quarta-feira, março 22, 2023

Jazz: a modalidade blue rondo à la bebop a lula

 A música de jazz nunca foi algo que me seduzisse do mesmo modo que a pop e o rock ou a música clássica. Sempre ouvi jazz como música de fundo ou de segundo plano, sem desprimor para algumas obras de vulto no estilo e género. 

Tenho poucos discos de jazz em formato vinil e os que tenho nem são grandes clássicos e apenas representativos de uma modalidade que surgiu já nos anos setenta: o jazz misturado ao rock ou ao pop como então se classificava. 

Já ouvi praticamente os mestres do jazz clássico, digamos assim, incluindo os Coltrane e Charlie Parker e até este disco, com o "blue rondo a la turk",  que no seu tempo foi um grande sucesso de vendas, em todo o lado. O seu autor até figurou na capa da Time, numa altura em que a revista tinha prestígio e não era o cóio de wokers que é hoje em dia:




Juntando tudo, não consigo ir além de umas poucas audições, esparsas e fatigantes depois de vários minutos de trompetadas ou saxofonadas mais ou menos estridentes. O único instrumento que suporto em longas audições de 40 minutos, o tempo de um lp, ainda é o vibrafone ou xilofone...porque o resto aborrece-me ao fim de poucos minutos de reptições improvisadas nas atonalidades ou mesmo melodias harmonizadas. Para dizer a verdade, ainda prefiro a atonalidade modal, surgida neste disco que vou falar a seguir e que aqui é apresentado numa versão em vinil de prensagem japonesa de 1983 que me soa muitíssimo bem. 
Apesar disso, tentei já gostar do jazz mais modernaço, surgido já no tempo das guitarradas e lá coleccionei discos dos Weather Report, Jaco Pastorius, Return to Forever, Chick Corea, Tony Williams e mais uns tantos que raramente ouço por dificuldade em gostar muito do género. 
Prefiro sempre ouvir um Egberto Gismonti a um desses. Ou a música dos Steely Dan que em certos temas rouba descarada e literalmente melodias ou passagens de discos de jazz ( por exemplo Rikki don´t loose that number, do disco Pretzel Logic, tira a introdução ritmada a sol e do, ao disco de Horace Silver, Song for my father). Neste último caso,  ao plágio segue-se um desenvolvimento rítmico, melódico e harmonioso que o jazz não consegue devolver-me, como os ladrões o fazem. 

O maior artista e o disco mais representativo deste novo género, surgido nos anos setenta, aliás talvez o primeiro, é este, aparecido em 1970 e que tenho praticamente em versão original, de vinil (é uma segunda repress), um duplo álbum, muito celebrado pela inovação e música contida:





Houve quem augurasse como sendo o toque de finados do jazz, mas tal como Frank Zappa proclamou num espectáculo ao vivo no final de 1973 ( incluído no álbum Roxy & Elsewhere, de final desse ano, no tema bebop tango) o "jazz não estava morto, apenas tinha um cheiro esquisito". 
Frank Zappa tinha em relação ao jazz uma atitude muito aberta, tal como em relação a qualquer tipo de música e habituei-me a gostar do que Zappa publicou ao longo dos anos, em incursões jazzísticas como em Hot Rats ou Uncle Meat ou ainda Chunga´s Revenge ou The Grand Wazoo, tudo obras com grande inflexões jazzísticas.  E é este jazz que prefiro. 
Em 1992 num suplemente da revista Guitar Player, Zappa dizia numa entrevista como era e que gostei de ler na altura porque me identifico com este entendimento da música:




Nos anos cinquenta do séc. XX, o jazz tornou-se popular se assim se pode dizer, na ausência da pop que surgiria na década seguinte. 
Em França, por exemplo havia duas revistas consagradas a tal tipo de música e numa delas, a Jazz Hot que vinha de décadas anteriores, inaugurou em 1966 a nova era do pop/rock, em formato de revista, dedicada a um estilo musical iniciado em meados da década anterior. 
Foi num suplemento de tal revista que foi lançado o primeiro número da Rock & Folk que passei a ler desde 1974.
Assim, conforme se conta num número comemorativo do aparecimento da revista, de 2016:


No número de Junho de 1970 ( no mesmo número em que é publicada a recensão de Let it be dos Beatles) vinha a recensão crítica ao disco de Miles Davies, Bitches Brew, então considerado inovador de um novo estilo: o jazz/pop que com o passar dos anos foi designado como jazz-rock.  No disco já apareciam alguns dos cultores do novo estilo, como Wayne Shorter, no sax soprano e aliás falecido há poucas semanas. Também o guitarrista John McLaughlin, autor de vários discos do género.




Na Jazz Hot de Outubro de 1966 o jazz ainda tinha este aspecto gráfico:


Instrumentos de sopros, trompetes, saxofones, contrabaixos, tudo acústico. Em 1970, algo de substancial mudou, com Miles Davies. Porém, antes disso o músico já tinha inovado na mesma área, em diversas ocasiões, como se pode ver na história que dele foi contada e que consta de um dvd- The Birth of the Cool, de 2019. 
No final dos anos cinquenta Miles Davies publicou um disco- Kind of Blue-  que me parece fantástico, particularmente o segundo lado (Sketches of Spain, muito etéreo e introspectivo), aliás muito diferente do mexido Bitches Brew e que surgiria uma década depois.

Este não é um disco pop e dizem que inovou, cortando o estilo anterior, do chamado bebop,  (estilo  aqui exemplificado magistralmente no tema Donna Lee de Charlie Parker) no tempo em que Gene Vincent já cantava, acrescentando ao ritmo nascente do rock n roll uma enigmática...lula

Kind of Blue é disco que se ouve vezes sem conta e soa como se fosse hoje, ao contrário do bebop a lula de Gene Vincent que define logo uma época, ironicamente a mesma do disco de Miles Davies.

Talvez por isso, as versões que já foram publicadas do disco original, saído em versão mono e estereo em 1959 sejam legião.

Há quem se dedique a coleccionar as versões fundamentais do disco, desde a original de 1959, passando por versões remisturadas e rematrizadas, com diferentes modificações sonoras consoante o gosto do dia. 

Como exemplo paradigmático do culto que o disco provoca em apreciadores, há um inglês- Dave Denyer- que tem tudo e que ouviu e comparou, incluindo uma recente versão em fita magnética editada por italianos e que o mesmo assegura ser a melhor versão de todas as que ouviu, incluindo as originais, de 1959. Pagou 850 euros, pelo menos...pela experiência. 

Impressionante ! ( amazing!):

Em Março de 1982 comecei a comprar esta revista por causa do assunto da capa: uma entrevista com Miles Davies. 



Dali a três anos comprei o disco You´re under arrest, do músico. Tem uma versão de Time after time, o êxito pop de Cindy Loper.

terça-feira, março 21, 2023

Os privilegiados da invejosidade social

 No Expresso Revista de 31 de Dezembro de 1988 aparecia uma reportagem desenvolvida, com uma sondagem acerca dos "privilégios" de portugueses, aferidos a "profissões e situações". 

Era assim:






Como não destoava do tema, no mesmo número juntou-se a fome com a vontade de comer e aparecia o clube dos novos ricos, perdão,  "o novo clube dos ricos", até porque alguns eram velhos e alguns até já morreram, entretanto, deixando cá ficar toda a fortuna que conseguiram ter: 





Dois anos antes, em 27 de Junho de 1986 a revista italiana Panorama também dava destaque aos ricos e perguntava na capa "para que servem"? 
Para quem quiser e souber ler ( vale a pena a história de Bruce Willis, recentemente afectado por demência):









Como se lê, além do mais, aos italianos interesava saber como taxar os ricos, impondo-lhes tributos. Isso porque tinham a noção que a curva de quota de imposto, a partir de certo valor desencoraja o trabalho. E na Itália, tinha descido de 72 para 51 por cento, nos últimos quinze anos, ou seja desde 1971. Na Grã-Bretanha tinha passado de 83 para 40 por cento. E apresentava o exemplo da América de Reagan em que se reduziu de 70 para 28 por cento e tal representou numa década um aumento de 26 por cento de aumento da receita fiscal. 
Enfim...matéria para a invejosidade social se lambuzar. 

segunda-feira, março 20, 2023

Penitenciagite, Laborinho!

 Laborinho Lúcio fez parte da Comissão Independente que "investigou" os abusos sexuais contra menores, no seio da Igreja Católica, em Portugal, desde 1950 até aos dias de hoje. 

Anda desconsolado com a intervenção pública de uma certa Igreja que classifica como reaccionária, conservadora, por oposição à progressista do actual papa Francisco, um modelo de virtudes despertas. 

