terça-feira, março 03, 2015

O Público foi sério ou isto já é assim?



O PM Passos Coelho foi alvo da atenção do Público no outro dia, Sábado, com um "destaque" de duas páginas do jornal, assinado por José António Cerejo e um título de primeira página: "Passos esteve cino anos sem pagar contribuições à Segurança Social". 

As duas páginas lá explicavam que Passos  era admnistrador de empresas do grupo Fomentinvest ( de Ângelo Correia que ainda não apareceu na tv mas há-de vir porque aparecem sempre nestas ocasiões, a espetar facas onde calha) e passava recibos verdes pelos serviços que prestou, pelo menos de Outubbro de 1999 a Setembro de 2004. Teria que pagar à Segurança Social, nessa qualidade, uma contribuição mensal correspondente a 25,40% do salário mínimo em vigor. 
Não pagou, como aliás o fizeram dezenas de milhar de "trabalhadores precários pagos a recibos verdes", conforme escreve o jornal.  A Segurança Social deixou correr o marfim, sob a batuta do Edmundo que agora se indigna,  com este comportamento de um primeiro-ministro relapso e não se enxerga quanto à manifesta incompetência que demonstrou  no exercício do cargo que ocupava na altura e que aparentemente ninguém pretende apurar .
Desde Sábado esta notícia do Público tem apresentado desenvolvimentos pontuais, mas apenas acessórios.  Logo na Segunda-Feira, Edmundo, o antigo dirigente da Segurança Social apareceu no Diário de Notícias a lançar as farpas convenientes e mais achas para a fogueira política, afirmando a gravidade do assunto relacionado com a falta de pagamento de meia dúzia de milhar de euros de um contribuinte e desvalorizando olvidando os milhões que se perderam por inépcia e inoperância sua, no exercício do cargo.
A oportunidade da intervenção deste Edmundo, no entanto, deixou-me pulga atrás da orelha, tanto mais que só agora o PSD deu a correr atrás do prejuízo, com uma pileca de um recorte do Tal&Qual, quando o PS já cavalga o assunto com alazão em forma de cavalo de corrida e apoios vários, nas boxes .

O Público que aparentemente desarrincou  a  investigação  nunca referiu o ubíquo Edmundo, o que é tanto mais estranho num assunto  que cada vez mais se aparenta como plantado politicamente pelo PS, com intuitos manifestos de causar dano político ao PM.

Se tal for assim e o Público embarcou nessa campanha política, o que se indicia perante os factos recentes e o recrudescer da polémica político-partidária, a questão que se coloca é a de o jornalismo do Público ser de fretes políticos e portanto com uma credibilidade inerente e uma honorabilidade diminuída. 
O editorial da edição de hoje do jornal é assim:

Depois dos últimos dias envoltos numa nuvem de polémica e tentativas de justificações, Pedro Passos Coelho decidiu jogar todas as cartas e partiu para o ataque. Numa intervenção fortemente aplaudido pelo partido, insinuou que é o PS que está por detrás dos ataques pessoais que têm chegado a público sobre a sua antiga dívida à segurança social. E, numa alusão implícita à detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates, garantiu “ao partidos e aos portugueses”, que nunca usou o cargo político “para enriquecer” ou “fazer favores”. Ou seja, pode ter tido falhas enquanto cidadão, mas “nunca enquanto primeiro-ministro”.

Por outro lado e a realçar o aspecto de pura trica político-partidária que o caso assumiu, apareceu outro caso que envolve o líder do PS, António Costa: 

A notícia do Tal&Qual sobre António Costa que os apoiantes de Passos Coelho fizeram circular nas redes sociais, como estratégia de contra-ataque por causa da dívida do primeiro-ministro à Segurança Social, tem a ver com duas casas compradas pelo socialista no início da década de 90 e a sisa e contribuição autárquica que eram devidas.

A história, agora consultada pelo Observador, foi publicada a 2 de junho de 2000, era António Costa ministro da Justiça do Governo de António Guterres. Segundo o extinto semanário, o agora secretário-geral do PS comprou em 29 de junho de 1990, como comprova a escritura, um T6 em mau estado na Calçada Miguel Pais, em Lisboa, por cinco mil contos, sem recurso a crédito bancário.

A 11 de junho de 1991, pediu um empréstimo ao Crédito Predial Português no valor de 9 mil contos para “obras de beneficiação do imóvel”, tendo dado como garantia o mesmo imóvel que, segundo avaliação feita pelo banco, “ainda sem obras e em apenas 11 meses”, valorizou-se “mais de 80%”, contava o jornal.

No final de 1999, Costa pediu novo empréstimo de 13 mil contos à Caixa Central de Crédito Agrícola Mútuo: 7.550 contos para liquidar o anterior empréstimo e o restante para novas obras. Mas, na escritura de 23 de setembro de 1999, é dito que o empréstimo se destina a “financiar a liquidação de outro empréstimo de igual montante para aquisição de habitação própria permanente“.

“Em que ficamos? O primeiro empréstimo foi contraído afinal para obras ou para a compra de casa? A diferença é obviamente relevante: caso os 9 mil contos tivessem sido aplicados na compra de casa e não em obras, o ministro devia ter pago a sisa que não pagou em 1990 por, então, o limite de isenção ser apenas de 6 mil contos”, escrevia o Tal&Qual.


Entre estes dois casos, o critério editorial do Público vai balançar ou já fez a escolha adequada, por força do aparente frete? 

Mais: como este caso Passos é uma sequela do caso da Tecnoforma, investigado pelo mesmo jornal e jornalista,  torna-se curial indagar se o Público e particularmente o seu repórter de investigação estão de "mãos limpas" neste assunto, ou seja se agiram com espírito jornalístico puro ou pura e simplesmente se deixaram manipular por interesses particulares e políticos de um partido que disputa eleitorado.

Essa questão, para mim, é mais relevante do que saber se Passou ou Costa, em 1999 foram relapsos no pagamento de contribuições e impostos. A credibilidade dos políticos vale o que sempre valeu. A credibilidade de um jornal e particularmente de um dos poucos repórteres de investigação que temos, para mim vale um pouco mais.
Mas arrisca-se, com este caso, a perdê-la completamente.

segunda-feira, março 02, 2015

O roto que ri do esfarrapado

Um tal Edmundo Martinho, escolhido para dirigir a Segurança Social pelo actual reluso 44 e com um currículo invejável em matéria de colocações adequadas, pronunciou-se lá de Genebra, onde se encontra a dirigir qualquer coisa adequada à sua carreira contributiva para a Irmandade do costume.

O D.N. do inefável Macedo dá o devido destaque, assim:

O Edmundo, sempre dirigente de qualquer coisa,  diz que o actual primeiro-ministro, quando era apenas contribuinte "evasivo" entre 1999 e 2004, pecou por omissão indesculpável, pois que a lei é coisa importante para cumprir e esse contribuinte não cumpriu.

Por outro lado, o Edmundo, sem se enxergar, desvaloriza o facto de o Instituto a que presidiu funcionar mal e de modo incompetente, durante o período em que se sentou na cadeira de director. Apesar dos milhões que fugiram por esse modo, devido à sua incompetência premiada com um lugar em Genebra, o Edmundo ainda tem a lata de relegar para o olvido tal assunto que "é pouco relevante"...
Vendo estas coisas, conclui-se que o "dossier" que os serviços especiais do PS arranjaram para entalar o actual primeiro-ministro em ocasiões críticas como esta ( a desgraça do Costa tem sido oferecida pelo próprio, de graça...) é muito fraquinho. Nem com os media à trela escondem o cheiro nauseabundo que chega a conta-gotas dos lados de Évora. 

domingo, março 01, 2015

O PS do costume...e as diversões de sempre

  Observador:

Para a vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS, "o primeiro-ministro falhou, porque sabe - como todos os portugueses sabem - que é obrigatório o pagamento à Segurança Social", classificando o comportamento do governante de "inaceitável". 
Esta posição foi assumida pela vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS Ana Catarina Mendes, depois de o jornal "Público" ter noticiado no sábado que, entre outubro de 1999 e setembro de 2004, Pedro Passos Coelho acumulou dívidas à Segurança Social, tendo decidido pagá-las voluntariamente em fevereiro, num total de cerca de quatro mil euros.

Acho muito bem. Agora que só se fala do Costa e das gaffes do Costa, Passos deve explicar porque foi igual a milhares de portugueses que nos idos de 1999 não fizeram descontos para a Segurança Social, prejudicando-se a eles mesmos nessa  medida. Actualmente, em 2013 ( lei de Passos Coelho...), uma vez que se sabe que os descontos para a SS também afectam os que nunca descontaram, tal prática tornou-se crime, uma vez que a Segurança Social é para todos, mesmo os que nunca descontaram um chavo.  Ou seja é preciso contextualizar e compreender o que se passou à luz das regras de então.
Naquela altura de 1999 era Ministro do  Equipamento e depois do Ambiente, o actual recluso 44. O Ministro do Trabalho era Paulo Pedroso, o indivíduo que supostamente é casado com a tal vice-presidente e arranjou recolhimento no ISCTE, depois de tudo o que se sabe.
O que se passou a seguir com estes indivíduos foi de tal modo escandaloso, criminoso e atentatório do regime democrático que se torna igualmente escandaloso e despudorado que a suposta mulher do dito Pedroso tenha a distinta lata e topete de falar como fala e nunca tenha  deixado de deputar ou que tenha pedido ma AR idêntica indagação sobre "os seus".  Hipócrita? É pouco, porque vai um pouco mais além e os portugueses não são parvos nem andam a dormir na forma.

Portugal está como está, devido a estas pessoas com este tipo de índole moral. O estratagema é o de sempre: aproveitar um fait-divers, transformá-lo em escândalo e surfar a onda mediática que aliás ajuda porque foi daí que proveio.
Quanto aos factos, designadamente aos crimes do recluso 44- por exemplo o que já se encontra suficientemente indiciado acerca da fraude fiscal e à mesma Segurança Social, relativamente ao modo como remunerava o motorista Perna, isso não lhes interessa nada. É como se não existisse porque o recluso 44 como se sabe está "inocente"...

Quanto ao facto de estas coisas da Segurança Social relativamente a um contribuinte se tornarem públicas, isso não interessa para nada também. Interessa é a violação do segredo de justiça no processo do recluso 44 que como toda a gente sabe, por ter sido proclamado por aqueles que agoram violam o sigilo fiscal, é uma grande vergonha e de que é responsáveo principal o juiz de instrução, o tal que se deve cuidar...
Quanto ao jornalista que desarrincou esta grande notícia sobre "o Passos", o mérito deve ser todo dele que aproveitou esta violação de sigilo para brilhar como grande repórter de investigação...
Se em Portugal houvesse uma espécie de Pulitzer, o prémio já estava atribuído, até porque não há mais ninguém a fazer o mesmo. A vida custa a todos...

O patriotismo verdadeiro e a esquerda comunista

Observador:

Falar de descolonização implica falar de militares. E nos anos de 1974 e 1975 falar das Forças Armadas portuguesas implica falar do “batalhão em cuecas”. Ou seja dos sons, das imagens e dos testemunhos sobre as humilhações a que, na Guiné, Moçambique e Angola, estavam ou poderiam vir a estar sujeitas algumas unidades militares.

Entre as explicações que os militares e líderes políticos com responsabilidades na descolonização têm dado para a forma como esta foi feita, conta-se invariavelmente a referência à influência dos jovens radicais que gritavam em Lisboa “Nem mais um soldado para as colónias”. Mas na verdade o problema não foram estas manifestações, por mais que elas tivessem irritado as chefias militares.

O problema é que, como em Lisboa bem se sabia, seria até preferível que os soldados já não partissem para as colónias: quebrada a cadeia hierárquica de comando, os militares protagonizam em África episódios que, para bem das Forças Armadas, Portugal não devia conhecer. Para os políticos e chefias militares que falharam no seu imaginário de libertadores, o “batalhão em cuecas” funcionou como derradeiro argumento desculpabilizador. Nas mãos daqueles que em 1974 e 1975 aplicavam à prossecução dos seus objectivos ideológicos o que tinham aprendido nos manuais militares de acção psicológica, o “batalhão em cuecas” foi uma notável peça táctica.

Depois de terem querido manter o império e feito cair o regime, as Forças Armadas portuguesas começavam um combate que as levaria a uma sucessão de golpes e contra-golpes. E nesse combate valeu quase tudo. De Cabinda em Angola, a Omar em Moçambique, após o 25 de Abril de 1974, as Forças Armadas portuguesas lutaram impiedosamente. Contra si mesmas.


Esta pequena passagem do texto de Helena Matos sobre um aspecto da "descolonização exemplar" dá azo a que se mostre que Portugal e os portugueses não foram todos militates em cuecas durante a guerra no Ultramar. Quem os pôs de cócoras, em primeiro lugar foi a esquerda comunista, com grande destaque para o PCP e também a esquerda democrática do PS e satélites como o MES, com o total apoio do MFA dirigido na altura por militares destrambelhados, como Otelo Saraiva de Carvalho ( o qual tendo dito recentemente que Salazar afinal teve méritos, já ninguém o quer ouvir...) ou simples idiotas úteis, cujos nomes escuso de escrever.

Por isso mesmo importa refazer a imagem histórica mostrando o lado da História que agora não se conta, porque o tempo ainda não está maduro. Quem se atreve a desviar da rota da História politicamente correcta é logo apodado de "fascista" ou saudosita ou reaccionário.

Para começar, uma entrevista com um militar, patriota dos verdadeiros e guerreiro de fibra: Kaulza de Arriaga. A entrevista foi publicada no Observador de 5 de Novembro de 1971 quando KA era o comandante dos portugueses na frente de guerra em Moçambique.


O generak Kaulza de Arriaga foi preso em 28 de Setembro de 1974 porque era um dos perigosos "fascistas" e nessa condição ficou até 21 de Janeiro de 1976.
Em 1987 publicou um livro que intitulou "Guerra e Política- em nome da verdade os anos decisivos" que mais logo conto publicar por aqui alguns excertos...

O livro do general Kaulza de Arriaga foi publicado em 1987, dez anos depois de o mesmo ter instaurado uma acção nos tribunais administrativos que acabou por lhe dar razão. Como aqui se explica:


 







Como é que hoje se lida com estes assuntos? Simples: Kaulza é um "ultra" ou seja um fascista retinto que nem merece consideração pessoal de espécie alguma e está o assunto resolvido.

Por outro lado, o Correio da Manhã anda há meses a publicar no suplemento dominical Domingo duas páginas de testemunhos pessoais de antigos combatentes na guerra do Ultramar. O modo como o faz é muito parecido ao que antigamente a revista Observador fazia, com uma linguagem sem grandes tergiversações novilinguísticas e não se lêem barbaridades com os chavões de linguagem da esquerda comunista. Os depoimentos são geralmente na primeira pessoa, por quem protagonizou e viveu esse tempo.
Hoje por exemplo, traz este depoimento:



sábado, fevereiro 28, 2015

"Situação moral da Europa" em 1900

Da Paródia de 7 de Março de 1900, uma caricatura sobre diversos países europeus. A História da Europa também se pode aprender assim. Vasco Pulido Valente anda a escrever sobre essa História, alguns anos antes...
Para o caricaturista de então, Portugal ia a reboque da Inglaterra, com Lusíadas e tudo. E agora?


sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Impostos: a Paródia de 1900 repete-se agora

No número de 4 de Abril de 1900, o jornal satírico A Paródia tinha esta caricatura sobre os impostos em Portugal, em comparação com outros países.

Cento e quinze anos depois, parece que não mudou muito...apesar de um interregno de mais ou menos quatro décadas, quando o regime de Salazar e Caetano mandava no Orçamento de Estado e a Constituição impunha o seu equilíbrio efectivo.
Há muita gente que não sabe nem quer saber disto.


quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Entrevista da PGR com uma nota importante

Observador:

A procuradora-geral da República (PGR), Joana Marques Vidal, admitiu esta terça-feira em entrevista à Renascença e ao Público, que existe “uma rede que utiliza o aparelho do Estado e outro tipo de aparelhos da Administração Pública para realizar atos ilícitos”, muitos na área da “corrupção”.

Desafiada a comentar sobre uma eventual crise de regime, depois de vários casos de corrupção terem sido tornados públicos envolvendo, alegadamente, altos quadros da classe político-económica do país, Joana Marques Vidal começou por dizer que não lhe competia “fazer análises de regime”, mas admitiu que existe uma rede de corrupção instalada no Estado. Mais: a PGR apontou as áreas da “Saúde e da contratação pública” como os terrenos mais férteis onde germinam este tipo de casos.

Esta parte da entrevista da PGR é a mais interessante porque revela algo importante: há neste momento a percepção de que a corrupção em Portugal é algo assinalável, preocupante e de vulto. O antigo PGR e a antiga directora do DCIAP andaram anos a desmentir este estado de coisas que tinham a obrigação estrita de percepcionar.
O caso do antigo PGR ainda é mais lamentável porque era amigo de quem o nomeou para o cargo e encontrou-se com ele na véspera de o mesmo ser preso por corrupção. Disse depois na televisão ( incrível e que denota o poder real) que foi apenas para falar de livros e viagens...e se calhar ficou a pensar que toda a gente acreditou.
A antiga directora do DCIAP disse recentemente que foi uma surpresa o que aconteceu agora ao antigo primeiro-ministro, apesar de ter sido informada da existência de contas off-shore em nome de familiares do mesmo e movimentando centenas de milhões de euros, relativos a acções de empresas nacionais, o que originou um inquérito que foi mais rapidamente arquivado do que levou tempo a abrir.

É sintomático que a actual PGR tenha dito com precisão que a corrupção se situa essencialmente nas áreas da "Saúde e da contratação pública".

Saúde tem a ver com aquisições de material e com o papel da administração pública, mormente dos presidentes das ARS. Os que mandam na ARS de Lisboa e Vale do Tejo estão aqui identificados. E em tempos já se escreveu aqui sobre o assunto, a propósito de uma notícia do Correio da Manhã de 1 de Março de 2013.

Assim:

"Um indivíduo com 57 anos, médico do Porto, exerceu "vários cargos de chefia" no hospital de S. João, no Porto. Parece que até foi assistente universitário de um das cadeiras do curso. Entre 2003 e 2008 foi presidente do INEM e quando Ana Jorge ( PS) era ministra ( num dos governos de José Sócrates) foi consultar para o ministério, até 2011. O quê? Não se sabe por enquanto porque o jornal não diz. Mas pelo caminho que a investigação jornalística leva, um dia destes ainda viremos a saber. Desde Outubro de 2011 o mesmo indivíduo ( na foto) é presidente da Administração Regional de Saúde. Um gestor do Estado. Não é público: é do Estado que é mais precioso.
O mesmo administrador, que é do Porto, quando era presidente do INEM, arrendou uma casa em Lisboa, em 2004. Onde? Começam as coincidências...
Foi no mesmo prédio da rua Braamcamp, onde José Sócrates e a mãe compraram uns magníficos apartamentos a preços convidativos, segundo foi  notícia de época, ( embora haja quem jure que não, como Herman José que também lá comprou e que jurou terem sido pelos preços certos. Não se sabe muito bem é a quem, com precisão de nomes, mas isso já lá vai). Seja como for, o apartamento arrendado pertence a uma empresa- a Convida, investimentos turísticos e imobiliários- administrada por um certo Paulo Castro. A empresa terá accionistas mas são secretos. O contrato de arrendamento, esse, também é porque ninguém quis dizer ao jornal quanto paga de renda o tal administrador que agora é director da ARS-Lisboa e Vale do Tejo. E quem é o tal administrador da Convida, Paulo Castro?
Ora, é o administrador da empresa Octapharma, em Portugal. A mesma que empregou José Sócrates como caixeiro-viajante para os affaires da América Latina. A mesma que em Portugal domina o mercado do plasma hospitalar e os milhões que movimenta, com uma quota de 60 a 80% do mesmo.
Portanto, resumindo ainda mais: O administrador da Octapharma, Paulo Castro, é também administrador de uma empresa imobiliária cujos donos não se conhecem e que arrendou um apartamento a um funcionário público de luxo, enquanto presidente do INEM, em 2004, consultor do Ministério da Saúde entre 2008 e 2011 e agora presidente da ARS.
A explicação para esta coincidência é dada pelo mesmo administrador da ARS: conhece Paulo Castro há um ror de anos e...são amigos."


Como então se escreveu, o gestor do Estado não é suspeito de nada em especial. Repesca-se o escrito de então:

 Ora bem e falando sério: é preciso saber o que consultou Luís Cunha Ribeiro, desde 2008 a 2011, no Ministério da Saúde. Exactamente o quê e porquê. Onde colocou o nome assinado, onde interveio como consultor, quando ganhava pelo tacho etc etc.
Depois disso é preciso saber que tipo de relação de amizade pode justificar um contrato de arrendamento de um apartamento, por coincidência no mesmo prédio em que também estava a morar o primeiro-ministro de então, feito a uma empresa que era administrada pelo responsável, em Portugal , de uma multinacional farmacêutica que em 2008 conseguiu vários milhões de euros de negócios com o Estado e o ministério da Saúde em particular, onde aquele inquilino era consultor ( mas o que é que consultou, santo Deus? Pode saber-se, ao certo?).
Tudo isso por uma razão que é importante explicar: um gestor do Estado não deve aceitar viver num apartamento que arrendou a um amigo que é simultaneamente interessado em grandes negócios com o mesmo Estado e em que aquele inquilino está em posição de eventual conflito de interesses.
Para já o assunto é meramente ético. Depois, se o jornal descobrir mais coisas, logo se vê.
Evidentemente, eticamente isto é uma grande vergonha. Para quem a tem, naturalmente.

Ah! Já me esquecia: o senhor não tem condições nenhumas para continuar a ser presidente de ARS alguma.

E agora acrescento: depois destes meses todos, parece-me que o senhor em causa ainda menos razão tem para se manter no cargo que ocupa.  Perante o que disse a PGR é essencial que a transparência seja mesmo isso: transparente e clara. 

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Em busca de um fascismo perdido

No outro postal disse que nunca tinha dado pela palavra "fascismo" como designativo do regime anterior, antes de 25 de Abril de 1974 e que só daí a alguns dias, poucos, começou a aparecer na imprensa. Seria interessante que alguém se desse ao trabalho de ver as imagens televisivas do dia 25 de Abril até ao 1º de Maio desse ano para perceber a mutação linguística e semântica.

Não obstante, fui ver como se escrevia na imprensa da época anterior ao 25 de Abril relativamente aos fenómenos que nos eram familiares, como a guerra no Ultramar ou simplesmente a televisão, um bom barómetro do ambiente  intelectual da época, em geral, como hoje provavelmente não será- ou será na mesma...

No início dos anos setenta comecei a comprar jornais ( antes tinha-os de borla porque o meu avô tinha uma mercearia e comprava pacotes e pacotes de jornais usados para embrulhar mercadorias e eu passava horas e horas a escolher os que me interessavam- e guardei-os todos...) e o Diário de Lisboa era o que me interessava mais pelo aspecto gráfico, tal como o Diário Popular me interessava em determinados dias da semana, por exemplo à Quinta-Feira porque tinha um fabuloso suplemente literário.

Assim, no D.L. de 2 de Janeiro de 1972 o crítico de televisão Mário Castrim ( um comunista que eu ainda nem sabia que o era e escrevia como eu gostava de ler)  tinha uma crónica de balanço do ano cultural, em Portugal. Esta:

As primeiras frases gritam em silêncio para dizer o que então não se podia: denunciar o regime como repressor ( "fascista")  e que obrigava os comunistas a fugirem do país, tal como os desertores. Nem estas palavras seriam escritas na altura se pudessem ter sido escritas, por um motivo: para Castrim, os desertores eram heróis na luta contra o "colonialismo" e os fugitivos comunistas os verdadeiros patriotas que apenas queriam que fôssemos como a pátria de Estaline...
Portanto, um duplo equívoco: Castrim não podia escrever livremente o que verdadeiramente queria dizer, mas se o pudesse nunca escreveria a verdade nua e crua, porque envolta na fantasia dos "amanhãs a cantar". Era e continua a ser este o drama dos comunistas que ainda hoje não podem escrever livremente nos jornais o que verdadeiramente lhes vai na alma. E não há censura nos dias de hoje, como então havia. Há outra coisa: as pessoas comuns, agora como dantes, não compram a ideologia comunista fossilizada como é a do PCP e quejandos esquerdismos, como o de Louçã, se a mesma for proclamada com toda a clareza do que os seus próceres pensam mas não dizem.  Foi esta mentira permanente que justificou a censura no tempo de Salazar e Caetano.

E que fazia Castrim ( e outros) para contornar a proibição de chamar ao regime " fascista" e dizer "colonialismo" e apelidar de "reaccionário" quem não pensasse como eles?  Contornava a linguagem e fazia de conta que contava fábulas. Algumas vezes isto resultava em pequenas obras-primas, mas nunca saiu daí nenhuma obra-prima de vulto porque os escritores de então, descobriu-se afinal, nunca escreveram para a gaveta por causa de censura alguma. Intrujaram durante algum tempo mas não o tempo todo.
Outra surpresa nesta escrita de balanço e que valeu ao Castrim sérios incómodos dos ortodoxos do "partido": diz muito bem de José Hermano Saraiva, um salazarista de sempre e que sempre foi o mesmo até morrer, honra lhe seja feita. Por causa de um programa de TV que se prolongou por décadas.

No Diário Popular do mesmo dia 2 de Janeiro de 1972 também há um balanço, igualmente televisivo no qual desponta um pequeno eco de um fascismo perdido.


No questionário proposto a meia dúzia de leitores, avulta a resposta de Eduardo Prado Coelho, o Eduardo PC, já falecido. Dizia o semiótico em modo semântico que " não suponho possível uma transformação dos programas de televisão sem uma transformação das condições sociais, económicas e ideológicas que neste momento, nos condicionam." Ou seja, venha o comunismo e depois conversamos...dito de um modo perifrástico.
Outro comunista vindouro, Correia da Fonseca, era mais modesto: só queria meia hora de telejornal "novo e diferente ", coisa que só dali a uns meses teria e que lhe terá concedido a relativa felicidade almejada.

Era este o limite imposto pela linguagem permitida: não discutir o regime em moldes revolucionários ( porque era disso mesmo que se tratava). Portanto, o regime ao condicionar e proibir tal revolução tornava-se naturalmente...fascista.

Ora foi isso mesmo que ficou escrito no Diário de Lisboa, em 20 Julho de 1973,  já dirigido por A. Ruella Ramos que nos meses a seguir ao 25 de Abril se transformou num dos maiores paladinos do PREC e pôde então dar largas à frustração de não ter podido chamar fascista ao regime, no tempo próprio, passando depois a designar o mesmo como "ditadura fascista" ou simplesmente "fascismo", termo que pegou de estaca na linguagem de trapo comunista.


No apontamento de reportagem de Londres assinado em telex por Joaquim Letria ( esquerda pró-comunista, então, mas com nuances porque estava em Inglaterra e lá não havia partido comunista por causa de Estaline, Hungria e Checoslováquia, entre outros fenómenos que por cá nem se conheciam bem), o mesmo repórter assinalava a propósito da visita de Marcello Caetano a Londres: "Por outro lado, jornais e tv continuam a referir-se à história de Wiriyamu e uma fonte da embaixada disse que havia o perigo de Portugal passar a ser conhecido apenas pelas características que esta onda de acusações lhe apontam: um Estado fascista que mantém uma guerra colonialista onde chacina nativos".

Tal e qual e o Exame Prévio deixou passar porque comprei este jornal no dia em que saiu. Assim, poderia ter lido as três grandes pechas do regime: fascista, colonialista e racista.
Quem é que apelidava o regime de Caetano desse modo? Letria dizia que era um anónimo da embaixada. Comunista, pela certa, mas letria nunca o iria dizer...

Quem ler os apontamentos de reportagem que a revista Observador fez dos mesmos acontecimentos em Londres fica a saber mais e nunca leria este tipo de "telex" sem citação concreta da fonte ideológica de onde proveio. Já por aqui foi mostrado e permite entender como é que o Exame Prévio de Marcello Caetano tinha um equivalente mais subtil e com poder igualmente capador: o comunismo censura efectivamente tudo o que não lhe convém ideologicamente e faz questão disso mesmo, sem qualquer pudor, ao mesmo tempo que vitupera a Censura nos regimes que não lhe permite a propaganda livre e subversiva, como era o caso de Portugal com três frentes de guerra.

Por isso mesmo, a linguagem usada nos jornais de esquerda da época, ou era cifrada do modo explícito, sofrendo em silêncio a possibilidade de proclamar bem alto os amanhãs a cantar ou então era simplesmente obliterada por inconveniente, censurando de igual modo a verdade subjacente.

Quanto ao resto, ou seja, o ambiente geral que se vivia em Portugal no ano de 1972, nem sombra de fascismo no que se escrevia ou lia, nem vestígios de ódio militante. Apenas firmeza de princípios, políticas coerentes e prevenção da subversão comunista revolucionária, preocupação principal do regime que acabou por ser a sua maior derrota.
E isso é que se torna estranho porque nem a  mutação linguistica e semântica o explicam. Principalmente por causa disto que se podia ler na última página do Diário de Lisboa de 10 de Outubro de 1972:

Um Estado fascista não dá protecção social e previdência a mais de metade da população. Isso é típico da social-democracia...mas suponho que nenhum esquerdista comunista o reconhecerá.

A respeito de Portugal e do antigamente

O jornal ( fascista para o comunismo, incluindo o syriza) O Diabo,  de hoje tem esta capa:

Em duas páginas assinadas por Nuno Alves Caetano ( não sei quem é nem tenho referências mas está  no Facebook que também não tenho) o jornal retrata um país que antes de 25 de Abril de 1974 estava em franco crescimento económico, com desenvolvimento como agora se diz, "sustentado".
Não se faziam coisas à toa, havia mérito nas escolhas de quem governava e o povo em geral percebia as escolhas de quem mandava, mesmo com censura e repressão política da esquerda comunista.

Nessas duas páginas com factos e números que não aparecem noutros jornais ( esquerda em geral oblige) questiona-se a gestão da coisa pública nos últimos 40 anos com factos irrefutáveis: quase três bancarrotas consolidadas e evitadas in extremis à custa de muitos sacrifícios que agora são criticados por aqueles que os provocaram directamente, como sendo a famigerada "austeridade" e o "empobrecimento".
Ainda ontem, um Francisco Louçã, no Prós&Contras em que se falou da Grécia foi interpelado para explicar qual a alternativa que oferece quando se sabe que a esquerda que representa não vingou em lado algum do mundo e foi-lhe apontado que apresentasse um único exemplo de país onde tal sucedeu, para além da Coreia do Norte, de Cuba e da Venezuela ( e agora a Grécia a ameaçar o mesmo). Não respondeu e tergiversou dizendo que  Portugal é Portugal e não copia modelos externos.
Não? O interlocutor não lhe ocorreu aterrá-lo com esta citação de uma entrevista do mesmo Louçã.,   em 2012, ao Público ( José Manuel Fernandes, igualmente presente no programa também não se lembrou...):
 Público- Hoje continua a ser um revolucionário?
 F. Louçã- Sou socialista. E sou contra o capitalismo. O socialismo para nós, é um projecto anticapitalista, com todo o gosto pelas palavras e com toda a clareza."

Portanto, como mostra a revista Observador de  19 de Março de 1971, havia já um plano para construção das auto-estradas que não tínhamos ( a Alemanha tinha cerca de 4000 km, mas a Grâ-Bretanha só tinha mil) e com certeza executável porque era assim mesmo naquele tempo: fazia-se tudo com pés e cabeça e de modo sustentado.
Estas auto-estradas previstas para a meia dúzia de anos a seguir a 1974 só foram construídas vinte anos depois...algumas delas, e com ajuda dos fundos estruturais da então CEE. E com a corrupção que se conhece nas PPP´s mas ainda não se apurou penalmente.
A Mota-Engil neste plano? Ainda não existia porque era uma empresazeca de Amarante. O BES? Ainda não contava...


segunda-feira, fevereiro 23, 2015

A aparição do fascismo em Portugal

O fascismo, enquanto termo designativo de um regime não existia em Portugal antes de 25 de Abril de 1974, a não ser nas publicações clandestinas dos comunistas, a que se juntavam alguns socialistas então marxistas.
Porém, na linguagem comum e corrente do povo e mesmo dos media, ( com censura) o termo era ignorado como palavra-chave para designar o regime político do Estado Novo de Salazar e do Estado Social de Marcello Caetano.
Por mim só dei com a palavra "fascismo", designando o regime anterior, nos dias a seguir ao 25 de Abril de 1974. E digo dias a seguir porque no próprio dia, os jornais, rádios e tv ainda não usavam o termo.

Em Janeiro e Fevereiro desse ano de 1974 a linguagem corrente era esta, como mostra o jornal Diário de Lisboa  que se tornaria um dos expoentes comunistas mais notórios logo nos dias  a seguir ao 25 de Abril. Não se nota "fascismo"  em lado nenhum. Escrevia-se Ultramar em vez de Colónias e Nação em vez de "este País". E falava-se em moral, conceito que depois desapareceu para dar lugar, alguns anos depois a "ética". Marcello Caetano adivinhava os "tempos dificeis" que viriam e provavelmente nem imaginava como! Dali a dois anos havia uma bancarrota em perspectiva e dez anos depois, outra. Coisa inédita no Portugal desse tempo.
E dava-se notícia dos militares mortos em combate, na guerra "na Província da Guiné" e "no "Estado de Moçambique".


 No dia 25 de Abril de 1974 o Diário de Notícias não noticiou a queda do regime como "o derrube do fascismo". Aliás, nenhum jornal diário o fez, aposto.


Nem sequer o Diário de Lisboa do dia 27 de Abril mostrava tal coisa nos comunicados do Movimento das Forças Armadas que apenas falavam em sistema político.  Porém, os comunicados da CDE já não escondiam a palavra "fascismo" e noticiava-se que  um grupo de manifestantes do MRPP gritava "o slogan favorito, "guerra do povo à guerra colonial".  A palavra fascismo aparece também nas designações que os comunistas fazem do regime, relatadas no jornal.

Esta palavra "fascismo" foi introduzida no léxico corrente pela esquerda comunista, com efectivo apoio socialista, parece-me um facto indiscutível. Ou seja, a esquerda inventou o termo "fascismo" para designar o regime de Salazar/Caetano e conseguiu torná-lo designativo corrente, tal como a palavra "kispo" designava blusões. Uma metonímia notável.



Em 29 de Abril o mesmo jornal já definia na página dois o regime anterior, como ainda não se fizera mediaticamente: "regime fascist", ou seja tal e qual a esquerda comunista sempre o designou.


No mesmo dia 29 de Abril de 1974,  o República, dirigido pelo socialista maçónico Raul Rego dava estatuto de herói ao regressado de Paris no dia anterior, Mário Soares. E publicava o primeiro comunicado do PCP em que aparece a expressão mágica, como não podia deixar de ser: "ditadura fascista".
Dali para a frente foi sempre a somar adesões à novíssima designação cuja aparição ocorreu deste modo.

Quanto ao partido Socialista, para não ficar atrás dos operários e camponeses, também partilhava os desideratos comunistas de liderar a "luta contra o capitalismo" e naturalmente a sua declaração de princípios, um ano antes, já garantia "o combate visando a eliminação dos suportes sociais do fascismo e do colonialismo" , ou seja, contra " a burguesia" e banqueiros, um deles por sinal mecenas de Mário Soares no exílio, segundo consta... 

Com este ideário expresso e a linguagem usada, quem aderiu ao socialismo democrático passou a usar a mesma língua de trapo dos comunistas.



Em 29 de Setembro de 1974 o Expresso já escrevia em editorial ( possivelmente Marcelo Rebelo de Sousa) "luta antifascista". O Expresso é o melhor expoente explicativo do fenómeno que se introduziu na semântica nacional. O Expresso de Balsemão, deputado da Ala Liberal do Estado Social  que a esquerda passou a apelidar de "fascista", sem qualquer protesto ou oposição daquele, foi sempre um jornal "liberal" à moda do Minho, ou seja, de Cascais ou da Quinta da Marinha. Foi sempre contra o comunismo do PC, na fase em que este partido que ainda se diz democrático queria açambarcar todo o poder político e cujas veleidades só terminaram em Novembro de 1975. Mas foi também um jornal "inserido no processo revolucionário", como atestou o comandante do Copcon, Otelo, quando Vasco Gonçalves o apodou de "pasquim", num discurso surrealista em Almada, nos idos de 1975.
Quer dizer, o Expresso foi sempre um jornal que não quis ser carne nem peixe, preferindo os congelados do "tipo serra". Tipo professor Marcelo, o melhor paradigma do jornal.


O termo "fascista"  pegou de estaca, deste modo e até hoje, modificando a linguagem antiga e dando nova dimensão ao panorama político. Nas semanas e meses depois do golpe ninguém queria ser "fascista", o que se tornou um termo de insulto e exclusão quando não de prisão como aconteceu com estes pobres fascistas,   adeptos irredutíveis de Mussolini, falangistas sinistros de uma ordem nova de violência anti-democrática, arrebanhados pelos democratas da esquerda revolucionária, na sequência dos acontecimentos de 28 de Setembro de 1974, como relata o DL de 30 de Setembro de 74.


A partir daqui o PREC levantou voos mais altos, até 25 de Novembro de 1975. Fascismo, ditadura fascista, reaccionário, até mesmo nazi, foram termos que se vulgarizaram e abrangeram todos aqueles que não partilhavam a mesma cartilha desta esquerda comunista e socialista. Hoje, 40 anos de depois, o esquema mental dessas pessoas continua o mesmíssimo de sempre: apodar de fascistas quem ousa falar do regime anterior noutros termos que não os que eles mesmos assim definiram.

Como dizia uma mulher num autocarro para defender outra mulher, preta, das invectivas de um energúmeno qualquer: olhe senhora, preto é ele...
No caso, fascistas, são eles...

Quanto aos media tradicionais, seguiram todos, sem excepção, o mesmo guião. Os que o não fizeram tiveram um destino de inquisição. Assim, em 29 de Setembro de 1974, no jornal Sempre Fixe, dirigido então pelo mesmo director do Diário de Lisboa:





 Logo em Junho de 1974 a Flama mostrava mais um dos sinais do fenómeno. "A arte fascista faz mal à vista", proclamaram alguns artistas plásticos no interior do palácio Foz, nos Restauradores, para tapar de negro uma estátua de Salazar.



"Fascismo" já era o termo da ordem nova. 

Naturalmente, quando em 1983 alguns adeptos do antigo regime se reuniram no Porto para comemorar o 28 de Maio de 1926, data do golpe que conduziu Salazar ao poder, o Expresso de 4 de Junho de 1983 deu assim a notícia, com fotos.

O texto é exemplar do que aconteceu à linguagem nesses anos, pouco mais de meia dúzia sobre o 25 de Abril: mistura verdadeiros adeptos da extrema-direita, eventualmente fascista segundo os cânones correctos da designação com elementos de direita, salazaristas de vários matizes e todos embrulhados numa conveniente designação de "direita nacionalista e antidemocrática". Fascista, quoi!

Em Portugal quem não segue a cartilha da esquerda que inclui naturalmente a social-democracia que temos, é simplesmente "fascista" ou mesmo "nazi" e julgo que a explicação está dada. 



domingo, fevereiro 22, 2015

O fascismo é o filho adoptivo do PREC



Antes de 1974 chamar comunista a alguém era ofensivo  porque até era perigoso  uma vez que poderia redundar num  interrogatório policial, com prejuízo para a reputação e até a liberdade. 
O regime do Estado Novo combateu efectivamente o comunismo e marxismo em geral, por motivos ideológicos e políticos, como aliás outros países ocidentais o fizeram, embora com maior restrição de liberdades do que nesses países, por razões históricas e políticas, conhecidas e públicas.

Nos anos cinquenta, nos EUA, o macartismo combateu o mesmíssimo comunismo e marxismo através de esquemas legais de "caça às bruxas", sem comparação com o que por cá acontecia.  Uma denúncia bastava para o interrogatório minucioso e perscrutador de consciências porque o comunismo era proibido , na medida em que pretendia a subversão completa do modelo económico e social, imitado do vigente nos países de Leste Europeu, maxime URSS, já com um satélite à porta ( Cuba).
O comunismo de cá vicejava ideologicamente  sem  repressão de consciências mas era reprimido violentamente, com prisões, no caso de actos e manifestações.  Era igualmente proibido como política legítima, pelas mesmas razões que nos EUA e ainda outras particulares e nacionais.
O comunismo e marxismo de  cá era de organização clandestina mas de pensamento livre, cerceado apenas pela censura dos seus meios de expressão.
Na Inglaterra,  França e outros países o comunismo, não sendo proibido formalmente,  havendo partidos marxistas ( a Inglaterra nem tem partido comunista...e desde os anos quarenta que os trabalhistas não querem nada com eles) era entendido como o mal anti-democrático a extirpar da sociedade porque fomentava a subversão política e a destruição dos regimes democráticos  burgueses, assentes na liberdade individual  de reunião, associação e manifestação e demais características conhecidas como o sistema de produção capitalista.

Em Portugal, durante todo o tempo do Estado Novo e depois no Estado Social de Caetano, o comunismo, enquanto organização para a conquista do poder,  foi proibido e combatido, reprimido e os seus dirigentes presos,  julgados e condenados por isso, ou seja, por actividades que a lei de então classificava como subversivas e penalizava com prisão.
Para os nossos comunistas de então,  caldeados na clandestinididade praticamente desde os primórdios ( veja-se a mensagem de Fátima de 1917, com os "erros da Rússia") o Estado Novo e o Estado Social eram "fascistas", termo que obviamente aparece depois de Mussolini, ele mesmo um antigo socialista. 
Os socialistas marxistas, aparecidos com a tradição maçónica e jacobina da I República,  tributários dessa esquerda operária e menos camponesa, seguiam  esse modo denominativo do regime: fascismo. Simples, fácil e com rendimento político assegurado.
Durante o Estado Novo, a palavra encerrava um conceito comunicativa de seita. Tal como as  primeiras seitas  cristãs  das catacumbas aprenderam a  reconhecerem-se entre si e a designar os pagãos através de discursos cifrados e esotéricos, reservados a iniciados e discípulos, assim os comunistas e marxistas-leninistas-estalinistas criaram uma linguagem própria, extraída dos ensimanentos dos mestres, principalmente Estaline, um assassino de Estado que  ainda hoje é idolatrado como herói pelos comunistas, sem que tal causa incómodo de maior.  

Ainda hoje essa linguagem  de seita aparece vertida em todo o seu esplendor, nos escritos comunistas das suas publicações e é usada como dialecto corrente, tal como um mirandês ainda se usa na recôndita província do nosso nordeste, pelos cultores da tradição.
Portanto, discutir ou argumentar com um comunista marxista-leninista-estalinista  carece de aprendizagem prévia desse dialecto  para que o discurso não seja uma conversa de surdos.
Foi exactamente isso que sucedeu durante anos a fio nos media nacionais, sempre que eram entrevistadas figuras de proa do nosso comunismo de seita.
Álvaro Cunhal, Domingos Abrantes ( o sibiliante de dentes raros que diz fassismo),  Octávio Pato ou Jerónimo de Sousa são personagens dessa seita esotérica que acredita nas virtualidades do comunismo científico, dos amanhãs a cantar e outras balelas que afirmam como  verdades imutáveis do devir social. Nas raras vezes em que tal sucedeu por cá, contadas pelos dedos de uma só mão, quando se lhes perguntava  por alhos, respondiam invariavelmente com bugalhos e assim foi até hoje.

Não obstante o descrédito generalizado do comunismo marxista-leninista-estalinista, com exemplos   flagrantes  de  ser um lastro ideológico falido e derrotado politicamente, por conduzir exactamente ao contrário do que apregoam , subjugando os povos e acorrentando-os a  sistemas verdadeiramente totalitários,  a seita dos seus vicários continua a vicejar  entre nós, simplesmente por causa de um fenómeno que por aqui já apontei: o domínio de certas palavras-chave da linguagem corrente.  

O comunismo nacional conseguiu em 40 anos um feito notável e único na Europa, pelo menos:  falsificar a nossa História contemporânea, impondo os termos de linguagem que a contam .  
É raro encontrar um comentador político que não se refira ao regime de Salazar e Caetano como "o fascismo".  É ainda mais raro encontrar um escrito ou ouvir uma conversa nos rádios e tv´s em que se faça apologia do regime de Salazar e Caetano, mesmo em tonalidade crítica e tal não seja imediatamente apodado  de fascista , a sério ou a brincar. 
Jornais ou revistas que afrontem este totalitarismo como o mesmo deve ser afrontado, tal como existem noutros países europeus, em Portugal não existem e nunca existiram, salvo excepções que igualmente se contam pelos dedos de uma só mão e vendem ninharias, sendo classificados de "reaccionários" e...lá está- fascistas. 
Os símbolos e imagens do nosso passado do tempo de Salazar e Caetano são obliterados mediaticamente e escondidos convenientemente quando conspícuos.  A eleição popular de Salazar, em 2007,  como  a figura da nossa História, muitíssimo à frente dos restantes contendores ( precisamente Álvaro Cunhal, o que denota o esforço do comunismo em erigir mediaticamente  essa figura  como herói nacional) revela que pode haver muitos "fascistas" por aí e o perigo de tal hipótese concita a atalaia, durante todo o ano e particularmente em Setembro, onde se repetem os mantras da linguagem que assegura o futuro dos amanhãs a cantar.
Ainda hoje, passados mais de 40 anos e supostamente gozando  uma liberdade que Salazar não permitia, existe medo em falar abertamente daquele e a publicação das suas obras nunca se fez como devia, até em nome da liberdade de expressão. Os editores tinham e têm medo e o que publicam são estudos dos ideólogos antifascistas devidamente encartados ou insuspeitos que replicam a linguagem correcta. 
A liberdade do comunismo marxista e seus idiotas úteis é mesmo essa: suscitar o medo da exclusão mediática e social e por arrastamento da representação política no panorama eleitoral.  É essa a maior vitória desse totalitarismo virtual.

Esse domínio ideológico notável tem expressão, por exemplo, no uso corrente da palavra "fascismo" , adejado e arremessado sem outro critério que não seja o da agressão viciosa para liquidar o adversário na cena de discussão. 
Chamar "fascista" ou clamar pelas manifestações de "fascismo a sério"   é o mesmo que chamar ladrão a um verdadeiro franciscano ou corrupto a um pobre de pedir.
Nos demais  países europeus o termo é inócuo e irrelevante,  designando apenas o regime italiano de Mussolini.  Por cá, tal como a metonímia do kispo, uma marca de blusões que nos anos setenta  passou a designar os ditos, é usado como  sinónimo e significado de algo odioso, ignominioso, até criminoso ( legalmente,  na nossa democracia plural, estão proibidos os partidos fascistas,) e em final de contas, insultuoso e estrepitoso.
De há quarenta anos a esta parte chamar fascista a outrém é igualmente perigoso, embora com uma nuance: conduz ao ostracismo social e político e portanto à exclusão  conferida a um criminoso sem pena de lei, mas de costume que aqueles conseguiram impor.
É  esse o  leit-motiv deste  blog  desde   o início, há  mais de dez anos : em vez de "fascista a sério", ser democrata de verdade, dando a conhecer a  pessoas que não sabem ou  que já não se lembram,  o que foi o tempo que aqueles comunistas e marxistas de diversa índole, mais os idiotas úteis da praxe,  querem fazer esquecer, censurando quem se esforça por repôr uma verdade histórica.
São esses comunistas, marxistas-leninistas  e de outros matizes  que falsificaram  factos e figuras, tal como fizeram ( e ainda fazem)  no tempo do regime que afeiçoam, em que apagavam literalmente figuras incómodas de fotografias  oficiais,  ou que eliminavam fisicamente opositores, em massa ( purgas de Estaline e genocídio de camponeses, indiscutíveis verdades históricas reconhecidas pelo próprio regime) ou reprimiam ferozmente ( penas de morte e execuções sumárias, historicamente indiscutíveis) as liberdades de reunião, associação e expressão de um modo que o regime a que chamam fascista nunca se atreveu a praticar porque na realidade histórica nunca o foi.
Esta verdade comezinha enunciada por pessoas que nem sequer são suspeitas de pertencerem  ao regime passado, é absolutamente espezinhada em nome de uma outra verdade conveniente que esconde a monstruosidade do regime em que acreditaram e acreditam, esse sim, totalitário, social-fascista e absolutamente hediondo para as liberdades individuais.
 O grande mistério desta verdade escondida reside a complacência com que os media em geral lidam com estas pessoas verdadeiramente terroristas do pensamento e totalitários do espírito que ousam chamar "fascistas a sério" a quem lhes aponta do dedo sujo de sangue idoloógico. 

E...como é que isto começou?  Pois é essa História que aqui me interessa fazer e é isso que ao longo dos anos tenho procurado fazer. 

Já mostrei este recorte do jornal maçónico e socialista República de 13 de Janeiro de 1975, no qual o escriba procura dar a definição semântica de "fascismo" aquela que ainda hoje é seguida pelos que apodam os demais de "fascistas", sem repararem na trave totalitária e intolerante que lhes tolhe o bestunto e imediatamente os desqualifica.

sábado, fevereiro 21, 2015

O conservadorismo antigo do tempo de Salazar

O cronista António Lopes Ribeiro, cineasta do tempo do Estado Novo, escreveu na revista Observador de 9 de Julho de 1971 esta carta aos nascituros, ou seja à geração que está agora na meia idade dos 40 e aos seus filhos.

Nela elenca um conjunto de fenómenos sociológicos e políticos que afectaram a geração que nasceu com o aparecimento do séc.XX ( ALR nasceu em 1908, Salazar em 1889) e traduz a amargura de ver a sociedade a mudar e os costumes a modificarem-se, no entender daquele para pior.
O tempo de António Lopes Ribeiro era o tempo de Salazar e de quem foi educado nessa época segundo os costumes do tempo, com forte influência da igreja Católica que o jacobino Afonso Costa pretendia  eliminar, "em  duas gerações" ou quantas fosse preciso. Porém, quem foi eliminado da cena dali a poucos anos foi ele mesmo que teve de se pisgar para Paris... e por lá se finou, só tendo o   que dele restava sido trasladado para cá, precisamente em 1971.

O que nesta carta se diz incomoda a esquerda burguesa que era já nessa altura a percursora da mudança social e pretendia a mudança política para a impor aos cidadãos. 

40 anos passados o que resta dos assuntos desta carta que ainda hoje seja válido como tema de discussão? É ler...clicando na imagem com o botão do lado direito do rato e abrindo uma nova janela no computador e a partir daí aumentar a imagem.


sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Os "pretinhos salazaristas" e a burguesia de esquerda

"Há uma burguesia de esquerda e uma burguesia de direita. Não há povo de esquerda ou povo de direita, há apenas um povo"- Georges Bernanos, escritor ( 1888-1948).


Na sequência do vómito escrito aqui, lembrei-me que houve no Portugal de há 45 anos, alguns pretinhos salazaristas que não tinham vergonha de o ser porque se julgavam portugueses. 
São estes mostrados pela revista Observador no ano de 1971 .


Eram pretinhos que davam o corpo ao manifesto, combatiam na sua terra contra o comunismo travestido de "Libertação" e morriam tal como os branquinhos que por lá andavam também na sua terra desde o séc. XVI e que depois deixou de ser por obra e graça de alguns próceres da esquerda burguesa que temos em barda e que se recusava a ir para lá defender a terra, preferindo desertar ou fazer guerra psicológica contra os seus, traindo a terra que os viu nascer por preferirem outros povos e outras pátrias, onde se prometia que os amanhãs iriam cantar.

Os pretinhos salazaristas de então e que morriam por lá tinham a mesma distinção de figurar nas placas comemorativas que os branquinhos que também por lá ficavam.






 Para esquecerem a traição profunda à sua Pátria, os tais burgueses de esquerda, sempre instalados na retaguarda da boa vidinha,  inventaram uma palavra e com ela resolvem tudo: chamam fascista a quem lhes diz isto na cara. Ou salazarista.

Como esta palerma que vê um argueiro num olho alheio e não repara na trave que lhe sopesa o bestunto.

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

"Salazarista", disse ele...

Alertado por este postal fui ver o que se passava a propósito de uma crónica no Observador, sobre a pobreza.
O autor, Gabriel Mithá Ribeiro, não segue a linha arrimada do politicamente correcto generalizado e policiada pela esquerda tipo syriza. Logo, é alvo a abater mediaticamente.

E já chovem as bombinhas malcheirosas sobre a vítima. Uma delas, de pivete assegurado foi lançada aqui. 

O autor do escrito fedorento chama ao referido Mithá,  "pretinho salazarista"...  o que só revela onde é que estes democacas se situam.

A lata do advogado Araújo...


O advogado Araújo dispõe hoje no i de uma tirada de senso comum à sua maneira: afirma que algumas notícias que têm saído no Correio da Manhã são...pagas.

"Tenho informação vária de que estas fugas de informação são negociadas por quem as dá. Este sistema de monopólio de informação é comercialmente vantajoso para um jornal e presumo, por isso, que há aqui muita corrupção envolvida". (...) "Claro, suponho que há pagamentos. Ninguém faz fretes a ninguém se não for por dinheiro, dinheirinho."

João Araújo, tal como os peixinhos do mar, vai morrendo pelas bocas. Se aplicasse o mesmo critério de raciocínio ao que já se sabe sobre o recluso 44 que lhe passou procuração, há muito que devia ter devolvido tal instrumento de representação. Isso se tivesse um pingo de vergonha, porque neste caso o dinheiro conta-se aos milhões. Muitos milhões.
Ou então fazer como os advogados dos culpados: tentar reduzir a pena ao mínimo...não fazendo dos outros parvos.

Salazarismo platónico

O Professor Soares Martinez, jubilado da Faculdade de Direito de Lisboa voltou a escrever no Diabo e desta vez citou Platão, discípulo de Sócrates.

O que menciona do filósofo permite entender que na Antiguidade Clássica era importante ter como governantes pessoas que fossem ricas em valores e virtudes e pobres de ambição pessoal ou patrimonial. O contrário significará a perda de "toda a cidade no seu conjunto".
Por outro lado, os bons juizes são aqueles que têm experiência, prudência e inteligência" e sempre com idade suficiente para tal.
E por fim, deve preservar-se sempre a imagem do bom carácter nas obras de arte e afins e se necessário proibir as "flores do mal".

Estas ideias simples foram a filosofia do salazarismo, de algum modo. Porém, para as executar e estabelecer como ideologia dominante, foi preciso instaurar um regime de repressão a certas liberdades e censura permanente a manifestações do "feio".

O problema, nestes casos, é definir o que é feio e impôr o gosto aos demais.
Quando o filósofo pergunta em modo retórico se não se devem vigiar os artistas e " impedi-los de introduzirem o vício , a incontinência, a indignidade e a fealdada na representação dos seres vivos", em nome de um padrão de beleza que pode ser apenas subjectivo está lançada a semente de um regime com a liberdade vigiada.
O salazarismo foi isso: um regime que vigiou a liberdade de fazer de outro modo em nome de um bem comum que até determinada altura era mesmo comum mas com o tempo deixou de o ser em absoluto e passou a ser apenas relativo. A Igreja católica teve imensa influência nesse gosto e o povo de há cinquenta anos ainda estava muito influenciado por esses valores e princípios que se reflectiam nos costumes.

O salazarismo mesmo com esse defeito de origem- o de cercear a liberdade em nome do bem comum- tinha virtualidades que mereciam ser estudadas e aproveitadas, por uma razão simples: no final de contas o que a democracia burguesa trouxe ao país foi a liberdade de se apresentar a fealdade de outros tempos transformando-a em beleza artificial e invertendo de algum modo os valores.  Ou seja, de certa forma é uma tirania na mesma porque agora se diaboliza exactamente o que era então entendido como belo e apreciável. E ao diabolizar-se a figura representativa desse período,  deitou-se fora o menino das boas ideias com a água suja da repressão gratuita.

Como se desfaz este nó górdio da actual democracia? Com a reposição da figura de Salazar que continua maldita e o estudo do que disse e fez.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Perguntas a Maria José Morgado do DIAP de Lisboa

Maria José Morgado, magistrada do MºPº que dirige o DIAP de Lisboa há muitos anos, está a ser entrevistada na RTPi.

Acabei de ouvir o seguinte:

"Há magistrados corajosos. É preciso coragem, é preciso não recuar perante o inimigo invisível e poderoso porque quem está do outro lado tem poder...(...) ninguém se quer intimidar, isso seria um delito, alguém deixar de tomar uma decisão, ou tomar ou deixar de tomar por causa da qualidade poderosa de quem estará porventura do outro lado. Quem algum dia fizesse isso mas valia deixar a magistratura no dia seguinte."

Ora bem. Pode ser que a magistrada Morgado leia  isto que escrevo ou alguém lhe poderá fazer chegar o recado que é este e espero que me responda cabalmente por causa do que acabou de dizer.

No processo em que se investigou a fuga de segredo de justiça, relativa ao caso Face Oculta, ocorrida na véspera do S.João de 2009, um dos suspeitos evidentes era o antigo PGR Pinto Monteiro. Não é preciso tergiversar para dizer que não e coisa e tal. Era. O processo esteve em Coimbra no DIAP e passou para Lisboa para o DIAP.
Pois bem: alguma vez o mesmo PGR foi ouvido a propósito do assunto? E se não foi porque não o foi?

São só estas perguntas concretas que gostaria de ver respondidas e faço-as de boa fé para informar quem me lê e ficar informado sobre um assunto que me preocupa e nestas ocasiões me ficam atravessadas, à míngua de explicações.
O processo agora é público, já foi arquivado mas ninguém se deu ao trabalho de ir ver como se fez a investigação.
Portanto segue outra pergunta concreta: o magistrado que teve a titularidade do processo teve ou não teve medo de investigar o antigo PGR, remetendo o assunto para o foro competente?E se teve medo devia sair da magistratura no dia seguinte?

Estas perguntas destinam-se a esclarecer este assunto que ensombra a democracia portuguesa há alguns anos a esta parte e ainda não vi cabalmente explicados.

Estas questões entroncam num assunto deveras delicado: é muito interessante e até empolgante ouvir aquelas tiradas grandiloquentes sobre a coragem, mas na prática, um magistrado, principalmente do escalão superior da magistratura do MºPº, como sejam os procuradores gerais-adjuntos, terão mesmo esse lastro de coragem garantida pela instituição? Acho simplesmente que não. Pura e simplesmente não.

Esses magistrados não se atrevem a investigar quem está "acima" e lhes é superior, no meu entender. Estarei enganado?

Bem gostaria de estar.

Aditamento:

MJM acabou de dizer que "pasmo com o saber penal de certos comentadores".  Não disse de quem se tratava mas digo eu porque já o disse aqui: Marcelo Rebelo de Sousa. 

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso