sexta-feira, agosto 06, 2021

Futebol, o desporto nacional

Devo dizer que sempre gostei de futebol, como a maior parte dos miúdos da escola primária e era o jogo preferido para medirmos forças entre nós. Havia os mais habilidosos que eram sempre escolhidos para as equipas e havia os que gostando de jogar, eram preteridos nas primeiras escolhas. Eu era destes últimos, mas isso nunca me diminuiu. Em 1966, o célebre jogo com a Coreia do Norte, foi o máximo da emoção televisiva dos putos da minha idade. No fim do jogo tentamos replicar a  emoção com os golos de um Eusébio endiabrado, tornado herói instantâneo, como nunca mais houve igual. Nem o Ronaldo lá chega!

Dito isto, nunca vi um jogo ao vivo e a cores num estádio, sentado numa bancada qualquer, tirando uns jogos vistos do monte do Picoto, em Braga.  Nem tenho grande interesse em ver. Basta-me a tv e o "replay" possível para tornar a ver o já visto. Não vou dizer o clube de estimação mas este ano fiquei satisfeito e quero ver se há repetição do feito. 

Vem isto a propósito do início da época cujo campeonato hoje começa. Este é o cardápio televisivo da CMTV para a semana que segue. A CMTV, tal como outros canais televisivos que tentam imitar o estilo e o tempo de antena consagrado ao futebol, não mostra os jogos em directo como fazem a SportTV e outros canais dedicados. Mostra num quadradinho inserido no écran, um aspecto parcial do campo onde o jogo decorre, se mostrar jogadores,  enquanto um "relatador" estridente e de voz desagradável vai dando conta das jogadas. 

Porém, ao longo da semana, a seguir aos jogos e mesmo sem jogos, há comentários vários e com muitos comentadores, todos os dias, ocupando horas e horas de tempo de antena, a falar sobre o assunto, em looping interminável, sobre as jogadas mais polémicas, como se pode ler:


 Quando é que começou esta canibalização das tv´s pelo futebol? Provavelmente quando descobriram o potencial comercial de tais programas transmitidos ad nauseam e que têm o mérito de permitir desligar da tv a quem não se interessa pelo assunto, desse modo tão detalhado. 

Antes do 25 de Abril de 1974 o futebol era já motivo de interesse generalizado, sendo as transmissões de jogos internacionais, na RTP, ocasião de atenção redobrada à voz de um Alves dos Santos ou de um Correia, que parece ter havido vários. 

Havia também "relatadores" de jogos caseiros, pelo rádio, aos domingos à tarde e era frequente ver muitas pessoas ( homens, claro) de rádio pequenino e de transistores, nos anos sessenta e setenta, colado à orelha a ouvir "o relato", igualmente estridente e desagradável, pelo que nunca me dei a esse desporto de orelha. 

Na época, a indústria electrónica nipónica inventou vários modelos, a preços acessíveis que permitiram a democratização do relato de futebol ao domingo. 

Apesar disso, a proliferação de relatos ou programas de tv dedicados ao futebol era ainda coisa tolerável e relativamente reduzida. De resto, os jornais desportivos eram ainda "trissemanários" e no Norte havia um Desportivo que saía ao Domingo à tardinha, a tempo de dar conta dos jogos da tarde. 

Para se ver como era na tv e no rádio, em 1971 aqui vai a programação da semana de 7 de Agosto desse ano, tal como publicada na edição da revista R&T, com uma capa dedicada ao tema do momento, o filme Love Story, transformado relato de fotonovela e de fazer chorar as pedras das calçadas das adolescentes e adultas carentes de tal afecto. Já não há nada disto, actualmente:



Ao domingo havia um único programa, com dez minutos de duração e apesar de ser época de "defeso" do futebol, nos outros meses não era diferente. A prova? Aqui está a programação de Domingo dia 1 de Maio de 1971 ( não, não era feriado...):


Às segundas, neste caso ainda de Maio desse ano,  havia meia hora de programação desportiva, eventualmente sobre os jogos do dia anterior: 


E era tudo durante a semana. Quem quisesse saber mais que lesse A Bola ou o Record, sobre os clubes do Sul porque o Porto nem contava muito para o totobola. Um concurso que aliás tinha um programa dedicado, de um quarto de hora, às quartas-feiras...1,X,2 ou aposta mútua, tripla. 



No rádio era a tarde toda de Domingo, insuportável para os meus ouvidos de então, como se mostra também na mesma semana de 1 de Maio de 1971:



Na Segunda-Feira, alguns minutos de "debate desportivo", às 19:40, altura em que no RR passava o Página Um e portanto estava o assunto arrumado. 

Passada dez anos, em Outubro de 1981, tal como o Sete mostra, o panorama não era muito diferente: 


O programa "Grande Encontro" apresentado por Mário Zambujal ( o dos Bons Malandros) durava uma hora, às 19:00. E mainada! 

Em 1986, em Junho houve campeonato do mundo de futebol, no México, ainda nos oitavos e quartos. Era assim a programação, segundo o Correio da Manhã:




Em Maio desse mesmo ano de 1986 o jornal Número Um de 17 de Abril: 

Em 1976, um fandangueiro da extrema-esquerda, de seu nome Júlio Pereira, publicou um LP com o título Fernandinho vai ao Vinho, esgotado e não reeditado, segundo dizem por opção do próprio, apesar de ser um excelente disco. 
Uma das letras era assim, a vincar o carácter de "alienação" do futebol como desporto nacional. 


É pena que Júlio Pereira agora não cante as maravilhas destes novos fernandinhos que vão ao vinho de agora. E já agora comparasse com o que havia dantes, no tempo do famigerado fassismo...

Sem comentários:

Ivo Rosa, a nulidade da inexistência