domingo, março 19, 2023

Dopa: os correntistas da hipocrisia de há 40 anos

 Em meados dos anos oitenta ocorreram alguns fenómenos curiosos no ambiente social português. Um caso notório foi o de uma senhora, chamada Dona Branca  que num prédio de meia dúzia de andares recebia clientes que lá iam depositar dinheiro, passando-lhes um papel com o montante do depósito e prometendo pagar-lhes juros mais altos que os correntes no mercado oficial da banca, adiantando logo uma percentagem substancial, por conta do próximo depositante.  

Evidentemente, tinha centenas, milhares de clientes potenciais e movimentava somas de dinheiro que só se transportavam em sacos e por isso emprestava também dinheiro a juros condizentes com o estatuto de banqueira do povo, logo crismada pelo jornal Tal & Qual em 1983 o que aliás aumentou o avviamento. O esquema era velho e revelho, inventado por um tal Ponzi, depois replicada mais tarde por um tal Madoff  e por isso correu mal. A história está contada aqui. 

Na mesmíssima altura, havia uns finórios, da elite grã-fina, habituada a invocar o povo mas não se misturando com tal ralé que se se entendiam de outro modo para gerir poupanças. Usavam o esquema da lavagem de dinheiro, ou seja o branqueamento de capitais derivado da exportação ilegal de divisas que na época era simplesmente um crime, democraticamente considerado como tal por tal elite. 

Ainda assim, também em 1983 o esquema foi descoberto e mostrada a careca dos aproveitadores e correntistas da hipocrisia. A história foi contada aqui, há uns anos mas vale a pena lembrar como foi com recortes da época. 

Foi este o caso Dopa, um assunto de Estado em que figuras do Estado, como ministros com voz altaneira contra o passado "fassista", foram encalacrados como hipócritas que eram e a história tinha sido contada pelo jornal i, há mais de dez anos:

Em Fevereiro de 1985, o então ministro da Qualidade de Vida, Francisco Sousa Tavares, solicitou a suspensão das suas funções. Foi acusado de três "ilícitos cambiais" e absolvido em primeira instância, mas o Ministério Público (MP) considerou existir "gravidade de infracção, ilicitude e dolo" e, em Abril de 1989, Sousa Tavares é condenado a 30 dias de prisão remissíveis a mil escudos diários (cinco euros). 

Em Maio, o antigo ministro reaparece em Macau "em gozo de férias", mas entretanto tinha sido convidado pelo governador do território, Carlos Melancia, para ser consultor jurídico de Macau - um cargo pelo qual auferiria 150 contos mensais, de acordo com o "Expresso".

Na prática, Sousa Tavares foi o único condenado por um escândalo que envolveu chorudas transferências para o Trade Development Bank, na Suíça. O tráfico de divisas era feito através da empresa Dopa (Dragagens e Obras Públicas), fundada por Joaquim Manuel Queirós de Andrada Pinto, em 1977. 

O escritório em Lisboa era frequentado por inúmeros clientes, atraídos pelas condições oferecidas: juros fixados em 10 a 14%, pagos em moeda estrangeira e protegidos pelo proverbial segredo helvético.

Em 1984 numa busca aos escritórios do dona branca dos ricos, foi encontrada uma lista que continha nomes sonantes, como se irá ver e o juiz do caso, em certa altura foi acusado de corrupção porque uma funcionária do tribunal efectivamente aceitou um suborno que indicou ser destinado ao juiz, o que nunca se provou. 

O mesmo juiz- Verdasca Garcia-  denunciou então que o jornal Expresso que denunciara o caso de corrupção, só manifestou tal interesse nessa altura, quando o dono do jornal, o inefável Balsemão também estava metido no esquema de branqueamento. 

Enfim, a lista apareceu, embora cortada de nomes relevantes da "política" o que foi sempre algo estranho, típico deste país. 

O Jornal de 22.2.1985:


O Jornal 3 de Maio de 1985:



O Expresso pegou no assunto na mesma altura- 4 de Maio-, explicando essencialmente do mesmo modo ( leitura dos autos do processo, por Joaquim Vieira):



E em 13 de Junho de 1985, a lista, capada de nomes relevantes da política e sem sombra de Balsemão:


Um dos nomes é o jornalista Sousa Tavares, filho daqueloutro e um dos arautos da moralidade em letra de forma. Vê-se como foi. 

Em Julho desse ano, Cavaco Silva manifestava-se contra a corrupção...dizendo ser necessário passar das palavras aos actos. Pois sim. Dali a pouco viria o dinheiro da CEE e viu-se como foi levada a cabo esta intenção de Cavaco Silva.



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