quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Democracia e cacofonia

O tema é difícil, a ideia arriscada e o método mais que discutível: tentar mostrar que a informação de há 50 anos era mais fiável que a de hoje e mais "verdadeira" no sentido de mostrar melhor a realidade política, económica e social.

Quanto a método o estudo não tem qualquer pretensão historicista e apenas documental. Os recortes de jornais e revistas de época mostram o que mostram e a interpretação dos factos ou das ideias transmitidas carece de correcções semióticas que elas mesmo se tornam discutíveis.  Mas é nesse exercício que se descobrem ideias e ligações que ajudam a pensar o que somos, como povo desta nação, como se dizia dantes no anterior regime; ou país como se começou a dizer depois, ou seja, em democracia.

Qual a diferença fundamental entre esses dois tempos?  Para mim a imagem é sonora: a democracia aumentou o ruído do som e por vezes transformou-o em cacofonia, numa má consonância enquanto dantes havia melhor harmonia. O que dantes era sinfonia passou a ser tema de jazz, por vezes free com improvisações  ruidosas e introdução de instrumentação desafinada.

Uma boa definição do sistema antigo é esta, de um economista e dada ao jornal Semanário de 18.4.1984, na comemoração dos dez anos da passagem a ritmo jazzístico:  

"(...)existia, de facto, em 1973, um sistema coerente, operacional e praticável,- o que sempre é melhor que não haver sistema nenhum, ou que viver-se , como estou em crer que nos sucedeu a partir de 1974 ( embora com as relativa melhorias potenciais decorrentes da revisão constitucional de 1982 e as melhorias efectivas resultantes de algumas importantes medidas estruturais recentemente tomadas, ou em vias de o serem) num pseudo-sistema mais ou menos do tipo conceptual da "salada eléctrica" de que falava Lenine ( mistura fragmentária e caótica - em vez da da combinação sintetizadora, em termos dialéticos- de sistemas contraditórios inviabilizando o funcionamento normal e adequado, ainda que parcial. de qualquer deles)."


De "Um sistema económico intrinsecamente coerente" passamos para a incoerência de um sistema que aprovou em 1976 uma Constituição legalizadora e impositiva das incongruências, contradições  e incoerências mais flagrantes. Tal fenómeno gerou até hoje três bancarrotas e continuará a gerá-las, ciclicamente.
Tal acontece porque nesta orquestra que tem sido o regime, os elementos de dissonância mais graves provenientes do amadorismo mais incipiente ou do experimentalismo mais free continuam sempre integrados na orquestra, sem qualquer depuração sonora e que continuadamente arruinam qualquer composição.

Ora para este estado de coisas contribui a imprensa que dá eco e voz preferencial a tais elementos de dissonância porque prefere o estilo jazzístico mais experimental e cacofónico.

Um exemplo concreto tirado do CM de hoje. Este pequeno apontamento de um dos directores do jornal:


Sobre o euro desde há 20 anos que se escrevem coisas e mais coisas. O que fica aqui escrito no apontamento é que nós em Portugal não crescemos economicamento por causa da moeda única e de não termos a competitividade dos alemães. Será assim? Estatisticamente será correcto dizer que depois do euro tudo piorou nesse aspecto. Mas...será intrinsecamente por aquela razão que afinal temos um crescimento económico anémico?
Eu não tenho a certeza disso e tenho a impressão que tal teoria pode estar errada. No entanto passa como verdade para a opinião pública e é provável que o articulista também não saiba explicar e tenha copiado a ideia.

Vivemos mediaticamente assim há décadas, ao sabor de opiniões e ideias peregrinas que aparecem por cá vindas muitas vezes não se sabe de onde.

No antigamente não era assim. Havia uma coerência e uma assumpção generalizada de princípios, muitos deles ideias comuns e sem dificuldade de entendimento porque eram sensatas.

Por exemplo, esta passagem de um discurso de Marcello Caetano, publicado na edição de 6.12.1968, da Vida Mundial:


Repare-se nesta frase simples e que todos compreendem o sentido e alcance ( ao contrário dos discursos de hoje de políticos em cargos similares):

"Um país não pode, porém,  endividar-se acima de certo limite pois amortizações e juros passam a ser encargo do orçamento ordinário. Por outro lado o crédito interno não é inesgotável e o crédito externo tem de estar sempre longe do esgotamento porque país largamente devedor a estranhos cessa na realidade de ser independente".

Isto é assim ou não é? A  informação veiculada por estas ideias é correcta ou falsa? Julgo que a necessidade de discussão nem se coloca...de tão evidente que é a ideia transmitida.

Porque razão não passam estas ideias, assim transmitidas, nos media em geral?  Para mim tal fenómeno que dou como certo tem a ver com a desafinação geral da orquestra que temos na liderança do país, em vários sectores: governo e ensino, sobretudo.  O sistema de ensino anda a criar há décadas músicos de jazz que nem sabem tocar os instrumentos. O resultado é a cacofonia.

Peguemos então noutro exemplar de há 50 anos, da revista,  para mostrar mais algumas coisas:

Na edição de 2.8.1968 a capa é dedicada a uma figura desconhecida mas cujo trabalho era visto por milhões: um autor de filmes publicitários da época. Por exemplo, dos anúncios da Laranjina C e das peúgas CD ( "quem ganha é você...") e também dos cigarros Porto:



Logo a abrir, a análise história feita pelo jornalista Carlos Ferrão é notável pela concisão e clareza de ideias.

A revista tinha habitualmente uma secção semanal dedicada a assuntos nacionais e o modo como lidava com os temas dos dias é exemplar da sobriedade e rigor informativo ( mesmo com um ou outro erro ortográfico, como é o caso em "deferidos". No caso, sobre Cabora Bassa e adjudicação das obras, em decisão de conselho de ministros ou o "petróleo português" e os interesses da França ou até as contas da CGD de então ou a notícia de abertura de um crédito especial para as Forças Militares Extraordinárias no Ultramar". Não era para a "guerra colonial"...designação posterior  e "democrática" que adoptou o léxico marxista como padrão.


Sobre a guerra no Ultramar eram raras, as notícias. Havia Censura firme sobre o assunto, como noutros países também houve. O caso da Inglaterra no tempo da guerra das Malvinas é um pequeno exemplo.
Porém, em 1968 não havia um único lar em Portugal que não soubesse exactamente o que era e significava tal guerra, em três frentes na África então portuguesa. Toda a gente tinha ouvido o "Angola é nossa, é Portugal" e não havia muitas opiniões contrárias a tal acepção, fora da esquerda marxista sindicada a Moscovo ou Pequim.  E isso também era facto conhecido.
Havia comunicações ao país, nos discursos e intervenções políticas, incluindo na televisão e esta passava reportagens, por exemplo no Natal onde eram vistos ao longo de vários dias, as comunicações breves, brevemente ensaiadas  de "votos de boas-festas e feliz ano novo" dos soldados em combate. Nessa altura eram horas e horas de tv com tais reportagens gravadas.
Estava mal informado o país, sobre a guerra no Ultramar? Nem por sombras! O que não era permitido, no entanto, era a propaganda anti "guerra colonial" que os partidos marxistas faziam clandestinamente, mas nem tanto. Até nisso havia um certo pudor.

Estaria o país mal informado sobre as actividades clandestinas dos partidos marxistas, do PCP e da extrema-esquerda incipiente? Nem mal nem bem. Tanto quanto hoje estamos informados sobre os movimentos ditos de extrema-direita: não há notícias sobre tais ausências, a não ser quando surgem problemas que possam denegrir tais movimentos. Tal e qual como antes como os partidos marxistas.

Por exemplo, esta notícia oficial e provinda do Governo,  a propósito da morte de um militante da LUAR e da prisão de Palma Inácio, na Vida Mundial de 8 de Novembro de 1968:



Na edição de  2 de Agosto de 1968 ainda havia espaço para divulgar um assunto de cultura geral sobre economia: um pequeno estudo sobre Milton Friedman que dali a alguns anos iria ser importante na política económica americana.



Havia Fátima, nos dias 13 de Maio e Outubro? Havia e era um fenómeno interessante e positivo. Havia Fado? Só no rádio oficial da Emissora Nacional e já era um fastídio para quem começava a escutar outras músicas. Havia Futebol? Havia, mas muito menos que hoje.

E isso é tão certo como esta notícia de hoje, no CM:



Em resumo: o que faltava então na informação, em Portugal, era o pluralismo que incluísse as ideias marxistas, explicitamente expostas e com propaganda livre. Isso não havia. Pode discutir-se se tal seria mais aconselhável a um país como era então Portugal. A bem dizer não fazia muita falta, tal como hoje não faz.
Aliás, agora, não se permite a propaganda de extrema-direita nazi ou fascista porque até a Constituição o proíbe. Onde é que está a diferença? Na hipocrisia: hoje diz-se que estamos em democracia e dantes não se dizia isso porque não sendo verdade não era preciso andar a afirmá-lo. Toda a gente o sabia e quando foi possível a experiência deu no que deu: três bancarrotas, um país economicamente mais atrasado do que antes, relativamente e um povo que vive de falsidades informativas, como nunca viveu. Hoje o jornal Público intitula a notícia sobre a tomada de posse do presidente da República do Brasil, assim: "BolsonaroA ultradireita chegou ao Planalto".  Fica tudo dito sobre "fake news" e quejandas, no Público.

Há 50 anos não havia disto.

Haja quem o refute...

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