quarta-feira, janeiro 08, 2014

Futebol: o que dizia o fundador de A Bola, António Lopes Ribeiro

O fundador do jornal A Bola é este que aqui escreve no Observador de19 de Novembro de 1971.Deve ser uma coisa difícil de engolir aos alegres que escrevem poemas ao futebol. A maior parte das pessoas não sabe quem foi António Lopes Ribeiro, mas devia saber porque foi um indivíduo que filmou o tempo de Salazar e algumas cerimónias públicas que foram então organizadas. Por tal foi apontado pelos "memes" como cineasta do regime de Salazar.  Para além disso quem já viu filmes portugueses como O Pai Tirano, pode saber que o deve a António Lopes Ribeiro. Para além de cineasta foi também jornalista e cronista. E escrevia assim, sobre futebol, demonstrando que o desporto-rei afinal só a partir dessa altura se tornou um verdadeiro desporto de massas e massas, nos dois sentidos da expressão. E a culpa não foi certamente do Estado Novo ou de Salazar, mas apenas da cobiça em ganhar os cobres contados aos milhões, escondendo sob uma capa farisaica, a má-consciência de serem eles mesmos a tornar esse desporto  um factor de "alienação" que imputavam ao regime...


António Lopes Ribeiro morreu em 1995 e em12 de Outubro de 1983 o Sete entrevistara-o, numa altura, cerca de dez anos após o 25 de Abril em que se tornaram a mostrar ao público mediático algumas figuras que tinham passado pelo regime de Caetano. Parecia que tinha chegado um tempo de reconciliação dos portugueses com o seu passado mas foi sol de pouca dura. Bastou chegarem os arrivistas formados nos isctes e escolas de jornalismo a la minute para se olvidarem novamente alguns que foram importantes para a nossa memória colectiva. Como Eusébio, precisamente.

 António Lopes Ribeiro não teve ninguém que se lembrasse de o colocar no Panteão, mas não precisa de tal coisa porque a obra que deixou é o seu próprio Panteão.

Aliás sobre futebol e o mito Eusébio, outro artigo no Observador de 3 de Setembro de 1971 explica o fenómeno dos que vinham do Ultramar  para a Metrópole jogar em clubes. Não havia mistério algum: em Angola e Moçambique os bons jogadores apareciam quase por geração espontãnea, como escrevia então Meirim. Estranho mesmo é que o filão que parecia ser natural e inesgotável se tenha exaurido. Não aparece ninguém, agora, vindo das "antigas colónias". Tirando o Mantorras...porque será? Era o "colonialismo" que segregava talento entre os jovens filhos da terra da África portuguesa?

Porém, para colocar as coisas no seu devido sítio, é preciso não esquecer que nessa altura não havia a clubite de hoje associada a um nacionalismo serôdio e bacoco em considerar os nossos como sendo sempre os melhores do mundo e arredores. Tal como a palavra "orgulho", uma palavra pouco digna, não era usada e abusada como hoje o é.  Na altura o ceptro de rei do futebol era de Pelé. Ontem e hoje, como escreve o Observador de 30 de Julho de 1971.


terça-feira, janeiro 07, 2014

A História "meme" do colonialismo e racismo ensinada às crianças e explicada ao povo





Nuno Domingos, “investigador do ICS-UL” articula hoje no Público uma página e mais outra sobre Eusébio e o Estado Novo. É roupa velha, este assunto. E por isso requentada de ideias "meme" em profusão. Estão lá todas e quem quiser passar nos testes do ISCTE deve conhecê-las porque é a cartilha oficial do anti-salazarismo  primário, secundário e de curso da ESE.
Basicamente,  para estes ideólogos de iscte-ics-ces, verdadeiros mentores dos  memes” Eusébio é um preto ( um “negro” que a palavra preto não se contrasta bem com branco…e soa a demasiado racista, por isso mesmo) que veio de Moçambique para a “Metrópole”,  para ganhar a vida, sob um regime fascista e colonialista que não respeitava os direitos humanos. E por isso foi explorado de várias formas e feitios. E vingou-se dos antigos ditadores, podendo ocupar um lugar na História que aqueles não merecem.
Como escreve este articulista de circunstância, “na cultura popular” da época, um africano, nessa altura, era quase sempre ridicularizado com evidente crueldade, em livros ( onde estarão eles?) em imagens ( onde, onde, essa iconografia inventada por estes articulistas de circunstâncias tristes?), em jornais ( cadê tais papéis em português que ninguém os leu?), bandas desenhadas ( será no Tintin no país do ouro negro ou no Congo?), campanhas publicitárias ( talvez aquela do preto de cabeleira  e o branco com carapinha? Será essa, da tv dos sessentas?)  e anedotas ( devem ser deste género do escrito de circunstância…).
Portanto, é dado como assente que “ desde os seus primórdios, o Estado Novo contribuíra decisivamente ( nem menos…)para a disseminação de um racismo generalizado”. Este articulista de circunstância onde foi buscar tais sabedorias temáticas? A livros? Parece que sim e cita um, de Isabel Castro Henriques, publicado pelos CTT( huumm…) sobre A Herança de Portugal, para afirmar a atoarda ideológico-política.
A tal Isabel Henriques será uma estudiosa que “rompe” e “estrutura” na investigação de temas africanos, geralmente no ISCTE e na ICS-UL, argumentando garbosamente sobre a “materialidade do simbólico”.
Não satisfeito de tal companhia ideológico-política, o articulista de circunstância junta-lhe outro: Valdemir Zamparoni, historiador brasileiro que também navega muito nas águas da materialidade do simbólico e que  “explicou bem este mesmo processo, na sua tese sobre a capital de Moçambique” segundo o infausto articulista do Público que se vale dessa sabedoria para afirmar que
" Lourenço Marques carecia então de uma genuína integação social”.  Agora, tem-na plenamente, segundo consta. Uma magnífica integração social derivada da ausência de “colonialismo” e com uma democracia pujante de ideias sólidas sobre direitos e garantias dos cidadãos. O colonialismo era o culpado por tal coisa não existir como hoje manifestamente existe. Quem diz Moçambique, diz Angola e outros países africanos, em que os cidadãos estão devidamente integrados socialmente em …musseques que são maiores que jamais foram. Já têm as infra-estruturas que o colonialismo não permitia e se não têm a culpa é da guerra provocada pelos imperialistas colonialistas.
Zamparoni, portanto. Um brasileiro que disse assim, em brasileiro:  “O professor, Valdemir Zamparoni, que ensina História da África desde 1984, conta que até 1979, não havia referencias sobre a História da África. Ele lembra que em 1982 saiu o primeiro volume publicado em português, com edição feita no Brasil. “Passava vergonha por dizer que a única língua para a qual a versão não tinha sido completada ainda era a língua portuguesa, por ignorância dos brasileiros em relação à África e aos seus descendentes”.

No primeiro contato que estabelece com seus alunos em sala de aula, Zamparoni pede cinco palavras que vêm na cabeça dos universitários quando pensam em África, e o resultado é quase sempre o mesmo: miséria, guerra, fome e destruição. Essa imagem negativa do continente africano foi construída nesse mundo Ocidental há vários séculos e repetida incessantemente pela mídia.

Portanto, a sabedoria científica de Zamparoni  sobre assuntos africanos vem de…1979 e já tem alguns séculos. Antes, era o deserto, na Namíbia com uma Welswitchia Mirabilis a acompanhar.

Estes artigos de circunstância em que o Público é pródigo não têm outro fito que não o de replicar os memes sobre o que deve ser o entendimento comum daquilo que foi a colonização portuguesa em África, o regime de Salazar, do Estado Novo, numa sociologia e historiografia que nunca destoa desses memes fixados em linguagem pseudo-científica desde há cerca de 40 anos a esta parte.
Quem quiser conhecer  outro entendimento que aliás era o nosso antes desse período,  escusa de buscar nas publicações da actualidade porque o que encontrará fatalmente são especialistas do ICS-ISCTE-CES a ensinar como deve ser a História e a Sociologia.
Os “memes”, ao longo das últimas décadas, encarregaram-se de fixar o sentido e significado da linguagem narrativa e descritiva destes fenómenos. Quem não seguir a cartilha e usar a mesma linguagem codificada, não tem lugar no gotha do establishment universitário dos isctes-ces-ics.
Temos actualmente em Portugal uma verdadeira Academia de Memes,  das ciências sociológicas e historiográficas e os seus cultores de capela profana, devidamente apoiados por todos os media do sistema e fora dele.
É assim a vida e por isso deixo duas imagens para realçar a inteligência daqueles articulistas de estalo. 

 A primeira é da revista Observador de 11 de Junho de 1971.


A segunda são duas páginas do livro E tudo era possível, em que se relata uma passagem ilustrativa do verdadeiro anti-colonialismo,  do feliz autor José Jorge Letria, antigo comunista arrependido que manda agora na Sociedade Portuguesa de Autores, Maçonaria oblige.

segunda-feira, janeiro 06, 2014

É sempre a "meme" coisa: o mito de Eusébio e a lenda dos três efes




O Público, jornal falido,  subsidiado pela generosidade filantrópica de Belmiro de Azevedo, tem hoje um editorial de antologia sobre a morte de Eusébio.  
Citando um dos comentadores, António- Pedro Vasconcelos, acompanha-o na peregrinação mística, com o mito em fito e aponta que  num tempo em que ser português era sinal de opróbrio e de vergonha, Eusébio resgatou o nosso orgulho e devolveu-nos a dignidade.”
No afã de denegrir o tempo em que viveram os acontecimentos, só porque o regime lhes era padrasto, mudam o contexto e reconstroem as imagens “memes” que pretendem divulgar como sendo a nova História contemporânea em vigor para as massas aprenderem a soletrar. O Público é sempre o meme.
Relembremos os factos :   
Eusébio foi grande jogador de futebol, um dos maiores de sempre e do mundo.  Porém, a sua grandeza profissional manifestou-se na segunda metade da década de sessenta do século que passou, num tempo em que Salazar ainda estava no poder e depois, a partir de 1968, no tempo de Marcello Caetano.
Eusébio notabilizou-se por ter jogado muito bem no campeonato do Mundo de futebol de 1966. Não foi suficiente, porém, para vencer a Inglaterra e  ficamos em terceiro lugar, num campeonato em que Eusébio marcou nove golos. Foi isto o tal resgate do "orgulho nacional"? Parece-me muito pouco e desproporcionado. Ronaldo, objectivamente,  já fez mais e melhor, no campo dos jogos. 
Na Selecção Nacional foi isso tudo o que contou para o mito e portanto temos apenas uma memória de 1966. Lembro-me de ver esse jogo- com a Coreia do Norte- e os que se seguiram.  A equipa não era apenas Eusébio mas um grupo coeso que nunca mais fez qualquer brilharete do género durante anos a fio.  Ao serviço do Benfica, nos anos a seguir notabilizou-se de igual modo, contribuindo para grandes vitórias do clube.
Em 1973 e 74 o futebol nacional andava pelas ruas da amargura, como  atesta este pequeno artigo no Cinéfilo dessa época- 23 de Fevereiro de 1974.  António-Pedro Vasconcelos  era um dos responsáveis pela revista.


Eusébio foi por isso mitificado depois por causa de uma mística mítica e contraditória com o que então se escrevia sobre o regime anterior, que era apontado como “alienante” em função da “lenda dos três èfes` : Fátima, Futebol e Fado. Em 11 de Fevereiro de 1977 na revista Música & Som no seu primeiro número, o crítico Manuel Cadafaz de Matos, outro "meme", escrevia assim sobre as músicas de então, um comentário sobre o tal fenómeno da "alienação" que afinal era o discurso corrente da esquerda nacional.
O texto do crítico referia-se a uma música de Júlio Pereira do álbum Fernandinho vai ó vinho, de 1976, um grande disco da música popular portuguesa.
A música tinha uma letra assim:

Dizia-me o meu paí,
quando era pequenino
Ah,  mas que bem que te fica
Como eu seres do Benfica.
Ao que a minha mãe dizia
Que esse clube não prestava,
Muito melhor era o Sporting
Que era aquele que ganhava.

Já pensava nessa altura
Que o desporto era importante,
Pois por estranho que pareça,
Ouvia a todo o instante:
Ah! Se o Benfica ganhar
Vamos então passear.

E na escola existia
Aula d´Educação Física

Mas há muitos mais desportos
Que nós vamos aprender
Um dia fica p´rós outros
O outro para o futebol

Porque é sempre o Futebol
O desporto nacional. (...)
 Para completar esta trilogia maldita e vilipendiada, faltava o efeito "meme" que se caracteriza pela reciclagem histórica falsicadora dos factos e mitificadora das lendas avulsas. 
Como é sabido o futebol nunca teve tamanha expressão televisiva e mediática quanto hoje. Se "alienação" havia, agora tornou-se exponencialmente avassaladora. O Fado porta-se bem e Amália foi aproveitada pelos "memes" do actual regime como símbolo da Música nacional. Quanto a Fátima, é assunto que não é deste mundo mediatico a não ser nos dias 13 de Maio de cada ano.

Para esta mitificação vigente contribuiu, sem qualquer dúvida, o regime mediático que temos, semeado de "memes" e encharcado de revisionismo histórico, sem memória contextualizada do tempo que passou e obliterando sovieticamente as personagens malditas do mesmo, tal como o Público agora faz com a mestria que se pode ler.

Para cereja no bolo, consta que Màrio Soares, o meme dos memes, andou agora  por aí a dizer que Eusébio, afinal  era  "uma pessoa sem grande cultura e que bebia álcool logo pela manhã." 
Pois bem. Para desmemória não está nada mal. Este personagem cuja mitificação virá a caminho, em 1998 tinha provavelmente outro conceito do relativismo histórico, como atestam estas imagens do Expresso de 10 de Janeiro de 1998, comemorativas dos seus 25 anos e  exemplo máximo do processo da "memificação" em curso há 40 anos.



domingo, janeiro 05, 2014

Match, um magazine "meme" alternativo ao Sete

No primeiro trimestre de 1980 foiu publicado um semanário concorrente do Sete. Chamava-se Match-Magazine, nome bizarro a fazer jus à orientação editorial: profusão de fotos de "gajas semi-nuas", com artigos mais "sérios" e entrevistas alargadas com certas figuras do panorama nacional.

Em 9 de Maio de 1980 o entrevistado era Pinheiro de Azevedo que além de outras atoardas proclamava sem pudor que tinha "um coeficiente de inteligência fora do normal".

O número de 30 de Maio desse ano trazia uma entrevista com Vasco da Gama Fernandes e um artigo desenvolvido sobre a origem da Maçonaria em Portugal e um artigo quase apologético das FP25 assinado por um tal Luís Marques.

Portanto a alternativa aos "memes" era a continuação dos "memes", o que não é de admirar tendo em conta a composição do corpo redactorial...

Morreu Eusébio, estrela do Benfica no tempo do "catenaccio".

A Flama de 17 de Maio de 1968 mostrava assim, o Eusébio do Benfica e que tinha marcado a Selecção Nacional de 1966.


sábado, janeiro 04, 2014

Os "memes" culturais da Esquerda portuguesa

Em Portugal e depois de 25 de Abril de 1974 as actividades culturais divulgadas em massa nos media encontraram em meados de 1978 um veículo adequado aos tempos políticos que se viviam.

O Jornal, semanário concorrente do Expresso ( e que no início da década de oitenta chegou a ser ventilada a sua venda por cem mil contos) lançou um semanário dedicado a espectáculos e actividades culturais populares, colmatando uma lacuna que se fazia sentir.

O tom editorial, dado inicialmente por Mário Zambujal, sempre de Esquerda e reproduzindo os "memes" de sempre, com as figuras de sempre: o trio Raul Solnado, Carlos Cruz e Fialho Gouveia, do antigo ZIP, os figurantes da Cornélia, um programa original da tv de então; depois Herman José, constantemente; os artistas do costume.

Zambujal, exemplo do que pode  ser a Maçonaria num jornal destes, deu lugar a José Silva Pinto e Luís Almeida Martins, fiéis reprodutores dos mesmos "memes".

Em fevereiro de 1979 o semanário tinha destas capas e contra-capas. As figuras do "espectáculo" que apareciam em destaque eram quase sempre as mesmas e do mesmo sistema reprodutro, incubadas na mesma lógica ideológica:

Em Agosto de 1981 o Sete dava voz a um "baladeiro" do tempo do ZIP. A linguagem é típica dos memes. 

E no mesmo número publicitava os mesmos de sempre, agora no rádio...


Em Novembro de 1981 começou a surgir em Portugal algo diferente, na música popular. Rui Veloso iria impor-se  e antes dele, havia os Go Graal Blus Band, incipientes mas virados para a música de influência "bluesy", anglo-saxónica.
O chamado "rock português" começava a dar nos ouvidos e o Sete comentava. Luís Cília afiançava que era moda passageira.

Para alguém se dar conta do poder dos "memes" basta ler esta capa e artigo do Sete de 18 de Novembro de 1981 em que aparece a palavra fatal para explicar o desconhecido ( António Variações por exemplo, não era figura da capa do jornal).
Os "Heróis do Mar" usavam cruzes ( credo!) e bandeiras ( tarrenego!) e por isso o jornal maçónico interrogava-se seriamente se não seriam...fascistas! A tal palavra mágica que os "memes" usam para designar o que não vem na cartilha.

Durante uns bons anos foi asssim. Depois apareceu um certo Jacques Rodrigues, primeiro com uma versão pindérica do velho Musicalíssimo e depois o grupo que originou o Correio da Manhã, a revista Extra e o Semanário inaugurou a moda das revistas "sociais". Pelo meio apareceu outro híbrido maçónico- Match-magazine, em cujos números apareciam sempre os "memes" a serem entrevistados.

Estes herdeiros dos memes não mudaram a linguagem. Mudaram apenas o aspecto gráfico e passaram a fazer jornais que ampliavam a página três dos tablóides ingleses, ad nauseam...

Os "memes" da Esquerda mediática portuguesa

No Diário de Notícias de hoje, suplemento Qº ( dirigido por um Pedro Tadeu que enquanto director do extinto 24 Horas declaou que não o leria se fosse apenas leitor...) aparece uma explicação com pretensões científicas sobre o processo de transmissão do pensamento único da esquerda mediática nacional.


Apresentado um novo Observador

Segundo notícias, está para sair um novo Observador, desta vez completamente virtual e com este aspecto gráfico e introdução editorial:

Em 19 de Fevereiro de 1971 saira já um outro Observador, título original, agora repescado por alguém sem mais imaginação.
Era assim:

Mais uma vez, comparem-se as linguagens de apresentação e o texto de Vitorino Nemésio. A revista,. semanal, era politicamente adversa a uma esquerda totalitária e comunista e por isso apoiava mitigadamente o regime, com subtileza suficiente para não enfileirar nos "vivas à cristina" do antigamente. Como "feição política" a revista definia-se como "apenas a do interesse do povo português". E era.
Nunca mais se fez uma revista igual, em Portugal,  e é pena. Não creio que o novel Observador lhe herde o espírito apesar de alguns colaboradores serem de qualidade indiscutível e afastados da tal esquerda troglodita.
Veremos.


sexta-feira, janeiro 03, 2014

Portugal há 40 anos, na imprensa da situação e da oposição

Em finais do mês de Dezembro de cada ano os jornais costumam fazer um "balanço" dos acontecimentos pretéritos e em 1973 também isso sucedeu no O Século e no República.

O Século resumiu assim os acontecimentos nacionais desse ano.

E o República assim:

Sobre os dois acontecimentos políticos do ano- o caso da capela do Rato e a visita de Caetano a Londres, há diferenças de vulto no respectivo tratamento jornalístico que - note-se- era submetido a Exame Prévio de natureza censória.

O Século omite o que se passou em Londres quanto á contestação à visita, com manifestações contra Portugal em que Mário Soares promoveu e se integrou. Também omite a gigantesca manifestação que ocorreu na Praça do Comércio, logo que Marcello Caetano chegou de Londres.

O República dá amplo destaque ao assunto, omitindo completamente a manifestação por cá realizada, amplificando as de lá, em Londres, "contra a política africana portuguesa".

A visita do príncipe Filipe a Portugal tem destaque no Século, com menção explícita ao motivo: comemoração dos 600 anos da Aliança Luso-Britânica. O República simplesmente omite tal facto e respectiva importância, noticiando apenas a visita, sem mais.

O caso da capela do Rato não existiu para o Século, com a importância que o República lhe concede, replicando a nota oficiosa do ministério do Interior ( certamente porque nada mais poderiam escrever que não fosse censurado).

Sobre as eleições, em Outubro, é ler o que cada um dos jornais diz...

Qual a maior censura? A do Exame Prévio marcelista ou a da Esquerda nacional de então que é a mesma de hoje, do PS?


Nacional-Jornalismo de esquerda

Nos anos setenta do século que passou, o jornalista João Paulo Guerra terá cunhado a expressão "nacional-cançonetismo", para  definir  "um tipo de cançoneta vazia que o regime assumia como sua por oposição às cantigas de intervenção” .

João Paulo Guerra tem hoje uma ocupação de luxo: de manhã, pelas oito e meia apresenta na Antena Um, os "títulos" dos jornais que escolhe. Geralmente "títulos" que se enquadram às mil-maravilhas noutra expressão não cunhada mas já usada e de paráfrase àquela: "nacional-jornalismo".

Um dos representantes lídimos dessa corrente jornalística que peregrinou nas últimas décadas em Portugal, desde os tempos heróicos da resistência passiva ( para a generalidade dos cultures do género) ao "fassismo", é Mário Zambujal.

A história da sua vida resumida dá-nos um panorama do ambiente do nacional-jornalismo que é comum e habitado por muitos outros da sua geração.
É raro, senão impossível  encontrar hoje o jornalismo que se enquadrava no que o antigo regime "assumia como seu, por oposição ao jornalismo de intervenção", cujo exemplo tenho vindo por aqui a apresentar, com o Observador. Aliás, o "nacional-jornalismo" já então dominava a imprensa e apenas se adaptou aos novos tempos, imergindo nos mesmos como peixes na água, dando largas às ideias feitas antigas e recicladas no "sonho".
A partir de 25 de Abril de 1974, a esmagadora maioria dos jornalistas assumiu a escrita e a linguagem do nacional-jornalismo e o pensamento único tomou conta das redacções.
Foram esses primeiros cultores quem formou os sucessores e actuais profissionais do ramo, que se tornaram uma espécie de subcultura daquela, com laivos de tecnicismo que os antigos não dominavam, mas cujo talento lhes sobrava para escreverem muito melhor que estes de agora.
As anas lourenço e os josés alberto de carvalho mais os marcelinos não são mais que sucessores da linha de esquerda deste nacional-jornalismo que domina o panorama dos media há 40 anos.

A revista Tabu do jornal Sol, publica algumas páginas de entrevista com Mário Zambujal e para entender o que pretendo dizer pode ler-se:



Sócrates: será este o ano em que se fará Justiça?


Pode-se enganar a todos por algum tempo; Pode-se enganar alguns por todo o tempo; Mas não se pode enganar a todos todo o tempo...
Abraham Lincoln

quinta-feira, janeiro 02, 2014

Outro jornal de esquerda, um da situação e um outro híbrido, dez anos depois

Continuando a senda da descoberta da expressão da mudança nos últimos 40 anos, na linguagem escrita, apresento mais jornais.

O primeiro é o República, de 31 de Dezembro de 1973, um bastião de propaganda da esquerda socialista, dirigido pelo maçónico, ex-seminarista Raul Rego, com jornalistas como José Jorge Letria ( sobre música e cultura popular); Fernando Assis Pacheco ( sobre Literatura), João Soares ( sim, esse mesmo, sobre política internacional); Álvaro Guerra ( cronista), Correia da Fonseca ( crítico de tv), etc etc.
Ficam a primeira e última página desse número especial de balanço de fim-de-ano.


Neste artigo não assinado sobre a Educação, um notório embrião de paixão serôdia que se manifestou dali a vinte anos, o jornal mostra já o exemplo típico da "novafala" esquerdista que nos anos seguintes tomou conta do panorama linguístico no Portugal mediático. Cita já o desgraçado Rui Grácio, mentor do ensino unificado, governante em governos provisórios e que pretendia retirar aos liceus a carga elitista que a esquerda entendia ser socialmente inadmissível. Os efeitos dessa medida genial, esses, pagamo-los agora.


Na mesma ocasião, um jornal da situação era o Século. O número de 1 de Janeiro de 1974 não se confunde com aquele...

Passados dez anos, o panorama da imprensa portuguesa não se alterava muito em relação ao que apareceu depois de 25 de Abril de 1974, com a reconversão de quase todos os jornalistas a militantes da Esquerda.

Um dos jornais que então procurava remar contra uma maré imensa de carga ideológica e de enchentes constantes de "novafala" era o Primeiro de Janeiro. Em 19 de Janeiro de 1984, em plena crise económica, com a bancarrota outra vez à nossa porta, o seu director, Pedro Feytor Pinto, a pessoa que transmitiu recados dos militares que cercaram o quartel do Carmo, a Marcello Caetano, no dia 25 de Abril de 1974, publicava esta capa e uma página assim:


Nesse dia,  a notícia era a morte de Ary dos Santos, o celebrado autor de versos como Desfolhada. O obituário consegue dizer quase tudo o que Ary dos Santos era, menos duas coisas: comunista e homosexual...


A "novafala" já tinha tomado conta do jornal, apesar do aviso de António Lopes Ribeiro, antigo cronista do Observador.

Um jornal de esquerda há 40 anos- Diário de Lisboa de 17 Janeiro de 1974

Ficam aqui dez páginas ( mais a última) do jornal Diário de Lisboa de 17 de Janeiro de 1974. O jornal era dirigido por A. Ruella Ramos, Dali a seis meses, dirigindo também o Sempre Fixe, transformar-se-ia no mais radical jornal de "referência" pós 25 de Abril de 74. Abertamente pró-comunista, propagandeando as novas ideias de esquerda comunista e perseguindo ideologicamente, nas páginas do jornal, tudo e todos que lhe cheirasse a "fassismo", Ruella Ramos era um director pacato e conformado, em Janeiro de 1974. Seria talvez a Censura que o impedia de largar a propagandear os "amanhãs a cantar"...
Em Setembro de 1974 publicava no Sempre Fixe uma foto de um grupo de radicais comunistas a queimar publicamente jornais considerados "reaccionários" e "fascistas".
A coluna de crítica televisiva de outro comunista- Mário Castrim- era o que então me fazia comprar o jornal, pela qualidade da escrita.

A linguagem jornalística de então era um pouco diferente da de agora. Para mim, muito mais chegada à realidade vivida e menos fantasiosa e de "sonho".


Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso