quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A ética é uma batata, para estes pândegos

Daqui, InVerbis:

"Ainda ontem recebi lá em casa um azeite novo, de um grande produtor. Oferecer prendas é um costume português." Eduardo Gatroga, ex-ministro das Finanças em Governos do PSD, disse ontem, no tribunal de Aveiro, desconhecer casos de quaisquer más intenções de quem oferece ou recebe presentes. Não será, pelo que sabe, essa a via para alcançar favorecimentos.
Ouvido enquanto testemunha abonatória de José Penedos, ex-presidente da REN – acusado de corrupção passiva e participação económica em negócio, por, alegadamente, ter intercedido em benefício do filho e também arguido, Paulo Penedos, à data dos factos, advogado do empresário Manuel Godinho -, Eduardo Catroga afirmou que "há que desdramatizar tudo isso de receber prendas. Quem quer corromper outro não utiliza a via da prenda natalícia. Esse tipo de acusação não tem base nenhuma", acrescentou, evitando entrar em pormenores, dizendo que "há outras vias mais sofisticadas, toda a gente as conhece".
Preferiu deixar bem vincada, sim, a sua "estranheza" pelo facto de se usar as prendas natalícias para se criar "um caso e pôr em causa uma pessoa à prova de bala", disse, citando o ex-presidente da República, Jorge Sampaio, quando da sua recente passagem pelo Tribunal de Aveiro.
Ao longo da sua carreira de quatro décadas, nas empresas, "ainda na CUF, antes do 25 de Abril", e em missões de governação, Eduardo Catroga disse que "era perfeitamente normal, sobretudo no Natal, receber e oferecer prendas", do lado de fornecedores, de alguns clientes, incluindo de bancos.
"Quanto maior o grau de responsabilidade, maior a quantidade de prendas, há uma correlação, é típico da sociedade portuguesa. Nota-se mais em anos de vacas gordas, com resultados mais saborosos", explicou o gestor, confessando que teve a sala "grande" de casa mais recheada "de montinhos" quando das passagens pelo Governo, já que as próprias empresas que tutelava enviavam presentes.
"Malcriadamente nunca agradeci, considerava normal", referiu, assumindo, no entanto, que as grandes organizações empresariais, nos últimos anos, "até pela projecção mediática de muitos casos", fazem aplicar regulamentos e comissões de ética. "Encontrei isso agora na EDP", exemplificou.

Júlio Almeida | Diário de Notícias | 13-12-2012

Eduardo Catroga, antigo ministro, acostumado a falar sem grandes papas na língua a não ser quando lhe reclamam tento na dita, foi ao tribunal prestar depoimento "abonatório". Fê-lo em relação a um indivíduo cujo filho é também arguido e foi considerado quase um atrasado mental que não sabia o que andava a fazer.
A questão central é a do tráfico de influências, da troca de jeitos e de favores e correlativa recompensa, com prejuízo efectivo para o Estado.
Eduardo Catroga jura que não é com papas, perdão, prendas que se enganam os tolos. E tem razão.
É com bolos. As prendinhas são apenas as cerejas no topo...mas isso Catroga não disse. Aliás nada disse porque não se coibiu de declarar publicamente que toda a gente sabe como se processa o tráfico de influência e a corrupção. "há outras vias mais sofisticadas, toda a gente as conhece".
Exactamente. Mais valia a Eduardo Catroga ter outra vez tento na língua. Ou falar com papas, como outros.

ADITAMENTO em 14.12.12:

Sobre Catroga, papas e bolos, será bom recordar a qualidade de testemunha qualificada para abonar Penedos e companhia. Catroga está na EDP, como presidente não executivo do Conselho Geral e de Supervisão da EDP. Não manda; faz número. Ganha 45 mil euros por mês e Marques Mendes já considerou   este salário  "mais ou menos pornográfico".

Por outro lado, Catroga, como presidente não executivo da empresa EDP,  ainda maioritariamente pública, depois das nacionalizações de 13 empresas de energia, em 1975, deve saber  coisas muito interessantes sobre as tais "vias mais sofisticadas" que toda a gente conhece. Toda a gente é um modo de dizer. Toda a gente do mundo das empresas públicas e dos que negoceiam com o Estado, entenda-se.
O jornalismo caseiro, por exemplo, não conhece. Ou faz que não conhece. Assim, Eduardo Catroga devia prestar esclarecimentos detalhados sobre tal conhecimento geral no âmbito do seu mundo empresarial, à PGR ou ao DCIAP. Explicar o que pelos vistos ainda não é conhecido publicamente, restrito a uns "happy few" por dentro das jogadas.  Pelos vistos é de conhecimento corrente mas restrito.
Catroga deveria ainda explicar publicamente se é verdade que a  empresa pública que o emprega ou alguma das suas satélites tem ou não o costume de pagar viagens em aviões dedicados a directores de órgãos de informação, jornais e tv,  para estes poderem ver ao vivo e a cores reais o Benfica, na Rússia, Barcelona, Alemanha, etc.
Só tem que dizer se sabe disso e se tal é verdade ou não. Consta que sim, mas pode ser mentira e tal precisa de esclarecimento.
Quanto aos directores dos tais jornais e tv´s...moita carrasco. Tal não é matéria informativa. Não interessa nada. Não é notícia para uma Ana Lourenço ou para um José Alberto Carvalho. Provavelmente é matéria para jornalismo desportivo, neste caso a cargo do magnífico Marcelino.

Imagine-se um jornal daqueles de "referência" tipo Expresso ou Público com um lead de primeira página de fim de semana, tão pesado quanto este, apenas imaginado:  "EDP paga deslocações em avião a directores de jornais e tv´s para verem Benfica na Rússia".
O que não seria de corropios redactoriais...e represálias consecutivas...

8 comentários:

José Domingos disse...

Não tenho paciência. Toda esta malta, bonzos do regime, senadores aristocráticos, virgens e f.d.p. que engordaram, a si e ás familias, que há mais de trinta anos, comem e bebem á tripa forra,que colocaram este povo de imbecis, a chá e torradas ( quando há), fazem-me lembrar, dizia eu, o discurso do Marco Antonio, falando para o povo, na escadaria do senado" Dizem que o César, é corrupto, dizem, dizem, dizem
Não há pachorra.

Floribundus disse...

catroga e as suas 'pentelhices'

de facto a 'melancia' é colocada no alto do 'BOLO'

quando trabalhava por conta própria ou de outrem sabia bem a intenção das prendas: favores feitos ou a fazer. só recebi as que me diziam respeito a assuntos muito pessoais e íntimos.

ajudei pessoalmente muita gente. com uma excepção todos me lixaram ou ignoraram posteriormente.
problema deles

zazie disse...

Parece que não apanharam a subtileza do Catroga.

P. disse...

Como é referido no local referido, "não há garrafões de azeite grátis", senhor economista.

Floribundus disse...

dizia o poeta satírico Juvenal

'omnia Romae cum pretio
tudo em Roma tem o seu preço'

'nós por cá todos ... mal'

Salmo 'a minha alma caiu no pavimento'

zazie disse...

ahahahah

Este último aditamento é que diz tudo.

JC disse...

Porque raio não aparece quem crie um jornal que pegue nestes temas?

Que desmascare esta fidalguia e que denuncie esta escandaleira que é falada à boca fechada e que ninguém ousa beliscar?

Tenho a certeza que ia vender como pão quente.

A primeira notícia de capa podia ser essa mesma:

"EDP paga deslocações em avião a directores de jornais e tv´s para verem Benfica na Rússia".

Kaiser Soze disse...

A falta de vergonha é inacreditável!
Nos dias que correm, já nem sequer há um pouco de decoro, por muito frágil que ele seja.

Lembrando que este é o senhor dos pêlos púbicos e do "os portugueses ganham excessivamente" mas os portugueses que não ele! Porque o cargo de raínha de inglaterra que ocupa é remunerado "ao seu valor de mercado".

Pimenta no cú dos outros...

Dura lex, sed latex