Observador:
Ricardo Soares de Oliveira estudou a Angola do pós-guerra civil. E conta-nos num livro fundamental como a actual oligarquia acumulou poder e riqueza e viu Portugal render-se ao poder dos seus dólares.
Ricardo Soares de Oliveira, 37 anos, professor de Política Comparada na Universidade de Oxford, acaba de publicar um livro em que analisa a trajectória de Angola desde 2002. Magnificent and Beggar Land. Angola since the Civil War (Hurst, 2015, 288 pp.). Conversámos com ele acerca de alguns dos assuntos aí abordados, desde os contornos do sistema de poder nesse país às idiossincrasias da relação luso-angolana, bem como sobre as consequências que são possíveis de antever em função da descida do preço do petróleo nos mercados internacionais, o principal (se não mesmo único) motor da economia angolana.
Como é que Portugal se rendeu aos dólares angolanos, agora mostrada por um angolano residente no exterior, como um puro regime cleptocrata?
É simples de explicar: ao invés do sempre execrado fascismo que os media afiançam sempre que tivemos por cá, durante a "longa noite" de 48 anos, antes de 25 de Abril de 1974, Angola é mostrada como um país que sofreu uma guerra civil e agora está a tentar retomar a democracia plena.
Quem é de lá e não tem tais preconceitos vê o que todos vêem e se recusam a admitir: uma cleptocracia em que um número muito limitado de cidadãos tem todas as riquezas enquando a maior parte dos vinte e tal milhões de habitantes passam misérias e eventualmente fome.
A esquerda mediática nacional, de resto, acompanha a visão de real politik que é a dos governos que temos. A complacência é absoluta e a hipocrisia ainda mais.
Um exemplo? O Público de hoje dá o destaque de duas páginas a uma figura que é coleccionador de arte e ao mesmo tempo marido de Isabel dos Santos que dispensa apresentação.
A explicação prática para o regime angolano aparece no fim da entrevista...