domingo, março 08, 2015

Como Portugal se rendeu a Angola? Foi assim...

Observador:



Ricardo Soares de Oliveira estudou a Angola do pós-guerra civil. E conta-nos num livro fundamental como a actual oligarquia acumulou poder e riqueza e viu Portugal render-se ao poder dos seus dólares.
Ricardo Soares de Oliveira, 37 anos, professor de Política Comparada na Universidade de Oxford, acaba de publicar um livro em que analisa a trajectória de Angola desde 2002. Magnificent and Beggar Land. Angola since the Civil War (Hurst, 2015, 288 pp.). Conversámos com ele acerca de alguns dos assuntos aí abordados, desde os contornos do sistema de poder nesse país às idiossincrasias da relação luso-angolana, bem como sobre as consequências que são possíveis de antever em função da descida do preço do petróleo nos mercados internacionais, o principal (se não mesmo único) motor da economia angolana.


Como é que Portugal se rendeu aos dólares angolanos, agora mostrada por um angolano residente no exterior, como um puro regime cleptocrata?
É simples de explicar: ao invés do sempre execrado fascismo que os media afiançam sempre que tivemos por cá, durante a "longa noite" de 48 anos, antes de 25 de Abril de 1974, Angola é mostrada como um país que sofreu uma guerra civil e agora está a tentar retomar a democracia plena.
Quem é de lá e não tem tais preconceitos vê o que todos vêem e se recusam a admitir: uma cleptocracia em que um número muito limitado de cidadãos tem todas as riquezas enquando a maior parte dos vinte e tal milhões de habitantes passam misérias e eventualmente fome.

A esquerda mediática nacional, de resto, acompanha a visão de real politik que é a dos governos que temos. A complacência é absoluta e a hipocrisia ainda mais. 
Um exemplo? O Público de hoje dá o destaque de duas páginas a uma figura que é coleccionador de arte e ao mesmo tempo marido de Isabel dos Santos que dispensa apresentação.
A explicação prática para o regime angolano aparece no fim da entrevista...


Passos Coelho: a questão é de ética ou política?


Este cronista do Público representa bem o satus quo do comentarismo mediático relativamente a mais este "caso Passos".
Escreve assim, depois de alcandorar a gravidade do caso aos píncaros da ética nec plus ultra: "o problema de Pedro Passos Coelho não é essencialmente ético, é fundamentalmente político". E explica a razão: PPC apresentou-se com figura angélica e impoluta na política e agora vê-se que tem telhados de vidro. É este o sentido da argumentação. A estupidez é evidente se se pensar que afinal chegou a hora de indagar se o candidato a futuro PM, o Costa, preenche os requisitos que futuramente lhe podem ser fatais...

Ontem, o editorial do Público ainda era mais explícito no equívoco, uma vez que escreve despudoradamente revelando a intenção do grupo editorial do jornal: "há uma semana parecia ser possível um passeio até às eleições. Agora tudo será mais difícil".

É impossível ser mais claro nas intenções políticas querendo parecer que se é isento, como um jornal deve ser.
O que o Público revela é o comprometimento político da sua direcção contra a actual coligação política no governo. Se as sondagens fossem as de há uns meses nunca haveria notícia sobre PPC e as dívidas prescritas e pagas à Segurança Social. Nunca. Tal como não haverá notícia sobre a situação ainda mais complexa em termos pessoais relativamente a certo tipo de fenómenos de multiplicação de rendimentos do Desejado Costa. O Público pegará no assunto só e quando tal se revelar incontornável...ou quando tal se afigurar conveniente, como o fez com a licenciatura do antigo PM, hoje recluso 44.

É essa insuportável hipocrisia jornalística feita de cinismo profissional e pessoal de quem dirige este tipo de jornais que incomoda e descredibiliza. O Público não merece crédito jornalístico porque embarca em campanhas políticas, geralmente para atacar os opositores ao actual governo que execram sobremaneira. A esquerda do PS ou mesmo de outros partidos, incluindo os radicais, encontram sempre acolhimento favorável e relativamente acrítico nas páginas do jornal e demais media.   O Público alinhou nessa corrente política de contestação e serve agora os pratos de résistence aos partidos que  são autores da receita desta culinária politico-partidária. O Público acoberta este jornalismo actualmente. E isto não é jornalismo mas outra coisa, mais ignóbil e indigna porque um jornal não deve fazer política partidaria pura sem o revelar explicitamente e dando a entender que pretende o contrário.
É política, o que o jornal tem feito,  tal como o cronista escreve e o editorialista revela nas entrelinhas claramente. 


Deste modo torna-se relativamente inútil tentar desconstruir esta armadilha política, analisando os factos no seu contexto. Haverá sempre o argumento do género exposto: um PM que exige sacrifícios não tem condições para governar quando no passado foi laxista. É este, essencialmente o argumento.

É confrangedor, mas resulta se replicado em uníssono por uma caterva de comentadores televisivos e ressoando noo estribilho decorado da miríade de papagaios que os seguem.
Com esta artilharia pesada de argumentos fátuos ainda conseguem o efeito pretendido: a demissão do PM para arranjar umas eleições "à maneira" de um syriza ou de um podemos.

No fundo desta questão reside apenas este assunto político e mais nada de nada. A ética não tem qualquer importância nisto e se o problema é político torna-se mister colocar a política no pelourinho das comparações entre políticos, incluindo já o tal Costa que aqueles jornais e media em geral apostaram em conduzir ao poder político e tal lhes estava a fugir no horizonte. 
Ou seja, abrir uma caixa de pandora que a democracia dos últimos vinte anos guarda em reserva para se degustar em modo vintage.

Este caso lembra o assunto de Sá Carneiro e de uma dívida pretensa a um banco. Tal como em 1979-1989, um assunto anódino e esquecido foi repescado para a luta política, arvorado em grandes parangonas de indignação ética.
Os seus autores são quase os mesmos de agora: a esquerda comunista e radical aliada ao socialismo democrático que perdia votos em prol de Sá Carneiro.
A dívida de Sá Carneiro à banca foi descoberta pelos sindicalistas comunistas e socialistas que fizeram tábua rasa do sigilo bancário e passaram o assunto para os jornais, inicialmente o do partido comunista, o diário ( o tal da "verdade a que temos direito") e depois pelo o Jornal, digno representante da corrente syriza de antanho, tal como o Público de hoje em dia.
O tema já foi tratado aqui, in illo tempore:
  (...) convém recordar um artigo de página de O Jornal de 18.7.1980, poucos meses antes de Sá Carneiro morrer. Na altura, a luta eleitoral levou o jornal comunista O Diário, dirigido por um sectário-mor da estirpe de Miguel Urbano Rodrigues, a encetar uma campanha digna dos melhores jornais da actualidade.

