segunda-feira, julho 04, 2016

O mito do "homem da regisconta"

Para entender a estupidez da análise de Pacheco Pereira a propósito do PSD actual ser agora algo que nunca foi, ou seja, ter abraçado um credo "neo-liberal" e sufragado ideias avessas à social-democracia talvez seja útil recordar um postal aqui escrito em 25.11.2012.

A "tecnocracia" do "homem da Regisconta" sempre foi uma marca de água de um partido que procurou resolver os graves problemas económicos do país e governar segundo critérios de gestão com vista ao sucesso que todos almejam, apesar da palavra ser maldita. Nessa altura a ideia tinha outro conceito: o "homem novo" que o jornal Independente de MEC e Paulo Portas não se cansou de fustigar com um objectivo que depois se tornou claro: procurar apenas ser um califa no lugar de outro califa, sem mais. Aumentar um partido que cabia num táxi para ocupar lugares de camioneta ou de combóio.
A ideia do "homem novo" cavaquista, muito glosada e desprezada pela bempensância nacional ( a começar por VPV) era ideia associada para varrer a ideia socialista do assistencialismo estadista que tivemos e temos, para nossa desgraça maior. Sá Carneiro que os pachecos pereiras agora recuperam para o pensamento original social-democrata não queria outra coisa e isso é tão explícito que só não entende quem não percebe o essencial e se liga ao acessório.
O cavaquismo não conseguiu fazer dessa ideia coisa que se visse e o assistencialismo ainda aumentou mais, com o surgimento de quistos que deram em BPN´s, Proenças de Carvalho e afins. Se isto era a social-democracia que agora se defende é coisa que não se compreende, mas Pacheco Pereira achará que sim e que era melhor que as ideias que passam no programa actual do PSD.

A tentativa de libertar o país do jugo ideológico em que se encontrava ( e encontra) desde 1974 não surtiu em Pacheco Pereira ou noutros líderes de opinião mediatizada  grande eco, apesar de alguns discursos que poderiam enganar quem os lesse ou ouvisse. No caso de Pacheco Pereira torna-se até incrível comparar o que então dizia com o que agora escreve.
Pacheco Pereira foi líder parlamentar do PSD quando as ideias do "homem novo" eram correntes e mais arrojadas tecnocraticamente do que as do "homem da Regisconta", mas nessa altura quem fazia a figura do Pacheco Pereira de hoje eram apenas os comunistas...o que aliás não admira porque é a demonstração da "boucle bouclée. O passado reencontra-se neste presente porque sempre foi assim.
Querer vituperar a pobreza do ideário actual do PSD esquecendo aquela tentativa de implantar a mesmíssima ideia através de outro mito é patético e imbecil.

Será esta, porventura,  a nossa maior questão nacional: saber distinguir o que verdadeiramente precisamos e separar o Estado de uma economia que se quer mais pujante, progressista no sentido certo, eficiente e competitiva nos "mercados". Numa palavra: riqueza. Para contrariar outra palavra: pobreza. São palavras que a Esquerda entende, embora só destaque a segunda para efeitos de propaganda. A primeira palavra, riqueza,  é-lhe muito cara mas apenas em modo pessoal e particular, para os seus mais próximos. A outra, pobreza, é para uso geral e eleitoral, para captar a atenção dos mais pobres que lhes assegurem a tal riqueza que pretendem alcançar. Basta ver os exemplos concretos dos socialistas que arranjaram vidinhas de ricos enquanto associados à governação quando eram pobretanas de subúrbio, na oposição.

É este o raciocínio básico e simples do que se tem passado em Portugal nas últimas décadas: enganos, demagogias, realidades paralelas e fantasias correntes. A tentativa do cavaquismo ( que começou assim) dos anos noventa em alterar tal estado de coisas, frustrou-se talvez por causa disto e de outros fenómenos:


Em 23 de Janeiro de 1995 o jornal Público dirigido então por Vicente Jorge Silva ( que hoje debita inanidades na tv) publicou uma extensa reportagem sobre a década prodigiosa do cavaquismo, isso "no dia em que Cavaco se define", ou seja quebrava o "tabu", ou seja desvendar o que iria fazer da sua vida. Poderia ter dito: acabou, falhei, nunca mais volto à política. Porém, como se sabe, a "História não acaba assim"...


Nos anos em que alcançou duas maiorias absolutas ( 87 e 91) Cavaco foi o "chefe" e poderia ter feito o que muito bem entendia macro-economicamente. Estávamos na CEE, em breve na UE e dali não sairíamos porque recebíamos milhões e milhões de "fundos estruturais". 
Mas...seriam os problemas de Portugal essencialmente económicos? E tinha Cavaco as pessoas mais adequadas para pensar esses problemas, mesmo económicos? E os outros problemas, de cultura, educação e desenvolvimento real, como é que o Estado e os três governos de Cavaco resolveram a equação, com as pessoas que tinha a governar em maioria absoluta e o país rendido, numa expectativa que se frustrou, como agora se deve reconhecer e em 1995 era já notória. Tão notória que apareceu outro salvador, da área do socialismo democrático, de seu nome Guterres que concitou outra maioria absoluta com promessas e bolos políticos e durante meia dúzia de anos enganou novamente os portugueses ( de tal modo que um dos seus ministros emblemáticos, Sousa Franco, pronunciou publicamente num restaurante que o governo de então "era o pior desde D. Maria"). Isso será outra História, a seguir,
Por enquanto fiquemos nesta, de Cavaco.
Em 22 de Abril de 1989, a Revista do Expresso publicou este artigo de página, da autoria de um insuspeito António José Saraiva, um intelectual como já não temos ( Eduardo Lourenço leva hoje no Público uma rabecada em grande, de VPV), sobre uma figura que já então suscitava curiosidade aos portugueses em geral: Salazar. É ler o que Saraiva escreve: "Salazar foi, sem dúvida, um dos homens mais notáveis da história de Portugal e possuía uma qualidade que os homens notáveis sempre possuem- uma recta intenção." Os comunistas não gostaram desta prosa de um antigo camarada...que afinal não chamava fassista ao ditador.



Os governos de Cavaco suscitaram muita curiosidade e expectativa pelas promessas de "pogresso" ( era mesmo assim que Cavaco falava na altura, por isso...) e ideias de "homem novo" e outras expectativas que colocaram muito alta a fasquia do futuro melhor para todos.

Em Abril de 1992 apareceu a revista Fortuna, dirigida por Álvaro de Mendonça. O tema de capa era já Belmiro de Azevedo.


No interior fazia-se um apanhado jornalístico sobre os ministros de Cavaco, com apreciações do ponto de vista de um "sector de ponta" em vias de aparição e que nunca mais nos largaria- o dos economistas especialistas em gestão. Olhavam assim para os ministros de Cavaco:


Como se vê, o mais desgraçado de todos era...Braga de Macedo, visto como académico, desligado das realidades económicas e "não daria um grande gestor", segundo os gurus da revista.

Outra revista surgida uns meses antes, a Valor, no primeiro número de 8.11.1991 fazia uma apreciação da politica económica do governo de Cavaco dirigida por aquele Braga de Macedo e também uma certa Manuela Ferreira Leite, agora muito crítica do suposto neo-liberalismo deste actual governo social-democrata.


Na senda da descoberta do caminho certo para a nossa economia aditivada com as ajudas estruturais da CEE, havia como sempre os do "contra". Como é costume aquele que teve sempre razão deu azo a uma crónica de VPV no Público de 7 de Julho de 1990, em forma de "Carta ao patrão dos patrões", na altura o já notório Pedro Ferraz da Costa que merecia ser ouvido muito mais do que é- e seguido. Não foi por falta de aviso que os governos de Cavaco falharam. For por soberba, pura e simples. E devorismo de uns tantos cuja história virá a seguir.


Apesar da auto-suficiência e dos conselhos amigos de quem tinha experiência e saber acumulados, num dos governos de Cavaco, um ministro teve a ideia peregrina de convocar meia dúzia dos tais economistas especializados em gestão, formados em ideias anglo-saxónicas ( percursores dos cursos da Católica, onde aliás se formou Vítor Gaspar) e com grande pompa e gasto a condizer, convidou um dos então gurus da tal gestão tipo Drucker. Michael Porter was his name e só falava inglês, conhecendo coisas como "clusters", cuja tradução para português nem sequer foi tentada porque o parolismo da época transplantou-se para o presente e apesar de algumas firmas de advogados apostarem muito na língua portuguesa, continuam a falar para inglês ver. O fenómeno parolístico começou nessa altura. Será que os alemães também se exprimem nesse inglês técnico de gestão corrente?
Então a revista Fortuna de Dezembro de 1993 publicou uma separata sobre o famigerado "relatório Porter" e uma entrevista com o seu mentor Mira Amaral, que apresentava o dito cujo não sem esclarecer que "o que eu não tenho é o impacto mediático que tem o professor Porter. As ideias já eu tinha." Parolice maior será difícil encontrar: perante a incapacidade em mostrar e convencer os portugueses das "ideias que tinha", o cavaquismo convida um americano para estudar, conjuntamente com uma equipa ( os nomes vêm na revista e são uma dúzia de jovens formados nas tais escolas de "gestão") e elabora um relatório. Destino do relatório? Lixo. Nunca foi aplicado devidamente. Portugal e as ideias que o cavaquismo tinha foram assim mesmo: uma frustração em grande.
Quanto ao tal Mira Amaral que agora aparece bem posicionado na vida, na mesma altura declarava a uma revista de automobilismo que a sua maior ambição em carros era ter um Mercedes classe C. Outro que também aparecia a mostrar o seu desejo automobilístico era um tal Fernando Gomes, um dos tais economistas formados nas antigas escolas industriais e que foi presidente da câmara do Porto. Agora administra uma empresa pública com salário a condizer com o estatuto que então ambicionava: ter um BMW série 5. Está tudo dito...



Não admira nada por isso que a prognose póstuma efectuada pelo Público em 23 de Janeiro de 1995 fosse uma grande, enorme frustração e desencanto. Apenas sobre a Economia ficam duas páginas que mostram que afinal o cavaquismo foi mesmo a génese da nossa destraça colectiva. Alguém duvida? Alguém contesta?
 O nosso fado teria mesmo que ser este, com este Cavaco e estas personagens de opereta como dantes se dizia? Não tínhamos melhor? Se calhar não porque a seguir ainda veio pior...
Em 1995, o PS apresentava-nos 100 nomes 100 para nos governar. Deus meu, como foi possível acreditar outra vez nessa desgraça?  A História segue dentre de dias.





sábado, julho 02, 2016

Um texto de Pacheco Pereira que é uma imagem




Hoje, no Público, Pacheco Pereira continua a sua cruzada inquisitorial contra o PSD da actualidade, desvirtuado, segundo o mesmo, das características que o levaram a aderir ao partido, nos anos das maiorias absolutas de Cavaco Silva.
Quem o via na AR nos anos noventa, a perorar sempre em favor das ideias de um partido que foi o de Sá Carneiro mas também o de Balsemão ou de Cavaco Silva  nem acredita na figura hirsuta de hoje, a desbastar o suposto liberalismo de um partido que nunca deixou de se chamar social-democrata e cujo ideário político nunca se afastou do que sempre foi, apesar dos protestos dos pachecos.

Pegando na imagem de um opúsculo do grupo parlamentar do PSD da actualidade encontra-lhe tantos significados que tudo o reconduz a uma ideia simples: o PSD actual é composto de "homens da Regisconta", ou seja de homens com pasta de executivo na mão e ideias curtas sobre gestão "de baixa qualidade". A ideia extrapola-se ainda para o "jovem executivo", o "profissional de marketing" reconduzido ao "diligente jota".
O resumo da brilhante ideia de Pacheco encontra-se no achado vituperador: "Quem deve estar a rabiar naquele título e por baixo do "homem da Regisconta" é a palavra "social-democrata".

No outro dia, Pacheco explicava ao leitor o que era a sua ideia particular de social-democracia muito chegada à doutrina social da igreja e à falta de melhor referência para contrastar com  o famigerado Regisconta tecnocrático que aborrece o historiador Pacheco.

A medida do anacronismo pachecal encontra-se logo na referência à Regisconta, uma empresa portuguesa que inventou o slogan em 1972 com a "prata da casa", como aqui se explica.

A ideia básica é estranha a Pacheco Pereira porque em 1972 era um dos doentes infantis do comunismo que via na Regisconta o inimigo de classe a abater, com panfletos maoistas distribuídos nas soleiras de portas esconsas da cidade do Porto.

A Regisconta era "aquela máquina", um slogan publicitário que calou fundo no imaginário obscuro dos pachecos que pululavam então como pulgas esquerdistas no lombo do capitalismo que isto representava em estado puro.
Este e outros slogans publicitários, fabulosos de inventividade,  ndos anos sententa, só encontram eco mediático nos pachecos et al quando são atribuídos aos O´Neill ou génios assim porque se forem de anónimos da escrita são apenas do tempo do fassismo e nada mais...




Tudo isto são conceitos estranhos às figuras pachecais que só entranharam algumas ideias do capitalismo nacional quando tal lhes fazia jeito no exercício do poder de mando. De resto sempre social-democrata, tipo doutrina social de uma igreja qualquer, mesmo da esquerda que nunca esqueceram. As contradições nunca incomodaram as pachecais figuras porque são o seu caldo de cultura.

No início dos anos setenta do século que passou, em Portugal, havia muitas "regiscontas" com o conceito certo que agora os pachecos repristinam para fustigar ideias adversas.

 Por exemplo, no Século Ilustrado de 27.5.1970:


 Ou no Século Ilustrado de19.8.1972, a mesma ideia expressa em modo mais confuso e didáctico:


Os Pachecos prefeririam sempre que este ou outro PSD se representasse assim, como na publicidade à Imprensa Nacional de 26.12.1970:



Ou então assim, supra-sumo das ideias publicitárias destes cabotinos dos estribilhos do ideário esquerdista que nunca entenderam a essência do capitalismo:


A Flama de 6.4.1973, neste anúncio publicitário a livros de bolso exaltava a ideia da Cultura, muito cara aos pachecos que detestam a ideia de tecnocracia sumária e da "gestão de baixa qualidade".

 O que é triste nestas pachecais figuras é a sua "gestão de baixa qualidade" dos conceitos que continuam a esportular como se fossem actuais ou tivessem ainda significado relevante.
Estas anacrónicas figuras são tidas como intelectuais de referência por outros que se lhes assemelham no estilo, ideologia e métodos. Todos esquerdistas...e são eles, essa gente que nos tem desgraçado ao longo de décadas. Em nome da Cultura...

quinta-feira, junho 30, 2016

A Mabor de Salazar e Cerejeira na origem do investimento da Continental

Sapo RR:

O primeiro-ministro, António Costa, afirma que os alemães conhecedores da realidade nacional confiam e investem em Portugal.
Um dia depois de o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, ter declarado que Portugal pode precisar de um novo resgate se não cumprir as regras europeias, António Costa deixou uma mensagem nas redes sociais.


 Quem é  a Continental? Uma empresa capitalista da Alemanha que já vem do séc. XIX...

 Em 1871 a Continental é fundada como „Continental - Caoutchouc- und Gutta-Percha Compagnie“, uma Sociedade Anónima, por nove banqueiros e industriais residentes em Hanôver, Alemanha.
No entanto, não existia nenhuma ida à bolsa no sentido de hoje. As acções foram primeiro distribuídas entre os nove fundadores e só foram transacionadas pouco a pouco. Já em 1873/74 a acção é cotada na bolsa de Hanôver. 

A “marca do cavalo” já se encontra registada desde Outubro 1882 como logomarca da Continental, no Instituto Imperial de Patentes de Hanôver e protegida até hoje como distintivo expressivo.
No fim dos anos 1920, importantes empresas da indústria alemã de cauchu, unem-se formando a „Continental Gummi-Werke AG“. Esta produz quase exclusivamente na Alemanha. Porém, a quota de exportação sobe continuamente.
A orientação internacional do fabricante de pneus alemão para fornecedor internacional da indústria automóvel, começa em 1979, sendo desde então levada em frente com determinação.
Em 1979 a Continental adquire as actividades europeias de pneus da Uniroyal Inc. americana. Com isto a Continental cria uma base mais alargada na Europa.
Em 1985 a Continental toma definitivamente pé na Europa com a aquisição da marca de pneus austríaca Semperit.


A Continental tem ligações a Portugal através da Mabor...que é uma fábrica nacional cuja história é esta:

A marca Mabor (sigla de Maria Borges, mulher do Conde da Covilhã, fundador da empresa) é a pioneira no fabrico de pneumáticos em Portugal.

A sua história remonta a 1938 e ao Lousado, uma zona particularmente pobre do norte de Portugal. O cardeal Cerejeira pede ao seu bom amigo, dr. Júlio Anahori de Quental Calheiros - Conde da Covilhã e Presidente do Concelho de Administração do “Banco Borges & Irmão -, para trazer, para esta freguesia de Famalicão, uma indústria.

Uma vez que não havia qualquer fábrica de pneus em Portugal, na criação da Mabor o Conde da Covilhã contou com as amizades que tinha na General Tire e Rubber Company, para o fornecimento de tecnologia e maquinaria necessárias. Como contrapartida, a empresa americana ficou com 20% do capital.
(...)
Após a crise do petróleo em meados da década de 70, o regresso às competições acontece na década de 80 com o Troféu Mabor.
A abertura do mercado internacional e a falta de investimento na modernização das instalações e no desenvolvimento tecnológico resultou numa perda de competitividade dos seus produtos. Em 1989 surge uma oportunidade de revitalização com a criação de joint-venture com o fabricante alemão Continental. No negócio entra também a ITA – Indústria Têxtil do Ave S.A.R.L
A nova empresa, Continental Mabor, Indústria de Pneus SA, vem dar resposta à necessidade contratual de incorporar produção nacional nos veículos que iriam começar a ser produzidos na AutoEuropa, em Palmela: VW Sharan e Ford Galaxy.

Em 1993, a Continental assume o controlo total da Continental Mabor (até então detinha 60% do capital) e integra o valor da marca no seu espólio de produtos.
Actualmente, os pneus Mabor são produzidos não apenas em Portugal mas em diversas fábricas do grupo alemão, o quarto maior fabricante de pneus e o maior fornecedor mundial de equipamento para a indústria automóvel.


A sorte da Mabor e agora do investimento da Continental tipicamente capitalista, foi a de ter escapado à febre nacionalizadora do PREC dos anos setenta...que gerou muitos gestores que temos, no Estado.
Mas essa história não interessa nada lembrar à geringonça que governa, a não ser que tem lá gente que é visceralmente contra este capitalismo...
E foi por pouco, muito pouco porque em 1974-1975 o panorama apresentava-se negro e de "combate":

Os trabalhadores da Mabor (fábrica de pneus na Lousada) escreveram um longo manifesto (ver Combate nº 5, 26 de Julho de 1974) onde concluíam: “Hoje sabemos que a nossa luta faz parte da luta que todos os operários travam contra todos os patrões onde quer que a exploração destes se exerça sobre quem tudo produz e pouco recebe. [...] Hoje sabemos que só quando todos os explorados se unirem contra os exploradores conseguiremos vencer total e definitivamente!”.

Foi por um triz que estes combatentes do capitalismo que agora tecem loas ao investimento estrangeiro precisamente na fábrica que então contestavam, não ganharam a parada e liquidaram a empresa porque foi o que sucedeu com muitas outras, as maiores, aliás.

Na vanguarda destas lutas estavam os Rosas e os Louçãs que continuam aí como se nada fosse e a defender o mesmo de sempre, com outro paleio mais suave e elaborado. E ninguém lhes retira o megafone mediático porque são até os mais requisitados pelas Lourenças e todos os pés-de-microfone das televisões.
Até patrocinam estudos académicos sobre a loucura do PREC como se fossem algo com dignidade intelectual acima do jornalismo caseiro.


A Mabor foi uma empresa tipicamente nacional do tempo de Salazar e se foi implantada em Portugal tal se deve ao cardeal Cerejeira, que era de Lousado, Famalicão e sabia a pobreza que então existia, tendo feito algo para diminuir tal situação.

Em vez de lutar contra o capitalismo e defender o socialismo colectivista, apoiou a implantação de uma empresa capitalista que se tornou modelar, mesmo actualmente, com o aplauso da esquerda da geringonça.
Ironias do destino...e que deviam ser lembradas pelo primeiro-ministro em exercício, em vez de louvaminhar apenas o investimento (capitalista) estrangeiro.

Justiças desiguais para casos similares...

Sapo RR:

O Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa considerou nulo o grau de licenciado atribuído a Miguel Relvas pela Universidade Lusófona, avança a TSF.

Miguel Relvas conclui a licenciatura fazendo apenas quatro das 36 cadeiras. As restantes através do reconhecimento da "experiência e formação profissionais" do ex-ministro do PSD.

A decisão foi tomada na quarta-feira
.

 Esta licenciatura agora anulada grita pela injustiça que representa o arquivamento do procedimento administrativo para eventual anulação de outra licenciatura tirada ao Domingo... e que em tempos foi julgada muito diferente e com credibilidade acima de suspeita, por jornalistas desportivos, daqueles que torcem pelos clubes, desalmadamente.

terça-feira, junho 28, 2016

A extrema-esquerda anacrónica e bloqueada no passado distante, com muito sucesso em Portugal.

Quem esteve atento à reunião do BE, neste fim de semana , em "convenção" ouviu uma aluada Catarina Martins a propor chantagens à UE, mas deveria estar lembrado do que há anos prega o seu doutrinador-mor, o padreca laico Louçã que aprendeu de um outro aluado pelo marxismo, João Martins Pereira, já falecido.

Em Abril de 2011, Louçã apresentou um livro que intitulou "Portugal agrilhoado" e que foi comentado aqui:

“Há duas razões essenciais para a complexidade constitucional da economia: a economia descreve processos de relações sociais, em parte indeterminadas e dependentes das escolhas dos agentes; em segundo lugar a economia descreve processos históricos com memória e dependência sensível das condições iniciais. Considerar a economia num contexto completamente determinista é uma forma ingénua de recusar estas características sociais e históricas.”
Para além de refutar toda a teoria económica sem lhe chamar nomes – “burguesa” seria o termo adequado aqui há uns anos, mas que evita por razões óbvias de aggiornamento retórico- Louçã envereda pela solução final para o nosso problema: “ a emergência de uma política socialista.”
Ora bem. E começa logo com citação de Hegel. Que escrevia que a “desigualdade social cria a plebe, destituída de tudo, do mínimo de subsistência, de dignidade e até do sentimento do direito, e acima dela uma classe de riqueza desproporcionada.”
Cá estamos, na página 159, no ponto nevrálgico do problema de Louçã, o comunista. No pressuposto de que “o Direito é assim excluído da maioria da população”, Louçã propõe-se refazer a “batalha” pela recuperação do Direito para os povos, através de soluções “que contrariem a destruição neoliberal pela economia cruel, procurando recuperar o salário e o rendimento, utilizar os bens comuns e promover a democracia económica.”

O comunismo do BE e dos demais partidos marxistas encontra a sua verdadeira nemesis num fenómeno social dos tempos modernos: a evolução tecnológica que o capitalismo potenciou e sustentou ao longo de todo o séc.XX e que nos permitiu o estilo de vida que temos actualmente.
Quando se ouvem ou lêem estes personagens saídos dos livros marxistas do fim do séc.XIX fica-se com a sensação que o tempo parou para os mesmos e que vivem numa redoma de ideias feitas em que avultam grandes conceitos de igualdade, de fraternidade artificial e de inveja aos que detêm propriedades e bens. O comunismo vive nesse caldo de cultura que se alimenta de pedras da luta de classes e de combate aos ricos da burguesia e basta ler o que Louçã então escreveu e agora a aluada Catarina Martins proclama em comícios para se perceber o que querem e como querem.

Essa gente deveria ser confrontada com os frutos actuais do capitalismo e que se encontram bem retratados nestes recortes de revistas americanas recentes:

Primeiro, o número de 13 de Junho da Bloomberg BusinessWeek. Revista mais americana não há. Revista mais capitalista, como é o capitalismo actual, não existe, a par da Fortune ou da Forbes.
Nesse número especial dá-se relevo à inovação tecnológica mais recente e que é um fruto de descobertas e invenções passadas, algumas delas de cientistas de outras latitudes, mas cujas descobertas desenbocaram nas últimas décadas do séc. XX no sul dos EUA, na California e lá se desenvolveram em modo completamente capitalistas e liberal, a antítese do que pregam aqueles aluados do BE.

O "Global Tech" é uma chapada de lógica que o BE nunca entenderá e por isso chafurdam nas velhas ideias anacrónicas do marxismo puro e duro para explicar o mundo e as coisas.


Basta ler este pequeno texto que explica o modo de produção de um novo chip para equipar servidores como o da Internet, para se perceber que o mundo do BE não existe e é uma miragem utópica que só conduziria à miséria mais profunda, sem ter sequer a redenção da caridade cristã, uma vez que o marxismo prescinde dessa vertente de fé.


 Quem diz computadores poderia dizer carros, transportes...e aqui fica a história do seu desenvolvimento, aparecida na mesma revista. O marxismo é totalmente estranho a estas descobertas e inovações. Com o marxismo ainda andávamos de carroça puxada a jericos, como os louçãs. E qualquer um pode criar um jerico...se o puder alimentar.


A revista Wired, também americana, na edição deste mês tem estes dois anúncios típicos de um capitalismo globalizado que não temos porque os próceres do BE e marxistas de todas as cores, em 1974-75 escorraçaram quem poderia em Portugal fazer coisa parecida. Esses, como os Champallimauds ou os Mellos ou outros do mesmo tipo são os inimigos declarados dos marxistas do BE e doutros. Não querem essas pessoas por cá e em vez disso querem o Estado a produzir do modo que produziu durante dez anos de 1974 a 1985, criando falências atrás de falências e descapitalizando o país de quem poderia produzir mais para aumentar o bolo a repartir por todos.
O BE e os marxistas em geral detestam tal ideia e abominam quem a pode pôr em prática. E têm muitos adeptos porque a inveja é uma das principais características do povo, como se escreveu nos Lusíadas, no fim do poema épico.

Enquanto que a maioria do povo português não tiver essa noção e do mal que nos tem provocado estaremos condenados a ver surgir governos de geringonça marxista.

A Schick é uma concorrente global da Gilette, símbolos do capitalismo actual porque mostram o que se fez e como se fez para conquistar o mercado global. O marxismo é totalmente avesso a este tipo de progresso tecnológico. Com o sistema louçã ainda hoje andaríamos hirsutos por falta de lâminas suficientes e baratas


Os carros da japonesa Toyota são dos mais conhecidos à escala global sendo dos mais fiáveis e exemplo acabado do que o capitalismo conseguiu neste domínio. Com o marxismo ainda teríamos Trabants copiados de modelos ocidentais ou nem sequer lá chegaríamos?




A revista americana Newsweek também publicou este mês um número especial sobre as inovações tecnológicas fazendo um historial de quem foram os seus pioneiros mais notórios:


sábado, junho 25, 2016

O PS que se ponha a pau...porque "isto é só o início" de um novo prec..

Observador:


Catarina Martins vestiu um fato pouco habitual. Falou como se fosse a voz do poder. Não o assumiu, mas parecia elencar medidas como uma primeira-ministra. No arranque da X Convenção do Bloco de Esquerda, a coordenadora do partido olhou pelo retrovisor e lembrou as conquistas que foram feitas em matéria de recuperação de rendimentos e direitos sociais desde que, no dia 14 de Setembro, num debate televisivo: conforme fez questão de lembrar, desafiou António Costa a “abrir a porta a uma mudança na política portuguesa”. Falou como se as decisões tivessem sido tomadas pelo Bloco de Esquerda e não de uma aliança com o PS e o PCP. Nove meses depois, Catarina olha para a frente, diz que “cumpriu a palavra”, e até anuncia medidas: a aprovação da lei da renda apoiada e o fim das apresentações quinzenais periódicas nos centros de emprego.

Num discurso de 25 minutos, usou um tom que nunca se lhe tinha ouvido. Puxou dos galões e enumerou as conquistas dos últimos meses: o aumento do salário mínimo nacional – “e ainda vamos continuar a aumentar” -, o fim do congelamento das pensões, a reposição das prestações sociais cortadas e outras reforçadas, a protecção das habitações contra as execuções das finanças, as reversões das concessões dos transportes públicos, a reposição dos feriados, a defesa da escola pública na guerra do fim dos contratos de associação, etc. “Cumprimos a nossa palavra, e isto é só o início”, disse
.


sexta-feira, junho 24, 2016

Um pateta jubilado

A revista Sábado desta semana destaca algumas páginas de entrevista com Fernando Rosas, fundador do MRPP a quem chama agora uma "seita patética" e afirma que "vou morrer na esquerda radical".

Enfim, um pateta  a chamar patetas  a outros que já foram seus amigos e correligionários, lembra o roto que ri do esfarrapado. Exemplar...


Mariana Mortágua, testemunha do processo do marquês, já!

Jornal i de hoje:


A justificação para se tornar testemunha reside neste motivo que aqui fica claramente explicado por um dos que percebem da poda neste país.  A imagem é de uma página da revista Risco de Maio Julho 2016. Belmiro diz claramente que "os bancos só emprestam dinheiro quando têm a certeza de não correr riscos"...o que só pode deixar um sorriso a quem se lembrar dos empréstimos autorizados pelos senhores Santos Ferreira, Armando Vara e demais responsáveis da CGD no tempo de José Sócrates:


Aliás, para entender melhor como estamos nesse campo das contas bancárias e dívidas mais empréstimos e garantias,  basta ler estas duas páginas da mesma revista, com uma entrevista de Nogueira Leite que também foi administrador da CGD.
Está aqui tudo explicadinho sobre a nossa desgraça, particularmente a de termos no Parlamento marianas mortáguas que frequentaram escolas de álgebra e aritmética...e dizem o que se vai lendo sobre a nossa economia.


Dança de Jornalistas "por motivos vários: profissionais e políticos, sobretudo"...

Observador:

Esta quinta e sexta-feira foram dias de mudança nos órgãos de comunicação social portugueses. Depois de David Dinis sair da direcção da TSF para assumir o mesmo cargo no Público, soube-se que André Macedo, director demissionário do Diário de Notícias, foi escolhido para director-adjunto da RTP, noticiou o Expresso. No seu lugar, à frente do DN, ficará Paulo Baldaia, ex-director da TSF.

André Macedo vai ficar com o pelouro da informação económica da RTP a partir de Agosto. Nessa altura, Paulo Baldaia, antecessor de David Dinis na direcção da TSF, de onde saiu para assumir a área de negócios da Global Media, passará a ser o novo director do Diário de Notícias
.

Esta mudança de cadeiras nos órgãos de informação tem alguma semelhança com o ocorrido há 41 anos...como relatava O Jornal de 16.5.1975, em pleno PREC.
O Diário de Notícias teve como novo director, Saramago, um escritor comunista elevado à categoria de herói nacional por obra e graça de um tal Lara, no tempo de Cavaco Silva.
Dali a pouco, no Verão Quente,  começavam os saneamentos por motivos estritamente políticos, acicatados pelo PCP.

Quanto aos motivos da dança de jornalistas estão logo explicados no primeiro parágrafo: "motivos vários   (políticos e profissionais, sobretudo)". Tal como agora.

A voz dos ridículos...



O presidente da Assembleia da República, um órgão de soberania que aparentemente depende do Executivo, deu-se ao ridículo, assim:

Observador:

Numa nota distribuída à comunicação social, o presidente da Assembleia da República anunciou esta sexta-feira que retira o parecer pedido ao conselho consultivo da Procuradoria-Geral da República sobre o objecto da Comissão de Inquérito à Caixa Geral de Depósitos. Ferro Rodrigues explica a decisão, com a correcção feita pelo PSD e CDS do texto com o objecto do inquérito parlamentar.

quinta-feira, junho 23, 2016

Órgãos de soberania em manobras dilatórias...

RR:

O Governo incumbiu esta quinta-feira a nova administração da Caixa Geral de Depósitos (CGD) de fazer uma "auditoria independente" aos actos de gestão do banco "praticados a partir de 2000".
Observador:

O presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, pediu um parecer à Procuradoria Geral da República sobre a comissão de inquérito à Caixa Geral de Depósitos pedida pelo PSD e pelo CDS-PP.

Quem pode julgar que isto é fruto do mero acaso?!

O poder Executivo descobriu agora que as auditorias feitas pelos serviços próprios à CGD não são fiáveis nem confiáveis e há coisas por esclarecer que pareciam evidentes, suspeitas e passaram ao lado de auditores e membros do Conselho Fiscal, apesar de ganharem balúrdios para exercerem tais funções...

O poder Legislativo, uma emanação deste Executivo quando deveria ser o contrário,  acha agora que afinal se impõe que um órgão de Supervisão como o Conselho Consultivo da PGR vá analisar juridicamente o que muitos juristas da Assembleia da República afinal parece não serem competentes para tal. O que estão lá a fazer?!

Resultado de tudo isto? Adiar a Comissão de Inquérito que interessa apenas a uma entidade: a Esquerda Unida.

É esta a democracia que temos...

quarta-feira, junho 22, 2016

A CGD é um exemplo flagrante de crime de gestão ( administração) danosa...prescrito.

João Lopes, bancário da CGD e sindicalista dos trabalhadores da Caixa, nesta entrevista ao i de hoje explica bem o que se passou nestas últimas décadas, particularmente na última, no banco público que está na berlinda: abusos e má gestão, danosa, com a participação directa de governantes em determinadas operações bem conhecidas. Por exemplo no assalto ao BCP: " a Caixa fez uma intervenção que serviu claramente para influenciar a gestão do BCP no tempo de Jardim Gonçalves, emprestando dinheiro ao empresário Joe Berardo ficando como garantia as acções do banco que hoje em dia não valem nada. Isto não pode ser feito sem existir a cobertura da tutela , ninguém é louco ao ponto de pôr centenas de milhões de euros nas mãos de uma pessoa, aceitando como garantia as acções de outro banco porque se sabe que é uma garantia que pode não ter valor nenhum."

Isto que é do mais puro senso comum não impressionou ninguém, nem sequer o MºPº durante estes anos todos...e o "fuck you" lá anda, cantando o rindo. O eventual crime, muito especioso, está prescrito.

terça-feira, junho 21, 2016

Eduardo Paz Ferreira e as auditorias à CGD

Segundo se conta aqui, para entalar o anterior governo de Passos Coelho:

"O Ministério das Finanças recebeu ao longo do ano passado relatórios trimestrais da Caixa Geral de Depósitos (CGD) a alertar para um conjunto de créditos problemáticos que mereciam “particular atenção”, devido às imparidades que poderiam causar ao banco público. 

A informação está num relatório da comissão de auditoria da CGD relativo às contas de 2015.

A comissão de auditoria é o órgão da CGD responsável pela fiscalização da contabilidade e das práticas de gestão do banco. Exerce uma função de controlo sobre os actos da administração e os riscos assumidos pelo banco.

Presidida pelo advogado Eduardo Paz Ferreira, uma das suas tarefas é avaliar os relatórios do auditor externo da CGD, a Deloitte, e enviar depois o seu próprio relatório à tutela no governo, a cada trimestre.

Segundo indica a comissão de auditoria, uma averiguação da Deloitte no ano passado identificou um conjunto de empréstimos de risco que poderiam causar imparidades adicionais. E essa informação foi comunicada ao governo nesses relatórios trimestrais."


Segundo se conta aqui e o i parece ter dificuldade em ir ver...Eduardo Paz Ferreira foi  presidente do Conselho Fiscal da CGD SA, de 2007 a Julho de 2011 ( saiu porque foi extinto o lugar), para além de outras presidências, assessorias e advocacias de ajuste directo.

Um presidente de conselho fiscal da CGD servia para quê? Para estar ao lado da Administração, num modelo antigo de gestão. E por isso recebia em modo chorudo, vencimentos de alto gabarito que a função pública não cheirava sequer.

Eduardo Paz Ferreira viu alguma coisa nesses anos todos que esteve à frente do Conselho Fiscal e ao lado de Santos Ferreira e Armando Vara até 2008 e depois disso, com a inspecção ás contas da instituição, particularmente aos empréstimos e créditos sui generis ( Vale do Lobo, por exemplo?).

Paz Ferreira ouviu falar disto, no seu devido tempo e na altura em que era convidade frequente da Lourenço da SIC-N para comentar o par de botas habitual?
 
Ao longo do documento, Garcia Pereira refere a «reiterada manutenção da impunidade»» e acusa a actual administração de ter «ocultado» à secretária de Estado do Tesouro (Maria Luís Albuquerque, que tutela a CGD) os vários «indícios de crime» denunciados, bem como várias informações vindas a lume em 2008, num relatório interno.
No documento – enviado à procuradora-geral da República, ao primeiro-ministro, ao ministro das Finanças, à referida secretária de Estado e ao director da Polícia Judiciária -, Garcia Pereira enumera várias situações em que aqueles responsáveis estiveram envolvidos. O documento foi enviado para o DIAP, onde já correm outros inquéritos sobre os factos participados pelos trabalhadores em litígio com a CGD.

Aparentemente não viu, não ouviu e não falou. Como aqueles macaquinhos da lenda. Apesar de tudo vir num "relatório interno" da CGD em 2008, altura em que era presidente do conselho fiscal da dita e ter o vencimento correspondente...

Paz Ferreira é casado com a actual ministra da Justiça que durante esses anos todos foi Procuradora-Geral Distrital de Lisboa, responsável directa pelo DIAP.

Por estas e por outras, o inquérito parlamentar vai ser lindo. Ai vai, vai.

segunda-feira, junho 20, 2016

O argumentário de José Sócrates é o de sempre

Hoje no JN do amigo Camões, José Sócrates escreve um pequeno texto para se defender de acusações ignominiosas dos pistoleiros do costume. Dizem que usou a CGD para favorecer amigos e num caso, no empreendimento de Vale do Lobo, até beneficiar pessoalmente com o esquema. Coisa mais hedionda para a reputação impoluta do antigo PM é difícil de encontrar no processo do marquês...
O MºPº anda a esgravetar há meses e meses para ver se descobre a minhoca escondida no estrume, mas José Sócrates afirma nunca ter sujado aí as mãos nem se ter escondido por trás de qualquer face oculta no esquema fatal. E é apenas isso que lhe importa registar reafirmando a cabala do MºPº que os seus advogados se aprestarão a injuriar de novo.
O Camões lá estava para as ocasiões ou não tivesse sido nomeado para o jornal pelo dito cujo, o que será outra ignomínia porque não há documento registado em notário de tal situação de facto. Estas coisas com o antigo PM nunca são nada com ele e é tudo de amigos dele...

O resto, tudo o resto que aconteceu desde Agosto de 2005 até agora é música de câmara para surdo ouvir...apesar de os jornais da época realçarem determinados factos insofismáveis:

É agora o primeiro socialista numa década a presidir ao Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos. Em comunicado, o Ministério das Finanças adianta que “na qualidade de representante do accionista Estado na instituição” decidiu, igualmente, reduzir de onze para nove o número de elementos da Administração da Caixa. Dos nove administradores da nova direcção, quatro são da área socialista.

Ler mais em: http://www.cmjornal.xl.pt/nacional/economia/detalhe/vara-na-administracao-da-cgd.html


[Carlos Santos Ferreira]"é agora o primeiro socialista numa década a presidir ao Conselho de Administração da Caixa Geral de Depósitos. Em comunicado, o Ministério das Finanças adianta que “na qualidade de representante do accionista Estado na instituição” decidiu, igualmente, reduzir de onze para nove o número de elementos da Administração da Caixa. Dos nove administradores da nova direcção, quatro são da área socialista."
O outro que foi nomeado para o lugar-chave foi Armando Vara. Um grande especialista em direito bancário, munido de um diploma recente da UnI, que lhe conferia o direito a ser tratado por dr.   Incidentalmente foi descoberto há uns tempos que houve uns dinheiros que lhe foram parar a contas da sua confiança, no estrangeiro, vindos de negócios estranhos desse tempo da CGD. Dará contas disso, o Vara, certamente.

Quanto às nomeações o agora articulista do jornal do Camões não teve nada a ver com o assunto. Nem assinou os papéis. Foi tudo obra do seu ministro das Finanças, o Teixeira que ensina economia numa universidade do Porto e se prestou a ser o obreiro da bancarrota que estourou em 2011. 

Assim, quanto ao amigo que (não) o nomeou, não é nada com ele, naturalmente. Alguém pode garantir com prova documental que foi ele quem nomeou aqueles?  Enfim, não acusem o inocente de mais ignomínias se não ele volta a escrever no jornal do Camões.
Nada teve a ver com tal coisa nem com os aumentos de capital da CGD, ocorridos logo em 2009, mas com antecedentes conhecidos de má-gestão do banco público que aborveu dívidas do BPN, por indicação de alguém, do Governo. Teria sido o Lucas, o motoristas que não existe? 
Este comunista antigo explica assim  o fenómeno que agora este arguido -ex-preso- tenta iludir:

Um outro exemplo de engenharia financeira é o que está a acontecer com a CGD. Em menos de um ano, o capital social da CGD já foi aumentado duas vezes, passando de 2.950 milhões de euros para 3.500 milhões de euros. O 1º ministro anunciou na Assembleia da Republica, em 17/12/2008, um novo aumento do capital da CGD, agora de 1.000 milhões de euros, a ser financiado pelo Estado no âmbito dos 4.000 milhões de euros já aprovados pela Assembleia da República. 

Na verdade, o mesmo comunista arrependido até explicou mais:

Sócrates na intervenção que fez na Assembleia afirmou, com a falta de precisão e de transparência que o caracteriza quando fala de matérias económico-financeiras, que "nunca como agora o país precisou tanto de um banco público". Esta afirmação é surpreendente num governo que tanto fez para reduzir o papel do Estado, e mesmo desorganizá-lo, com o pretexto de que era necessário reduzir o défice orçamental. Com tal justificação pretendeu também fazer passar a mensagem que a única razão que movia o governo ao aumentar o capital da CGD era o interesse do País quando, na verdade, existem também outras razões, que o governo ocultou à própria Assembleia da República e aos portugueses, para tomar aquela decisão, como se vai provar.


Portanto, este antigo primeiro-ministro, arguido e ex-preso preventivo pretende, como sempre, lançar areia para os olhos fechados dos leitores do Camões e de outros cultores de estrofes de memória curta.

Outra forma de contar a mesma história...

Observador, José Manuel Fernandes:

Foi apenas há dois anos, mas muitos parecem esquecidos. Ricardo Salgado, com a corda na garganta, fez o habitual: ligou à ministra das Finanças, depois ao primeiro-ministro. Objectivo? Conseguir um empréstimo da Caixa Geral de Depósitos que lhe desse a ilusão de que ainda podia salvar um grupo afogado em dívidas. Antes já tinha conseguido que os seus amigos na administração da PT lhe dessem uma mão, assim afundando aquela que chegou a ser a maior empresa nacional. Só que agora nem sequer a conspícua ideia de que seria possível “por o Moedas a trabalhar” surtiu qualquer efeito: nem Moedas, nem Maria Luís, nem Passos Coelho permitiram que a Caixa “desse uma mão” a Ricardo Salgado e ao Grupo Espírito Santo. Ou, visto a esta distância, não permitiram que a Caixa se enterrasse ainda mais, acompanhando na desgraça um grupo que estava condenado por megalomania, excesso de endividamento e fraudes várias.
O que se passou há dois anos rompeu uma regra – a regra de que os governos usavam a Caixa a seu bel-prazer, lhe davam ordens políticas e a viam como uma espécie de coutada para recompensar alguns ex-ministros ou realizar negócios de duvidosa rentabilidade mas garantido alcance político.
A promiscuidade atingiu o seu apogeu no tempo do governo que nos conduziu à bancarrota e a forma de actuação foi em tudo coerente: o desvario que colocou o país nas mãos da troika foi o mesmo desvario que levou a Caixa a envolver-se em negócios ruinosos; a obsessão pelo poder que levou o governo de Sócrates a aldrabar contas e distribuir benesses foi a mesma obsessão pelo poder que levou esse mesmo Sócrates a utilizar a Caixa para controlar a banca e, através dela, tentar controlar também toda a comunicação social.
É por isso que é bom ter memória e, se preciso for, dedicarmo-nos um pouco à arqueologia. Um país onde o governo se recusa a aprender com os erros do passado, ou recusa mesmo admitir que eles tenham existido, é um país condenado a sofrer repetidamente as dores da queda no abismo.
É por isso também que convém recordar alguns factos, entre os muitos que merecem ser melhor apurados e outros tantos que necessitam de ser investigados.
Primeiro que tudo, no país onde se grita que “os bancos são demasiado importantes para serem deixados ao cuidado dos banqueiros” é bom ter consciência que, entre o que o Estado já teve de colocar na Caixa Geral de Depósitos e os quatro mil milhões que agora aí vêm, estamos a falar de muito mais dinheiro do que o envolvido em qualquer dos resgates de outros bancos, mesmo daqueles que foram escândalo público, mesmo dos que configuraram crime grave. Pior: uma parte do lixo da Caixa Geral de Depósitos foi varrido para dentro do BPN no tempo em que, depois da nacionalização, esse banco foi colocado na bizarra situação de estar sob a alçada da CGD. As perdas do BPN (administrado por Francisco Bandeira, também ele um homem da confiança pessoal de Sócrates) no período pós-nacionalização são, de resto, uma das histórias mais mal contadas e mais omitidas de todo o conturbado processo desse banco e uma parte da factura que já tivemos de pagar para “limpar” o balanço do banco público.
Por tudo isto, o que temos por certo é que a CGD já custou muito dinheiro aos contribuintes e vai custar ainda mais, e muito do que custou não é consequência da “conjuntura”, antes de decisões de gestão que foram políticas em vez de serem financeiras. Aqui a culpa não foi dos banqueiros.
Depois é bom ter presente o que se soube nos últimos dias sobre alguns dos créditos mal parados ou incobráveis da Caixa, estimados em 2,3 mil milhões de euros. É bom recordar a forma como a nomeação de Armando Vara para a administração da CGD, em 2005, com Santos Ferreira, provocou a demissão do primeiro ministro das Finanças de José Sócrates, Campos e Cunha. É bom lembrar como essa administração foi instrumental em alguns negócios emblemáticos desses anos, como o da La Seda em Sines, que acabaram muito mal, ou então como o de Vale de Lobo, hoje a ser investigado por suspeitas de corrupção. Ou como foi com essa administração que a Caixa financiou o assalto ao BCP, para onde depois passariam os inevitáveis Vara e Santos Ferreira, pela mão de figuras como Joe Berardo ou Manuel Fino e tendo António Mexia (sim, ele mesmo) como mestre-de-cerimónias. Ou ainda como tudo era feito nesses anos em conluio com o “dono disto tudo”, a quem a Caixa de Vara ajudou no processo da OPA da Sonaecom à PT. Ou a forma como o BCP, mais essa espécie de ponta-de-lança do Grupo Espírito Santo que era a Ongoing, mais Sócrates e mais Vara, conspiraram (é o termo, pois já conhecemos quase todas as escutas) para controlar a comunicação social, fosse a incómoda TVI, fosse o grupo do “amigo Oliveira” (Diário de Notícias, TSF, Jornal de Notícias), fosse tentando calar o Sol.
A Caixa, e depois o BCP, e depois o nacionalizado BPN no seu estertor final e demencial, foram os instrumentos não apenas de um modelo de desenvolvimento em que o primeiro-ministro intervinha directamente na selecção e promoção de negócios privados, como de uma estratégia de poder que passava por silenciar todas as vozes críticas, como ainda, sabemos hoje, por uma sede de fortuna pessoal.
No dia em que foi conhecida a nomeação da administração de Santos Ferreira e Vara para a Caixa Geral de Depósitos escrevi um texto intitulado “Eles comem tudo?” que começava recordando um princípio simples dos nossos regimes: “Uma das regras de ouro da democracia liberal é o princípio do governo limitado”. Ora esse princípio estava a ser contrariado na CGD, na qual o primeiro-ministro passava a ter, através de Armando Vara, uma espécie de “braço armado”. Estava porém longe de imaginar até que ponto os poderes ilimitados do grupo que nos governou entre 2005 e 2011, quando por fim entregou o país nas mãos da troika, se juntariam a outros poderes fáticos, como os do antigo “dono disto tudo”, para conduzirem Portugal por um caminho de que só a muito custo e com muita dor nos arrancámos. Um caminho que entretanto deixou muitos cadáveres pelo caminho, como a PT, primeiro fragilizada pelo poder político que impôs a desastrosa entrada na Oi, depois arrastada para o fundo por ter ido em socorro de Ricardo Salgado.
Durante muitas décadas a Caixa foi suficientemente grande e rica para se prestar a todas as megalomanias – de que é exemplo paradigmático o seu edifício sede – sem que isso afectasse demasiado os seus resultados. Durante essas décadas a Caixa também pode ser o “banco público” sem que se visse realmente onde fazia a diferença para os bancos privados no que respeita ao financiamento da economia. Essas décadas acabaram – acabaram por causa da crise financeira e acabaram pelo lastro deixado, nas contas e no balanço da CGD, pelos “negócios” dos anos de desvario. Nela alguns políticos provaram ser capazes de ser tão ou mais tóxicos do que alguns banqueiros de má memória, o que de resto nem sequer é muito original, pois sucedeu o mesmo noutros países, como na vizinha Espanha. Ter disso consciência clara não é querer abrir caminho para nenhuma mudança de titularidade no capital do banco do Estado, é apenas querer ter os olhos bem abertos.
Regresso por isso ao episódio que recordei a abrir este texto. A Caixa Geral de Depósitos de que necessitamos não deve ser apenas um banco bem gerido e bem capitalizado – tem também de ser um banco protegido das interferências governamentais. Em 2014 isso aconteceu porque um primeiro-ministro foi capaz de dizer não ao até então “dono disto tudo”; no futuro o que quero é que nenhum primeiro-ministro possa dizer sim mesmo ao mais modesto e bem intencionado dos investidores.
Eu sei que estou a pedir muito, pois infelizmente conheço o meu país e os hábitos das suas elites e dos seus políticos. Mas sei que só estou a pedir algo que faria de Portugal um país um pouco mais moderno, um pouco mais aberto e um pouco menos oligárquico e paternalista.

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso