domingo, agosto 08, 2021

Faz hoje 50 anos que poderia ter estado em Vilar de Mouros

 A propósito deste escrito no Observador, comemorativo do festival de Vilar de Mouros de 1971, o autor, Luís Freitas Branco tem a sorte de o considerar como amigo epistolar [ afinal enganei-me, porque é outro familiar deste...mas fica mesmo assim. Só não percebo porque se pede a alguém que não sabe o que foi Vilar de Mouros, para escrever sobre o assunto, de cor e seguindo a opinião de outros]. Senão levava de três em pipa por relatar um acontecimento em que não participou por ser demasiado novo para tal e acrescentar os habituais pózinhos políticos completamente desnecessários. A PIDE em Vilar de Mouros não teve papel nenhum especial nem preocupou fosse quem fosse, muito menos quem lá foi, na maioria jovens que se aprestavam a ir para a tropa e combater na guerra do Ultramar. Não era assunto de preocupação política, na época, para a esmagadora maioria dos jovens que pensava como dizia na entrevista mostrada no postal abaixo, o comando Rui. Por isso a menção a tal suposto facto é mera desinformação, a meu ver e o relatório da polícia política sobre tal assunto é ridículo, simplesmente. 

Aliás, um dos testemunhos de quem lá esteve, no caso Mário Dorminsky, é claro a esse respeito e desmente o tenebroso ambiente sugerido pelo estimável Luís Freitas Branco, certamente mal informado por quem o desinformou: 

"De 1971, recorda-se apenas que "estava a chover torrencialmente" pouco antes de Elton John actuar, e que foi com a família de carro do Porto a Vilar de Mouros, regressando nos dois dias a casa.

"Foi um momento de liberdade total. Portugal vivia o movimento hippie. O ambiente que se viveu em Vilar de Mouros conseguia, de alguma forma, quebrar todas as barreiras sociais", referiu Dorminky."

A PIDE incomodava, quando incomodava, os comunistas que queriam para Portugal um totalitarismo que por cá nem por sombras se vivia. Os comunistas e filhos de comunistas sabem disto de ginjeira, mas continuam a alimentar o equívoco de sempre que é o de pretenderem ser aquilo que não são e nunca foram. Não são e nunca foram arautos da liberdade nem defendiam a democracia. Mentem, portanto. Aldrabam as pessoas. Mistificam permanentemente. 

Nesse mesmo ano de 1971 realizou-se o primeiro Cascais Jazz, iniciativa principal de Luís Villas-Boas e também João Braga. Um dos convidados foi Charlie Haden, comunista. Tocou Song for Che e dedicou-o aos movimentos de libertação de Angola e Moçambique. Na sua autobiografia, Carlos Cruz diz que no dia "seguinte foi posto na fronteira pela PIDE/DGS". Se fosse no Leste comunista provavelmente o destino mais suave seria o mesmo...,mas isso o Haden nunca o reconheceria. 

Portanto, inventar tragédias políticas a propósito de Vilar de Mouros e do regime fassista é nada de nada. O escrito, no entanto tem o seu valor documental, mormente pelas fotos inéditas que publicarei a seguir, com menção da fonte: Isabel Barge, tal como referido. 






Sobre Vilar de Mouros lembro-me bem desses dias e da oportunidade que tive em...não estar lá, por não ter meios para tal. Era ainda um pouco jovem demais, com 14 anos e por isso o desejo não era suficiente para lá ter ido. Mas queria ter ido...e até guardei um dos programas do evento: 



Portanto faz hoje exactamente 50 anos que Elton John actuou no local. No entanto, nem era para ver Elton John que gostaria de lá ter estado, mas para ver o ambiente e apreciar a música também, " a música moderna para a juventude". 

Elton John nessa altura e como refere Luís Freitas Branco estava nos primórdios da sua carreira de êxitos e terá sido num dos dias seguintes que compôs uma das suas melhores canções- Tiny Dancer- que só para a ouvir tocar com o som da "steel guitar" de B.J. Cole e cantar em banda sonora, também pela linda actriz Kate Hudson, justifica ver isto do filme Almost Famous.

Já escrevi aqui sobre o festival de Vilar de Mouros de 1971 e por isso pouco mais há a acrescentar a não ser mais iconografia das revistas e jornais da época.

A revistinha Mundo da Canção dirigida por comunistas ( parece que Pacheco Pereira anda a fazer um trabalho de "fundo" sobre a mesma, veremos o que sai...) do mês seguinte ao festival ( nesse início de mês de Agosto a capa do número à venda era sobre os Rolling Stones e o disco Sticky Fingers) dava uma capa e o artigo crítico era era algo ácido e sem contemplações. 

O articulista do Observador obviamente inspirou-se nestes artigos de várias revistas e jornais da época, até para relatar os temas que Elton John cantou e como cantou...

Um dos jornais que dedicou vários números ao acontecimento foi o Disco Música e Moda, saído ainda há pouco tempo: 







E a Mundo da Canção, claro:













Este relato do festival que na altura li, impressionou-me pela negativa, apesar da nota favorável à prestação musical dos grupos britânicos com indicação de "imaturidade musical " de Elton John e outros mimos dispensáveis. Sobre o papel da GNR pouco a dizer tendo em atenção que hoje em dia é mais força de segurança privada e jagunços do mesmo género. Nem sei qual será melhor. 
Sobre um grupo- Mini-Pop, futuros Já-Fumega- o comentário é lamentável, tal como o relativo a outros grupos nacionais que lá actuaram. 
Quanto ao público era "frio" ou seja, não se manifestava ruidosamente, como os críticos queriam. Enfim, vá-se lá entender estes comunistas de então e de agora. 
Uma coisa é certa: em nenhum dos países de Leste, onde o regime comunista vigorava, seria possível realizar em 1971 um festival como este, com esta liberdade e mesmo com o fantasma da PIDE atrás dos pinheiros,  salgueiros e amieiros do local, a bordejar o rio Coura. E isso é que é importante salientar: esta gente do Mundo da Canção não gostava do regime que já era o de Marcello Caetano, porque era "fassista". Porém, aceitavam e queriam mesmo um regime muito pior em termos de liberdades e principalmente desenvolvimento económico. Em nenhum país do Leste europeu de então havia um único dr. Barge capaz de organizar, quase individualmente um festival como este. E isso é que não vejo escrito por nenhum dos antifassistas de agora e de antanho.
 Finalmente, sobre o papel da RTP e a sua ausência no festival: já li por aí qualquer coisa que desmistifica a teoria de conspiração que resulta do artigo de Luís Freitas Branco. Afinal, a RTP ia passar o quê, de um festival como uma espécie de Woodstock à portuguesa, pleno de improvisação, de amadorismo e de falhas, muitas delas denunciadas pelos próprios artistas estrangeiros?  Ia mostra tudo isso? Melhor, valeria apena mostrar tudo isso? Gravar para recordar, sim. Mas nesse tempo nem outras coisas mais importantes se gravavam...

 No Verão de 1971 a música para mim, tal como a vida, estava a despontar no seu interesse máximo. Vilar de Mouros e o festival foi apenas um dos acontecimentos desse ano, mas houve outros e havia outros motivos de interesse.
Por exemplo a revistinha suíça Pop que por cá se vendia bastante por causa dos "posters" trazia uma página com alguns desses artefactos icónicos da época. o do Che Guevara até cheguei a comprar um ( que aliás ainda tenho...).
Os números de 1971. 




E o poster que por cá se vendia em 1974-75:



Em 1 de Agosto o "top" musical segundo o jornal Disco era este ( Elton John e Friends, de uma banda sonora, estava em segundo lugar) :


E a Levi´s lançava um modelo de calças de bombazine, com um toque acetinado, o qual se nota na foto, embora seja um modelo de rapariga, que nunca mais vi igual em qualidade, tal como se mostrava na revista Pop:


Estas calças vendiam-se por cá em estabelecimentos como o Porfírios no Porto e noutras localidades do país. Tive umas, também esverdeadas e eram extremamente confortáveis, tendo durado uma eternidade. Nos países do Leste europeu, na mesma altura, os ocidentais que porventura lá iam e levassem desse tipo de roupa eram assediados para a venderem, a preços astronómicos. É verdade e devia ser coisa sabida dos indivíduos do Mundo da Canção e dos demais comunistas que vituperavam o regime fassista de Salazar pela falta de liberdade, como se a proposta que apresentavam fosse um modelo de tal liberdade!   
 
Para além disso esta revistinha dessa mesma altura também era interessante, pela extraordinária capa, com uma ilustração de Gir: 


E mesmo esta tinha interesse: 


E quanto a outras músicas, o Cat Stevens, do disco Tea for the Tillerman, para mim, na altura era o máximo, junto com os Stones. E até se tocava e cantava Wild World  ( oh baby, baby it´s a wild world...e rolamento nos ton tons) assim,  aí por Abril desse ano: 


A partir de então, a música foi outra...

Sem comentários:

Ivo Rosa, a nulidade da inexistência