Um indivíduo qualquer a quem não dei a mínima atenção- já não leio o Expresso e enfado-me com os cretinos que o dirigem, sempre que os apanho por distracção no seu canal privativo de noticiários- parece que logrou enfiar aos directores daquele semanário um garruço daqueles maiores do que os do pai natal.
Se tal tivesse sucedido em países minimamente civilizados e com jornalismo credível e para admirar, os dois tais teriam feito o que normalmente acontece nestes casos: demitiam-se cobertos de vergonha para que toda a gente soubesse que numa época em que já não há penas e alcatrão para cobrir palermas, pelo menos ainda existiria a tal substância imaterial cuja existência é denegada pelo comportamento de pessoas que tais.
Um dos companheiros desta alegria pindérica que não conhece tal sentimento, assumiu as dores alheias e justificou assim, on line, as mágoas de um jornalismo que dói a ler e que como não sou masoquista deixei de pagar e alimentar.
Um dos citados na crónica, Rui Tavares, alerta para a eventual existência de outros casos como este. É muito oportuno, o alerta. No dito jornal, a começar pelos directores, os exemplos são como os cogumelos na humidade Não aldrabarão o currículo pessoalmente académico, mas aldrabam ideias alheias e mal assimiladas e reproduzem-nas como se fossem próprias...normalmente ideias que se conformam com as suas particulares mundividências. É ler...
Um burlão, da classe dos vigaristas com classe, enganou diversos orgãos de comunicação social sérios, entre os quais este, o Expresso. É lamentável, mas de vez em quando surgem-nos na vida situações lamentáveis.
Os jornalistas directamente visados na burla são, pelo menos os que conheço, profissionais experimentados e sólidos, bons amigos alguns, mas que erraram em passos que, por vezes, parecem pouco importantes, mas vêm a revelar-se, em casos destes, fundamentais.
Eu próprio, há pouco tempo escrevi uma pequena nota sobre o lixo na Internet e estou a ser interpelado sobre a existência de idêntico lixo em jornais insuspeitos.
É sobre isto tudo que gostaria de deixar umas notas:
1) O burlão é bom na sua especialidade. Conseguiu, além de enganar o Expresso, a Reuters e a TSF, aldrabar instituições credíveis, tendo feito uma conferência no Grémio Literário (segundo me disseram); além disso diz coisas que, no meio da confusão geral que reina no país e na Europa, várias pessoas disseram. O economista João Pinto e Castro, que partilha algumas dessas ideias, disse, ao ouvi-lo, que era bom ver alguém que tinha estudado os dossiês.
2) Qualquer jornalista sabe - e isso consta no código de conduta e nos procedimentos gerais da profissão - que as informações devem ser confirmadas. Ora, não foram - e aqui estamos perante um erro que é mesmo isso - um erro, não devia ter sido cometido.
3) Caso o burlão fosse a favor de Passos Coelho e de Gaspar não teria o mesmo eco. Isso deve-se, a meu ver, a duas causas distintas. A primeira, é porque a Imprensa tem, no geral, um enviesamento para a esquerda. O mesmo se passa nos EUA, na França, na Espanha e em muitos países. A segunda causa reside no facto de o Governo ter andado a fazer tudo para que não gostem dele. Incluindo mentir.
4) Como muito bem explica Rui Tavares na sua coluna, hoje, no 'Público', situações desesperadas são muito dadas a boatos positivos. Ou seja, o burlão teve eco porque o que disse corresponde a uma secreta esperança colectiva de que os sacrifícios possam ser minorados. Rui Tavares, historiador que respeito, mas com quem não concordo politicamente na maioria dos casos, alerta - e bem - que poderão existir mais casos destes. E eu acrescento: A ideia de que os homens podem resolver todas as situações, de que todas as crises dependem de culpados claros e têm solução dependentes da vontade humana - que é consequência da arrogância cientifista que vem do fina do séc. XIX - leva nuita gente a acreditar em falsos profetas e em falsas teorias. O que se passou também tem algo a ver com isto.
5) O lixo da Internet não é exclusivo da Internet. Nos jornais, como se vê, também existe. A vantagem é que, no caso dos jornais, pedimos desculpa e não prolongamos o erro. Na Internet o anonimato faz com que centenas ou milhares de mentiras continuem a circular, mesmo depois de desmentidas. É um ponto, ainda assim, a favor do jornalismo que quero sublinhar, mesmo hoje.
6) Por ter sido director do Expresso sei que o seu actual diretor, Ricardo Costa e que o seu Conselho de Redaçcão irão tratar adequadamente este caso, de forma a reforçar a credibilidade e os mecanismos de controlo. A todos, incluindo aos que erraram, a minha maior solidariedade e desejos de Bom Natal e Bom 2013.