O assunto momentoso desse período pré-eleitoral de 1979-80 era  a dívida de Sá Carneiro à banca de então, nacionalizada e por isso com segredos menos que protegidos: abertos à militância dos camaradas.


Hoje, tal como então, os media estão dominados maioritariamente por essa esquerda difusa e permanente na sociedade portuguesa. Ontem na tv de Balsemão ( militante nº1 do PSD) só se ouvia o anão e silva e quejandos...por isso, o assunto é como é e não vale a pena argumentar com relativismos e tentar explicar o absurdo dos argumentos éticos que se querem fazer passar por políticos e se confundem nas mentes turvas de quem apenas pretende uma coisa: apear este governo do poder, de qualquer maneira.

sábado, março 07, 2015

VPV e o sentido da vida política em Portugal

Vasco Pulido Valente escreve hoje no Público sobre o caso Passos Coelho colocando-o no sítio certo: no contexto socio-político em que nos encontramos. Não sendo um caso criminal, como o do recluso 44 ( de quem aliás VPV se recusa a falar e suspeito que será por não ver qualquer necessidade suplementar ao que já se sabe) o caso de Passos Coelho explica-se assim:


E com este acrescento, de uma outra crónica do mesmo VPV, de 26 de Setembro de 2014, aquando o assunto Tecnoforma já por aqui aflorado, na história da lebre e do coelho.


VPV explicita melhor a sua ideia sobre o assunto nesta entrevista que o jornal i publica hoje mesmo e da qual passo a primeira página porque é suficiente para entender tudo:



Essencialmente, a explicação de VPV tem a ver com o regime político que temos e a sua génese, a partir de 1976 (" a classe política portuguesa tem vindo a piorar de 1976 para cá", diz ).
 Até então, quem estava "na política" tinha sido caldeado pelas lutas de oposição ao regime anterior  e segundo VPV "precisavam de ter qualidades"e  supostamente tinham-nas.

Ora, tanto quanto me parece, aqui é que VPV se engana redondamente. As tais qualidades que putativamente inculca a tais personagens- e está-se mesmo a ver a quem se refere: Mário Soares, Sá Carneiro, Salgado Zenha, Álvaro Cunhal, e tutti quanti moldaram o regime que temos- afinal que qualidades tinham?

Para abreviar razões, não se devem incluir aqui qualidades pessoais e intransmissíveis. Caso contrário teríamos de questionar como enriqueceu ( relativamente)  Mário Soares logo a seguir ao 25 de Abril, de saber como adquiriu as obras de arte e o estatuto que tem, ele que era apenas um remediado opositor político que vivendo supostamente de uns rendimentos faraminosos de um colégio, precisou de apoio monetário quando no exílio...
Passando à frente desses fenómenos que incluem "dívidas à banca de Sá Carneiro" e outros "casos Dopa" para além de obscuros assuntos de um fundo de defesa militar do Ultramar ( que se diz ser a explicação para um eventual atentado ao avião em que seguia Sá Carneiro) ou a constituição de empresas de material militar pelos rosas coutinhos vermelhos ou as histórias que envolvem Almeida Santos e companhias orientais, etc etc. temos que o cerne da questão é a "política".

Que raio de qualidades se podem assacar a estas personagens miticamente apresentadas por VPV?
As de terem pensado e realizado a Constituição de 1976, precisamente o ano de mudança das tais qualidades que daí para a frente começaram a murchar como os cravos?
Não, VPV está redondamente enganado, neste aspecto: as qualidades de quem gizou ideologicamente o actual regime nem se recomendam nem se devem apresentar como tal por uma simples razão: foram precisamente esses qualificados políticos quem nos desgraçou colectivamente. Foram eles quem fizeram e apoiaram o PREC; foram eles quem apoiou a destruição do tecido económico português de base que poderia ser muito diverso do que é ( e nunca permitir as tecnoformas que apoiam políticos na reserva) e principalmente foram eles quem formou este sistema de ensino que temos e que tem sido uma das causas principais dos nossos males maiores.

A prova do que acabo de escrever está neste blog, nos postais que tenho por aqui colocado e que não se limitam a enunciar opiniões, mas se acompanham de factos e mais factos consultáveis pelos "recortes" de imprensa da época que nos mostram todas as "qualidades" excelsas desses indivíduos agora mitificados.

O que temos actualmente na política como expoentes da tal degenerescência é apenas um reflexo do sistema que aqueles criaram, apoiam ( veja-se o decrépito Mário Soares) e apadrinham.

Nada mais. Mitificar um passado corrupto é apenas uma lavagem de mãos sujas em que uma lava a outra.

Finalmente, se algumas qualidades míticas havia nesse passado, vinham já do outro passado e da educação recebida. A noção de honra ou de honestidade ou mesmo de ética que então se chamava simplesmente moral era um pouco diversa da actual e tinha sido inculcada por quem? Pelos educadores ( pais, professores e costumes em geral) que viveram nos anos de Salazar e Caetano...

Logo, seria melhor indagar as qualidades que nessa altura existiam para repensarmos as que temos hoje...em vez de se dizer que antes de 1976 as qualidades apareceram por geração espontânea, particularmente nos dois anos anteriores.

Aliás e mesmo para terminar, há uma passagem na entrevista que é muito curiosa: perguntam a VPV o que lhe faz falta e ele responde assim:


A comida, como se diz agora, é um acto cultural. VPV viu desaparecer restaurantes onde se comia muito bem  e barato, subsituidos por casas de fast-food ou restaurantes de "chef" que não são melhores que os tais tradicionais e sem pretensões.
Deveria perguntar-se porquê e acho que será capaz de responder com um pouco de reflexão: sinais dos tempos e da sociedade que os tais indivíduos de "qualidade" nos legaram.  Pergunte ao decrépito Mário Soares como comeu durante estes anos todos de boa vidinha...

sexta-feira, março 06, 2015

Do Portugal Profundo, outra vez à frente na investigação

O Público e o Diário de Notícias querem maior transparência retroactiva no caso dos políticos que temos?  Embora não me parecendo que seja exactamente isso que os move ( e no caso do DN não é mesmo isso) agora já podem aparentar tal desiderato.

Então já têm aqui matéria suficiente para se entreterem e aprenderem a fazer jornalismo de investigação. Já o disse mais que uma vez: o António Caldeira, Do Portugal Profundo,  dava um excelente investigador, fosse onde fosse. É persistente, rigoroso e meticuloso sempre que entende o assunto que trata e o Público ficou a dever-lhe o "arrincanço" da licenciatura do recluso 44 in illo tempore.

Pode ir lá outra vez beber informação que só ganha com isso...mas ao menos desta vez que cite a fonte.

Justiça PS e PSD


Este artigo do Sol de hoje merece leitura porque evidencia o que se vai tornando claro: o PS não respeita a Justiça do mesmo modo que o PSD. E isso é dramático para a democracia e um problema grave que é preciso enfrentar e esclarecer.

Este escrito patético, no Público do passado dia 3,  de alguém que já foi presidente do STJ mostra bem o labirinto em que se enredeou e como a Justiça atravessou os piores momentos desde o 25 de Abril. 

quinta-feira, março 05, 2015

A lição de moral do recluso 44



Hoje no DN, dirigido pela gente amiga ( por quanto tempo?) do recluso 44, aparece uma carta enviada do ep de Évora ( o correio é célere para aquelas bandas...) e recolhida no jornal afecto em que o indiciado por crimes de corrupção, fraude fiscal e outros crimes como tráfico de influência, vitupera o actual primeiro-ministro, designando-o como "próximo da miséria moral". E recomenda ao actual PM que "faria melhor em explicar aos portugueses se ele próprio cumpriu a lei. Pela minha parte é o que tenho feito. Em nome da verdade é o que continuarei a fazer."

Ninguém  minimamente atento em Portugal duvida desta última razão de facto do recluso 44. Tem sido incansável em explicar, nas entrevistas furtivas que concedeu enquanto recluso, que o dinheirinho que dizem que lhe pertence, afinal não pertence e perante essa verdade assume uma superioridade moral que o legitima a apodar o sucessor de "miserável moral", por ter sugerido o contrário.

Não obstante há um facto que colide com esta história da carochinha: segundo se conta e parece certo o recluso 44 pagava um ordenado ao seu motorista de 1200 euros por mês. Porém,  oficiosamente, perante a Segurança Social só apareciam 600 declarados. A fraude é evidente, com uma agravante: agora é crime e pelo menos este está suficientemente indiciado...
A incongruência daquela verdade com esse facto é de tal ordem que até incomodará o raciocínio mais elementar de um distraído do senso comum. 

De resto, a revista Sábado de hoje traz um resumo daquela verdade que o recluso 44 afirma ser a sua, moralmente superior. Esta que até aflige...


 Chegou a altura de ter pena do recluso 44? É que não gosto de malhar em quem está no chão...

quarta-feira, março 04, 2015

O Expresso já entrou na "polémica"...

Expresso:

O gabinete de Pedro Passos Coelho recusa-se a comentar a existência de pelo menos cinco processos de execução fiscal sobre o contribuinte Pedro Passos Coelho, instruídos entre 2003 e 2007.
As alegações correm há algum tempo e até já estão detalhadas em blogues, mas São Bento argumenta, tal como Passos Coelho já tinha dito na terça-feira, que se trata da relação sigilosa entre um cidadão e a máquina fiscal. 


Pelos vistos a "polémica" já foi ventilada em "blogs", mas o Expresso teve acesso a documentos que evidentemente se encontram em sigilo fiscal e já deu a conhecer publicamente "a polémica".

A polémica agora são cinco processos fiscais, há muito terminados e que em si mesmos significam nada de nada. Qualquer pessoa pode ter processos fiscais, mesmo execuções fiscais sem que tal deva ser notícia de vulto, mesmo que envolva um actual primeiro-ministro que ainda o não era quando foi alvo de tais processos.
Então porque é notícia neste caso e porque entra o Expresso na "polémica"? É preciso responder ou basta dizer quem são os dois directores do jornal?

O blog em causa existiu o tempo de lançar a "polémica" logo em 2011 e desapareceu como surgiu: do nada, agora repescado para a ribalta pelo Expresso. Para mostrar os "casos de Passos", a loca infecta  justifica-se assim:

 Todos os candidatos destas eleições viram a sua vida escrutinada ao mais ínfimo pormenor. Sabemos tudo e conhecemos bem o passado de José Sócrates, Paulo Portas, Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã. De Pedro Passos Coelho nada. Funciona como uma espécie de apagão de “lápis azul” na imprensa portuguesa o escrutínio sobre o passado profissional do líder do PSD que se candidata a futuro Primeiro-ministro. E afinal que passado.

O tempo veio demonstrar que era mesmo assim e que conhecíamos tudo do passado daqueles e nada do do Passos...



Ferro para Bava...

Granadeiro acabou de chamar mentiroso a Zeinal Bava. Disse no Parlamento que o mesmo sabia do empréstimo à Rioforte.
 "Sobre a aplicação, que cresceu para perto de 900 milhões de euros pouco tempo antes do colapso do Grupo Espírito Santo (GES) e do BES, em julho de 2014, Granadeiro acredita que Zeinal Bava sabia das operações de financiamento à Rioforte e forma esta convicção a partir das declarações de Luís Pacheco de Melo numa reunião da comissão executiva da PT realizada a 10 de julho de 2014. Tinha conhecimento, pelo menos, afirmou."

Uma dose de ferro...só faz bem ao esquecido Bava. E uma estocada destas é bem metida.

Na foto abaixo ( imagem da Tabu de 27.6.2014)  figuram os quatro mosqueteiros que afundaram as empresas onde passaram. O Mexia não afundou? Não. A empresa foi vendida, com ele incluido...
Uma parte da nossa elite empresarial, surgida nos últimos anos, está aqui bem representada.




O 28 de Setembro de 1974, início oficial do PREC vai ser recordado...

Já  por aqui tenho escrito sobre o que foi o 28 de Setembro de 1974, o dia do começo oficial do PREC.
Um dos protagonistas, na altura com 17 anos ( eu tinha mais um...) deu agora à estampa um livro sobre esse acontecimento e que vai ser lançado amanhã, no auditório do colégio Valsassina, em Lisboa.
A notícia e entrevista é do jornal O Diabo de ontem.


Bava com falta de ferro.

Esta crónica de João Miguel Tavares no Público de ontem merece figurar na antologia dos seus melhores escritos. É sobre Bava...e a amnésia que o afecta, indiciando falta de ferro. E cacau a mais...


Manuel Alegre perdeu o processo contra Brandão Ferreira

Já aqui tinha sido noticiado que a primeira instância absolvera Brandão Ferreira, do crime de difamação por ter apelidado Manuel Alegre como traidor pelo que fez na Argélia, durante a oposição ao regime de Marcello Caetano e relativamente aos militares portugueses nas antigas províncias ultramarinas.

Agora, a Relação de Lisboa confirmou o acórdão que pode ser lido aqui.

Aditamento: nenhum jornal de hoje relata a notícia. É coisa sem importância ao lado de outros assuntos de magnitude avaliada pelas direcções editoriais que temos...
A questão de fundo, essa continua a ser relevante enunciar: Manuel Alegre, conselheiro de Estado foi ou não foi um traidor à Pátria? Segundo o tribunal, pode dizer-se que sim, em nome da liberdade de expressão ( que o visado não respeita quando tal lhe não convém, como se pode ler no postal que em tempos coloquei) mas daí à demonstração do facto vai uma distância que ninguém nos media quer percorrer.
Por isso temos as provas e alegações de quem assim o apodou...e basta ler para concluir.
Por mim há muito tempo que concluí que sim.

terça-feira, março 03, 2015

O Público foi sério ou isto já é assim?



O PM Passos Coelho foi alvo da atenção do Público no outro dia, Sábado, com um "destaque" de duas páginas do jornal, assinado por José António Cerejo e um título de primeira página: "Passos esteve cino anos sem pagar contribuições à Segurança Social". 

As duas páginas lá explicavam que Passos  era admnistrador de empresas do grupo Fomentinvest ( de Ângelo Correia que ainda não apareceu na tv mas há-de vir porque aparecem sempre nestas ocasiões, a espetar facas onde calha) e passava recibos verdes pelos serviços que prestou, pelo menos de Outubbro de 1999 a Setembro de 2004. Teria que pagar à Segurança Social, nessa qualidade, uma contribuição mensal correspondente a 25,40% do salário mínimo em vigor. 
Não pagou, como aliás o fizeram dezenas de milhar de "trabalhadores precários pagos a recibos verdes", conforme escreve o jornal.  A Segurança Social deixou correr o marfim, sob a batuta do Edmundo que agora se indigna,  com este comportamento de um primeiro-ministro relapso e não se enxerga quanto à manifesta incompetência que demonstrou  no exercício do cargo que ocupava na altura e que aparentemente ninguém pretende apurar .
Desde Sábado esta notícia do Público tem apresentado desenvolvimentos pontuais, mas apenas acessórios.  Logo na Segunda-Feira, Edmundo, o antigo dirigente da Segurança Social apareceu no Diário de Notícias a lançar as farpas convenientes e mais achas para a fogueira política, afirmando a gravidade do assunto relacionado com a falta de pagamento de meia dúzia de milhar de euros de um contribuinte e desvalorizando olvidando os milhões que se perderam por inépcia e inoperância sua, no exercício do cargo.
A oportunidade da intervenção deste Edmundo, no entanto, deixou-me pulga atrás da orelha, tanto mais que só agora o PSD deu a correr atrás do prejuízo, com uma pileca de um recorte do Tal&Qual, quando o PS já cavalga o assunto com alazão em forma de cavalo de corrida e apoios vários, nas boxes .

O Público que aparentemente desarrincou  a  investigação  nunca referiu o ubíquo Edmundo, o que é tanto mais estranho num assunto  que cada vez mais se aparenta como plantado politicamente pelo PS, com intuitos manifestos de causar dano político ao PM.

Se tal for assim e o Público embarcou nessa campanha política, o que se indicia perante os factos recentes e o recrudescer da polémica político-partidária, a questão que se coloca é a de o jornalismo do Público ser de fretes políticos e portanto com uma credibilidade inerente e uma honorabilidade diminuída. 
O editorial da edição de hoje do jornal é assim:

Depois dos últimos dias envoltos numa nuvem de polémica e tentativas de justificações, Pedro Passos Coelho decidiu jogar todas as cartas e partiu para o ataque. Numa intervenção fortemente aplaudido pelo partido, insinuou que é o PS que está por detrás dos ataques pessoais que têm chegado a público sobre a sua antiga dívida à segurança social. E, numa alusão implícita à detenção do ex-primeiro-ministro José Sócrates, garantiu “ao partidos e aos portugueses”, que nunca usou o cargo político “para enriquecer” ou “fazer favores”. Ou seja, pode ter tido falhas enquanto cidadão, mas “nunca enquanto primeiro-ministro”.

Por outro lado e a realçar o aspecto de pura trica político-partidária que o caso assumiu, apareceu outro caso que envolve o líder do PS, António Costa: 

A notícia do Tal&Qual sobre António Costa que os apoiantes de Passos Coelho fizeram circular nas redes sociais, como estratégia de contra-ataque por causa da dívida do primeiro-ministro à Segurança Social, tem a ver com duas casas compradas pelo socialista no início da década de 90 e a sisa e contribuição autárquica que eram devidas.

A história, agora consultada pelo Observador, foi publicada a 2 de junho de 2000, era António Costa ministro da Justiça do Governo de António Guterres. Segundo o extinto semanário, o agora secretário-geral do PS comprou em 29 de junho de 1990, como comprova a escritura, um T6 em mau estado na Calçada Miguel Pais, em Lisboa, por cinco mil contos, sem recurso a crédito bancário.

A 11 de junho de 1991, pediu um empréstimo ao Crédito Predial Português no valor de 9 mil contos para “obras de beneficiação do imóvel”, tendo dado como garantia o mesmo imóvel que, segundo avaliação feita pelo banco, “ainda sem obras e em apenas 11 meses”, valorizou-se “mais de 80%”, contava o jornal.

No final de 1999, Costa pediu novo empréstimo de 13 mil contos à Caixa Central de Crédito Agrícola Mútuo: 7.550 contos para liquidar o anterior empréstimo e o restante para novas obras. Mas, na escritura de 23 de setembro de 1999, é dito que o empréstimo se destina a “financiar a liquidação de outro empréstimo de igual montante para aquisição de habitação própria permanente“.

“Em que ficamos? O primeiro empréstimo foi contraído afinal para obras ou para a compra de casa? A diferença é obviamente relevante: caso os 9 mil contos tivessem sido aplicados na compra de casa e não em obras, o ministro devia ter pago a sisa que não pagou em 1990 por, então, o limite de isenção ser apenas de 6 mil contos”, escrevia o Tal&Qual.


Entre estes dois casos, o critério editorial do Público vai balançar ou já fez a escolha adequada, por força do aparente frete? 

Mais: como este caso Passos é uma sequela do caso da Tecnoforma, investigado pelo mesmo jornal e jornalista,  torna-se curial indagar se o Público e particularmente o seu repórter de investigação estão de "mãos limpas" neste assunto, ou seja se agiram com espírito jornalístico puro ou pura e simplesmente se deixaram manipular por interesses particulares e políticos de um partido que disputa eleitorado.

Essa questão, para mim, é mais relevante do que saber se Passou ou Costa, em 1999 foram relapsos no pagamento de contribuições e impostos. A credibilidade dos políticos vale o que sempre valeu. A credibilidade de um jornal e particularmente de um dos poucos repórteres de investigação que temos, para mim vale um pouco mais.
Mas arrisca-se, com este caso, a perdê-la completamente.

segunda-feira, março 02, 2015

O roto que ri do esfarrapado

Um tal Edmundo Martinho, escolhido para dirigir a Segurança Social pelo actual reluso 44 e com um currículo invejável em matéria de colocações adequadas, pronunciou-se lá de Genebra, onde se encontra a dirigir qualquer coisa adequada à sua carreira contributiva para a Irmandade do costume.

O D.N. do inefável Macedo dá o devido destaque, assim:

O Edmundo, sempre dirigente de qualquer coisa,  diz que o actual primeiro-ministro, quando era apenas contribuinte "evasivo" entre 1999 e 2004, pecou por omissão indesculpável, pois que a lei é coisa importante para cumprir e esse contribuinte não cumpriu.

Por outro lado, o Edmundo, sem se enxergar, desvaloriza o facto de o Instituto a que presidiu funcionar mal e de modo incompetente, durante o período em que se sentou na cadeira de director. Apesar dos milhões que fugiram por esse modo, devido à sua incompetência premiada com um lugar em Genebra, o Edmundo ainda tem a lata de relegar para o olvido tal assunto que "é pouco relevante"...
Vendo estas coisas, conclui-se que o "dossier" que os serviços especiais do PS arranjaram para entalar o actual primeiro-ministro em ocasiões críticas como esta ( a desgraça do Costa tem sido oferecida pelo próprio, de graça...) é muito fraquinho. Nem com os media à trela escondem o cheiro nauseabundo que chega a conta-gotas dos lados de Évora. 

domingo, março 01, 2015

O PS do costume...e as diversões de sempre

  Observador:

Para a vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS, "o primeiro-ministro falhou, porque sabe - como todos os portugueses sabem - que é obrigatório o pagamento à Segurança Social", classificando o comportamento do governante de "inaceitável". 
Esta posição foi assumida pela vice-presidente do Grupo Parlamentar do PS Ana Catarina Mendes, depois de o jornal "Público" ter noticiado no sábado que, entre outubro de 1999 e setembro de 2004, Pedro Passos Coelho acumulou dívidas à Segurança Social, tendo decidido pagá-las voluntariamente em fevereiro, num total de cerca de quatro mil euros.

Acho muito bem. Agora que só se fala do Costa e das gaffes do Costa, Passos deve explicar porque foi igual a milhares de portugueses que nos idos de 1999 não fizeram descontos para a Segurança Social, prejudicando-se a eles mesmos nessa  medida. Actualmente, em 2013 ( lei de Passos Coelho...), uma vez que se sabe que os descontos para a SS também afectam os que nunca descontaram, tal prática tornou-se crime, uma vez que a Segurança Social é para todos, mesmo os que nunca descontaram um chavo.  Ou seja é preciso contextualizar e compreender o que se passou à luz das regras de então.
Naquela altura de 1999 era Ministro do  Equipamento e depois do Ambiente, o actual recluso 44. O Ministro do Trabalho era Paulo Pedroso, o indivíduo que supostamente é casado com a tal vice-presidente e arranjou recolhimento no ISCTE, depois de tudo o que se sabe.
O que se passou a seguir com estes indivíduos foi de tal modo escandaloso, criminoso e atentatório do regime democrático que se torna igualmente escandaloso e despudorado que a suposta mulher do dito Pedroso tenha a distinta lata e topete de falar como fala e nunca tenha  deixado de deputar ou que tenha pedido ma AR idêntica indagação sobre "os seus".  Hipócrita? É pouco, porque vai um pouco mais além e os portugueses não são parvos nem andam a dormir na forma.

Portugal está como está, devido a estas pessoas com este tipo de índole moral. O estratagema é o de sempre: aproveitar um fait-divers, transformá-lo em escândalo e surfar a onda mediática que aliás ajuda porque foi daí que proveio.
Quanto aos factos, designadamente aos crimes do recluso 44- por exemplo o que já se encontra suficientemente indiciado acerca da fraude fiscal e à mesma Segurança Social, relativamente ao modo como remunerava o motorista Perna, isso não lhes interessa nada. É como se não existisse porque o recluso 44 como se sabe está "inocente"...

Quanto ao facto de estas coisas da Segurança Social relativamente a um contribuinte se tornarem públicas, isso não interessa para nada também. Interessa é a violação do segredo de justiça no processo do recluso 44 que como toda a gente sabe, por ter sido proclamado por aqueles que agoram violam o sigilo fiscal, é uma grande vergonha e de que é responsáveo principal o juiz de instrução, o tal que se deve cuidar...
Quanto ao jornalista que desarrincou esta grande notícia sobre "o Passos", o mérito deve ser todo dele que aproveitou esta violação de sigilo para brilhar como grande repórter de investigação...
Se em Portugal houvesse uma espécie de Pulitzer, o prémio já estava atribuído, até porque não há mais ninguém a fazer o mesmo. A vida custa a todos...

O patriotismo verdadeiro e a esquerda comunista

Observador:

Falar de descolonização implica falar de militares. E nos anos de 1974 e 1975 falar das Forças Armadas portuguesas implica falar do “batalhão em cuecas”. Ou seja dos sons, das imagens e dos testemunhos sobre as humilhações a que, na Guiné, Moçambique e Angola, estavam ou poderiam vir a estar sujeitas algumas unidades militares.

Entre as explicações que os militares e líderes políticos com responsabilidades na descolonização têm dado para a forma como esta foi feita, conta-se invariavelmente a referência à influência dos jovens radicais que gritavam em Lisboa “Nem mais um soldado para as colónias”. Mas na verdade o problema não foram estas manifestações, por mais que elas tivessem irritado as chefias militares.

O problema é que, como em Lisboa bem se sabia, seria até preferível que os soldados já não partissem para as colónias: quebrada a cadeia hierárquica de comando, os militares protagonizam em África episódios que, para bem das Forças Armadas, Portugal não devia conhecer. Para os políticos e chefias militares que falharam no seu imaginário de libertadores, o “batalhão em cuecas” funcionou como derradeiro argumento desculpabilizador. Nas mãos daqueles que em 1974 e 1975 aplicavam à prossecução dos seus objectivos ideológicos o que tinham aprendido nos manuais militares de acção psicológica, o “batalhão em cuecas” foi uma notável peça táctica.

Depois de terem querido manter o império e feito cair o regime, as Forças Armadas portuguesas começavam um combate que as levaria a uma sucessão de golpes e contra-golpes. E nesse combate valeu quase tudo. De Cabinda em Angola, a Omar em Moçambique, após o 25 de Abril de 1974, as Forças Armadas portuguesas lutaram impiedosamente. Contra si mesmas.


Esta pequena passagem do texto de Helena Matos sobre um aspecto da "descolonização exemplar" dá azo a que se mostre que Portugal e os portugueses não foram todos militates em cuecas durante a guerra no Ultramar. Quem os pôs de cócoras, em primeiro lugar foi a esquerda comunista, com grande destaque para o PCP e também a esquerda democrática do PS e satélites como o MES, com o total apoio do MFA dirigido na altura por militares destrambelhados, como Otelo Saraiva de Carvalho ( o qual tendo dito recentemente que Salazar afinal teve méritos, já ninguém o quer ouvir...) ou simples idiotas úteis, cujos nomes escuso de escrever.

Por isso mesmo importa refazer a imagem histórica mostrando o lado da História que agora não se conta, porque o tempo ainda não está maduro. Quem se atreve a desviar da rota da História politicamente correcta é logo apodado de "fascista" ou saudosita ou reaccionário.

Para começar, uma entrevista com um militar, patriota dos verdadeiros e guerreiro de fibra: Kaulza de Arriaga. A entrevista foi publicada no Observador de 5 de Novembro de 1971 quando KA era o comandante dos portugueses na frente de guerra em Moçambique.


O generak Kaulza de Arriaga foi preso em 28 de Setembro de 1974 porque era um dos perigosos "fascistas" e nessa condição ficou até 21 de Janeiro de 1976.
Em 1987 publicou um livro que intitulou "Guerra e Política- em nome da verdade os anos decisivos" que mais logo conto publicar por aqui alguns excertos...

O livro do general Kaulza de Arriaga foi publicado em 1987, dez anos depois de o mesmo ter instaurado uma acção nos tribunais administrativos que acabou por lhe dar razão. Como aqui se explica:


 







Como é que hoje se lida com estes assuntos? Simples: Kaulza é um "ultra" ou seja um fascista retinto que nem merece consideração pessoal de espécie alguma e está o assunto resolvido.

Por outro lado, o Correio da Manhã anda há meses a publicar no suplemento dominical Domingo duas páginas de testemunhos pessoais de antigos combatentes na guerra do Ultramar. O modo como o faz é muito parecido ao que antigamente a revista Observador fazia, com uma linguagem sem grandes tergiversações novilinguísticas e não se lêem barbaridades com os chavões de linguagem da esquerda comunista. Os depoimentos são geralmente na primeira pessoa, por quem protagonizou e viveu esse tempo.
Hoje por exemplo, traz este depoimento:



sábado, fevereiro 28, 2015

"Situação moral da Europa" em 1900

Da Paródia de 7 de Março de 1900, uma caricatura sobre diversos países europeus. A História da Europa também se pode aprender assim. Vasco Pulido Valente anda a escrever sobre essa História, alguns anos antes...
Para o caricaturista de então, Portugal ia a reboque da Inglaterra, com Lusíadas e tudo. E agora?


sexta-feira, fevereiro 27, 2015

Impostos: a Paródia de 1900 repete-se agora

No número de 4 de Abril de 1900, o jornal satírico A Paródia tinha esta caricatura sobre os impostos em Portugal, em comparação com outros países.

Cento e quinze anos depois, parece que não mudou muito...apesar de um interregno de mais ou menos quatro décadas, quando o regime de Salazar e Caetano mandava no Orçamento de Estado e a Constituição impunha o seu equilíbrio efectivo.
Há muita gente que não sabe nem quer saber disto.


quarta-feira, fevereiro 25, 2015

Entrevista da PGR com uma nota importante

Observador:

A procuradora-geral da República (PGR), Joana Marques Vidal, admitiu esta terça-feira em entrevista à Renascença e ao Público, que existe “uma rede que utiliza o aparelho do Estado e outro tipo de aparelhos da Administração Pública para realizar atos ilícitos”, muitos na área da “corrupção”.

Desafiada a comentar sobre uma eventual crise de regime, depois de vários casos de corrupção terem sido tornados públicos envolvendo, alegadamente, altos quadros da classe político-económica do país, Joana Marques Vidal começou por dizer que não lhe competia “fazer análises de regime”, mas admitiu que existe uma rede de corrupção instalada no Estado. Mais: a PGR apontou as áreas da “Saúde e da contratação pública” como os terrenos mais férteis onde germinam este tipo de casos.

Esta parte da entrevista da PGR é a mais interessante porque revela algo importante: há neste momento a percepção de que a corrupção em Portugal é algo assinalável, preocupante e de vulto. O antigo PGR e a antiga directora do DCIAP andaram anos a desmentir este estado de coisas que tinham a obrigação estrita de percepcionar.
O caso do antigo PGR ainda é mais lamentável porque era amigo de quem o nomeou para o cargo e encontrou-se com ele na véspera de o mesmo ser preso por corrupção. Disse depois na televisão ( incrível e que denota o poder real) que foi apenas para falar de livros e viagens...e se calhar ficou a pensar que toda a gente acreditou.
A antiga directora do DCIAP disse recentemente que foi uma surpresa o que aconteceu agora ao antigo primeiro-ministro, apesar de ter sido informada da existência de contas off-shore em nome de familiares do mesmo e movimentando centenas de milhões de euros, relativos a acções de empresas nacionais, o que originou um inquérito que foi mais rapidamente arquivado do que levou tempo a abrir.

É sintomático que a actual PGR tenha dito com precisão que a corrupção se situa essencialmente nas áreas da "Saúde e da contratação pública".

Saúde tem a ver com aquisições de material e com o papel da administração pública, mormente dos presidentes das ARS. Os que mandam na ARS de Lisboa e Vale do Tejo estão aqui identificados. E em tempos já se escreveu aqui sobre o assunto, a propósito de uma notícia do Correio da Manhã de 1 de Março de 2013.

Assim:

"Um indivíduo com 57 anos, médico do Porto, exerceu "vários cargos de chefia" no hospital de S. João, no Porto. Parece que até foi assistente universitário de um das cadeiras do curso. Entre 2003 e 2008 foi presidente do INEM e quando Ana Jorge ( PS) era ministra ( num dos governos de José Sócrates) foi consultar para o ministério, até 2011. O quê? Não se sabe por enquanto porque o jornal não diz. Mas pelo caminho que a investigação jornalística leva, um dia destes ainda viremos a saber. Desde Outubro de 2011 o mesmo indivíduo ( na foto) é presidente da Administração Regional de Saúde. Um gestor do Estado. Não é público: é do Estado que é mais precioso.
O mesmo administrador, que é do Porto, quando era presidente do INEM, arrendou uma casa em Lisboa, em 2004. Onde? Começam as coincidências...
Foi no mesmo prédio da rua Braamcamp, onde José Sócrates e a mãe compraram uns magníficos apartamentos a preços convidativos, segundo foi  notícia de época, ( embora haja quem jure que não, como Herman José que também lá comprou e que jurou terem sido pelos preços certos. Não se sabe muito bem é a quem, com precisão de nomes, mas isso já lá vai). Seja como for, o apartamento arrendado pertence a uma empresa- a Convida, investimentos turísticos e imobiliários- administrada por um certo Paulo Castro. A empresa terá accionistas mas são secretos. O contrato de arrendamento, esse, também é porque ninguém quis dizer ao jornal quanto paga de renda o tal administrador que agora é director da ARS-Lisboa e Vale do Tejo. E quem é o tal administrador da Convida, Paulo Castro?
Ora, é o administrador da empresa Octapharma, em Portugal. A mesma que empregou José Sócrates como caixeiro-viajante para os affaires da América Latina. A mesma que em Portugal domina o mercado do plasma hospitalar e os milhões que movimenta, com uma quota de 60 a 80% do mesmo.
Portanto, resumindo ainda mais: O administrador da Octapharma, Paulo Castro, é também administrador de uma empresa imobiliária cujos donos não se conhecem e que arrendou um apartamento a um funcionário público de luxo, enquanto presidente do INEM, em 2004, consultor do Ministério da Saúde entre 2008 e 2011 e agora presidente da ARS.
A explicação para esta coincidência é dada pelo mesmo administrador da ARS: conhece Paulo Castro há um ror de anos e...são amigos."


Como então se escreveu, o gestor do Estado não é suspeito de nada em especial. Repesca-se o escrito de então:

 Ora bem e falando sério: é preciso saber o que consultou Luís Cunha Ribeiro, desde 2008 a 2011, no Ministério da Saúde. Exactamente o quê e porquê. Onde colocou o nome assinado, onde interveio como consultor, quando ganhava pelo tacho etc etc.
Depois disso é preciso saber que tipo de relação de amizade pode justificar um contrato de arrendamento de um apartamento, por coincidência no mesmo prédio em que também estava a morar o primeiro-ministro de então, feito a uma empresa que era administrada pelo responsável, em Portugal , de uma multinacional farmacêutica que em 2008 conseguiu vários milhões de euros de negócios com o Estado e o ministério da Saúde em particular, onde aquele inquilino era consultor ( mas o que é que consultou, santo Deus? Pode saber-se, ao certo?).
Tudo isso por uma razão que é importante explicar: um gestor do Estado não deve aceitar viver num apartamento que arrendou a um amigo que é simultaneamente interessado em grandes negócios com o mesmo Estado e em que aquele inquilino está em posição de eventual conflito de interesses.
Para já o assunto é meramente ético. Depois, se o jornal descobrir mais coisas, logo se vê.
Evidentemente, eticamente isto é uma grande vergonha. Para quem a tem, naturalmente.

Ah! Já me esquecia: o senhor não tem condições nenhumas para continuar a ser presidente de ARS alguma.

E agora acrescento: depois destes meses todos, parece-me que o senhor em causa ainda menos razão tem para se manter no cargo que ocupa.  Perante o que disse a PGR é essencial que a transparência seja mesmo isso: transparente e clara. 

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Em busca de um fascismo perdido

No outro postal disse que nunca tinha dado pela palavra "fascismo" como designativo do regime anterior, antes de 25 de Abril de 1974 e que só daí a alguns dias, poucos, começou a aparecer na imprensa. Seria interessante que alguém se desse ao trabalho de ver as imagens televisivas do dia 25 de Abril até ao 1º de Maio desse ano para perceber a mutação linguística e semântica.

Não obstante, fui ver como se escrevia na imprensa da época anterior ao 25 de Abril relativamente aos fenómenos que nos eram familiares, como a guerra no Ultramar ou simplesmente a televisão, um bom barómetro do ambiente  intelectual da época, em geral, como hoje provavelmente não será- ou será na mesma...

No início dos anos setenta comecei a comprar jornais ( antes tinha-os de borla porque o meu avô tinha uma mercearia e comprava pacotes e pacotes de jornais usados para embrulhar mercadorias e eu passava horas e horas a escolher os que me interessavam- e guardei-os todos...) e o Diário de Lisboa era o que me interessava mais pelo aspecto gráfico, tal como o Diário Popular me interessava em determinados dias da semana, por exemplo à Quinta-Feira porque tinha um fabuloso suplemente literário.

Assim, no D.L. de 2 de Janeiro de 1972 o crítico de televisão Mário Castrim ( um comunista que eu ainda nem sabia que o era e escrevia como eu gostava de ler)  tinha uma crónica de balanço do ano cultural, em Portugal. Esta:

As primeiras frases gritam em silêncio para dizer o que então não se podia: denunciar o regime como repressor ( "fascista")  e que obrigava os comunistas a fugirem do país, tal como os desertores. Nem estas palavras seriam escritas na altura se pudessem ter sido escritas, por um motivo: para Castrim, os desertores eram heróis na luta contra o "colonialismo" e os fugitivos comunistas os verdadeiros patriotas que apenas queriam que fôssemos como a pátria de Estaline...
Portanto, um duplo equívoco: Castrim não podia escrever livremente o que verdadeiramente queria dizer, mas se o pudesse nunca escreveria a verdade nua e crua, porque envolta na fantasia dos "amanhãs a cantar". Era e continua a ser este o drama dos comunistas que ainda hoje não podem escrever livremente nos jornais o que verdadeiramente lhes vai na alma. E não há censura nos dias de hoje, como então havia. Há outra coisa: as pessoas comuns, agora como dantes, não compram a ideologia comunista fossilizada como é a do PCP e quejandos esquerdismos, como o de Louçã, se a mesma for proclamada com toda a clareza do que os seus próceres pensam mas não dizem.  Foi esta mentira permanente que justificou a censura no tempo de Salazar e Caetano.

E que fazia Castrim ( e outros) para contornar a proibição de chamar ao regime " fascista" e dizer "colonialismo" e apelidar de "reaccionário" quem não pensasse como eles?  Contornava a linguagem e fazia de conta que contava fábulas. Algumas vezes isto resultava em pequenas obras-primas, mas nunca saiu daí nenhuma obra-prima de vulto porque os escritores de então, descobriu-se afinal, nunca escreveram para a gaveta por causa de censura alguma. Intrujaram durante algum tempo mas não o tempo todo.
Outra surpresa nesta escrita de balanço e que valeu ao Castrim sérios incómodos dos ortodoxos do "partido": diz muito bem de José Hermano Saraiva, um salazarista de sempre e que sempre foi o mesmo até morrer, honra lhe seja feita. Por causa de um programa de TV que se prolongou por décadas.

No Diário Popular do mesmo dia 2 de Janeiro de 1972 também há um balanço, igualmente televisivo no qual desponta um pequeno eco de um fascismo perdido.


No questionário proposto a meia dúzia de leitores, avulta a resposta de Eduardo Prado Coelho, o Eduardo PC, já falecido. Dizia o semiótico em modo semântico que " não suponho possível uma transformação dos programas de televisão sem uma transformação das condições sociais, económicas e ideológicas que neste momento, nos condicionam." Ou seja, venha o comunismo e depois conversamos...dito de um modo perifrástico.
Outro comunista vindouro, Correia da Fonseca, era mais modesto: só queria meia hora de telejornal "novo e diferente ", coisa que só dali a uns meses teria e que lhe terá concedido a relativa felicidade almejada.

Era este o limite imposto pela linguagem permitida: não discutir o regime em moldes revolucionários ( porque era disso mesmo que se tratava). Portanto, o regime ao condicionar e proibir tal revolução tornava-se naturalmente...fascista.

Ora foi isso mesmo que ficou escrito no Diário de Lisboa, em 20 Julho de 1973,  já dirigido por A. Ruella Ramos que nos meses a seguir ao 25 de Abril se transformou num dos maiores paladinos do PREC e pôde então dar largas à frustração de não ter podido chamar fascista ao regime, no tempo próprio, passando depois a designar o mesmo como "ditadura fascista" ou simplesmente "fascismo", termo que pegou de estaca na linguagem de trapo comunista.


No apontamento de reportagem de Londres assinado em telex por Joaquim Letria ( esquerda pró-comunista, então, mas com nuances porque estava em Inglaterra e lá não havia partido comunista por causa de Estaline, Hungria e Checoslováquia, entre outros fenómenos que por cá nem se conheciam bem), o mesmo repórter assinalava a propósito da visita de Marcello Caetano a Londres: "Por outro lado, jornais e tv continuam a referir-se à história de Wiriyamu e uma fonte da embaixada disse que havia o perigo de Portugal passar a ser conhecido apenas pelas características que esta onda de acusações lhe apontam: um Estado fascista que mantém uma guerra colonialista onde chacina nativos".

Tal e qual e o Exame Prévio deixou passar porque comprei este jornal no dia em que saiu. Assim, poderia ter lido as três grandes pechas do regime: fascista, colonialista e racista.
Quem é que apelidava o regime de Caetano desse modo? Letria dizia que era um anónimo da embaixada. Comunista, pela certa, mas letria nunca o iria dizer...

Quem ler os apontamentos de reportagem que a revista Observador fez dos mesmos acontecimentos em Londres fica a saber mais e nunca leria este tipo de "telex" sem citação concreta da fonte ideológica de onde proveio. Já por aqui foi mostrado e permite entender como é que o Exame Prévio de Marcello Caetano tinha um equivalente mais subtil e com poder igualmente capador: o comunismo censura efectivamente tudo o que não lhe convém ideologicamente e faz questão disso mesmo, sem qualquer pudor, ao mesmo tempo que vitupera a Censura nos regimes que não lhe permite a propaganda livre e subversiva, como era o caso de Portugal com três frentes de guerra.

Por isso mesmo, a linguagem usada nos jornais de esquerda da época, ou era cifrada do modo explícito, sofrendo em silêncio a possibilidade de proclamar bem alto os amanhãs a cantar ou então era simplesmente obliterada por inconveniente, censurando de igual modo a verdade subjacente.

Quanto ao resto, ou seja, o ambiente geral que se vivia em Portugal no ano de 1972, nem sombra de fascismo no que se escrevia ou lia, nem vestígios de ódio militante. Apenas firmeza de princípios, políticas coerentes e prevenção da subversão comunista revolucionária, preocupação principal do regime que acabou por ser a sua maior derrota.
E isso é que se torna estranho porque nem a  mutação linguistica e semântica o explicam. Principalmente por causa disto que se podia ler na última página do Diário de Lisboa de 10 de Outubro de 1972:

Um Estado fascista não dá protecção social e previdência a mais de metade da população. Isso é típico da social-democracia...mas suponho que nenhum esquerdista comunista o reconhecerá.

A respeito de Portugal e do antigamente

O jornal ( fascista para o comunismo, incluindo o syriza) O Diabo,  de hoje tem esta capa:

Em duas páginas assinadas por Nuno Alves Caetano ( não sei quem é nem tenho referências mas está  no Facebook que também não tenho) o jornal retrata um país que antes de 25 de Abril de 1974 estava em franco crescimento económico, com desenvolvimento como agora se diz, "sustentado".
Não se faziam coisas à toa, havia mérito nas escolhas de quem governava e o povo em geral percebia as escolhas de quem mandava, mesmo com censura e repressão política da esquerda comunista.

Nessas duas páginas com factos e números que não aparecem noutros jornais ( esquerda em geral oblige) questiona-se a gestão da coisa pública nos últimos 40 anos com factos irrefutáveis: quase três bancarrotas consolidadas e evitadas in extremis à custa de muitos sacrifícios que agora são criticados por aqueles que os provocaram directamente, como sendo a famigerada "austeridade" e o "empobrecimento".
Ainda ontem, um Francisco Louçã, no Prós&Contras em que se falou da Grécia foi interpelado para explicar qual a alternativa que oferece quando se sabe que a esquerda que representa não vingou em lado algum do mundo e foi-lhe apontado que apresentasse um único exemplo de país onde tal sucedeu, para além da Coreia do Norte, de Cuba e da Venezuela ( e agora a Grécia a ameaçar o mesmo). Não respondeu e tergiversou dizendo que  Portugal é Portugal e não copia modelos externos.
Não? O interlocutor não lhe ocorreu aterrá-lo com esta citação de uma entrevista do mesmo Louçã.,   em 2012, ao Público ( José Manuel Fernandes, igualmente presente no programa também não se lembrou...):
 Público- Hoje continua a ser um revolucionário?
 F. Louçã- Sou socialista. E sou contra o capitalismo. O socialismo para nós, é um projecto anticapitalista, com todo o gosto pelas palavras e com toda a clareza."

Portanto, como mostra a revista Observador de  19 de Março de 1971, havia já um plano para construção das auto-estradas que não tínhamos ( a Alemanha tinha cerca de 4000 km, mas a Grâ-Bretanha só tinha mil) e com certeza executável porque era assim mesmo naquele tempo: fazia-se tudo com pés e cabeça e de modo sustentado.
Estas auto-estradas previstas para a meia dúzia de anos a seguir a 1974 só foram construídas vinte anos depois...algumas delas, e com ajuda dos fundos estruturais da então CEE. E com a corrupção que se conhece nas PPP´s mas ainda não se apurou penalmente.
A Mota-Engil neste plano? Ainda não existia porque era uma empresazeca de Amarante. O BES? Ainda não contava...


Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso