domingo, dezembro 30, 2012
Como a Time via o Portugal de Marcello Caetano
Em 5 de Novembro de 1973 a revista Time ( o primeiro número que comprei) trazia na capa, em foto close up, o presidente Nixon então às voltas com o escândalo Watergate. No interior da revista, havia duas páginas consagradas à situação do Portugal de então, num artigo intitulado Unpleasant dreams.
Foi aqui, precisamente que li a estatística sobre o nosso esforço de guerra no Ultramar: 40% das receitas do Orçamento. Imagine-se tal coisa, hoje em dia...
O artigo focava essencialmente a perspectiva internacional, no caso americana e ligeiramente de esquerda, sobre os "sonhos desagradáveis" das eleições realizadas uma semana antes, no nosso país de então. Lá aparece a menção à "primavera marcelista", à breve liberalização encetada pelo regime, em prol dos "novos standards democráticos", com críticas à ilusão que entretanto desaparecera.
O artigo cita Balsemão como director do Exprsso e a dizer que Portugal estava no fundo de qualquer indicador económico digno de menção. O único que competia como o nosso atraso era, segundo Balsemão, a Albânia. De resto, segundo o mesmo, até os países do bloco de Leste nos tinham ultrapassado...
Este Balsemão foi depois fundador do PPD e é um dos putativos senadores da democacia que nos garantiu entretanto três bancarrotas iminentes, assegurando porém, para os Balsemões e companhia, o estatuto de privilegiados do regime que aparecem sempre a perorar em épocas de crise e efectivamente são os responsáveis pelo estado a que o nosso país chegou.
A mesma revista Time, de resto, chegou a apontar Balsemão como um dos líderes do futuro...
Para além dessa anedota, a Time de 73 dedicava parte do artigo ao estranho caso das "Três Marias", um "escândalo" derivado do facto de um livro das três ter sido proibido de circular por indecente e má figura. O livro " Novas cartas portuguesas" tinha o cunho da escrita então apelidada de "feminista" um eufemismo para evitar outra designação mais apropriada.
As infelizes "três Marias" estavam na calha dos tribunais para serem julgadas por atentado ao pudor público, por terem escrito um livro com passagens "pornográficas". A Time dá conta disso e a certo ponto cita uma das três Marias ( Isabel Barreno) como dizendo a propósito da vigilância policial constante a que poderiam estar sujeitas, que " em Portugal não é assim [nos países de Leste eram mesmo assim]. A repressão não é aberta ou ofensiva. É mais subtil. Estamos um pouco ameaçadas, mas não corremos perigo algum". Tal e qual.
De resto, alguns meses depois, a revista Flama de 5 de Maio de 1974, escassas semanas depois do 25 de Abril, publicava uma reportagem sobre o tal caso das "três Marias", fazendo a história do assunto e dando conta das manifestações no estrangeiro, contra Portugal por causa do mesmo "escândalo".
O artigo é assinado por Regina Louro, autora de livros como "País de Lesbos".
Isto anda tudo ligado...e estamos perante uma espécie de mafia ideológica que nos tem dominado durante décadas.
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