E no entanto a questão não é a de antagonismo entre uma Igreja que questiona os métodos da C.I. e de uma Igreja que assume acriticamente resultados, aceitando uma "abertura" para o "respeito pelas vítimas, de apoio ao seu sofrimento, da tal "tolerância zero". 

A confusão, o sofisma e o equívoco tornam-se evidentes porque não há qualquer antagonismo entre tais valores ou princípios, mas apenas o uso de um senso comum e jurídico que Laborinho deveria conhecer melhor que ninguém porque foi exactamente por isso que foi escolhido para fazer parte da Comissão. 

O que existe é o que deveria ter existido no seio da própria C.I. que se propôs investigar casos de abuso sexual, no seio das instituições Católicas, desde 1950, com todas as dificuldades inerentes e assentando quase exclusivamente  no depoimento ou testemunho de vítimas que se apresentassem como tal e dando-lhes o crédito respectivo, mesmo filtrado por critérios supostamente científicos, em "estudos conhecidos". 

Leia-se esta entrevista publicada no Diário de Notícias de hoje:




Quantos são os casos que foram enviados pela C.I. para o Ministério Público investigar? 25 e alguns com uma "linha de tempo superior ao da prescrição", ou seja, consabidamente insusceptíveis de investigação criminal.

25 casos, desde 1950! E até refere que são casos que podem dar em nada. 

Com base nestes factos Laborinho Lúcio entretém-se na entrevista com um motto: a Igreja tem o dever de indemnizar as vítimas porque comprovadamente há vítimas. Quantas, quando? Não sabe. Ninguém sabe mas a Igreja tem mesmo assim que indemnizar e pedir perdão, publicamente, numa pancarta na próxima reunião magna da JMJ! Fantástico. 

E ainda por causa de outra circunstância: a ocultação que Igreja terá praticado durante décadas e agora sujeita à desocultação. 

Pela mesmíssima ordem de razões e critérios, Laborinho deveria ser obrigado a indemnizar pelas omissões enquanto antigo ministro e director de escola de magistrados num tempo em que os crimes de abuso sexual de menores, como o mesmo reconhece, ainda eram entendidos como delitos "contra usos e costumes da vida em sociedade ou contra a honestidade". 

No tempo dos anos oitenta até ao tempo em que Laborinho deixou de ser ministro da Justiça eram conhecidos crimes desse teor praticados em instituições nem sequer religiosas, mas do género Casa Pia. Tais crimes eram denunciados frequentemente em publicações como a revista Infância e Juventude, muito lida e recomendada no CEJ desse tempo do Dr. Armando Leandro e outros Almiros Rodrigues. Todos sabiam o que se passava e todos estavam sintonizados com o espírito legalista do antigo código penal. Não havia ainda a  noção de crime contra  uma pessoa de menoridade, com o labéu que hoje tem e nem sequer se dava demasiada importância ao assunto. 
Assim, Laborinho Lúcio enquanto ministro poderia ter feito muito mais do que fez em prol de tais crianças que certamente foram abusadas em quantidade e qualidade muito superior ao que então presumivelmente acontecia nas instituições da Igreja, mormente na Casa Pia. O que fez? Nada.De especialmente relevante, entenda-se, para acabar com tais práticas e denunciar criminalmente as mesas, pois tal nunca aconteceu até aos anos 2000, com a eclosão do caso Casa Pia.  Ocultou? Objectivamente, sim., aplicando-lhe os mesmos critérios com que agora quer julgar a Igreja Católica.  

Pois é precisamente com base neste tipo de raciocínio que Laborinho vem agora lançar o anátema sobre a Igreja reaccionária esquecendo esse tempo e exigindo principalmente indemnizações, como se isso fosse remédio para alguma coisa substancial. 

Transformar a Igreja Católica em bode expiatório de tudo isto dá muito jeito, de facto. 

Vamos agora analisar determinadas afirmações de Laborinho, antigo procurador, juiz e director de escola de magistrados. 

A primeira centra-se num processo de intenções dirigido à hierarquia "reaccionária" entendida como maléfica e contrária aos ensinamentos longínquos do Papa Francisco que não conheceu certamente os métodos da C.I. e os resultados obtidos para se pronunciar sobre os mesmos. Ainda assim:




"É bem possível que apareçam provas", diz Laborinho sobre os 25 casos reportados que foram enviados ao MºPº.

Provas...que provas? Laborinho, como jurista sabe distinguir as provas processualmente válidas e destas nem vale a pena falar porque passam logo pelo crivo da presunção de inocência de qualquer imputado e a nalguns casos nem há imputados mas referências a determinados suspeitos e noutros nem sequer isso, porque estão mortos e enterrados há muitos anos. 

Provas, portanto, para Laborinho Lúcio, só podem ser umas: as declarações das vítimas que o mesmo esclarece depois assim:


Há os tais "estudos científicos" que dizem haver uma margem de segurança na "infalibilidade dos depoimentos. Tais estudos aproximam-se do que tecnicamente são as sondagens e as suas "margens de erro". 

Estamos conversados quanto a isto, juridicamente, mas para Laborinho isto é assunto resolvido e com base nisto e a assunção de que as vítimas falam verdade, sempre, já está: penitenciagite! 

É preciso dar particular relevância às declarações da vítima, sem dúvida. Mas é necessário ainda assim o contraditório, ouvir os suspeitos e permitir-lhes a respectiva defesa. E é assim nos tribunais. Não vale a pena citar uma parte e esquecer a outra...como Laborinho faz, inacreditavelmente. 

Ou isso não  conta para nada, tratando-se de casos sexuais envolvendo as instituições da Igreja? 

A propósito disto, no fim da entrevista Laborinho refere o que é preciso fazer:


Portanto, desde 1995, que os crimes sexuais passaram a ter outra natureza na dogmática jurídico-penal. Laborinho foi ministro da Justiça entre 1990 e 1995, portanto é responsável por tal mudança. Contudo é preciso perceber porque razão antes não era assim e portanto é necessário citar "estudos científicos", mormente sobre sociologia e antropologia, para se entender como é que a sociedade, desde 1950 até 1995 entendia os crimes sexuais, o papel dos padres, as instituições religiosas e principalmente a família!

É no seio da família que tais actos contra menores terão sido praticados, dizem-nos todos os estudos, científicos e empíricos. 

Então estará Laborinho preparado para uma investigação à sociedade em geral seguindo os mesmos métodos que seguiram na Comissão Independente? Com a audição de vítimas de abusos sexuais, enquanto crianças, desde 1950 até agora, nas instituições do Estado e não só? E na Família também, uma vez que a sociedade em geral está incluída neste âmbito e a Igreja não é mais que o conjunto de pessoas da sociedade que acreditam na Religião Católica?

Está ou não? E porquê? Obviamente que não está e as razões podem ser várias, mas o senso comum poderá ser uma delas. Porque é que não aplica o mesmo senso comum a estes casos da Igreja?!

Laborinho pode sempre aplicar este critério a si mesmo, enquanto representanto do Estado, em certas instituições, nesse tempo:


E com toda a lógica e coerência de jurista esquecido de princípios básicos e fundamentais, aplicar em seguida este:


Os abusos cometidos em instituições do Estado, durante os anos oitenta e noventa, tal como Laborinho refere estarão mais que provados! E aos milhares! 

Pois então...siga a sua lógica!

Penitenciagite, Laborinho!

Na Idade Média, logo no sec. XI, a Igreja Católica foi confrontada com um problema sério e muito grave numa altura em que não havia livros impressos como dali a quinhentos anos; nem havia meios de comunicação céleres como depois se inventaram. E a Igreja Católica tinha um poder espiritual e um poder temporal, sobre imperadores e reis que só desapareceu precisamente com aquela invenção de Gutenberg e com a Reforma de meados do milénio. 

Ainda assim, houve no seio da própria Igreja alguns clérigos e devotos que se dedicaram a inventar a sua própria forma de religião, depurando os ensinamentos bíblicos e do Evangelho, proclamados em sermões, formando seitas divergentes na doutrina e práticas da Igreja. 

Tais seitas foram prontamente perseguidas pelas instituições da Igreja, através de métodos que se assemelham aos mencionados: crédito total a quem denuncia e mais que isso, condenação sumária e por presunções a quem se aparentava como hereje. Fogueiras e autos da fé públicos foram-se tornando regra para amedrontar e castigar herejes e dissidentes. 

Tais procedimentos que duraram séculos, tornaram-se símbolos da intolerância, da insensatez e da ortodoxia instituída, de tal forma que há inúmeras obras que o atestam. 

Uma delas é um romance contemporâneo que tenta contar a história desse tempo conturbado para a Igreja Católica, sugerindo o terror da época em que os suspeitos de práticas herejes se comportavam como culpados só porque sim, temendo a tortura e preferindo a fogueira.

 A parábola pode muito bem ser esta, tal como sugerida na revista espanhola Arqueologia & Historia, de Janeiro deste ano:


Agora a explicação para o fenómeno vem naquela parte em que se menciona o que sucedeu na "França, Austrália, Estados-Unidos e Irlanda", como exemplo a seguir porque em Portugal temos sempre que seguir exemplos estrangeiros para nos legitimarmos numa autoridade sem discussões. 

As sociedades desses países são idênticas à nossa? O paralelo é plausível? 

Penitenciagite!


domingo, março 19, 2023

Dopa: os correntistas da hipocrisia de há 40 anos

 Em meados dos anos oitenta ocorreram alguns fenómenos curiosos no ambiente social português. Um caso notório foi o de uma senhora, chamada Dona Branca  que num prédio de meia dúzia de andares recebia clientes que lá iam depositar dinheiro, passando-lhes um papel com o montante do depósito e prometendo pagar-lhes juros mais altos que os correntes no mercado oficial da banca, adiantando logo uma percentagem substancial, por conta do próximo depositante.  

Evidentemente, tinha centenas, milhares de clientes potenciais e movimentava somas de dinheiro que só se transportavam em sacos e por isso emprestava também dinheiro a juros condizentes com o estatuto de banqueira do povo, logo crismada pelo jornal Tal & Qual em 1983 o que aliás aumentou o avviamento. O esquema era velho e revelho, inventado por um tal Ponzi, depois replicada mais tarde por um tal Madoff  e por isso correu mal. A história está contada aqui. 

Na mesmíssima altura, havia uns finórios, da elite grã-fina, habituada a invocar o povo mas não se misturando com tal ralé que se se entendiam de outro modo para gerir poupanças. Usavam o esquema da lavagem de dinheiro, ou seja o branqueamento de capitais derivado da exportação ilegal de divisas que na época era simplesmente um crime, democraticamente considerado como tal por tal elite. 

Ainda assim, também em 1983 o esquema foi descoberto e mostrada a careca dos aproveitadores e correntistas da hipocrisia. A história foi contada aqui, há uns anos mas vale a pena lembrar como foi com recortes da época. 

Foi este o caso Dopa, um assunto de Estado em que figuras do Estado, como ministros com voz altaneira contra o passado "fassista", foram encalacrados como hipócritas que eram e a história tinha sido contada pelo jornal i, há mais de dez anos:

Em Fevereiro de 1985, o então ministro da Qualidade de Vida, Francisco Sousa Tavares, solicitou a suspensão das suas funções. Foi acusado de três "ilícitos cambiais" e absolvido em primeira instância, mas o Ministério Público (MP) considerou existir "gravidade de infracção, ilicitude e dolo" e, em Abril de 1989, Sousa Tavares é condenado a 30 dias de prisão remissíveis a mil escudos diários (cinco euros). 

Em Maio, o antigo ministro reaparece em Macau "em gozo de férias", mas entretanto tinha sido convidado pelo governador do território, Carlos Melancia, para ser consultor jurídico de Macau - um cargo pelo qual auferiria 150 contos mensais, de acordo com o "Expresso".

Na prática, Sousa Tavares foi o único condenado por um escândalo que envolveu chorudas transferências para o Trade Development Bank, na Suíça. O tráfico de divisas era feito através da empresa Dopa (Dragagens e Obras Públicas), fundada por Joaquim Manuel Queirós de Andrada Pinto, em 1977. 

O escritório em Lisboa era frequentado por inúmeros clientes, atraídos pelas condições oferecidas: juros fixados em 10 a 14%, pagos em moeda estrangeira e protegidos pelo proverbial segredo helvético.

Em 1984 numa busca aos escritórios do dona branca dos ricos, foi encontrada uma lista que continha nomes sonantes, como se irá ver e o juiz do caso, em certa altura foi acusado de corrupção porque uma funcionária do tribunal efectivamente aceitou um suborno que indicou ser destinado ao juiz, o que nunca se provou. 

O mesmo juiz- Verdasca Garcia-  denunciou então que o jornal Expresso que denunciara o caso de corrupção, só manifestou tal interesse nessa altura, quando o dono do jornal, o inefável Balsemão também estava metido no esquema de branqueamento. 

Enfim, a lista apareceu, embora cortada de nomes relevantes da "política" o que foi sempre algo estranho, típico deste país. 

O Jornal de 22.2.1985:


O Jornal 3 de Maio de 1985:



O Expresso pegou no assunto na mesma altura- 4 de Maio-, explicando essencialmente do mesmo modo ( leitura dos autos do processo, por Joaquim Vieira):



E em 13 de Junho de 1985, a lista, capada de nomes relevantes da política e sem sombra de Balsemão:


Um dos nomes é o jornalista Sousa Tavares, filho daqueloutro e um dos arautos da moralidade em letra de forma. Vê-se como foi. 

Em Julho desse ano, Cavaco Silva manifestava-se contra a corrupção...dizendo ser necessário passar das palavras aos actos. Pois sim. Dali a pouco viria o dinheiro da CEE e viu-se como foi levada a cabo esta intenção de Cavaco Silva.



sábado, março 18, 2023

O acordo ortográfico começou assim...

Neste recorte de jornal, do O Jornal de 24 de Abril de 1986, escassa dúzia de anos após o 25 de Abril, conta-se a soberba destes intelectuais do professorado de Letras na Universidade em deixar a sua marca na sociedade portuguesa. 

E deixaram, só ninguém sabe quem são, coitados que até isso perderam.



 Por aqui se fica a saber que as mudanças na ortografia do português tinham sido acordadas em 1943, mas tal tinha ficado congelado durante décadas, certamente por se entender que não estava maduro para entrar em vigor, tirando uma ou outra alteração pontual, literalmente. 

Em 1975 surgiu a nova luz revolucionária da democracia e os professores Jacinto Prado Coelho que entre outras coisas teve como filho um Eduardo; Luís Filipe Lindley Cintra que entre outras coisas era descendente de estrangeiros; Maria de Lurdes Belchior, co-fundadora da Universidade Nova e governante logo a seguir ao 25 de Abril, também amiga de Lindley Cintra e Américo da Costa Ramalho, professor de Letras em Coimbra, tornado estrangeirado, inclusivé no Brasil, de onde aliás terá partido a iniciativa de retomar o Acordo antigo entretanto esquecido.

Foram estas pessoas que deram à luz o Acordo que temos agora, com as consequências à vista.  

O abuso dos padres

 No Observador de hoje, este artigo do Pe Portocarrero merece leitura e tem esta conclusão:


A Igreja Católica aceitou uma investigação de uma Comissão Independente que foi constituída por estas pessoas, aqui numa foto publicada pelo jornal O Sol desta semana:   


Uma delas é um jurista que foi delegado e procurador do Ministério Público, juiz de Direito, Conselheiro e principalmente director de uma prestigiada escola de magistrados, o CEJ que aliás ajudou a prestigiar: Laborinho Lúcio. 

Pois bem, esqueceu os princípios que ensinava, a moderação que sempre deu provas e a inteligência prática exibida perante todos, com um excepcional dom de palavra dita e de diplomacia contida na educação que sempre mostrou. 

Aceitou colaborar numa Comissão que afinal é um logro, uma fonte de equívocos e de conclusões precipitadas e erróneas que levaram a maior parte do jornalistas caseiros e komentariado diversificado a embarcar num ataque sem precedentes à Igreja Católica, aliás com a colaboração da sua hierarquia que teme a opinião pública e está insegura quanto a princípios e valores, mesmo cristãos. 

Assim é preciso que sejam outros a lembrar o óbvio e neste caso publicado no mesmo Semanário desta semana:


A Igreja Católica é neste momento a imagem deste Papa: a pusilanimidade em acção perante quem a pretende destruir.  A confusão de conceitos e o acompanhamento com a demagogia, bem como a vontade de agradar à maioria. 

Conhecem alguém assim? Conheço eu: o nosso actual presidente da República! Um caso patológico, a meu ver e que o próprio deve saber que é. 

No fundo, é uma cobardia, tão simples quanto isso. 


sexta-feira, março 17, 2023

Os nossos ricos

 Em Portugal, no final dos anos noventa, eram estes os ricos, de acordo com o Expresso de 28 Março de 1997:








 
A Revista tem depois algumas páginas com os ricos doo Brasil e depois tem estas duas com o que já tinham sido ricos...e deixaram de o ser. 



De todos os portugueses, só o rico Patrick Monteiro de Barros que percebeu antes de todos que o BES era um bluff, está vivo. 
Os outros deixaram cá tudo...
E o que pensava o nosso primeiro rico de um certo Mário Soares que dali a pouco seria presidente da República?  Simples: um cargo honroso!





Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso