segunda-feira, 29 de abril de 2019

As modas nos anos sessenta, em Portugal


A cada ano que passa, a chegada do 25 de Abril é sempre um momento de balanço. Mesmo 44 anos depois. Como era o país antes da revolução, o que sentia e fazia quem viveu nessa época, o que mudou, como mudou, quem foi mais afectado ou até como seria se nada tivesse acontecido.

Falamos do início dos anos 70. Altura em que reinavam os hippies, o flower power, os padrões psicadélicos e até os punks. Um pouco por todo o lado, mas não em Portugal. Em pleno regime de Estado Novo, Portugal era um país ultra tradicional e conservador, o que o levou a estar sempre um pouco atrás em várias áreas, inclusivé na moda.

Enquanto que “lá fora”, as mulheres usavam as calças à boca de sino, as mini saias, os vestidos justos e as plataformas, por cá, quem usava calças eram praticamente só os homens e as mini saias e decotes eram censurados. Os looks das portuguesas antes da revolução eram então os vestidos cintados e abaixo do joelho, os saltos muito baixos, a gola alta, padrões florais e xadrez, mas muito discretos. Basicamente o que fosse permitido pelo regime de Salazar.


A  mocinha que escreveu isto chama-se Fabíola Carlettis e tornou-se consultora de moda e lifestyle

As asneiras que debita no escrito são confrangedoras pela ignorância e pelo preconceito. A mocinha não percebe nada do que foi a moda nos anos sessenta, em Portugal e pelos vistos nem sequer sabe identificar a época porque a confunde com os anos setenta. Quanto ao facto de assinalar o Estado Novo ainda no início dos anos setenta, nem é preciso salientar tamanha barbaridade histórica e ignorância atroz. 

Onde é que esta mocinha estudou? Quem lhe ensinou estas patranhas? 

Enfim, vamos lá desmontar ponto por ponto. 

No final dos anos sessenta, em pleno regime de Marcello Caetano que inaugurou o Estado Social, começou a publicar-se em finais de 1968 uma revista que se chamou primeiro Cine-Disco e passados alguns meses, já em 1969, Mundo Moderno.

Tal revista, quinzenal e  destinada aos jovens que gostavam de saber coisas da cultura popular desse tempo, começou precisamente no número 17 a  chamar-se Mundo Moderno. Em  1 de Maio de 1969, portanto há 50 anos, iniciou um concurso que se chamava "concurso da miss contracapa" e  apresentado assim: 



Todos os 15 dias os leitores eram convidados a votar na miss da sua escolha e a vencedora tinha direito a prémio. 

Esta é a vencedora do concurso anterior a 1 de Agosto de 1969: 


Durante todos os números que tenho da revista, até ao 43, de 1 de Setembro de 1970 apareceram sempre três raparigas de mini-saia ou de calças, como aqui no número 31 de 1 de Março de 1970 e uma era escolhida como vencedora da quinzena: 


A discussão acerca da mini-saia, aliás, foi tema da própria revista, em 15 de Outubro de 1969, no nº 22 que tinha esta capa:

  

Foram entrevistadas várias mulheres que falavam abertamente no uso da mini-saia...basta ler:


O tema da moda era recorrente, na revista. Aqui em 15.5.1969, mostrava-se que não era estranho o tema da moda inglesa, de onde proveio a moda da mini-saia:


O que aquela infeliz Fabíola Carlettis escreveu, sendo uma burricada de todo o tamanho para quem se dedica à "moda e lifestyle", terá uma explicação e que reside no ensino que temos. È mais uma vítima desse ensino e da "inducação" que lhe deram, coitada.

A menção ao estabelecimento Porfírios, sendo correcta merecia outra referência. Por exemplo, esta publicada na mesma revista em Janeiro de 1969:


E em 15 de Setembro de 1969 a revista mostrava um motivo de perplexidade e que alimenta artigos como o da tal Fabíola: na área de Lisboa, em Caneças, ainda havia lavadeiras...


Porém, o Século Ilustrado de 6.3.1968 ( ainda  Salazar estava no poder...) mostrava numa reportagem sobre o Nordeste de Portugal imagens de uma rapariga, bem bonita, por sinal,  a fazer mudanças de casa numa carroça. A saia é acima do joelho... 


Em 6.3.1971 a mesma revista mostrava isto: uma reportagem sobre violência grave entre namorados, o que hoje seria considerado violência doméstica....




O Portugal de 1968 já não era o Portugal dos anos 40, mas há gente que gosta de confundir tudo e misturar mistificações para enganarem não sei quem. A eles mesmos, talvez...

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