domingo, dezembro 16, 2012

A pobreza de espírito integral



 Numa das caixas de comentários abaixo, um comentário assinado por Mirza, diz assim para me vituperar:

Há tempos um amigo disse-me para espreitar a portadaloja, que era um caso de escola:
"Tens lá tudo: extrema-direita de província saudosista (nota pessoal: nada contra), catolicismo integralista, magistratura "justiceira" com uma agenda política, cheia de auto-justificações para os excessos, que acha que as regras são para os outros, tudo coisas de fazer lamber os beiços ao Le Pen. E, cereja em cima do bolo, tens o equivalente ao Aguiadois do Expresso, um tal Floribundus que, mal é publicado um post, se precipita a debitar umas raivas."
Pois tenho vindo a observar, a comentar, a apreciar, e sobretudo a confirmar a justeza das apreciações. A descrição é exacta, e é dispensável continuar.

Adoro este tipo de desafios não solicitados mas encomendados pelos preconceitos de quem escreve. 
Descortiquemos:
Em primeiro lugar o que será isso de “extrema-direita de província saudosista” ? Indefinível, inenarrável a um espectador comprometido seja com que ideologia for, passa tal afirmação pela habitual reguada ideológica de uma esquerda sem sentido de orientação e que se define em oposição a fantasmas de um passado que nunca entenderam.
O que é a extrema-direita, no caso concreto que me assiste? Algo assimilável a um Maurras, a um Brasillach ou a um Primo de Rivera? Nem tanto. A Esquerda bem –pensante e dominante não precisa de armas tão pesadas para abater quem não lhe apara o jogo ideológico com cartas marcadas há dezenas de anos, em Portugal.
Basta-lhe tão só apelidar alguém de “fassista” para lograr todos os objectivos incluídos.  Até há alguns anos apelidar alguém de “direita”, mesmo a torto e a direito, tinha o mesmíssimo efeito deletério e dissolvente.  Agora carece de outro qualificativo mais contundente: “extrema”, já serve, se hifenizado a “direita”.
Assim, alguém que recorde o passado não muito distante mas acantonado à “longa noite fascista” e à ditadura e ainda à repressão e também ao analfabetismo e à pobreza e à emigração e à mortalidade infantil elevada é muito naturalmente um indivíduo de “extrema-direita”. Nada mais lhe assenta senão essa fatiota de recorte neo-realista. 
Se ainda por cima tal perigoso extremista se afadiga a tentar demonstrar a singeleza  anacrónica de uma esquerda enquistada em paradigmas fossilizados e protegidos pelo ar do tempo mediático, leva em cima do qualificativo outro ainda mais soturno: “ de província” e redundado de saudosismo. 
O saudosismo de valores vindos do tempo do tal “fascismo” com algumas décadas e já obliterado na memória colectiva, sobrepõe-se como  ideologicamente indigno do  outro saudosismo em que vicejam  e refocilam, vindo das calendas do séc. XIX em que as massas se oporiam à burguesia para vencerem a batalha da luta de classes, em cujo campo abandonado ainda se revêem.
É por mor da antiguidade que o posto do saudosismo esquerdistas tem preponderância sobre os demais, que por isso mesmo são relegados para  o sítio odioso da “província”, lugar de ancestral atraso na evolução ideológica e sítio de atavismos garantidos. 
Depois dessa primeira abordagem epistemológica surge uma outra típica do raciocínio integralmente  jacobino  em corolário de uma esquerda desorientada no tempo e no espaço: “catolicismo integralista”. Defender Bento XVI  com maior simpatia do que João Paulo II, por exemplo, é sinal inequívoco de seguidismo a LeFebvre e em sequência semântica e territorial , a Le Pen. Não há volta a dar: catolicismo integralista é LePen no bolso ideológico, como consequência religiosa inevitável da defesa da missa em latim, paradigma dos integristas  e só falta dar o passo seguinte que por distracção ficou olvidado: fundamentalismo.
Temperados estes ingredientes- extrema-direita integrista, provinciana e saudosista- resta cozinhar a receita caricatural: “magistratura justiceira com uma agenda política”.  “Cheia de justificações para os excessos” .
Esta cereja no bolo aziumado carece de maior atenção porque não tipifica apenas ideologia esquerdista requentada e de laxismo assegurado.
Os esquerdistas acicatados costumam ser, aliás, os principais agentes do desprezo da legalidade sempre que ficam em causa os seus interesses e conveniências. Como se sabe há muito, “ estão a cagar-se” para essas coisas, tipo segredo de justiça, se esta lhes chega ao rabo, por vezes literalmente.
Portanto, o que esta descarga aleivosa pretende dizer não é sério. “magistratura justiceira” não conheço a não ser em países como a Itália em que um punhado de magistrados de fibra e até de esquerda puseram fim a um regime de corrupção com décadas de moratória. 
É  essa pulsão que apelidam de justiceira que esta esquerda fingida pretende capar a todo o custo.  Qualquer veleidade investigatória, dentro da maior legalidade processual, se for contrária aos interesses dessa camarilha específica leva logo troco mediático. Ou porque  é “justiceira”; ou porque é persecutória e dá curso a cabalas  ou porque não respeita princípios tão sagrados quando o segredo de justiça em assuntos de interesse público gritante mas que deveriam ficar sempre escondidos dos eleitores, para que estes nunca viessem a saber o que andam a tramar nas suas costas.
Na ausência de um desses motivos de arremesso específico, o outro toma o seu lugar mediático com uma importância e valor elevados à enésima potência da deslegitimação do poder judicial.  Na falta de todos, entra em vigor o princípio geral do “justicialismo”, das “auto-justificações dos excessos” , dos “princípios que são para os outros”, etc etc.
Tudo isso comporta porém uma excepção: se os visados foram os adversários políticos, aí, já nenhum destes epítetos toma lugar de relevo mediático. Aí, os assuntos passam a ser todos “casos de polícia”, com a polícia a poder fazer o que muito bem entender porque tal se justificará plenamente.
Já chamei a esta gente “farsante”. Acrescento mais um qualificativo: pobres de espírito.

sábado, dezembro 15, 2012

A Esquerda que nos domina ideologicamente

Entrevista de Jaime Nogueira Pinto ao jornal i de hoje.  JNP é um dos poucos que fala sobre o nosso passado histórico, anterior a 25 de Abril de 1974 de um ponto de vista crítico da visão que a Esquerda nos deu ao longo de décadas.
Na entrevista, aliás, repete uma ideia que tenho procurado passar por aqui, no que escrevo: "no fim do Estado Novo a batalha cultural já estava ganha pela esquerda, toda esta gente já era resistente há muito tempo, parecia que tinha o poder."

 Imagem da revista Cinéfilo de 6.4.1974

Exactamente. Imediatamente antes de 25 de Abril de 1974 houve um concerto no Coliseu que juntou alguns  lídimos esquerdistas da canção popular portuguesa, os então chamados "baladeiros", como Manuel Freire e os comunistas encartados já nessa altura, misturados com os syrizas avant la lettre, como um José Afonso e Fausto. Só faltou um outro, José Mário Branco , fugido em Paris e mais outro, Sérgio Godinho, mas mesma situação. Meses depois cantavam já o poder popular...

Quase já em cima de 25 de Abril de 1974 a Esquerda já dominava efectivamente o palco das ideias gerais. O que se passou a seguir, nos meses e anos que vieram, foi apenas a consolidação da ideologia difusa da igualdade, da luta política ideologicamente marcada pela Esquerda, com a aceitação geral de ideia de democracia que admite uma extrema-esquerda totalitária e simultaneamente a rejeição figadal de uma extrema-direita, diabolizada e proscrita.
Esse fenómeno é o exemplo mais relevante dessa ideia particular de democracia que hoje subsiste e é exclusivamente uma contribuição da Esquerda, tal como o foi a promessa constitucional que vigorou durante mais de dez anos de que éramos um país a caminho de uma sociedade sem classes.
A Esquerda conseguiu de tal modo dominar o discurso vigente que passamos a designar como "colónias" o que dantes era apenas conhecido como "províncias ultramarinas" e "guerra colonial" o que era apresentado naturalmente, na única tv, como "guerra do ultramar". Foram essas algumas das expressões que conseguiram permanecer incólumes até ao 25 de Abril, porém logo mudadas no dia seguinte, por influência dessa mesma Esquerda vencedora.
 Não obstante, em Janeiro de 1974 as pessoas em geral sabiam bem o que havia para saber e já desconfiavam abertamente que o que a imprensa e media em geral lhes dizia sobre a situação interna em Portugal devia ser visto, ouvido  e lido com reservas. Os portugueses não são estúpidos mas foram terrivelmente ingénuos com as ideias de Esquerda que nos desgraçaram durante as últimas décadas e com promessas firmes de continuarem na mesma senda.


A entrevista de JNP dá conta disse e de muito mais e vale a pena ler.


Nacionalista convicto, Jaime Nogueira Pinto aparece preocupado com os destinos do país. A perda de soberania começou a incomodá-lo logo em 75, com o fim do império, mas hoje em dia continua a sofrer com a “desnacionalização política e até empresarial”. Professor, investigador, escritor, advogado de formação e empresário com negócios em África, Jaime Nogueira Pinto recebe o i no seu escritório na Baixa de Lisboa, sobretudo para falar do seu novo livro, “Novembro”. O primeiro romance do escritor que nem assim consegue fugir à análise da história. O mês é o de 75, que Nogueira Pinto acredita ter sido decisivo até para o Portugal que hoje conhecemos. “Desapareceram dois projectos em menos de duas semanas”, diz. O seu cunho pessoal corre o livro através dos protagonistas.
Esta sua primeira ficção acaba por ser uma autobiografia romanceada?
Também não é bem assim. Quer dizer, num certo sentido... Nos primeiros escritos não há ninguém que não meta um bocado de si na ficção, como é normal. É a nossa experiência do mundo, directa ou indirecta, mas depois usamos os mecanismos dos personagens. Mas há ali situações históricas, familiares e até psicológicas que são próximas ou paralelas. Mas isso é a massa de que se faz a ficção.
Mas aquela decepção com o fim do império era a sua.
Há uma parte histórica que é geracional. É mais do que eu, é a minha geração política e intelectual. Todo aquele grupo dos miúdos do bunker é uma repetição de grupos que existiam em Coimbra, Lisboa e Porto. É o outro lado da medalha, com que muitas pessoas ficaram surpreendidas porque não sabiam que existia, e passaram por eles milhares de pessoas entre os anos 60 e 74. Aquilo que chamávamos “nacionalismo revolucionário” e que outros, ou os próprios, chamavam “fascismo” ou “neofascismo”. Mas era relativamente pouco conhecido, porque é uma metade da história que não foi contada.
Por que razão não se ouviu tanto a versão do outro lado da luta?
Porque perdeu. Durante algum tempo fica a cozer a derrota, a lamber as feridas. Mas, mais do que isso, depois psicologicamente há um sentido de culpa nos vencidos que é muito curioso. Os vencedores transmitem aos vencidos esse sentimento. A linguagem para tratar determinadas coisas. Por exemplo, há três forma de dizer guerra de África: guerra do Ultramar, colonial ou guerra de África. Há amigos meus, dessa geração, que dizem guerra colonial e depois corrigem... são vencidos... E em Portugal ainda mais.
Porquê?
Pelo facto de o poder ter ciclos de longa duração (a Primeira República durou 16 anos, o Estado Novo 48 e este vai em 38). Por exemplo, no fim do Estado Novo a batalha cultural já estava ganha pela esquerda, toda esta gente já era resistente há muito tempo, parecia que tinha o poder. Bom, mas não sei. Podia ter havido mais gente a escrever, mas não. Olhe, escrevi eu, paciência.
De certa maneira até nesse lado houve ali a assunção de que alguma coisa tinha de mudar?
Havia. No livro, o Henrique é uma espécie de pós-consciência e tem a noção disso. Diz uma coisa que eu sempre achei: que o regime tal como estava funcionava com Salazar e não podia funcionar com mais ninguém, tinha instituições mas eram personalizadas.
No final, outro personagem, o Eduardo, diz que perderam a todos.
De facto perdemos, se fizermos um rapport à actualidade...
Mas um dos lados ganhou claramente e impôs uma ideologia.
Houve uns que ganharam e tomaram conta disto estes anos todos, são os antifascistas. A cultura política portuguesa vive muito do anti. A força da Primeira República era serem contra uma coisa que as pessoas também já achavam fragilizada (sobretudo perante a questão dos ingleses e o Ultimato). Os republicanos dominam, de facto, e o Afonso Costa faz uma lei eleitoral à medida, tirou o voto aos analfabetos e as cidades dominaram o resto. Depois fizeram tantas ou tão poucas que veio o 28 de Maio. E depois veio o Salazar, que era bastante popular no princípio.
Como?
É uma coisa curiosa que vale a pena lembrar nesta altura por causa das medidas financeiras. Salazar a governar em ditadura apoiado pelo exército explicava tudo o que estava a fazer.
Isso hoje não acontece?
Hoje não vejo explicar muito. Quer dizer... ele explicava tudo e dava contas para que serve, ao que se deve, ao que está, ao que vai custar. É uma coisa interessante.
Mas nessa altura a informação era escassa. Agora essa prestação de contas continua a impor-se da mesma forma?
Claro que sim. Portugal é uma nação muito antiga. Às vezes parece um melting pot de gente primitiva, mas não. É uma nação muito antiga, em que as pessoas têm consciência da razoabilidade das coisas conhecidas a tempo e horas. Se lhes forem explicadas as razões, as pessoas reagem de outra forma, em vez de serem tratadas como uma espécie de spoiled children, em que as coisas sérias não lhe são ditas.
Informadas ou não, o que é certo é que há uma reacção de pessoas na rua.
As pessoas estão revoltadas e com uma certa razão, porque foi tudo feito num clima em que lhes foi prometido que era sempre tudo melhor. O problema do descontentamento é o gap entre as expectativas e as realidades. Se não fosse assim, as sociedades tradicionais tinham-se revoltado muito mais cedo. Os que faziam pirâmides para os faraós não eram tão estúpidos como isso, mas não tinham mais expectativa que aquilo.
Mas hoje a expectativa é simplesmente negativa. Só mais austeridade.
Mas eles não tinham nenhuma. A revolta surge quando as pessoas ganham consciência de uma situação real ou imaginária de injustiça ou iniquidade. Mas depois tem de haver um grupo político, se não a indignação não serve para nada. E há outra coisa: as pessoas estão revoltadas, mas depois vão para que lado? Para o PS outra vez? Ou para o Bloco de Esquerda?
Mas tem de continuar a ser pela via dos partidos?
Em democracia pode ser através de quê? Os movimentos cívicos são modelos de rebeldia. São os rebeldes. Estão autonomizados da revolução, que tinha uma consciência alternativa, um comando político e uma ideia de sociedade futura. Os rebeldes revoltam-se contra o que está. Não têm plano alternativo. E também já temos consciência histórica disto: tiramos estes de lá para quê? Para pôr o Seguro? Ou pôr movimentos inspirados por figuras da República já na reforma? É essa perplexidade que as nossas sociedades vivem.
Há um bloqueio então?
A indignação leva a algum lado, mas também ninguém quer a indignação dos tipos que queimam caixotes do lixo... Há uma retórica anti-sistema que hoje é um bocadinho patética porque não é nova. Já vimos os 68 todos, os surrealistas todos. Há, de facto, um bloqueio. Mas há um problema mais vasto, de profunda decadência da Europa. Portugal tem a dupla: a decadência da Europa e a sua própria decadência. Mas a mensagem oficial nunca foi essa, nem aqui nem na Europa.
Mas já assistiu a algum bloqueio assim na história?
Nós em Portugal temos sempre uma coisa que é a síndrome de ter tido uma história de muito protagonismo e termos deixado de ter. Andámos sempre às voltas a tentar saber porque é que foi assim. Tivemos dificuldade em recuperar e depois falamos sempre das coisas piores. A única descolonização que fizemos sem pressão foi a do Brasil, e correu bem. Portanto tudo isso é um bocado traumático. A história actual também traumatizou muito. O facto de termos tido um regime autoritário fora de época também deu à esquerda uma ideia de permanente vitimização que também lhe dava legitimidade para dominar cultural e ideologicamente. É isso que as personagens do “Novembro” rejeitam, não queriam aceitar essa legitimidade.
Esse mês em 75 foi decisivo para a história actual?
Foi. Embora aquilo [refere-se ao livro “Novembro”] seja um romance e o que interessa são os destinos das pessoas, mas essas pessoas interiorizaram o fim do império, como na esquerda se interiorizou o fim da revolução. Em pouco mais de duas semanas desapareceram dois projectos diferentes mas alternativos ao que está, e isso foi importante.
A história devia ter sido outra?
Sei lá... What if? E se Napoleão tivesse morrido cedo? E se não houvesse revolução bolchevique, como seria a história do século xx? E se Hitler em 1923, em Munique, tivesse levado um tiro na cabeça?
Mas em 75 foi muito radical e disse logo “Portugal acabou”...
Pois disse. Um certo Portugal acabou naquele dia e eu estava convicto disso. Hoje há outro que é o que está aqui.
Melhor?
Não! Isso não é. É outro.
Ainda sofre com a perda de soberania nacional?
Não. Se sofresse era um doente crónico. As pessoas que mais sofreram com o fim do império foram as que voltaram lá de outra maneira e com respeito e consequência. É evidente que foi uma grande perda, mas todos os povos europeus passaram por isso.
Era inevitável?
A esta distância racionalizamos sempre o acontecido. Quem não o faz corre um risco humana e politicamente relevante. A maneira de continuarmos a viver é dizermos que era inevitável.
Mas manter colónias era contra o correr do jogo. Já estávamos isolados.
A partir do momento em que nenhum Estado europeu tinha territórios ultramarinos, a partir do momento em que tínhamos um modelo exótico, era uma questão de tempo sermos vencidos e bastava existir uma alteração brusca da situação para tudo desaparecer como desapareceu rapidamente. Mas podia ter acontecido de outra maneira. Os partidos eram totalmente indiferentes ao que se passava lá, tirando o Partido Comunista, que queria que fosse um partido com as suas afinidades a ganhar o poder. Os militares não tinham ordens. Os antifascistas tiveram responsabilidades humanas pelo que se passou. Tinham a mania que era uma coisa do Salazar. Mais tarde essa gente ficou muito contente e descobriu a lusofonia, mas na época era isso.
Eu quando lhe perguntava se ainda sofre com a perda de soberania era a pensar nos dias de hoje e no tal directório europeu.
Ai isso sofro! Isso é uma causa como a do 1.o de Dezembro. Mas nós não vamos perder porque nada disso se vai fazer, não vai haver qualquer espécie de entendimento na Europa.
Porque tem essa convicção?
A indiferença perante a soberania política aparece muito do lado da Alemanha. O único país que tem escolha entre uma Europa federal e uma Europa desfeita é a Alemanha. Os estados que têm formação histórica de estado nacional não querem perder soberania. Para os que não têm essa forma, como a Bélgica ou até Espanha, a questão da soberania não se põe nesse termos. Nas classes políticas dominantes há uma preponderância dos federalistas e europeístas, mas muito maior que nas populações. A soberania e a independência nacional são a coisa mais importante que há.
Mas está garantida, tendo em conta a oposição das populações?
Não, está dificílima. Há uma desnacionalização enorme das classes políticas e também das empresariais. Por exemplo, a forma leviana e tonta como se acabou com o 1.o de Dezembro como feriado, um dia fundacional, que acabou na página de um decreto sobre legislação do trabalho, não lembra a ninguém. Dá um sinal de grande inconsciência política e é assustador.
Mas até aí seguimos uma directriz externa...
Mas podiam ter escolhido outro e, dos feriados civis, o último a acabar era este. Sem o 1.o de Dezembro não havia nenhum dos outros, é uma questão de lógica aristotélica.
E com esta carteira de privatizações, algumas já em curso, também se põe em risco a soberania?
Claro. Aqui fez-se uma destruição sistemática de tudo. Esta gente... poder ou oposição, evoca o factor nacional quando lhe dá jeito, mas depois não tem noção do que é a perda de poder. Na esquerda houve a ideia de que para ser nacional tinha de ser público, e com isso fez se aquele equívoco nas nacionalizações de 75. Foi pura estratégia revolucionária dos partidos comunistas que os outros partidos seguiriam. São os tais azares históricos, começámos a trazer para aqui um regime do tipo soviético, ou a tentativa dele, dez anos antes de Gorbachov começar a desmantelar o comunismo na União Soviética. Agora é evidente que com esse modelo espoliámos as classes nacionais e o país descapitalizou. Já num modelo económico capitalista, não gostámos dos nossos capitalistas, que melhor ou pior eram portugueses, e fomos entregar tudo a capital anónimo.
Anónimo como?
É internacional, são directórios. Somos nós os colonizados.
Há aqui uma fina ironia. A palavra “colonizado” quando um dos principais investidores é uma ex-colónia.
Apesar de tudo talvez esse seja aquele capital que é menos estrangeiro, porque em alguma coisa histórica tem a ver connosco. Mas, por exemplo, os asiáticos já são anónimos. Os próprios grandes conglomerados financeiros já são eles próprios anónimos. Há o problema da inveja, que é muito complicado. Destruímos a classe empresarial para irmos parar às mãos de outras que não sabemos bem quem são nem de onde vêm.
Também se junta às vozes preocupadas com a entrada de capital angolano no país?
Não vi, até agora, que esse investimento tenha tido consequências danosas ou se tenha metido na direcção do país mais ou menos do que quaisquer outras criaturas.
Mas a experiência não está feita: de repente ex-colónias a “sustentarem” os antigos colonizadores. Prevê as consequências disso?
A percentagem do investimento angolana na economia portuguesa é de 4% ou 5% e sobretudo não vejo que haja um comando, não vejo que seja parte de um master plan. Até agora não vi que houvesse uma direcção estratégica no sentido de dominar a política portuguesa.
Na privatização da RTP, por exemplo, trata-se de mover influências?
Não sei, nem sei como vai ser. Mas há uma coisa que hoje se sabe: um órgão de comunicação que seja telecomandado não serve para nada, não serve para esses interesses, só serve enquanto é oculto. Um meio de comunicação que seja essencialmente visto como um instrumento para uma coisa deixa de se valer para essa coisa.
Parece uma perspectiva optimista da comunicação social.
É esquisita vinda de mim, não é? Bom, mas agora a questão é se o resto serve para muito. É a outra parte da frase.
É um motivo de preocupação em Portugal, a liberdade de imprensa?
Não vejo. Acho mais importante a perda progressiva da maior parte dos centros de decisão e acho horrível a indiferença com que se vê isso acontecer. Acho que há uma profunda desnacionalização das pessoas e das consciências. Isto foi tudo feito em nome da economia e as pessoas ainda não viram sequer que, mesmo do ponto de vista económico, se perderem a identidade e a independência nacional vão ser uma espécie de trabalhadores por conta de outrem, de escravos, e não sabem de quem. E fizeram isto tudo alegremente em nome da liberdade, da democracia e da igualdade, sem perceberem que o país vai estar cada vez mais dependente e vai ser cada vez menos importante. Nos anos 60 podia ser mal visto, mas era um país importante.
O nacionalismo morreu? Se há essa carência porque não aparece?
Apesar de tudo, o regime com essas pessoas que se identificavam acabou há menos tempo do que no resto da Europa e houve uma demonização tremenda destes grupos. E as pessoas que o podiam ter feito não fizeram, fizeram outras coisa.
O quê?
Escreveram livros sobre isso [risos].
Mas não há quem os substitua?
Não sei.
É descrente em relação à nova geração?
Não. Há gente nova que estuda, tem cabeça e consciência nacional: não tenho nada essa ideia apocalíptica.
Mas onde estão? Nos partidos?
Não, isso não. A escrever nos jornais, na comunicação social.
Mas se é dos partidos que tem de partir a mudança...
Pois, mas têm de ser eles a fazê-lo porque ninguém se salva por procuração. Por acaso no cristianismo é o contrário, nós salvamo-nos pelos méritos de Cristo. Mas politicamente ninguém se salva por procuração. As gerações têm de tratar delas mesmas.
Mas há falta de cultura política?
A nossa geração, e mesmo à esquerda, tinha cultura política, e hoje não. Mas isso não sei se é culpa das “Casas dos Segredos” ou da televisão. Naturalmente é dos liceus, que deixaram de os pôr a ler. Mas há gente nova que pensa e debate, talvez a política não lhes interesse tanto como nos interessava a nós, mas também a política já não é assim tão importante. Há uma frase que é uma treta que é “nas democracias há sempre soluções”, mas é um bocadinho verdade, ela passa para o colectivo a responsabilidade das coisas.
Estamos em fim de ciclo?
É capaz. Aliás, eu diria mesmo que Deus queira que seja. Se não acaba o ciclo, acaba o país.
E o que vem a seguir?
Não sei.
Em Novembro de 75 sabia.
Intuíamos.
Mas agora nem isso. Não é preocupante?
Sim, mas agora também temos esta ideia da paz, a paz perpétua. No caso português... bom, os brandos costumes foram uma expressão de Salazar, antes Portugal era muito violento. A grande violência do pós-25 de Abril foi passada para o espaço colonial. Mas hoje temos muita violência social, basta ler com atenção os jornais mais populares. A violência privada em Portugal é muito forte. A ideia de que o português é pacífico e ordeiro não é tanto assim.
Mas pode surgir na rua?
Não, porque a violência política tem de ser organizada e não há nenhum grupo neste momento. Os grupos esquerdistas têm uma linguagem muito incendiária. O país também perdeu a independência de ter soluções próprias até nesse sentido. Essas soluções de ruptura, para os pequenos países, estão cortadas.
Vai cair outra vez no radicalismo de dizer que o país acabou?
Não... mas eu hoje já sei que os países não acabam assim tão facilmente. E o tempo dá outra perspectiva das coisas e talvez tire alguma radicalidade, que também era boa... mas agora deixei-a para os livros.

Os rabejadores

Daniel Oliveira, o bloquista sem rumo definido e que debita inanidades num programa pretensamente humorístico que passa na SIC, conjuntamente com um par de inanes e uma single inanalisável, escreveu hoje no Expresso uma crónica que um comentador/a resolveu deixar na respectiva caixa abaixo publicada para demonstrar o indemonstrável.
Diz assim, a crónica:

As buscas à residência e escritório de Medina Carreira, por o seu nome ter sido usado por suspeitos para ocultar a verdadeira identidade de outros envolvidos no branqueamento de capitais e fuga aos impostos, no caso Monte Branco, pode ter resultado de um engano. Um engano grave pelo qual os investigadores devem responder. Mas a capa do "Sol" não foi engano nenhum. A rapidez com que qualquer busca ou escuta que envolva figuras públicas acaba nos jornais já não é defeito da Polícia Judiciária e do Ministério Público. É feitio.
Depois do caso de Medina Carreira, foi o de Teixeira dos Santos Almerindo Marques e o ex-secretário de Estado Costa Pina. As buscas às suas residências e escritórios também acabaram, ao fim de poucas horas, nos jornais e televisões. Em causa está uma investigação às Parecerias Público-Privado. E se no caso de Medina Carreira foi fácil provar imediatamente a sua inocência, o mesmo não acontece com estes três. A divulgação destas buscas transformou-os, aos olhos da opinião pública, em condenados políticos sem direito a defesa.
Nunca escondi as minhas profundas discordâncias com Medina Carreira, que considero ter sido, como comentador, um dos principais advogados de defesa da austeridade, antes dela chegar - parece que entretanto mudou de opinião - e um populista de todos os costados. E considero que Teixeira dos Santos foi, dentro do governo anterior, o principal defensor de uma intervenção externa e o seu maior facilitador. Mas as minhas discordâncias com os dois anteriores ministros das finanças são políticas. E é no campo da política, e não em julgamentos mediáticos, que o confronto com os dois se deve fazer.
O que a justiça portuguesa fez a estas duas pessoas, que não tenho qualquer razão para suspeitar de falta de honestidade, é uma nojeira. Não são os primeiros. Não serão os últimos. De Sócrates a Passos Coelho, o poder político vive sob ameaça do Ministério Público e da PJ. Vivem eles e vivemos todos nós. Todos podemos ver a nossa vida devassada, as nossas conversas telefónicas publicadas em jornais, sem que sejamos culpados de coisa alguma.
Toda a gente que seja suspeita de ter cometido um crime deve ser investigada. Dentro da lei e com todas as garantias. Seja um cidadão comum, seja um detentor de um cargo público, seja um comentador. Mas também todos temos direito o ver o nosso nome protegido da calúnia.
O problema é sabermos que, como sempre, estas investigações não darão em nada. E não darão em nada porque não são para dar. Se fossem, não víamos escarrapachada nos jornais cada diligência judicial, cada escuta, cada busca. Se fossem, teríamos menos suspeitos e mais condenados. Se fossem, não ficávamos com a estranha sensação de que as buscas são feitas para serem noticiadas, que as escutas são efectuadas para serem publicadas. E que, por de trás de cada fuga de informação, estão sinistros jogos de poder em que as corporações da justiça se envolvem.
A cada episódio destes - e já foram tantos - cresce o temor de que a justiça, em vez de nos proteger, nos põe em perigo. Em vez de investigar a corrupção e os crimes de colarinho branco, atira lama sobre as pessoas sem nunca chegar a qualquer conclusão. Em vez de usar o seu poder para fazer justiça o usa para ajustes de contas. E uma justiça assim assusta. Não assusta os criminosos. Assusta, acima de tudo, os inocentes que tenham o azar de se cruzar no seu caminho.
Esta justiça, tão expedita na forma de investigar e sempre tão parca nos resultados finais, não serve ninguém. Só acaba por servir, na forma como descredibiliza, os que, com tanto ruído, se vão safando de pagarem pelos seus crimes.


O que este tipo de crónicas tem de mais curioso, no que é partilhado por outras de outro inane, compadre de banqueiro e que no mesmo jornal escreve, é muito simples de entender: defendem quase sempre o poder real do dinheiro, do vício, do esquema, da corrupção e afinal aliam-se àqueles que habitualmente e noutras circunstâncias juram combater, apresentando-se no entanto perante o público espectador ou leitor como paladinos de uma  justiça particular que só eles entendem.
 Tal acontece sempre que  determinados suspeitos excelentíssimos se cruzam nos caminhos de uma investigação criminal com a Justiça que procura descobrir onde estiveram e o que fizeram. Aconteceu  no caso da pedofilia, aconteceu no caso das investigações a Sócrates e sus muchachos e acontece agora. Só não acontece, incidentalmente em casos como o BPN no qual os suspeitos já estão condenados desde o início mesmo que nada se tenha apurado de concretamente criminoso. Resumem tudo, nesses casos particulares que afeiçoam, a um chavão: "é um caso de polícia", querendo com isso dizer que a polícia nesses casos poderia fazer o que bem entendesse que nunca levantariam um dedo de indignação postiça para a vituperar. 
Como não têm coragem de escrever explicitamente o seu sentido desagravo e  defesa dos suspeitos que lhes são afectos por este ou outro motivo não descortinado, rodeiam o assunto pegando pelo rabo, salvo seja.
Este rabejadores de profissão aparecem sempre no fim destas touradas judiciárias e atiram-se ao animal sitiado, segurando-o pelo pelo rabo pegajoso do segredo de justiça violado.
Como não têm mais nada a que se agarrar e as farpas cravejadas no bicho os incomodam sobremaneira é mesmo por esse lado que actuam, com preferência suspeita.

No caso concreto do inane Daniel, bastaria ao mesmo saber, ou pensar se o soubesse,  que um princípio de legalidade estrita, vigente na nossa lei penal, obriga a que ninguém possa ser investigado sem que tal se mostre processualmente justificado, mormente através de uma diligência tão literalmente invasiva como uma busca domiciliária ou uma escuta intrusiva.
As diligências de busca em casas das pessoas visadas destinam-se a um objectivo que tem de ser justificado e explicado aos próprios num papel escrito que lhes é entregue em mão e no momento. Esses papéis são distribuídos, no caso dos advogados, pelos representantes da respectiva ordem para disso tomarem conhecimento prévio.
Depois de tal diligência ocorrer, naturalmente que esses papéis distribuídos em profusão relativa ficam até em posse de advogados e outras pessoas e podem ser passados com toda a naturalidade aos ávidos repórteres que farejam este tipo de touradas, à distância. São os inteligentes das empresas mediáticas que dominam as corridas de tv para alcançar audiências maiores na luta para pagar aos tais rabejadores de profissão, como é aqui o caso.

Ou seja, nestas touradas, como nas outras em geral, se não fossem os inteligentes não havia lugar a estes rabejadores porque não haveria touro na arena.
E há outro papel legalmente ululante mas que os mesmos não alcançam porque o lugar que ocupam lhes turva a visão e só cheiram o que cheiram:  
Quando alguém com autoridade para tal faz uma busca não a realiza para apanhar incautos, suspeitos ou presumidos culpados, apenas . Fá-la também e por maioria de razão para recolher provas que podem atestar a real inocência dos ditos e que é sempre presumida ab initio, por princípio ainda que a suspeita quando é devidamente fundada, a possa suplantar.  
Se estes rabejadores soubessem que a investigação em Portugal se faz à charge e à décharge, contra e a favor do suspeito,  não davam conta do espectáculo deprimente de mostrarem que andam a cheirar sempre a mesma coisa, eventualmente a décharge religando-a à charge...
A violação de um segredo de justiça em casos mediáticos e de importância notória para o público em geral, só releva verdadeiramente se prejudicar a investigação, a qual até pode ser em benefício dos visados...
Pretender que se deve manter a todo o transe um segredo que é de polichinelo e se distribuiu já por várias fontes plausíveis de o violarem revela apenas a real faceta destes agentes: farsantes.

sexta-feira, dezembro 14, 2012

Público, um jornal de culto

A directora do Público foi entrevistada pelo Sol de hoje. Diz que em 2009, altura em que foi escolhida para a função,  não fazia jornalismo político mas "de Cultura" e a propósito de exemplos disso cita o caso de "artistas, encenadores e bailarinos", ficando assim delimitada uma área específica da tal Cultura. Será que a patroa é fã do bailado e temos um baile mandado? 
Quanto ao facto de as vendas continuarem a cair, essa é fácil de explicar: é a crise, pessoal. E com um fenómeno: caem as vendas de papel em banca mas "aumenta no digital". Aumenta o quê? As consultas ou as inscrições pagas? Não diz.
Nunca por nunca admitirá que a razão principal da tal queda acentuada e contínua de venda do jornal em banca se deve à treinadora, perdão, directora do jornal, ela própria. Portanto, o Público continuará de vitória em vitória até ao encerramento final que ocorrerá quando o patrão, melhor, a patroa  lhes cortar a colecta, por falta de fundos de maneio.
Cegueira maior não há. E daí, até há: é a mesma do Bloco de Esquerda e esta em geral. Fizeram o mal e a caramunha aí está.
A crise justifica tudo e o jornal reduz-se cada vez mais a um nicho de incipiências culturais, sem o mínimo interesse a não ser para os próprios visados que porventura nem o lêem.
Assim vai o Público e a sua directora que não se enxerga.

Aliás, sobre o Público e a sua vertente "de Cultura" já o cronista Vasco Pulido Valente se tinha pronunciado no já distante ano de 1996 no suplemente Vida do já defunto Independente. Este decesso originou uma eventual reciclagem crítica e o nosso cronista lá apareceu a cronicar no mesmíssimo Público de que aqui, em 9.8.1996, dá umas notas ácidas que a então jornalista agora directora deve ter lido...embora de pouco lhe servisse.





quinta-feira, dezembro 13, 2012

A ética é uma batata, para estes pândegos

Daqui, InVerbis:

"Ainda ontem recebi lá em casa um azeite novo, de um grande produtor. Oferecer prendas é um costume português." Eduardo Gatroga, ex-ministro das Finanças em Governos do PSD, disse ontem, no tribunal de Aveiro, desconhecer casos de quaisquer más intenções de quem oferece ou recebe presentes. Não será, pelo que sabe, essa a via para alcançar favorecimentos.
Ouvido enquanto testemunha abonatória de José Penedos, ex-presidente da REN – acusado de corrupção passiva e participação económica em negócio, por, alegadamente, ter intercedido em benefício do filho e também arguido, Paulo Penedos, à data dos factos, advogado do empresário Manuel Godinho -, Eduardo Catroga afirmou que "há que desdramatizar tudo isso de receber prendas. Quem quer corromper outro não utiliza a via da prenda natalícia. Esse tipo de acusação não tem base nenhuma", acrescentou, evitando entrar em pormenores, dizendo que "há outras vias mais sofisticadas, toda a gente as conhece".
Preferiu deixar bem vincada, sim, a sua "estranheza" pelo facto de se usar as prendas natalícias para se criar "um caso e pôr em causa uma pessoa à prova de bala", disse, citando o ex-presidente da República, Jorge Sampaio, quando da sua recente passagem pelo Tribunal de Aveiro.
Ao longo da sua carreira de quatro décadas, nas empresas, "ainda na CUF, antes do 25 de Abril", e em missões de governação, Eduardo Catroga disse que "era perfeitamente normal, sobretudo no Natal, receber e oferecer prendas", do lado de fornecedores, de alguns clientes, incluindo de bancos.
"Quanto maior o grau de responsabilidade, maior a quantidade de prendas, há uma correlação, é típico da sociedade portuguesa. Nota-se mais em anos de vacas gordas, com resultados mais saborosos", explicou o gestor, confessando que teve a sala "grande" de casa mais recheada "de montinhos" quando das passagens pelo Governo, já que as próprias empresas que tutelava enviavam presentes.
"Malcriadamente nunca agradeci, considerava normal", referiu, assumindo, no entanto, que as grandes organizações empresariais, nos últimos anos, "até pela projecção mediática de muitos casos", fazem aplicar regulamentos e comissões de ética. "Encontrei isso agora na EDP", exemplificou.

Júlio Almeida | Diário de Notícias | 13-12-2012

Eduardo Catroga, antigo ministro, acostumado a falar sem grandes papas na língua a não ser quando lhe reclamam tento na dita, foi ao tribunal prestar depoimento "abonatório". Fê-lo em relação a um indivíduo cujo filho é também arguido e foi considerado quase um atrasado mental que não sabia o que andava a fazer.
A questão central é a do tráfico de influências, da troca de jeitos e de favores e correlativa recompensa, com prejuízo efectivo para o Estado.
Eduardo Catroga jura que não é com papas, perdão, prendas que se enganam os tolos. E tem razão.
É com bolos. As prendinhas são apenas as cerejas no topo...mas isso Catroga não disse. Aliás nada disse porque não se coibiu de declarar publicamente que toda a gente sabe como se processa o tráfico de influência e a corrupção. "há outras vias mais sofisticadas, toda a gente as conhece".
Exactamente. Mais valia a Eduardo Catroga ter outra vez tento na língua. Ou falar com papas, como outros.

ADITAMENTO em 14.12.12:

Sobre Catroga, papas e bolos, será bom recordar a qualidade de testemunha qualificada para abonar Penedos e companhia. Catroga está na EDP, como presidente não executivo do Conselho Geral e de Supervisão da EDP. Não manda; faz número. Ganha 45 mil euros por mês e Marques Mendes já considerou   este salário  "mais ou menos pornográfico".

Por outro lado, Catroga, como presidente não executivo da empresa EDP,  ainda maioritariamente pública, depois das nacionalizações de 13 empresas de energia, em 1975, deve saber  coisas muito interessantes sobre as tais "vias mais sofisticadas" que toda a gente conhece. Toda a gente é um modo de dizer. Toda a gente do mundo das empresas públicas e dos que negoceiam com o Estado, entenda-se.
O jornalismo caseiro, por exemplo, não conhece. Ou faz que não conhece. Assim, Eduardo Catroga devia prestar esclarecimentos detalhados sobre tal conhecimento geral no âmbito do seu mundo empresarial, à PGR ou ao DCIAP. Explicar o que pelos vistos ainda não é conhecido publicamente, restrito a uns "happy few" por dentro das jogadas.  Pelos vistos é de conhecimento corrente mas restrito.
Catroga deveria ainda explicar publicamente se é verdade que a  empresa pública que o emprega ou alguma das suas satélites tem ou não o costume de pagar viagens em aviões dedicados a directores de órgãos de informação, jornais e tv,  para estes poderem ver ao vivo e a cores reais o Benfica, na Rússia, Barcelona, Alemanha, etc.
Só tem que dizer se sabe disso e se tal é verdade ou não. Consta que sim, mas pode ser mentira e tal precisa de esclarecimento.
Quanto aos directores dos tais jornais e tv´s...moita carrasco. Tal não é matéria informativa. Não interessa nada. Não é notícia para uma Ana Lourenço ou para um José Alberto Carvalho. Provavelmente é matéria para jornalismo desportivo, neste caso a cargo do magnífico Marcelino.

Imagine-se um jornal daqueles de "referência" tipo Expresso ou Público com um lead de primeira página de fim de semana, tão pesado quanto este, apenas imaginado:  "EDP paga deslocações em avião a directores de jornais e tv´s para verem Benfica na Rússia".
O que não seria de corropios redactoriais...e represálias consecutivas...

O sabe-tudo da SIC

O compadre do banqueiro Ricardo comenta assiduamente na SIC. Sousa Tavares neste video do Jornal da Noite da SIC ( a partir do minuto 21:52) , ontem, disse coisas sobre as buscas no âmbito do processo "buraco no asfalto", sobre as PPP´s rodoviárias.
O que disse é de arrepiar e de pensar como é que um indivíduo destes comenta numa televisão, com este requinte, dislates em rajada e sai incólume.

Disse que os investigadores no seu entender têm uma agenda política e até partidária. Disse que com estas violações de segredo de justiça a justiça perde completamente o crédito e qualquer dia não haverá "qualquer pessoa decente" que queira governar.
Atribui a violação do segredo directamente e sem mais rodeios aos investigadores, repetindo uma ignomínia recorrente e completamente infundada a não ser na imaginação opada do seu cultor e não teve pejo em insultar os mesmos investigadores por diversas vezes, não dando sequer benefício da dúvida a hipóteses mais plausíveis sobre a violação de um segredo que afinal se resume a dar conta do que se passou em diligências nas quais participaram dezenas de pessoas. Os investigadores são apenas dois e mais um ( o juiz de instrução) e Sousa Tavares lançou sobre os mesmos o manto de suspeição genérico sem qualquer rebuço de dúvida ou pudor mínimo.
Para o compadre do banqueiro os investigadores não são apenas culpados do crime de violação do segredo de justiça, mas também culpados de actuarem com uma agenda política e até partidária.
Isto foi dito assim e sem mais rodeios, ontem, na SIC.
Que se pode dizer destas bestialidades informativas? Que este indivíduo, cujo discurso jurídico parece provir de alguém sem curso de Direito,  não percebe patavina do que anda a dizer a quem o ouve na tv? É pouco, muito pouco. É preciso dizer-lhe muito mais que isso porque as aleivosias já são de tal ordem que precisa de um arrimo. O patrão não lho dará, com certeza porque este discurso o satisfaz plenamente. O compadre, esse , nem se fala. É que as PPP´s foram financiadas por alguém a quem este discurso cai que nem ginjas.

 

O mundo que mexe

Do Económico, um perfil de António Mexia, que foi administrador da casa Espírito Santo entre 1990 e 1998 ( Banco Espírito Santo Investimentos)  e gosta de dar música aos colaboradores. Boa música. Suspeito que foi quem ofereceu a Santana a célebre obra dos concertos para violino de Chopin. Recomendada com todo o carinho e atenção de quem conhece por ter andado à boleia pela Suíça.
Mexia é o retrato vivo de um país. De um certo país. Do país que está falido. Há um livro que Mexia já leu, provavelmente, e devia discutir proximamente com os colaboradores. É um livro que ainda não foi escrito em português, mas se encontra traduzido. Fogueira das Vaidades de Tom Wolfe. É um livro pop, nada pedante mas sobre o pedantismo e outros costumes.

Quando António Mexia conversa com um colaborador mais jovem, que tenha entrado na empresa há pouco tempo, não está preocupado em saber se ele tem um curso de economia ou de gestão. Também dificilmente lhe fará perguntas sobre o EBITDA ou o ‘cash flow' da empresa. Num tom descontraído, o executivo prefere perguntar-lhe qual o género de música que gosta, que livro está a ler ou quem é o pintor favorito. As viagens são outro dos assuntos preferidos de Mexia.
De repente, a conversa pode passar por Bach, Mozart, Miles Davis, Nova Iorque ou Roma. Se, por acaso, o "entrevistado" não for um especialista em música clássica ou tiver gostos diferentes, deve evitar substituir estes temas por outros mais técnicos. O melhor é manter a calma. Normalmente, António Mexia pega num CD ou num livro e oferece-lhe - e, neste caso, junta uma dedicatória.
Depois, convém ouvir o CD ou ler o livro, até porque nos pequenos-almoços regulares da empresa, em que o presidente executivo (CEO) se reúne com os quadros superiores mais jovens, arrisca-se a ser novamente questionado sobre os mesmos temas. Mexia gosta de saber se os colaboradores têm mundo.
Numa empresa como a EDP, esta é uma característica fundamental para ter êxito na carreira. A eléctrica portuguesa está presente na Europa, no continente americano, em África e na Ásia. A revista "Forbes" considerou-a uma das melhores empresas do mundo no sector da energia. Os resultados estão à vista. Ontem, na apresentação do relatório e contas, a EDP registou um lucro de 609 milhões de euros na primeira metade do ano.
O dia-a-dia do gestor
A vida de António Mexia, aos 54 anos, corre a um ritmo intenso. Todas as manhãs, o CEO leva a filha à escola, mas depois desloca-se para a empresa, onde tem pela frente um dia com 12 horas de trabalho, que termina por volta das 20h30. Em casa, ainda resolve assuntos pendentes e uma boa parte do ano é passada em viagens profissionais por Portugal e pelos países onde a EDP está presente - por exemplo, num ‘road show' de três dias, o gestor chega a visitar cinco países.
No caso dos Estados Unidos, a apresentação da empresa feita aos investidores torna-se ainda mais frenética. A EDP está presente em 12 estados americanos (de Boston a Houston). Depois, há ainda viagens para o Brasil, Espanha, França, Alemanha, Inglaterra e Itália.
Tem 1001 fotos no iPhone
Há um ‘gadget' do qual nunca se separa e que já se tornou uma ferramenta essencial de trabalho: o iPhone, o ‘smartphone' da Apple. O executivo tem 1001 imagens, dos mais variados estilos. Tanto pode tirar uma foto a um grafite como a uma barragem da EDP. "O que me leva a tirar fotografias é a força e a vida própria de cada momento. É aquilo que se impõe à nossa frente e que possa servir para comunicar algo", conta o gestor ao Económico. Quando a memória do telefone fica cheia, descarrega as fotos para o computador e, se quiser, ilustrar alguma apresentação ou palestra, passa as fotos para uma ‘pen'.

Mexia também usa o iPhone para ouvir música. Os estilos clássicos e o ‘jazz' são os preferidos para relaxar da pressão do trabalho. A eléctrica nacional passa actualmente por um momento de mudança. Na assembleia geral do próximo dia 25 de Agosto, os accionistas vão reunir-se para deliberar o fim da ‘golden share' e o aumento do limite dos direitos de voto para 20%. Com o fim dos direitos especiais do Estado, a EDP torna-se ainda mais atractiva para os investidores estrangeiros. A China Power, a Eletrobras, o grupo alemão E.On e a InterOceânico são alguns dos potenciais interessados.

Natural de Lisboa, partiu aos 17 anos para Genebra, na Suíça. Chegou sozinho, com duas malas na mão e completamente dependente de si próprio. "Não tinha muito dinheiro, havia que racionar as chamadas telefónicas que fazia para a família", disse o gestor, em 2004, numa entrevista à Fora de Série.

Depois de terminar o curso, o executivo começou a trabalhar como assistente universitário. Em 1982, regressou a Portugal para dar aulas nas universidades Nova e Católica. A actual directora da Católica Business School, Fátima Barros, foi caloira do professor António Mexia. "Gostei bastante das aulas dele, porque trouxe uma abordagem diferente do ensino. Deu-me uma nota de 17 ou 18 valores", recorda a directora.

Mais tarde, o gestor foi adjunto do secretário de Estado do Comércio Externo, Miguel Horta e Costa. "É um homem muito bem preparado e já na altura se notava o enorme potencial. Foi um grande apoio que eu tive para trazermos a Autoeuropa para Portugal", lembra Miguel Horta e Costa. Entre 1990 e 1998, Mexia foi administrador do Banco Espírito Santo de Investimentos e, em 1998, foi nomeado presidente do conselho de administração da Gás de Portugal e da Transgás.

José Maria Ricciardi, presidente executivo do BESI, salienta a forma como Mexia consegue motivar os colaboradores. "Ele é como os grandes treinadores de futebol. Tem uma enorme capacidade para trabalhar em equipa e não é como muitos gestores que querem ser ‘one man show." Ricciardi acrescenta ainda que Mexia "é amigo do seu amigo e não deixa cair as pessoas, mesmo quando elas estão na mó de baixo."

O CEO da eléctrica passou ainda pela Galp, onde foi presidente executivo e, em 2004, foi nomeado ministro das Obras Públicas. "Entre os momentos mais marcantes da carreira destaco a entrada da Autoeuropa em Portugal, a privatização da PT, a expansão da EDP Renováveis, a estratégia crescente da EDP e a aposta nas renováveis e hídricas", conta António Mexia ao Económico.

Como ‘hobbies', além da pintura e da música, o gestor também se dedica à leitura. Entre os vários títulos que está a ler destaca-se "Memórias de Adriano", um romance da autora Marguerite Yourcenar. Esta é uma boa dica para os colaboradores: a biografia do imperador Adriano pode muito bem ser um dos assuntos do próximo pequeno-almoço de trabalho com os quadros jovens da EDP.

CINCO MOMENTOS MARCANTES NO PERCURSO DE ANTÓNIO MEXIA NA CARREIRA PROFISSIONAL
1980
António Mexia licenciou-se em Economia pela Universidade de Genebra, na Suíça, sendo depois assistente na mesma faculdade. Cinco antes antes, o gestor tinha chegado a esta cidade sozinho. Sem carro, acabou por conhecer todo o país à boleia.
1986
O gestor foi nomeado adjunto do secretário de Estado do Comércio Externo, Miguel Horta e Costa. As negociações para a entrada da fábrica da Autoeuropa foi um dos momentos marcantes da carreira profissional de Mexia.
2000
Integrou a Galp Energia como vice-presidente do conselho de administração e, entre 2001 e 2004, assumiu funções de presidente executivo. Em 2004, Mexia afirmou numa entrevista que o desafio na petrolífera passava por fazer um ‘upgrade' das competências e das pessoas.
2004
Mexia foi nomeado Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações durante o Governo de Pedro Santana Lopes. O encerramento do túnel ferroviário do Rossio acabou por ser um dos temas mais polémicos durante o mandato.
2011
O resultado líquido da EDP cresceu 8% para 609 milhões de euros na primeira metade do ano. O número saiu acima das estimativas dos analistas sondados pela Reuters que previam, em média, um resultado de 577 milhões de euros entre Janeiro e Junho deste ano.


 

O Espírito Santo na Boca do Inferno

Esta imagem é da revista Sábado de 20 de Maio de 2005, sobre uma família muito conhecida e na altura em que dealbava o poder socialista de um Inenarrável primeiro-ministro e a notícia era um eventual tráfico de influências entre pessoas dessa família e membros do anterior governo de Santana Lopes, por causa de um campo de sobreiros, árvore protegida e intocável em área ecologicamente reservada.
Sabe-se agora como a história acabou. Mas não ficou assim como escreveu um compadre da família em causa, de nome Miguel e apelido Sousa Tavares.

A revista dava um panorama jornalístico ( Micael Pereira assinava o texto) da família Espírito Santo, traçando um perfil do fundador, assim, como um indivíduo que apontava todas as despesas que fazia num caderninho, para saber a quantos andava.

O dito José Maria muito poupado teve quatro filhos, um deles de uma Mary P. de Morais Sarmento Cohen e que se chamava Ricardo. Ribeiro do Espírito Santo e Silva.  Este Ricardo que faleceu em 1955 era muito amigo de Salazar e com ele convivia amiúde, como se conta no livro de Paulo Jorge Castro, Salazar e os milionários. A  história  dessa amizade conta-se  em algumas páginas que se lêem com muito proveito porque denotam uma ética esquecida nos dias que passam, pelos herdeiros. Salazar era amigo de Ricardo mas  ambos conheciam muito bem a fronteira em que a amizade pode deixar de o ser para prevalecer o instinto dos interesses mais materiais próprios de banqueiro com política misturada.Salazar como muitos lembra, era ditador, podia fazer mais coisas do que hoje aqueles que mandam. Mas fazia muito menos do que alguns que criticam o tal ditador. E muito menos favores pessoalizados em função de amizades ou até de interesses. Salazar tinha um interesse e como dizia António José Saraiva tinha a "recta intenção". É isso que o distingue dos lacaios de outros interesses que vieram a seguir e ocuparam a mesma cadeira do poder depois de 25 de Abril de 74. Enchem a boca de democracia e ficam saciados.
 Como exemplo fica a história de um legado: Ricardo quando morreu deixou em testamento um legado a Salazar, precisamente um quadro de S. Bernardino de Siena, datado do séc. XVI e pintado por Quentin Metsys que tinha no quarto. Salazar não ficou com ele: ofereceu-o ao museu do Caramulo. A história lembra inapelavelmente um certo tabuleiro de xadrez oferecido por não sei quem a não sei quantos, em anos recentes. E lembra outras ofertas, ainda mais interessantes...

Apesar destas histórias de proveito e exemplo que não é seguido, a Esquerda portuguesa mais radical nunca aceitou que em Portugal existissem famílias que se ligassem tanto ao poder político. Oligarquias, chamam-lhes. Preferiam outras oligarquias em que eles mesmos fossem eleitos pelos pares, em comités de poder central e susceptíveis de entronização laica, com sucessão dinástica da linhagem dirigente. Outra concepção política da mesma ideia de família...

Em Outubro de 2010 os patriarcas mais em voga dessas famílias politicamente situadas na Esquerda radical escreveram um livro documental em que procuraram contar a história das outras  famílias malditas que segundo os mesmos foram e são os Donos de Portugal e que execram por isso mesmo.

Vale a pena ler a meia dúzia de páginas que esse colectivo familiar da política troskista-comunista consagrou aos seus rivais que criticam por produzirem uma riqueza  que eles mesmos se revelam totalmente incapazes de realizar. Por esse facto têm-lhes uma fome de morte política que só as nacionalizações e expropriações consegue saciar, tal como aconteceu em 11 de Março de 1975 e continua a ser desiderato permanente dessa família  política que não suporta riqueza privada a não ser para a dinastia dirigente.

 Segundo aqueles que querem ser donos em vez dos donos, como o ignóbil grão-vizir queria ser califa no lugar do califa, na historieta de banda desenhada, esta família não faz falta nenhuma ao país e em 1975 escorraçaram-na. Um comic, segundo os americanos. Cómicos, estes syrizas...

Por isso mesmo, agora as tais famílias putativamente donas de Portugal,estão bem acantonadas.
Esta, a dos Espírito Santo está na Boca do Inferno. Brrrr...


E tem os seus compadres, como todas as famílias...que têm acesso ao palco mediático, como convém às boas famílias e seus filhos dilectos. Sousa Tavares, por exemplo,  tem uma herdeira casada com um dos herdeiros da família da Boca do Inferno.
O clã constituia-se e organizava-se assim, nessa altura e segundo uma revista da época ( Focus de 8.11.2006):



São finos estes Espíritos Santos.E estão outra vez na berra. Sempre estiveram, aliás.

A estatística do senso comum

 RR. Sapo:

Um em cada cinco sem-abrigo na Grécia tem um título universitário, segundo um relatório apresentado em Atenas sobre “a mudança radical” do perfil dos novos sem-abrigo.
Embora não haja estatísticas oficiais, a Grécia tem actualmente cerca de 20.000 pessoas a viver na rua, segundo Olga Theodorikaku, da organização não-governamental Klimaka, autora do relatório.
Quase dois terços (65%) são “novos sem-abrigo”, a viver na rua há dois anos ou menos.
“O perfil dos novos sem-abrigo mudou radicalmente. Antes da crise, a maioria era pessoas com problemas mentais ou de abuso de álcool e drogas”, explicou Theodorikaku.
A maioria dos novos “sem-abrigo” tinha trabalho nos sectores mais afectados pela crise: construção (24,8%), privado (22%), independentes (18%) e turismo (16%).


As casas começam a construir-se pelos alicerces, diz o senso comum. Na Grécia ( e em Portugal) o senso comum deixou de morar na casa de alguns indivíduos que mandaram na Educação nas últimas décadas. Substituiram-no pela Estatistica. E pela utopia. Os resultados estão à vista, lá como cá e os responsáveis são sempre os mesmos.
À força de quererem ser mais europeus que os europeus forçaram o ensino, mascotando cursos e cursilhos para atingir o nirvana dos doutoramentos em coisa nenhuma. Para que servem as teses de doutoramento que se empilham nas bibliotecas universitárias e que ninguém mais lê a não ser os que as fizeram? É que suspeito que nem os arguentes têm pachorra para as ler de fio a pavio...

Depois, a realidade não acompanha a ficção...mas os responsáveis são nomeados para altos cargos bem remunerados como prémio do que fizeram.

Aditamento: há uma pequena excepção nas teses de doutoramento que ninguém lê. A tese de Adelino Gomes, jornalista, realizada no âmbito do ISCTE ( blarghhh) foi agora publicada, depois de retocada e tornada mais pop. É sobre os telejornais e vale a pena ler o início.

quarta-feira, dezembro 12, 2012

A informação privilegiada na boca do inferno

O jornal i relata hoje um facto antigo: os banqueiros do BESI "terão usado informação confidencial para comprar acções da EDP e da REN a preços convidativos e daí usufruírem mais-valias substanciais aquando da venda posterior aos chineses das três gargantas e da grelha do estado.
Tal terá ocorrido em dias anteriores à decisão do governo em vender 21,35% das acções da EDP e 25% da REN às ditas três grelhas chinesas.
As operações, segundo o jornal, ocorreram através de offshores disponibilizadas pela sociedade financeira do senhor Canals e Nicolas Figueiredo, apanhados no caso Monte Branco.
Aparentemente, segundo o i, a informação acerca do facto apareceu no decurso das investigações naquele processo.
Segundo recorda o jornal, o BESI dos Rikkis ( Salgado e Ricciardi) em Junho de 2011 foi contratado, a par da Caixa BI e do Millenium Investment bank, pela Parpública para a avaliação da EDP e REN.
Essa operação serviu para o Estado ter uma ideia precisa do valor dessas empresas com capital a privatizar, o que sucedeu dois meses depois ( são rápidos, os privados, nestas coisas de milhões), portanto em Agosto de 2011.
O BESI apesar de ter avaliado as empresas também queria participar no processo da privatização, assessorando o Estado nessas manobras. O Estado decidiu que era melhor deixar tal assessoria a outrém e mandatou a Caixa BI para contratar a americana Perella Weinberg Partners. O BESI, amuado ou não, arranjou depois um meio de conseguir comprador para as acções à venda, cujo valor conhecia porque participara na avaliação. E o BESI conseguiu chegar aos chineses a modos que carecem de explicação sem informação privilegiada e prontificou-se a assessorá-los no processo. Em vez de ajudar o Estado vendedor, ficou a ajudar os compradores...como bons mercenários da finança.
Diz o i que foi nesse interim que "alguns banqueiros do BESI" se desunharam para comprar acções das empresas públicas, através das tais offshores e do tal Canals, a preços mais baixos do que sabiam que poderiam vender depois àqueles que assessoravam na compra...tudo em segredo que é sempre a alma destes negócios e esperando que tal nunca se viesse a saber. Afinal já havia antecedentes nestas andanças de informação privilegiada, sem consequências de maior para os suspeitos...e porque é que haveria de correr mal uma coisa tão simples e discreta?
Ganharam uma batelada de massa, porque o negócio dos Rikkis sempre foi esse: números. Já o fundador do empório, José Maria de seu nome e Espírito Santo e Silva de apelido, tinha orelha para a poupança e vendia lotarias espanholas, no tempo de outro José Maria, Eça de Queirós de apelido.

O problema agora é uma malfadada lei sobre os valores mobiliários que desde 2006  considera  aquela coisa de andar a soprar a amigos e sócios segredos de negócios que devem ficar reservados como...crime de abuso de informação privilegiada o qual é punido com penas principais, penas acessórias e com consequências jurídicas especiais ao nível da perda das vantagens económicas do crime, concretamente:

        É punível com pena de prisão até três anos ou com pena de multa (que pode ir de 10 dias a 360 dias de multa, nos termos do art. 47.º do Código Penal), nos casos em que a informação privilegiada chegue ao conhecimento do agente em virtude de uma das circunstâncias descritas no n.º 1 do artigo 378.º do CdVM;

        É punível com pena de prisão até dois anos ou com pena de multa até 240 dias, no caso previsto no n.º 2 do artigo 378.º do CdVM;

Portanto os  elementos deste tipo de crime são os seguintes:


- O agente ter a qualidade de titular de um órgão de administração ou de fiscalização de um emitente ou de titular de uma participação no respectivo capital;
- O agente ter informação privilegiada;
- Com base nessa informação, negociar em valores mobiliários ou outros instrumentos financeiros ou ordenar a sua subscrição, aquisição, venda ou troca;
- Agir com dolo, ou seja, com conhecimento da proibição e com vontade de usar a informação privilegiada.

Tudo isso porque  "a lei portuguesa proíbe a transmissão e o uso de informação privilegiada quer a insiders primários quer a insiders secundários, isso é, pessoas que recebem das primeiras a informação relevante.
Após a transposição das directivas sobre abuso de mercado, em 2006, deixou de se exigir que o conhecimento da informação privilegiada chegasse ao agente por via de uma fonte interna do emitente (directa ou indirectamente), bastando o seu conhecimento de que a informação de que dispõe é informação privilegiada, independentemente, portanto, da fonte de onde proveio e dos sucessivos elos que se interponham entre o detentor a informação e a sua fonte. Este é o regime actualmente previsto no n.º 2 do artigo 378.º do CdVM.
Todavia, caso a informação provenha de uma das fontes referidas no n.º 1 do mesmo artigo, a pena é maior, pelo que continua a ser relevante (para efeito da determinação da moldura penal aplicável) a identificação da fonte do conhecimento por parte do agente da informação privilegiada e que pode ser (art. 378.º, n.º 1, do CdVM)"

É evidente que as penas para tais malfeitorias são de lana caprina. Nunca chegarão à prisão efectiva e principalmente não permitem sequer  ( 187º nº 1 CPP) que os respectivos factos sejam investigados como devem ser, através de escutas telefónicas ...
Portanto, no caso, ou me engano muito ou vão aparecer os habituais defensores do vínculo, a começar pelos especialistas e pelos demais preocupados do costume.

Se estes factos ocorressem nos Estados Unidos, a preocupação seria maior, porque as penas de prisão seriam efectivas e por longos anos. Mais do que por cá por um crime de homicídio simples...embora por cá as garantias para não haver erros judiciários nestes crimes com pena de lana caprina sejam maiores do que todas as garantias dadas aos americanos para os livrarem de erros judiciários em penas de morte...

Assim como assim, os Rikkis deste rectângulo à beira-mar plantado podem vicejar na maior. No pasa nada. Nunca passa nada, por cá, porque quem fez as leis sabe bem como as fez. 
Porém, mesmo assim, à cautela, as culpas vão para os mordomos...porque nunca se sabe o que pode dar uma interpretação mais radical dos efeitos à distância ou dos conhecimentos fortuitos, tal como relata o i de hoje.
É que nem vergonha têm. O que pensará o senhor Ulrich e outros que não estão enfarinhados nesta, quando fala nos boards americanos? O que explica aos colegas? Que somos um país de quarto mundo porque até o Brasil já condena a penas de prisão efectiva os seus corruptos de topo?

Não lhes assoma a vergonha, um pouco mesmo, se a tiverem? Talvez não porque contam com um trunfo que nem lhes pertence: a anomia, o desinteresse da maioria das pessoas sobre estes assuntos "complexos". As tv´s logo, irão fazer o costume: citar o jornal, desinformar e procurar não mexer muito nesta coisa. Não fazer ondas, agora, é o melhor. Se não, lá se nos acaba o tacho...porque quem anuncia é quem nos paga.
E, claro está, denunciar vigorosa e firmemente mais esta ignominiosa violação do segredo de justiça. Segredo por segredo violado é preferível o outro...o da informação privilegiada.


Jornal i de hoje.

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso