “um caso político” e o presidente é “um homem de futuro” – “senão não tinha mandado construir o repuxo de Paço d’Arcos”. E mesmo que não seja inocente, “quantos outros, que fizeram pior, não estão por aí à solta?”.
“Há quem tenha feito pior e esteja solto. Já viu o Ricardo Salgado? O Oliveira e Costa? Destruíram famílias e houve quem se tenha suicidado pelo que fizeram. Por causa do Isaltino Morais nunca ninguém se suicidou”, acrescenta Isabel, assistente de marketing e a primeira a chegar à loja. “Quem não tem telhados de vidro?”, pergunta.
Um autarca ingénuo
Em Oeiras, diz Carina, que levou a filha adolescente à sessão de autógrafos, conta-se que o ex-presidente pode muito bem ter sido vítima “da forma ingénua como confiou nas pessoas” próximas. “Diz--se que foi acusado por causa de uma guerra de ciúmes entre mulheres”. Será então Isaltino um homem inocente? A resposta, garante, é indiferente: “As pessoas só querem viver bem e Oeiras é um concelho com uma grande qualidade de vida graças ao Isaltino”. De tal forma que, desde que o autarca se foi embora, “a recolha do lixo piorou imenso”.
Pires Costa, que vive há 40 anos em Carnaxide, também foi atrás de um autógrafo e teve de correr entre uma consulta no hospital Amadora-Sintra e a loja de Oeiras. O sacrifício justifica-se porque, assegura, Isaltino é inocente: “Quando há documentos que mostram que não havia qualquer dívida ao Fisco só se pode concluir que se trata de um caso político e de vingança do PSD”. Mesmo ao lado, Justino Barbosa confessa que o assunto da prisão do “presidente que baniu as barracas de Oeiras” lhe mexe com o sistema nervoso: “Estou todo arrepiado. A prisão de um homem bom é uma coisa que me irrita”.
Sobre Isaltino Morais já escrevi bastante. Basta ler aqui e aqui para se perceber o seu problema com a justiça.
Em resumo, Isaltino foi acusado de corrupção, condenado em primeira instância por corrupção e absolvido depois em instância superior por esse crime, apesar de os factos serem quase notórios, após o depoimento das testemunhas. A absolvição ocorreu por motivos formais. Sobrou o de fraude fiscal e branqueamento de capitais. De nada lhe valeu pagar o imposto em dívida porque cumpriu mesmo tempo de prisão por esse crime. Terá havido excesso de zelo judicial? Provavelmente: Isaltino, segundo se disse, gastou uma pequena fortuna de cento e trinta mil euros em custas, e o processo conta com 44 recursos. De nada lhe valeram para evitar a prisão efectiva.
Em vez de se envergonhar do feito por que foi julgado arma em vítima do sistema judicial e ataca de forma descabelada o mesmo, servindo-se dos media e do populismo mais chão para singrar outra vez na senda do que já se habituou e os juizes já disseram: se puder volta ao mesmo...
Agora esta, também de hoje:
Público:
Numa altura em que vários órgãos de comunicação social divulgaram longas transcrições do último interrogatório feito no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) a José Sócrates, no final do mês passado, um dos advogados do ex-primeiro-ministro, João Araújo, anunciou que deixará de respeitar o sigilo a que a lei o obriga.
“Da nossa parte acabou o segredo de justiça”, declarou João Araújo, acrescentando que passará a informar a comunicação social de todos os documentos que enviar para o tribunal. A violação do segredo de justiça é crime e é precisamente por isso que a Procuradoria-Geral da República (PGR) abriu um inquérito na sequência da divulgação das transcrições do interrogatório: para descobrir a origem da fuga de informação.Esta será a primeira vez que a gravação de uma inquirição chega à opinião pública nesta fase processual. Desde 2013, que a lei passou a exigir as gravações e o DCIAP adquiriu “um sistema de gravação vídeo e áudio para as duas salas de inquirições”, informou a PGR, segundo a qual os depoimentos deixaram de “estar documentados em auto escrito”.
Neste caso, João Araújo tem-se queixado repetidamente de que o sigilo tem beneficiado exclusivamente a acusação em vez de servir para garantir a eficácia da investigação e proteger o direito do arguido à presunção de inocência. E não tem hesitado em apontar o procurador encarregue do caso como estando na origem das fugas de informação.
Contudo, no âmbito do inquérito à violação do segredo cuja abertura foi confirmada pela PGR, o próprio advogado, como todos os que tiveram acesso às gravações do interrogatório, são supeitos. “Na sequência de requerimento, foi entregue ao advogado do arguido José Sócrates cópia do DVD com as declarações prestadas no interrogatório”, confirmaou a procuradoria, em resposta ao PÚBLICO.
“Estamos perante uma violação grosseira com estrondo do segredo de justiça”, sublinhou o presidente da Associação de Advogados Penalistas, Paulo Sá e Cunha. Por outro lado, o jurista considera que é “caricato” manter o segredo neste processo de “interesse público”. Ou “se conclui rapidamente o inquérito e cai o segredo ou levanta-se o segredo que está a servir para alimentar especulações”, alertou o jurista que admite que em “defesas difíceis os advogados têm de manobrar nos média para tentar manter igualdade de armas” face às acusações aos arguidos.
Em causa está a publicação, na revista Sábado, de transcrições do interrogatório de 27 de Maio. As perguntas mostram que o Ministério Público (MP) suspeita que o ex-primeiro-ministro terá recebido luvas do empresário Hélder Bataglia para que o Governo aprovasse uma lei para favorecer o empreendimento imobiliário de Vale do Lobo, no Algarve.
“Considero grave que estas transcrições sejam publicadas. Não se percebe como é que num processo destes ainda é possível uma violação tão flagrante do sigilo. Não me lembro de alguma vez aparecer transcrito desta forma um acto processual em segredo de justiça – penso que é inédito”, diz o advogado especialista em Direito da Comunicação, Francisco Teixeira da Mota.
A ex-directora do DCIAP e actual procuradora no Supremo Tribunal de Justiça, Cândida Almeida, considera estar em causa um “caso grave de violação do segredo de justiça”. Admite que “quando os processos estão em segredo de justiça há casos em que passa cá para fora qualquer coisa, mas não desta forma e com esta extensão”.
Além disso, a magistrada lamentou que com estas situações a justiça fique "fragilizada, descredibilizada e mal vista", considerando que "se foi longe de mais" [na violação do segredo de justiça] e que "quando a própria justiça é alvo da violação das regras legais, há qualquer coisa que está doente".
Quanto ao pode agora ser feito, Cândida Almeida explicou que "nestas situações podem ser abertos inquéritos-crime e, cumulativamente, inquéritos disciplinares, para apurar todos os que tiveram acesso à gravação: funcionários, magistrados e polícia".
A defesa de Sócrates negou ontem qualquer favorecimento ao empreendimento Vale do Lobo, o que diz ser uma “afirmação insensata e falsa, sem qualquer fundamento, mesmo inventado”. Numa nota, João Araújo sublinhou que o Plano Regional de Ordenamento do Território para o Algarve (PROT), aprovado em 2007, “não visou favorecer nem favoreceu nenhuma empresa ou entidade particular”. O advogado recordou que os trabalhos deste plano se iniciaram no tempo do Governo Durão, prosseguiram com o de Santana Lopes e ficaram concluídos em 2007, já no de Sócrates. Acusou o MP de lançar “ao vento” novas suspeitas para manter “o circo a funcionar”. “O que foi posto em causa foi, mais do que a honra dele, a honra do Governo e das pessoas que intervieram na elaboração do PROT Algarve 2”, sublinhou.
Perante estes elementos indiciários, a defesa do recluso 44, perante o gáudio da bancada geral dos media, faz da Justiça uma palhaçada populista, num gesto semelhante àquele, do Isaltino. Notoriamente, torna-se claro quem violou desta vez o segredo de justiça. A confissão é quase integral e sem reservas.
A Ordem dos Advogados desapareceu da cena e a vergonha com que se cobre já é um manto diáfano de fantasia.
Maria Helena jura que sabe do que fala. Andou na escola com Isaltino Morais, em Mirandela, e por isso pode atestar que o ex-presidente é “um homem genuíno e verdadeiro”. Só tem um problema: “É um bocado rabo de saias”. Namorou uma prima dela, mas não havia maneira de a pedir em casamento e a rapariga, cansada de esperar, acabou por emigrar para o Brasil.
Os dramas de família são “águas passadas” e a antiga desenhadora da câmara de Lisboa foi “apoiar o presidente” à sessão de autógrafos de ontem, ao final da tarde, na FNAC de Oeiras. A jogar em casa, Isaltino Morais esbanjou cumprimentos e falou do livro “A minha prisão” – um exercício de “reflexão” sobre “a corrupção do sistema” e “os poderes absolutos”. A começar pelos juízes, cujo poder não é escrutinado: “São infalíveis, quais deuses”.
Críticas e acusações
Durante quase uma hora, o ex-presidente de Oeiras disparou em todas as direcções. Do sistema prisional – que “não respeita a dignidade dos que, justa ou injustamente, estão presos” – à ministra da Justiça, que “não zela pela paz” nas cadeias.
Sem esquecer as greves “constantes” dos guardas prisionais, que retiram aos reclusos “os seus já reduzidos direitos” e desestabilizam as prisões. “Os guardas gostam de motins e de pancadaria, especialmente com reclusos, para que o poder político sinta que são poucos”, atirou Isaltino. Já o funcionamento da Justiça em Portugal também não se recomenda. “Condena-se por convicção” e, como escreveu um dia Pinto Monteiro, “os jornalistas julgam na praça pública e os magistrados, pressionados, condenam”. Enquanto isso, a classe política “esconde-se na separação de poderes e “ninguém escrutina os juízes quando violam a lei”. O sistema judicial, garantiu Isaltino à plateia, é “uma corporação tenebrosa em que ninguém toca”.
Inocência
Isaltino insistiu que foi preso apesar de a Autoridade Tributária se ter “certificado que não tinha dívidas ao Fisco” e atirou-se aos que o prenderam: “Em, Portugal é possível um juiz de primeira instância tomar uma decisão desrespeitando uma decisão de um tribunal superior e não lhe acontecer nada”. No final de tudo, todos os magistrados que participaram no processo “foram promovidos”.
Contou como a procuradora Leonor Furtado, titular do processo, lhe pediu, na década de 1990, “para meter uma cunhazinha ao Cavaco porque gostava de ser directora-geral ou como a juíza Carla Cardador era “novinha” e o procurador Luís Eloy – “o magistrado do copianço no CEJ” – foi promovido a subdirector do Centro de Estudos Judiciários. “Quem me meteu na prisão não foram os políticos que não gostavam de mim. Esses limitaram-se a pressionar os magistrados, juntamente com a comunicação social. E os magistrados não se podem deixar pressionar”, acusou.
É por estas e por outras que Isaltino garante que as cadeias “estão cheias de inocentes”. Como aliás comprova o artigo recente da revista “Sábado” que revela uma conversa entre Rosário Teixeira e José Sócrates. “O procurador faz uma figura triste porque não diz de que factos é acusado José Sócrates. Não imaginam a quantidade de Sócrates e Isaltinos que há nas prisões. Em Portugal abusa-se da prisão preventiva”, assegurou. No final, e antes dos autógrafos, o ex-presidente de Oeiras deixou um aviso: “E se isto lhe acontece a si? Nós pensamos que só acontece aos outros, mas pode acontecer a nós”.
Maria Helena, a prima da noiva, não duvida das palavras de Isaltino. A prisão é “um caso político” e o presidente é “um homem de futuro” – “senão não tinha mandado construir o repuxo de Paço d’Arcos”. E mesmo que não seja inocente, “quantos outros, que fizeram pior, não estão por aí à solta?”.
“Há quem tenha feito pior e esteja solto. Já viu o Ricardo Salgado? O Oliveira e Costa? Destruíram famílias e houve quem se tenha suicidado pelo que fizeram. Por causa do Isaltino Morais nunca ninguém se suicidou”, acrescenta Isabel, assistente de marketing e a primeira a chegar à loja. “Quem não tem telhados de vidro?”, pergunta.
Um autarca ingénuo
Em Oeiras, diz Carina, que levou a filha adolescente à sessão de autógrafos, conta-se que o ex-presidente pode muito bem ter sido vítima “da forma ingénua como confiou nas pessoas” próximas. “Diz--se que foi acusado por causa de uma guerra de ciúmes entre mulheres”. Será então Isaltino um homem inocente? A resposta, garante, é indiferente: “As pessoas só querem viver bem e Oeiras é um concelho com uma grande qualidade de vida graças ao Isaltino”. De tal forma que, desde que o autarca se foi embora, “a recolha do lixo piorou imenso”.
Pires Costa, que vive há 40 anos em Carnaxide, também foi atrás de um autógrafo e teve de correr entre uma consulta no hospital Amadora-Sintra e a loja de Oeiras. O sacrifício justifica-se porque, assegura, Isaltino é inocente: “Quando há documentos que mostram que não havia qualquer dívida ao Fisco só se pode concluir que se trata de um caso político e de vingança do PSD”. Mesmo ao lado, Justino Barbosa confessa que o assunto da prisão do “presidente que baniu as barracas de Oeiras” lhe mexe com o sistema nervoso: “Estou todo arrepiado. A prisão de um homem bom é uma coisa que me irrita”.
Sobre Isaltino Morais já escrevi bastante. Basta ler aqui e aqui para se perceber o seu problema com a justiça.
Em resumo, Isaltino foi acusado de corrupção, condenado em primeira instância por corrupção e absolvido depois em instância superior por esse crime, apesar de os factos serem quase notórios, após o depoimento das testemunhas. A absolvição ocorreu por motivos formais. Sobrou o de fraude fiscal e branqueamento de capitais. De nada lhe valeu pagar o imposto em dívida porque cumpriu mesmo tempo de prisão por esse crime. Terá havido excesso de zelo judicial? Provavelmente: Isaltino, segundo se disse, gastou uma pequena fortuna de cento e trinta mil euros em custas, e o processo conta com 44 recursos. De nada lhe valeram para evitar a prisão efectiva.
Em vez de se envergonhar do feito por que foi julgado arma em vítima do sistema judicial e ataca de forma descabelada o mesmo, servindo-se dos media e do populismo mais chão para singrar outra vez na senda do que já se habituou e os juizes já disseram: se puder volta ao mesmo...
Agora esta, também de hoje:
Público:
Numa altura em que vários órgãos de comunicação social divulgaram longas transcrições do último interrogatório feito no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) a José Sócrates, no final do mês passado, um dos advogados do ex-primeiro-ministro, João Araújo, anunciou que deixará de respeitar o sigilo a que a lei o obriga.
“Da nossa parte acabou o segredo de justiça”, declarou João Araújo, acrescentando que passará a informar a comunicação social de todos os documentos que enviar para o tribunal. A violação do segredo de justiça é crime e é precisamente por isso que a Procuradoria-Geral da República (PGR) abriu um inquérito na sequência da divulgação das transcrições do interrogatório: para descobrir a origem da fuga de informação.Esta será a primeira vez que a gravação de uma inquirição chega à opinião pública nesta fase processual. Desde 2013, que a lei passou a exigir as gravações e o DCIAP adquiriu “um sistema de gravação vídeo e áudio para as duas salas de inquirições”, informou a PGR, segundo a qual os depoimentos deixaram de “estar documentados em auto escrito”.
Neste caso, João Araújo tem-se queixado repetidamente de que o sigilo tem beneficiado exclusivamente a acusação em vez de servir para garantir a eficácia da investigação e proteger o direito do arguido à presunção de inocência. E não tem hesitado em apontar o procurador encarregue do caso como estando na origem das fugas de informação.
Contudo, no âmbito do inquérito à violação do segredo cuja abertura foi confirmada pela PGR, o próprio advogado, como todos os que tiveram acesso às gravações do interrogatório, são supeitos. “Na sequência de requerimento, foi entregue ao advogado do arguido José Sócrates cópia do DVD com as declarações prestadas no interrogatório”, confirmaou a procuradoria, em resposta ao PÚBLICO.
“Estamos perante uma violação grosseira com estrondo do segredo de justiça”, sublinhou o presidente da Associação de Advogados Penalistas, Paulo Sá e Cunha. Por outro lado, o jurista considera que é “caricato” manter o segredo neste processo de “interesse público”. Ou “se conclui rapidamente o inquérito e cai o segredo ou levanta-se o segredo que está a servir para alimentar especulações”, alertou o jurista que admite que em “defesas difíceis os advogados têm de manobrar nos média para tentar manter igualdade de armas” face às acusações aos arguidos.
Em causa está a publicação, na revista Sábado, de transcrições do interrogatório de 27 de Maio. As perguntas mostram que o Ministério Público (MP) suspeita que o ex-primeiro-ministro terá recebido luvas do empresário Hélder Bataglia para que o Governo aprovasse uma lei para favorecer o empreendimento imobiliário de Vale do Lobo, no Algarve.
“Considero grave que estas transcrições sejam publicadas. Não se percebe como é que num processo destes ainda é possível uma violação tão flagrante do sigilo. Não me lembro de alguma vez aparecer transcrito desta forma um acto processual em segredo de justiça – penso que é inédito”, diz o advogado especialista em Direito da Comunicação, Francisco Teixeira da Mota.
A ex-directora do DCIAP e actual procuradora no Supremo Tribunal de Justiça, Cândida Almeida, considera estar em causa um “caso grave de violação do segredo de justiça”. Admite que “quando os processos estão em segredo de justiça há casos em que passa cá para fora qualquer coisa, mas não desta forma e com esta extensão”.
Além disso, a magistrada lamentou que com estas situações a justiça fique "fragilizada, descredibilizada e mal vista", considerando que "se foi longe de mais" [na violação do segredo de justiça] e que "quando a própria justiça é alvo da violação das regras legais, há qualquer coisa que está doente".
Quanto ao pode agora ser feito, Cândida Almeida explicou que "nestas situações podem ser abertos inquéritos-crime e, cumulativamente, inquéritos disciplinares, para apurar todos os que tiveram acesso à gravação: funcionários, magistrados e polícia".
A defesa de Sócrates negou ontem qualquer favorecimento ao empreendimento Vale do Lobo, o que diz ser uma “afirmação insensata e falsa, sem qualquer fundamento, mesmo inventado”. Numa nota, João Araújo sublinhou que o Plano Regional de Ordenamento do Território para o Algarve (PROT), aprovado em 2007, “não visou favorecer nem favoreceu nenhuma empresa ou entidade particular”. O advogado recordou que os trabalhos deste plano se iniciaram no tempo do Governo Durão, prosseguiram com o de Santana Lopes e ficaram concluídos em 2007, já no de Sócrates. Acusou o MP de lançar “ao vento” novas suspeitas para manter “o circo a funcionar”. “O que foi posto em causa foi, mais do que a honra dele, a honra do Governo e das pessoas que intervieram na elaboração do PROT Algarve 2”, sublinhou.
Perante estes elementos indiciários, a defesa do recluso 44, perante o gáudio da bancada geral dos media, faz da Justiça uma palhaçada populista, num gesto semelhante àquele, do Isaltino. Notoriamente, torna-se claro quem violou desta vez o segredo de justiça. A confissão é quase integral e sem reservas.
A Ordem dos Advogados desapareceu da cena e a vergonha com que se cobre já é um manto diáfano de fantasia.
quarta-feira, junho 10, 2015
P.S. vergonha e acossado
O partido Socialista anda desesperado como o caso Sócrates. Alguns dos seus próceres mais ousados acusam a magistratura das piores malfeitorias contra a liberdade individual de um cidadão que devia ser como os demais e afinal é encarado pelos correlegionários como um indivíduo à parte e de uma casta superior a todas as que sobrelevam o país democrático. Uma completa incongruência constitucional que o PS pratica desde sempre que um dos seus é apanhado na teia judiciária.
Nenhum outro partido em Portugal tem este comportamento indigno para a democracia. Nenhum. O PS afronta directamente o poder judiciário e judicial sempre que vê em perigo o seu feudo de interesses e influência e não recua perante nada porque não existe opinião pública em Portugal que o faça recuar.
O poder judicial acobarda-se, cala-se. fica no seu canto a remoer as ofensas e não tem a dignidade mínima em vir a terreiro defender uma dama que é de todos nós. Afinal isto é uma democracia ou o ersatz? Afinal isto é para fazer de conta ou devia contar muito mais o princípio da separação de poderes, um dos elementos fulcrais dessa democracia e que é posto em risco com estas actuações de um partido sem qualquer vergonha?
Estas duas páginas do jornal i de hoje mostram a completa desvergonha de um partido perdido em pânico de lhe suceder o que sucedeu ao PS italiano: o desmantelamento por triste e má figura democrática, com a condenação à revelia do seu líder, Bettino Craxi. Não foi por acaso que Mário Soares, enquanto presidente da República o foi visitar ao exílio na Tunísia, assegurando a completa inocência do dito. Tal como agora faz com o recluso 44. Soares, apesar de taralhouco, ainda sabe que o combate político pela sobrevivência se faz de mentiras, aldrabices e demagogia, porque foi sempre essa a sua especialidade, mesmo nas bancarrotas que infligiu ao país, com a sua ineptidão para lidar com o mais básico deve e haver.
As figuras de proa são sempre as mesmas, desde o caso Casa Pia...
E afinal qual o motivo para tamanho pânico? É simples e aparece agora nas páginas do Correio da Manhã: a teia de corrupção que se teceu à volta do antigo primeiro-ministro é gigantesca e ameaça o partido. Tão simples como isso.
Esta realidade obriga o Ministério Público a actuar rapidamente e em força, como se estivéssemos perante uma guerra à separação de poderes em que os terroristas já estão bem identificados.
A democracia corre perigo, evidentemente e pela mão dos putativos padrastos da mesma.
Nenhum outro partido em Portugal tem este comportamento indigno para a democracia. Nenhum. O PS afronta directamente o poder judiciário e judicial sempre que vê em perigo o seu feudo de interesses e influência e não recua perante nada porque não existe opinião pública em Portugal que o faça recuar.
O poder judicial acobarda-se, cala-se. fica no seu canto a remoer as ofensas e não tem a dignidade mínima em vir a terreiro defender uma dama que é de todos nós. Afinal isto é uma democracia ou o ersatz? Afinal isto é para fazer de conta ou devia contar muito mais o princípio da separação de poderes, um dos elementos fulcrais dessa democracia e que é posto em risco com estas actuações de um partido sem qualquer vergonha?
Estas duas páginas do jornal i de hoje mostram a completa desvergonha de um partido perdido em pânico de lhe suceder o que sucedeu ao PS italiano: o desmantelamento por triste e má figura democrática, com a condenação à revelia do seu líder, Bettino Craxi. Não foi por acaso que Mário Soares, enquanto presidente da República o foi visitar ao exílio na Tunísia, assegurando a completa inocência do dito. Tal como agora faz com o recluso 44. Soares, apesar de taralhouco, ainda sabe que o combate político pela sobrevivência se faz de mentiras, aldrabices e demagogia, porque foi sempre essa a sua especialidade, mesmo nas bancarrotas que infligiu ao país, com a sua ineptidão para lidar com o mais básico deve e haver.
As figuras de proa são sempre as mesmas, desde o caso Casa Pia...
E afinal qual o motivo para tamanho pânico? É simples e aparece agora nas páginas do Correio da Manhã: a teia de corrupção que se teceu à volta do antigo primeiro-ministro é gigantesca e ameaça o partido. Tão simples como isso.
Esta realidade obriga o Ministério Público a actuar rapidamente e em força, como se estivéssemos perante uma guerra à separação de poderes em que os terroristas já estão bem identificados.
A democracia corre perigo, evidentemente e pela mão dos putativos padrastos da mesma.
terça-feira, junho 09, 2015
O P.S. envergonha
O partido socialista tem, definitivamente, um problema com a Justiça. Um das propostas mais recentes do "projecto eleitoral" do PS previa a " garantia de protecção e defesa do titular de cargos políticos ou
públicos contra a utilização abusiva de meios judiciais e de mecanismos
de responsabilização como forma de pressão ou condicionamento". Parece que terá sido abandonada mas não é intenção para esquecer porque será represtinada de uma forma ou de outra, num futuro próximo se as circunstâncias eleitorais se proporcionarem.
Tal intenção mereceu esta crónica de Eduardo Dâmaso, do Correio da Manhã:
"António Costa tem-se esforçado por blindar o PS aos efeitos da prisão de Sócrates. O seu "Projecto de Programa Eleitoral", pelo contrário, promete uma verdadeira vingança contra a justiça e os jornalistas. É certo que se trata de um "projecto" mas anuncia intenções legislativas que são um perigo para a separação de poderes entre política e justiça e para a liberdade de imprensa.
Na parte específica da justiça tem dois pontos inteiramente dirigidos à remoção do juiz Carlos Alexandre do Tribunal Central de Instrução Criminal. Um, anuncia a possibilidade de distribuir os "actos processuais por tribunais com menor carga processual, com base em critérios objectivos e transparentes que satisfaçam as exigências do juiz natural". Se lembrarmos um dos eixos da defesa de Sócrates, os seus advogados não escreveriam melhor.
Num outro ponto, anuncia "a institucionalização de um regime de colocações e de movimentação de magistrados capaz de proporcionar a estabilidade e o desempenho de funções com o horizonte temporal necessário a uma boa gestão processual". Traduzindo: Carlos Alexandre tem mesmo de ir ao próximo concurso para desembargador e não pode continuar na 1ª instância.
E que dizer da "garantia de protecção e defesa do titular de cargos políticos ou públicos contra a utilização abusiva de meios judiciais e de mecanismos de responsabilização como forma de pressão ou condicionamento"? Se António Costa deixar passar estes e outros dislates está a atirar ao lixo tudo o que de bom fez enquanto ministro da Justiça e que não foi pouco."
A relação política do PS com a Justiça é fenómeno antigo, porque foi o próprio Almeida Santos, um dos Sombras da política portuguesa a dizê-lo, recentemente: “Fui fundamentalmente um legislador. Fiz dezenas de leis no próprio Conselho de Ministros, eram aprovadas logo ali e publicadas. Posso ter a vaidade de ter sido eu um dos principais artífices. Trazia de Moçambique uma linguagem jurídica e pediram-me para fazer as leis. Dificilmente terá havido um legislador que tenha feito tantas leis e tão rapidamente”.
A característica mais vincada do P.S. com a Justiça é a imediata subalternização dos magistrados e até a marginalização dos agentes da justiça sempre que um dos dirigentes do partido seja envolvido nas malhas de uma investigação criminal que coloque em risco o status quo. Nessa altura surge um reflexo instintivo de defesa corporativa do grupo, do partido e do status quo ameaçado, o que é feito sem qualquer pudor ou receio de denúncia democrática da campanha deslegitimadora e atentatória contra o princípio da separação de poderes.
Tal foi denunciado recentemente pela própria ministra da Justiça que afirmou claramente que receia uma limitação da separação de poderes se o PS ganhar as eleições. E que não haja dúvidas que assim sucederá, perante a anomia geral.
Tal sucedeu aquando do escândalo do fax de Macau e é certo e facto notório que a principal vítima escreveu um livro cuja denúncia das manigâncias do poder socialista, particularmente do decano Mário Soares, foram abafadas, até hoje.
O escândalo seguinte, da Casa Pia, ocorreu há cerca de dez anos e implicou profundas alterações na legislação penal. para dar garantias de defesa reforçadas a arguidos excelentíssimos.
Como tais garantias não foram suficientes, foram arranjadas outras, suplementares, em consequência de desenvolvimentos desse processo em que um dos envolvidos, Ferro Rodrigues, actual figura de proa do partido disse explicitamente ao actual líder Costa que se estava a "c. para o segredo de justiça". Nada lhe aconteceu e foi promovido a líder parlamentar.
O caso Freeport foi outro exemplo do despudor socialista perante a instância de controlo da investigação criminal em Portugal, com um PGR afecto aos críticos dessa investigação.
Com o caso Face Oculta assistiu-se a outra sucessão de escândalos envolvendo figuras gradas do P.S. com manifestações de propósitos idênticos de aviltamento dos investigadores judiciários e a novo ímpeto reformista do sistema legal.
As mais recentes condenações de outras figuras gradas do P.S. ainda sem trânsito em julgado e o culminar da investigação ao antigo primeiro-ministro socialista, preso em Évora, representam apenas mais um episódio desta saga que envergonha a democracia portuguesa e não é com o actual líder António Costa que isto vai mudar.
Nenhum outro partido em Portugal se atreve a este comportamento profundamente anti-democrático, sem custos eleitorais, até hoje.
O PS é um Partido Sem vergonha. A razão para tal reside na habituação anómica, na falta de denúncia vigorosa do poder judicial e de quem vendo tal estado de coisas, as aceita sem protestar.A razão profunda foi enunciada por um advogado, Ricardo Sá Fernandes: "o PS é um partido minado pela cultura do favor e da promiscuidade".
Tal intenção mereceu esta crónica de Eduardo Dâmaso, do Correio da Manhã:
"António Costa tem-se esforçado por blindar o PS aos efeitos da prisão de Sócrates. O seu "Projecto de Programa Eleitoral", pelo contrário, promete uma verdadeira vingança contra a justiça e os jornalistas. É certo que se trata de um "projecto" mas anuncia intenções legislativas que são um perigo para a separação de poderes entre política e justiça e para a liberdade de imprensa.
Na parte específica da justiça tem dois pontos inteiramente dirigidos à remoção do juiz Carlos Alexandre do Tribunal Central de Instrução Criminal. Um, anuncia a possibilidade de distribuir os "actos processuais por tribunais com menor carga processual, com base em critérios objectivos e transparentes que satisfaçam as exigências do juiz natural". Se lembrarmos um dos eixos da defesa de Sócrates, os seus advogados não escreveriam melhor.
Num outro ponto, anuncia "a institucionalização de um regime de colocações e de movimentação de magistrados capaz de proporcionar a estabilidade e o desempenho de funções com o horizonte temporal necessário a uma boa gestão processual". Traduzindo: Carlos Alexandre tem mesmo de ir ao próximo concurso para desembargador e não pode continuar na 1ª instância.
E que dizer da "garantia de protecção e defesa do titular de cargos políticos ou públicos contra a utilização abusiva de meios judiciais e de mecanismos de responsabilização como forma de pressão ou condicionamento"? Se António Costa deixar passar estes e outros dislates está a atirar ao lixo tudo o que de bom fez enquanto ministro da Justiça e que não foi pouco."
A relação política do PS com a Justiça é fenómeno antigo, porque foi o próprio Almeida Santos, um dos Sombras da política portuguesa a dizê-lo, recentemente: “Fui fundamentalmente um legislador. Fiz dezenas de leis no próprio Conselho de Ministros, eram aprovadas logo ali e publicadas. Posso ter a vaidade de ter sido eu um dos principais artífices. Trazia de Moçambique uma linguagem jurídica e pediram-me para fazer as leis. Dificilmente terá havido um legislador que tenha feito tantas leis e tão rapidamente”.
A característica mais vincada do P.S. com a Justiça é a imediata subalternização dos magistrados e até a marginalização dos agentes da justiça sempre que um dos dirigentes do partido seja envolvido nas malhas de uma investigação criminal que coloque em risco o status quo. Nessa altura surge um reflexo instintivo de defesa corporativa do grupo, do partido e do status quo ameaçado, o que é feito sem qualquer pudor ou receio de denúncia democrática da campanha deslegitimadora e atentatória contra o princípio da separação de poderes.
Tal foi denunciado recentemente pela própria ministra da Justiça que afirmou claramente que receia uma limitação da separação de poderes se o PS ganhar as eleições. E que não haja dúvidas que assim sucederá, perante a anomia geral.
Tal sucedeu aquando do escândalo do fax de Macau e é certo e facto notório que a principal vítima escreveu um livro cuja denúncia das manigâncias do poder socialista, particularmente do decano Mário Soares, foram abafadas, até hoje.
O escândalo seguinte, da Casa Pia, ocorreu há cerca de dez anos e implicou profundas alterações na legislação penal. para dar garantias de defesa reforçadas a arguidos excelentíssimos.
Como tais garantias não foram suficientes, foram arranjadas outras, suplementares, em consequência de desenvolvimentos desse processo em que um dos envolvidos, Ferro Rodrigues, actual figura de proa do partido disse explicitamente ao actual líder Costa que se estava a "c. para o segredo de justiça". Nada lhe aconteceu e foi promovido a líder parlamentar.
O caso Freeport foi outro exemplo do despudor socialista perante a instância de controlo da investigação criminal em Portugal, com um PGR afecto aos críticos dessa investigação.
Com o caso Face Oculta assistiu-se a outra sucessão de escândalos envolvendo figuras gradas do P.S. com manifestações de propósitos idênticos de aviltamento dos investigadores judiciários e a novo ímpeto reformista do sistema legal.
As mais recentes condenações de outras figuras gradas do P.S. ainda sem trânsito em julgado e o culminar da investigação ao antigo primeiro-ministro socialista, preso em Évora, representam apenas mais um episódio desta saga que envergonha a democracia portuguesa e não é com o actual líder António Costa que isto vai mudar.
Nenhum outro partido em Portugal se atreve a este comportamento profundamente anti-democrático, sem custos eleitorais, até hoje.
O PS é um Partido Sem vergonha. A razão para tal reside na habituação anómica, na falta de denúncia vigorosa do poder judicial e de quem vendo tal estado de coisas, as aceita sem protestar.A razão profunda foi enunciada por um advogado, Ricardo Sá Fernandes: "o PS é um partido minado pela cultura do favor e da promiscuidade".
domingo, junho 07, 2015
Outra historieta
Crónica de VPV hoje, no Público: afinal, a raiz do mal foi Salazar. Que ferro, como escreveriam no século XIX.
Lendo, nem se acredita: a raiz da nossa pobreza atávica, de crise permanente, vem do tempo do Estado Novo que nos legou uma "pesada herança" de guerra ultramarina e de uma sustentada sociedade arcaica.
Nesse tempo, para a maioria esmagadora da população não havia electricidade, nem hospitais, nem escolas decentes, nem mesmo segurança social ou até polícia a sério. A prova? Um milhão de portugueses emigrados.
Uma vez que o período do Estado Social de Marcello Caetano nem existiu, para VPV, será caso para perguntar quanto tempo durou o Estado Novo? 48 anos, não foi? E nasceu por causa de quê?
Estamos habilitados a responder, apenas com base nos recortes que este blog agregou nos postais destes últimos tempos.
Salazar durou 40 anos no poder. O regime que temos já leva outros tantos. Portugal não saiu da cepa torta da pobreza, segundo VPV. A culpa é do Salazar.
Mas que doideira inebriante por ali vai, naquele bestunto. Diz que o "desenvolvimento do país tinha que ser pago e suportado pelo Estado". Tinha mesmo? Quem é que ofereceu 120 milhões de contos em Junho de 1974, faz agora 40 anos, para que o sistema económico se mantivesse no ritmo que trazia dos anos anteriores? Foi o Estado ou foi a meia dúzia de capitalistas que ainda havia no nosso país?
Qual era o país da Europa que nesses anos pós salazaristas mais cresceu em riqueza e desenvolvimento, mesmo a suportar uma guerra em três frentes? O que diziam os parceiros pensadores de VPV nessa altura? Não era que se acabasse tal guerra o futuro abrir-se-ia radioso para todos nós? Porque é que VPV acreditou em patranhas socialistas ou socializantes como mézinha infalível para o desenvolvimento e agora rezinga estes disparates?
Como é que VPV explica que nestes últimos 40 anos o tal "desenvolvimento" redundasse em pobreza acumulada e regresso à situação de dívida ante-Estado Novo? E porque é que afinal reconhece que vai ser preciso mais sacrifícios, reformas e pobreza quando afinal é disso mesmo que acusa o Estado Novo? Por causa dos "erros" da democracia?
É pouco, como explicação.
Além disso, há uma, muito mais simples: Portugal , no fim do Estado Novo tinha um problema político para resolver, em que avultava uma situação de país colonizador fora de época e ao arrepio da comunidade internacional em que nos inseríamos. A questão política manteve-se por causa da persistência num mito acabado, o de que Portugal merecia esse Império por direito divino e profecia de um antigo sapateiro de Trancoso e porque era "diferente" de outros povos e até tinha colonizado de outra forma desconhecida até então. Os colonizados até eram nossos irmãos de sangue, só que nascidos noutros continentes e com outras cores de pele, costumes e até religião. Portugal afinal não era o rectângulo na Europa, conquistado no século XII mas era também tudo o que se descobriu no século XVI, por esse mundo fora. E era-o indistintamente porque era um Portugal do Minho a Timor. Só um desses bocados de Portugal cabia-nos cá dentro mais de 14 vezes, o que denota bem a incongruência metafórica.
Nenhuma dessas regiões ultramarinas carecia de autonomia ou independência porque já o eram plenamente, desde sempre. Foi essa a doutrina do Estado Novo e era esse o problema político que tínhamos para resolver. E seria resolvido, mas não por Salazar que não teve tempo para tal ou por Caetano que é apontado como traidor da ideia sagrada.
Ora foi precisamente a gente que resolveu esse problema que nos tramou o futuro destes últimos 40 anos e isso é agora tão evidente que até dói pensar no assunto. VPV faz parte dessa gente. E desse problema que apareceu a substituir o outro.
E é dessa pecha que não se livra, historicamente, pelo que inventa uma História para se safar dela.
Lendo, nem se acredita: a raiz da nossa pobreza atávica, de crise permanente, vem do tempo do Estado Novo que nos legou uma "pesada herança" de guerra ultramarina e de uma sustentada sociedade arcaica.
Nesse tempo, para a maioria esmagadora da população não havia electricidade, nem hospitais, nem escolas decentes, nem mesmo segurança social ou até polícia a sério. A prova? Um milhão de portugueses emigrados.
Uma vez que o período do Estado Social de Marcello Caetano nem existiu, para VPV, será caso para perguntar quanto tempo durou o Estado Novo? 48 anos, não foi? E nasceu por causa de quê?
Estamos habilitados a responder, apenas com base nos recortes que este blog agregou nos postais destes últimos tempos.
Salazar durou 40 anos no poder. O regime que temos já leva outros tantos. Portugal não saiu da cepa torta da pobreza, segundo VPV. A culpa é do Salazar.
Mas que doideira inebriante por ali vai, naquele bestunto. Diz que o "desenvolvimento do país tinha que ser pago e suportado pelo Estado". Tinha mesmo? Quem é que ofereceu 120 milhões de contos em Junho de 1974, faz agora 40 anos, para que o sistema económico se mantivesse no ritmo que trazia dos anos anteriores? Foi o Estado ou foi a meia dúzia de capitalistas que ainda havia no nosso país?
Qual era o país da Europa que nesses anos pós salazaristas mais cresceu em riqueza e desenvolvimento, mesmo a suportar uma guerra em três frentes? O que diziam os parceiros pensadores de VPV nessa altura? Não era que se acabasse tal guerra o futuro abrir-se-ia radioso para todos nós? Porque é que VPV acreditou em patranhas socialistas ou socializantes como mézinha infalível para o desenvolvimento e agora rezinga estes disparates?
Como é que VPV explica que nestes últimos 40 anos o tal "desenvolvimento" redundasse em pobreza acumulada e regresso à situação de dívida ante-Estado Novo? E porque é que afinal reconhece que vai ser preciso mais sacrifícios, reformas e pobreza quando afinal é disso mesmo que acusa o Estado Novo? Por causa dos "erros" da democracia?
É pouco, como explicação.
Além disso, há uma, muito mais simples: Portugal , no fim do Estado Novo tinha um problema político para resolver, em que avultava uma situação de país colonizador fora de época e ao arrepio da comunidade internacional em que nos inseríamos. A questão política manteve-se por causa da persistência num mito acabado, o de que Portugal merecia esse Império por direito divino e profecia de um antigo sapateiro de Trancoso e porque era "diferente" de outros povos e até tinha colonizado de outra forma desconhecida até então. Os colonizados até eram nossos irmãos de sangue, só que nascidos noutros continentes e com outras cores de pele, costumes e até religião. Portugal afinal não era o rectângulo na Europa, conquistado no século XII mas era também tudo o que se descobriu no século XVI, por esse mundo fora. E era-o indistintamente porque era um Portugal do Minho a Timor. Só um desses bocados de Portugal cabia-nos cá dentro mais de 14 vezes, o que denota bem a incongruência metafórica.
Nenhuma dessas regiões ultramarinas carecia de autonomia ou independência porque já o eram plenamente, desde sempre. Foi essa a doutrina do Estado Novo e era esse o problema político que tínhamos para resolver. E seria resolvido, mas não por Salazar que não teve tempo para tal ou por Caetano que é apontado como traidor da ideia sagrada.
Ora foi precisamente a gente que resolveu esse problema que nos tramou o futuro destes últimos 40 anos e isso é agora tão evidente que até dói pensar no assunto. VPV faz parte dessa gente. E desse problema que apareceu a substituir o outro.
E é dessa pecha que não se livra, historicamente, pelo que inventa uma História para se safar dela.
sábado, junho 06, 2015
Extra! Extra! É para ler tudo: Roquette ao i.
Esta entrevista de José Roquette ao i de hoje é para ler integralmente porque respiga algumas ideias das elites que estavam e voltaram a estar de há 40 anos para cá.
Destaco as passagens sobre o que aconteceu ao BES e sobre a responsabilidade do banqueiro Ricardo Espírito Santo, antigo parceiro de negócio de Roquette.
"Se quiser recuar historicamente, este processo começou com as nacionalizações que se seguiram à revolução. Aí a economia portuguesa foi destruída, sobraram relativamente poucos empresários."
Esta afirmação e o sentido da mensagem que transmite nunca foi devidamente analisada publicamente. Não há consenso, com certeza, sobre o acerto da mesma. No entanto, não se discute isto que é muito simples: foi ou não esta obra da esquerda, ao nacionalizar quase tudo em 1975, o que deu cabo da economia do país durante décadas que chegam até hoje?
Precisamos de factos para essa discussão e não apenas opiniões. Tenho-me esforçado por colocar aqui os factos que percebo e que são provavelmente a rama ou o panorama geral do que então apareceu nos jornais. Roquette devia ser entrevistado com maior pormenor sobre isto que disse porque ficaríamos melhor esclarecidos e o proveito seria enorme.
Duvido é que alguém o faça ou mesmo queira fazer. Acho até que poucos percebem a importância dessa discussão.
Eu não me importo nada de a fazer.
Sobre a responsabilidade de Ricardo Salgado ainda é mais interessante:
Diz que está convencido que não houve dolo na sua actuação e se houve, "foi pouco". No entanto, também refere que quando começou a trabalhar em bancos, "em 1960, ouviu, repetido ao tio-avô do Ricardo: Atenção, por cada conto de reis que emprestamos, novecentos escudos não são nossos". Puro senso comum, dos antigos, das elites que tinham valores outros, como agora se diz.
Isto que é tão simples e é uma das almas do negócio é complementado por outras observações muito pertinentes.
Uma delas é o exemplo do Banesto, em que ocorreu "uma fraude muito, muito parecida com a do GES. Aquilo que levou o Banesto a fechar portas e a ser intervencionado e Mario Conde preso- Espanha deve ter uma coisa qualquer na constituição que permite que Ruiz Mateos tenha sido preso, Mario Conde tenha sido preso, mas que não está na Constituição portuguesa- é muito semelhante ao que aconteceu no BES. O Banesto tinha uma coisa que se chamava corporação industrial, que no caso se chama Espírito Santo, a área não financeira. E tinha desviado uma parte dos recursos do Banesto e da tesouraria do banco para o grupo industrial. Que é uma tentação para todos".
Sobre a investigação ao GES/BES, Roquette diz:
" não percebo a incapacidade para tratar estes casos. Para mim havia uma forma de apurar responsabilidades no caso das vítimas do papel do GES". E conta como. É ler porque é um apanhado breve do que a nossa investigação criminal não faz...o que leva Roquette a dizer que temos um problema suplementar que é " em todos os processos ouvimos sempre os mesmos dois nomes, que é o do juiz Carlos Alexandre e do procurador Rosário Teixeira. Mas de que é que se está à espera, que metam lá também Nossa Senhora do Rosário"?
Tirando o primeiro nome, que se ocupa das liberdades e garantias dos investigados, apanhando o que o MºPº lhe envia, o problema está identificado. Com uma agravante que Roquete também explica:
" não sei como é que isto chega aos tribunais portugueses, nem como chega ao quadro mental dos juizes que têm de olhar para coisas em relação às quais não receberam nenhuma formação específica que lhes permita ter opinião sobre a matéria".
Ora aí está! E talvez valha a pena repescar esta leitura sobre o que é a "gestão danosa" e ainda mais isto que vale a pena ler para se entender todo o quadro que agora levou mais umas pinceladas com a notícia da absolvição dos banqueiros do BPP...
A cereja no topo do bolo desta entrevista é esta passagem:
"Este país é aquilo que depois da revolução passaram a ser os valores que contam, mais o dono disto tudo, mais o que mete no avião o amigo que leva para Angra dos Reis, mais as Tecnoformas, isto é a América Latina".
Poderia ter acrescentado o Sócrates como primeiro-ministro ou o seu ministro Lello que hoje é notícia no Correio da Manhã...
Destaco as passagens sobre o que aconteceu ao BES e sobre a responsabilidade do banqueiro Ricardo Espírito Santo, antigo parceiro de negócio de Roquette.
"Se quiser recuar historicamente, este processo começou com as nacionalizações que se seguiram à revolução. Aí a economia portuguesa foi destruída, sobraram relativamente poucos empresários."
Esta afirmação e o sentido da mensagem que transmite nunca foi devidamente analisada publicamente. Não há consenso, com certeza, sobre o acerto da mesma. No entanto, não se discute isto que é muito simples: foi ou não esta obra da esquerda, ao nacionalizar quase tudo em 1975, o que deu cabo da economia do país durante décadas que chegam até hoje?
Precisamos de factos para essa discussão e não apenas opiniões. Tenho-me esforçado por colocar aqui os factos que percebo e que são provavelmente a rama ou o panorama geral do que então apareceu nos jornais. Roquette devia ser entrevistado com maior pormenor sobre isto que disse porque ficaríamos melhor esclarecidos e o proveito seria enorme.
Duvido é que alguém o faça ou mesmo queira fazer. Acho até que poucos percebem a importância dessa discussão.
Eu não me importo nada de a fazer.
Sobre a responsabilidade de Ricardo Salgado ainda é mais interessante:
Diz que está convencido que não houve dolo na sua actuação e se houve, "foi pouco". No entanto, também refere que quando começou a trabalhar em bancos, "em 1960, ouviu, repetido ao tio-avô do Ricardo: Atenção, por cada conto de reis que emprestamos, novecentos escudos não são nossos". Puro senso comum, dos antigos, das elites que tinham valores outros, como agora se diz.
Isto que é tão simples e é uma das almas do negócio é complementado por outras observações muito pertinentes.
Uma delas é o exemplo do Banesto, em que ocorreu "uma fraude muito, muito parecida com a do GES. Aquilo que levou o Banesto a fechar portas e a ser intervencionado e Mario Conde preso- Espanha deve ter uma coisa qualquer na constituição que permite que Ruiz Mateos tenha sido preso, Mario Conde tenha sido preso, mas que não está na Constituição portuguesa- é muito semelhante ao que aconteceu no BES. O Banesto tinha uma coisa que se chamava corporação industrial, que no caso se chama Espírito Santo, a área não financeira. E tinha desviado uma parte dos recursos do Banesto e da tesouraria do banco para o grupo industrial. Que é uma tentação para todos".
Sobre a investigação ao GES/BES, Roquette diz:
" não percebo a incapacidade para tratar estes casos. Para mim havia uma forma de apurar responsabilidades no caso das vítimas do papel do GES". E conta como. É ler porque é um apanhado breve do que a nossa investigação criminal não faz...o que leva Roquette a dizer que temos um problema suplementar que é " em todos os processos ouvimos sempre os mesmos dois nomes, que é o do juiz Carlos Alexandre e do procurador Rosário Teixeira. Mas de que é que se está à espera, que metam lá também Nossa Senhora do Rosário"?
Tirando o primeiro nome, que se ocupa das liberdades e garantias dos investigados, apanhando o que o MºPº lhe envia, o problema está identificado. Com uma agravante que Roquete também explica:
" não sei como é que isto chega aos tribunais portugueses, nem como chega ao quadro mental dos juizes que têm de olhar para coisas em relação às quais não receberam nenhuma formação específica que lhes permita ter opinião sobre a matéria".
Ora aí está! E talvez valha a pena repescar esta leitura sobre o que é a "gestão danosa" e ainda mais isto que vale a pena ler para se entender todo o quadro que agora levou mais umas pinceladas com a notícia da absolvição dos banqueiros do BPP...
A cereja no topo do bolo desta entrevista é esta passagem:
"Este país é aquilo que depois da revolução passaram a ser os valores que contam, mais o dono disto tudo, mais o que mete no avião o amigo que leva para Angra dos Reis, mais as Tecnoformas, isto é a América Latina".
Poderia ter acrescentado o Sócrates como primeiro-ministro ou o seu ministro Lello que hoje é notícia no Correio da Manhã...
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